Mario Nakamura é um nisei dono de uma petshop. Um homem de cinquenta e cinco anos solitário e carente. Divorciado, seu casal adolescente de filhos morava com a esposa e ele raramente os via. Sem mais amigos, sua única interação social era com seus clientes e funcionários. Porém, de modo geral, ninguém gostava de conversar com ele. Simplesmente o desprezavam. Uma cena triste se repetia frequentemente: Mario tentava puxar assunto com uma pessoa enquanto ela inventava desculpas para cortar a conversa. Isso quando não o ignorava e o encarava com um olhar de superioridade.

Mario precisava de um vinculo afetivo. Por várias vezes, enquanto preparava o almoço ou a janta, a faca de cozinha lhe pareceu convidativa. - Basta um corte. - Pensava. Mas a sua criação católica o impedia de findar com a própria vida.

No fim do expediente, Mario checava os animais à mostra. Os aquários com peixes ornamentais. As gaiolas com pássaros, cachorros e gatos. Dentre os gatos, a petshop recebeu mais um espécime, trazido por um novo fornecedor. Uma empresa com nome estranho, achava o nisei, Baccanalian. - Será indiana? - Se perguntou. O animal era uma angora com um lindo pelo marrom.

Após a checagem habitual, o nisei já se preparava para subir do térreo até o primeiro andar, onde ficava sua casa. Seu intento foi interrompido por um miado que não parecia felino. Soava fino, mas humano demais. Mario se voltou para o mostruário e quase enfartou ao notar que em uma das gaiolas dos gatos um animal foi substituído. Ao invés de uma angora, a gaiola agora guardava uma jovem pós-adolescente linda. Seus cabelos eram castanhos, lisos e caídos até os ombros. Sua pele era clara e seus olhos amendoados. Ela estava de quatro, uma posição bem erótica, porque o seu corpo não cabia em pé naquela prisão.

Sem pensar duas vezes, Mario abriu a gaiola e tentou retirá-la de lá de dentro. Então um temor apoderou-se do seu coração. Temia ser acusado de violência sexual novamente. A mulher gato miou, ronronou e até tentou arranhar o rosto de Mario. Em uma medida desesperada, o nisei pegou uma coleira do balcão e pôs no pescoço da garota nua. À força, ele a puxou até o andar de cima.

- Como você entrou na minha petshop, maluca? Por acaso é alguma armadilha de Joana?

- Miau?

Mario tentou colocar a mulher gato de pé, pois sua posição de engatinhar o incomodava. Não conseguiu. Era como tentar colocar um animal quadrupede sobre duas patas. Você poderia até ter sucesso, mas só duraria alguns segundos, logo ele voltava à sua posição natural. Com uma camisa Mario tentou vesti-la, também sem sucesso. Ela gostava de liberdade.

- Isso não pode estar acontecendo! - Mario sentou no sofá da sala e pôs as mãos na cabeça tentando fazer sua tontura passar. Sua visão começou a ficar turva e seu corpo suou frio. O nervosismo estava fazendo sua pressão subir. Como um animal em busca de dengo, a garota nua roçou sua cabeça na perna do nisei enquanto fazia barulhinhos com a boca.

Mario tentou usar a lógica, mas ela o levava à respostas que não faziam muito sentido. Só havia duas opções: ou de alguma forma ela é o gato em forma de gente ou uma mulher nua conseguiu entrar na loja, dar um fim no angora e se trancar na gaiola; estando assim aprontando uma pegadinha perversa e o fazendo de bobo. O mais realista seria acreditar na segunda opção, mas algo dentro de Mario dizia que a mais coerente era a primeira. Principalmente quando passou a se recordar dos youkais, os seres da natureza do folclore do país de seus antepassados.

Era meia noite, Mario achava que ninguém atenderia, mesmo assim o comerciante resolveu ligar para o fornecedor da angora. Para a sua surpresa responderam a ligação. Uma voz masculina de barítono que nem de longe lembrava a de uma secretária. - A mercadoria que me entregaram. Que desgraça é essa?

- A angora? Algum problema?

- Está de sacanagem? Ela é... - A situação de Mario era tão incomum e inacreditável que ele sentia vergonha de compartilhá-la mesmo com alguém do outro lado do telefone.

-... Um ser da espécie youkai e da raça nekomimi. É isso que está com medo de dizer? Sabia que você chegaria à essa conclusão devido a sua descendência nipônica.

Mario, ainda com o telefone no ouvido, se virou para a garota nua e a assistiu engatinhar pela sala com um gingado, um rebolar, de animal. Como há anos trata de felinos, ele sabia reconhecer o movimento característico deles. Algo que a nekomimi fazia de modo natural demais para ser ensaiado. - Pelos deuses! - Disse Mario se esquecendo de seu lado cristão por um momento e se entregando à sua parte pagã. - Ela não é humana!

- Não.

- Porra, e vocês me passam esse pepino para mim?! Venham buscá-la!

- Senhor Nakamura, aceite a nekomimi como um presente. Sabemos que você passa por uma fase de vida difícil. - O homem do outro lado da linha, que Mario nem sabia o nome, demonstrava saber muito de sua vida e isso o assustava. - A empresa Baccanalian também atua no ramo de petshops, porém em uma vertente mais especializada. Gostaríamos de transformar a sua loja em uma filial.

- Como assim?!

- Venha conversar os termos de aquisição de uma franquia em uma visita. Nosso endereço consta nos documentos de transferência da angora. - Ao dizer tais palavras, o homem do outro lado da linha simplesmente encerrou a ligação.

Mario pôs o fone no gancho e foi até a mulher gato. Ela agora estava deitada no tapete com a barriga para baixo e os joelhos dobrados. Seu rosto tinha um sorriso alegre, mas discreto, nada exagerado. Enquanto fitava o homem que passava a entender que seria seu novo mestre, a criatura balançava as pernas em um movimento tranquilo. Parecia que esperava uma ordem ou qualquer atitude vinda da parte de Mario.

O nisei não sentia aquela sensação há um bom tempo. Sem que percebesse, seu membro ficou enrijecido, o que despertou uma reação na mulher animal. Começou com uma caricia na parte intima que o fez se curvar e dar um passo para trás. A nekomimi seguiu quadrupede em sua direção. Ele então se abaixou, para ficar no nível da garota, e deixou-se esquecer de todas as suas responsabilidades. Filhos, reputação, o fato dela ser mais animal do que humana... Mario se despiu até ficar tão nu quanto a mulher gato e em cima do tapete da sala, como dois amantes, passaram a noite.

Na manhã seguinte, Mario tratou de visitar essa tal petshop misteriosa que lhe cedeu uma youkai. Para tanto ele trancou sua casa para que ninguém invadisse e desse de cara com o seu novo bichinho de estimação. Para que a mulher gato não fizesse muito barulho e chamasse atenção, o comerciante teve a ideia de trancá-la no quarto dos fundos e deixar separado jornal no chão e uma tigela com ração para gatos. - Será que é assim que se cuida de uma youkai? Quer dizer, ela ainda é meio humana.

Na petshop o nisei avisou que teria que se ausentar para resolver negócios da empresa. Ninguém estranhou, pois era algo que ocorria de tempos em tempos. Quarenta minutos de viagem depois, Mario foi até o endereço indicado pela papelada. - Não pode ser aqui. - A rua, o número e o logradouro levavam à uma casa residencial de gente rica, não a um estabelecimento comercial.

- Estávamos esperando o senhor. - Mario reconheceu a voz do telefone. Ao vivo o homem não parecia nem um pouco ameaçador. Uma figura magricela vestida de maneira casual demais para ser considerado um homem de negócios.

- Isso é uma brincadeira? Cadê a empresa Baccanalian?

- Vendemos produtos que a maioria das pessoas nem acredita que existe. Você acha mesmo que deixaríamos nosso mostruário escancarado? - Após entrar pela área externa da casa, Mario foi conduzido a dois lances de escadas que o levaram até um porão secreto. O que viu lá dentro mudou sua concepção do que poderia ser real ou não. - Não só seres japoneses. Trabalhamos com uma fauna mística ligada ao sexo. Pense em bichos de estimação que podem agradar seus donos de maneiras inacreditáveis.

Subitamente Mario sentiu nojo do que havia feito na noite passada. - Isso me soa como zoofilia.

- Só se existir zoofilia pela metade. - Disse o dono do estabelecimento sorrindo. - A final eles são meio humanos também.

Haviam várias criaturas místicas engaioladas. Um negro pré-adolescente que segurava um pênis do tamanho de seu antebraço (um exu). Uma mulher com curvas perfeitas e que mudava de forma de acordo com o desejo de quem se aproximava (uma succubus). Outra youkai, reconheceu Mario, mas ligada à cavalos e não à gatos (uma kemonomimi)...

- Parece mais uma loja de horrores.

- Pode até ser, mas sua rentabilidade é muito maior do que a de uma petshop pé de chinelo. Sem ofensas.

- Eu nem sei seu nome.

- William Alegretti. Então? Temos um acordo?

- Isso parece... Errado.

- Te dou até o fim de semana. Tenho outros interessados, não posso guardar essa vaga para sempre.

Enquanto Mario negociava com William, em sua casa Joana apareceu para fazer uma visita inesperada. Ela queria que ele assinasse a papelada que tornaria a separação de ambos oficializada, algo que ele relutava em fazer. - Mario não está. - Disse o balconista da petshop ao vê-la subir as escadas até o andar do comerciante.

- Não tem problema, vou esperá-lo em sua casa.

- Mario saiu para conversar com um fornecedor. Desculpa, acho que ele não vai gostar de te ver lá dentro sem sua autorização.

- Você não acha nada, menino. Nunca ouviu dizer que em briga de marido e mulher não se mete a colher.

No primeiro andar, Joana testou a chave da casa do seu ex na fechadura. Para a sua sorte ele não a trocou, tornando sua entrada possível. Como se ainda morasse ali, Joana sentou no sofá e se esparramou. Logo ela começou a espirrar devido à sua alergia. Era possível sentir o cheiro de pelo de animal entranhado na casa. - Mario... Sempre dando mais atenção aos bichos do que às pessoas.

Com o passar do tempo, Joana ficou entediada e passou a vasculhar a casa do seu ex. Basicamente nada mudou desde a época em que ainda estavam juntos (o que completava dois anos), só estava tudo mais largado. A falta de cuidado que Mario tinha para com ele refletia em sua morada.

Ao passar próximo ao quarto dos fundos Joana teve a impressão de ter ouvido um miado. Ela ficou indignada, aquele lugar sem ventilação e mal iluminado não era adequado para guardar um animal. Sua indignação se transformou em fúria ao perceber que não havia um gato ali dentro, como previra, mas sim uma garota nua com uma coleira no pescoço.

- Meu Deus! Que perversão é essa, Mario?! - Joana se agachou e abraçou a nekomimi, que ela achava ser uma humana. - Calma, minha querida. Passou. Seja lá o que esse tarado te fez, acabou.

Joana tentou fazer com que a garota nua saísse do quarto escuro, mas ela lutou para permanecer ali. A nekomimi só respondia a quem ela julgasse ser seu mestre e essa pessoa não era aquela mulher. - Garota, eu não vou te fazer mau. - Joana tentou tirar a coleira do pescoço da jovem, mas só conseguiu com isso receber tapas no rosto, no braço e onde as mãos da criatura alcançavam. Por causa de suas unhas grandes, alguns arranhões foram provocados, nada nem de longe sério, mas arderam. - Qual o seu problema? O que foi que ele te fez?

Em meio a luta aconteceu o que Joana nunca acreditaria se lhe contassem. O corpo da menina perdeu massa e ganhou pelos. Ela se tornou tão pequena que poderia ser carregada em um braço só. Resumindo, regressou a sua forma de gato. Ao presenciar tal cena Joana deu um grito estérico que chamou a atenção dos funcionários e dos clientes da petshop no primeiro andar. - O que foi? - Perguntou o balconista, o único que teve coragem de entrar na casa.

- O gato! - Disse Joana apontando para a angora. - Ela era uma mulher e se transformou em um bicho!

O balconista ficou sem saber como reagir. Pelo semblante transtornado de Joana dava para perceber que ela dizia a verdade, porém o fato relatado era fantasioso demais. Isso reduzia o quadro à uma simples realidade: - Essa mulher está louca.

No final daquela semana, diante do juiz que julgava os termos do divórcio, Joana acusou o seu ex de ser um pervertido sexual novamente. Só que dessa vez a acusação se voltou contra ela, pois o balconista, que antes não ia muito com a cara de Mario, fez questão de comparecer à audiência e defendê-lo. - Todos os funcionários da loja e mais alguns clientes viram ela invadir a casa de Mario gritando feito uma louca dizendo que... - O balconista fez uma pausa, pois a vergonha alheia dificultava sua fala. -... Uma mulher que se transformava em gato era mantida cativa. - Ao ouvir aquele discurso, Mario pôs a mão na boca discretamente para disfarçar sua alegria.

- Eu não apresentei isso ao juiz anteriormente porque não queria que meus filhos soubessem disso, mas... - Mario abaixou o olhar para passar uma imagem de homem honesto injustiçado. O juiz, que era acostumado a analisar falsidade, sentia algo de fingido naquele comportamento. Mas, como homem da lei, ele tinha que se ater mais aos fatos do que aos seus instintos. - Não é a primeira vez que Joana vê coisas que não são reais. Inclusive essas histórias que ela conta de que eu forçava os meus filhos a … - Mario começou a chorar. - Desculpa, não consigo.

Diante de toda aquela conversa Joana não conseguia se expressar devido ao choque. Só fazia assistir à tudo enojada.

- Senhor Nakamura, você sabe que se quiser pode processar sua ex. Essas difamações são sérias e podem dar de três a cinco anos de cadeia além de reparação financeira. Fiquei sabendo que durante a disputa pela guarda dos gêmeos o senhor foi quase preso por causa das acusações dela, certo?

- Sinceramente eu só quero paz e ela bem longe de mim. Ela transformou os meus últimos dois anos num pesadelo.

- Bom, diante desses novos fatos só há uma decisão cabível.

Em uma semana, Mario singrou do ponto de ser desprezível à herói. Mario foi recepcionado com abraços e apertos de mãos. Dos seus funcionários, ex-ex-amigos, parentes, clientes e de pessoas que ele nunca havia visto na vida. - Eu sempre soube que as acusações daquela bruxa eram mentirosas. - Frases desse tipo eram as que Mario mais passou a ouvir. Ele sabia que eram mentirosas, mas mesmo assim gostava de sentir o peso das acusações esvaindo de suas costas.

Mario subiu as escadas que levavam até sua casa e fez uma ligação. - Eu aceito a proposta. - O nisei nem ouviu a voz de quem estava do outro lado da linha, mas pela respiração reconheceu que era William. - Quero transformar minha petshop em uma filial da sua empresa. - A conversa foi encerrada com uma risada exagerada no outro lado da linha. Mario respondeu aquela gargalhada com uma própria antes de pôr o fone no seu lugar.

- Olá, meninos. - Disse Mario assim que encontrou seus filhos, Evandro e Maria, o esperando na sala da casa. Os gêmeos de quatorze anos foram indiretamente o motivo do divórcio do nisei. Após ver algo que a marcou bastante, Joana acusou seu ex de explorá-los sexualmente. Expondo-os a situações humilhantes e forçando-os a atos impróprios (para dizer o mínimo). Assim que os dois viram seu pai se aproximar, abaixaram a cabeça em sinal de subserviência. O nisei então fez um cafuné na cabeça dos dois, que se encolheram. Ambos não gostavam do seu toque.

- Crianças, temos um novo parceiro de brincadeiras. Olha que bonitinha. É uma garota. - Os irmãos se sentiram aliviados ao verem que o "parceiro de brincadeiras" mencionado por Mario era só um gato marrom. Por um momento eles temeram que fosse algo sexualizado.