Lembrem de dar reviews, ein ;D? Obrigada por acompanharem a história.

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CAPÍTULO 9

O príncipe havia cumprido sua promessa dessa vez.

Ele até ficava um pouco admirado com isso. Milliardo Peacecraft se dera ao trabalho de olhar para ele e não gostar do que via.

Lembrava do rosto compenetrado do príncipe, que ficara desconfortavelmente próximo do seu. Suas sobrancelhas haviam se curvado, deixando marcas profundas na sua testa, e seus lábios ficaram finos de tão apertados um contra o outro. Reconhecia a raiva naquela expressão, mas entendia que o príncipe não estava com raiva dele, como Duo achava que devia estar, por dar tanto trabalho. O príncipe era mesmo imprevisível, e a cada gesto de "bondade" Duo ficava mais e mais incomodado, tentando descobrir o que era realmente.

Milliardo - e ele havia ousado chamá-lo de Duo, então não ia mais pensar no príncipe daquele jeito, como príncipe, porque eles eram iguais - arranjara um quarto para ele. Ele ordenara a desocupação de um depósito, e como bons soldadinhos, todos os seus homens correram para atender ao que ele havia mandado. Duo não tinha mais nada, só um colchão, mas já era bem melhor do que passar as noites em claro.

O conhecimento de que Milliardo ouvira ele a noite fazia-o querer morrer. O chão bem podia, sei lá, abrir e engolir ele. Quando o príncipe olhou para ele daquele jeito superior, tão típico da realeza, e declarou que ele não precisava mais ficar assustado, Duo não pode evitar o pensamento. Milliardo não falara nada, mas ele sabia que Duo havia soluçado todas as noites, e se mantido acordado, porque ele não podia confiar na presença fora do quarto - a mesma presença imbutida toda dentro dele. O mesmo cheiro nos lençóis e na cama…

Era vergonhoso, ele não era fraco assim. Ser forçado a admitir que não desejava aquilo para Milliardo Peacecraft era o pior de tudo. Agora, não dormia pela consciência pesada pela vergonha e pelo questionamento de toda aquela boa vontade.

Duo acreditava que ela só podia ser falsa. Duo não conhecia o homem, mas sabia como eram príncipes. E sabia como era ele mesmo - alguém que não mentia, mas manipulava - e se ele era assim, por que Milliardo Peacecrat não seria?

Gentileza. Até parece.

Ele permaneceu na dúvida por dias, até Milliardo se aproximar dele numa tarde.

- Terminamos.

- Como assim terminamos? - ele perguntou inquisitivo, porque Milliardo convencera Treize a ir embora e só estavam os dois ali. Justificava todos os gracejos com sua desconfiança. O que quer que Milliardo tivesse em mente, merecia o pior que Duo podia lhe dar.

Aquela situação de conforto em que se encontravam quando não havia ninguém por perto era muito estranha, ele não negava. Milliardo era completamente diferente de qualquer pessoa que já conhecera. Ao invés de responder às suas provocações ou cortá-lo, Milliardo somente aceitava complacente, como se achasse que era tudo verdade. As vezes, até sorria - e isso deixava Duo simplesmente apavorado, crente que havia feito algo errado. Duo não conhecia muitos príncipes, mas duvidava que eles fossem assim.

Cada vez mais os seus sentimentos conflitantes davam lugar à curiosidade.

- Você já forneceu todas as informações que poderia me dar.

- Como assim?

Foi mais uma situação que fez Milliardo rir, Duo não entendeu o porquê. Duo tentou contar os dias, mas ele estava perdido, flutuando num tempo que não era seu, numa rotina estranha que o fizera esquecer de si mesmo. Ele percebeu que já não sabia mais há quanto tempo estava ali, se eram semana ou meses, e a percepção deixou-o desnorteado.

- Está rindo por quê? - se defendeu, ao que Milliardo respondeu parando coma gargalhada, mas ainda sorrindo para ele.

- Duo. Você por acaso está… Você está com medo de perder o seu propósito aqui?

- É claro que não! - Era claro que estava. Quem seria idiota o bastante para não estar? A informação que possuia era a única coisa que o mantinha vivo - ela, e Milliardo. E Milliardo perguntava tão sério, com tanta sinceridade no olhar, sem procurar zombar dele por isso, que se Duo se via falando mais do que deveria, caso precisasse.

Se Milliardo ao menos dissesse que ele iria morrer, ele poderia se dar à satisfação de saber que ainda estava tudo certo com o mundo. Mas estava tudo ao contrário.

- Eu vou cuidar para que nada aconteça com você. Você é minha responsabilidade agora.

- Eu não preciso de uma babá, Milliardo.

Era a primeira vez que ele chamava o príncipe pelo nome diretamente, e o fazia com intenção de humilhar. A reação do outro homem, entretanto, não foi a que esperava. Ele levantou o braço e, por um segundo, Duo teve a impressão de que Milliardo iria roçar a mão contra o seu rosto.

Milliardo ajeitou os próprios cabelos, deixando Duo parado sem entender muita coisa. Milliardo só podia estar rindo dele. Duo sabia. Devia ter alguma coisa engraçada no seu rosto, porque aquele homem sempre estava sorrindo quando o via.

- Ah, acredite em mim. Aqui você vai precisar.

Ele se aproximou como se não soubesse do significado de "espaço pessoal", e Duo deu um passo para trás.

- Você já fez tudo que poderia fazer aqui. Entende por que algumas pessoas o considerariam desnecessário?

- Acredita em mim quando eu digo que eu não preciso de uma lição nisso - respondeu, seco, enquanto cruzava os braços. - Eu já estive do outro lado. Ou você se esquece que eu também sou um soldado? Que nem você.

- Duo, eu posso te proteger enquanto estou aqui. Eu vou ter que partir em breve. Como você mesmo disse, eu sou um soldado. Eu posso ser um príncipe, mas eu estou com os meus homens na batalha.

- Não é a decisão mais inteligente.

- Não é mesmo.

- Mas é… honrado, de certa forma. - Ele mesmo se surpreendeu. Milliardo pareceu satisfeito.

- Agora é a minha hora de trabalhar, você compreende. Ainda vou permanecer alguns dias aqui, mas depois…

- Eu sei, eu sei. - Deu os ombros. - Faça como quiser. Você é o príncipe.

- Fico feliz que você ainda se lembre disso - ele disse, e Duo pensou captar algum divertimento em sua voz.

O som de uma batida insistente na porta os interrompeu. Duo viu um dos guardas enfiar a cabeça no vão da porta aberta e falar num tom baixo com ele. A conversa durou poucos segundos, mas Duo já sabia quem estava requisitando a presença de Milliardo. Ele lhe dirigiu um último olhar, e Duo esforçou-se para parecer inofensivo o suficiente para que Milliardo temesse que os soldados à frente da porta lhe fizessem algum mal. Sabe, já que ele insistia em tomar conta dele.

Seguiu-o até a porta do quarto onde havia ficado quando Milliardo parou.

- Essa conversa é entre nós. Você fica aqui - Milliardo ordenou. Ah, ele era um príncipe de fato. Gostava de comandar as pessoas ao seu redor. Duo concordou com a cabeça e esperou ele trancar a porta atrás de si para aproximar-se dela sorrateiramente. Empurrou o ouvido contra a madeira e, com a mão em concha, se colocou a ouvir a conversa.

- Ouvi o que um dos soldados disse. Onde pensa que está indo? Você fica aqui. - Ouviu Milliardo dizer. Por um momento, Duo se sentiu traído, o que era um absurdo tão grande que quase o fez rir. O príncipe queria que seu coronel ficasse ali. Milliardo ia e, céus, o objetivo todo daquela coisa que Duo estava fazendo era que Milliardo fosse, e morresse. E Duo estava se sentindo traído porque o príncipe queria que Kushrenada ficasse perto de Duo quando ele não estava - e quando ele sabia que a única pessoa impedindo Duo de ser (o que, Duo, de ser o quê?) era ele.

- Pensei que iríamos atacar a base inimiga. Com a sua presença ou não, é o meu dever estar lá. Minha única missão é a sua segurança.

- Não - ele disse. - Você fica aqui para tomar conta dele.

- Não esqueça que eu sou o coronel.

- Onde estava sua mente enquanto discutíamos o plano? Esqueceu que a força aérea é a principal desta ação? Diria que a sua presença lá seria até… dispensável. É uma ordem, Treize. E você não tem nenhum dizer quanto a ela. Já conversei com os outros e concordam que é importante a presença de um superior para fazer a segurança de D- de nosso prisioneiro. Não ouse a desobedecê-la. Nada de ruim deverá acontecer com ele.

Arregalou os olhos.

- Treize, se alguma coisa acontecer com ele… Se ele se machucar, prometo que-

Duo se afastou da parede lentamente. Seu corpo tremia e as pernas estavam adormecidas. Ele achava que elas iam ceder se tentasse andar, então ele correu. A dor que se concentrava em suas coxas, em suas costas, e em qualquer lugar que Treize Kushrenada havia tocado se transformara em algo diferente. Desaparecera. E ele queria ela de volta, porque agora a agonia era outra, era não conseguir respirar como no dia em que a igreja fora destruída e ele engolira cinzas e fumaça, e virou pó quando as chamas lamberam sua pele.

Todo o seu corpo reclamava, derrotado, por algo que a sua alma não conseguia entender.