Oh, do you care,
I still feel for you
So aware,
What should be lost is there
Nightwish
Em algum momento antes de acordar, ele viu Belatriz em seu sonho, e ele ainda sentia o cheiro da pele dela. Os cabelos despenteados estavam cheios de areia molhada, mais compridos do que na verdade eram, e ela usava uma camisa úmida de botões aberta por cima da calcinha. Ela estava bastante bonita, e havia um pouco de areia em seus tornozelos e nos pés nus. Ela não estava cheirando a maçã, e sim a maresia e a sol; sentara no colo de Sirius e lhe beijara o nariz, fazendo cócegas em seu pescoço com os dedos longos. Eles estavam vendo o pôr-do-sol em Hogsmeade, e ele podia escutar a arrebentação do mar nas colinas, mas não havia mar, nem vilarejo lá em baixo. No lugar que devia ser ocupado pelo mar havia uma tela branca de TV, do tamanho de um estádio de futebol. Quando Sirius olhou para o meio dela, viu apenas o próprio reflexo, e não o de Belatriz, como se ele estivesse abraçando o vazio.
Mas ele sentia carne sob suas mãos tépidas.
Em seguida ele foi para o telhado de uma casa, e a carne de Belatriz foi substituída pelo metal liso de um cata-vento. Agarrou-se ao cata-vento e, ao pé da parede, um buraco com um veleiro encalhado no fundo abria a boca para ele. Em seguida estava nu sobre uma cama junto a uma mulher que ele nunca vira antes, sentindo seu calor e imaginando, segundo os princípios de uma lógica onírica, que Belatriz estava em outro aposento da casa, observando-os pelo vídeo; de repente, um corvo veio se chocar contra a vidraça, e os cacos de vidro se espalharam pela cama como cubos de gelo, e Sirius, novamente vestido, inclinou-se para o pássaro.
O corvo arquejou. Jamie disse do chão: "Meu pescoço está doendo." E Sirius acordou antes de poder dizer "É porque está quebrado."
Ele acordou com a impressão de que o sonho circulava dentro dele como óleo no motor de um carro, espalhando sujeira no canto de seus olhos e em sua língua. Acordou com Dorcas ajoelhada em cima dele, as mãos em seus ombros. Ela estava dizendo: "Está tudo bem, tudo bem," num leve sussurro.
Ele estava bem ciente de suas pernas contra as dele quando disse "O quê?"
"Está tudo bem," disse ela. "Foi só um sonho."
O quarto estava escuro feito breu, mas a luz explodia por trás da pesada cortina. "Que horas são?" Perguntou ele.
Dorcas se levantou. "São três horas da tarde de segunda-feira."
"Eu dormi dezesseis horas?"
"Lembra da Uzi? Pois é."
"Você já falou com Gideão e Dumbledore? Mostrou a eles a metralhadora? Mais alguma novidade?"
"Um monte. Mas elas podem esperar. Você está bem?"
"Sim. Ouça, vou tomar um banho, vestir uma roupa limpa, comer um sanduíche. Depois vou para a Ordem."
Sirius conseguiu se por de pé. Entrou debaixo do chuveiro e abriu a torneira. Saiu, tirou as roupas e voltou para o chuveiro. A ducha estava quente e ele foi aumentando a temperatura. Saiu do banho depois de uns vinte minutos e se enxugou devagar, as narinas ainda impregnadas do odor de areia e mar de seu sonho e mais um cheiro amargo que ele custou a identificar. Em algum lugar do vapor do banho, Sirius disse a si mesmo, encontrava-se a resposta, o alívio, o ponto de apoio necessário para superar a próxima etapa – fosse ela qual fosse – e deixar tudo isso para trás. Mas o vapor se dissipou e restou apenas ele, o banheiro e o cheiro de queimado.
Ele enrolou a toalha na cintura, entrou na cozinha e deu com Dorcas carbonizando um bife no fogão. Dorcas costumava cozinhar uma vez a cada ano bissexto, sem o menor sucesso. Se dependesse dela, trocaria sua cozinha por um balcão de comida para viagem.
Instintivamente, ele levantou a toalha para cobrir a cicatriz e passou o braço em volta do próprio corpo para fechar o gás. Ela se voltou em seus braços, o peito contra o dele e – o que revelava bem o seu estado de espírito – Sirius afastou-a de si para ver se não havia outros estragos no fogão.
"O que fiz de errado?" Dorcas perguntou.
"Acho que o primeiro erro foi acender o fogão."
Ela bateu na nuca dele. "Vai demorar um bocado antes de me pegarem cozinhando de novo para você."
"E dizem que o Natal é só uma vez por ano," ele deu as costas para o fogão e a surpreendeu o olhando como se olha para uma criancinha andando à beira de uma piscina. "Obrigado pelo gesto. Mesmo."
Ela deu de ombros, continuou olhando para ele; os olhos cor de chuva estavam quentes e ligeiramente úmidos. "Você está precisando de um abraço, Sirius?"
"Ah, sim," ele respondeu.
Tinha vezes que Dorcas era tudo que havia de bom. Era como o primeiro sabor da primavera nas tardes de sábado quando a gente tem dez anos, como a boca da noite na praia, no verão, quando a areia está numa temperatura agradável e as ondas têm a cor do uísque. Seu abraço era firme, seu corpo pleno e macio, e seu coração batia rapidamente contra o peito nu de Sirius.
Ele é que tomou a iniciativa de se afastar. "Bem..." ele disse.
Dorcas sorriu. "Você está todo molhado, Black. Minha blusa ficou toda encharcada." Ela deu um passo para trás.
"Às vezes isso acontece quando a gente toma banho."
Ele subiu novamente e quando voltou, poucos minutos depois, estava vestindo um suéter vermelho tamanho grande e calça jeans.
Dorcas veio da pia da cozinha ao seu encontro com um sanduíche num prato. "Acho que não corro riscos com pratos frios."
"Você não tentou cozinhá-lo ou coisa assim, não é?"
Ela lhe lançou aquele olhar.
Sirius compreendeu a mensagem e pegou o sanduíche. Ela sentou do outro lado do sofá enquanto ele comia. Presunto e queijo. Um pouco carregado na mostarda, mas fora isso, estava ótimo. "Qual é a versão de Gideão?"
"A mesma que a sua. A diferença é que ele vai vasculhar tudo que puder sobre a arma de qualquer maneira."
Ele balançou a cabeça, continuando a mastigar.
Dorcas disse: "Mas guardei minha versão para ser apresentada hoje. Ela vai suplantar a sua, Sirius."
Sirius deu de ombros, mastigou mais um pouco e ela tirou o sanduíche de perto dele. "Oh! Que garota brava."
"É por isso que somos uma dupla, Black. Porque você está sempre errado e eu estou sempre certa. Deve haver equilíbrio entre as coisas."
"Gideão está do meu lado."
"Tem mais uma coisa. Jamie."
Sirius pigarreou e curvou-se para frente na poltrona. "Quando isso vai acabar?"
"Está só começando."
"Espere aqui."
Ele subiu depressa, chegou bem a tempo de vomitar o sanduíche na privada. Deu a descarga e ficou um bom tempo ajoelhado nos ladrilhos frios; o banheiro cheirava a xampu, a fumaça e a medo. Era a terceira vez, em três noites, que ele vomitava. Talvez estivesse ficando com bulimia. Ao descer as escadas, escutou Dorcas dizendo: "Estava tão ruim assim?"
Sirius tentou pensar em alguma coisa engraçada para dizer, mas não veio nada em sua mente. Ele passou a mão no rosto, depois foi à geladeira e bebeu leite pelo gargalo. A metade da garrafa. Sentiu o líquido revirando e batendo contra as paredes de seu estômago. Ficou um tempo parado, até ter certeza de que não iria regurgitar o leite também.
"Sabe," disse Dorcas lá da sala. "Você é o cara mais sensível que eu já conheci. Quer ouvir o resto agora ou mais tarde?"
Ele sentou no sofá e balançou a cabeça.
"Smith foi achado ontem a noite numa floresta, na divisa entre a Inglaterra e a Escócia." Ela não disse 'morto' mas era uma questão de ligar os pontos.
O cara estava desaparecido há mais de dois meses. Dois dias depois da morte de Jamie, eles localizaram sua casa em Liverpool e foram até lá, dando de cara com um aposento que podia ter sido um dia uma sala, mas que naquele momento lembrava muito uma casa após a passagem de um F5.
Mas, mesmo assim, Dorcas acrescentou: "Morto, com a boca escancarada e com chaveiros no lugar dos órgãos."
"Chaveiros?"
"Sim, centenas deles. Recolhemos alguns e levamos para a Ordem."
"Chaveiros," disse ele.
Não se podia aparatar na Ordem por motivos lógicos. Dorcas tinha um Volaré verde-escuro, o Vomosntro. Fizeram o trajeto até Berkeley Street em menos de dez minutos. A cidade estava vazia. Era um feriado para os trouxas, alguma coisa relacionada à rainha que Sirius não conseguia se lembrar. Todo mundo resolvera viajar. Durante o trajeto, Sirius e Dorcas viram algo cujo privilégio a poucos londrinos foi dado ver – espaços vagos para estacionar. Em cada um deles Sirius pedia a Dorcas que parasse, estacionasse e depois saísse, só para ver como se sentia numa situação dessas.
Entraram na Ashford Street e se acharam numa rua estreita e cheia de antigos galpões abandonados. Na década de oitenta havia funcionado ali um mercado, e por aquela mesma rua transitavam pessoas de todas as idades e abarrotavam-se caminhões de peixe em fila única. A Ordem havia monopolizado os galpões da esquerda para transformar na sede, de modo que se alguém chegava perto da Ashford Street, tinha uma repentina dor-de-barriga ou um desejo incontrolável de passar direto.
Sirius e Dorcas entraram, e o olho móvel de Moody deu uma guinada na órbita e se voltou na direção da porta.
"Agora ele vai querer," disse Moody.
"O que é que eu vou querer?" Perguntou Sirius, tirando o casaco.
"Não estamos falando de você," retrucou Moody. Ele apontou o dedo na direção de Tiago, que estava analisando os impressos que Sirius recebera com tanta atenção que não parecia estar respirando. "Ele não está querendo fazer uma despedida de solteiro."
"Humm," fez Sirius. Dorcas jogou o sobretudo em cima do casaco dele, na cadeira.
Beijo apareceu trazendo um caderno de anotações amassado. Ele atirou o caderno na mesa, e o caderno bateu na mão de Moody. Se fosse qualquer outra pessoa que tivesse feito aquilo, alguém teria acabado morto. Mas Moody não se incomodaria mesmo que Beijo tivesse atirado água quente em sua mão. A vida é assim, o que se pode fazer?
"Esse seu parceiro, hein, Dorcas..." disse Beijo.
"Agora você entende porquê eu pedi para trabalhar com Lupin?" Disse ela, sorrindo e erguendo uma sobrancelha. Essa Dorcas era muito engraçada.
"Anne estava recebendo fotos," disse Sirius, enquanto Dorcas, Beijo e um Dédalo recém-surgido com o nariz vermelho como se tivesse tido um acesso de espirros sentaram-se à mesa. Gideão veio logo atrás de Dédalo e mal havia encostado a bunda na cadeira, acendeu um charuto. "Alguém verificou o endereço de Jamie Parkers aqui?"
Todos olharam para Tiago, agora analisando alguma coisa no chão.
"Anton Boulevard, 546, Highgate," disse Tiago do fundo da sala. Sirius se inclinou para ver o que estava no chão. Eram os chaveiros, espalhados aos pés dele em saquinhos ensangüentados. "Foi onde ela ficou morando quando voltou da Irlanda," ele pegou os saquinhos e começou a arremessá-los numa caixa.
"No momento a casa está fechada," disse Gideão, soltando um pouco de fumaça pelos cantos da boca. "Conseguimos ontem o certificado de óbito do pai dela. Ela era sozinha."
"A não ser por Smith," murmurou Dédalo, o rosto parecendo turvo por trás da fumaça de Gideão.
Beijo se levantou e foi para a cozinha. Dorcas pegou o caderno que ele deixara na mesa e abriu.
"Smith Parkers, vinte e quatro anos, um metro e setenta e oito, branco, cabelos castanhos, olhos castanhos. Trabalhava como mensageiro no Ministério, filho de um bruxo com uma trouxa. Querem rir? Ele tentou cortar os pulsos quando Jamie se mudou para a Irlanda."
Beijo voltou com uma garrafa de cidra na mão. Gideão o olhou, molhou os lábios, apagou o charuto e foi até a cozinha.
"Então ele não foi para a Irlanda com ela," disse Sirius.
"Ele entrou em depressão, perdeu tudo e mais um pouco e, alguns meses depois que Jamie voltou, ele arrumou o emprego no Ministério. Um mês depois, desapareceu."
"Para quem ele trabalhava no Ministério?" Perguntou Tiago. Agora que tinha erguido a cabeça e seu rosto recebia um pouco de luz que a janela filtrava, Sirius percebia uma vermelhidão e um cansaço em seus olhos.
Dorcas folheou o caderno. "Era o mensageiro no Departamento de Execução das Leis da Magia."
Tiago deu um sorriso morto. "O Departamento de Lúcio Malfoy."
Dorcas escreveu alguma coisa no caderno e o fechou. "Isso está virando uma bola de neve."
Gideão voltou com um sanduíche do tamanho de um balaço na mão e Lupin e Pedro chegaram. Moody os lançou um olhar seco com seu olho fixo.
"Sinto muito, Alastor," disse Lupin com a voz macia. Ele trazia uma outra caixa.
"A reunião começou há..."
"Senta aí, Aluado," Beijo indicou a cadeira vaga a sua frente, onde estivera apoiando os pés. Depois franziu o cenho para Moody, cujo olho azul-elétrico fixou-se nele.
Lupin não se sentou. Ao invés disso, colocou a caixa no centro da mesa, obrigando Dorcas a descruzar os tornozelos e colocá-los no chão, e em seguida meteu a mão dentro dela e deixou cair na mesa um punhado de...
"Adesivos de pára-choque," disse ele.
Sirius se inclinou na mesa e espalhou-os para que pudessem ver melhor. Sim, adesivos de pára-choque, dezenas deles, milhares. Lupin emborcou a caixa e deixou o resto cair. Sirius sentiu Pedro deslizar a seu lado, pondo-se entre ele e Dorcas. Os adesivos criavam sobre a mesa uma mistura colorida de pretos, vermelhos, azuis e tons irisados brilhantes. Contemplando aquele monte de adesivos, Sirius tinha a impressão de se encontrar num universo cheio de rabugice, conceitos ocos e busca desesperada de uma fórmula chocante:
CARINHO SIM, DROGA NÃO; SOU A FAVOR DA ESCOLHA E VOTO; AME SUA MÃE; NÃO SE PODE RECUSAR UMA CRIANÇA; ADORO ENGARRAFAMENTOS; SE NÃO GOSTA DE COMO DIRIJO DISQUE 0800- BEBA-MIJO; SE EU SOU UMA TARTARUGA, SUA MULHER É UMA LESMA; VOTE EM TED KENEDY E JOGUE UMA LOIRA NA ÁGUA; SE VOCÊ É CONTRA O ABORTO, NÃO O FAÇA; MEU CHEFE É UM CARPINTEIRO JUDEU; ESTOU GASTANDO A HERANÇA DE MEU FILHO; SE VOCÊ É RICO E BONITO, BUZINE; O ÓDIO NÃO É UM VALOR FAMILIAR; MERGULHADORES VÃO FUNDO; EU PREFERIA ESTAR PESCANDO; FODA-SE; MEU FILHO É O PRIMEIRO DA CLASSE; TENHA UM BOM DIA, BABACA; LIBERTEM O TIBETE; LIBERTEM MANDELA; LIBERTEM O HAITI; AJUDEM A SOMÁLIA...
...e mais outros tantos.
"Recebi hoje pelo correio," Lupin falou.
"Que loucura," disse Dorcas.
"É, acho que esse é o termo," disse Tiago. "Você consegue ver um ponto comum nessa tralha toda?" Perguntou a Lupin.
"Para mim estes adesivos são como os impressos," disse ele.
"Como assim?" Perguntou Sirius.
"Eles querem que partilhemos do mal-estar pós-moderno. Do tipo: o mundo está perdido e não tem conserto, milhares de vozes gritam bobagens umas às outras e nenhuma delas tem o menor efeito sobre qualquer das demais; entre nós é impossível qualquer comunicação, não existe conhecimento adquirido coletivamente, nem um sistema de explicação global. Essas crianças desaparecem todos os dias e a gente diz 'Que coisa horrível. Me passe o sal'." Ele olhou para os outros, os olhos cor de caramelo derretido tão tranqüilos que chegavam a ser apáticos. "Vocês acham que tem a ver?"
"Talvez," disse Sirius.
"Você fala bonito, rapaz," disse Gideão.
"Sim, tem a ver," comentou Pedro.
Dorcas balançou a cabeça. "Bobagem."
"Como?"
"Bobagem," disse ela. "Talvez tenha um pouco disso, mas não é o essencial da mensagem. Lupin, lembre-se de que estamos lidando com Tom Riddle, e ele odeia trouxas, e essa sua hipótese os coloca num pedestal," ela coçou a nuca brevemente, o tempo de suspirar como se aquilo tudo estivesse cansando sua beleza. "Tom matou Jamie, e estava apenas esperando a hora de agir, ou antes, estava planejando a coisa há seis anos. Não foi daí que partimos?"
Ele fez que sim.
Ela balançou a cabeça e olhou-o por um instante. "Do que, em sua vida, você não consegue abrir mão?"
"Como?"
"Seu vício."
Lupin sorriu e desviou o olhar, ligeiramente embaraçado. "Livros."
"Livros," disse Beijo Fenwick rindo.
Lupin voltou-separa ele e perguntou suavemente: "Que tem de errado nisso?"
"Nada. Nada," respondeu Beijo com um gesto displicente.
"Que tipo de livros?" Perguntou Dorcas.
"Os mais estranhos," disse Lupin um tanto timidamente. "Dentes e Garras, Através da Noite, Sete Dragões, sete pedaços..."
"E se eles fossem proibidos?" Perguntou Dorcas.
"Eu desobedeceria à lei."
"Que rebelde," disse Gideão Prewett. "Estou impressionado."
O olho de Moody continuava fitando Beijo. Então ele o retirou e o afundou no copo com água de Dédalo.
"E você, Gideão?"
"Comida," disse Gideão dando tapinhas na barriga. "Não comida saudável, mas uma boa comida que faz mal ao coração. Bife, costela de porco, ovos, frango frito e molho."
"Estou chocado," comentou Beijo, no que os cantos da boca de Pedro caíram enquanto suas sobrancelhas se erguiam numa careta impressionada.
"Dane-se," disse Gideão. "Isso só me abre o apetite."
"Beijo?"
"Bebida," disse ele. E fez questão de frisar: "Álcool."
"Sirius?"
"Sexo."
"Você é um devasso, Black," disse Beijo, dando um sorriso sinistro.
"Muito bem," disse Dorcas. "Essas são as coisas que nos mantêm vivos, que tornam a vida tolerável. Livros, bebidas, comida, álcool e sexo. Nós somos isso," ela tornou a por os pés na mesa, sobre os adesivos ainda espalhados pelo tampo. "E ele? O que é essencial para ele?"
"Matar," disse Sirius, em coro com Beijo e Dédalo.
"É isso que eu imagino," disse ela.
"Então," disse Lupin. "Se ele ficou sem isso durante seis anos..."
"Ele não agüentaria," disse Moody, sorrindo para Dorcas de um modo que raramente sorria para as pessoas. "De jeito nenhum."
"Mas ele cometia os assassinatos discretamente," continuou Dorcas, levantando o polegar por cima do ombro e indicando a pilha de impressos lá no fundo, onde Tiago estivera sentado. "Até agora."
"Ele andou matando crianças," murmurou Gideão, os olhos vidrados na fumaça do próprio charuto.
"Durante seis anos. Ou mais," disse Dorcas.
"Como nos velhos tempos," disse Sirius.
Tiago sorriu, tamborilando na aba do boné. "Como nos velhos tempos."
"O que você acha? Como quando você tentava emocionar Lílian com seu focinho gelado e olhar de animal abandonado."
Tiago parou de sorrir, como se alguém que Sirius não pudesse ver tivesse chegado por trás na calçada e lhe dito algo no ouvido, o fazendo concordar com um aceno de cabeça.
Estava tentando convencê-lo de fazer a despedida de solteiro quando Lupin, Pedro, Beijo e Gideão saíram para a rua, suas silhuetas recortadas na noite azul e sem estrelas. Eles estavam rindo de alguma coisa, e os cabelos finos de Pedro, um tanto arrepiados, o faziam imaginar o enorme punho de Beijo os desarrumando enquanto pressionava-lhe a cabeça para baixo. Olhando-os assim, não estavam muito distantes de adolescentes grandes demais e precoces cujas barbas cobriam seus pomos-de-adão.
Tornou a olhar para Tiago e percebeu que ele estava o observando.
"Você nunca parou para pensar por que não foi ao contrário?" Perguntou Tiago.
"Porque não faço o tipo de Lílian," respondeu Sirius, encostando o gargalo da garrafa de cidra na boca e inclinando a cabeça para trás.
"Você faz o tipo de qualquer mulher, Almofadinhas," retrucou Tiago, ligeiramente sério.
Certa vez ele tivera uma discussão séria com Ivy por causa de uma merda dessas. Haviam chego tarde de um casamento, ele estava cansando, com fome, porque a única coisa que tinha comido a noite toda tinham sido as azeitonas dentro dos drinks, não porque não tivesse comida suficiente na festa ou porque ela estava ruim, mas simplesmente porque ele se esquecera de comer, e todo aquele champanhe servido em copos cheirando a pano úmido estava começando a fazer com que o ar ao seu redor ondulasse. Ele gostaria muito de tirar a roupa e ir para a cama, mas Ivy gostaria muito de lhe dizer algumas coisas. Ela fechou a porta com mais força que o necessário e Sirius virou-se para a olhar.
"Odeio isso, Sirius. Isso me deixa doente," dissera ela.
"Podemos falar disso amanhã..."
"Não. Falaremos disso agora."
"Minha cabeça está..."
"Dane-se a sua cabeça, Sirius. E dane-se você também."
Ele franziu a testa e foi até ela. "Ivy, o que é isso?"
"E danem-se aquelas mulheres. E a forma como elas ficaram no salão quase abaixando as calcinhas quando você entrou."
"Escute," disse Sirius para Tiago, "Não foi ao contrário porque ela amava você. É simples assim."
"Simples assim," repetiu Tiago. Em seguida, sem o menor aviso, ficou de pé. "Me responda uma coisa, Sirius: Lílian não é a mulher mais bonita que você já viu?"
Sirius. Aquilo estava ficando sério.
"Cara, você já está bêbado," disse Sirius, e riu.
Há alguns anos atrás, quando Hogwarts era uma cintilação menos forte em suas memórias, como verniz secando numa parede, Tiago chegara na casa de Sirius de mãos dadas com Lílian e um anel de ouro fino no anelar direito. Naquela época ela era tão bonita e os dois pareciam tão satisfeitos que até fazia você acreditar que existiam coisas que valessem a pena no mundo.
"Responda."
No dia em que Alfardo falecera, Sirius fora até a janela de seu quarto e vira que o céu estava da cor de papel de jornal molhado. Eram mais ou menos dez da manhã, seu tio tinha morrido enquanto dormia e, enquanto Andrômeda falava que ele havia lhe deixado toda a herança, Sirius imaginava como deveria ser morrer dormindo, se Alfardo estava tendo algum sonho que fora interrompido de repente, como quando se desliga uma televisão no meio da transmissão do jogo. Então olhou mais uma vez o céu e teve certeza de que o dia não amanhecera assim – ele era assim. Quando entrou no banheiro para molhar o rosto, ele era todo branco, com sombras escuras nos cantos, o alumínio das torneiras era metálico e frio. No trajeto até o cemitério, as calçadas eram cinza-escuro, mas não tão escuro quanto a casca das árvores ou dos fios elétricos. No cemitério, as pessoas eram negras e seus rostos brancos como o mármore das lápides. Os olhos e os cabelos de Lílian entre os outros eram como uma chama viva no escuro, um borrão de cores eletrizantes numa fotografia preta e branca, e, quando ela o abraçou, foi como mergulhar, por alguns gloriosos segundos, nessas cores.
"Não," disse Sirius.
Tiago ficou o olhando, talvez sorrindo, Sirius não soube dizer, porque a luz do poste era interrompida pela cabeça dele, que movia-se lentamente para o lado. "Não? Ora, você é muito exigente."
O bar era pequeno, acanhado, e a borracha preta do assoalho cheirava a cerveja rançosa, fuligem úmida e suor. No entanto, nos fundos, depois da portinhola estilo faroeste, havia a maior concentração de veelas por metro quadrado de Londres. Elas ficavam cantando, dançando em cima do palco, rindo e lendo sua mente. E você ficava bebendo, dançando em cima do palco com elas, e sendo levado aos poucos a um delírio apenas superficialmente excitante e que quando passava o deixava com uma febre de no mínimo 39º, acompanhada de perto por distúrbios nos reflexos, dores musculares agudas e uma sede estúpida. Era isso que as veelas faziam com seu corpo, e por mais que as conseqüências não fossem agradáveis, os homens sempre achavam que valia a pena, porque o bar vivia sempre muito lotado.
Quando eles entraram pela segunda portinhola, a voz melodiosa de uma veela que parecia ter passado gelo na garganta ressonava pelo ambiente, acariciando os ouvidos dos homens, que a olhavam como se ela fosse a última das mulheres no mundo. Outras sete a rodeavam, três de cada lado e uma sentada em baixo, e elas moviam o corpo numa coreografia modorral e hipnótica.
O garçom atrás do balcão era um senhor da velha-guarda com quase tantas cicatrizes no rosto quanto Twooney. Ele tinha aquele rosto entediado, sem expressão, de quem já ouvira absolutamente tudo e havia anos tinha opinião formada sobre quase tudo. Olhando para Beijo, ergueu uma sobrancelha cansada. "Que é que você vai querer, amigo?"
"Burrice, burrice, burrice," disse alguém lá atrás. "É coisa dos Jungle. Converse com um deles e você não vai mais ter dúvidas."
"Converse você, porra! Converse você."
"Qual o assunto da discussão intelectual no fundo do bar?" Beijo disse.
O garçom passou um pano no balcão à frente deles enquanto se sentavam.
"Roy – o cara em pé com o copo de cerveja na mão – diz que a culpa do crime que aconteceu por esses dias é dos Jungle. Eles estão apostando para ver."
"Ei, Roy," gritou alguém. "Os Jungle só fazem usar roupas pretas, pendurar cruzes no pescoço e cortar os pulsos de vez em quando. Você viu o corpo dela? Não, não, cara, deixe os jungle fora disso."
"Se eu não estivesse acostumado a isso, me sentiria incomodado," Pedro disse.
"A gente podia eliminar todos eles, quem sabe ganharíamos uma medalha por isso?" disse Beijo.
"Para quê desperdiçar tempo?" disse Sirius.
O garçom estava esperando. "Desculpe, Tommy," disse Beijo. "Cinco cervejas e um uísque."
Quem não o conhecesse iria achar que ele havia feito o pedido para todo mundo. Mas Sirius não. "Uma cerveja," pediu.
"Para mim também," Lupin disse.
Na outra ponta do bar, Roy – a barriga branca e peluda saindo de uma camiseta azul empapada de suor – estava contando em voz alta cédulas de dinheiro e as jogando na mesa uma a uma mais rápido que uma mensagem de Morse enviada de um navio que estivesse indo a pique. "Foram os Jungle, esfolem minha cara no asfalto se não foram."
Alguém riu nos fundos. Tem sempre alguma pessoa que ri.
Pobre Roy. Sirius tentou visualizar como ficaria a cara dele depois de ter dado uma esfregadinha no cimento. Anne podia ter sido morta por um maníaco, por um ex-namorado descontrolado e ciumento, por Tom Riddle, mas evidentemente os Jungle não tinham nada a ver com o assunto. O homem que dissera isso estava certo, a pessoa que entrara na casa de Anne enquanto ela preparava o jantar não parecia gostar de cruzes no pescoço, nem de cortar os pulsos de vez em quando; a pessoa que matara Anne queria fazer com que ela sofresse, que pagasse penosamente por algum erro que cometera.
Beijo olhou por um instante para Roy, parecendo pensar algo muito próximo do que Sirius pensava. "Ótima teoria a da Dorcas," disse ele. Tommy colocou as cinco cervejas e o uísque na frente dele, e foi pegar as outras. O uísque sumiu na garganta de Beijo antes que Sirius tivesse tempo de vê-lo pegar o copo. Ele abarcou com a mão uma das canecas geladas e quando retomou a fala já tinha tomado um quarto de litro. "Gelada," disse ele. "Minha teoria é a seguinte: com gente desse tipo deve-se pensar sempre o pior. O que jamais rondaria nossos sonhos, o que nos causa repulsa." Ele enxugou o que sobrara da primeira caneca.
Sirius sempre se sentia como uma Advanse 369 com uma bigorna presa na ponta perseguindo uma Comet 260 quando tentava acompanhar o ritmo de Beijo num bar.
Tommy colocou uma cerveja para ele, para Lupin e para Pedro, uma soda para Tiago e mais uma dose no copo de Beijo.
"Beijo," disse Lupin, passando o polegar pela superfície resfriada de sua caneca. "Se Snape realmente se redimiu, por que ele falou tão pouco sobre os Comensais da Morte? Por que não informou quantos eram, onde se escondiam, o que planejavam?"
Beijo engoliu o segundo uísque em algum momento enquanto Sirius piscava. "Porque eles não sabiam."
Tiago balançou a cabeça daquele seu jeito irônico de quem não acredita em nada do que escuta, mas evita discutir. Naquela noite havia uma coisa diferente nos olhos dele que Sirius nunca tinha visto antes, mas que o deixava com a sensação esquisita de que se tocasse em Tiago, sua mão levaria um choque. Talvez ele tivesse se desentendido com Lílian.
"Não sabiam?" perguntou Sirius. Pedro ainda não tinha visto sua cerveja no balcão porque estava virado para o palco.
Beijo balançou a cabeça. "Ele foi submetido a um Veritaserum e só conseguimos extrair dele o que ele mesmo havia dito cinco minutos antes: 'Tom Riddle não nos deixava saber quem eram seus Comensais, só nós sabíamos o que éramos.'" Ele atacou a segunda caneca. "Na minha opinião acho que Severus não era um bom Comensal, e Tom no fundo sabia disso e não contava tudo o que pretendia para ele."
"Dizem que ele sabe de tudo," comentou Sirius.
Silêncio.
"Quem é que diz isso?" perguntou Tiago.
Sirius ficou o olhando por um tempo, tentando se lembrar onde ouvira aquilo. Quando se lembrou, outra coisa veio em sua mente: eram dezessete Comensais. "Acho que foi Dorcas," mentiu ele, observando Beijo tomar o resto da segunda cerveja.
"Como ela sabe?"
"Porque ela é a Dorcas," foi Beijo quem respondeu, enquanto a terceira cerveja lhe descia goela abaixo. Pôs a caneca na mesa, enxugou a boca com um guardanapo. Chamou por Tommy e agitou o braço como um treinador de quadribol que estimula um artilheiro a aproveitar a brecha. Tommy trouxe mais uma dose de uísque. Beijo levantou a mão, acabou com aquela dose e Tommy ficou em pé esperando para servir mais uma. Beijo balançou a cabeça, Tommy lhe serviu mais uma e depois foi embora.
Tiago agora estava olhando fixamente para a veela cantando no palco. Quando Pedro a estava admirando, ela não pareceu ter reparado, mas bastou Tiago se virar um pouquinho em sua direção, os cotovelos apoiados no balcão, e no instante seguinte ela havia descido do palco e estava indo direto para eles, os olhos azuis-néon parecendo lâmpadas em suas órbitas.
Sirius sentiu Pedro aspirar e expirar ruidosamente ao seu lado. Beijo liquidou a quarta cerveja e Sirius teve a impressão de que seriam obrigados a levá-lo para casa.
"Janinni," disse Beijo à veela, como se saudasse uma rainha ou algo do tipo, enquanto Pedro a seguia com o olhar meio desconfiado, meio admirado.
Janinni parou atrás de Tiago e ele levantou a mão com a aliança. Ela riu e tirou a aliança do dedo dele com a boca. "Nada disso funciona aqui, meu rapaz," disse ela com sua voz ressonante, acariciando-lhe as costas.
Sirius já vira um pirata ter convulsões porque uma veela alisara seus cabelos. Mas para um homem comum até que Tiago estava resistindo bem; ele meramente piscou e voltou a cabeça para frente, para olhar Lupin e Sirius. Então, depois de uns dois minutos, Beijo riu sacudindo os ombros, e Tiago fechou os olhos e arfou como se fosse desfalecer.
"Essas criaturas..." disse Beijo, colocando a quinta caneca vazia sobre o balcão. "Pare de resistir, seu babaca, é muito pior. Ei, Black, conte a ele do que uma veela é capaz."
Sirius sorriu, inclinando-se para Tiago e, ao fazer isso, sentindo o perfume de Janinni: Arpège e feminilidade, intenso, complexo e sexy como os diabos. "Elas sobem em cima de você, primeiro deixam que sinta a pele delas, o cheiro delas, e isso faz com que coisas surjam na sua mente, coisas boas, porque desse modo você não sente os dentes dela em seu pescoço, e enquanto ela dilacera sua garganta você sente como se sua pele fosse algodão. Não dói nada, Pontas, muito pelo contrário, você morre achando que foi de prazer." Ele afastou a gola da blusa e mostrou a Tiago uma pequena mancha marrom-clara sobre a pele que mais parecia um sinal. "Acho que ela não apreciou muito o meu gosto."
"Você tinha bebido gasolina?"
"Absinto."
Todos riram, exceto Tiago. Ele estava num estado de letargia que lembrava o de um dopado. Gotas minúsculas de suor brotavam de suas têmporas, onde a mão de Janinni tinha estado enquanto Sirius narrava o que acontecia entre quatro paredes quando se estava com uma veela.
"E se ele não resistir?" perguntou Lupin.
Sirius deu de ombros e tomou um gole da cerveja. Colocou-a sobre a bancada. "Aí ele vai ter a melhor noite da vida dele."
Beijo deu uma gargalhada e fez um gesto para Janinni. "Esqueça esse aí, minha querida, você vai se decepcionar."
Janinni lançou um olhar avaliador ao rosto de Tiago, depois o levantou pelo queixo, abriu sua boca com as unhas do polegar e do indicador, os olhos turvos dele a fitando com confusão, e quando ela o beijou Sirius viu com clareza o sangue circulando depressa nas veias que pularam no pescoço e nas mãos de Tiago, como se ele fosse uma panela de pressão viva.
"Ei, ei," precipitou-se ele, mas Beijo colocou a mão em seu peito o impedindo de intervir.
Algumas pessoas gritaram lá atrás, uma taça caiu no chão e se espatifou, Lupin levou a mão à boca e pigarreou. Tommy passou pelo balcão, esvaziou a caneca de Tiago na pia e a encheu novamente com um líquido alaranjado brilhante, repondo o uísque de Beijo em seguida.
Janinni se afastou de Tiago e foi até Beijo. "Eu não ia me decepcionar," disse bem devagar, e Sirius achou tê-la visto arreganhar os dentes.
"Ora, minha querida," disse Beijo com a voz retesada , mas ela já havia ido embora.
Pedro saltou para trás quando Tiago despencou do banco para o piso, fazendo o ruído de um livro batendo no chão.
"Pontas?" disse Lupin, inclinando-se para além da borda do balcão.
Beijo disse alguma coisa na língua dos bêbados, apontando para o líquido alaranjado no copo perto da mão de Sirius. Sirius pegou o copo e abaixou-se para ver Tiago, perguntando-se que fim Janinni havia dado à aliança, quando viu Tiago a cuspindo. Ela parecia mais fina e menos dourada em meio à soda expelida por ele, e Sirius surpreendeu-se ao perceber que Tiago estava tremendo, sorrindo e lagrimando ao mesmo tempo.
"Odeio isso," disse Dorcas. "Eu... odeio... isso."
"Acho que você está com uma aparência horrível," respondeu Sirius.
Ela lhe lançou aquele olhar assassino e voltou a mexer vigorosamente na barra de sua saia, no banco traseiro do táxi.
Dorcas usava saias com a mesma freqüência com que cozinhava, mas ele nunca se decepcionava. E, por mais que ela reclamasse, ele não achava que a coisa fosse tão dolorosa quanto ela queira fazer crer. Houve reflexão demais na maneira como se vestiu para que o resultado fosse outro que não "Uau!". Ela estava com uma túnica de veludo verde profundo que tinha fendas até a cintura e saia preta de camurça. Seus cabelos estavam penteados para trás quando ela saíra de casa, mas haviam deslizado para o lado direito de seu rosto no trajeto até o carro. Quando ela levantava os olhos e o olhava, aquilo doía. A saia era tão apertada que devia ter sido preciso de uma calçadeira para vesti-la, e Dorcas ficava o tempo todo puxando a bainha para ficar mais à vontade, contorcendo-se no banco traseiro do táxi. O espetáculo, afinal de contas, não era difícil de suportar.
Ele estava com um casaco preto trespassado por debaixo da capa e luvas de cetim que o faziam se sentir em meados do século dezoito. O casaco era apertado demais na altura do quadril para o gosto metropolitano, mas a moda em geral trata melhor os homens, e só bastava a ele desabotoá-lo.
"Você está ótima," comentou Sirius, desviando os olhos para a janela.
"Sei que estou ótima," disse ela de mau humor. "Só queria descobrir quem desenhou esta saia, porque tenho certeza de que foi um homem; eu o enfiaria nela, e em dois tempos ele ficaria sem os bagos."
O táxi os deixou na esquina. Antes que o carro parasse totalmente, o motorista olhou para trás e perguntou, perturbado: "É aqui mesmo?"
"É aqui," disse Sirius, compreendendo o espanto do homem. Mesmo que tivessem simulado uma conversa sobre um baile a fantasia, era muito estranho que ele acontecesse ali no meio do nada, quando tudo que se via na rua era um camburão de lixo, uma cabine telefônica, um bar com cartazes rasgados e sujos e prédios decadentes.
Sirius lhe pagou, eles desceram do carro, e assim que o táxi sumiu ele abriu a porta da cabine e Dorcas entrou. Sirius pressionou-a contra o vidro do outro lado quando entrou e fechou a porta.
"Bem vindos ao Ministério da Magia," disse a voz de uma mulher depois que Dorcas discou. "Por favor, informem seus nomes e o objetivo da visita."
"Dorcas Meadowes," disse Sirius, "Sirius Black." Ele olhou para Dorcas.
"Reunião?"
"Reunião," repetiu Sirius ao fone.
Eles pegaram os crachás na saída de moedas e prenderam às roupas enquanto a cabine ia descendo e uma luz dourada e suave ia banhando seu chão.
O Ministério estava cheio como bolsa de valores em dia de cotação alta. Havia filas nos elevadores e os bruxos olhavam seus relógios impacientes. Sirius e Dorcas atravessaram com dificuldade o hall e tiveram de esperar quase dez minutos até conseguirem entrar no elevador e ir para o nível dois.
No nível dois as coisas andavam mais tranqüilas. Bubba já estava os esperando na porta do Quartel General dos Aurores, encostado à parede e de tornozelos cruzados. Bubba era um verdadeiro anacronismo naquele mundo – odiava tudo e todos, à exceção de Sirius, Andrômeda e Dorcas, mas, ao contrário de muita gente com a mesma tendência, ele não perdia tempo pensando nisso. Ele não escrevia cartas para a redação do Profeta Diário nem cartas raivosas ao presidente do Ministério, nem formava grupos, nem organizava manifestações ou considerava o ódio senão um aspecto absolutamente natural de seu mundo, como respirar ou tossir. Bubba tinha tanta consciência de si mesmo quanto um carburador, e prestava ainda menos atenção nos outros, a menos que atravessassem seu caminho. Ele tinha um metro e noventa de altura, por cento e cinco quilos de adrenalina pura e raiva difusa. E seria capaz de matar qualquer um que o olhasse atravessado.
Ele foi ao encontro de Sirius e Dorcas assim que eles saíram do elevador. Estava mascando uma massa de chiclete do tamanho de um frango, fazendo bolas tão grandes que as pessoas tinham de passar pela beira do corredor. Disse "Olá" e começou a fazer mais uma bola.
"Olá," disse Dorcas, num barítono profundo que combinava com a voz dele. Ela passou o braço pela cintura dele e o abraçou. "Meu Deus, Bubba, você está com um fuzil de assalto russo embaixo do casaco ou apenas feliz em me ver?"
Bubba corou e por um instante seu rosto gorducho resplandeceu feito o de um menino angelical. Um menino de escola capaz de colocar nitroglicerina nos banheiros, mas ainda assim um menino. "Tire ela de mim, Black."
Dorcas levantou a cabeça e mordiscou a ponta de sua orelha. "Bubba, você é o homem de que eu preciso."
Ele deu um risinho. Aquele monstro psicopata de maus modos sorriu e a afastou delicadamente. Ao fazer isso, ele parecia o Leão Medroso do Mágico de Oz. "Pare com isso, sua prostituta," ele disse e depois olhou para ver se ela tinha se ofendido.
Ela viu seu ar de preocupação e foi sua vez de sorrir, a mão sobre a boca.
"Como estão as coisas aí?" perguntou Sirius, apontando a porta do Quartel.
"Eles já chegaram," respondeu Bubba, estourando uma bola de chiclete e a recolhendo de novo. "Mas adivinhe só quem não deu as caras? Rookwood."
Sirius e Dorcas entraram. O Quartel General dos Aurores sempre foi famoso por ser a ala mais imprevisível do Ministério, ganhando até mesmo da Seção de Ligação com os Duendes. Você podia por um copo debaixo do bebedouro e ele vinha cheio de pus, podia abrir a gaveta de arquivos e encontrar ovos de dragão, alguns chocando, com pedaços de sanduíche ao redor, podia estar andando até a mesa quando suas pernas seriam agarradas por correntes revoltadas surgidas do nada, e era muito comum sair de lá com algumas mordidas de fadas selvagens, que não eram permitidas ali, mas que haviam ficado desde que Marilene Miller levara uma caixa cheia delas para decorar sua mesa e nunca mais conseguiram recolhê-las de volta.
Ascar Vurnan se levantou da mesa ao vê-los entrar.
"Ascar, você conhece Sirius. Mulkern, este é meu parceiro, Sirius Black," disse Dorcas.
Sirius estendeu a mão. "Como vai, Mulkern?"
"Parceiro?" ele olhou Dorcas com uma sobrancelha erguida.
Ascar também sorriu.
Sirius achou que aquilo merecia um pequeno sorriso. Sentou-se ao lado de Ascar. "Onde está Rookwood?" perguntou.
Mulkern, que estava rindo para Dorcas, disse: "Não pudemos arrancá-lo de sua mesa de trabalho esta tarde." Ele deu uma batidinha animada na mesa, e Sirius achou que o encontro não merecia batidinhas animadas na mesa. "Então, diga-me, Sr. Black, onde é que Dorcas andou escondendo você?"
"Numa gaveta."
"É mesmo?" perguntou Mulkern, levantando um pouco o lábio superior num sorriso estranho, no que seu canino amarelado ficou à mostra. "Oh, Dock, gosto dele. Gosto mesmo."
"Geralmente as pessoas gostam, general," disse Dorcas.
Ascar bateu no ombro de Sirius. "Ficamos sabendo do incidente de sábado à noite. Puxa, eles o pegaram de jeito, hein?"
"Qual a sua utilidade na Ordem, Black, já que não é um auror?" falou Mulkern.
Dorcas ficou séria tão de repente que Sirius achou que ela tivesse sentado em cima de um alfinete. "Como disse, general?"
"É, sabe," Mulkern fez um gesto despreocupado com a mão. Ele colocou os pés calçados em botas pesadas sobre a mesa, e Sirius se perguntou se algum dia Dorcas tivera um caso com ele. "Eu estive pensando em fazer uma entrevista com o pessoal da Ordem, para saber o que cada um faz lá," ele se virou para Dorcas com o dedo indicador apontando entre seus olhos. "Queria saber exatamente para quê eu assino cheques todo mês no nome de vocês, quando tudo o que fazem é levar umas porradas no meio da rua."
Dorcas não hesitou em responder: "Honorários pelo uso de nossos serviços profissionais, general." Ela puxou o cadarço de uma das botas do general. "Seu filho deveria deixar de matar às segundas e às sextas e trabalhar com mais afinco, quem sabe não teríamos bruxos portando metralhadoras Uzi numa bonita noite de sábado e batendo no cara que trabalha a semana toda para o senhor?"
Sirius teve vontade de lhe dar um beijo.
"É assim que você vê as coisas, Black?" perguntou Mulkern.
"Em linhas gerais, sim," respondeu ele, olhando para Dorcas.
"Outra coisa, Black," disse Mulkern, recostando-se na cadeira com ares de quem estava tramando alguma. Sirius voltou-se para ele. "É sempre ela quem fala quando vocês estão juntos? É ela também que cumpre todas as outras funções?"
"Ela não gosta que se refiram a ela na terceira pessoa quando ela está presente, general," disse Dorcas.
"Quantos litros de álcool o senhor já bebeu hoje, general?" perguntou Sirius.
"Por favor," disse Ascar levantando a mão.
Os olhos negros de Mulkern o fitavam sob as pestanas espessas - o olhar de uma cobra cuja toca estivesse sendo invadida, o olhar de um homem embriagado e violento que está morrendo de vontade de brigar. Ele disse: "Sirius Black," e debruçou-se sobre a mesa na direção de Sirius. O álcool que recendia em seu hálito podia ter incendiado um posto de gasolina. "Sirius Black," repetiu ele. "Agora ouça o que vou lhe dizer. Não vou admitir de maneira alguma que o filho de um de meus lacaios fale comigo dessa maneira. Seu pai, meu caro rapaz, era um cachorro que saltava quando eu mandava. E você não tem outra saída neste momento a não ser seguir os seus passos. Porque..." ele se debruçou ainda mais sobre a mesa e de repente agarrou o pulso de Sirius com toda a força "se você me desrespeitar, guri, sua ficha vai ficar mais suja que chão de gaiola de passarinho. Basta uma palavra minha e sua vida vai por água abaixo. E quanto à sua namoradinha aqui, bem, ela vai ter muito mais de que se lamentar do que umas porradas no olho aplicadas pelo vagabundo do marido."
Dorcas dava a impressão de querer decapitá-lo, mas Sirius pôs a mão livre em seu joelho.
Em seguida retirou a mão do joelho dela e a enfiou no bolso do casaco para pegar uma cópia de uma fotografia que levara para o caso de precisar se utilizar de um pouco de pressão psicológica, como quase sempre ocorria quando acontecia de irem bater um papo com algum general do Quartel. Segurou-a na mão, longe de Mulkern e de Vurnan, e sorriu de leve, calmamente, sem despregar os olhos de Mulkern nem por um momento. Inclinou-se um pouco para trás, pondo-se fora do alcance de seu bafo de onça, e disse: "General, meu pai era um de seus lacaios. Não discuto isso. Mas, vivo ou morto, estou me fodendo para o que ele fazia. Eu detestava aquele canalha, portanto não gaste sua saliva etílica apelando para meus sentimentos. Dorcas é minha família. Não ele. Nem você." Deu um puxão no punho e livrou-se de sua mão. E, antes que ele pudesse retirar a sua, Sirius a agarrou e deu um puxão. "Tem mais uma coisa, general," continuou. "Se você ameaçar minha vida novamente..." jogou a cópia da foto na mesa, na frente dele "eu vou fazer um belo estrago na porra da sua vida."
A foto fora tirada por Bubba há alguns dias atrás. Nela apareciam duas pessoas, um homem e um rapaz de cabelos longos amarrados, dentro de um restaurante trouxa. Entre um copo e uma garrafa de vinho, via-se perfeitamente a mão dos dois se entrelaçando. O homem nem mesmo Sirius sabia quem era, mas o rapaz era o filho único de Mulkern. Se ele viu a foto, não passou recibo disso. Seus olhos não se despregaram de Sirius nem por um instante, apenas ficaram ainda menores, pequenas agulhas de ódio concentrado.
Sirius olhou para Dorcas e largou a mão de Mulkern. "Já terminei," disse, levantando-se. Bateu no ombro de Ascar. "Sempre um prazer, Ascar."
"Até, Ascar," disse Dorcas.
Começaram a se afastar da mesa.
Se chegassem até a porta, Sirius teria de recorrer ao auxílio-desemprego já no próximo outono. Se chegassem até a porta, ele teria de se mudar para a Dinamarca, Noruega ou Antártida, ou para uma dessas cidades tão calmas e distantes que ninguém se preocupa em exercer influência sobre os vizinhos. Se chegassem até a porta, estaria morto em questão de horas.
"Black, meu rapaz."
Estavam a uns dois metros da porta; Sirius recuperou a fé na natureza humana.
Dorcas apertou sua mão com força e ambos se voltaram assumindo um ar de quem tinha mais o que fazer.
"Por favor, voltem e queiram sentar-se," disse Ascar.
Aproximaram-se da mesa.
Mulkern estendeu a mão. "À esta hora da manhã eu fico um tantinho intolerável. As pessoas parecem não entender o meu senso de humor."
Sirius apertou sua mão. "Não seria ainda o caso agora?"
Ele se virou para Dorcas. "Senhorita Meadowes, aceite as desculpas de um general velho e rabugento."
"Não se fala mais nisso, general."
"Por favor, pode me chamar de Sterling," ele sorriu calorosamente, dando-lhe tapinhas na mão. Tudo nele exprimia sinceridade em altos brados.
Se Sirius não tivesse vomitado no dia anterior todos ali estariam em perigo.
Ascar deu um tapinha na foto e olhou para ele. "Onde você arranjou isso?"
"O cheque que o senhor Mulkern deposita todos os meses em Gringotes está sendo muito bem aproveitado. Você tem ótimos espiões e aurores," acrescentou Sirius para Mulkern, que riu mostrando os dentes.
"O original?" perguntou Mulkern.
"Está comigo."
Houve um silêncio em que as unhas de Dorcas tamborilaram depressa na mesa. Se Sirius não a conhecesse, acharia que ela estava enfurecida com aquilo tudo. Mas ele sabia que o sangue dela estava fervendo de excitação: tensão e chantagens tinham sobre ela o mesmo efeito que uma voz rouca em seu ouvido depois de ter tomado champagne com cerejas.
"Digam por que vieram," disse Mulkern.
"O senhor tem acompanhado os assassinatos, suponho," começou Dorcas. "São assassinatos estranhos, o Quartel jamais tinha se deparado com crimes dessa natureza, e eles estão acontecendo depressa demais, o que nos leva a supor que Tom Riddle não esteja trabalhando sozinho. Achamos que são muitos. Só que precisamos de mais espaço."
Ascar cruzou os braços sobre o peito. "E todo aquele espaço na Ordem?"
"Não é desse tipo de espaço que precisamos," disse Sirius. "Nos dê mobilidade, Mulkern."
Mulkern riu. "Eles estão falando da Rede de Flu, Ascar. Das Chaves de Portal, das passagens secretas, de arrombamento de casas e apreensão de provas, de aparatar e desaparatar em terreno trouxa, de usá-los como ponte e escudo ao mesmo tempo."
Foi como se Mulkern tivesse dito que eles estavam planejando um ataque em massa à sede mundial do Ministério da Magia.
"Vocês piraram?" disse Ascar.
"Eu não gosto de confusão," disse Dorcas.
Sirius olhou para Ascar e Mulkern. "Nós não gostamos de confusão. Vocês não terão confusão. Quanto à ponte e ao escudo, não é bem assim. Não vamos expor os trouxas à perigo algum."
"Você acha que confio nas suas palavras, Black?" disse Mulkern.
"Vim a pedido de Dumbledore. Nas dele você confia?"
Mulkern olhou para Ascar antes de responder. Os aurores telepatas. "Na minha opinião o Ministério não vai conceber."
"Faça a sua parte," disse Dorcas tão simpaticamente que dava vontade de retribuir com a mesma finura.
Mulkern não retribuiu. "Vocês já tomaram muito do meu tempo, seus sacanas. Voltem para suas casas e esperem que eu lhes mande a resposta do Todo-Poderoso."
Não havia ninguém na Ordem. Seria muito incomum se houvesse, porque se tratava de uma segunda-feira e já se passava das dez da noite. Ele e Dorcas passaram pela cozinha e foram para o escritório. Geralmente ninguém nunca podia aproveitar as poltronas macias do escritório porque Moody passava bastante tempo nele, sozinho, concentrado, e não gostava que o interrompessem. O escritório era uma sala grande, mas que parecia minúscula devido à quantidade de objetos espalhados nele. Livros, aparelhos trouxas, detectores, espelhos, quadros esquisitos, refis, ferramentas e mapas pendurados pelas paredes, tubos de ensaio, casacos cobrindo caixas ao invés de cobrirem o cabide, medidores para todo tipo de situação, molhos de chaves tão pesados quanto martelos, vassouras com os nomes de cada membro da Ordem, uma penseira, jogos, uma coleção de penas invisíveis nas quais todos viviam esbarrando e se sujando, uma mesa de mogno polido e três poltronas giratórias forradas com couro de dragão. Aquilo tudo arrumado à maneira de Moody, fazendo com que o escritório parecesse um cruzamento entre uma garagem ou dispensa e uma biblioteca abandonada.
Eles entraram no escritório e ouviram o telefone tocar. Sirius atendeu no décimo toque, porque ficou esperando que Dorcas fizesse isso, mas ela o olhou como se dissesse. "Não seja inútil". Todas as quatro vezes que aquele telefone tocara fora porque algum trouxa discou errado, e certamente desta vez não seria diferente. Sirius não compreendia porque Moody teimava em manter aquele aparelho ligado.
"Alô."
Dorcas se deixou cair numa poltrona enquanto a voz no telefone dizia: "Continue na linha. Tem alguém aqui que quer falar com você."
Sirius ficou segurando o fone enquanto dava a volta e se sentava na poltrona da mesa. Dorcas lhe lançou um olhar interrogativo e ele deu de ombros.
Ouviu uma voz do outro lado da linha. "Senhor Black?"
"Pelo que me consta."
"É Sirius Black?" a voz era incisiva, como de alguém que não costumava tratar com espertinhos.
"Depende," respondeu. "Quem está falando?"
"Você é Black," disse a voz. "Como está sua respiração?"
Sirius inspirou ruidosa e profundamente e expirou devagar. "Muito melhor depois que parei de andar com Gideão-e-seu-charuto, obrigado," respondeu.
"Hum hum," fez a voz, lenta como seiva que escorre do tronco. "Não vá se acostumar muito, porque assim será muito pior quando você não puder mais fazer isso."
A voz era espessa mas leve, e escondia um perfume de hormônios púberes sob alguns anos de recém virilidade adquirida.
"Você sempre fala assim, garoto, ou hoje você está numa veia especialmente elíptica?" disse Sirius.
Dorcas ergueu-se na cadeira e depois inclinou-se para frente.
O garoto disse: "A única coisa que ainda o mantém vivo é uma moça chamada Belatriz. De qualquer forma, talvez mandem alguém aí para concertar a sua coluna, a marteladas."
Sirius sentou-se direito e passou a mão pela coceirinha em suas costas. "Mande-os para cá, garoto. Vamos ver o que faremos."
"É fácil falar assim, sentando tranqüilamente no seu escritório."
"É... bem, moleque, diferente de você, tenho que cuidar da minha vida."
"Você está sentado?"
"Claro que estou."
"Naquela cadeira perto dos mapas?"
Sirius sentiu uma onda de gelo moído espalhar-se por suas artérias.
O garoto disse: "Você está sentado nessa cadeira, e eu, se fosse você , não iria me levantar dela tão cedo, a menos que quisesse ver meu traseiro voar por cima da minha cabeça a caminho da janela." Ele deu uma risada. "Foi um prazer conhecê-lo, Black."
Sirius desligou, olhou para Dorcas e disse: "Não se mexa," ainda que o problema não fosse o fato de ela se mexer ou não.
"O quê?" ela se levantou.
A sala não explodiu, mas Sirius quase desmaiou. Pelo menos ficaram sabendo que ele não tinha colocado uma bomba em sua cadeira também só por brincadeira. "Eles disseram que colocaram uma bomba debaixo dessa cadeira."
Ela gelou, uma estátua de cera no meio da sala. A palavra bomba faz isso com as pessoas. Ela respirou fundo. "Vamos chamar Moody?"
Quando acontecia algo que eles não sabiam como resolver, quase sempre chamavam Moody, porque, apesar de tudo, ele tinha mais experiência. Sirius procurou não respirar. Havia a possibilidade, disse consigo mesmo, de que o peso do oxigênio em seus pulmões pressionasse seus membros inferiores, fazendo a bomba explodir. Pensou também em como aquela idéia era ridícula, uma vez que uma bomba explodia a uma diminuição de pressão, e não o contrário. Assim, ele não podia expirar. De qualquer maneira, não podia respirar. Havia também a possibilidade – muito grande – de que fosse uma bomba feita por bruxos, o que era pior ainda porque elas podiam explodir até mesmo com uma mudança de humor, e sempre traziam uma maldição tão horrível que mais tarde você ia preferir ter morrido na explosão. Sirius se perguntava qual maldição havia sido sorteada para ele.
"Sim, chame Moody." Era engraçado falar contendo a respiração, como o pato Donald resfriado. Então ele fechou os olhos e disse: "Espere, primeiro olhe embaixo da cadeira".
Dorcas afastou algumas caixas do caminho e se ajoelhou do lado da cadeira. Ela levou algum tempo para se dispor a fazer isso. Ninguém quer pôr os próprios olhos a alguns centímetros de um explosivo. Olhou embaixo da cadeira e ele a ouviu expirar ruidosamente. "Não estou vendo nada."
Ele começou a respirar de novo, depois parou. Com certeza a bomba estava na própria madeira. "A madeira não parece ter sido mexida?"
"O quê? Não estou entendendo o que você quer dizer."
Sirius arriscou, soltou a respiração e repetiu a pergunta.
Dorcas ficou ali embaixo por umas seis ou sete horas, ou assim lhe pareceu, antes de dizer "não". Ela saiu de sob a cadeira e sentou-se no chão. "Não tem nenhuma bomba embaixo da cadeira, Sirius."
"Ótimo," respondeu Sirius, sorrindo.
"E então?"
"Então o quê?"
"Você vai se levantar?"
Sirius pensou em seu traseiro voando por cima de sua cabeça. "Há alguma urgência em fazer isso?"
"Nenhuma urgência," respondeu ela. "Por que você não se levanta?"
"Acho que porque gosto de ficar aqui."
"Levante-se," disse ela, e levantou-se. Estendeu os braços para ele.
"Estou tentando."
"Vem," disse ela. "Vem cá, meu bebê."
Então ele o fez. Apoiou-se na cadeira e se levantou. Só que de certa forma ele ainda estava sentado. Seu cérebro se mexera, mas seu corpo era de outra opinião. Qual seria o grau de profissionalismo do pessoal de Tom Riddle? Será que eles eram capazes de instalar uma bomba dentro de uma cadeira sem deixar vestígios? Claro que não. Sirius já ouvira falar de todo tipo de morte, vira uma particularmente tão horrível que até hoje aquelas imagens vinham em sonhos ou quando ele não estava com a mente ocupada, mas será que algum dia alguém morrera pela explosão de uma bomba invisível? Não. Mas é claro que ele podia ter a honra de ser o primeiro.
"Almofadinhas?"
"Sim?"
"Quando você quiser."
"Certo. Bem, veja, eu..."
As mãos dela agarraram a dele e o arrancaram da cadeira. Ele tombou sobre ela, esbarraram ambos na mesa, e Sirius não explodiu. Dorcas sorriu, uma verdadeira explosão de riso, e ele percebeu que ela também não estava muito certa. No entanto, de qualquer modo, ela o havia puxado da cadeira. "Oh, Jesus!" exclamou.
Sirius começou a rir também, o riso de alguém que não fazia isso com vontade há muito tempo. Agarrou-se a ela, as mãos enlaçando-lhe a cintura, seus seios palpitando contra o peito dele, e foi então que ele notou que estava tonto e ambos estavam cobertos de suor, mas os olhos de Dorcas cintilavam, as pupilas negras dilatadas e ébrias desfrutando o sabor de um momento que não era o último da terra.
"Você não acreditou em mim," disse ela, ainda sorrindo.
Ela pôs a mão no peito dele e ambos ficaram em silêncio por alguns segundos. "Ah, Meu Deus..." murmurou ela, o abraçando. "Está tudo bem, tudo bem."
Sirius parara de rir e estava quase chorando. Tremia tanto que não conseguia ficar de pé, sua pele parecia querer saltar de seu corpo e seus ouvidos zuniam, ouvindo ao fundo a voz tranqüila de Dorcas repetindo sem parar que estava tudo bem e sentindo o hálito morno dela roçar sua boca. Ele fechou os olhos e acreditou nela.
Aí o telefone tocou.
Dorcas se afastou dele, esgueirando-se pelo lado da mesa. Ela estava sorrindo, mas um riso de incredulidade, e seus olhos já se toldavam de remorso e de medo. Só Deus sabe como estavam os dele.
Sirius atendeu o telefone com um rouco "Alô."
"Você ainda está sentado?"
"Não," respondeu. "Estou olhando pela janela pra ver se encontro meu traseiro."
"Hum hum. Bem, lembre-se de uma coisa, Black, qualquer um pode apagar qualquer um, e qualquer um pode apagar você."
"O que posso fazer por você, criança?"
"Você fica longe de Belatriz e está tudo certo. Ou quase."
"Quem mandou você fazer isso?"
"Ninguém manda em mim, cara," ele deu uma risadinha (Sirius disse para si mesmo que devia ser um hábito seu), e desligou.
Sirius fez o mesmo e olhou para Dorcas. A sala ainda estava plena da lembrança dos lábios deles se tocando, da pele dela em sua mão e dos seios palpitantes dela contra o seu peito.
Ela estava de volta em sua cadeira, olhando pela janela. Não voltou a cabeça. "Não vou dizer que não foi bom, porque foi. E não vou tentar pôr a culpa em você, porque eu também tive culpa. Mas vou lhe dizer uma coisa: isso nunca mais vai acontecer."
Difícil encontrar algum furo numa fala como essa.
Jamie Parkers morava no segundo andar. Eles subiram os degraus com dificuldade, sentindo os odores comuns a todos esses pequenos edifícios de dois andares do subúrbio – madeira queimada de sol, tinta, areia higiênica para gatos, produtos de limpeza de cheiros variados, flores velhas, madeira e linóleo encharcados, décadas a fio, de neve derretida e de lama de botas molhadas. Sirius tinha cuidado para não tocar no corrimão. Ele dava a impressão de que iria cair aos pedaços.
Entraram no corredor do segundo andar e foram até a porta de Jamie. Alguma coisa fizera estourar a madeira junto à maçaneta. Sirius foi entrando devagarinho, sentindo Dorcas logo atrás pisando com cuidado também. Não queriam correr o risco de entrar na casa e dar de cara com alguém ou alguma coisa. A casa tinha aquela quietude que só existe quando não resta mais nada vivo em seu interior, e, apesar de ser um apartamento pequeno, era bastante arrumado para o resto do prédio. Não havia muitos móveis, mas tudo era tão limpo e iluminado que dava a impressão de que Jamie o vivia aprontando para ser vendido.
Eles precisaram de dez minutos de busca cuidadosa e obstinada para chegar à conclusão de que o lugar estava mesmo vazio. Àquela altura a pele de Sirius estava coberta de suor, suas costas doíam e seus músculos das mãos e os braços estavam bambos segurando a varinha.
Sirius deixou a mão que segurava a varinha pender frouxa e denovo andou por todo o apartamento, mais descontraído, reexaminando cada uma das peças, olhando cada coisa com mais atenção. Nada saiu do quarto dançando em sua frente com um letreiro de néon indicando ISTO É UMA PISTA!. A cozinha e a sala de estar também não ajudaram muito. Até que Dorcas gritou do banheiro.
"Venha ver isso," disse ela.
Sirius entrou no banheiro e a achou abaixada em frente à pia, uma das gavetas sobre a louça aberta. Dorcas ficou de pé e começou a passar, uma por uma debaixo dos olhos de Sirius, fotos de Jamie.
"Que sacana," disse Dorcas, deixando que Sirius pegasse as fotos e as visse melhor.
Em todas elas Jamie parecia muito à vontade, só de camisa e calcinha, deitada numa cama de lençóis brancos, sorrindo e escondendo o rosto nos travesseiros de vez em quando, ou então colocando a mão na frente da câmera. Havia uma ou duas fotos focando apenas os olhos dela, e mais uma diferente de todas as outras. Nessa foto, Jamie não estava olhando para a câmera – ela parecia nem ao menos saber que estava sendo fotografada. Andava por uma praça, e era possível ver algumas crianças correndo ao fundo. Seu rosto estava virado para o lado esquerdo e uma de suas mãos protegia os olhos do sol.
"Você acha que foi Mulciber também quem matou Anne?" perguntou Dorcas, quando Sirius largou as fotos na bancada da pia.
"Gostaria que Jamie ainda estivesse viva," comentou Sirius, saindo do banheiro. "Porque agora estou querendo saber que tipo de relação esses caras mantém com as vítimas antes de arrancarem suas peles."
"Você está querendo dizer que acha que Anne conhecia a pessoa que a matou?"
"Estou querendo dizer que isso já está me incomodando demais."
A vista do apartamento de Jamie era uma das mais comuns que Sirius já vira. Atrás dos prédios surgiam as colinas com seus picos gastos, espetando um sol pálido entre nuvens desfiadas e opacas. Não era uma paisagem bonita de se ver, no entanto as cortinas estavam abertas quando eles entraram, e certamente viviam abertas enquanto Jamie morava lá. De alguma forma que Sirius não entendia aquele céu de cores doentes devia parecer agradável para ela.
