Capítulo 9

"A coragem não é a ausência do medo, mas a decisão de que algo é

mais importante do que o medo."

O Diário da Princesa


Os três estavam sentados em um murinho de pedra perto da casa dos pais de Hermione. Já era tarde, mas as luzes da casa ainda não haviam se apagado. O coração da garota batia forte em seu peito e ela ficou em silêncio tentando imaginar como seria quando seus pais finalmente lembrassem. Não sabia se ficariam apavorados, com raiva ou apenas felizes por terem a filha de volta. As diversas reações passavam pela cabeça pensativa dela enquanto esperavam o momento certo para entrarem em ação.

Quando a luz do segundo andar, aquela única ainda acesa, se apagou, os três se entreolharam. A boca de Hermione de repente ficou seca.

― Temos que esperar mais um pouco, até eles dormirem ― comentou Harry, ao ver a agitação da amiga.

Ela concordou e voltou a encarar os pés, que agora batiam impacientes na calçada.

― Você está bem? ― perguntou Rony ansioso.

― Um pouco nervosa ― admitiu ela, com um sorriso estranho. ― Mas não tanto quanto fiquei no outro dia. ― Encarou os dois amigos com uma expressão gentil. ― Provavelmente estaria surtando, se estivesse sozinha aqui.

― Não viemos antes porque você não quis ― riu Harry.

Hermione riu e concordou com a cabeça. Sentiu então Rony segurar de leve sua mão. Sorriu para ele e depois voltou a encarar os pés. Percebeu que sentir a mão quente de Rony lhe dava uma estranha sensação de segurança.

Passados alguns longos minutos, Harry se levantou.

― Acho que podemos ir ― expôs.

Hermione levantou tão depressa do lugar que Rony quase caiu para trás. Olharam em volta para ver se não havia ninguém, mas a essa hora da noite todos já deviam estar dormindo, porque a rua estava deserta. Cobriram-se então com a capa de invisibilidade até perceberem que, de suas canelas para baixo, tudo estava completamente descoberto.

― Crescemos um pouco ― lembrou Rony, entre o riso e pânico.

― Um pouco? ― repetiu Hermione, com a voz esganiçada. ― Tinha me esquecido desse detalhe. Vamos ter que ir de dois. Um fica e pode ficar vigiando...

― Ninguém vai ficar ― disse Harry, sentindo que seria o escolhido para ficar para trás. ― Vão vocês dois e depois o Rony volta e me busca.

Hermione franziu a testa por um momento, mas por fim concordou. Harry olhou em volta antes de sair debaixo da capa e esperar novamente no muro de pedra. Então ela e Rony seguiram para a casa, agora completamente invisíveis.

― Ande mais devagar, não consigo te acompanhar assim ― reclamou o ruivo. ― É difícil andar sem acabar descobrindo os pés...

― É só você andar direito! ― retorquiu Hermione. ― Parece que está querendo deslizar ao invés de andar, assim vai acab...

― Que estranho, estou ouvindo vozes ― falou Harry, para o que parecia ser o vento. Depois acrescentou em um sussurro: ― Querem calar a boca? De que adianta estarem invisíveis assim?

Rony e Hermione se entreolharam irritados debaixo da capa, mas se calaram. Atravessaram a rua e foram até a porta dos fundos da casa, onde Hermione murmurou um "Alorromora" e a porta se abriu magicamente.

― Vou entrar e você busca o Harry ― murmurou a garota. ― Vá em silêncio, eu espero na porta.

― É, eu vou em silêncio ― soltou Rony, um pouco aborrecido. ― Pode deixar.

Hermione ficou alguns minutos então encarando a cozinha de seus pais, aguardando os garotos. Como não queria acordar os pais, ficou parada ao lado da porta, sem se mexer, mas os olhos esquadrinhavam cada detalhe do aposento. Em algumas horas, apenas mais algumas, poderia estar falando com seus pais e eles poderiam já estar lembrando dela. O pensamento fez Hermione sorrir para o cômodo escuro e seu coração acelerou, alegre.

Harry e Rony entraram, tentando não fazer barulho. Quando a porta se fechou atrás deles, tiraram a capa e encararam Hermione.

― Vamos subir ― pediu ela em quase um sussurro. ― Quando estivermos lá em cima, vou entrar no quarto com a capa e vocês ficam do lado de fora. Quando eu não puder mais fazer o feitiço, entra algum de vocês. Depois vai o terceiro. Tudo bem?

Os dois concordaram com as cabeças. Subiram os degraus da casa com muito cuidado. Quando chegaram em frente à porta do quarto, Harry e Rony desejaram boa sorte apenas com os lábios e Hermione entrou, já coberta pela capa.

Seus pais, para seu alívio, estavam completamente adormecidos. Hermione apontou a varinha para eles e murmurou o feitiço, com somente um braço para fora da capa.

Eles não acordaram, mas começaram a se mexer um pouco, inquietos. Hermione sabia que os pensamentos estavam pipocando na mente dos dois. Ficou ali alguns minutos, mas a verdade é que pareceram horas. Quando sentiu suas pernas fraquejarem e seu corpo amolecer, percebeu que fizera tudo o que podia. Saiu do quarto e tirou a capa no mesmo instante, percebendo que sua testa estava molhada de suor.

― Hermione! ― murmurou Rony, segurando-a pelo braço enquanto ela parecia que ia cair no chão. ― O que houve?

― Só estou fraca ― sussurrou ela em resposta. ― Mas estou bem. Um de vocês precisa ir agora!

― Eu vou ― comunicou Harry. ― Rony, fica com ela aqui. Você vai por último.

O ruivo concordou e Harry, cobrindo-se com a capa, adentrou o quarto. Rony sentou Hermione no chão e começou a abanar os braços para fazer vento no rosto dela.

― Para quê serve a sua varinha? ― brincou Hermione, sussurrando. ― Você é um bruxo ou não é?

― Não me lembro o feitiço pra fazer vento. ― Rony corou.

Hermione riu baixinho, sem forças.

― Tudo bem, não precisa disso ― falou ela. ― Só preciso de um tempo.

Encostou então a cabeça na parede e ficou ali, respirando fundo, com os olhos fechados. Só levantou a cabeça quando ouviu Harry sair do quarto e tirar a capa.

― E então? ― perguntou Hermione rápido demais.

― Acho que tudo correu bem ― sussurrou Harry, sentando ao lado dela. ― Sua vez, Rony.

Harry estava pálido. Hermione viu que o amigo chegara ao limite do que poderia fazer e agradeceu-o com um sorriso.

― Pegue ― falou Harry entregando a capa ao amigo.

Rony não a pegou. Ficou encarando o objeto com um leve desespero no rosto.

― Rony ― chamou Hermione, os olhos arregalados de espanto. ― É a sua vez.

O ruivo engoliu em seco.

― Não... não sei se posso fazer isso.

Harry e Hermione se entreolharam.

― O quê? ― finalmente Hermione falou, com a voz fina. ― Mas... mas você...

Ela não conseguiu dizer mais nada, tal era sua indignação. Levantou o mais depressa que pôde e desceu as escadas da casa, indo aninhar-se no sofá. Não acreditava que Rony pudesse se acovardar em uma hora dessas. De que adiantava atravessar o mundo para ajudá-la, se na hora que precisava ele dava pra trás?

Alguns minutos depois Harry desceu as escadas também e sentou ao lado de Hermione no sofá.

― Ele foi. Está tudo bem.

Hermione se virou para a sombra escura de Harry.

― Por que ele fez aquilo? Por que veio se bem na hora ele...?

Houve um silêncio momentâneo.

― Ele estava com medo de fazer errado e estragar tudo ― justificou Harry.

― Não o defenda, por favor ― pediu ela, cruzando os braços.

Não falaram mais nada até Rony aparecer. Ele se aproximou dos dois e jogou a capa no colo de Harry.

― Deu certo ― falou o ruivo, baixinho. ― Acho que acabou. Senti, sabe... como se não tivesse mais nada pra... tirar.

― É engraçado esse feitiço, não é? ― Harry tentou manter a conversa ao nível amigável. ― Parece que a gente sabe mesmo, o quanto falta e tudo mais.

Hermione suspirou.

― Obrigada, você dois ― falou ela, numa voz estranha. ― Vocês, hã, podem ir embora... Eu vou ficar aqui até de manhã.

― Não vamos deixar você ― garantiu Harry.

― Por favor ― pediu então Hermione, com a voz firme. ― Eu preciso ficar sozinha. E amanhã preciso falar com eles também sozinha.

Harry entendeu que Hermione não ia voltar atrás. Rony abriu a boca pra dizer alguma coisa, mas Hermione o interrompeu apenas com um olhar.

― Vão, por favor.

Os dois obedeceram. Entraram embaixo da capa e saíram pisando leve pela porta dos fundos. Hermione deitou se encolhendo no sofá, sentindo o sono incontrolável chegar.


A garota só acordou de manhã. As vozes no andar de cima, embora muito baixas, a despertaram como se fossem gritos. Sentou-se imediatamente, seu coração descontrolado batendo no peito, e esperou apenas alguns segundos antes dos pais aparecerem na escada, vestindo robes por cima dos pijamas. Os olhos de Hermione encontraram os da mãe e depois os do pai. Os três, naquele silêncio completo, se entreolhavam com uma espécie de choque no rosto. Mas havia muito mais do que esta expressão surpresa no rosto do casal. E Hermione sentiu a intensidade daquilo como se fosse algo quente que estivesse cobrindo-a. Era o reconhecimento.


N.A.: Não deixem de comentar! xxx