Capítulo 10- Fique perto de mim.

- Ana, as batatas-fritas estão queimando! Você não prestou atenção nisso?- rugiu o Sr. Preston enquanto Ana tentava terminar de recolher a louça suja de uma das mesas do bar. Duas garçonetes tinham faltado e o lugar estava um caos. Ana-Lucia estava prestes a ter um colapso e o gerente, Gerald Preston não parava de gritar com ela. O dono do bar, Joey costumava ser um patrão bastante generoso e compreensivo, o que não ocorria com o homem que gerenciava o lugar para ele quando Joey estava fora da cidade. Ana o detestava.

- Ah, desculpe, Sr. Preston!- disse ela. – Já estou indo cuidar disso!

O homem franziu o cenho, mas não disse mais nada. No entanto, quando Ana passou por ele trazendo uma pilha de louças acabou se desequilibrando e dois copos de vidro foram ao chão, quebrando-se, o que deixou o Sr. Preston ainda mais zangado.

- Mas o que é isso, menina?- ele gritou. – Preste mais atenção!

- Me desculpe.- disse Ana pondo a bandeja com a louça sobre o balcão do bar e se abaixando para juntar os cacos de vidro.

- Já sabe que isso vai sair do seu salário!

- Sim, senhor!- Ana não ousou refutar, embora quisesse mandar o Sr. Preston para o inferno. Ela estava tão cansada. Olhava no relógio de cinco em cinco minutos para ver quanto tempo faltava para ir embora para casa.

O cheiro de batata queimando fez com que ela largasse os cacos de vidro de volta no chão. A outra garçonete que trabalhava com ela correu para tentar salvá-las, mas quando Ana chegou à cozinha estas já estavam queimadas.

- Mas que droga!- Ana resmungou, irritada.

- Eu vou cortar mais batatas.- disse a outra garçonete.

- Obrigada, Cindy!- Ana agradeceu e voltou a juntar os cacos de vidro.

Duas horas mais tarde, faltava apenas uma hora para Ana-Lucia sair do bar. Ela nunca estivera tão ansiosa para ir embora. No dia seguinte ela teria seu encontro com Sawyer, mas ao mesmo tempo estava preocupada porque Ilana não retornara sua ligação. Ana deixara recado no bar em que ela trabalhava em Bakersfield pedindo a ela que a ajudasse a conseguir uma roupa adequada para o evento, mas sua melhor amiga não dera sinal de vida.

- Esse lugar é um lixo! Como consegue trabalhar aqui?

- Ilana!- Ana exclamou feliz ao ver a amiga. – Estava pensando em você.- ela disse saindo detrás do balcão. O Sr. Preston já tinha ido e Ana aproveitou para abraçar Ilana. – Que bom que está aqui!

- Vim assim que recebi seu recado. Seu vestido perfeito está na minha valise. Não foi fácil enfrentar uma viagem chata de duas horas e meia para te ver. O tráfego estava uma droga. Preciso mesmo saber se esse homem vale a pena!

- Sua resmungona!- disse Ana, rindo.

- Ei, gracinha, que tal me trazer mais uma dose de tequila com limão, hein?- disse um homem surgindo por detrás dela e lhe dando um tapa no traseiro. Imediatamente Ilana pulou em cima dele e o imobilizou de cara contra o balcão. O homem ficou todo trêmulo e Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente.

- Ilana, solta ele! É melhor deixá-lo ir. Não quero confusão com o Joey depois.

- Está bem.- disse Ilana. – Mas antes... – ela pressionou com mais força o rosto do homem contra o balcão. – Prometa que nunca mais importunará a minha amiga de novo.

- Prometo... – disse o homem com a voz abafada. Ilana finalmente o soltou e o homem foi embora correndo do bar.

- E então, que horas você sai dessa bodega?

- Em uma hora.- Ana respondeu. – Pode esperar?

- Mas é claro!- Ilana respondeu. – Vê uma dose de tequila com limão pra mim.

- Pode deixar!- disse Ana.

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Miles mirou com precisão a caçapa do canto direito da mesa de sinuca e acertou na primeira tentativa. Sorriu consigo mesmo diante de sua vitória, mas Sawyer não pareceu se importar muito.

- Você parece distraído esta noite.- ele comentou olhando Sawyer que se preparava para dar sua próxima tacada. Os dois tinham jantado juntos na casa dele e esticaram a noite na mesa de bilhar. Sawyer estava ansioso demais para o dia seguinte quando veria Ana-Lucia outra vez e precisava se distrair com algo, por isso convidara Miles para jantar na casa dele após sair do trabalho. – Está pensando na garota da praia?- o amigo o provocou.

- E se estivesse?- Sawyer aceitou a provocação dele.

- Se estiver pensando nela é porque ainda não a levou para a cama.

- Ah, deixa disso!- falou Sawyer. – Eu disse pra você. Ela é uma boa garota. Não estou só interessado em levá-la para a cama. Estou gostando de sair com ela.

- É claro que tem gostado de sair com ela.- disse Miles. – Eu leio os jornais.

- Até os tabloides?- retrucou Sawyer.

- Principalmente os tabloides.- Miles respondeu com um sorriso. – Você a levou ao seu clube. A foto não estava muito clara porque você praticamente estava engolindo a garota, mas eu sei que era ela.

- Ao invés de estar se preocupando com o que eu faço, você deveria arranjar uma garota pra você também e sair da casa da sua mãe.- Sawyer debochou.

- Muito engraçado.- disse Miles fazendo mais um ponto na mesa de sinuca depois da jogada de Sawyer que não acertou.

- Eu pretendo levá-la amanhã à exposição.

- É sério isso?- questionou Miles, incrédulo.

Sawyer apenas assentiu.

- Cara, sabe que está arranjando um problema, né? Provavelmente alguma das suas ex-s namoradas estarão lá para "prestigiar"o seu trabalho, e você vai estar acompanhado de uma garota que não pertence ao círculo social delas. Como vai ser isso?

- Vai ser como tem de ser, Miles. Irei com ela amanhã!

- Você e seus caprichos.- resmungou Miles. – Bem, esteja preparado se Charlotte estiver lá. Já sabe como ela é.

- É Charlotte quem tem que se preocupar.- disse Sawyer sem se importar, voltando a concentrar sua atenção no jogo.

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Ilana estendeu o vestido sobre a cama e Ana balançou a cabeça, incerta.

- Não sei se devo usar isso.

- Ah, qual é, Ana-Lucia? O vestido é lindo!- Ilana insistiu. – Minha amiga alugou pra mim por metade do preço.

Ana olhou para o vestido branco sobre a cama. Parecia estiloso demais para ser algo que ela usaria.

- Você não disse que iria a uma exposição de fotos da alta sociedade?- Ilana questionou. – Pois eu acho que esse é o tipo de roupa que deve vestir para um evento como esse. Principalmente se você é a modelo nas fotos.- ela acrescentou com um sorriso malicioso. – E então, quando é que vai me contar mais sobre esse fotógrafo?

Ana-Lucia corou e então sorriu, tímida.

- Nós estamos nos gostando.

- Uau!- Ilana exclamou. – E eu pensando que você fosse me dizer que não havia nada entre vocês dois, que só posou para ele pra ganhar um dinheiro extra, aliás, eu ia te perguntar como foi que conseguiu esse trabalho de qualquer maneira. Se você diz que vocês dois estão se gostando, então tudo fica mais interessante. Me conte tudo, não me esconda nada, amiga.

Ana riu. Contaria a verdade a Ilana se pudesse, mas sabia que a amiga ficaria desapontada se soubesse que ela e Sawyer não se conheceram por acaso. Que ela sabia muito bem quem ele era quando o vira na praia e provocara aquele encontro para que parecesse acidental. Vincent era muito bem treinado para fazer tudo o que ela mandava. Não, não admitiria a Ilana que estava tão desesperada para se livrar dos problemas e começar finalmente sua vida que chegara ao ponto de aplicar um golpe em um multimilionário e fazê-lo se apaixonar por ela até que se tornassem amantes e ele pudesse lhe dar tudo o que almejava. Por isso resolveu contar meias verdades.

- Nós nos conhecemos na praia e ele me contou que gostava de fotografia e que gostaria de me fotografar para sua próxima exposição.

- Hum e a partir dessa sessão de fotos vocês... – Ilana insinuou.

- Sim.- disse Ana. – Ele me convidou pra sair. Desde então tivemos dois encontros.

- E como foi?

Ana corou novamente e Ilana arregalou os olhos.

- Oh! Não me diga que vocês...

- Não, não!- disse Ana. – Nós apenas nos beijamos e...nadamos pelados na piscina da casa dele.

O queixo de Ilana caiu.

- Isso é sério?

Ana-Lucia assentiu.

- E como você se sentiu? Foi tudo bem? Ana, você está feliz?

A resposta dela foi um imenso sorriso.

- Eu me senti muito bem com ele, Ilana. Como não me sentia há muito tempo. Pareceu tão natural estar ali sem roupa nenhuma, e ele foi tão carinhoso, não me forçou a nada. Depois nos almoçamos e trocamos confidências...

- Que romântico- Ilana exclamou e então a abraçou. – Ah, estou tão feliz por você.

- Obrigada.- Ana disse com sinceridade.

- Ok, agora você me deu uma razão ainda maior para vê-la usando esse vestido e não se preocupe que eu vou ficar em LA até amanhã pra te ajudar com a maquiagem e também vou arrumar o seu cabelo. Quando eu terminar você vai estar linda e poderosa! Deixa comigo!

- Por que mesmo que você é garçonete no Charlie`s burger?- Ana questionou tirando sua camiseta para experimentar o vestido. – Você devia ser assessora de moda das estrelas de Hollywood.

Ilana riu.

- Um dia eu chego lá! Agora mova esse traseiro enorme e experimente o vestido, estou louca para saber como vai ficar em você!

Na noite seguinte, Ana-Lucia mal se reconhecia no espelho depois que Ilana terminou de produzi-la. O vestido lhe caíra bem como uma luva, moldando-se com perfeição ao corpo curvilíneo dela. Ilana prendeu parte de seus cabelos cacheados com grampos fininhos, deixando o restante lhe caindo pelas costas em ondas. A maquiagem no rosto era suave, sombra clara, mais o contorno dos olhos definidos com lápis e rímel, por fim um batom em tom bronze para realçar os lábios. Ana usou um conjunto de colar e brincos de cristal em formato de estrela que pertencera à sua mãe.

- Oh, Deus!- Ana exclamou de repente. – Acabei de perceber que não tenho sapatos para ir.

Ilana abriu sua valise e tirou de lá de dentro um par de sapatos brancos, de saltos finos, com fivelas de pedrinhas que se assemelhavam às joias que Ana estava usando.

- Não se preocupe, Cinderela, sua fada madrinha deixou o melhor para o final.

- São lindos! Onde conseguiu esses sapatos?- indagou Ana, pegando-os e os calçando.

- Eu os comprei em uma liquidação. Sorte a sua que calçamos o mesmo número.

- Ilana, jamais poderei te agradecer o que tem feito por mim!

- Não tem nada que agradecer. Só me prometa que vai beijar muito o seu fotógrafo antes que o relógio dê as doze badaladas e a sua carruagem vire abóbora!

Ana riu e abraçou a amiga.

- Eu tenho que ir.- disse Ilana. – Vou pegar o último ônibus para Bakersfield.

- Obrigada por tudo. Foi muito bom ter você aqui.

- Vou esperar pelo seu telefonema amanhã me contando as novidades!- Ilana exigiu e Ana-Lucia esperou que tivesse mesmo boas novidades para contar à amiga no dia seguinte.

Ela telefonou para Sawyer de um telefone público e esperou que ele viesse apanhá-la conforme o combinado, mas não esperou por ele em seu prédio antigo e desgastado, preferiu esperá-lo em uma praça tranqüila um quarteirão adiante, o mesmo lugar onde tinha feito o motorista dele deixá-la dois dias atrás.

- Pelo jeito não vou descobrir mesmo onde você mora.- disse Sawyer quando seu motorista abriu a porta da limusine para que Ana entrasse e se sentasse com ele no banco de trás. Ela jamais tinha entrado em uma e foi difícil não se impressionar.

- Precisava vir me buscar de limusine?- ela indagou ao sentar-se ao lado dele.

- Faz parte do show, baby. É isso o que os repórteres esperam que eu faça. Se eu aparecesse na entrada da exposição de bicicleta provavelmente seria notícia durante uma semana.

- Eu acharia engraçado.- disse ela, olhando-o de maneira sedutora, mas sem se aperceber disso. Deveria estar interpretando seu papel, mas a verdade é que estava sendo ela mesma e ao ver Sawyer vestido num elegante traje de noite masculino, preto, cheirando tão bem, não conseguiu conter o próprio olhar de desejo.

- Você está maravilhosa!- ele elogiou se aproximando dela. – Terei orgulho em desfilar com você esta noite.- o resto da frase saiu baixinho porque os lábios dele estavam a milímetros dos dela e no momento seguinte se encontraram, beijando devagar, saboreando um ao outro. – Senti saudade... – ele disse quando se afastaram.

- Eu também.- disse Ana, e realmente sentira falta dele.

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Charlotte Lewis, a famosa modelo inglesa desfilava de um lado para o outro do salão exibindo sorrisos e fazendo pose para os fotógrafos. Assim como outras pessoas e modelos famosas, ela viera prestigiar a exposição fotográfica de seu ex-amante, o ricaço James S. Ford. Mas a verdade é que ela não viera pela exposição, o principal motivo de estar ali é que há alguns dias atrás ela soubera que seu ex tinha terminado o relacionamento com a modelo australiana Shannon Rutherford. Esperava poder reconquistar Sawyer e retomar seu relacionamento com ele. Jamais se conformara que a relação deles tivesse acabado.

Quando anunciaram que ele estava chegando ao salão de recepção, Charlotte apressou-se em se aproximar da porta de entrada para vê-lo. Já fazia um ano que não se viam e ela caprichara no visual para chamar a atenção dele. Seus longos e cacheados cabelos vermelhos estavam soltos e ela usava um belíssimo vestido prateado feito por um estilista famoso especialmente para aquela ocasião. Ela não conseguia parar de imaginar qual seria a expressão dele quando a visse, provavelmente ficaria surpreso e feliz, pois Charlotte tinha certeza que o relacionamento deles fora tão maravilhoso para ele quanto fora para ela. Só tinha acabado por causa da agenda lotada de modelo dela. Mas isso não aconteceria mais porque ela pretendia dedicar grande parte do seu tempo a ele.

Entretanto, seu coração congelou como pedra dentro do peito ao vê-lo descer da limusine acompanhado de uma morena estonteante com um lindo vestido branco. Os dois estavam de mãos dadas e olhavam um para o outro como se não existisse mais ninguém ao redor além deles.

- Mas quem é essa mulher?- Charlotte indagou entre frustrada e surpresa.

Continua...