Capítulo Nove

Alguém chamava insistentemente à porta. Já que Sasuke estava ocupado tratando de imaginar como fazer algumas pipocas na cozinha, Sakura foi abrir. Ficou impactada ao encontrar Kiba do outro lado da soleira.

-Kiba! Q-que está fazendo aqui? - tirou uma mecha de cabelo de seu rosto para ganhar um segundo para tranquilizar-se. Esse era o homem com quem tinha esbanjado os últimos quatro anos de sua vida. O homem a quem tinha dado seu amor e sua inocência. O homem que a tinha abandonado.

-Sakura. É bom ver-te outra vez. - Seus olhos café escuro percorreram sua figura com lembrança possessiva. - É tão bela como recordava. Posso entrar uns minutos?

Sakura olhou sobre seu ombro em direção à cozinha. Ouviu uma panela bater no fogão, um "Ai!" seguido de umas quantas palavras resmungadas em uma língua estranha que soava como uma maldição, e depois o milho começando a abrir-se de repente com um pequeno som explosivo.

-Eu... Suponho que estaria bem por uns poucos minutos, mas realmente não acredito que tenhamos muito do que falar, Kiba.

-Simplesmente me escute... Isso é tudo o que peço. - Ele a olhou suplicante.

Apesar de ser um rato de primeira classe, era, entretanto um homem muito bonito pensou Sakura, abrindo a porta para deixá-lo entrar. Era assombroso como nada do sofrimento que lhe tinha causado se refletisse na cara masculina. Talvez tivesse um retrato especial em seu apartamento de cobertura que esboçasse o Kiba real em tecido. Havia só uma coisa que queria ouvir de Kiba Inuzuka: Por quê? Por que, depois de quatro anos, tinha tido ele que abandoná-la, deixando-a em uma situação tão difícil?

Kiba entrou silenciosamente na sala. Sakura fechou a porta, sem perder tempo em lhe perguntar:

-Por que o fez?

Kiba abriu a boca para responder justamente quando Sasuke entrava tranquilamente na sala levando uma tigela cheia de pipocas. Ele se deteve, cravando os olhos em Kiba com curiosidade. O olhar que o outro devolveu foi muito mais hostil.

-Quem é ele?- sacudiu com força seu polegar em direção ao Patrulheiro.

As narinas de Sasuke se abriram ligeiramente ante o gesto ofensivo.

-Sou Sasuke. Pergunte a mim se quer sabê-lo.

Sakura podia ver pelo estreitamento leve dos olhos de Sasuke que Kiba não lhe tinha caído muito bem. Rapidamente deu um passo entre os dois homens. Quão último necessitava nesse instante era uma cena. Pelo enrijecimento das orelhas do ex, era necessário pensar em algo para controlar imediatamente a situação.

-Sasuke é um... Primo distante. Ele esteve me ajudando com o negócio... - perfurou Kiba com um olhar afiado -... Desde que fugiu - Surtiu efeito; Kiba deu meia volta incômodo com o aviso sobre seu deplorável comportamento.

-OH - Kiba dirigiu-se a Sasuke, estendendo seu braço para o aperto de mãos tradicional.

Sasuke olhou para baixo, na mão estendida, logo acima aos olhos do visitante. Estudou-o por vários momentos carregados de tensão. Decidiu ignorar o gesto de falsa cordialidade do homem. Voltando as costas ao molesto intruso, desabou-se pesadamente em uma poltrona, levantou seus pés em uma almofada, e começou a comer ruidosamente suas pipocas. Sakura escondeu seu sorriso detrás de sua mão. Sasuke era um homem muito perceptivo. Kiba observou o outro moreno por um minuto cheio de incredulidade. Finalmente, voltou-se para Sakura.

-Olhe, poderíamos ir a algum lugar para conversarmos?

-Há uma cadeira vazia aqui o suficientemente grande para ambos - Sasuke bruscamente inclinou a cabeça em direção ao sofá, sem deixar de fazer estalar as pipocas em sua apertou os dentes.

-Quero dizer, em particular.

-Isto é o suficientemente privado - Sasuke soou inflexível. Sakura tragou.

-Por que não nos sentamos aqui?- Ela se sentou rapidamente. Sem alternativa, Kiba se uniu a ela no sofá.

-Queria tentar te explicar... Por que fiz o que fiz.

-O que te aconteceu Kiba? Como pôde...? - Ela se deteve, incapaz de seguir. Kiba colocou a mão em seu braço, apertando amavelmente a pele suave em um gesto de fingida simpatia.

Sasuke os observou muito cuidadosamente. Por alguma razão, não gostou que esse homem tocasse Sakura; não era como se o homem estivesse sendo excessivamente atrevido, tentando um prelúdio para conectar-se, mas mesmo assim... Os dedos de Kiba acariciaram o braço da jovem enquanto começava a falar. Observou o movimento lhe acariciando. Não, não gostava disso absolutamente! Inclinou-se para frente, deu um empurrão na tigela de pipocas sob seu nariz.

-Prova uma. - Kiba apartou com força a tigela.

-Está prestando atenção? Trato de ter uma conversação - Ele se voltou para rosada outra vez - Tive um problema, Sakura. Queria lhe contar tudo isso, mas não me atrevia a fazê-lo.

Ela nunca tinha esperado esse tipo de confissão. Kiba sempre tinha repugnado saber que alguém pensasse que era menos que perfeito. O que podia significar que dizia a verdade.

-Que tipo de problema?

-Apostas. Eu... Quando comecei, não foi tão mau. Umas poucas apostas aqui e lá, os cavalos, os cães, você sabe como é. - Não, ela não sabia. - De qualquer maneira, é algo... Que saiu fora do meu controle. Comecei a pegar dinheiro emprestado do negócio, mas nunca soube por que sempre o reintegrei antes que se inteirasse. Então...

-Então alcançou um ponto onde não podia mais fazê-lo - Ela terminou por ele. Não era de estranhar, até com todos seus contratos lucrativos, que nunca lhes parecesse dar lucro ao final do mês. - OH Kiba, por que não me disse?

-Eu... Não podia. Contraí dívidas com alguns sócios, muito dinheiro. Eu... Ah, pedi emprestado tanto como podia do banco, logo o efetivo dos cartões de crédito. Sinto muito, Sakura. Não havia nenhuma outra coisa que pudesse fazer.

-Kiba... - os olhos de Sakura se encheram de lágrimas. Kiba tomou-lhe as mãos.

-Ficou tudo para trás agora, doçura; paguei as dívidas e eu... - Sasuke tinha ouvido suficiente.

-Este é o homem que te machucou profundamente, não é verdade Sakura? O homem que te deixou sozinha para sofrer por ti mesma? Que nunca se ocupou de seu bem-estar depois de que te deixou? - Sakura fechou os olhos, logo os abriu.

-Ele está certo, Kiba. Porque é verdade... Se tinha problemas, deveria ter vindo a mim, não devia ter me deixado de fora.

-Não podia fazê-lo. Sakura; quero voltar... - Ela negou com a cabeça.

-Tudo terminou quando saiu por essa porta, Kiba.

-Ainda te amo Sakura.

Sasuke levantou-se. Definitivamente tinha ouvido suficiente.

-Então é muito azarado. Perdeu seu direito a esta felicidade quando a maltratou. Em todo caso, ela não te ama, não é verdade, minha Escolhida? - Ainda assim, ele não esperou sua resposta - Nem nunca te amou verdadeiramente. Pode ir agora.

A boca da rosada se abriu em um ofego. Não estava segura se deveria recriminar Sasuke por intrometer-se onde não lhe correspondia ou concordar com sua precisa observação. Ele tomou seu silêncio como toda a confirmação que necessitava. Enfrentou Kiba outra vez.

-Possivelmente não me ouviu... Eu disse, pode ir agora.

O olhar de Kiba passou de um à outra.

-"Primo"- cuspiu - Sim, como não.

Saiu violentamente, batendo a porta atrás de si.

-Há um dito de onde venho, Sakura: 'Adeus e que te leve um vento escuro'. Acredito que tem aplicação aqui.

Sakura, a contra gosto, assentiu. Recolheu a tigela de pipocas e se voltou para a TV. Sasuke se sentou a seu lado no sofá, colocando a mão na tigela de vez em quando para agarrar um punhado. Ele aceitou seu silêncio em muitos níveis.