Precisou de um tempo para assimilar o que estava acontecendo. Sentimentos difusos se mesclavam, a tristeza pela doença da mãe, a revolta por saber que não poderia fazer nada e a compaixão que sentia por sua tia e principalmente o seu pai, o responsável pelos cuidados com a mãe e quem provavelmente a veria morrer.

As férias que antes eram esperadas com tanta expectativa acabaram por se tornar sombrias e tristes como o prenúncio de um temporal.

Amélia se esforçava em manter a garota feliz. Alegando problemas particulares conseguiu uns dias longe do Ministério e as duas passavam os dias em casa, imersas em um silêncio que chegava a se perturbador. Sarah não se importava, na verdade o que a confortava era a presença da tia, saber que ela estava ao seu lado. Sentia-se menos infeliz. Havia um sentimento estranho, mas confortante em seu coração, a certeza de que quando a sua mãe morresse teria alguém ao seu lado, não iria se sentir totalmente perdida.

Em outras situações teria encarado com imenso prazer ser apresentada ao diretor de Hogwarts, mas naquelas circunstâncias, tudo parecia muito sem propósito e vazio.

Todos os dias pululavam cartas do pai e a cada correspondência sentia que ele estava travando uma luta que há muito já fora ganha.

Os comentários eram sempre os mesmos: "ela está abatida e com dor, mas medibruxos estiveram aqui hoje e agora ela está dormindo tranqüila"; "Essa madrugada ela acordou com dificuldade para respirar, está bastante fraca, mas acredito que após algumas doses do remédio novo, ela vai ficar bem"; "Ela não está se alimentando, os medibruxos dizem que não há mais nada que possa ser feito, apenas cuidar para que ela não sinta dor". Era estranho como em cada carta, ela podia sentir os sentimentos do pai. No início havia esperança, fé e ao final, apenas a resignação de que nada poderia mudar o curso do destino.

A noite estava fria e um vento gelado se fazia sentir, um clima atípico para aquela época do ano. Sarah estava debruçada na janela, o olhar perdido nas luzes que iluminavam Paris. Voltara de Londres há poucos dias, o início do curso de História da Arte se aproximava e, seguindo as vontades de sua mãe, tentaria, mesmo que sem sucesso, levar uma vida normal.

A briga entre a sua mãe e Dumbledore ainda ecoava em sua memória, poucas vezes havia presenciado acessos de fúria de sua mãe, mas aquele, talvez, fora o mais intenso. Não era uma raiva desmedida, era algo muito mais frio, um sentimento que parecia cultivado por anos a fio remoendo tristezas.

Uma lufada de vento chocou contra o seu rosto, enquanto sentia um arrepio estranho na espinha. Caminhou lentamente até o sofá e colocou um casaco. Sentada, ainda ficou um tempo admirando pela janela as luzes da cidade, quando ouviu o baque surdo na vidraça.

Correu até a janela a tempo de ver a coruja que pedia passagem. Uma ruga de compreensão formou-se em sua testa. Estranhamente, sabia não precisava ler a carta para saber do que se tratava.

Seus olhos correram pela carta do pai, escrita com uma letra tremida bem própria para a ocasião, que revelavam a dor e o medo pelo que estava passando. Sarah não precisou de mais do que alguns minutos para pegar algumas peças de roupa e sair porta afora rumo a Mont St Michel. Durante todo o percurso sentia algo entalado na garganta, como se estivesse prestes a sufocar.

Foi só quando chegou na frente da sua casa que entendeu a magnitude de tudo que estava vivendo. Sentia-se dentro de um caleidoscópio maluco que mostrava inúmeras cenas do seu passado, de sua infância, de tudo que havia vivido.

Naquele momento, a certeza de que nunca mais teria sua mãe atingiu-a em cheio.

Lágrimas grossas rolavam pelo seu rosto. Uma pena profunda e impiedosa se abatia sobre ela. Pena da sua mãe, por ter vivido uma vida que parecia tão vazia, pena do seu pai, que tinha ficado ao lado da mãe por todo esse tempo, sem receber, muitas vezes o reconhecimento e a alegria que merecia. E por ela mesma, que tinha dito a mãe que a amava muito menos vezes do que na realidade gostaria. O tempo não poderia voltar atrás e ela lamentava-se profundamente que nunca tenha realmente esboçado com palavras tudo o que sentia pela mãe.

O pai a aguardava na frente de casa ao lado da tia Amélia. Trazia uma expressão de paz capaz de aquecer o coração da garota. Talvez os dias passados ao lado da mãe em seus últimos dias tenham servido para que ele se conformasse e aceitasse melhor as circunstâncias.

Ao contrário dele, Amélia parecia imersa em sua dor. A expressão no rosto dela era de uma tristeza profunda, de dor. Os olhos vermelhos e inchados denunciavam a sua condição. Ao se aproximar deles, recebeu um abraço do seu pai que conseguia expressar muito mais do que palavras poderiam.

- Achamos melhor receber as pessoas que querem se despedir da sua mãe aqui. Já estamos com quase tudo preparado. – a voz da tia tentava transmitir uma confiança que ela tinha certeza que não possuía. Sarah apenas concordou com a cabeça enquanto entrava na casa e seus olhos corriam pela grande sala de estar ao lado.

Entrou no aposento e se aproximou devagar do meio da sala, alheia às pessoas que já se encontravam na casa prestando suas homenagens a mãe.

O caixão era marfim. A mãe parecia em paz, como se estivesse dormindo um sono tranqüilo que Sarah tinha certeza que ela jamais tinha tido em vida. Sentiu o cheiro de rosas quando se inclinou sobre o caixão e beijou a testa da mãe. Não havia emoção naquele momento, sabia que a mãe não estava mais lá.

Saiu da sala devagar e subiu as escadas até o seu quarto. Era estranho não ouvir os passos da mãe ecoando pelo corredor, não ouvir as recomendações e nem aquela vigilância desmedida que ela fazia sobre a filha.

Sentia-se em uma casa vazia, era como se os móveis tivessem sido tirados de lá.

Como já havia acontecido inúmeras vezes, a lembrança da sua mãe saindo do quarto da frente, aos prantos e carregada pelo seu pai veio a sua memória. Instintivamente se levantou e andou até a porta do quarto. Puxando a varinha de dentro do seu casaco encostou na maçaneta da porta e murmurou:

-Alomorra- um barulho metálico de travas sendo soltas chegou ao seu ouvido, momentos antes dela empurrar a porta e entrar no quarto escuro e fechar a porta atrás de si.

Forçando os olhos para se acostumar a penumbra do lugar, andou até a janela e entreabriu as cortinas. Raios de luar banhavam o aposento enquanto Sarah esquadrinhava todo o ambiente a sua volta: um conjunto de poltronas de veludo azul, algumas estantes com livros e uma pequena caixa que jazia sobre um console.

Tomou a caixa nos seus braços e sentou em uma das poltronas. Não sabia se era certo fazer aquilo, talvez sua mãe não aprovasse que ela invadisse a sua intimidade daquela maneira, mas Sarah não conseguia refrear esse impulso.

Os dedos da garota tocavam pela superfície de madeira forrada da caixa, uma estampa floreada e sem cor pelo tempo. Prestes a abrir a caixa, seu olhar foi desviado para a porta que se abria devagar.

-Achei que viria aqui. – O seu pai se aproximava da garota com um sorriso vacilante nos lábios. – Vai descobrir que essa caixa contém muitas lembranças ruins, mas tem algumas coisas bem agradáveis aí. – O pai sentava no braço da poltrona ocupada pela garota enquanto suspirava, parecendo saudoso.

-Posso abrir, então? –Sarah olhava ansiosa para o pai, que meneou a cabeça em concordância.

Os dedos da garota abriram o delicado tampo de madeira enquanto os seus olhos curiosos varriam o conteúdo. Fotos, muitas fotos.

-Deixa eu te mostrar. – O pai tomou a caixa da garota e colocando sobre o próprio colo começou a alcançar para a garota inúmeras fotos. Todas mostravam a mãe sorridente, feliz. Não havia marcas de tristeza no seu rosto, em quase todas Agatha gargalhava feliz, em meio a meia dúzia de amigos igualmente sorridentes e aparentemente satisfeitos com a vida que tinham. Em algumas delas havia inclusive o seu pai, muito mais jovem, os cabelos abundantes e menos grisalhos, rindo junto com os amigos. Um desfile de jovens alegres passou diante de seus olhos, fazendo Sarah se perguntar onde estariam todas esses amigos, e porque eles haviam perdido o contato com eles se pareciam tão próximos. Uma sombra de entendimento passava pela sua mente, talvez a garota já soubesse da resposta, mas queria a confirmação.

-Onde estão esses amigos que eu nunca vi, pai? – Sarah prendia a respiração enquanto encarava o homem, talvez já prevendo a resposta que teria.

O homem a encarou, sério, sinais do cansaço que sentia aflorado na sua expressão.

- Acredito que não precise saber da história completa e seus detalhes, isso não vai acrescentar em nada de bom na sua vida. – O pai suspirava pesadamente. – Muito pelo contrário.

A garota observou enquanto o pai pegava uma das fotos, a que mostrava o grupo de amigos abraçados, sorrindo.

-James e Lílian Potter- o homem apontava para duas pessoas, um moço de cabelos arrepiados, óculos e um semblante divertido e para a garota ao seu lado, ruiva, os cabelos resplandeciam na foto com uma intensidade tão grande quanto os seus olhos, de um verde oliva. – Foram mortos por Aquele-que-não-deve-ser-nomeado. – Sarah notou que o pai parecia perder-se em suas próprias recordações antes de continuar. – Marlene McKinnon e Peter Pettigrew - mais um suspiro enquanto apontava na foto para outros dois jovens – também estão mortos. Ao lado de Peter, Remus Lupin e ao lado dele Sirius Black.

Sua mãe fora amiga de Sirius Black. A garota assimilava essa idéia com estranheza. Todo mundo bruxo conhecia a história dos Potter, sabia o que tinha acontecido. Ela sabia que a mãe morava em Londres quando o pior da guerra acontecera. Desconfiava que ela pudesse ter tido algum envolvimento com as pessoas que foram mortas durante a mesma, mas não imaginava que os seus amigos, tinham tido um destino tão cruel como aquele. Achava que fora a morte do seu tio Edgar e de sua família os únicos responsáveis pela mãe ter desistido de tudo e ter fugido para a França. Nunca suspeitara de que a mãe tinha perdido outras pessoas que gostava daquela forma.

-Sirius Black não foi quem dedurou os Potter para Aquele-que-não-deve-ser-nomeado? – Sarah procurava não encarar o pai, que demonstrava uma expressão cada vez mais sombria a cada palavra da garota.

-Sirius Black foi direta ou indiretamente o responsável por todas essas mortes, Sarah. – O pai calmamente começava a recolocar as fotos dentro da caixa, tentando esboçar uma calma que a garota já não tinha tanta certeza que ele possuía.

Os olhos da bruxa foram atraídos para uma outra foto, que mostrava a mãe abraçada a Lílian e a outro rapaz. Em um primeiro momento Sarah pensou que fosse Sirius, os cabelos negros e compridos esvoaçando na foto. Um olhar mais atento permitia perceber que era outra pessoa. O garoto tinha a pele mais pálida que Black, não havia sorriso no seu rosto, mas uma expressão de indiferença quase sutil. Os olhos eram negros como o breu e o nariz de um formato levemente adunco.

-E quem é esse, pai? – o pai se inclinou em direção a foto e uma expressão ainda mais sombria de reconhecimento se fez presente em seu rosto.

-Não lembro, não deve ser ninguém importante. – O pai fechou a caixa de madeira com cuidado antes de estender os braços e colocar a caixa no colo da filha. – Fique com a caixa. Acho que no fundo é uma boa recordação. –Ele dava de ombros enquanto os seus olhos brilhavam intensamente, talvez cobertos por uma grossa camada de lágrimas que a semi-penumbra do quarto não permitia distinguir. – Mostra que um dia ela já foi verdadeiramente feliz. – O pai se levantou e caminhou devagar até a porta do quarto. – Não demore aí, tem muitas pessoas lá embaixo que vieram aqui também para dar um abraço em você.

Porém, antes de sair do quarto com a caixa aninhada em seus braços, a garota ficou ainda um bom tempo olhando para aquela foto. Achava curiosa a expressão irritadiça do jovem. Reparou que ele usava vestes de cores diferentes da mãe, ele não era grifinório, era sonserino.

Sarah achava injusto ter conhecido só naquele momento parte da história de Agatha. Aborrecia-se por pensar que talvez, se a mãe tivesse partilhado mais coisas com a menina, ela poderia ter ajudado de alguma maneira a mãe. Sentia-se frustrada por pensar em como por vezes fora injusta com a mãe. Inúmeras vezes a garota se pegou desejando que Agatha fosse diferente, que fosse mais extrovertida. Como fora injusta. Como poderia exigir outro comportamento da mãe além daquele, com tantas perdas que ela havia sofrido?

Algumas dezenas de pessoas deslizavam a sua frente durante o velório. Pessoas que Sarah nunca tinha visto mas que pareciam conhecer a sua mãe mais até do que ela. Amélia parecia irrequieta. Em diversas ocasiões a pegou olhando de esguelha em sua direção, como se estivesse conferindo se Sarah estava bem.

Pessoas influentes estavam lá, gente do Ministério que Sarah nunca tinha visto pessoalmente, só em notícias esporádicas nos jornais. Um grupo de bruxos idosos conversava a um canto da sala parecendo alarmados, enquanto sussurravam e trocavam informações de forma nervosa. O olhar de Sarah caiu sobre Dumbledore no meio das pessoas, exalando aquela aura de poder e magia, que apesar do pouco contato que tinha tido com a menina parecia tão característico.

A bruxa só queria que aquilo terminasse, queria poder voltar para Paris e enfrentar sozinha a sua perda. Um tempo sozinha seria o mais apropriado para colocar a sua mente em ordem, pensar em tudo que havia acontecido. O olhar da menina foi desviado até a janela. Achou esquisito ver aquele cão preto enorme rodeando os jardins. Não lembrava de nenhum vizinho nas redondezas ter um cachorro igual àquele. Sentiu a tia tocando em seu ombro e desviou a atenção da janela para a tia que, assim como ela, pensava que quanto antes terminassem a cerimônia melhor.

As cenas pareciam transcorrer em câmera lenta diante dos seus olhos enquanto observava seu pai e alguns de seus amigos carregando o caixão da sua mãe. Anestesiada, sentia-se flutuando diante do que acontecia, estranhamente alheia a tudo.

Por fim chegou a hora de voltar a Paris, voltar a sua vida.

Carregando as lembranças da mãe consigo, sentia que precisava de um tempo sozinha, precisava colocar a sua cabeça e seus sentimentos em ordem.