N/A: Eu sei que o capítulo demorou (uma semana) para ficar pronto e gostaria de pedir desculpas pelo tempo anormal que levei para atualizar. Prometo que não acontecerá novamente, ok?

Finalmente chegamos ao capítulo dez dessa história e eu gostaria de dedicá-lo para os meus leitores mais fiéis: TedL, YazmimAndrade, Francesca, Ane Whitlock Malfoy e L. Padfoot.

Não canso de falar o quanto vocês são importantes para mim e que todos já tem um lugarzinho cativo em meu coração.

Recomendo a leitura ao som de Frail Love (Cloves), After the Storm (Mumford & Sons) e Latch - Acoustic (Sam Smith).


"I've got a lover / a love like religion / I'm such a fool for sacrifice / It's coming down, down, I'm coming down"

Coming Down - Halsey


— HARRY! - Hermione gritou o nome do chefe dos aurores novamente, e por um milagre, conseguiu alcançá-lo antes que o mesmo saísse de seu gabinete.

— Finite Incantatem!— o bruxo segurava a varinha com mãos trêmulas, apontando diretamente para a figura confusa da Ministra da Magia.

— Qual é o seu problema? - esganiçou-se - O que você está tentando fazer?

— Tentando quebrar o feitiço que aquele imbecil jogou em você - ele esbravejou - Você estava sob o comando de uma maldição imperdoável. Só isso pode justificar o que eu acabei de ver.

— Potter, você acha mesmo que eu sou o tipo de cara que precisa de Imperius para seduzir alguém? - a voz debochada às costas dela era um indicativo que Draco havia se reunido ao grupo.

Institivamente, ela virou-se para encará-lo, munida de um olhar em que claramente podia se ver que a presença dele não era muito bem-vinda naquele impasse. Contudo, antes que pudesse externar seus pensamentos, sua visão foi capturada pelo tórax desnudo do bruxo que vestia vagarosamente sua camisa. O vocabulário, que para Hermione sempre fora tão vasto, naquele instante havia sido expurgado de sua mente sem misericórdia.

— Vocês são inacreditáveis! - Harry vociferou, ao perceber o rubor que se espalhava pelas bochechas da amiga - Você passou todos os dias enfiada aqui no Ministério transando com o seu amante? Como pode fazer isso sabendo que todos nós estávamos lá fora procurando o Percy?

Como se houvesse sido esbofeteada, a bruxa finalmente voltou à realidade em um sobressalto indignado, seus olhos estreitaram-se perigosamente na direção do amigo.

— Não ouse insinuar isso! - ela o advertiu em tom hostil - Você sabe muito bem que fiz o possível e impossível para encontrar o Percy com vida. Eu nunca usaria o desaparecimento dele como uma desculpa para...

— Ela está certa, Potter - Draco continuava parado ao lado dela. Ele finalmente havia terminado de abotoar a camisa e agora ocupava-se em colocar o cinto - Nós ainda não transamos e devo dizer que é a segunda vez que seu senso de oportunidade nos impede de...

— DRACO! - Hermione urrou - Não se meta!

— Há quanto tempo isso está acontecendo? - Harry quis saber - Foi assim que você resolveu se vingar do Ron?

— O que está acontecendo entre o Draco e eu não tem absolutamente nada a ver com a infidelidade do meu marido - a morena retorquiu - E desde quando você se preocupa tanto com o que acontece no meu casamento? Não me lembro de vê-lo tão indignado quando Ron dormiu com outra mulher.

Ela assistiu atenta ao exato momento em que a expressão no rosto de seu melhor amigo transmutou-se da indignação para a mágoa. Os anos de familiaridade fizeram com que ela compreendesse o motivo antes que o mesmo escapasse pelos lábios trépidos dele:

— Eu aparatei no jardim da sua casa no momento em que li a matéria no Profeta Diário— ele contou - Não pense que eu não falei para o Ron exatamente o que ele merecia ouvir. Vocês são meus melhores amigos e não consigo compreender por que estão se ferindo dessa maneira tão infantil.

— Juro que não estou fazendo isso para ferir ninguém.

— Ele sempre me perguntou - Harry prosseguiu - Sempre quis saber se eu havia percebido algo entre vocês. E não sou cego, sabe? Eu via a forma que vocês se olhavam o tempo inteiro. Só não quis acreditar que seria capaz disso, Mione.

— Ron sabe - ela confessou irritada - Eu contei para ele. Não fiquei esperando que meu marido descobrisse através de um jornal.

— Seu marido— o auror riu-se - Depois do que eu presenciei é estranho ouvir essa palavra.

O escárnio na voz de seu amigo produziu um efeito colateral inesperado e Hermione sentiu a frágil fibra que a separava da insanidade romper-se em seu cérebro.

— Eu sei, está bem? Sei que estou me comportando como uma adolescente e colocando todo o meu casamento em risco - ela disparou com voracidade - Mas a verdade é que estou pouco me importando. Não fui eu quem escolheu quebrar os votos. Ron e sua insegurança infindável tomaram a decisão por mim. Então, não me julgue por ter desenvolvido sentimentos por Draco.

— Você desenvolveu sentimentos por mim? - a voz de Draco não passava de um sussurro incrédulo.

Hermione virou-se para encará-lo. Ela estava tão perdida em seu discurso que havia se esquecido completamente da presença dele. Seus lábios movimentaram-se em silêncio perante ao olhar alarmado do loiro.

— Você realmente sente alguma coisa por esse demônio albino? - Harry engrossou o coro.

Repentinamente, ela percebeu que estava cercada por todos os cantos. Não era exatamente assim que ela havia imaginado que seria o momento em que ela finalmente abriria seu coração.

Não demorou muito para que Hermione admitisse a derrota. Ultimamente nada em sua vida seguia o rumo esperado. Ela não tinha mais controle de nada.

E isso a aterrorizava.

— Tudo está entrando em colapso há meses - ela desabafou - Meu casamento acabou e minha vida profissional parece estar sempre por um fio. Draco é a única coisa que me faz sentir viva. Eu me arrependo por ter me entregado a ele antes de me separar, mas nem por um instante eu me arrependo dele.

Por mais que quisesse, a bruxa não conseguiu reunir coragem suficiente para encarar o homem que estava parado ao seu lado. Ela não queria saber quais efeitos, negativos ou positivos, sua pequena declaração havia causado nele.

Hermione manteve seu olhar fixo em Harry e assistiu, cheia de apreensão, a face de seu melhor amigo mudar suavemente de asco para compreensão.

Uma onda de alívio tomou conta do corpo dela quando ele começou a falar:

— Não vou dizer que entendo - murmurou - Também não direi que apoio. Mas se isso, esse relacionamento, te faz feliz, eu também não pretendo me opor. Você realmente estava falando sério quando disse que seu casamento acabou?

— Sim - ela assentiu com certeza absoluta - Eu ainda amo o Ron e não seria justo submetê-lo a isso. Ele merece encontrar alguém que possa dar tudo o que anseia. Esse alguém já não sou eu há muito tempo.

Harry suspirou. Era como se o fim do casamento dela representasse o fim de uma era para ele. Uma era em que os três reinaram absolutos havia chegado ao fim. Novos tempos, com Draco Malfoy como o quarto membro do grupo, estavam por vir.

— Eu darei a notícia sobre o falecimento do Percy para Ron - ele disse - Desde que você me conceda dois favores simples.

Hermione acenou a cabeça positivamente. Ela provavelmente faria qualquer coisa que ele pedisse naquele instante. Qualquer coisa para garantir que ele não a odiasse tanto.

— Não se separe do Ron agora, ok? - Harry pediu - Não estou querendo convencê-la a mudar de ideia. Só espere algumas semanas até que o período de luto passe. Não sei se ele suportaria dois baques em seguida. Você sabe que ele sempre foi o mais frágil de nós três.

Ele estava correto. Seu marido era cheio de qualidades, mas nunca fora reconhecido por sua resistência emocional. Muito menos por ser compreensivo. Hermione viu-se concordando com a proposta do amigo, porém, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Draco precipitou-se:

— É claro que ela não vai abandonar o marido agora.

Harry e Hermione fitaram o bruxo e nenhum dos dois fizeram um bom trabalho em ocultar a perplexidade estampada em seus rostos.

— Estou ofendido por vocês acreditarem que eu não concordaria com isso - o loiro crispou os lábios - Só um monstro exigiria que ela largasse o marido minutos depois de ele receber a notícia da morte do irmão.

— Ótimo - Harry disse, os olhos verdes ainda o estudavam como se aquela fosse a primeira vez que o visse - O segundo favor que tenho para te pedir é que você demita Ava Ethel e contrate uma secretária decente. Eu vou me matar se entrar novamente em seu gabinete e ver qualquer parte de Draco Malfoy que não deveria estar exposta.

E ali, daquela maneira velada e disfarçada de crítica, estava todo o apoio que ela precisava de seu melhor amigo.

— E você - ele continuou, e apontou o dedo em riste na direção de Draco - Faça qualquer coisa para magoá-la e eu te matarei sem pestanejar. Eu sou o chefe dos aurores e posso fazer com que isso pareça um acidente infeliz. Estamos de acordo?

Ele limitou-se a concordar silenciosamente. A falta de um comentário inadequado da parte dele era um sinal de que estava levando a ameaça a sério.

— Muito bem - Harry concluiu satisfeito - Nos vemos mais tarde, Mione - e se despedindo somente dela, ele finalmente deixou o escritório.

Hermione sentiu um peso imaginário desalojar-se de seu peito. Com um pouco de ordem reinstalando-se em seu cérebro confuso, ela tentava inutilmente reunir os fatos da maneira mais organizada que sua mente permitia:

1. Percy estava morto.

2. Ela não conseguira salvá-lo.

3. Seu cunhado era outra estatística infeliz da Sociedade.

4. Ron a odiaria.

5. Ainda mais do que já odiava.

Draco estava segurando-a pelos ombros. Um olhar de preocupação tomava conta de seu rosto pontiagudo.

— Granger? - ele a chamou pela terceira vez, finalmente retirando-a de seu transe - Você está me ouvindo?

— Eu não quero que ele me odeie mais— foi tudo o que ela conseguiu dizer.

Ele a tomou cuidadosamente em seus braços, deixando que ela afundasse o rosto em seu peito e chorasse livremente.

— Percy era uma ótima pessoa - Hermione lamentou - Um ótimo cunhado, funcionário, marido, pai, irmão...E eu não o salvei.

— Mas você fez o seu melhor, não fez? - Draco perguntou - Você sempre faz o seu melhor.

— E se meu melhor não for suficiente?

— É suficiente para mim.

Muito lentamente, a bruxa afastou-se do peito dele e ainda com os olhos vermelhos, o encarou com um misto de admiração e gratidão. Ele estava ali. Ele era real. E ela, com todas suas imperfeições, era suficiente para ele.

E foi por isso que ela o beijou, totalmente consciente de que aquela era a primeira vez que ela tomava a iniciativa. E foi assim que toda sua vida pareceu encaixar-se de uma maneira que não havia ocorrido até então.

— Granger - ele disse, quando seus lábios finalmente se desgrudaram - Promete não ficar brava comigo?

— Não prometo - ela respondeu, desvencilhando-se desconfiada - O que aconteceu?

— Você percebeu que teve toda essa discussão com o Potter... - Draco precisou tomar uma nova dose de coragem antes de concluir seu pensamento - Sem blusa?

Hermione olhou para o seu sutiã de renda preto e lembrou-se da blusa de seda que jazia esquecida no chão da sala de reuniões. Ela estava tão atormentada que nem ao menos se deu ao trabalho de vesti-la antes de sair correndo atrás de Harry.

— Bem, não é a primeira vez que ele é agraciado com essa visão, não é mesmo? - ela finalmente disse, e suspirou como quem admite uma derrota.

— Vamos garantir que seja a última - Draco sorriu, e a envolveu novamente em um abraço protetor - Já te disse que não gosto de dividir o que é meu.


Ela destoava dramaticamente em meio ao mar de cabelos alaranjados que ocupavam A Toca. Todos os familiares resolveram reunir-se após o funeral para compartilhar seus momentos favoritos da vida de Percy e oferecer amparo emocional para os que necessitassem.

Hermione sentou-se à mesa da cozinha, acompanhada de Bill, Charlie e uma garrafa quase vazia do Velho Uísque de Fogo Ogden. Ela escutou devotadamente enquanto ambos se revezavam em contar as aventuras de infância do irmão falecido. Existia uma felicidade nostálgica nas palavras de ambos, porém, seus rostos entregavam a tristeza contida nas narrativas.

Durante aquela tarde, ela lembrou-se de diversos episódios da curta existência de seu cunhado. Hermione revisitou a memória da paixonite que nutriu por ele durante o seu primeiro ano de Hogwarts. Ela falou sobre como Percy era idolatrado por cada um dos funcionários do Departamento de Transportes Mágicos e como suas ideias sempre foram vanguardistas. Relembrou também como ele a levou para almoçar todos os dias durante sua primeira semana como trainee no Ministério da Magia, pois, ela não conhecia ninguém e sentia-se deslocada.

Ela entristeceu-se ao recordar que o tempo quase havia apagado todos aqueles pequenos fatos de sua mente. Era trágico como o passar dos anos possuía essa característica de roubar momentos preciosos.

Quando Charlie e Bill resolveram abrir uma segunda garrafa de uísque antes de abrangerem os anos escolares do irmão mais novo, Hermione viu uma boa oportunidade para ir ao banheiro e espairecer um pouco.

No momento em que subia as escadas em direção à toalete, seu ouvido captou o inconfundível barulho de um choro sufocado e isso a fez parar abruptamente, procurando a origem do mesmo. A bruxa questionou se não seria prudente oferecer um pouco de privacidade para a pessoa, porém, sua curiosidade acabou falando mais alto e antes que pudesse se refrear, lá estava ela espiando por uma porta entreaberta.

Para sua surpresa, ela deparou-se com Ginny sentada no chão do quarto na companhia de uma garrafa vazia de vinho. Sem notar que estava sendo vigiada, a bruxa chorava com uma intensidade que não lhe era muito costumeira. Mesmo na penumbra do cômodo, Hermione conseguia ver seu corpo tremer com a fúria das lágrimas e isso a motivou a finalmente entrar no quarto, sentando-se ao lado dela para oferecer-lhe um pouco de apoio.

Sem dizer nada, sua cunhada apenas recostou a cabeça em seus ombros e cerrou os olhos, como se tentasse fugir da triste realidade que a assolava.

— Eu sinto tanto, Ginny! - ela disse, e seu tom era carregado de culpa e dor.

— Eu sempre soube que algo aconteceria com um dos gêmeos - ela comentou com a voz embargada - Acho que todos nós sabíamos. Eles nunca respeitaram nenhuma regra, eram imprudentes, nunca obedeciam às ordens da mamãe e francamente, fiquei muito surpresa quando os dois completaram vinte anos e ainda estavam relativamente intactos.

A Ministra abriu um pequeno sorriso abatido ao lembrar-se de Fred. Era doloroso pensar que aquela família, que havia a acolhido com tanta generosidade, estava novamente enterrando um dos seus antes do tempo previsto.

— Mas Percy? - prosseguiu, finalmente abrindo os olhos marejados - Ele era cauteloso. Se eu tinha um irmão que era inteligente o suficiente para sair dessa vivo, esse irmão era o Percy.

— Eu sinto muito por não o ter encontrado antes - Hermione sussurrou - Ele não mereceu o destino que teve.

Ginny limpou o rosto com a manga de seu vestido e virou-se lentamente para encará-la.

— Você sabe que isso não é sua culpa, não é? - ela perguntou séria - Seu cargo não a torna automaticamente culpada por tudo de ruim que ocorre no mundo bruxo. Eu sei que você disponibilizou tempo e recursos para encontrar o meu irmão e sou eternamente grata por tudo o que fizeram.

— Eu só me sinto impotente perante à situação.

Hermione observou a amiga olhando-a de soslaio e pela expressão pensativa que ela havia assumido, era seguro afirmar que estava tentando encontrar um assunto mais leve para diluir a tensão.

— Harry me contou sobre o pequeno espetáculo que presenciou entre certo loiro e você - ela comentou despreocupada - Devo dizer que estou realmente surpresa por descobrir que minha amiga é o tipo de mulher que curte sexo em um ambiente tão formal. Faz com que eu me pergunte o que você fazia na época de Hogwarts...

Os olhos da morena arregalaram-se e sua culpa deu lugar para uma vergonha que assumiu o controle de seu corpo rapidamente.

— Ginny! - exclamou alarmada - Juro que isso aconteceu antes de eu receber a notícia. O que o Harry te disse? Eu não estava fazendo sexo. Ah, por Godric, você deve estar me odiando tanto agora.

Um sorriso maroto despontou nos lábios da bruxa. Por mais mortificante que aquela conversa fosse para Hermione, existia uma parte dela que se sentia aliviada por ver a ruiva manifestar tal leveza de espírito.

— Estou te odiando um pouquinho. Você quase matou o meu marido de aneurisma, sabia? - disse em tom zombeteiro - Sério, Mione, pare de se martirizar.

— Mas... - ela balbuciou - Ron!

— Ron é um idiota que nem ao menos compareceu ao enterro do próprio irmão - comentou amargamente - Aliás, onde esse energúmeno se meteu hoje?

— Está em casa - Hermione respondeu - Disse que não tinha coragem para vir.

Os olhos castanhos da bruxa endureceram sinistramente ao receber tal informação.

— Típico!

— Eu acho que ele só está tentando lidar com o luto da melhor maneira possível e...

— Mione! - a cunhada a interrompeu com rispidez - Você quer que eu te odeie? Então, continue a encontrar desculpas para cada uma das presepadas do meu irmão. Ele é um bebê gigante que não consegue superar a própria insegurança. Um belo de um hipócrita também.

— Mas...

— Harry mencionou que você quer se separar de Ron. É verdade? - ela perguntou apreensiva - O Profeta Diário é processado muitas vezes durante o ano, e por isso, tenho o contato dos melhores advogados do mundo bruxo. Tenho certeza que qualquer um adoraria defender a Ministra da Magia no seu divór...

— Ginevra! - Hermione a repreendeu - Você realmente está indicando advogados para que eu me separe do seu irmão?

Com um chacoalhar de ombros, a bruxa prosseguiu como se não se não houvesse absolutamente nada de errado com seu raciocínio:

— Alguém nessa família precisa tomar a iniciativa, não é? - ela estava resoluta - Você é tão nobre que é capaz de prolongar esse casamento por mais meio século.

A bruxa não pode deixar de constatar a frequência com que as pessoas usavam sua nobreza como um adjetivo pejorativo. Será que ela era tão errada simplesmente por ater-se ao que acreditava ser correto?

— Eu só quero estar presente nesse momento tão complicado da vida dele e...

— Meu Merlin, pare de ser tão grifinória! - Ginny gemeu - Não pense tanto no idiota do meu irmão.

— Meus filhos...

— Também não use meus sobrinhos como desculpa - ela retrucou impaciente - Eles já estão bem grandinhos para compreender a situação.

Hermione expirou ruidosamente e admitiu sua derrota. Se um dia sua cunhada cansasse de escrever sobre Quadribol, existia uma carreira política muito prolífica a esperando no mundo bruxo. Ninguém, em toda a história da humanidade, nunca foi tão obstinada como Ginny. Dissuadi-la de uma ideia era tão eficiente como esperar que o céu amanhecesse verde.

— Tá certo! - ela concordou à contragosto - Eu prometo que olharei essa sua lista de advogados.

Comemorando silenciosamente sua vitória, a ruiva ficou em pé, um sorriso límpido iluminando a face que antes fora assombrada por lágrimas.

— Vamos descer - Ginny anunciou, e apanhou a garrafa vazia de vinho aos seus pés - Fiquei encarregada de levar as crianças para King's Cross e eu não tenho a mínima intenção de conduzir um pequeno comboio de delinquentes sóbria.

Pela segunda vez em um curto período de tempo, os olhos da Ministra quase saltaram de suas órbitas:

— Você não pode aparatar por aí com um bando de adolescentes enquanto está bêbada, Ginevra! - Hermione guinchou apavorada, levantando-se apressadamente para alcançar a cunhada.


Já era o início da madrugada quando ela aparatou no jardim de seu sobrado. No momento em que colocou o pé direito dentro da cozinha, seu sexto sentido imediatamente captou um distúrbio na ordem de seu lar. Tudo ao seu redor cheirava horrivelmente à álcool. Uma esquadrinhada rápida na cozinha foi suficiente para confirmar suas suspeitas: uma pilha excepcional de garrafas vazias de uísque de fogo acumulava-se na lixeira mais próxima.

Ela tentou ignorar o triste cenário e partiu escada acima, preparada para encontrar o marido caído em algum canto da casa e agarrado à um copo. Para sua surpresa, quando ela abriu a porta do quarto, o encontrou trajando somente as calças puídas de um moletom, sentado na beirada da cama com os olhos vidrados no nada. Ele parecia tão frágil e indefeso sob a luz fraca do luar.

Havia algo naquela cena melancólica que a remeteu a tempos mais felizes. O homem parado à sua frente não se assemelhava em nada ao Ron que um dia ela conheceu e amou tanto.

Ele já não era mais a mesma pessoa que ficou uma semana inteira sem dormir com a expectativa de conhecer os sogros.

Não era mais aquele que ficou tão atrapalhado na hora de pedi-la em casamento que por muito pouco não engoliu o anel de noivado que estava na taça de champanhe.

Também não era mais o homem que desmaiou nos primeiros três minutos do parto de sua primogênita ou o que obrigou a irmã a narrar o nascimento de Hugo aos berros, já que ele havia aprendido sua lição e agora acompanhava tudo na sala ao lado.

Ele nunca mais seria aquele bruxo e ela nunca se sentiu mais triste do que naquele exato momento.

— Ron? - ela o chamou com suavidade - Você está bem?

Ele nem ao menos se dignou a dar-lhe uma resposta para uma pergunta tão obviamente retórica. Hermione inspirou profundamente e suas narinas finalmente registraram um novo odor em meio ao álcool. Era um perfume barato e feminino. Uma essência que não lhe pertencia e mesmo assim parecia estar impregnada no quarto que ela dividia com o marido.

E foi naquele instante que ela compreendeu que ele não havia passado o dia sozinho.

— Quem esteve aqui? - Hermione indagou com serenidade - O que você estava pensando? Eu poderia ter trazido Rose e Hugo comigo. Eles não merecem isso.

Ron finalmente quebrou o silêncio com uma risada maldosa.

— É com isso que você está preocupada? - ele perguntou, fitando-a com incredulidade - Com o que os outros podem pensar? Você já não se importa mais, não é mesmo?

— Não seja injusto - ela pediu - Eu estou preocupada com você.

— Preocupada comigo? - Ron disse em um tom anormalmente alto - Faça-me o favor, Hermione...

— Eu te amo - a bruxa o interrompeu - Eu te amo e é muito doloroso saber que você está se autodestruindo dessa maneira para me atingir.

— Mas é claro - ele sorriu sardonicamente - Estou fazendo isso para te atingir. Como sempre, o mundo gira em torno da excelentíssima Ministra da Magia.

— Esse não é você. Eu não me casei com um homem tão egoísta.

Ele levantou-se vagarosamente da cama. Hermione o observou cambalear em sua direção, provavelmente ainda sob o efeito da bebida, e parando a poucos centímetros, seu corpo fazendo sombra ao dela.

— E eu não me casei com uma mulher que fode um Comensal da Morte - ele disparou cheio de raiva - Mas veja só onde nós chegamos.

Ela fechou os olhos, em partes para evitar a expressão maníaca no rosto do marido, enquanto outra parte sua tentava evocar as lembranças do que um dia foi uma união repleta de momentos felizes.

Hermione revisitou a memória daquele homem com rosto jovem, sardento e risonho no dia da festa de casamento. Recordou como ele passava horas sentado com Rose e Hugo no tapete da sala, ensinando-os a ler com toda a paciência do mundo.

Ron era tranquilo. Ron era gentil.

Aquele não era Ron.

— Eu vou embora - ela anunciou, tentando reunir o pouco autocontrole que ainda lhe restava - Se você acha que ficarei aqui assistindo passivamente enquanto o pai dos meus filhos se destrói...

— Claro - ele revirou os olhos - Vai correndo para os braços do seu Comensal? Pelo menos assuma e pare de fingir que está fazendo isso para o meu benefício.

— Mas eu estou! - ela insistiu, batendo o pé no chão com agressividade - Eu estou fazendo isso para o seu bem. O nosso casamento não tem salvação.

— Você escolheu isso - Ron vociferou - Você escolheu ele.

— Pare de colocar a culpa toda dos nossos erros em Draco - Hermione esbravejou em resposta - Pelo menos aceite que ninguém além de nós tem culpa. Nós traímos. Nós criamos essa situação insustentável. Nós precisamos lidar com as consequências como dois adultos.

— Não estou acreditando que você realmente pretende ir embora - ele disse, e recuou alguns passos até sentar novamente na cama - Você sabe que não precisa mais voltar se passar por essa porta, né?

Ela contemplou a face do marido contorcida por uma abundância de sentimentos negativos. Existia tantas coisas que ela queria dizer-lhe, porém, sabia que suas palavras seriam perdidas em meio à cólera de Ron.

Ela queria falar que o amava de uma forma quase dolorosa e o quanto desejava que um dia ele voltasse a ser o homem brincalhão e feliz de suas memórias.

E por amá-lo ao ponto de sacrificar tudo para poder salvá-lo, Hermione saiu do quarto sem dizer nenhuma palavra.


Existia uma possibilidade remota que ela não houvesse planejado muito bem o que faria a seguir. Essa alternativa ficava bem evidente quando somada ao fato que Hermione saíra de casa em plena madrugada, em meio à uma chuva torrencial, somente com a posse de sua varinha e de alguns galeões.

Em retrospecto, abandonar seu lar sem nem ao menos saber para onde iria, não foi uma de suas decisões mais brilhantes; entretanto, a bruxa sabia que era tarde demais para voltar atrás em sua decisão. Resignada, ela aparatou no beco atrás do Witch's Kitchen, onde pretendia preencher o vazio de sua existência com toda a comida disponível no cardápio.

Enquanto mastigava distraída, Hermione tentou analisar quais seriam as opções mais viáveis. Ela realmente poderia buscar abrigo com seus pais dessa vez, já que eles eventualmente descobririam sobre o fim de seu casamento e não havia mais nenhum motivo para ocultar a verdade deles.

Após uma breve reflexão, acabou descartando a possibilidade de aparecer de madrugada na soleira da porta de seus pais. Seus bons modos também a impediram de persistir na única outra alternativa razoável, que seria aparatar em Godric's Hollow e morar temporariamente com os Potter.

Quando a bruxa finalmente terminou sua refeição, ela sabia que existia somente uma pessoa que não se importaria em recebê-la em um horário tão inapropriado. Uma única pessoa que por si só era tão igualmente inapropriada que até mesmo ficaria feliz em vê-la ali.

Fazendo as pazes com a ideia de que não queria estar em mais nenhum outro lugar desse mundo, Hermione aparatou em Wiltshire.

— Granger? - o bruxo sonolento finalmente surgiu à porta de sua mansão - Por que você não usou a lareira?

— É óbvio que não estou tomando as decisões mais inteligentes hoje, não é? - ela replicou, apontando dramaticamente para suas roupas molhadas - Aliás, você sabia que o ponto de aparatação mais próximo à Mansão Malfoy fica a 5 quilômetros de distância? Ou seja, eu precisei andar 5 quilômetros, na chuva, até aqui. Você precisa entrar com uma solicitação no Departamento de Transportes Mágicos para criarem um ponto mais próximo de sua residência e...

O loiro esfregou os olhos e piscou diversas vezes, como se tentasse se certificar que aquela cena não era parte de um sonho surreal.

— São quatro da manhã - ele murmurou perplexo - Você realmente veio até a minha casa para reclamar de pontos de aparatação?

— Eu saí de casa.

— Você saiu de casa?

— Definitivamente saí de casa - Hermione assentiu com impaciência - Eu não posso salvar o meu marido, não é? Não posso ser tão nobre o tempo todo. Preciso ser mais egoísta e menos grifinória.

— Eu realmente gosto do rumo que essa conversa está tomando - ele sorriu satisfeito - Você quer sair da chuva e...

— Ontem fui ao enterro do Percy - ela continuou, tão absorta em seu estado maníaco que nem ao menos ouviu o convite para entrar - Eu só conseguia pensar em como o meu cunhado era um ser humano excepcional e que eu havia esquecido o quanto ele era especial. E você sabe como eu me esqueci disso? Me esqueci porque é exatamente isso que a distância faz. Ela nos faz esquecer todos os momentos incríveis que vivemos ao lado de outra pessoa. Eu me distanciei de Ron e ele esqueceu tudo o que viveu comigo. Draco, eu não quero mais ficar longe de você. Não quero correr o risco de esquecer de nada que vivi ao seu lado nos últimos meses.

Com um passo firme, Draco aproximou-se de Hermione, expondo-se à chuva que rapidamente encharcou seus pijamas, transformando a peça de vestuário em uma segunda pele. Ele segurou seu rosto com mãos trêmulas e a fitou diretamente nos olhos.

— Eu nunca deixaria que você se esquecesse de mim - o bruxo sussurrou, e partindo os lábios dela com a língua, a envolveu em um beijo que, anos mais tarde, ela ainda culparia como o catalisador de sua paixão por Draco Malfoy.


N/A: Depois de dez longooooos capítulos de espera, o casamento chegou ao fim e a Hermione está nos braços do Draco. E aí, o que vocês acharam? Quero/preciso muito saber a opinião de vocês sobre um dos momentos mais aguardados dessa fanfic!

Aproveitando o ensejo, também quero que me digam o que acham de "lemon". Já dá pra imaginar que no capítulo onze, o Draco e a Hermione finalmente vão chegar aos "finalmentes", né? Quero saber o quão graficamente devo narrar essa cena, portanto, conto com o palpite de vocês.

Então, não esqueçam de responder na review: a primeira vez Dramione deve ser explícita ou não?

Beijão e até a próxima!