Capítulo 10 - Veneza.

Eu coloquei os meus pés no Aeroporto de Veneza – Marco Polo depois de algumas horas dentro do avião.

Eu não fazia ideia do porque estava lá. Não costumava ser assim tão impulsivo. Havia deixado tudo para trás.

Minha empresa.

Meus negócios.

Minha casa.

Kagura...

Tinha abandonado tudo de uma hora para outra só para ver uma mulher completamente insana.

Saí de casa de repente, num solavanco, com um único chamado pelo telefone.

Aquilo me enervou. Estava agindo como o seu cachorro, como o seu brinquedo. E definitivamente aquela percepção que tive dos fatos assim que olhei pelos vidros espelhados do aeroporto me causaram uma raiva tremenda.

Rin conseguia sempre o que queria de mim.

Sempre.

E aquilo definitivamente não me agradava.

Não era sadio e nenhum pouco suave.

Amaldiçoei a mim mesmo por estar agindo como um idiota. Um adolescente!

Ela me tinha nas mãos como ninguém jamais teve. E embora eu fosse naturalmente escorregadio, aquele nosso jogo estava demorando mais tempo e criando mais raízes do que o pretendido por mim.

Eu havia me envolvido, admitindo ou não, essa era a verdade.

...

Rin estava em San Marco.

Não me surpreendeu que ela tinha uma casa ali.

Veneza naturalmente tinha a sua cara.

Por mais que ela passasse a impressão de amar uma vida boêmia e aventureira não era somente isso. Ela era clássica também. Às vezes até clássica demais. Não que fosse Parnasiana, pois esse posto sempre foi o de Kagura. Rin era sem sombra de dúvidas Barroca.

Bem, eu não gostava tanto assim de Veneza quanto ela. Até porque não tinha uma alma tão romântica e artística, mas devo confessar que não importava onde ela estivesse. Eu iria para qualquer lugar que ela me chamasse.

Peguei um Táxi Acqueo o mais rápido que pude. Só estava com uma única mala, não queria demorar muito tempo naquele lugar. Pra falar a verdade, de um certo modo, eu nem queria estar ali. Algo dentro de mim ainda berrava para que eu voltasse para a minha casa e para Kagura. Algo ainda me dizia para esquecer aquela história maluca, para fugir definitivamente de Rin e de seus olhos profundos e intensos como o breu da noite etérea.

Mas como esquecer? Como deixar com que Rin escapasse de meus dedos? Já era tarde demais. Ela cada vez mais entranhava em minha carne, em minhas células, em minha alma. Nem mesmo de seu perfume natural conseguia esquecer, que dirá de seus contornos, sorrisos debochados e tantas outras provocações saudáveis e voluptuosas que ela me proporcionava.

Já era tarde.

Tarde demais pra mim.

Tarde demais para nós.

E mesmo que essa confusão inebriante e às vezes tão densa e excitante pudesse fazer com que eu recuasse, definitivamente não era capaz de me afastar. Eu gostava daquilo. Gostava do perigo que ela causava em mim. Dos arranhões profundos que ela ocasionou em meu ser tão gélido e sombrio. E por mais que soubesse que nossa compatibilidade e essência fossem naturalmente e propositalmente distintas, ainda não era suficiente para entrar em minha cabeça, encontrar com a minha razão, que a possibilidade de ficarmos nisso, nesse jogo cruel, era quase nula. Não havia possibilidade de felicidade, de par perfeito e histórias clichês.

A nossa história nunca foi romântica, embora possa parecer que sim.

Não. Ela não era uma história de amor.

Era um drama. Uma comédia. Um horror!

História de amor eu deixo para ela e para Kohaku.

A nossa sempre foi muito mais complexa e bem mais trançada do que uma simples história romântica.

...

Eu havia cochilado durante o percurso enquanto pensava em todos aqueles meus anseios e no meu fantasma adorável. Havia perdido pelo menos uns quarenta minutos de admiração da mais sensível e bela cidade do mundo. Quase ri de minha ironia. Como bem disse estava me lixando para Veneza. Um lugar onde os carros não existem não pode ser um bom lugar. Eu enlouqueceria se tivesse que morar ali. Não conseguia me imaginar sem os meus maravilhosos carros super potentes que sempre costuravam poeticamente as ruas pelas quais passava.

Pois bem, assim que pisei em terra firme pude suspirar aliviado. Não gostava muito de navegar, daquele balançar estúpido. Nunca fui muito íntimo e simpatizante do mar, rios ou lagos. A única coisa que gostava era somente o cheiro. A maresia sim, isso me extasiava. O cheiro do mar, o vento que ia e vinha. Admirei-me por ter conseguido dormir, coisa que não era de meu feitio. Eu devia estar realmente muito nauseabundo e cansado para tal coisa.

Percorri um pequeno caminho até chegar à cobiçada Piazza San Marco, o que de certa forma, me causou um arrepio involuntário. Não só pela beleza de sua construção tão perfeita e detalhada, mas também por sentir que cada vez mais estava perto de minha Rin.

Não era difícil de imaginar do porque Rin gostava daquele lugar. Naturalmente como uma boa Arquiteta, Veneza era seu parque de diversões. Tenho certeza que ela se sente frustrada por não ter desenhado prédio algum naquele lugar tão pitoresco e incomum.

Era fim de tarde quando olhei para a deslumbrante Basilica di San Marco. Mesmo com o sol desaparecendo por entre as construções, milhares de pessoas ainda amontoavam-se naquele espaço gigantesco com suas câmeras fotográficas. Dividiam o espaço entre si e entre os inúmeros pombos que insistiam em pousar numa das praças mais cobiçadas do mundo. Havia tantos idiomas num mesmo lugar que chegava a me confundir. Não conseguia distinguir por entre aqueles turistas idiotas e sorridentes o que diziam, da onde vinham.

Aumentei a velocidade de meus passos, já estava sem paciência para tudo aquilo. Queria chegar logo no meu destino. Resolvi então não procurar o caminho por mim mesmo, estava na hora de engolir um pouco de orgulho. Parei num Café próximo a praça e arranhei no meu italiano, que não é grandes coisas, para pedir informação sobre o endereço que Rin havia me dado.

No final das contas não era tão longe da onde eu estava, o que para mim foi um alívio! Eu acho que nem preciso dizer a minha aversão por ficar andando pelas ruas...

...

O apartamento de Rin ficava no quarto andar, ou seja, no último andar. Subi as curtas escadas sem problema algum. Eu esperava um lugar mais amplo, mais luxuoso, mas aquela não seria Rin se fosse como eu havia imaginado.

Parei na frente da porta e num impulso bati duas vezes. E antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, em ficar nervoso ou ansioso demais, a porta se abriu lenta e teatralmente.

E foi então que depois de três longos meses eu a vi de novo.

Eu realmente não sei explicar o que senti quando nossos olhos furtivamente se encontraram. Não há palavras para dedilhar o que experimentei naqueles segundos que pareceram uma vida inteira ou quem sabe uma eternidade.

A minha Rin, o meu conjunto completo, estava bem ali na minha frente. Sorrindo daquele jeito debochado e cínico de sempre. Encostada na porta de forma sensual e com um semblante tão maravilhoso que nenhum daqueles monumentos de Veneza poderia chegar aos seus pés.

Aos seus pés de musa. De deusa benevolente e arisca.

Nenhum pintor ou escultor poderia ser capaz de capturar sua beleza tão particular e intimidadora.

Chamem qualquer artista desse mundo medíocre e inacabado. Eles jamais seriam capazes de reproduzir em tela a vivacidade e a intensidade daqueles olhos amendoados. Daqueles olhos castanhos terra, que às vezes quase negros, me sugavam para não sei que mundo, fazendo-me ficar perdido e completamente absorto.

Um furacão medonho numa floresta castanha onde não havia flores e frutos, e sim somente a terra fértil, úmida. Um marrom perfeito rodeado por uma cortina de cílios alongados e simetricamente arrumados.

Parecia um sonho. Um sonho que nunca deveria acabar.

Que olhos, boca, nariz eram aqueles?

Que rosto era aquele?

Que corpo era aquele?

Era só dela.

E somente dela.

Nunca meu. Nunca de Kohaku. Nunca de ninguém.

Ah, mulher escorregadia e travessa! Como odiava sua volatilidade e independência!

Por que não podia ser minha só um pouquinho? Por que não podia ser como Kagura pelo menos por um minuto?

Como queria que se rendesse. Que se permitisse jogar aos meus pés e em minhas mãos de braços e peito aberto, aninhando-se em mim como quem precisa de ajuda, de abrigo. Pelo menos por um segundo. Um segundo somente já seria o suficiente.

Mas ela nunca deixou...

E nunca abriria mão de sua austeridade.

-Então a montanha moveu-se! –ela balançou a cabeça como se estivesse muito incrédula. –Ainda não acredito.

-Imagine eu. –tive de admitir me sentindo um completo idiota. Suspirei cansado, aquela frase dela foi como receber um balde de água fria.

-Ora, não fique assim. Estou feliz que tenha vindo! –ela riu brandamente me puxando pelo braço. –Vem, entra! Deve estar cansado!

Eu atendi ao seu pedido sem relutância. Estava mesmo cansado. Precisava tomar um bom banho e descansar um pouco.

Reparei então nas roupas que ela usava. Eram bastante casuais, como quem não tinha a mínima pretensão de sair de casa. Basicamente cobria o corpo com um vestido azul folgado, sem qualquer detalhe, de alças bem finas. O vestido era curto, parava bem antes dos joelhos. Os pés estavam descalços, completamente nus.

Rin logo fechou a porta atrás de mim e pôs-se a sentar numa poltrona que parecia realmente confortável. E foi então que pude desvencilhar um pouco os meus olhos dela e observar melhor o seu apartamento.

Ele não era tão pequeno e simples como eu havia pensando. Mas também não era extravagante e tampouco luxuoso. Era aconchegante. A decoração era bem refinada, de ótimo gosto. Com certeza ela havia decorado tudo, ou até mesmo desenhado aquele lugar. O apartamento parecia muito novo, quase recém construído. Rin era realmente uma mulher cuidadosa, principalmente com as suas coisas.

Sentei-me na poltrona ao lado dela, próximo a belíssima lareira que naquele momento estava apagada. Da onde eu estava dava para ver a varanda, onde as portas de vidro se encontravam abertas, deixando o vento um pouco frio penetrar na sala, balançando as cortinas brancas quase leitosas. Os últimos feixes de luz solar invadiam o recinto, uma luz melancólica e quase sem vida. Veneza parecia tranquila demais naquele final de tarde.

-Ocorreu tudo bem no caminho até aqui? –ela finalmente me perguntou enquanto cruzava as pernas lentamente.

-Sim. –assenti a fitando novamente. –Foi mais rápido do que eu havia imaginado.

-Esse é o lugar que mais gosto de Veneza. –ela sorriu colocando algumas mechas do cabelo para trás da orelha. –Você já veio aqui, não é?

-Já sim. Há alguns anos atrás...

-Aposto que com Kagura! –ela lançou um sorriso presunçoso.

-Pra falar a verdade... Não! –eu ri levemente ao lembrar daquele evento. –Vim com outra mulher...

-Verdade? –Rin pareceu surpresa com a minha revelação.

-Sim. E pode acreditar que esse evento ainda é motivo de brigas entre mim e Kagura.

-Eu posso imaginar que sim. –ela deu uma breve risada enquanto erguia-se da poltrona confortável. –Quer beber alguma coisa?

-Whisky.

Rin deu as costas para mim e encaminhou-se a um pequeno bar que ela mantinha no canto leste da sala. Ficou de costas para mim o tempo inteiro enquanto colocava as bebidas para nós dois.

-Por que não voltou para casa? –lhe perguntei sem mais delongas. Aquilo estava me corroendo desde o jantar na casa dos Fujitaka.

-Por que eu não voltei? Ora, porque eu não quis! –ela deu de ombros como se aquela resposta fosse muito óbvia.

Por um minuto eu fiquei em silêncio sem saber que argumento usar para rebater aquilo. Engoli a seco enquanto ela voltou com o meu copo de Whisky na mão esquerda e com uma taça de vinho tinto na mão direita. Ela entregou-me a bebida e pôs-se a sentar novamente na poltrona ao meu lado.

-Salute! –Rin falou ao mesmo tempo em que brindou no ar comigo, sem encostar nossos copos.

-Então só por isso que não voltou? Só por que não quis? –eu balancei a cabeça negativamente enquanto bebia um gole do Whisky que desceu maravilhosamente bem.

-Exatamente. –ela assentiu não entendendo onde eu queria chegar.

-Você não contou a ninguém que estaria aqui, não é verdade?

-E como sabe?

-No mesmo dia em que você me ligou eu estava na mansão do senhor Fujitaka. Tinha sido convidado para um jantar de boas-vindas para você e para Kohaku. Nem mesmo o senhor Fujitaka imaginava que você não fosse voltar com Kohaku. Todos pensam que está em Paris ainda.

-Hm... –foi então que ela fechou o sorriso e tomou um gole do seu vinho. Parecia que toda a penumbra da noite havia se alojado em seus olhos. –Como está Kohaku? Você notou algo de errado?

-Ele não parecia bem, estava bebendo feito um louco. Saí até mais cedo do que eu pretendia. O que fez com ele?

-O que eu poderia ter feito? –ela sorriu mesmo sem vontade dando de ombros. –Alguém sabe que você está em Veneza?

-Não. Eu não contei a ninguém.

-Aposto que faz séculos que não tira uns dias só para você.

Ela riu irônica enquanto eu tomava o último gole do meu Whisky. Rin desviou o rumo da conversa com maestria, mas ainda assim percebi a sua real intenção nessa atitude. Por algum motivo ela não queria falar de Kohaku. E alguma coisa me dizia que havia acontecido algo grave a àqueles dois. Mas como o homem educado e refinado que sou, entrei em seu jogo e deixei de tocar naquele assunto. Se ela quisesse falar, falaria depois. Não iria a incomodar mais. E também eu não queria perder nosso tempo precioso falando sobre Kohaku...

-Devo confessar que sim. –assenti sem maiores problemas repousando o copo vazio na pequena mesinha de centro. –Os minutos que passo longe da minha Siderúrgica me custam caro.

-Pra que acumular tanto dinheiro se você não o usa de verdade? A sua ostentação é uma comédia terrível, de muito mal grado e gosto. –ela sorriu de forma sarcástica arqueando as sobrancelhas de forma provocativa.

-Não é bem assim. –rebati no mesmo minuto e a fitei com a mesma ironia que ela usava contra mim todas às vezes. –Isso depende do seu conceito de "usar de verdade". O que entende sobre isso? Você é só uma moleca que pula de lugar a lugar! Não sabe nada sobre a vida ou sobre os negócios.

Eu achei que ela iria ficar brava comigo, que fosse fechar o seu sorriso cínico e debochado. Mas não, o efeito foi justamente o contrário. Rin soltou uma gargalhada, como se eu tivesse contado a piada mais engraçada do mundo.

E antes mesmo que eu pudesse lhe perguntar o motivo de tanta graça, ela colocou a taça vazia na mesinha e ergueu-se lentamente da poltrona. Fixei meus olhos nela novamente, na minha menina travessa, que agora mordia os lábios inferiores com o seu sorriso insuportável no canto da boca.

-Então eu não sei nada da vida? –ela me disse fingindo desdém. Logo em seguida, colocou a mão direita no quadril e apoiou o pé descalço na minha poltrona. –E o que você sabe?

-Certamente muito mais do que você. –arqueei as sobrancelhas cruzando os braços na altura do peito. Como ela me irritava quando fazia aquilo!

-Só porque é mais velho não significa que seja o Kohakuo da verdade. Você falou como o meu pai agora!

Eu nem preciso dizer que odiei aquela comparação. Tive que franzir o cenho nenhum pouco satisfeito. A questão da idade, o abismo que existia entre nós, obviamente, era algo que me incomodava.

Mas dessa vez resolvi não ser sisudo. Acabei por agarrar a coxa macia e lisa de minha deusa a puxando para mim. É claro que Rin se desequilibrou e caiu em meus braços. O som da sua risada acabou por dissolver o meu mau humor e fazer com que eu esquecesse o seu comentário maldoso.

Emaranhei meus dedos seguramente em seu cabelo cheiroso e bem tratado. Puxei-o levemente, só o suficiente para que ela pudesse grudar os olhos em mim novamente. Dessa vez não havia mais o seu sorriso debochado, só uma seriedade que eu não estava acostumado. E por conta própria, ela impulsionou o corpo para frente e acabou por colar nossos lábios.

...

O nosso beijo era sempre intenso, profundo e demorado. E não importava à hora do dia, o momento em que nós nos procurávamos, a situação, nada! Nosso beijo era assim. Simplesmente duradouro, delicioso e voraz. Beijávamos-nos sempre como se estivéssemos com muita sede.

Sede um do outro.

Vontade um do outro.

Como se o mundo fosse acabar assim que nossos lábios se desprendessem.

Naquele dia, beijar Rin foi como encontrar algo muito importante. Como achar algo que estava procurando há séculos, talvez há milênios. E embora um torpor e um alívio enorme tivessem tomado conta de meu corpo ainda não tinha sido o suficiente. Saciar-se com ela era algo impossível, quase inatingível e inalcançável.

...

Agarrei-a para mais perto de mim. Sentia seu corpo quente e sua respiração acelerada em minha pele.

Era tudo tão convidativo. Aquele ser perfeito em minhas mãos, no meu colo. Permitindo-me fazer o que quisesse. Como ansiei por aquele momento novamente, desde a primeira vez em que havíamos deitado em sua cama, numa noite nada casual. Sonhava com aquilo de novo todos os dias.

Eu não consegui me conter. Não consegui impedir minhas mãos de passearem por debaixo de seu vestido curto. De acariciar aquela pele deliciosa como a seda. Sentia seu corpo vibrar com meus toques ora brandos, ora fortes. Arranhava-lhe com delicadeza, só para causar espasmos e ver os pelos de seu braço se eriçar.

Ela parecia tão vulnerável naquele momento. Aquilo me assustou por um minuto. Embora ela afundasse o rosto em meu pescoço, arrancasse minha blusa e passasse a mão pelo meu corpo como uma leoa, havia algo nela naquele instante que pude detectar. Uma vibração estranha... Algo incomum, diferente. Como se tivesse perdido o controle da situação como eu. E apesar dessa minha sensação ter durado somente segundos, aquilo me perseguiu pelo restante dos dias.

Acabamos parando no chão, empurrando com nossos corpos a mesa de centro para longe de nós. O tapete felpudo nos abraçava enquanto, vez ou outra, girávamos, trocando constantemente de posição.

Eu já estava louco de desejo, não conseguia mais esperar. O arfar e os gemidos baixos dela no pé de minha orelha já haviam me enlouquecido.

Tirei-lhe por fim o vestido. Os seios desnudos, rígidos, um pouco rosados, foram os primeiros a preencherem a minha visão. Beijei-os com suavidade sentindo o retesar do seu corpo. A forma com que ela agarrou minha nuca e puxou-me para mais perto fez com que minha excitação aumentasse.

Segurei novamente, de maneira firme, o seu cabelo. Fixei meus olhos nos dela e tentei fazer o meu rosto mais irônico possível.

-Ainda lembro o seu pai?

Rin somente riu e balançou a cabeça negativamente.

E, como se fosse combinado, voltamos a nos beijar.

...

Eu não senti o tempo passar.

Só me dei conta que havia escurecido totalmente quando olhei para a varanda.

Estávamos imersos num breu profundo e silencioso.

Rin estava deitada numa posição contrária a mim. Seu corpo apontava na direção da porta enquanto que o meu na direção da varanda. E apesar de nossos corpos estarem apontando para locais distintos nossos rostos estavam bem próximos.

No meio do nosso silêncio, daquele nosso momento tão intenso e particular, que ela riu por um instante. Riu como uma criança que havia acabado de cometer uma travessura. Sua risada acabou por ecoar por todo o cômodo, inclusive dentro do meu ser.

-Do que está rindo? –eu lhe perguntei confuso.

-Da vida! –ela me respondeu com a voz um pouco carregada embora parecesse firme. –De como as coisas acontecem, do quanto são irônicas. É tudo tão imprevisível e inacreditável. A vida é como um prato de comida exótica. Você nunca irá saber o seu sabor se não experimentar.

-Está debochando de mim como sempre... –girei os olhos aborrecido.

-Não! –uma gargalhada deliciosa escapou de seus lábios. –Não dessa vez. Só estava... Pensando.

-Não gosto de vê-la pensativa.

-Não gosta porque não sabe o que eu penso.

-Então por que não me conta? –indaguei virando meu rosto para ela com minhas sobrancelhas arqueadas.

E foi então que ela voltou-se para mim com os seus olhos enormes cheios de caminhos ardilosos e tão intransponíveis que ser nenhum tentaria se aventurar por solos tão densos e perigosos. E quando pensei que ela finalmente me responderia, Rin somente passou a língua pelos lábios e sorriu brandamente.

...

Nós passamos três dias juntos.

Três dias em Veneza.

Em San Marco.

Devo confessar que foi a partir de então que mudei completamente o conceito e a aversão que tinha por aquele lugar tão peculiar que não costumava encher os meus olhos tão cansados e ambiciosos.

Eu sempre vi um romantismo barato por entre aquelas águas. A cidade sempre me pareceu forçada demais, como se tentasse ser convincente. Sempre comparei Veneza a um empregado que quer fazer de tudo para lhe agradar, mas que acaba sendo robótico e exagerado demais.

Era assim que eu via Veneza.

Contudo, Rin me fez ver outro lugar. Mostrou-me um mundo de cores e formas que eu não havia reparado ou dado importância na primeira vez em que tinha ido. E essa mudança, essa nova visão que ela me fez ter, não me surpreendeu nenhum pouco. No final das contas ela sempre foi capaz de quebrar meus paradigmas.

A minha companheira anterior, uma mulher qualquer que certa vez trouxe a Veneza, só sabia falar de roupas, jóias, comida e coisas das quais não me importavam. Ela me entediava constantemente. Vez ou outra me pegava bocejando ao escutar suas histórias tão sem sabor e textura. Que criatura mais lamentável!

Tão desinteressante...

Tão comum...

Elas eram todas iguais.

Nunca tiveram o que mostrar.

Nunca conseguiram me fascinar.

Não como ela. Não como Rin.

Rin era uma mulher naturalmente culta, com uma inteligência que me assombrava. Falava de arte, de música, de filósofos, como quem fala de banalidades, de coisas comuns. Ela discorria facilmente sobre Focault, Weber, Pope e tantos outros que eu já havia me esquecido.

Rin fez questão de me levar, primeiramente, para conhecer por dentro, a Basilica di San Marco e, é claro, ao Palazzo Ducale. E no meio de tantas obras magníficas, de todo aquele esplendor secular que me deixou sem fôlego por alguns instantes, ela choramingou no meu ouvido lamentando-se por não ser capaz de me mostrar as maravilhosas obras que havia contemplado em sua última visitação ao Louvre. Ficou decepcionada por não poder preencher meus olhos com Michelangelo, Rembrandt, Da Vinci, Vernet e tantos outros que lhe inspiravam dia após dia.

Passeamos por todo Canałasso – O Grande Canal. E embora odiasse o transporte áqueo, foi o passeio mais agradável que já fiz na vida. Recortamos quase toda San Marco. Era um dia lindo de sol brando, nuvens fofas e ventos afáveis. Um dia maravilhoso ao lado de uma mulher extraordinária e completamente debochada.

...

Fomos ao seu Café favorito.

Ela não parava de falar um minuto sequer. E por incrível que isso possa parecer não me incomodou nenhum pouco, ao contrário! Ela me sugava com as suas palavras, com seus ditos e histórias maravilhosas. Com a sua inteligência perspicaz e pensamentos tão profundos e complexos.

Ela tinha tanto o que dizer.

Tanto o que me mostrar...

Eu não me cansava. Não me cansava porque não era possível. Não tinha como não querer, não se deixar levar por seus devaneios que escorriam de seus lábios macios, açucarados e mordazes.

-Mas me fale um pouco mais de você. –ela me falou enquanto parávamos de rir de suas últimas aventuras. Levou o café fumegante próximo a boca e o assoprou gentilmente enquanto fitava-me com sensualidade. –O que esconde por trás dos muros dos seus olhos?

-Não tenho muito que dizer. –eu dei de ombros recuando um pouco daquela pergunta. –Acho que o senhor Fujitaka já lhe deixou bem informada ao meu respeito.

-Ele não disse muitas coisas, só o necessário, na verdade. A maior parte das coisas era sobre seus negócios e sobre a ligação que ele tinha com a sua família.

-E já não está de bom tamanho? –eu sorri enquanto tomava o gole de meu café amargo.

-Quanto mistério... –ela falou em tom de desaprovação o que me fez achar graça.

-Não é questão de mistério. –a olhei fixamente repousando a minha xícara. –Não tenho muita coisa interessante para dizer. Não tive tantas idas e vindas como você. Prefiro ouvi-la. Desvendá-la.

-Desvendar-me? –ela riu levemente balançando a cabeça negativamente. –Não acho que seria possível.

-Quanta prepotência! –eu disse em escárnio.

-Não é prepotência... Bem, faça o que achar melhor. Mas acho que, assim como eu, você não quer desvendar coisa alguma.

...

Eu tinha que ir embora.

Não podia mais ficar longe de meus negócios, de minha siderúrgica. E apesar de querer mais do que tudo no mundo ficar com a mulher mais fascinante que eu já havia conhecido, simplesmente não podia.

Veneza tinha acabado para mim.

Estava na hora de voltar.

E, mais do que isso. Voltar não significava apenas partir, mas também voltar para a realidade. Para o meu mundo onde não havia Rin.

Foi então, naquele instante, que me dei conta de que não queria mais isso. De que não poderia mais ser capaz de suportar aquela situação.

Eu a queria para mim. A queria como nunca quis ninguém.

E embora meu desejo e minha obsessão por ela fossem enormes, quase incontroláveis, eu não poderia admitir.

Não poderia aceitar porque, sobretudo, era abarrotado de preconceitos e teimosia.

E, acima de tudo, não poderia ser o primeiro a dar o braço a torcer. A dizer que não seria capaz de viver sem ela.

...

-Preciso ir. –eu finalmente falei enquanto estávamos na varanda de seu apartamento. O sol se escondia preguiçosamente por trás das construções.

-Eu sei. –ela assentiu sem me olhar. Seus olhos estavam vagos, como se não estivesse realmente ali. –Pelo menos espere o pôr-do-sol. Não vai querer perder isso.

Eu somente assenti e fiquei ali, do lado daquela preciosidade, vendo o sol desaparecer pouco a pouco, tingindo com seus últimos feixes o céu, que já tinha tons alaranjados e avermelhados.

Que vista!

Eu nunca mais me esqueceria daquilo.

Veneza nunca mais seria a mesma.

E eu também não.

...

CONTINUA...

Nota da autora:

Meninas, desculpem pelo atraso, mas se eu contasse tudo o que aconteceu a mim nesses últimos tempos provavelmente vocês não iriam acreditar...

Esse capítulo já estava pronto há séculos, só me dei conta disso hoje! Sinto muito por não ter postado antes!

Infelizmente não irei me estender muito hoje, tenho um bilhão de coisa a resolver.

Não achem que é descaso, li todos os últimos comentários e agradeço imensamente pelo carinho de todas vocês em sempre de estarem presentes aqui!

Grande beijo!

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