Casar com o lorde. Sakura estava tão agitada em seu quarto que pensou que enlouqueceria. Parou na janela e olhou para fora, inalando um pouco de ar. A tarde estava quente.
Tomando uma decisão, pegou o xale e saiu do quarto. Mal saiu do castelo e um dos guerreiros Uchiha estava caminhando ao lado dela. Observou-o cautelosamente e lembrou-se que era um dos homens que estava com Itachi no dia em que a encontraram com Hayato. Tentou lembrar seu nome, mas tudo o que havia acontecido era apenas um grande borrão em sua mente.
Sakura sorriu, achando que ele queria apenas cumprimentá-la, mas continuou ao seu lado enquanto se dirigia até a muralha.
Antes que pudesse levantar a bainha do vestido para subir nas rochas, o soldado educadamente pegou sua mão e a ajudou. Sakura parou e ele quase colidiu com ela, de tão perto que a estava seguindo. Voltou-se e olhou para ele.
— Por que está me seguindo?
— Ordens do lorde, minha senhora. Não é para você andar pelo castelo sem uma escolta. Estou encarregado de sua proteção quando o próprio lorde não estiver com você.
Sakura bufou e pôs as mãos nos quadris.
— Sasuke está com medo de que eu tente escapar novamente e encarregou você de garantir que isso não aconteça.
O soldado não piscou.
— Eu não tenho a intenção de deixar a fortaleza. O lorde já me disse as conseqüências de tal ação. Simplesmente preciso caminhar um pouco e respirar ar fresco, portanto, não há razão para você deixar suas tarefas e me escoltar.
— Meu único dever é com sua segurança. – ele disse solenemente.
Sakura deu um suspiro descontente. Tinha certeza de que os homens do lorde eram tão estúpidos e teimosos quanto ele.
— Muito bem. Por qual nome devo chamá-lo?
— Inari, minha senhora.
— Diga-me, Inari, você é meu guarda permanente?
— Eu compartilho meu dever com Ichiro e Suigetsu. Somos homens de confiança do lorde, ao lado de seus irmãos.
Ela seguiu o caminho entre as pedras em direção ao pastoreio.
— Imagino que esse dever não foi muito bem vindo. – ela disse ironicamente.
— É uma honra. – disse Inari gravemente. – O lorde confia muito em nós. Não confiaria a segurança da senhora do castelo a nenhum outro soldado.
Sakura parou e voltou-se, apertando os lábios para evitar que um grito escapasse.
— Não sou a senhora do castelo!
— Mas será, em dois dias, logo que o sacerdote chegar.
Ela fechou os olhos e balançou a cabeça. Nunca antes tinha bebido, mas agora uma banheira inteira de cerveja seria bem-vinda.
— O lorde lhe deu uma grande honra. – disse Inari, como se sentisse a inquietação dela.
— Pois eu penso o contrário. – Sakura murmurou.
— Sakura! Sakura!
Ela voltou-se para ver Hayato subir a colina tão rápido quanto suas pernas permitiam. Gritava seu nome por todo o caminho e quase caiu quando colidiu com ela. Só a mão firme de Inari impediu sua queda.
— Rapaz, tenha cuidado. – disse Inari com um sorriso. – Você machucará a moça.
— Sakura, é verdade? É verdade?
Hayato estava muito excitado. Seus olhos brilhavam como estrelas.
— O que é verdade, Hayato? – ela perguntou, segurando-o cuidadosamente pelos ombros.
— Você vai se casar com papai? Você será minha mãe?
A raiva cresceu rapidamente dentro dela. Como ele pôde? Como pôde fazer aquilo com Hayato? Sakura iria partir seu coração se negasse. A manipulação a chocou. Achava que ele era mais honrado que isso. Era um arrogante, isso sim! Mas nunca imaginou que brincasse com a emoção de uma criança. Furiosa, olhou para Inari.
— Minha senhora, o lorde está com os homens, treinando. Ele nunca é perturbado durante o treinamento, a menos que seja uma questão de urgência.
Sakura avançou sobre ele, empurrando um dedo contra seu peito. Forçou-o a dar um passou para trás.
— Você vai me levar a ele de uma vez ou vou colocar este castelo de cabeça para baixo até encontrá-lo. Acredite em mim, pois é uma questão de vida ou morte. Sua vida ou sua morte!
Quando viu a negação nos olhos de Inari, Sakura jogou as mãos para cima e soltou um grande suspiro de exasperação. Virou-se e começou a descer a colina. Ela mesma encontraria o lorde. Se estivesse treinando com seus homens, isso significava que estava no pátio.
Então se lembrou de Hayato. Não queria que o menino escutasse o que tinha para dizer ao lorde. Virou-se para Inari e apontou um dedo.
— Você fica aqui, com Hayato. Entendeu?
Com a boca aberta ao ouvir a ordem, ele olhou alternadamente para ela e para Hayato como se não soubesse o que fazer. Finalmente se curvou, disse alguma coisa para o menino e, em seguida, empurrou-o na direção do pastor de ovelhas.
Sakura desceu a colina, mais irritada a cada passo. Quase tropeçou em uma pedra e caiu de cara no chão, se Inari não a segurasse pelo cotovelo.
— Devagar, minha senhora. Irá se machucar!
— Eu não. – ela murmurou. – O seu lorde, provavelmente.
— Como? Sinto muito, eu não a escutei.
Sakura mostrou os dentes e deu de ombros. Ao chegar ao pátio do castelo, ouviu o barulho das espadas pesadas, misturadas com palavrões. O cheiro de suor e sangue subiu por suas narinas. Procurou entre a massa de homens até que finalmente encontrou sua fonte de fúria.
Antes que Inari pudesse impedi-la, entrou na briga, com o olhar focado exclusivamente no lorde. Ao seu redor, gritos ecoaram. No meio do pátio, o orde parou suas atividades e voltou-se para ela. Quando a viu, seu rosto ficou tenso e fez uma careta. Não apenas para demonstrar seu usual desprazer. Sasuke estava furioso. Bem, isso era bom, porque ela também estava.
Somente quando parou em frente ao lorde, Inari a alcançou. Ele estava sem fôlego e o olhava para o lorde como se temesse a morte.
— Perdão, lorde. Não consegui pará-la. Estava determinada.
O olhar irritado do lorde encontrou Inari e arqueou uma sobrancelha em clara descrença.
— Como não pôde parar uma mulher de marchar através de um pátio onde qualquer um dos meus homens poderia tê-la matado?
Sakura bufou, incrédula, mas quando se virou para ver a quantidade de homens que agora estavam de pé, em silêncio, engoliu em seco. Cada um deles levava uma arma. Se tivesse pensado nisso antes, perceberia que ir pelo canto teria sido mais seguro. Estavam todos olhando com raiva para ela, provando sua teoria de que eram todos estúpidos e teimosos como o lorde.
Determinada a não demonstrar remorso pelo seu erro, voltou-se para o lorde e olhou-o com toda a raiva. Sasuke poderia estar furioso, mas ela estava muito mais.
— Ainda não lhe dei uma resposta, lorde. – quase gritou. — Como você pôde? Como pôde fazer algo tão... tão... traiçoeiro e desonroso?
A carranca em seu rosto se transformou em uma expressão de espanto total. Ele a olhou com tanta incredulidade que Sakura se perguntou se havia entendido o que disse. Então,apressou-se a informá-lo precisamente o que a deixou tão furiosa.
— Disse a seu filho que eu ia ser sua mãe. — Sakura andou até ele , cravando um dedo em seu peito. – Você me deu dois dias. Até o padre chegar. Dois dias para tomar minha decisão. Mas mesmo assim contou a todos no castelo que serei sua nova mulher.
Ela continuava e cutucá-lo no peito. O lorde olhou para seus dedos como se estivesse prestes a espantar um inseto inconveniente. Então, olhou para ela, um olhar tão gelado que Sakura estremeceu.
— Já terminou? – perguntou.
Sakura deu um passo para trás, acalmando seu ímpeto de fúria. Agora que desabafou sua raiva, a realidade assomou. Sasuke avançou, não dando a ela oportunidade de colocar qualquer distância entre eles.
— Nunca, nunca questione minha honra. Se você fosse um homem, estaria morta. Se voltar a falar comigo como fez agora, garanto que não gostará das conseqüências. Você está em minhas terras, e minha palavra é lei. Você está sob minha proteção. Irá me obedecer, sem sombra de dúvidas.
— De jeito nenhum. – ela murmurou.
— O quê? O que você disse? – gritou para ela.
Sakura olhou para ele serenamente, com um sorriso sem graça no rosto.
— Nada, lorde. Absolutamente nada.
Sasuke estreitou os olhos e ela pode ver suas mãos se contorcendo de novo, como se estivesse se segurando para não estrangulá-la. Será que Sasuke saía por aí querendo sufocar todos ou apenas ela, em especial?
— Receio que você seja especial. – o lorde disse.
Ela apertou a boca e fechou os olhos. A madre Senjuu lhe avisou que um dia sua propensão em deixar escapar seus pensamentos em voz alta ainda a colocaria em apuros. Hoje só podia ser um desses dias.
As carrancas dos homens ao seu redor foram substituídas por olhares de diversão. Sakura não gostou de ser a fonte da piada e olhou-os de cara feia. Mas isso só serviu para fazê-los rir mais ainda.
— Vou explicar mais uma vez. – o lorde disse com uma voz ameaçadora. – Não contei de nosso casamento para ninguém, a não ser para os homens que foram buscar o padre McElroy. Graças a você, no entanto, a notícia de nossas núpcias foi espalhada para meu clã inteiro.
Sakura olhou em torno, inquieta ao ver que uma multidão se reunia. Eles olhavam para o lorde e para Sakura com interesse indisfarçável. Apertou os lábios e olhou para ele, cheia de indignação.
— Então, como seu filho sabe? E por que tenho uma escolta que me diz que é seu dever cuidar da senhora do castelo?
— Está me chamando de mentiroso?
A voz dele estava mortalmente baixa, tão baixa que ninguém, a não ser ela, podia ouvir. Mas o tom enviou-lhe uma onda de medo.
— Não. – ela disse apressadamente. – Apenas gostaria de saber como tantas pessoas sabem de um casamento que pode ou não acontecer, sem que ninguém dissesse.
Sasuke estreitou os olhos.
— Primeiro, o casamento vai acontecer. Assim que você recuperar o juízo e perceber que esta é a única opção sensata.
Quando ela abriu a boca para contestar, Sasuke a chocou colocando a mão sobre sua boca.
— Fique em silêncio e permita-me terminar. Duvido que você um dia conseguiu ficar em silêncio. – ele resmungou.
Sakura bufou, ainda com a mão dele sobre sua boca.
— Só posso supor que meu filho me ouviu falando com meus homens sobre nosso casamento. Se quando ele fez a pergunta você tivesse advertido-o a ficar quieto, tudo ficaria bem. Mas agora, você anunciou nosso casamento para todo o clã. Alguns podem até considerá-lo uma proposta. E neste caso, eu aceito.
Sasuke terminou de falar com um sorriso e então libertou sua boca.
— Por que... você... – ela gaguejou. Tentou dizer algo, mas nada saía.
A multidão ao redor se alegrava.
— Um casamento!
Muitos gritaram parabéns. Espadas foram erguidas. Os homens batiam nas costas de seus escudos com o punho das espadas. Sakura estremeceu ao ouvir o ruído e olhou impotente para o lorde. Sasuke olhou para trás, cruzou os braços sobre o peito com um sorriso satisfeito no rosto demasiadamente bonito.
— Eu não pedi para você se casar comigo!
Ele não se intimidou por sua veemência.
— É costume selar o noivado com um beijo.
Antes que pudesse lhe dizer que achava a ideia idiota, ele a puxou.
— Abra a boca. – exigiu com voz rouca.
Seus lábios entreabriram-se e Sasuke deslizou a língua sensualmente sobre a dela. Seus sentidos a abandonaram. Por um momento, esqueceu-se de tudo, a não ser do fato de estar sendo beijada e de que tinha a língua de Sasuke dentro de sua boca. Novamente.
E ele acabava de anunciar ao seu clã que estavam se casando. Ou, talvez, ela tenha anunciado. Percebeu que quanto mais a beijava na frente de Deus e de todos, mais difícil ficava negar o seu pedido. Sakura lhe deu um forte empurrão. Para sua vergonha, Inari a segurou e a ergueu enquanto ela limpava a boca com as costas de seu braço. Oh, mas o lorde tinha um olhar presunçoso, agora. Seu sorriso era satisfeito enquanto a observava.
— Beijo? Eu não irei beijar você. Quero bater em você!
Ela se virou e fugiu. O riso do lorde a seguiu pelo caminho.
— Tarde demais, moça. Já a beijei.
De volta ao quarto, de onde nunca deveria ter saído, Sakura ficou andando de um lado para o outro em frente à janela. O homem era impossível. Ele a fizera de estúpida. Arrogante. Bonito. E beijava como um sonho.
Gemeu e bateu com a mão na testa. Ele não beijava como um sonho. Sasuke fez tudo errado. Ela tinha certeza que a madre Senjuu nunca falou sobre línguas quando se está beijando. A madre explicou isso muito bem em suas conversas com Sakura. Ela não queria que a jovem fosse ignorante para o seu leito conjugal. Afinal, Sakura, um dia, iria se casar.
Mas línguas? Não, madre Senjuu não falou nada sobre o assunto das línguas. Sakura teria se lembrado de tal coisa. Ela achou que a primeira vez que o lorde a beijou foi uma aberração. Um erro. Sua boca estava aberta. As línguas se encontram por acaso.
Sakura franziu a testa com o pensamento. A madre poderia ter se enganado? Com certeza, não. Ela era muito bem informada sobre todas as coisas. Sakura confiava nela.
Mas, na segunda vez? Não foi coincidência, porque desta vez ele mandou que ela abrisse a boca e, idiota como era, abriu e deixou-o deslizar dentro dela.
Apenas a lembrança a fez estremecer. Foi...
Foi indigno. Isso é o que era. E ela diria isso se ele tentasse outra vez.
Sentindo-se um pouco melhor agora que tinha resolvido este assunto, ela levou seus pensamentos para a questão do casamento. Seu casamento.
O lorde apontou argumentos fortes que ela e a madre já haviam pensado. Era verdade que tinha um grande exército. Bastava olhar para os homens no pátio durante o treinamento.
O casamento talvez fosse mais benéfico para ele. Sim, contaria com a proteção dele e Sasuke tinha o poder de defender Haruno. Mas ele ganharia riquezas e terras que só rivalizavam com as do rei.
Será que podia confiar a ele tal poder?
Sakura não teve a intenção de duvidar de sua honra. Estava com raiva, mas não acreditava que ele fosse um homem desonesto. Se pensasse assim, estaria tentando fugir dali. Não, estava considerando seriamente a proposta.
Não temia Uchiha Sasuke. Oh, ela temia sim, mas não os maus tratos. Ele teve oportunidade de estrangulá-la e ainda assim controlou seu temperamento. Mesmo quando ainda não estava convencido de qual era o papel dela no rapto do filho, Sasuke não fez nada para prejudicá-la.
Sakura acabou concluindo que ele não era tão feroz assim. Era tudo fanfarronice.
O pensamento a fez sorrir. Os homens Uchiha eram mal humorados. Itachi, que ficou com ela mais tempo, vivia resmungando blasfêmias contra ela e todas as mulheres. Naruto... bem, até agora eles tinham um acordo mútuo para evitar um ao outro. Ele a assustava. Naruto não gostava muito dela e não se importava se percebesse isso ou não.
Estava louca para considerar o casamento com o lorde?
Estava perto da janela e viu quando as sombras escuras das colinas rodeavam o castelo. Ao longe, cães latiam enquanto traziam as ovelhas. A cor avermelhada do crepúsculo caia sob a terra. Sob o chão, o nevoeiro subia, cobrindo os morros como uma mãe que aconchega o filho na noite.
Esta seria sua vida. Seu marido. Seu sustento. Seu clã. Já não teria medo de ser raptada e forçada a se casar com um bruto que não se importava com nada, a não ser com as riquezas que traria quando nascesse o herdeiro.
Ela teria uma família, uma vida que nunca sonhou em ter. Hayato. O Lorde. Seus irmãos. Seu clã.
Oh, o anseio era grande dentro dela.
Olhou para o céu e murmurou uma prece fervorosa. Por favor, Deus. Que seja a decisão certa.
