Capítulo 10 – Hermione entende algumas coisas
E então aconteceu algo que ninguém, nem mesmo a própria Ginny esperava. Enquanto da maioria das varinhas saiu, no máximo, um fiapinho prateado disforme (incluindo aí Hermione), e de outras nada saiu, da varinha de Ginny irrompeu um enorme animal prateado, que de início foi difícil ver o que era. Com grandes asas e chifres, uma cauda que chicoteava o ar, ele parecia ainda mais magnífico na cor prateada dos Patronos. Era um dragão.
Diversas exclamações veementes foram ouvidas na Sala Precisa. Ginny não apenas havia conseguido produzir um patrono de primeira, como também tinha sido um animal mágico. Todos a olhavam boquiabertos, e a própria Ginny não sabia que reação ter.
- Ginny, isso é... quer dizer.. puxa, meus parabéns! – gaguejou Harry, espantado, mas sorridente. Ela sorriu de volta, ainda meio em transe.
- É como eu disse – tornou ele para o resto da turma –, é praticamente impossível conseguir de primeira. Mas acabamos de ter a prova aqui de que não é impossível. Aliás, um outro paradigma foi quebrado essa noite. Nem mesmo eu sabia que animais mágicos também podiam ser patronos. Você tem alguma ideia de por que isso aconteceu, Ginny?
- Eu... não sei. Suponho que seja porque gosto muito de dragões.
- É mesmo? – intrometeu-se Ron – Eu nunca soube disso.
- Bem... acho que aprendi a gostar deles com... Charlie.
Harry tornou a sorrir.
- É, suponho que seja isso. Ou vamos começar a acreditar que você tem poderes superiores, e aí vou ter que pedir para que você pegue o meu lugar.
- De jeito nenhum, Harry! Eu... imagino que seja o meu... fascínio pelos dragões que fez isso acontecer e...
- Aliado a uma lembrança realmente muito boa, eu diria. Mas pode relaxar, eu estou só brincando. Bom, isso foi realmente fabuloso, e se vocês quiserem conseguir a mesma coisa – disse ele para o resto da turma –, é melhor pararem de olhar pra Ginny e praticarem seus próprios Feitiços do Patrono.
Isso fez com que a atenção da turma se voltasse novamente para as tentativas, ainda que, no fim da aula, somente uns poucos (incluindo Hermione) tivessem conseguido produzir um patrono corpóreo.
Falando em Hermione, ela aproveitou a primeira oportunidade que teve para ficar a sós com Ginny e perguntar algumas coisas que queria saber sobre o feito da amiga.
- Ginny, aquilo foi realmente espetacular.
- Hermione, eu realmente não sei como aconteceu... acho que pela primeira vez entendo como o Harry se sente quando todo mundo acha que ele faz coisas prodigiosas que nem ele mesmo entende.
- Ah, mas essa não foi uma boa comparação. Acho que você sabe muito bem como aconteceu.
- Quê? Eu não...
- Você ouviu o Harry. Fascínio pelos dragões aliado a uma lembrança realmente muito boa. Está explicado o grande mistério.
- Não sei, Mione, acho que não é tão simples assim...
- Na verdade é, sim! O que eu não sabia é que você também gostava de latim, Ginny.
Ginny entendia Hermione cada vez menos.
- Latim? O que é que latim tem a ver com qualquer coisa?
- Gosta ou não gosta?
- Gosto muito, a origem dos nomes dos encantamentos é uma das coisas que eu mais gosto na aula de Feitiços, mas sério, o que é que tem a ver?
- Dragão, Ginny. Qual é a palavra latina para dragão?
Ginny então percebeu que havia entendido tarde demais aonde Hermione queria chegar.
- E o que é que tem? – perguntou ela, sem se preocupar em manter o tom amistoso.
- Qual é a palavra, Ginny?
- Se você está perguntando dessa forma, é porque sabe tão bem quanto eu.
- Ótimo. Acho que o mistério começa e termina aí então, certo?
- Escuta aqui, Hermione...
- Agora me escuta você, Ginny. Eu não estou te acusando de nada, por isso não precisa falar desse jeito comigo. Eu entendo que você não quisesse me contar nada, pela forma como eu me comportei aquele dia do jogo de quadribol. Me desculpa, obviamente eu não estava nem perto de parecer compreensiva, não é? Mas... se nós somos realmente amigas... e você pode estar certa de que da minha parte nós somos sim, e muito... eu gostaria muito que você me contasse. E eu juro que não vou dizer nada precipitado.
Ginny ponderou por um momento.
- Sei. E se eu te disser que eu estou mesmo saindo com o Draco, o que é que você vai dizer?
- Não que eu já não desconfiasse, mas... pode me dizer como isso aconteceu? Eu achava que você odiasse ele!
- Eu não posso odiar alguém que nem conheço e nunca convivi, Hermione. Eu posso ter minhas próprias impressões, mas que nunca podem ser muito bem fundamentadas até que eu realmente conheça a pessoa. E era exatamente isso que acontecia... até o Baile de Inverno.
- Eu sabia! – murmurou Hermione.
- Novidade. – sorriu Ginny, pelo canto da boca. – Mas você quer ouvir ou não?
- Quero sim!
- Bem... – e a partir daí Ginny começou seu relato, e teve que se impressionar com as reações de Hermione. A amiga parecia realmente interessada em ouvi-la, e não em manifestar ceticismo em relação ao Draco que Ginny descrevia.
Mas claro, nem tudo são flores. Em determinado momento, Hermione interrompeu Ginny bruscamente.
- Ginny, não que eu não acredite no que você está falando, mas tem uma coisa que eu realmente não consigo entender!
- É claro que não, você não me deixa acabar de falar! E você prometeu que não ia me interromper!
- Eu prometi que não ia dizer nada precipitado. Mas isso é tão importante que não posso entender por que você nem mencionou até agora!
- E o que é?
- Então quer dizer que o Draco Malfoy que faz questão de insultar a mim, ao Harry, ao seu irmão e a toda a sua família, toda vez que nos vê, é um falso Draco Malfoy? O garoto mimado, arrogante e preconceituoso contra pobres, mestiços e "sangues-ruins", é um personagem?
Ela suspirou.
- Sim... e não. Com certeza, a pessoa que você mencionou não é o Draco de verdade, o Draco que eu conheci. Mas eu nunca disse que ele era perfeito.
Hermione se lembrou prontamente de Blaise Zabini.
- Ele é preconceituoso sim, mas não dessa maneira infantil que ele usa pra provocar o Harry, você e o Ron. Ele mesmo admite que sabe que os argumentos que ele usa pra insultar vocês são ridículos. Ele acredita, sim, na superioridade do sangue, acredita que pobreza tem a ver com falta de ambição, acredita em um monte de coisas que eu não concordo, mas você vai negar que podem existir grandes bruxos que também pensem da mesma forma? Se ele fosse tudo isso que ele faz vocês pensarem dele, você acha mesmo que eu estaria saindo com ele?
- Mas Ginny, e quanto à sua família? Você mesma disse, ele acredita que pobreza tem a ver com falta de ambição, e ele vive insultando todos os Weasleys por serem pobres!
- Nós já tivemos uma briga feia por causa disso. Mas a maneira como ele se desculpou comigo depois... você não estava lá, Mione. Você não pode fazer ideia do quanto o Draco consegue ser maravilhoso.
Hermione se preocupou seriamente com a expressão no rosto de Ginny ao chamar Draco Malfoy de maravilhoso, mas resolveu deixar a pergunta que estava na ponta da sua língua para o final da conversa. Mas Ginny entendeu errado o silêncio da amiga.
- É isso mesmo, ele se desculpou. Que ele nunca sonhe que eu estou contando isso pra você, mas foi exatamente o que aconteceu. Ele disse um monte de coisas sobre o que ele pensa a respeito do pai dele, sobre a visão dele a respeito da minha família, e... ah, droga também, por que é que ele tem que gostar da minha família? Por acaso eu gosto da dele? A minha única exigência é que ele não insulte mais eles, e se você não percebeu, ele está cumprindo muito bem. E eu me arrisco a dizer que ele já está vendo algumas coisas de forma diferente... outro dia eu peguei ele conversando com o Blaise superinteressado nos anúncios do Fred e do George que ele viu na Sonserina!
- Quê, têm anúncios na Sonserina? – Hermione sabia que a pergunta não tinha nada a ver com nada, mas não pôde evitar.
- É claro que sim, ou você acha que eles iam deixar barato?
- E o pessoal de lá não rasgou, nem nada?
Ginny sorriu novamente.
- Aparentemente, o Draco e o Blaise tiveram alguma coisa a ver com isso. Eles dizem que o anúncio é enfeitiçado para não sair, mas eu acho que foram eles que enfeitiçaram.
Hermione tentou disfarçar a sensação estranha (e nada ruim) que teve ao escutar por duas vezes o nome de Blaise, tanto que acabou fazendo uma afirmação que ela mesma sabia ser idiota:
- Mas o Malfoy não podia fazer isso... quer dizer, ele é monitor!
Ginny ignorou-a sumariamente e continuou:
- Mas o que eu estou tentando te dizer, Hermione, é que o Draco não é, como ele mesmo disse uma vez, o "dragão de sete cabeças que vocês pensam que ele é". Se você ao menos conversasse com ele... precisa ver as coisas interessantes que ele diz, os planos que ele faz... e, só pra constar, planos que nem de longe envolvem a possibilidade de ele se tornar um Comensal da Morte.
- Bom... acho que conversar com ele é uma coisa um pouco difícil pra mim. Ele não é lá muito amistoso comigo, se é que você me entende.
- Eu sei que não é. Mas você por acaso é com ele? Aposto que se você um dia tratasse ele bem, do nada, ele ia ficar desarmado... mesmo que depois dissesse alguma coisa imbecil e provocativa (que, por sinal, ele só diz porque vocês caem nas provocações), no fundo ele ia ficar intrigado.
Hermione resolveu que era a hora da pergunta principal.
- Ginny... você está apaixonada por ele?
Silêncio. E então...
- Você está curiosa ou preocupada?
- Sinceramente? Os dois.
- Curiosa, tudo bem. Mas preocupada? Você entendeu que eu estou saindo com o Draco desde a segunda tarefa? Você sabe que isso faz quase um ano? Por que você acha que ele está comigo? Por que estaria, se ele não estivesse gostando de mim? Por que me daria presente de Natal, de aniversário, por que se preocuparia em pedir desculpas quando a gente brigou? Por que daria pistas falsas da AD para enganar a Umbridge?
- O quê?
- Você ouviu. É isso mesmo que ele vai fazer naquela Brigada Inquisitorial ridícula.
- Brigada...?
- Você vai ver amanhã. Todos os sonserinos vão estar com distintivos escrito "Brigada Inquisitorial", o grupo seleto da Umbridge que tem mais poderes que os monitores comuns, pode dar detenções e tudo o mais. É, vai ser um inferno. Mas o Draco só topou porque ela desconfia da gente e queria um espião. O que ela não sabe é que o precioso espião que ela tanto adora vai dar pistas falsas pra ela.
- Ginny, você... você contou a ele sobre a AD?
Ginny olhou Hermione com certo desgosto.
- Depois do que eu disse, você está preocupada é com o que ele sabe... não ouviu uma só palavra, não é?
- Não, não é isso... mas é que ninguém que não seja do grupo sabe!
- Hermione, não seja boba. A Umbridge sabe há séculos, só não sabe exatamente quem faz parte e onde nós nos reunimos. E não, o Draco não sabe onde são as reuniões, mas não é porque eu não confio nele. - acrescentou ela, em tom de desafio.
- E você... você acha que ele está apaixonado por você? - perguntou Hermione, mudando de assunto.
A pergunta não era cética, ou pejorativa. Era apenas... uma pergunta.
- Eu não sei. A Andromeda acha que sim, mas...
- Andromeda?
- Eu contei a ela. E ela ficou muito contente em saber que o sobrinho dela não está bandeando para o lado das trevas.
Hermione havia esquecido que Andromeda Tonks era irmã de Nascissa Malfoy e, por isso, tia de Draco. Sentiu uma pontada de ciúmes por Ginny ter dividido o segredo com outra pessoa primeiro, mas reconheceu que Andromeda devia ter tido uma reação muito melhor do que a dela.
- E ela acha que ele está apaixonado por você. E você acha...?
- Eu realmente não sei. Sei que ele gosta de mim, gosta de estar comigo, mas é só. O que passa exatamente na cabeça dele, só ele sabe. Ou talvez nem ele. E eu… Bem, por enquanto eu estou esperando. E, pra falar a verdade, gostando muito de esperar.
Mais tarde, no dormitório, Hermione percebeu que Ginny não respondera se estava ou não apaixonada por Draco Malfoy. Mas nem precisava... estava claro em tudo, desde as palavras até no olhar dela ao falar dele. E ela não sabia exatamente o por quê, mas estava menos preocupada do que imaginaria estar. Talvez estivesse começando a acreditar serem possíveis os conceitos da amiga e de Blaise Zabini sobre Malfoy.
Blaise Zabini... esse era realmente um enigma para ela. E ela se descobriu com vontade de decifrá-lo um pouco.
E parecia que ele estava lendo as intenções dela, pois no dia seguinte se aproximou repentina e descontraidamente, como se a conhecesse há anos.
- Eu tenho uma dúvida que está me tirando o sono.
Hermione olhou para ele. Era a mesma expressão simpática e divertida que ela se lembrava de tê-lo visto fazer na única vez em que eles haviam conversado.
- Por que é que os trouxas usam aqueles objetos estranhos e nada práticos chamados guarda-chuvas quando está chovendo?
Ela ergueu as duas sobrancelhas, pronta para dar uma resposta nada educada. Uma ofensa aos trouxas não era nada que ela estivesse esperando dele. Mas Blaise continuou, antes que ela tivesse tempo de protestar.
- Não, sério, não é uma pergunta ofensiva ou algo assim. É porque eu imaginei que houvesse uma maneira mais inteligente, não? Quer dizer, com toda a tecnologia muitas vezes admirável que eles inventaram para sobreviver sem magia, era de se esperar que para lidar com uma coisa tão simples e que existe desde o início dos tempos, como a chuva, já tivesse sido inventado algo melhor!
- Você está perguntando isso à toa ou existe um motivo?
Ele sorriu.
- Existe um motivo, na verdade. É que a professora Burbage passou um trabalho sobre...
- Professora Burbage? – perguntou Hermione, incrédula – A professora de Estudos dos Trouxas?
- É claro. Ou você conhece outra? – ele perguntou com um sorrisinho típico de quem quer provocar. Hermione se limitou a fazer uma cara de "hahaha, muito engraçado" antes de responder:
- Eu acho que você é o único sonserino que faz essa matéria. E isso não é preconceito, eu fiz no meu terceiro ano e não havia ninguém da sua casa na sala. Peraí, nem você estava, e você está no mesmo ano que eu! Como você conseguiu pular o primeiro ano da matéria?
- É que eu só me interessei por ela mais tarde, então pedi ao professor Dumbledore e ele deixou, desde que eu estudasse e fizesse o exame antes. Pareceu ficar muito satisfeito, por sinal. Você tem razão, isso não é preconceito, realmente quase ninguém da Sonserina faz essa matéria.
Ela deu um sorrisinho de quem comprova estar certa e ele completou:
- Mas eu faço, e a professora Burbage pediu que a gente pesquisasse alguma invenção trouxa e imaginasse um jeito de melhorá-la, mas sem magia, à moda dos trouxas mesmo. Até porque se fosse com magia seria muito fácil, ela quer que a gente entenda como os trouxas pensam. Aí eu lembrei logo desses "guarda-chuvas" e pensei que eles são acessórios bastante idiotas. Como você nasceu trouxa, imagino que talvez entenda melhor que eu porque eles usam essas coisas.
- E você teria uma ideia melhor?
- Bom, depois de tudo que eles já inventaram, imagino que uma capa feita de um material completamente impermeável não seria tão impossível assim.
- Trouxas não são burros. – sorriu ela – Na verdade, essas capas já existem. Mas elas só protegem a própria pessoa, então de que adianta? Imagina você num temporal enorme, tendo que segurar algum objeto que não pode ser molhado. Como você faz se estiver só com uma capa de chuva?
- Ok, ok, ainda não fiz a pesquisa toda. Mas, se você já tiver uma boa ideia, pode me poupar o trabalho. – acrescentou ele, com um sorrisinho.
- Claro que não, Zabini. – ela disse, na sua habitual pose de aluna estudiosa – É você que tem que pesquisar, e não os outros por você.
- Será que seria muito incômodo se você me chamasse de Blaise? Eu prefiro.
Ela o olhou meio espantada, enquanto ele completava:
- E se você fizer isso, eu posso chamar você de Hermione. Um nome muito bonito, por sinal. – dessa vez o sorriso foi gentil, e não provocativo. Não que ela se irritasse com o outro tipo também, mas esse ficara particularmente bem nele.
- Obrigada. – disse ela, subitamente acanhada e sem saber por quê.
- Bem! Vai me falar ou não, Hermione?
- Já te disse que não, Blaise. Vai ter que pesquisar sozinho.
Ele fez uma cara de desconsolado que quase fez Hermione mudar de ideia. Para que ela em seguida se perguntasse o porquê disso.
- Ok, ok. Mas pelo menos me responde se você não acha que é possível eles imaginarem uma maneira melhor.
- Eles...? – Hermione havia se esquecido completamente do que eles estavam falando.
- Os trouxas, Hermione. Para se protegerem da chuva.
- Ah! – fez ela, sentindo-se boba. – É, bem, suponho que sim, mas pra ser sincera nunca pensei nisso...
Ela estava pensando, na verdade, no quanto gostava de que Blaise se referisse aos trouxas como "eles", e não "vocês", como muitos faziam ao falar com ela, e não apenas na Sonserina.
- Talvez seja o que falte então. Pensarem nisso. – disse ele.
Ela sorriu para ele.
- É, talvez.
Ele sorriu de volta e ela achou que era hora de falar no assunto que estava realmente com vontade de falar.
- Bem... eu falei com a Ginny ontem.
- Sobre o Draco? – perguntou ele, ainda sorrindo, mas dessa vez erguendo discretamente uma sobrancelha.
- Foi. Perguntei a ela.
- E o que ela te respondeu?
- A verdade, ué.
- Sério? E como foi a sua reação?
- Quis primeiro ouvir o que ela tinha pra dizer...
- ... pra depois criticar? – completou ele.
- Não. Pra saber o que eu deveria pensar, antes de criticar qualquer coisa.
- Certo. E criticou?
- Não. Apenas perguntei algumas coisas. Afinal, ela é minha amiga e eu me preocupo com ela.
- Claro. Mas você aceitou... quer dizer... o que você realmente está pensando da situação?
- Não sei ainda. É claro que é um pouco difícil pra mim acreditar nas coisas que você e ela falam sobre o Malfoy. Afinal, pra mim ele tem feito questão de se mostrar completamente o oposto disso nos nossos cinco anos de aqui convivência em Hogwarts. Mas... talvez seja mesmo uma questão de ponto de vista. Não tenho motivos para acreditar que você ou a Ginny estejam mentindo, ou enganados no que dizem. Ela é minha amiga e também não é nenhuma idiota a ponto de ser enganada com tanta facilidade. E você...
Ela hesitou. Com um sorrisinho complacente, Blaise mais uma vez completou por ela:
- Eu sou diferente dos outros sonserinos de que você ouviu falar?
Ela pensou por um momento.
- Não. Você me mostrou que todo mundo pode ser diferente do que a gente pensa que é. Basta a gente reconhecer que se engana às vezes nas impressões que tem.
Foi a vez de Blaise, pela primeira vez, não conseguir pensar em uma resposta para dar a ela. Hermione aproveitou para se despedir educadamente e sair, tal qual ele havia feito no primeiro diálogo dos dois. Tanto que nem viu que ele continuou olhando enquanto ela se afastava, sorrindo de uma forma um pouco diferente de como havia sorrido durante quase toda a conversa.
A partir daí, Hermione e Blaise passaram a conversar constantemente. Para ele, ela não parecia ser uma "sabe-tudo intragável" ou algo parecido. Achava interessantíssimas as coisas que ela dizia, até mesmo as que incluíam trechos de "Hogwarts, uma história", que nem Harry nem Ron tinham paciência para ouvir, e acrescentava os próprios conhecimentos sobre o assunto quando os tinha. Não concordavam sempre, é claro, mas Blaise era sempre ponderado na hora de argumentar com ela. Como, por exemplo, quando ela mencionou o F.A.L.E..
- Acho que o principal problema nessa sua ideia, Hermione, é que não é de um Fundo de Libertação que os elfos precisam, e sim de uma mudança em seus próprios hábitos e ideias. Tente imaginar se você chegasse na cozinha de Hogwarts hoje e propusesse isso. Qual você acha que seria a reação deles?
- Dobby iria adorar. – disse ela com uma risadinha.
- Dobby? O elfo que pertencia à família do Draco? Sabia que tinha acontecido alguma coisa que fez Lucius Malfoy mandá-lo embora, mas não imaginava que ele estava trabalhando aqui!
- Mandá-lo embora? É essa a história que Lucius Malfoy espalhou, é?
- E não foi o que aconteceu?
- Mas é claro que não! Aquele horroroso ia manter Dobby lá sendo castigado diariamente até a morte, e olha que elfos domésticos vivem muito. Não, o que aconteceu na verdade foi que Harry libertou Dobby.
- Harry? Harry Potter? Mas como...
- Ele trapaceou o Malfoy. Colocou uma meia... ah, é uma longa história.
- Ah, por favor. Não vai me deixar curioso, vai?
Hermione olhou para ele. Blaise parecia genuinamente interessado na história, e pronto para dar umas boas risadas às custas de Lucius Malfoy. Ela sorriu também e continuou a história
- Bem, como você sabe, foi Lucius Malfoy quem colocou o diário de Tom Riddle no caldeirão da Ginny antes da gente vir pra cá no nosso segundo ano, quando aconteceu aquele episódio da Câmara Secreta, não é?
- É, eu soube.
Houve um pequeno silêncio, no qual os dois pareciam estar pensando no significado dessas palavras para os dias atuais. Lucius Malfoy, o pai de Draco, quase tinha sido o responsável pela morte de Ginny.
- Bem... o que você provavelmente não sabe é que Dobby saiu escondido da casa dos Malfoy durante o ano inteiro para tentar avisar ao Harry sobre o que ia acontecer na escola. – Blaise realmente não sabia, e sua expressão denotava clara surpresa – Pois é. Depois que toda a história da Câmara foi desvendada, Lucius Malfoy apareceu na escola com Dobby a tiracolo para tirar satisfações com Dumbledore, e foi aí que Harry descobriu quem era a família a quem ele servia e que o tratava tão mal. Então, como ele já tinha deduzido que o diário foi parar nas coisas da Ginny por culpa do Malfoy, foi até ele, acusou ele disso e devolveu o diário, que Malfoy, obviamente, mandou Dobby carregar pra ele. O que ele não sabia é que dentro do diário tinha uma meia. – concluiu ela, com um sorrisinho.
Como era esperado, Blaise riu bastante da história. E assim eles acabaram esquecendo o assunto do F.A.L.E., no qual voltaram novamente algumas vezes, discordando, mas nunca brigando por causa disso.
Quem não estava gostando nada da nova amizade de Hermione era Ron, e ele fazia questão de demonstrar isso todo o tempo, estando longe ou perto de Blaise. Que obviamente não se incomodava nem um pouco com isso. Pelo contrário, se divertia.
- Acho que ele está com ciúme de você.
Hermione soltou uma risada pelo nariz.
- Não, ele está só sendo implicante mesmo.
- Mas por quê? Por que eu sou sonserino?
- E amigo do Malfoy, sim. Provavelmente. E não adianta eu tentar usar com ele os mesmos argumentos que você usou para me convencer, ele é muito cabeça-dura. Mas você não se importa com ele, né?
- Claro que não. – sorriu ele – Já estou acostumado com animosidade por parte da sua casa.
Ron observava os dois de longe e fazia caretas furiosas.
- Não sei o que ela vê nele. – dizia ele a Harry.
- Em que sentido você está perguntando isso? Até onde eu vejo, eles são só amigos.
-Só amigos? E você esqueceu de quem mais ele é amigo?
Harry deu de ombros, como se dissesse "a decisão é dela" e deixou Ron vigiando Hermione e Blaise e resmungando sozinho.
O ano foi passando lentamente, em especial para os membros da AD, que não estavam aguentando mais tanta repressão. Umbridge estava ainda pior, se é que era possível, agora que contava com a ajuda da Brigada Inquisitorial. O único problema para ela é que, por algum motivo, não conseguia descobrir grande coisa sobre a AD. E, quando ela ameaçava pensar que talvez fosse incompetência de Draco, ele respondia prontamente.
- Professora, se eles estão formando um grupo para atacar o Ministério, acha mesmo que estão fazendo isso sem ajuda?
- O que você quer dizer com isso, Draco?
- Ajuda de alguém poderoso, professora. Alguém que, de alguma forma, consegue me levar a pistas falsas todas as vezes. – ele parecia decididamente irritado com isso – Francamente, a senhora acredita mesmo que um debiloide como Potter conseguiria arquitetar isso sozinho?
Ela riu bobamente.
- É, é claro, você tem razão... aquele imbecil não teria capacidade para isso mesmo. Mas Draco, é completamente vital que a gente descubra onde eles estão se escondendo!
- Eu sei disso, professora! Acha que eu também não estou ansioso para ver aquele testa-rachada ser expulso com todo o grupinho imbecil dele? Só posso imaginar que Dumbledore esteja por trás disso!
A possibilidade fez Umbridge arregalar os olhos.
- Mas será possível?
Draco alimentou essa teoria enquanto imaginava como alguém podia ser tão tapada e cair com tanta facilidade nas lorotas que ele inventava, além de fazer uma anotação mental para nunca permitir que Ginny soubesse que ele andava metendo o nome de Dumbledore no meio da história.
No fim das contas, ele estava conseguindo levar bem o papel de falso espião, até que aconteceu algo inesperado, e que tinha tudo para arruinar completamente os planos dele. Uma garota da Corvinal resolveu dedurar o grupo. Enquanto Umbridge, eufórica, reunia toda a Brigada para ouvir o endereço do esconderijo secreto e agir, Draco aproveitou a balbúrdia geral e se afastou discretamente dali.
E agora? O que é que eu vou fazer? Nunca mais vou poder me olhar no espelho outra vez se Potter souber que eu estou ajudando ele a não ser expulso. Mas não posso deixar que a Ginevra seja expulsa, isso não!
Ficou matutando por alguns segundos, até que...
É claro. Afinal de contas, você continua brilhante como sempre, Draco Malfoy.
N/A: Oi, lindezas! Não demorei, né? E hoje eu vi que a fanfic chegou a 200 visualizações, o que me deixa muito feliz! Sabe o que me deixaria mais feliz ainda? Reviews hehe! Fico pensando, uma história que alcança tantas visualizações, não fosse as duas maravilhosas Kmile e Cassiopee, não teria ninguém comentando :( Mas enfim, de todo jeito fico feliz que tenha gente lendo! :))
Cassiopee, tomara que o balde não tenha gelado demais hahaha! Eu me diverti muito escrevendo essa cena, esses sonhos loucos que se fundem com realidade são muito engraçados. Isso já aconteceu muito comigo, e achei que cabia muito colocar aqui (até porque tava muuito cedo pra uma cena hot entre os dois hahaha). Sobre a escolha de Draco, olha, a vontade de dar spoiler é grande, mas já adianto que tem muita coisa pra acontecer antes disso se consolidar. Agora a história ainda está num momento relativamente leve, mas vai pesar. Fica comigo e aguarde! E teve Blaise de novo, viuu? Espera pra ver o capítulo 12, cheio de Blaise também! :)) Bjooo enorme e muito obrigada pela review que sempre me deixa com um grande sorriso no rosto!
KmileM: Ai meu Merlin, agora a pessoa vai querer capítulo monstro toda vez hahaha! Eles voltarão, porém mais pra frente! A partir do capítulo 13, eles tendem a crescer! :) Que também é justamente quando a história começa a se distanciar dos livros. Até o 12 eu consegui ser fiel, mas a partir do 13 começa a mudar mesmo. Fica comigoo! Bjo grande e obrigadíssima! :)))
Beijos e até o próximo capítulo,
Bella
