Beta: Constantin Rousseau


Capítulo 10: E Se Eu Quiser Morrer [part. 2]


A lâmina estava milimetricamente posicionada sobre o pescoço ensanguentado de Seth. As mãos trêmulas de Dean denotavam toda a incerteza do ato, mas a força desnecessária que as mesmas utilizavam para segurar o cabo do objeto, assim como os olhos vermelhos e raivosos do rapaz, fixados no corpo abaixo de si, deixava visível o seu desejo latente em fazê-lo. Desejo esse, que parecia acima de qualquer outra coisa.

— Acha que ele será capaz de fazer? — a loura perguntou com um pingo de excitação nas palavras, nitidamente animada com a cena.

O moreno apenas a lançou um olhar indiferente e meneou a cabeça em descaso, voltando a atenção para o que se desenrolava na sala de sua casa. Estava ali há algum tempo, na companhia de Ruby, observando tudo como se estudasse cada movimento do mais velho, como se tentasse concluir algo a respeito do Winchester. A jovem havia permitido que Cohen pudesse observar o que Dean presenciava; ou seja: ver a ilusão completa. O que significava que também via a si mesmo fazendo coisas vergonhosas que nunca pensara em fazer.

— Se você não tivesse me transformado em uma piranha, talvez ele não precisasse disso. — respondeu seco.

E isso talvez pudesse ser, de alguma forma, verdade. Quando ele pediu à mulher para ajudá-lo em algo, tinha ciência de que a loura não hesitaria, independente do que fosse pedido. Mas a moça era esperta, e não faria algo em troca de nada, mesmo que não o pedisse explicitamente. Sua diversão na maioria das vezes era suspeita e definitivamente perturbadora; quando não envolvia mulheres, envolvia derramamento de sangue. E se por acaso o sangue fosse demasiado atrativo, a besta era atraída. Aí sim o circo ficava completo.

Seus olhos se arregalaram quando Winchester começou a deslizar a lâmina pelo pescoço da ilusão, mesmo que lenta e levemente. Uma linha fina e vermelha se formou imediatamente, contrastando a pálida, mas recém avermelhada pele sensível. Naquele momento, por algum motivo qualquer, Seth sentiu que nunca conseguiria se aproximar de Dean. Por um lado, sabia que estava sendo equivocado porque jamais agiria como uma garota de hotel qualquer como as de Louisiana. Por algum motivo, aquilo fazia com que se recordasse de Johnny, seu irmão mais novo de apenas treze anos que aparecera em sua porta lhe pedindo um lugar para ficar. Para Seth foi impossível não chegar à conclusão de que o irmão caçula havia sido imprudente, assim como ele fora há muito tempo, tentando fugir para longe do legado que os perseguia. Contudo, o choque foi quase físico quando o garoto disse a Seth que, assim como o restante da família, seu pai estava morto. Johnny não entrara em muitos detalhes porque o semblante desnorteado do irmão não o permitia fazê-lo. Contou apenas que, como não mais possuíam a isca perfeita, os caçadores passaram a usá-lo para realizar as tarefas mais arriscadas. Um dia a caça virou presa, e o garoto foi o único que escapou com vida da "aventura".

Quando foi indagado sobre como conseguira encontrar o irmão, Johnny apenas disse que uma moça tinha lhe informado a localização correta e o ajudara até metade do caminho. Só anos mais tarde Seth descobriu que Ruby era essa tal garota. Lembrava-se claramente do quão amedrontado ficou ao perceber que a loura não era nem um pouco humana. Com o tempo finalmente aceitou o fato de que ela não era uma ameaça. Pelo menos não a eles, e não enquanto tudo estivesse sob controle.

— Bom, eu gosto de ação. — finalmente respondeu, a voz tornando-se áspera e levemente distorcida, despertando o rapaz de seu súbito momento repleto de nostalgia.

Seth repousou sua mão sob ombro da jovem e apertou suavemente. Apenas um gesto conhecido entre ambos, porém um tanto significativo. Então, de maneira lenta, as feições de Ruby se tornaram mais suaves.

— Eu sei que gosta.

[-x-]

Não se lembrava de muita coisa, para ser exato. Talvez porque não houvesse coisa alguma a ser lembrada. Agalia, a garota com quem dividia o corpo, ainda se encontrava desacordada e, pelo que o corpo o permitia sentir, estava sentado e com as costas escoradas no tronco de alguma árvore. Sam, que esteve presente o tempo todo, sentiu quando foi arrastado por entre as folhas e pedras sem muito cuidado, os ferimentos queimando lentamente como se fossem brasa em chamas pela extensão do ombro direito ao pescoço. Então, sem mais nem menos, a dor passou. Parou. Simples assim, do nada.

"Deixe-me entrar..." A voz penetrante ecoava em sua cabeça não pela primeira vez; cada vez mais frequente e cada vez mais perto. Fora isso o silêncio era absurdo, quase assustador, e talvez até proposital. O rapaz gostaria de poder abrir os olhos e conferir o que se desenrolava a sua frente, mas sabia que não poderia a menos que a jovem resolvesse fazê-lo.

Como uma resposta urgente ao pensamento de Sam, Agalia mostrava os primeiros sinais de seu despertar. Ela levou a mão até a têmpora, onde massageou por alguns segundos, e então, instintivamente, desceu até o ombro, sentindo a pele uniforme e macia. Os olhos se arregalaram quando se lembrou do que havia acontecido, e passando a mão de forma bruta, quase violenta, finalmente percebeu que não mais havia nenhum ferimento ali, e sim um desenho conhecido; o tradicional símbolo anti-possessão. Agalia ficou mais assustada do que surpresa.

"Não temos muito tempo. Deixe-me entrar..."

Com exceção daquelas palavras, todo o resto era inaudível. Os olhos percorreram pelo local, e bastou pouco mais que alguns segundos até conseguir avistar Sappheire, aparentemente desacordada, a uns cinco metros de distância. Ambas estavam no que parecia ser uma clareira limpa, circular de maneira tão perfeita que chegava a ser sobrenatural. No meio existia uma fogueira não muito intensa que já se apagava. E ao seu redor, várias árvores se fechavam em um abrigo sombrio e escuro. Agalia se levantou imediatamente, e no momento em que deu seu primeiro passo em direção ao corpo esguio da amiga, pôde sentir que algo estava errado. E seu instinto estava muito mais que correto.

As sombras se moveram no interior da selva, e um a um os habitantes da aldeia se tornaram visíveis. Os familiares rostos não sorriam ou expressavam emoção alguma. Apenas fitavam-na vagamente com os grandes olhos negros, repletos de uma escuridão tão profunda que um calafrio percorreu sua espinha. Para a surpresa de Agalia, Teressa, sua amiga, estava andando rente a eles; impassível, descalça e pouco suja de terra. Não poderia ser ela, poderia?

Mais uma vez a moça se viu tentada a fugir, embora se sentisse desnorteada. Mas fugir para onde? Desde que recebera a sentença de morte, não havia sido ideia sua combatê-las? Quais alternativas restaram? O pânico começou a tomar conta de seu corpo, e agora mal conseguia controlar seus pensamentos. Ela havia tocado a pele de Teressa momentos ou horas atrás, e podia jurar por tudo que é mais sagrado que a amiga estava morta!

Por acaso a jovem se lembrou do pentagrama desenhado em seu ombro, e aquilo a fez entender imediatamente o que acontecia ali.

"Precisa ser convidada, não é?" foi o que pensou, e aquela descoberta a fez ficar ainda mais confusa. Por que não foi morta por Kalessa, o espírito da floresta?

— Vejo que acordou. — a conhecida voz soou impetuosa. — Você e suas amigas me causaram muitos problemas, sabia? — fez uma breve pausa, e por um momento Agalia e Sam poderiam jurar ter visto um lampejo vermelho nos olhos da moça — Mas esse é apenas um dos motivos por ter vindo aqui pessoalmente. — completou com um sorriso desdenhoso.

"Diga sim ou morrerá." Foi o que a voz disse antes de se tornar um sussurro incompreensível.

A jovem levantou-se sentindo uma pontada na cabeça. Parecia estar ferrada mesmo, que mal teria? Não cogitou muito, e no momento em que um sonoro sim saiu de sua boca, não tinha mais controle sobre o seu corpo; Kalessa tomara posse dele por completo, tamanho seu poder, e agora a jovem tornara-se sua própria hospedeira, uma simples marionete. Não havia sensação mais esquisita do que aquela.

— Estava esperando a sua visita, Ciana. — foi o que sua boca pronunciou.

Do outro lado do campo, o sorriso de Teressa murchou visivelmente. Disfarçou a frustração como pôde, mas os três — Sam, Agalia e o espírito — puderam perceber claramente a boca se mexendo sem som por um tempo, em busca de palavras que não vieram.

— O quê foi? — Agalia perguntou. — Por que ficou tão quieta de repente?

— Você é muito estúpida se pensa que...

— Oh, não. Não, não, eu não penso nada, querida. — cortou a outra. — Você sabe que eu não gosto de pensar.

Elas se encararam em uma disputa muda. Os olhos de ambas se desafiavam em uma batalha invisível, anunciando o imprescindível duelo de titãs que começaria a qualquer instante, com consequências arrebatadoras para tudo que as rodeava. A raiva e o ódio há muito haviam consumido as entranhas da princesa das sombras. Ela poderia colocar um fim naquilo, afinal de contas.

— Você me baniu para cá, lembra disso? — as pupilas dilataram completamente, e então fechou os olhos para voltar a falar em seguida: — Aposto que nem remorso você sente.

Servindo como amostra gratuita do poder de Kalessa, em um simples cerrar de punhos todas as testemunhas vieram ao chão. Os espíritos impuros, assim como as almas, queimaram-se visível e rapidamente a sua frente, clareando o espaço por um breve momento. Sappheire ainda continuava imóvel como antes.

Pateticamente assustada, porém mantendo a postura ereta e confiante, Teressa ainda permanecia de pé. Mordeu com força o lábio inferior quando se viu frustrada por não ter conseguido expulsá-la daquele corpo. Esperta, pensou ao enxergar o pentagrama desenhado no ombro da outra. Dessa forma ela não pode ser forçada a sair.

Aproveitando o visível desconcerto de Ciana, o espírito antigo que agora habitava o corpo de Agalia decidiu mostrar toda a sua exuberância antes de deferir seu próximo golpe. O par de grandes asas, cuja pele era fina a ponto de ser transparente, se materializou no espaço vazio atrás de si, e o cabelo louro ricocheteava para todos os lados, inclusive contra seu próprio rosto, mesmo que nenhuma brisa pudesse ser sentida. Por um momento Sam recordou-se do ocorrido no bar, do olhar da loura e dos cabelos ao vento; havia uma semelhança singular naquilo, mas que ele não soube descrever ou tampouco associar.

Quando o corpo feminino se pôs em movimento passando a correr velozmente em direção a assustada Teressa, Winchester permitiu-se pensar que logo tudo acabaria; que logo estaria de volta à casa de Jess e que se esqueceria daquele pesadelo se fosse preciso. Mas não. Nada acabou. Porém alguma coisa havia mudado. As pernas não mais se movimentavam com destreza, e a velocidade o abandonara. Seu movimento cessou, e o corpo ficou estático, como uma estátua.

— Não posso cobrir você sempre que alguém te desafia. — ao lado de Ciana, uma mulher de cabelos ruivos, que outrora estava imóvel junto às demais pessoas caídas ao chão, falava calmamente, porém com notório ar de superioridade. As sobrancelhas arqueadas deixavam-na com uma expressão desafiadora — Por que está com medo? Ela não é mais nossa irmã.

— Sei disso, Kyahra. — apressou-se em responder, visivelmente aturdida, piscando lentamente. — Vamos puni-las e ir embora, eu não quero mais ficar aqui. — num movimento simples, virou sua cabeça a fim de avistar o monte de carne humana agrupada ao seu redor. — Temo que a balança será rigorosa conosco novamente.

— Daremos um jeito. — acalmou a outra enquanto afagava-lhe o rosto pálido — Mas nem por isso devemos deixar nosso orgulho de lado. A morte delas não será em vão, pode ter certeza. Elas servirão de exemplo para que ninguém mais ouse nos desafiar.

Ciana tinha certeza que para a outra não se tratava apenas de orgulho. As almas que sua irmã costumava mutilar não lhe causavam muita satisfação. Ela preferia arrancá-las do envoltório natural, mesmo que raramente, e esfolá-las à mão enquanto ainda estavam frescas, antes de o julgamento as corrompê-las. Mas é claro que havia consequências. Uma alma inocente que fosse ceifada por qualquer uma delas, sem motivos plausíveis, equivalia a dez almas pecadoras, segundo a balança. Agalia e Sappheire, assim como Teressa, eram culpadas por causarem a confusão, então poderiam ser mortas sem maiores problemas. Por outro lado, as vítimas de Kalessa, as almas dos habitantes da aldeia, seriam "pesadas" pelo simples fato de o espírito fazer parte da Trindade Absoluta. Mesmo expulsa para o mundo humano, a princesa das trevas ainda compartilhava o laço fraterno com as irmãs, e isso era o que bastava.

— Nossa irmã se certificará para que todos saibam que a justiça foi feita. — continuou. — Não é mesmo, querida?

A figura imóvel e em posição de ataque fitou-a com olhos raivosos. Familiares. Então foi arremessada com brutalidade contra uma árvore, e o corpo inteiro amoleceu consideravelmente. Mas um sorriso foi visto antes de Kyahra enfiar sua mão na garganta da outra e retirar de lá algo extremamente brilhante. Ciana se aproximou mais para observar tamanha beleza. Então, aproveitando a considerável distância que tomara da outra, e também surpreendendo ambas as irmãs, Sappheire levanta-se e de imediato se põe a correr rumo à floresta.

— Vão atrás dela! — Kyahra gritou com fúria para o alto, guardando a alma em seu ventre. No momento seguinte tudo o que pôde ser ouvido foi o farfalhar de asas e o grito estridente das três gárgulas que surgiram acima de suas cabeças. A moça então se voltou para a irmã sentada desconfortavelmente no chão. — Se acha muito esperta, não? Pedindo para que sua amiga fugisse... Sempre a mesma coisa. — concluiu decepcionada, lembrando-se dos tempos antigos — Por que você nunca aprende a lição?

— O que você vai fazer? — indagou Ciana, curiosa, colocando-se ao lado da mais alta.

— Vou arrancá-la daí de dentro, é claro. —um sorriso maldoso foi lançado à irmã apreensiva que observava de perto — Talvez ficar presa à floresta já não seja uma punição severa o bastante para alguém que sempre desobedece às regras, não concorda?

— Havia me esquecido o quão santa você é. — Kalessa respondeu debochadamente e cuspiu na face de Kyahra. Um tapa na cara foi a resposta que sua irmã lhe deu.

— A mesma impulsiva de sempre. — então ficou quieta, organizando seus pensamentos e orquestrando seu veredito. — Mas poderá ter muita utilidade. — murmurou consigo mesma após pensar numa maneira de ao mesmo temo puni-la e resolver parte de seus problemas. Subitamente lembrou-se de que alguém ainda estava consigo, então passou a mão gentilmente sobre seu próprio ventre, sentindo a agitação persistente. — Não se preocupe... Você e sua amiga também terão.

Kyahra rasgou a pele do ombro de Agalia com a unha, e, assim como fez antes, voltou a colocar a mão na garganta da jovem. Mas ao invés de retirar algo brilhoso e ofuscante, o que de lá saiu foram apenas trevas, uma fumaça negra e densa. A última coisa que Sam viu antes de os olhos serem fechados para sempre foi a imagem turva, onde as duas irmãs de mãos dadas se beijavam fervorosamente.

[-x-]

O moreno deu graças a Deus por ter saído daquele pesadelo. Nunca na sua vida pensou que ficaria tão feliz em ver Moore outra vez, mesmo que agora não a visse com os mesmos olhos. Sam e Jessica estavam sentados à mesa, nos mesmos lugares de antes, um olhando para o outro sem saber o que dizer. Havia confusão nos olhos do jovem e expectativa nos da loura.

— Agalia?

— Por favor, me chame de Jessica. Não respondo por esse nome há muito tempo. — foi o que respondeu.

Sam, por impulso, começou a perguntar coisas aleatórias sobre tudo o que passou. Algumas pontas foram presas, e quando o moreno perguntou o que havia acontecido com a moça que fugiu, Jessica disse que seu destino foi pior que a morte. Sua alma foi mesclada ao espírito da floresta, e desde então as duas são uma só; ambas condenadas a driblar ceifadores e colher almas para quitar uma dívida que não as pertence. Sam não precisou perguntar a Jessica o que havia acontecido com ela.

— Ciana e Kyahra me têm como uma empregada qualquer. Me deram poderes incríveis para fazer o trabalho sujo, já que não podem sair de seus postos com frequência. — relatou — As fiéis escoteiras de Lúcifer sempre estão lá embaixo, caminhando pela jaula, aguardando ordens vindas do mestre.

— Lu-Lúcifer? — tartamudeou — Mas elas não eram deusas?

— Nunca foram. A adoração que recebiam apenas as fortalecia e nada mais. No começo dos séculos elas eram conhecidas como Os Oráculos. Quatro mulheres lindas e imortais, criadas pelo próprio Diabo para prever o futuro.

— Você disse quatro? — Sam perguntou. Sua atenção estava estritamente focada na conversa.

— Samah foi destruída por Lilith quando descobriu que ela havia se deitado com Lúcifer. — explicou.

A boca de Sam foi comicamente moldada em um "o" de surpresa, e os olhos vaguearam o vazio, tentando encontrar um pouco de sentido no que escutava. Nunca fora um rapaz religioso em demasia; acreditava nisso ou naquilo, mas na maior parte do tempo duvidava de tudo que fosse anormal. Porém, nesses últimos dias a anormalidade foi sua única companheira. Contudo, escutar aquele tipo de coisa sem usar um pouco do bom e velho ceticismo era uma tarefa bem difícil, quase que impossível.

— E é aqui que você entra. — a loura falou, fazendo com que o olhar perdido do jovem encontrasse seus olhos ternos.

— Eu? — espantou-se.

— Samah era a mais bela das irmãs. Após Lilith, obviamente, era a mais desejada também. — Jessica suspirou calmamente. Em seu semblante era visível uma paciência incomum — Lúcifer disse que mataria suas três irmãs se ela recusasse a se deitar com ele, então acabou aceitando. Ela teve uma visão depois disso: viu a si mesma no deserto, segurando uma criança de olhos negros.

— Não vai dizer que sou eu essa criança, porque se for eu juro que...

— O quê? É claro que não! Isso foi há milênios atrás! — Jessica sorriu e então continuou — Enfim, de todas as irmãs de Samah, Kalessa era a única em quem ela realmente confiava. Então decidiu lhe contar tudo, desde a ameaça até a recém gravidez e o significado de sua visão. Kalessa a ajudou com a fuga para o mundo exterior, e quando suas irmãs descobriram o que ela havia feito a baniram imediatamente para uma floresta na Grécia, onde ficou aprisionada por centenas de anos. Samah, em sua forma humana, foi acolhida por um grupo de nômades egípcios até que pudesse dar à luz a um garoto, quem ela chamou de Godrick. — após isso, Jess ficou quieta.

— E então? — indagou impaciente. A jovem engoliu seco, antes de continuar:

— Bom... Quando Lilith descobriu o que aconteceu, sua intenção era matar a oráculo naquele exato momento. Porém Lúcifer a impediu, dizendo que o filho que ela carregava no ventre seria essencial para a sua liberdade. Godrick precisava ser protegido para que um dia fosse sua única esperança de andar livre sobre a terra novamente. Lilith concordou, mas assim que o garoto completou três anos, em forma de cão selvagem ela matou e comeu Kalessa. — Jessica começou a ficar nervosa — Acho que isso é o suficiente por hoje, não acha? Além do mais você deve estar cansado, e...

— Eu estou dormindo, esqueceu? — Winchester rebateu secamente. — Termina logo.

Jessica suspirou outra vez. Não devia se preocupar, já que estavam seguros ali, dentro da mente de Sam. Ninguém poderia ouvi-los, a menos que... Não. Ninguém poderia ouvi-los. Só que ela sabia o quão difícil foi para o jovem saber que John não era seu verdadeiro pai. Contar a verdade a Sam poderia deixá-lo ainda mais instável, e, analisando minuciosamente a situação atual de sua sanidade, Jess temia que ele pudesse surtar a qualquer momento e ir direto para a boca do tubarão.

— Godrick ainda vagueia pelo mundo em diferentes formas; num dia um velho, no outro uma criança. Há muito tempo ele vem tentado fazer o que seu pai lhe pediu, e acho que dessa vez ele finalmente obteve sucesso.

— Sucesso em quê? — pediu impaciente — Me diga de uma vez!

—Você precisa entender que eu nunca estive de acordo com isso, Sam. Nunca. Mas Ruby e eu devemos agir como se estivéssemos! Nós conseguimos conquistar a confiança delas. — a voz era um sussurro — No andar de baixo, um demônio chamado Alastair reuniu um grupo de protestantes; eles saíram de lá há algum tempo, assim que tivemos a certeza de que você... — fitou os olhos curiosos do rapaz, sem ter coragem o suficiente para continuar — Eles não são os únicos que não concordam com a ideia de ver Lúcifer fora da jaula. O Céu também se impôs, mas conseguimos o apoio de alguns. Os oráculos previram isso, previram uma guerra. Então nos mandaram aqui, para "proteger" vocês.

— Vocês? Quem mais vocês estão protegendo?

— Seu irmão. — disse relutante — Ele será tão importante nisso quanto você.

Sam explodiu internamente ao ouvir aquilo. Dean. Seu irmão. Envolvido em seja lá o que isso era. Não podia ficar pior, podia? Era como se Sam o arrastasse para o buraco consigo, mesmo sabendo que essa não era a sua intenção. Então por quê? Por que Dean também fazia parte daquela loucura quando nem mesmo ele, Sam, sabia exatamente do que se tratava? O impacto daquilo foi tão grande que, por um momento, a imagem de Jessica a sua frente pareceu falhar, como se estivesse desaparecendo.

— Jess... — o cômodo rodava vertiginosamente a sua volta. — O que eu tenho a ver com tudo isso?

A pergunta saiu quase que automática. Embora ele houvesse cogitado a hipótese, não havia como ter certeza se não a perguntasse. Ela possuía respostas. Respostas que John não pôde lhe dar, e que certamente desconhecia. Respostas que poderiam mudar completamente sua maneira já demasiado deturpada de encarar os fatos. Ele podia estar enganado, é claro. Mas em todo o caso, ele precisava saber.

— Você é o filho de Godrick. Bom... Um deles, para ser exata. — ela viu o estado de Sam e foi até ele, agachando-se ao seu lado e colocando a mão gentilmente sobre seu ombro — Você foi o escolhido, Sam. Você trará Lúcifer para este mundo.

É. No fim das contas ele não estava enganado.

— Me tira daqui!

[-x-]

— Isso já perdeu a graça, Seth. — Ruby falou em meio a um bocejo. — Eu pensei que ele te cortaria em pedaços e que tentaria os esconder debaixo da pia.

O moreno a olhou com cara de poucos amigos, e depois voltou a fitar um Dean extremamente abalado sobre o corpo imóvel estirado no chão. Os dedos de jovem estavam roxos de tantos socos que havia deferido, e seus olhos estavam inchados de tanto chorar. Ele entrou em um estado de choque após ter tentado acabar com a própria vida; o que Ruby, é claro, havia impedido.

— Você não deveria ter pegado tão pesado. — O mais alto a repreendeu. — Espero que dê um jeito nisso.

— Não se preocupe, ele não vai se lembrar de nada. — foi o que respondeu entediada — Agora sabemos que ele não é de brincadeira. Aliás, se eu fosse você, a partir de agora manteria minhas mãos a uma distância bastante segura desse rapaz.

Seth adentrou o cômodo sendo seguido pela moça, então se aproximou cauteloso do Winchester. Tocou-lhe o braço de leve, mas o outro não esboçou nenhuma reação.

— Ele pode me ver? — perguntou com o olhar pidonho à loura encostada no sofá.

No momento seguinte Seth era observado por um par de olhos verdes e assustados. Havia mais que confusão ali. Era uma mistura de incredulidade e desespero. Havia fúria também. Raiva. Mas isso só ficou visivelmente expresso após o louro agarrar a gola da camisa do outro e o puxar para o chão de uma só vez. A mão esquerda tateou o chão, procurando a faca que outrora usara. Não havia nada ali. Não havia corpo, não havia sangue, não havia nem mesmo hematomas.

— Eu matei você! — Exclamou entre os dentes cerrados. Os lábios de Dean, próximos demais aos do de Seth, deixavam o mais novo com a nítida impressão de estar sendo desafiado.

E o pior: Dean Winchester, agora, não parecia estar ao todo arrependido pelo que achou ter feito.

— Clama aí, criança. — Finalmente Ruby interveio, agarrando Winchester pelos ombros e o afastando ao máximo do rapaz de blusa amarrotada — Você já brincou bastante com ele.

A moça não tardou a acalmá-lo, e assim que tocou o rosto avermelhado os seus olhos e os dele foram fechados lentamente, como se ambos houvessem caído em um sono tranquilo. Ruby então começou a localizar os fragmentos escondidos na mente do jovem; todos que condiziam com os acontecimentos das últimas horas. Era um procedimento simples, praticamente imperceptível pela vítima e sem danos colaterais. Dean acordaria no momento em que ela cancelasse a conexão e emendasse a última lembrança que ele passaria a ter à outra lembrança artificial.

Ao canto da sala, Seth observava a tudo de braços cruzados, ansioso.

Ruby foi a primeira a acordar. Quando o moreno perguntou se ela obteve sucesso, a mesma apenas confirmou com um simples aceno de cabeça. Logo mais Dean fazia menção em acordar.

— O que estou fazendo aqui? — perguntou unindo as sobrancelhas, apressando-se a olhar para o redor em busca de alguma explicação.

"Isso não é um bom sinal."

— Você veio passar a noite aqui porque bebeu demais e não podia dirigir. — Ruby expôs logicamente — Não se lembra, Dean?

Seth Cohen parecia tão confuso quanto o rapaz que, por alguma razão, não pareceu ficar convencido com o que ouviu. Ruby vasculhava as remotas possibilidades de seu feitiço ter dado errado.

— Dean? Quem diabos é Dean?

"Ferrou!"

Continua...