DIAS DE COMPETIÇÃO
O auditório estava cheio, não lotado. Era um público maior do que esperávamos para o horário das quatro da tarde. Éramos o quarto coral a se apresentar. O terceiro grupo, Strawberry Fields, de Salen High Oregon, estava apresentando uma música da Taylor Swift. Não muito feliz, em minha opinião. A música é adolescente, doce e fraca demais, apesar da artista em questão ser uma das mais bem-sucedidas, comercialmente falando, destes últimos anos. Não faz o meu gênero e pela reação fria da platéia, diria que a escola do Oregon teria problemas em se classificar. Quando a luz apagou pela primeira vez na sala de espera, era o sinal de cinco minutos para entrarmos. Podia sentir a apreensão do nosso time crescendo.
Finn estava com aquele olhar distante, perdido. Logo começaria a andar de um lado para outro e depois ia fazer movimentos como se fosse começar a se aquecer para um jogo de futebol americano. Artie estalava os dedos, Tina olhava para todo mundo como se estivesse zangada, Lauren fazia flexões, Mike se alongava, Kurt tinha aquele olhar de quem iria sair correndo e Quinn ficava encostada em uma cadeira como se estivesse passando mal. Olhei para Finn. Depois olhei para Quinn. Precisava me encostar em alguém antes de entrar no palco e não poderia ser em nenhum dos dois. Sobrou Santana.
"Como está?" – perguntei a minha irmã.
"Eu vou acabar com eles" – a confiança dela era sempre notável nesses momentos.
"Tomara, porque se você vacilar no início, eu te mato. Eu apostei a minha pele em você!"
"Rachel... relaxa."
Santana seria a voz principal. Era uma jogada usar a brincadeira "e se Amy Winehouse cantasse Lou Reed no The Velvet Underground" e quem tinha o timbre de voz mais próximo ao que se pretendia era Santana. Claro que a forcei assistir umas duas aulas de canto comigo e também a fazer os exercícios para melhorar o vibrato e as tremulações.
As luzes piscaram. Sinal de irmos para a coxia o palco. Os meninos da nossa banda já estavam posicionados. A nossa apresentação teria a formação clássica bateria-guitarra-baixo, mas com arranjo um pouco mais pesado e pulsante do que o original. Ato 1: drogas.
Todos correram para as posições iniciais formando a letra "M", com Santana à frente e ao centro do palco. Contagem regressiva, os meninos começam a tocar de uma vez. Forma-se uma parede sonora ensurdecedora que vai baixando o volume à medida que a cortina se abre. A iluminação é escura a princípio, com um spot sobre uma Santana vestida com calça jeans, all star preto e camiseta preta regata.
"I'm wainting for my man/ 26 dollars in my hand/ Up to Lexington, 125/ Feel sick and dirty, more dead than alive/ I'm waiting for my man". Enquanto Santana cantava a primeira estrofe sozinha, começamos a evoluir atrás. As luzes iam bailando, evoluindo. A parede sonora estava firme, mas sem sobressair-se à voz. Finn e Noah unem-se a minha irmã, revezando-se entre versos da segunda estrofe. "Hey, white boy, what you doin'uptown?/ Hey, White boy, you chasin'our women around?/ Oh pardon me sir, it's the furthest from my mind/ I'm Just lookin' for a dear, dear friend of mine". E todos cantam juntos "I'm waiting for my man".
O coral interfere mais na terceira estrofe, as luzes estão mais claras, brilhantes. "Here He comes, he's all dressed in Black RP shoes and a big straw hat/ He's never early, he's always late/ First thing you learn is you always gotta wait/ I'm waiting for my man". Então entra a segunda música, com arranjo alterado para poder se adequar melhor a primeira canção. Todas as vozes formam uma onda poderosa, estimulante. "We passed upon the stairs, we spoke of was and when/ Although i wasn't there, He Said i was his friend/ which came as some surprise i spoke into his eyes/ i thought you died alone, a long long time ago/ oh no, not me/ we never lost control/ you're face to face/ with the man who sold the world"
Finn, Noah e Santana voltam a intercalar-se enquanto o resto do coral fazia a sua parte para sustentar a harmonia. "Up to a brownstone, up three flights of stairs/ everybody's pinned you, but nobody cares. He's got the woks, gives you sweet taste/ ah then you gotta split because you got no time to waste". E todos cantam "i'm waiting for my man". Gradualmente voltamos as nossas posições iniciais, a luz escurece e Santana tem novamente o solo. "baby don't you holler, darlin' don't you bawl and shout/ i'm feeling good, you know i'm gonna work it on out/ i'm felling good, i'm feeling oh so fine/ till tomorrow, but that's Just other time/ i'm waiting for my man". E a nossa apresentação termina conosco em forma de "M" com Santana ao centro e o spot em cima dela.
Ouvimos o auditório explodir em palmas, com os presentes recebendo o final da nossa apresentação de pé. Nós corremos em direção ao centro do palco, onde estava a minha irmã e nos curvamos em agradecimento. Mais do que isso: sentia que estávamos dentro, que retornaríamos na sexta-feira. Quando as luzes se acenderam na coxia e as cortinas se fecharam, a movimentação era intensa para o próximo coral. Os meninos da banda mal desplugavam os instrumentos e outros músicos já estavam ali presentes para ocupar o lugar, menos a bateria, que era a mesma para todos. Mas nós nos permitimos ficar ali um pouco para comemorar e baixar a adrenalina.
Nem parecia que Sam estava com dor de cotovelo por causa de Quinn, que Artie não suportava ficar perto de Santana por muito tempo, que Finn e Noah estavam se estranhando, que Santana e Quinn estavam muito próximas saírem no braço, ou que boa parte dos integrantes do coral apenas me tolerava. Finn me abraçou, me levantou do chão e me girou no ar. Depois me deu um rápido beijo nos lábios na frente de todos.
"Por favor, desocupem a área" – um dos organizadores ordenou e nós obedecemos para evitar problemas como multas e desclassificações.
Saímos comemorando entre os corredores dos camarins até chegar ao nosso (que deveria ser rapidamente desocupado).
"Então Rachel, a sua tortura diária para que eu fizesse os exercícios adiantou?"
"Diria que foi um trabalho acima das expectativas" – sorri e abracei Santana. Deus sabe a dificuldade que foi fazer essa criatura trabalhar e ao mesmo tempo estar preparada a correr ao menor sinal de que ela fosse pular no meu pescoço para me esgoelar.
O professor Schuester entrou no nosso camarim animado, dando "high fives".
"Pessoal, vocês foram soberbos. Eu quis bater em mim mesmo por quase não permitir esse número. Mas a coreografia..."
"Tivemos de fazer algumas alterações" – expliquei.
"A original não tinha a agressividade necessária" – Mike levantou a mão para falar. Achava gozado esse jeitão dele – "e como o senhor precisou se ausentar, eu assumi a direção..."
De acordo com as regras, no mínimo os capitães e o coordenador do coral tinham de estar presentes quando os resultados fossem anunciados, por isso o restante do time foi dispensado para aproveitar o resto da tarde e a noite. Até mesmo eu e Finn poderíamos ir embora e só voltar na hora do anúncio. Mas eu queria e precisava conhecer os outros competidores, e o professor Schue também faria o mesmo. Finn optou por voltar mais tarde. Mas não antes de tentar me convencer em vão em sair de lá. Quinn, para a minha surpresa, tirou a máquina fotográfica da mochila e ficou.
"Vou aproveitar e registrar algumas imagens. Quem sabe eu não pego coisas inusitadas?" – ela disse num tom quase indiferente enquanto comprávamos água mineral. Sempre que ela me beijava, agia como se nada tivesse acontecido no dia seguinte. Mas ontem foi diferente das outras duas vezes. Não estava na hora de sentarmos e conversarmos a respeito? Ou será que ela estava agindo dessa forma por causa de Finn?
Deu vontade de fazer um interrogatório, mas o intervalo de 15 minutos para o segundo bloco de apresentações estava acabando. Enquanto o time ia se dispersando, sentei-me em uma das cadeiras desocupadas logo ao lado do professor Schue e me concentrei nas apresentações. O segundo bloco era mais forte que o nosso, onde nós fomos os melhores. O coral de Steinbeck High, da Carolina do Norte, era mais tradicionalista e menos performático. Porém muito sólido e organizado. Outro concorrente fortíssimo era o coral da casa, de Nova York. Era quase como ver o filme "Mudança de Hábito 2" com a Lauryn Hill e o Jay Z à frente. Precisei tomar um pouco de ar no intervalo.
"Estamos tão mal assim?" – Quinn me encontrou no hall de entrada.
"Esse bloco de cinco foi muito forte, e o Vocal Adrenalina ainda nem se apresentou."
"Ei" – Quinn pôs a mão no meu rosto – "vai dar certo, ok?"
"Será? E se eu briguei tanto com o professor para no final estar errada?"
"O que eu vi é que o público nos ovacionou e por mais que eu odeie admitir, Santana, Puck e Finn foram acima das expectativas. Os meninos da banda fizeram um arranjo excelente. Não há o que temer, Rachel."
"Queria ter a sua confiança."
"Vamos fazer uma aposta. Sem ao menos ver o terceiro bloco, eu te garanto que nós vamos nos classificar entre os cinco primeiros" – eu tentei contra argumentar, mas Quinn levantou o dedo em advertência para que eu esperasse ela terminar – "e se isso se confirmar, você vai ficar me devendo um favor. Digo qual será quando chegar o momento."
"E se a gente não conseguir?"
"Aí quem vai dever um favor sou eu."
Olhei para ela ainda em calça jeans e camiseta preta com estampa do Iron Maiden. Ela era linda, mesmo quando mal-trajada. Essa minha caída estava ficando séria.
"Quinn... sobre ontem..."
"Eu sei. Precisamos conversar. Hoje, no terraço do albergue?" – acenei positivo.
A campainha de alerta para que todos se sentassem tocou. Eu fui para a mesma poltrona onde o professor Schue e eu estávamos anteriormente. Quinn sentou-se na fileira atrás, mas ficou afastada de nós. O primeiro coral, do Texas, era tecnicamente muito bom, mas acredito que erraram na escolha da música: Johnny Cash não se encaixava bem no formato. Neste meio tempo, Finn, Kurt e Mercedes voltaram ao auditório já com outras roupas e banho tomado. Senti inveja do banho tomado. Então veio o Vocal Adrenalina performático e perfeito como sempre, mas com uma diferença fundamental: Corazón Sunshine era uma presença estranha apesar da voz impressionante. De certa maneira, eu preferia as lideranças robóticas e perfeitas de Jesse e Giselle no palco com Shelby na direção. Gostei mesmo foi do Lived Kennedys (referência a banda Dead Kennedys), de Idaho: era um grupo mínimo, como o nosso, porém mais homogêneo. Fizeram um mash-up impressionante do The Black Eyed Peas.
Finn segurou a minha mão na hora do resultado e beijou o meu rosto, pedindo confiança. Não quis olhar para Quinn que estava logo atrás de nós, junto com Kurt e Mercedes. Parecia uma crueldade proposital, mas a organização resolveu anunciar do 10° ao 1°, deixando os eliminados presentes no palco até o último nome. Passaram os cinco primeiros e nada do Novas Direções. O coral de Carolina do Norte classificou-se em sexto. Para a surpresa minha e dos demais do Novas Direções, o Vocal Adrenalina foi anunciado em quinto lugar. O diretor não fez cara de feliz. O grupo de Nova York foi o quarto e meu nervosismo só aumentava.
"Em terceiro lugar, ficou o Novas Direções, de Lima, Ohio."
Finn imediatamente me abraçou e me levantou do chão pela segunda vez naquele dia. Nós estávamos classificados em terceiro lugar entre 15 fortes competidores. Professor Schue recebeu o "medalhão" simbólico, que registrava nossa conquista e tivemos de sair do palco para continuar comemorando na lateral. O Lived Kennedys ficou em segundo lugar. O vencedor da primeira eliminatória foi New Beats, de Riverside, Califórnia. Para mim foi uma surpresa porque eu até considerava o número com música de Bruce Springsteen bom o suficiente para se classificar. Jamais para vencer. Vi como um sinal de que as nacionais trariam resultados surpreendentes de alguma forma. Só não sei se seria para bem ou para o mal.
...
Estava ansiosa para chegar ao albergue e finalmente ter a minha conversa. Precisava entender esse relacionamento, essa atração gigantesca que estava sentindo. Precisava entender se eu realmente ainda queria que Finn tivesse lugar na minha vida como namorado. Por isso optei por voltar ao albergue sozinha em um dos bancos da van porque seria complexo ficar ao lado dela ou de Finn enquanto minha mente estava bagunçada. Finn não tinha a menor noção desse meu recente duplo affair, e Quinn estava com aquele olhar de "eu sou a grande bitch" que fazia melhor do que ninguém: muito difícil de interpretar o que há por trás dele. De toda forma, tão logo Quinn me desse um sinal, nós iríamos para aquele telhado ter a nossa conversa.
"Schuester" – um dos garotos da banda correu até nos no hall – "problemas."
Ele nos levou até um dos quartos, onde estava acontecendo certa algazarra. Vimos Santana, Noah, Sam bêbados e parcialmente pelados jogando strip poker contra outros dois caras e uma garota do coral adversário. E havia uma platéia considerável ao redor.
"TODOS, FORA!" – professor Schuester gritou. Na mesma hora, a técnica deles chegou nada feliz, gritando com os alunos dela. Logo o quarto se esvaziou, deixando apenas os seis jogadores parcialmente pelados – "VISTAM-SE, AGORA!" – e virou-se mais discreto para mim – "é melhor você ir ajudar a sua irmã."
Santana estava mal, só de calcinha e sutiã. Ela colocou a blusa com alguma dificuldade. Então eu e Brittany corremos para ajudá-la a colocar a calça. Vi que algumas garotas ajudavam a outra menina, que estava só de calcinha, enquanto os garotos se viravam. Eles não pareciam estar tão mal assim. Noah aparentava ser o mais sóbrio do grupo de seis. Coloquei o braço de Santana sobre os meus ombros e a ajudei a sair do quarto. Quinn me auxiliou, abrindo passagem.
"Eu disse para você não jogar!" – Brittany broqueou – "Mas você nunca me ouve!"
"Eu ia arrasar eles" – Santana falou com bafo de tequila – "Schuuu é um estraga prazer."
Não dei a minha opinião. Se falasse qualquer coisa direcionada a minha irmã, seria para xingar até a quinta geração dos futuros filhos dela. Era melhor deixar a bronca para depois.
"Brit! Pega roupas limpas da mala dela? Se o armário estiver trancado, pegue roupas da minha mala" – passei um molho de chaves – "é a preta" – e olhei para Quinn – "você me ajuda a colocá-la no chuveiro?" – ela acenou positivo.
"O quê? Eu não quero que essa daí me veja pelada!" – Santana resmungou – "Essa amarelona é uma gay frustrada" – e se virou para mim como se fosse dizer uma confidência, só que para todo mundo ouvir – "cuidado que ela está a fim de te pegar. Eu não quero ver as patas dela em cima de você, Ray... porque senão, vou ter que bater nela..." – Santana estava enrolando todos os "erres" – "ouviu isso, puta? Eu vou te dar porrada se você chegar perto..."
"Quer saber?" – Quinn abriu a porta do banheiro para que eu pudesse entrar com Santana – "Bêbada ou não, ela é problema seu, Rachel. Eu não tenho que ouvir esse tipo de desaforo. Brittany te ajuda a lidar com a bebedeira da sua irmã. Ela já está acostumada a fazer isso mesmo."
Eu só poderia imaginar o quanto Brittany estaria acostumada. Só tinha visto Santana completamente bêbada uma única vez na festinha que fizemos lá em casa. Ainda assim, ela ainda foi capaz de subir as escadas sozinhas e deitar na cama dela. Apesar de nunca freqüentar as festas das cheerios e dos garotos populares, sabia que Santana exagerava com alguma freqüência só pela ressaca que ela chegava em casa ou mesmo na escola no outro dia. Ela nunca ia para casa bêbada e acho que por respeito ou por temor aos meus pais, principalmente pelo meu pai. Sempre ficavam tristes quando ela mostrava estar de ressaca. Mas desde que papai morreu, até por passar a ir menos a festas, não se encontrava mais sinais de bebedeira em Santana. Talvez Nova York e o stress que passamos tenham contribuído.
Estava quase conseguindo tirar a roupa da minha irmã, que estava até colaborativa, quando Brittany chegou com um pijama meu, toalha, listerine, aspirinas e uma garrafa de água.
"A gente precisa fazê-la beber água e tomar os remédios agora" – ela alertou – "vai fazer com passe menos mal amanhã."
Ainda debaixo do chuveiro, Santana foi surpreendentemente cooperativa. Enquanto a corrente fria caía sobre o corpo, ela tomou a água mineral e os remédios sem precisar de insistência. Pensei que Quinn estivesse mesmo com a razão: Brittany estava habituada com a situação por lembra de coisas, como listerine e aspirinas, que eu nunca pensaria no calor do momento. Tão logo Santana saiu do chuveiro, Brittany passou a toalha pelas costas a enxugando com cuidado. O cabelo foi o último. Eu ajudei a vestir as roupas, a escovar os cabelos. Por último, Santana fez uso do listerine. Estava melhor quando saiu do banheiro, ainda assim, fiz questão de apará-la passando o meu braço firme na cintura dela.
"Hoje você dorme em baixo" – sentei-me ao lado.
"Boa noite..." – foi se aninhando sem maiores cerimônias. Eu peguei a manta e a cobri.
Quinn não estava no quarto, mas Kurt, Mercedes e Tina já estavam de prontidão, inclusive com um copo pequeno de café em mãos, mas ajuda extra àquela altura era desnecessária. A verdade é que eu estava exausta e a bebedeira de Santana só foi a cereja do bolo. Pensei em Quinn e imaginei que talvez ela estivesse no telhado. Resolvi conferir e, sorrateira, subi as escadas. Minha intuição não me enganou.
"Resolveu o problema da sua irmã?" – Quinn disse sem ao menos se virar para mim e eu começava a odiar esse hábito. Ela estava sentada logo naquelas espreguiçadeiras nojentas.
"Ela está dormindo. Brit e os outros estão lá no quarto."
"Pelo menos Lopez 1 deixou bem clara a opinião dela ao meu respeito. Hipócrita. Quem vê assim até pensa que ela é a capitã heterossexual."
"Ela estava bêbada."
"Bêbados costumam ser muito sinceros" – Quinn levantou-se e foi em minha direção. Expressão de bitch travada no rosto. Senti-me acuada – "Acho que é válido aproveitarmos para conversar".
"Co... concordo".
"Vou deixar algumas coisas bem claras aqui, Rachel. Eu gosto de você, e quero ficar contigo. Pelo menos fazer uma tentativa para saber se a gente poderia dar certo e queria saber se você também está disposta".
"Talvez sim".
"Correto..." – ela ficou me circulando como uma predadora – "Mas há um problema aqui: Finn Hudson. Sei que vocês ainda se beijam pelos cantos. Acontece que eu não sou boa em dividir, entende?" – olhou de um jeito meio bravo, meio sério, que achei sexy e aterrorizador ao mesmo tempo. Apenas gesticulei positivo – "Não pense que você pode ficar comigo e com Finn ao mesmo tempo mais ou menos da mesma forma que a sua irmãzinha faz com Brittany e Puck. Saiba que eu não sou de sair beijando pessoas à toa. Não sou dessas. Se você quiser tentar ficar comigo, publicamente ou não, então você vai ficar comigo e mais ninguém."
"É justo."
"Ótimo. Então o que me diz?"
"Eu... eu... eu... será que você podia não fazer essa cara de quem vai me jogar um slushie a qualquer momento? Isso me deixa nervosa!" – ela deu dois passos para trás e eu respirei um pouco – "Não vou te enganar, Quinn. O que sinto por Finn ainda é forte e não creio que esse sentimento vá acabar num estalar de dedos. Mas eu também sinto essa atração maluca por você e tenho essa ansiedade dentro de mim de viver algo novo. Um romance novo. Ter novas expectativas. E você está aqui me oferecendo justo isso. Mas eu preciso pensar Quinn".
"Entendo! Eu vou te dar espaço. Mas não demore muito com a resposta, ok?" – acenei positivo – "Acho melhor a gente descer. O dia foi longo."
...
Boa coisa ter ficado em terceiro lugar na primeira eliminatória: a posição fez com que o Novas Direções se apresentasse no segundo bloco, que começaria às sete da noite. Não só por ser na parte nobre da competição, mas porque significava que eu poderia passar a manhã toda dormindo. Santana passou mal de madrugada. Vomitou e precisou tomar um segundo banho por estar encharcada de suor. Eu ajudei a fazer tudo isso mais silenciosamente possível para não acordar as outras meninas. Infelizmente Quinn acordou. Parecia que ela tinha sono leve, mas fiz sinal para que ela continuasse deitada. Se ajudasse, seria capaz de Santana a destratar e eu não tinha ânimo para agüentar essas coisas pela madrugada.
"Rachel, eu não estou doente!" – Santana resmungou. Em poucos minutos o nosso coral sairia do albergue para ir ao auditório. Decidi aproveitar o tempo para tentar tirar um pouco da rouquidão dela com chá e mel.
"Eu não estou cuidando de você, só da sua garganta, ou se esqueceu que você vai cantar uma das músicas e ainda fazer o alto nas linhas finais? Ah, claro que você se esqueceu! Porque foi beber todas ontem."
"Álcool amacia as cordas vocais."
"Se você não beber esse negócio em cinco minutos, juro que te esgoelo e você não vai precisar cantar mais nada."
Queria ter acompanhado o primeiro bloco das eliminatórias. Mas entendo que diante das circunstâncias era melhor descansar e concentrar o melhor possível. Fiquei preocupada por nosso grupo mostrar sinais de abatimento. Noah estava calado. Ele tinha me abordado mais cedo, me explicando que ele não deixaria que nada acontecesse a Santana e que o professor Schuester fez tempestade em copo d'água. Rebati que nada aconteceria a ela na cama dos outros: só na dele. Sam também estava sem-graça por causa da bebedeira. Mike sentiu um pequeno incômodo na panturrilha (e o entupimos com bananas), Finn estava confuso por eu não ter permitido que me beijasse e Artie parecia que ia explodir de nervoso por conta do primeiro solo dele em competições. Vestimos nossas roupas. Figurino preto e branco elegante. Professor Schue deu um sermão motivador 10 minutos antes da nossa entrada, mas o meu maior estímulo já havia sido dado quando vi a mensagem no celular: meu pai estava na platéia.
Nada de entrar por trás desta vez. Nossa apresentação começava com Mike e Brittany evoluindo em uma batida forte vinda de pick-ups com projeções diretas na cortina. Mercedes entra no lado esquerdo do palco e o nosso ato 2: drogas/sexo, tem início. "I remember when, i remember, i remember when i lost my mind/ There was something so pleasant about that phase/ even your emotions had na echo/ In so much space". Artie surgia pela direita do palco. "And when you're out there, without care/ yeah, i was out of touch/ but it wasn't because i didn't know enough/ i Just knew too much".
No refrão, que os dois cantaram juntos, juro que ouvi a platéia já em coro: "Does that make me crazy?/ does that make me crazy?/ does that make me crazy?/ possibly". Atrás da cortina, ouvíamos urros provavelmente causados pela coreografia de Mike e Brit. Mercedes e Artie continuavam a intercalar as vozes nos versos, formando um conjunto harmônico interessante. "And i hope that you are having the time of your life/ but think twice, that's my only advice/ come on now, who do you, who do you, who do you, who do you think you are?/ Há há há, bless your soul/ you really think you're in control". Agora tive a certeza que a platéia estava cantando junto quando o refrão veio mais forte: "Well, i think you're crazy/ i think you're crazy/ i think you're crazy/ Just like me".
As cortinas se abrem revelando o restante do Novas Direções, Mike, Brit, Mercedes e Artie começam a tomar novos lugares no palco. A iluminação continua propositadamente baixa com as projeções, agora sobre nós. "My heroes had the heart to lose their lives out on a limb/ and all i remember is thinking 'i want to be like them'/ ever since i was a little, ever since a was little it looked like fun/ and it's no coincidence i've come/ and i can die when i've done". Do palco, enquanto dançávamos e já cantávamos com toda a força dos pulmões, tive de me segurar e não me deixar levar pela platéia de pé, pulando com a batida forte da pick-up. "Maybe i'm crazy/ maybe you're crazy/ maybe we're crazy/ probably".
Fomos ovacionados, mas não podíamos nos desconcentrar. Ainda faltava a segunda parte da apresentação (que seguia as regras de no mínimo cinco e no máximo 10 minutos). Mantivemos nossas posições – do mesmo lugar que terminamos, seria como começaríamos a seguinte. Começamos a vocalizar "Toxic" com algumas adaptações em relação a nossa primeira apresentação na escola que terminou de forma constrangedora. Em vez do professor Schuester, Noah: ele tinha o apelo necessário para a música, afinal, exalava sexo. O público continuou vindo abaixo enquanto eu, Noah e Brittany fazíamos nossas linhas de solo com Santana funcionando como um permanente backing vocal. Santana fez as linhas de alto finais e nem parecia que passou o dia com alguma rouquidão. Mais uma vez o público explodiu em palmas.
Nós explodimos nos bastidores mais uma vez. De tão animados (e sabendo que não precisaríamos correr para desocupar o camarim), sequer vimos à apresentação do grupo de Nova York, que seria o penúltimo. O time abatido do início da tarde não existia mais. Decidimos permanecer juntos nos bastidores até que a organização chamasse os times para anunciar os cinco grandes finalistas. Por uma ironia, foi justo nesse momento que eu soube qual seria a minha escolha. Finn estava segurando a minha mão, mas quem eu realmente queria estar perto era de Quinn. Procurei-a com os olhos. Fui encontrá-la à minha esquerda ao lado de Tina. Ela olha para mim com a testa franzida. Soltei a minha mão de Finn e a encarei. Disse silenciosamente, só articulando com a boca para leitura labial: "Você".
Os organizadores chamaram os times. Em quinto lugar ficou o Vocal Adrenalina e mais uma vez o time não saiu do palco satisfeito. O Lived Kennedys, de Idaho, também marcou presença na grande final com o quarto lugar nas eliminatórias, e foi bom para nós por ser um grupo com o número mínimo de integrantes. Em terceiro ficou o grupo de Nova York e o time texano que passou em 10° na eliminatória do dia anterior com a apresentação sem-graça de Johnny Cash se recuperou e cravou o segundo lugar. Só havia lugar para mais um e meu coração estava quase saindo pela boca. Agarrei a mão de alguém e apertei – era de Kurt. Quando o apresentador anunciou o Novas Direções, de Lima, Ohio, aí sim tive certeza que meu coração tinha saído pela boca. O grupo todo se abraçou e pulou no palco, como se tivéssemos recebido o prêmio máximo. Como era bom ser vencedor às vezes.
O nosso grupo comemorou feito louco nos bastidores. No meio dessa confusão, aproveitei para puxar Quinn para um camarim vazio e fechei a porta. Ela me encostou contra a parede e nos beijamos com paixão.
...
Após muitos abraços e lágrimas de alegria, Santana me encontrou no meio de tanta gente e me puxou para fora dos bastidores para que a gente pudesse encontrar nosso pai na saída do auditório. Ele havia feito reservas no Felidia Ristorante, um dos melhores restaurantes de comida italiana de NYC. Quando chegamos até nosso pai, a surpresa: Shelby estava com ele. Olhei para Santana, que olhou de volta para mim. Não é que a gente não gostasse da companhia da nossa mãe. Depois que papai morreu, ela e Beth passaram a nos visitar com freqüência razoável e nós fomos até a casa dela para almoços em duas ocasiões. Mas não esperávamos a presença dela em Nova York, sobretudo na companhia do meu pai. Abraçamos primeiro nosso pai e eu abracei Shelby em seguida. Santana, como sempre, foi mais fria e apenas deu um beijo rápido no rosto, como aqueles cumprimentos de brasileiros que vi uma vez.
"O que você está fazendo aqui? Cadê Beth?" – Santana adorava nossa irmãzinha.
"Eu vim torcer por vocês" – Shelby sorriu para mim – "e a noite não é apropriada para um bebezinho, não acha?" – a voz era de advertência para Santana. Sempre era assim – "Beth ficou no hotel com minha mãe."
Não conhecíamos a nossa avó materna e tão pouco ouvimos histórias sobre ela. Só sabíamos que ela estava viva e que morava em Greenville, Ohio, uma cidade menor do que Lima. Olhei para Santana que movimentou os ombros em sinal de "tanto faz". Entramos no taxi em direção a 58th street onde a maior interação era entre meu pai e Shelby como se fossem velhos amigos. Vi quando Santana cruzou os braços e apertou os olhos. Algo me dizia que o jantar ia render.
O restaurante era maravilhoso. Além da tradicional comida italiana, ele ainda oferecia um vasto cardápio para vegetarianos – não vegans. Precisei abrir mão dos meus princípios por uma noite para comer ingredientes feitos com derivados de leite, mas essa era a única exceção que fazia. A lasanha vegetariana estava espetacular e ficava melhor ainda com a conversa agradável entre eu, Shelby e meu pai.
"A sua técnica melhorou muito, Santana" – Shelby tentou trazer minha irmã para a conversa.
"É porque você não a viu ontem. Ela foi a nossa principal jogadora" – meu elogio era sincero – "ficamos em terceiro na eliminatória de 15 times fortes."
"Rachel me azucrinou para fazer exercícios de técnica" – e isso foi a primeira coisa que Santana falou além do pedido.
"Fazer os exercícios é fundamental..."
"Por que você está aqui?" – Santana a cortou e eu parei de comer apreensiva – "Digo, sinceramente?"
"Santana!" – meu pai reagiu – "Isso não é jeito de falar com a sua mãe. Ela está aqui como minha convidada e eu exijo respeito."
"Vocês estão tendo um caso?" – ela disparou e meu pai deu um murro na mesa, chamando atenção de outros fregueses. Parecia que todo mundo parou de respirar.
"Se a gente tiver, isso não é da sua conta. Agora termine de comer."
Ficamos em silêncio e o bater dos talheres no prato ficou ensurdecedor. Acontece que Santana tinha um ponto aqui. A presença de Shelby em si não era grande coisa. Mas a forma como ela interagia com meu pai mostrava um grau de intimidade considerável. Eles se tocavam discretamente, mas eram gestos desnecessários em situações normais. Era como se eles procurassem qualquer desculpa para encostar um no outro.
"Pai" – tomei coragem de falar – "Não entenda como se eu quisesse meter na vida do senhor, ou da minha mãe, mas se por um acaso vocês estiverem... se conhecendo... acredito que Santana e eu merecemos saber. E caso vocês estejam aqui só como amigos, não vejo o porquê do clima de guerra. Era só ter dito que 'não'."
Shelby, que estava ao meu lado, encarou o meu pai e ele respirou fundo com expressão de "eu não acredito que isso esteja acontecendo". Então ele simplesmente balançou os ombros em sinal de "tanto faz", exatamente como Santana costuma fazer.
"Sei pai e eu estamos nos conhecendo."
Esta aí era uma resposta padrão para: estamos fazendo sexo sem compromisso por enquanto. Foi a minha vez de ficar chateada. Em situações normais, acho que qualquer garoto ficaria feliz em saber que os pais estão se acertando. Nosso caso era muito diferente. Meu pai era viúvo há apenas cinco meses de um homem que nós todos amamos incondicionalmente. E Shelby, por mais que fosse a nossa mãe biológica, era ainda uma quase estranha em nossa vida familiar.
"Por favor, só me diga que a inseminação foi mesmo artificial" – Santana soltou a bomba e eu só fechei os olhos à espera do impacto.
Meu pai jogou o guardanapo na mesa com raiva e saiu para tomar um ar. Estava certa que ele agrediria Santana se ficasse à mesa. Shelby encarou minha irmã, deixando claro que não ia permitir que ela vencesse.
"O que posso dizer, Santana... apenas um óvulo foi fertilizado artificialmente. O outro foi rompido por um espermatozóide após uma longa corrida. Sabe, essas coisas que acontecem depois de uma noite deliciosa" – Santana ficou vermelha... o meu rosto também estava quente de raiva e de vergonha – "Seu pai e eu não estamos fazendo nada de errado!" – Shelby endureceu o rosto. A voz dela era firme – "Ele não está traindo Hiram. Nunca traiu. Hiram iria querer que Juan seguisse em frente. É isso que ele está tentando fazer. Nós somos adultos responsáveis e independentes. Sim, temos duas filhas geradas numa situação especial, num laboratório, há pouco mais de 17 anos. Mas nós descobrimos que temos muitas outras coisas em comum e aprendemos a nos gostar. Vocês não precisam aprovar do nosso envolvimento, mas espero que respeitem."
"Ele é gay, Corcoran..." – depois de um olhar assassino, Santana corrigiu – "Shelby."
"Mais uma vez, Santana, eu sou adulta e sei onde piso."
"Acho que a gente só precisa se acostumar com a idéia" – falei depois de um longo tempo – "a senhora há de concordar que essa situação não foi introduzida da maneira apropriada."
Depois da cena, nossa fome passou e pedimos a conta. Meu pai chamou um taxi para Santana e eu. Pagou adiantado. Garantiu que ele e Shelby estariam presentes na grande final e eu sei que ele cumpriria a palavra.
"Isso é repugnante!" – Santana esbravejou no táxi – "Shelby é perigosa. Será que papi não vê?"
"Ela é a nossa mãe... e talvez essa relação faça bem ao nosso pai."
"Você é ingênua, Rachel. Eu não compro essa história nem em um milhão de anos!"
"Só acho que a gente tem que dar o benefício da dúvida a Shelby. Ela tem se esforçado."
Santana se calou pelo resto do caminho. No albergue, pude ver que o coral da Carolina do Norte agora estava mais à vontade. Talvez os garotos fossem sair por aí, aproveitar um pouco da vida noturna de Nova York agora que não estavam mais na competição. Os integrantes do Novas Direções estavam já recolhidos. Santana pegou roupas limpas e foi direto para o banho, não falou com ninguém. Quinn me encarou como se quisesse ter uma conversa telepática e eu fiz sinal para que conversássemos lá fora.
"O que aconteceu?" – Quinn perguntou logo que chegamos ao telhado. Já estava de pijamas e vestia um casaco grosso de frio.
"Minha mãe e meu pai estão de caso. Santana surtou. Não foi bonito."
"Oh..." – ela me beijou de leve e me abraçou, tentando me envolver com o casaco de frio dela.
Permiti-me apreciar um pouco o calor bom do corpo de Quinn e fechei os olhos.
"Beth está na cidade?" – ela perguntou de supetão.
"Sim, aparentemente no hotel com a avó... minha avó... que eu nem conheço."
Quinn viu Beth em mais uma ocasião após a morte de papai. Ela estava satisfeita com os termos estabelecidos por Shelby para visitas, que sim, eram justos. O próximo encontro da minha irmãzinha com Quinn seria na festa de aniversário de um ano. Quinn não comentou, mas acho que podia arriscar em dizer que ela estava mais ansiosa por este evento do que pela grande final. Nos beijamos mais uma vez, dessa vez com qualidade, profundidade.
"Então... isso tudo quer dizer que nós vamos tentar" – ela sorriu.
"Acho que sim!" – disse abraçada a ela. Sorrimos uma para outra.
"Então está na hora de cobrar o meu favor".
"Qual é?"
"Eu sei que a sua irmã vai surtar ainda mais quando descobrir. O favor que eu peço é para você não permitir, ao máximo que for possível, que ela fique entre nós" – acenei positivo. Quinn tinha suas razões para me pedir tal favor. Sem querer, ás vezes eu deixava Santana se meter demais na minha vida.
"Acho melhor a gente voltar"
Quinn me deu um último beijo rápido, porém suave, antes de descermos de volta aos quartos. Precisava tomar um banho e descansar. A grande final não seria fácil e eu tinha coisas demais na cabeça para absorver.
...
Toda a equipe estava nervosa com as finais. Jacob fez algumas perguntas cretinas para o tal documentário, mas nem isso aliviou a tensão. Ficamos todos no albergue na maior parte do tempo até a saída para o auditório. A exceção foi a hora que Quinn e eu escapamos para almoçarmos em um lugar diferente do restaurante habitual, logo no quarteirão seguinte, onde poderíamos começar a namorar sem que os outros tomassem conhecimento.
O auditório estava lotado. Havia gente em pé nos corredores laterais. E aquele era o maior local que qualquer um de nós já havia se apresentado na vida. Era seguro dizer que estávamos diante do nosso maior público. Quinn começou a reclamar do estômago, eu estava suando frio, Mike se queixou de novo da panturrilha (ele não teria de dançar como no segundo dia mesmo!), Mercedes mostrava tranqüilidade e Santana... ela passou o dia todo distraída, sem falar com ninguém. Ficaria mais preocupada com minha irmã, mas aquele era o momento da grande competição. Tinha de focar em uma coisa ou outra.
Colocamos nossos figurinos. Todos com calças jeans velhas, desbotadas, camisetas que representavam o estilo e personalidade de cada um e all stars. A ordem de apresentação seguiria a classificação do dia anterior, ou seja, o Vocal Adrenalina abriria os shows e nós encerraríamos. Como o auditório estava lotado, não tínhamos cadeiras reservadas, mas poderíamos assistir aos outros grupos de pé em dois dos camarotes que a organização reservou para atender os cinco grupos. O Vocal Adrenalina tentou uma jogada esperta ao fazer um pot-pourri de temas do James Bond (aproveitando que Pierce Brosnan era um dos jurados-celebridade). Mais uma vez, a voz de Corazón Sunshine foi perfeita, principalmente em "Live and Let Die" e "Goldfinger", mas a sua presença era estranha, mesmo com toda a dança, cenário e performance impecáveis. Talvez num show individual, só dela, tivesse mais impacto. Os aplausos foram longos, fortes, mas não entusiasmados.
Lived Kennedys foi o primeiro a entrar na linha do pop-rock popular ao fazer duas canções do Coldplay. A recepção foi praticamente a mesma do Vocal Adrenalina. O grupo de Nova York emocionou com um arranjo belíssimo de "No Woman No Cry" que transitava entre a versão original de Bob Marley e uma mais recente do Fugees. Tenho de admitir que foram épicos e não à toa receberam os primeiros a serem aplaudidos de pé, ovacionados. O grupo texano também surpreendeu. Abriram a apresentação com uma versão reduzida de "Oye Como Va", do Carlos Santana. Não era difícil para um americano cantar, uma vez que a letra tinha apenas dois versos e era preenchida com longos solos de guitarra. De qualquer maneira, serviu para que eles fizessem um bom número de dança. Tenho certeza que no meio do público, meu pai estava com um sorriso de orelha a orelha. Depois entraram com "Runaway" de Del Shannon. Ficou engraçado, mas foi uma sensação.
A campanhinha soou. Era o sinal para que a gente se recolhesse para a sala de espera. A impressão que tinha era de um rombo no estômago. Depois de Santana, Mercedes e Artie, agora a responsabilidade estava em minhas mãos. O coral se posicionou. Quinn e eu ficamos propositadamente por último. A gente não podia fazer nenhuma demonstração de carinho explícita ou os outros perceberiam. Finn perceberia e eu ainda não tinha conversado com ele. Quinn pegou na minha mão e apertou. Desejou "quebre a perna" com um gesto de carinho discreto antes de se posicionar. Eu sorri. Ato 3: rock'n'roll
O Novas Direções foi apresentado, as cortinas se abriram e o grupo começou a vocalizar. Eu entrei. "She's got a smile that it seems to me/ reminds of childhood memories/ where everything was as fresh/ as the bright blue Sky". Quinn sai da posição do grupo, que continuava a vocalizar com a marcação de um violão, e passou a fazer a segunda voz, evoluindo a coreografia junto comigo. "Now and then when i see her face/she takes me away to that special place/ and if i stere too long/ i'd probably break down and cry". O coral interferia. "ohh! sweet child o'mine/ ohh! Sweet Love of' mine". A bateria e o baixo começavam a acompanhar e eu voltava a fazer o solo. "She's got eyes of the bluest skies/ as if they thought of rain/ i hate to look into those eyes/ and see an ounce of pain". Novamente Quinn era a minha segunda voz. "Her hair reminds me of a warm safe place/ where as a child i'd hide/ and pray for the thurner and the rain/ to quietly pass me by". E o coral encerrava "ohh! Sweet child o'mine/ ohh! Sweet Love of' mine".
Nossa versão foi bem produzida, os jogos de luzes foram perfeitos e eu costumava ganhar confiança após cantar a primeira estrofe. A coreografia também era ótima, dinâmica. Ganhamos muitos aplausos, tão intensos quando o do Vocal Adrenalina, porém, com o público em pé. Mas ainda não havia acabado. As luzes explodiram, nós começamos a pular no palco como malucos numa música pesada. Ouvimos urros vindos da platéia assim que reconheceram os riffs iniciais de guitarra. Fui para frente do palco quando a guitarrista dedilhou. E cantei com toda a agressividade que tinha. "Load up on guns and bring your friends/ it's fun to lose and to pretend/ she's over bored and self assured/ oh, no, i know a dirty Word". Artie, Sam, Tina e Quinn vocalizaram "hello, hello, hello, how low...".
A banda aumentava a agressividade na batida e a gente cantava com toda a energia que tínhamos com a minha voz liderando o coral. "With the lights out it's less dangerous/ here we are now entertain us/ i feel stupid and contagious/ here we are now entertain us/ a mulato, an albino, a mosquito, my libido/ yeah! Yay!". A melodia acalmava e u voltava com o solo. "I'm worse at what i do Best/ and for this gift i feel blessed/ our little group has always been/ and always Will until the end". Agora era Finn, Mike, Santana e Brittany quem vocalizavam "hello, hello, hello, how low...". Voltávamos para o refrão comigo mais gritando do que cantando.
Continuei a interpretar o melhor que podia na última sequência. "And i forget Just why i teste/ oh yeah, i guess it makes me smile/ i found it hard, it's hard to find/ oh well, whatever, nevermind". Artie, Noah, Mercedes, Kurt e Lauren quem vocalizavam "hello, hello, hello, how low...". Antes de explodir para o refrão pela última vez, no final esgoelando "a denial". O público explodiu em aplausos e tenho certeza que se o teto fosse mais baixo, teria um ou dois malucos pendurados nele. Uma delícia ser ovacionados pelo terceiro dia seguido. Fomos perfeitos tecnicamente na primeira música e épicos no caos durante a segunda. Quem iria imaginar que Nirvana poderia ser usado num coral?
Os jurados se recolheram e teriam 15 minutos para a decisão e nos recolhemos para o camarim. Não queríamos ver ninguém, não queríamos nos espalhar. Professor Schuester disse algumas palavras elogiosas, de que independente do resultado ele estava orgulhoso do trabalho e etc. Sentei-me no sofá ao lado de Kurt e Mike. Segurei a mão do meu amigo e assim permaneci até que sermos avisados para ir ao palco ouvir o resultado final.
Seria Pierce Brosnan quem anunciaria os vencedores e entregaria os troféus (quando o coral aproveitava para tirar fotos com o ex-007). Em quinto lugar ficou o Lived Kennedys. Era mais ou menos o que previa, mas eles saíram felizes. Então o primeiro resultado levemente contestado pelo público: o grupo texano conquistou apenas a quarta colocação. Vaias constrangedoras para os jurados. Em terceiro ficou o Vocal Adrenalina e ali eles encerraram a pior campanha dos últimos cinco anos do grupo. Não deixava de ser impressionante.
Sobraram nós e o grupo de Nova York. Deveria ficar feliz em já ter o vice-campeonato garantido, o que seria histórico. Fizemos uma campanha vencedora, com conceito, coerência. Chegamos sempre entre os três primeiros em todas as etapas. Seria a nossa justiça. Brosnan fez suspense, o público também parecia apreensivo. A apresentação caótica, visceral, ou a cheia de sentimentos de consolação? Revolta ou esperança?
"Novas Direções!" – gritou Brosnan.
Aplausos, reconhecimento... os perdedores venceram. Chorei. Todos choraram.
...
Uns vinte minutos depois do pronunciamento do resultado, já mais calmos, alguns homens começaram a circular entre os camarins, distribuindo cartões. Um homem de aproximadamente 30 e poucos anos deu cartões para mim, Santana, Quinn, Mike e Brittany.
"Vamos fazer a seleção de elenco na próxima semana, na quarta. É uma peça de curtíssima temporada que vamos testar neste verão e estamos procurando jovens como vocês. Rostos desconhecidos, entende? Gostaria que vocês fizessem o teste neste endereço. Quando chegarem, digam que vieram do concurso de corais. Daremos prioridade."
Quando o homem foi embora, olhei bem para o cartão.
"Esse cara é muito esquisito. Não acha que é uma fraude?" – Quinn me perguntou.
"Dificilmente... esses nomes aqui no cartão... são dos produtores do musical American Idiot."
