Não é do seu feitio se refrear ou se esconder da luz
Someone like you
Adele
A vontade que eu tinha era de fazer o mundo desaparecer e ir com ele.
Sério; eu nunca desejara algo com tanta força assim. Nem quando eu tinha cinco anos e finalmente ganhara aquela boneca, nem quando eu tinha nove e ganhara meu primeiro livro em francês, nem quando eu tinha onze e conseguira a bolsa e nem mesmo quando eu conseguira a vaga em Oxford. Deus, eu nunca desejara algo assim nem mesmo quando James e eu...
Não; não, eu desejara. E meu desejo era que James não fosse embora.
E ele fora.
Ele fora.
E, da mesma forma que esse desejo não se realizara, esse, de agora, também não se realizaria. Não se realizaria nunca, porque, se era pouco provável que James escolhesse ficar, era ainda menos provável que o mundo desaparecesse e que eu ficasse perdida em algum lugar dentro dele. Aliás, como eu estava com sorte ultimamente, a coisa mais provável de se acontecer era...
Tudo de errado já acontecera.
Tudo.
James terminara o curso antes de mim. James não quisera esperar um ano. James viajara. Eu terminara com ele. Eu não respondera nada do que ele me mandava. Ele continuara viajando como se nada tivesse acontecido, e eu continuava vivendo aqui porque tudo isso aconteceu. Ele se esquecera de mim com uma velocidade impressionante, e eu continuava me lembrando dele segundo a segundo mesmo que...
E foi isso.
Não parei. Não parei ao sair da casa de James, não parei na rua, e também não parei ao chegar em casa; eu sabia estar chorando e sabia que meu pai estava sentado na sala, mas mesmo assim não juntei uma coisa à outra – eu queria parar de chorar agora, não chorar mais. E conversar sobre aquilo, e saber que alguém sabia que eu não estava bem iria fazer exatamente o contrário - e não parei até chegar em meu quarto e ligar meu computador. Não parei nem mesmo enquanto colocava a senha no meu e-mail e o esperava abrir, as lágrimas em meus olhos embaçando a tela mas, mesmo assim, não me impedindo de ver o que eu mais queria ver.
Eram quatro e-mails no total. O mais recente deles, mandado por último e o primeiro na tela, ainda estava na primeira página, totalmente reconhecível mesmo que entre anúncios de lojas e de livrarias e de qualquer outra coisa. O primeiro a ser mandado estava também perdido entre anúncios e um e-mail de uma amiga minha da faculdade, mas ainda mais visível que o que eu vira primeiro.
Foi nele que eu cliquei.
'Adivinha só? Acabei de chegar em casa e, exatamente como eu disse a você, até o primo da sogra da minha tia emprestada está aqui para me dar, mais uma vez, os parabéns por ter me formado. Minha tia avó – aquela que eu falei que deve morrer a qualquer momento, lembra? – está achando a piada do século me chamar de Sigmund apesar de todos os protestos do meu pai, e minha mãe e a minha avó paterna estão disputando a minha atenção com o que cada uma aprendeu sobre a corrente behaviorista. Papai, no meio das duas, está tentando fingir que a esposa e a mãe realmente se dão bem, mas acho que nem mesmo ele está mais acreditando nisso.
Meu primo também esteve aqui. Aquele, de doze anos, que disse que estava apaixonado por você e que faria psicologia 'porque, se todas forem como a Lily, eu estou feito para o resto da vida'. Ele me perguntou de você, mas para quê perder tempo nele? Todo mundo perguntou de você, Lily. Meu avô, inclusive, quando todos já tinham ido embora, perguntou quando você voltaria para discutir literatura com ele.
Para você ver como faz falta, Lily'.
Respirei fundo, mas segui para a próxima mensagem sem pensar demais.
'Redescobri o prazer de ver TV; me descobri rindo, veja só, em um comercial de pasta de dente. Isso sem falar no carinho que eu senti pelo cachorro que corria em direção à comida e depois lambia o dono. Mesmo o filme – você ia rir na minha cara agora, porque o enredo era sobre um garoto que descobria que a família tinha sangue de duende ou algo assim – me fez rir e me sentir triste também. Coisas que só acontecem quando você passa um tempo longe da TV.
Mas me fez pensar em você. Não só na parte em que riria de mim, mas na parte em que você me faria assistir aqueles seus filmes sérios e clássicos e cultos. É como minha mãe diz; você é a única que conhece a... Scarlet? Desculpe, não prestei atenção no nome dela.
Você poderia vir aqui'
A próxima;
'Nunca achei que fosse dizer isso, mas já estou sentindo falta daquele período em que tínhamos dez provas por dia e ainda tínhamos que entregar a monografia. Sem nada para fazer, o tempo passa devagar, e quando vou ver se você já me respondeu, reparo que só se passaram cinco minutos ao invés de cinco horas'
A última tinha apenas uma frase:
'Estou com saudades, Lily'
Mordendo o lábio inferior, chorando um pouco mais, foi essa a mensagem que eu escolhi para responder. Cliquei onde deveria e não demorei meio segundo para preencher o espaço em branco – era fácil, tão fácil conversar com ele – com as mesmas palavras dele; 'estou com saudades'. Mais nada; enviei, para apenas um minuto depois ter sua resposta.
A conversa se formou. Fácil, longa, divertida, suficiente para me fazer, por um tempo, parar de chorar, e suficiente para me fazer sentir bem a ponto de me sentir segura de encontrá-lo no dia seguinte para o café. Eu queria, e queria de verdade; sua conversa, sua voz, seu sorriso, sua presença em geral me fazia bem.
E eu precisava me sentir bem.
Quem poderia ter adivinhado o gosto amargo
Que isso teria?
"Ei" cumprimentei Peter assim que ele abriu a porta, tentando sorrir em sua direção mesmo que eu tivesse certeza que não saíra nada mais elaborado do que um sorriso desanimado. Mas eu não me importava com isso; pelo jeito como Lily era próxima do pai, tinha certeza de que, de alguma coisa, ele sabia, e se ainda não soubesse ele poderia ter alguma noção pelo meu gesto de bater na porta ao invés de simplesmente entrar "Lily está aí?"
Devagar, ele negou.
"Mesmo?"
Ele voltou a concordar mas, dessa vez, soltou um sorriso discreto.
"Não te convidaria para entrar se estivesse" disse, chegando um pouco para trás para que eu pudesse seguir seu movimento de cabeça para dentro da casa. Sorri para ele, ainda mais desanimado que antes, mas entrei e comecei a ir para a cozinha, com a impressão ridícula de que Lily desceria daquela escada e viria até mim para conversarmos "Não parece bem, James"
"Não estou" concordei, porque não havia mais nada que eu pudesse dizer. Quer dizer,conhecia Peter desde que era um bebê e, durante todos esses vinte e dois anos, não me lembrava de já ter entrado na casa dele com menos do que uma correria infantil ou um sorriso de cumprimento.
Fora assim quando eu tinha quatro anos e subira, direto, para o quarto de Lily,derramando água de um balde mais pesado que eu e soltando um sorriso travesso quando Peter e Sophie piscaram os olhos na direção daquilo. Fora assim quando eu tinha sete anos e queria chamar Lily para jogar no novo videogame que eu havia ganhado. Fora assim mesmo quando tínhamos oito anos e, no anexo da minha casa, nos aproximamos e demos um selinho que fez Lily sair correndo, rindo, enquanto eu a perseguia até o quarto dela. Terminamos caindo na cama, rindo e fazendo uma guerra de travesseiros até que Sophie nos chamasse para a sorveteria.
E fora assim, também, quando eu entrara aqui e cumprimentara Lily com um beijo rápido na boca, meu sorriso se abrindo ao ver Peter piscar os olhos, Sophie prender a risada e Lily, devagar, corar à minha frente. Fora assim quando eu a trouxera de volta para casa e ouvira de um Peter um pouco brincalhão que 'sempre preferira o Remus, mas que estava tudo bem em ser eu também'. Fora assim quando eu entrara quase correndo só para encontrá-la, também quase correndo, e abraçá-la enquanto comemorávamos ter passado para Oxford.
Sempre fora assim. Por que tinha que ter mudado?
"Ela saiu com Sophie?"
Ele voltou a negar, um pouco mais devagar do que a primeira vez.
"Sophie foi se encontrar com uma amiga" disse, sentando-se à mesa assim que terminei de me sentar. Não pareceu sentir dúvida sobre o que falaria depois disso, mas pareceu demorar um tempo um pouco maior para escolher as palavras "Lily saiu com um amigo da faculdade"
Um amigo da faculdade.
Esperei as palavras fazerem uma espécie de sentido. Esperei, esperei e esperei, mas elas continuaram no ar sem que eu conseguisse entendê-las. E o pior de tudo - bom, não o pior de tudo, mas esse era o espírito da coisa - é que isso se tornara comum nas últimas doze horas; desde que Lily saíra da minha casa ontem à noite, chorando daquele jeito, nada mais fazia sentido. Ou melhor, desde que Lily decidira não ir comigo naquela viagem nada mais fazia sentido.
Eu precisava falar com ela para ver se alguma coisa acontecia.
"Amigo?"
"Ben"
Não, sentido algum.
Não fazia sentido ela ter dito não quando a chamei para passar um ano com a gente no continente. Não fazia sentido ela ter insistido para que eu não fosse, sabendo que era o meu sonho e que era o sonho dela também. Não fazia sentido ela ter terminado comigo quando as coisas deram um pouquinho errado, e não fazia sentido ela ter ficado um ano inteiro sem tentar manter contato comigo ao me ignorar em tudo o que eu mandava. Não fazia sentido o fato de nós dois - nós dois, Lily e eu, que nunca tivemos nada a esconder um do outro - termos deixado partes da nossa vida longe um do outro, e não fazia sentido termos nos perdido tanto que Lily saíra chorando do meu quarto e eu ficara lá, parado, perdido e sem saber o que fazer. E também não fazia sentido estar aqui, agora,conversando com Peter enquanto ele me dizia 'um amigo' - sem citar nome algum, o que significava que, mesmo se ele dissesse algo, não faria sentido para mim - e, depois, dizia o nome dele como se já o conhecesse.
Como se eu tivesse ficado para trás.
E não foi uma grande realização, como se eu percebesse aqui que eu havia. Não, eu sempre soubera, de alguma forma, que a vida de Lily seguiria e que, embora a minha continuasse seguindo, haveria partes tanto dela quanto minha que não saberíamos. Não era, também, como seu eu me sentisse completamente bem com isso, mas era... Eu esperava, quer dizer. Esperava poder conversar com ela, falar com ela, ligar para ela e senti-la bem com tudo o que eu lhe contava enquanto eu me sentia bem por ela me contar as coisas dela.
Por algum motivo, não acontecera. Por algum motivo, ficáramos em lados diferentes de tudo isso. Por algum motivo, havíamos nos separado.
E, pela primeira vez, eu via que eu também tinha culpa nisso.
"Você sabe por que ela terminou comigo?"
Ele demorou um pouco.
"Acho" começou "Que você deve conversar isso com ela"
Sorri, triste "Acho que ela não quer olhar para mim agora"
Peter fez que sim.
"Não sei o que aconteceu, James" disse "Ela não falou, mas chegou aqui tão mal quanto quando você viajou"
Senti meu coração se acelerar.
"E, acredite, isso é dizer alguma coisa"
"Ela poderia ter ido comigo. Eu queria que ela tivesse ido comigo"
O sorriso dele tinha um certo pesar.
"Eu nunca duvidei disso, James" comentou "Mas ela duvidou"
"Por quê?"
Ele não disse nada.
"Eu insisti. Eu insisti demais, com tudo o que eu podia e com tudo o que eu tinha. Tentei de todas as formas" continuei, mordendo o lábio inferior "E, quando ela terminou, eu continuei tentando falar com ela. Tentei de tudo; mensagens, e-mails, fotos, tentativas de conversa. Foi ela quem decidiu se afastar e, mesmo assim, eu não duvidei dela"
"Eu sei" ele falou, gentil, negando com a cabeça por algum motivo "Mas vocês são pessoas diferentes. Ela não soube o que fazer quando você a fez escolher entre..."
"Eu não escolhi por ela"
"Você não deu escolha"
Pisquei, e ele, de novo, sorriu com certo pesar.
"Você fez a sua escolha" continuou "E a obrigou a escolher a partir dela"
Não respondi, piscando os olhos assim que as palavras saíram de sua boca. Não foi preciso muito tempo para que eu percebesse que ele estava certo no que ele falara; eu decidi. Eu iria viajar, fosse ela comigo ou não. Eu falara para ela que iria, e que ela deveria ir comigo porque...
Foi então que eu percebera que não apenas estava errado também, como tinha uma culpa maior do que achava ser possível.
Deus.
"Olha, James" ele recomeçou, ainda gentil, tanto o tom de voz quanto o chamado me fazendo olhar para ele "Não há uma pessoa certa nisso. Você esteve errado ao não ouvi-la, e ela ao terminar tão rápido com você por algo que poderia ter sido menor do que é. Mesmo eu estou errado, fingindo que está tudo bem porque Lily acredita que é desse jeito que ela vai ter o tempo dela"
Esperei.
"Não está tudo bem, e ela sabe disso. Melhor do que nós dois, aliás, porque você voltou e tentou falar com ela como se..."
"Ela disse que não queria me ouvir"
"Eu sei. E entendo também"
"Eu não" disse, mais rápido do que achei que fosse capaz "Eu não consigo. A gente sempre conversou sobre tudo, e então..."
"Ela não consegue, James. Não agora"
Suspirei.
"E eu também entendo isso" disse "Ela está confusa"
Eu não estava. Eu a queria, e tanto.
"Eu..." mas eu mesmo me cortei, prendendo um suspiro antes de decidir recomeçar "Engraçado, não é? Voltei, achei que estivesse tudo bem, e o primeiro impulso que eu tive foi..."
"Foi o dela também. E o meu" ele riu, leve "Chamei você para entrar naquela primeira noite pensando no garoto que vi crescer, e não como o ex-namorado da minha filha que não terminou bem com ela"
Meu coração se acelerou ainda mais.
"Ela não está acostumada. Você não está acostumado"
"Nem um pouco" mais uma vez, sorri, e mais uma vez havia tristeza "Não vou me acostumar"
De jeito nenhum.
Velho amigo, por que você está tão tímido?
Nós nunca tivemos nada.
Mesmo. Nunca passara de uma amizade, e uma daquelas que começaram de maneira distraída e que continuaram porque... Bom, porque não havia outra opção. Eu gostava da companhia dele, gostara desde o momento em que só havia sobrado uma mesa naquela cafeteria e ele perguntara se podia sentar, e continuara gostando, cada vez mais, até mesmo nos momentos em que achei que não fosse possível que o meu sentimento de amizade por ele crescesse. Era o que acontecia; acontecera quando começamos a discutir sobre as aulas, acontecera quando começamos a discutir sobre livros, acontecera quando começamos a discutir sobre momentos e sonhos e decepções, e acontecera quando ele me ouvira, sem hesitar, falar de James.
Eu também sentira acontecer quando ele me confessara estar apaixonado.
Eu ficara surpresa. Eu me lembrava de piscar os olhos, de abrir a boca e não falar nada, de olhar para ele e desejar, de certa forma, que ele não tivesse dito aquilo. Também me lembrava de ter visto seu sorriso e de ter sentido suas mãos segurarem meu rosto antes de seus lábios beijarem minha testa, seus polegares acariciando minha bochecha enquanto ele se afastava e encontrava a coragem, por nós dois, de me olhar nos olhos.
'Sei que só pensa em mim como amigo, Lily. Mas não tente me dizer para desistir, não tente me dizer que devemos nos afastar' ele dissera, e eu me lembrava de ter sentido, mais rápido do que eu gostaria, meu coração se acelerar. Não porque eu quisesse discordar dele - não, eu realmente não o via como algo mais que um amigo -, mas porque eu não queria ter que dizer para que nos afastássemos 'Não importa o que você diga, eu vou esperar você'
'Eu vou esperar você'.
'Eu vou esperar você'
Mas não era o fato de ele ter dito - de ele ter feito, aliás - o que James não dissera e não fizera que me fizera continuar sua amizade. Também não era esse o motivo pelo qual eu o procurara agora, hoje, e esperava por ele aqui. Ter a certeza de que alguém esperava por mim, de que alguém gostava de mim o suficiente para isso, estava, na realidade, um pouco distante de ser o real motivo para procurá-lo; não, o motivo de eu procurá-lo estava no fato de que ele era a única pessoa que não conhecia James.
Não era como se ele não me lembrasse dele. Não era como se, perto dele, todas as minhas preocupações em relação a James desaparecessem. Ben continuava me lembrando dele, e especialmente porque, apesar daquela frase, continuava sempre sendo James, James e James. Tudo era só James; antes, agora, e eu tinha certeza que mesmo depois de eu me encontrar com ele.
Mas Ben não era como Sirius, que me ajudava a lembrar que James era o melhor amigo que alguém poderia ter. Não era como Remus, que me ajudava a lembrar o quanto James o ajudara desde que o conhecera. Não era como Peter, que me ajudava a lembrar que James era tão importante na vida das pessoas que era capaz de mudá-la por inteiro. Não era como meus pais, que me ajudavam a lembrar que James estava tão próximo de mim que o tratavam como filho.
Ele era Ben, que me ajudava a lembrar do momento que passei sem James.
"Lily"
"Ei" cumprimentei de volta, sorrindo quando ele se levantou para me receber. Me beijou a testa e me apertou a cintura em um gesto carinhoso, os olhos azuis brilhando nos meus "Desculpe, eu não vi os e-mails até ontem. Eu..."
"... Teria respondido. Eu sei" ele sorriu, sentando-me quando me sentei "Como está?"
Sorri.
"Querendo saber de você" respondi, mas ambos sabíamos que não era a resposta que ele queria. Mas, apesar de ser uma válvula de escape, não era mentira; eu queria mesmo saber como ele estava, como ele ficara naquelas poucas semanas em que estivemos separados "Planos, futuro, trabalho, família... Tudo o que consiga pensar em me dizer"
Ele continuou sorrindo na minha direção, mas não disse nada de imediato. Eu sabia o motivo; não, não era por ele pensar na resposta ou, nem ao menos, por pensar por onde começar, mas por querer perguntar aquilo tudo - e mais um pouco - para mim.
Mas ele sabia me dar o meu tempo.
"Vou trabalhar como estagiário do..."
"Wallravens?" Ben sorriu e fez que sim "Parabéns. Então, era mesmo o que você queria"
"Era" ele concordou, embora minha frase fosse uma afirmação e não uma pergunta. Há um tempo, havíamos passado disso; as dúvidas haviam nos deixado e não precisávamos mais de perguntas para sabermos um do outro "Fui até o limite da data para a inscrição, mas acho que fiz a escolha certa"
"Tenho certeza que Wallravens pensou isso" falei "Aliás, tenho certeza, também, que ele nem precisou olhar os outros nomes depois de ver o seu inscrito"
Ele sorriu.
"Quando você começa?"
"No início do semestre" respondeu "E você?"
"Hum?"
"Algum plano de voltar à faculdade?"
Não respondi nada por um tempo, pensando enquanto, distraída, tamborilava os dedos no vidro da mesa. Minhas unhas estavam curtas e, por isso, quase não houve som, mas eu tentei me prender no tilintar leve por um ou dois segundos para ver se, me distraindo mais um pouco, eu encontrava a coisa certa a responder.
Mas eu nem sabia o que era.
"Ainda não sei"
E era verdade. Era mais do que verdade, porque tudo na minha vida estava uma bagunça enorme e eu não sabia o que fazer com ela. Não sabia nem por onde começar; James, minha carreira, meu trabalho, meu estudo, James de novo,...
E de novo e de novo e de novo.
"Acho que queria continuar estudando" disse, com cuidado, pesando as palavras e tentando dizê-las o mais rápido possível para que não hesitasse e não chorasse. Não queria pensar em James, não agora e nem como perspectiva de futuro "Mas, de vez em quando, tenho a impressão de que deveria trabalhar um pouco, ver se estou mesmo no caminho certo. E, claro, ajudar um pouco meus pais"
Ele sorriu para mim, mas não disse nada.
"Além disso, ainda estou meio indecisa no que fazer se quiser continuar estudando"
"Mas eu também estava. Estou ainda, acho" ele discordou "São muitas coisas, não é?"
"Ah, são. Outro dia mesmo eu estive na faculdade com James para..."
Mas eu mesma me cortei, mordendo o lábio inferior, de imediato, ao reparar no que eu tinha dito e em como meu coração começara a bater, descontrolado, à naturalidade com que o nome dele saíra em minha voz apesar de, segundo após segundo, eu me forçar a ignorá-lo e não pensar nele. Fora isso que eu fizera quando ele fora embora, fora isso que eu fizera quando ele continuara longe, fora isso que eu fizera quando ele voltara e era isso o que eu estava fazendo agora.
Mas, de novo, não adiantara.
"Então, ele..."
"Não vim aqui falar sobre isso" interrompi, lutando, de novo, contra as lágrimas. Ele percebeu e, em um gesto quase impulsivo, estendeu o braço por cima da mesa e moveu a mão em direção aos meus olhos, mas decidiu baixá-la antes mesmo que seus dedos tocassem minha pele. Sabia, simplesmente sabia, que eu ficaria desconfortável demais com isso "Não menti quando disse que queria saber sobre você, Ben"
Ele teve a vez dele de demorar um pouco, o braço voltando para o seu lado na mesa quando o pressionei, gentil, para se afastar de mim. Seus olhos se estreitaram de leve mas ele não falou nada, um pequeno sorriso surgindo em seu rosto enquanto ele, discreto, meneava a cabeça em afirmação e começava a contar sobre como o priminho dele arrumara uma namorada.
Eu ouvi.
Ouvi com toda a atenção que tinha. Realmente prestei atenção em todos os detalhes, e realmente me interessei por cada coisinha que ele me contava. Sorri quando me disse sobre como conseguira um arranhão no braço logo no primeiro dia de formado, ri quando me falou de como a avó dele o apontava para toda a família e repetia como ele havia se formado entre os primeiros do curso, e consegui até mesmo gargalhar, de verdade, quando ele me disse que foi assediado por um barman segurando um Sex on the Beach.
Mas, por nenhum momento, eu deixei James de fora.
Durante todo o tempo em que Ben me contara, eu tinha, perto de mim, a ideia de que eu também sorria, ria, gargalhava com tudo o que James me falava, desde coisas bobas até aquelas que eu mais queria ouvir. Durante todo o tempo em que Ben me contara, eu tinha a noção de que queria, demais, escutar tudo - ou quase tudo, visto o que eu havia descoberto na noite anterior - o que James também tinha para me contar sobre o tempo em que ele passou viajando. Durante todo o tempo em que Ben me contara, eu não conseguia deixar de pensar que, apesar de tudo o que acontecera, eu ainda insistia em pensar em James e em tudo o que ficara para trás entre a gente.
Perceber isso me deu vontade de chorar. Tive vontade de chorar e não me segurar mais, vontade de me enfiar na minha cama e soluçar contra o travesseiro. A própria noção deque era uma sensação familiar me deu vontade de desaparecer; fora a mesma coisa que eu sentira quando James completara sete meses fora e Ben me dissera estar apaixonado. A mesma coisa, porque eu sentia que, apesar daquelas palavras de Ben e do ato de James, eu continuava apaixonada por ele. A mesma coisa, porque eu sentia que, apesar de Ben ter vindo até mim quando eu o chamara e de James não ter nem ao menos pensado em mim quando estava fora - garotas e mais garotas e mais garotas -, eu continuava apaixonada por ele.
Contra tudo o que eu queria sentir, eu ainda o amava.
Você saberia como o tempo voa
Ontem foi o momento de nossas vidas
Eu não saíra muito bem da conversa com Peter.
Se eu pensasse bem, isso não era uma grande surpresa. Não havia como eu sair bem de uma conversa com ele agora, e muito menos com o teor que ela teve e nem com as informações que, por ela, foram passadas. Era impossível, simplesmente impossível, sair rindo ou sorrindo ou, ao menos, um pouco mais leve de lá; não, eu havia descoberto coisas que não me deixavam exatamente tranqüilo comigo mesmo.
'Ben' era uma delas.
Não que eu soubesse muito dele, também. Sabia o apelido, sabia que ele era um amigo que Lily conhecera no período em que eu estivera fora e, mais do que isso, sabia que eles eram íntimos o suficiente para que ela saísse tão cedo de casa para se encontrar com ele. E tinha a impressão de que poderia haver algo mais ali; não era apenas o fato de que Lily não me dissera nada sobre ele - havia muita coisa que deixamos de dizer uma o outro, pelo visto -, mas o fato de que ela o procurara quando as coisas deram errado entre a gente.
Isso me incomodava. Isso me fazia me sentir mal. Isso me fazia sentir como se fosse a pior pessoa do mundo. Porque sim, era horrível ter que imaginar que ela poderia ter ido tão longe quando separada de mim. Era pior do que qualquer coisa que eu poderia descrever. Mas ainda pior era imaginar que, de um jeito ou de outro, ela me culpava por tudo de tal forma que era também culpa minha ela procurar outra pessoa.
Eu tinha medo de que ela me culpasse o suficiente para isso.
E quem poderia culpá-la?
"James, você vai querer..."
"Comi nos Evans, mãe" menti, só porque queria dispensar o café da manhã sem precisar receber um discurso de dez minutos sobre isso. Estava mesmo sem a menor fome, quer dizer, e só a idéia de comer alguma coisa agora parecia ligeiramente insuportável "Vou subir. Quer que eu chame o Sirius?"
Minha mãe não respondeu, o cenho se franzindo um pouco por algum motivo. Minha expressão, meu tom de voz, o conjunto de tudo isso; a verdade é que eu mesmo percebia que não estava bem e não conseguia fazer com que os outros pensassem que eu nem ao menos queria tentar, e isso já era dizer alguma coisa.
Porque eu sempre estivera bem. Sempre tivera certeza de tudo. Nunca estivera confuso.
Era tudo o contrário agora.
"Então, vou ficar um pouco lá fora. Qualquer coisa, me chama"
Dorea fez que sim e, sem dizer mais nada, não forçou para que eu ficasse. Segui, então, para a parte de trás da casa, passando pela piscina e entrando no anexo para ligar a TV e fingir que prestava atenção no que quer que passasse por lá. Poderia ser tanto uma partida de futebol quanto uma corrida de Fórmula 1; eu não saberia dizer, não saberia mesmo. Meus pensamentos estavam longe, em todos os lugares nos quais Lily estava e nos quais eu estava com ela; nossa infância, nossa adolescência, nossa época na faculdade.
Eu ainda me lembrava de como tudo sempre fora entre a gente. Sempre tínhamos tudo o que queríamos; Lily sempre me dissera que eu era o melhor amigo dela, e até mesmo admitira que sentira um pouco de ciúmes de Sirius assim que eu o conhecera. Não parara de dizer, aliás, nem mesmo quando começamos a namorar; eu continuava sendo o melhor amigo dela, e era sempre para mim que ela vinha falar as coisas e pedir opinião e contar tudo o que queria.
Fora rápido. Em uma noite, eu me despedira dela com um beijo na testa, e na outra nós caíamos na piscina só com as roupas íntimas porque não queríamos perder tempo buscando as roupas de banho. O corpo dela estava lindo ali, à meia luz; não pude me impedir de me aproximar, de segurá-la pela cintura, de enfiar meu rosto na curva de seu ombro com o pescoço e de sentir o retesar de seu corpo com isso tudo. Ela quase tremia em meu abraço, e eu não pude deixar de dizer o quanto ela estava linda e ela não pôde deixar de suspirar e de deslizar o rosto pelo meu. Apoiei minha testa na dela, perdi meu no dela e, antes que qualquer um de nós pudesse dizer alguma coisa, estávamos nos beijando.
E foi o melhor beijo da minha vida. Só para ser seguido pelo segundo, e pelo terceiro e pelo quarto e pelo vigésimo, até que eu a pressionei contra a borda e ela rodeou minha cintura com as pernas e nós dois gememos com isso. Seus cotovelos se apoiaram em meus ombros e seus dedos se enfiaram em meu cabelo enquanto eu pressionava meu peito contra o dela e a segurava pelo início das coxas, sentindo-a como nunca antes.
Não sei quando aconteceu. Sei que, algum tempo depois - um segundo, uma eternidade -, minha mão havia entrado em sua calcinha e meus dedos haviam encontrado seu clitóris e ela chamava meu nome, suspirava, gemia no primeiro orgasmo que eu lhe dava e no primeiro que ela tinha. Ela se agarrara a mim como nunca antes; se apertara, se entregara, e só se separara de mim quando saímos da piscina para seguirmos para o anexo da casa.
Não era a minha primeira vez, mas eu me esquecera das outras três e só havia Lily no meu mundo. Só havia o jeito como eu tirara o resto de sua roupa e ela tirara a minha, só havia o jeito como eu descobrira seu corpo com as mãos e ela o meu, só havia o jeito como descobríramos tudo com nossas bocas e com nossas línguas e com tudo - e um pouco mais - o que tínhamos.
Nós não fomos até o final. Ela me pedira para parar - na realidade, eu parara quando percebera que seu gemido fora de dor - e eu parara, caindo ao seu lado e abraçando-a e beijando-a e não me separando dela.
Eu nunca mais me separara dela.
Não me separara dela ao voltarmos para o colégio. Não me separara dela ao entrarmos na faculdade mesmo que nossos prédios ficassem em lados totalmente opostos, e não me separara dela mesmo quando as matérias começaram a ficar difíceis e o tempo escasso e a monografia cada vez mais perto. Aproveitávamos cada tempo livre, eu aparecia em seu dormitório e ela no meu, almoçávamos juntos e matávamos as aulas menos importantes só para podermos conversar.
Eu terminei antes dela. Entreguei a monografia no final de novembro e, logo depois, consegui o prêmio por ela. Foi nesse instante em que veio a proposta de estágio, e foi nesse instante, também, em que pedi para adiar um pouco; não queria, simplesmente não queria, seguir da faculdade logo para o trabalho, o que me fez pensar logo na viagem. Sirius e Peter terminariam junto comigo, e Remus adiaria a formatura para poder ir coma gente.
Minha maior surpresa foi quando Lily não quis ir.
Era a primeira vez que tínhamos uma discussão que poderia ser chamada de muito séria. Era um argumento dela, um meu, outro dela e outro meu, e eu não conseguia ver os motivos dela e ela não conseguira ver os meus. Passamos um tempo só nessa; discutindo, brigando, e ela parecia com medo de se encontrar comigo e de conversar comigo e até mesmo de estar comigo. Foram, até então, os seis meses mais difíceis que eu já tivera; tudo, tudo isso para terminar com ela realmente não indo comigo e terminando por acabar comigo como se fosse a única opção que tínhamos.
Não era. Eu sabia que não era, e quis mostrar isso a ela tentando manter contato. Mostrando o que eu fazia, mostrando que eu queria que ela soubesse o que eu fazia. Mas cada nova tentativa trazia, também, um novo silêncio, e quanto mais o tempo passava mais eu me frustrava e me cansava e me entristecia.
Eu dava tudo o que podia, e ela não queria me dar nada de volta.
Isso fazia com que eu atribuísse a culpa a ela.
Atribuí, sempre. Fora ela que não quisera ir comigo, ela que escolhera não me responder, ela que escolhera aumentar a distância entre a gente. Eu tentara; falara com ela, tentara convencer, implorara para que ela fosse comigo, e tudo isso para não conseguir nada. Não cedera, e terminara por fazer mais ao continuar sem ceder.
Mas, apesar da culpa ser dela, também era minha.
Era minha.
E eu mesmo estava me culpando por isso agora.
Eu odeio aparecer do nada sem ser convidada
Mas eu não pude ficar longe, não consegui evitar
"Foi como naquele livro?"
"Aquele que eu te dei?"
"Isso"
"Exatamente assim"
Ri, com o movimento da risada quase deixando meu sorvete cair.
"Estranho, não é?" perguntei mas, sem esperar resposta, continuei "A gente olha para um livro e pensa 'ah, que mentira, isso só existe porque alguém pensou e pensou e pensou sobre essa situação', mas então você me conta sobre isso e eu sou obrigada a acreditar que o escritor realmente retratou algo possível"
"E filmes?" Ben replicou, divertido "Quer dizer, tirando aqueles em que os caras vencem uma rede terrorista inteira só com uma bicicleta. É só ignorá-los que você vê que a maioria das situações também podem ser verdade. Sua avó realmente pode te pegar vendo um filme pornô, você realmente pode encontrar um cheque em branco no meio da rua e seus pais podem mesmo ser daquele tipo liberal e que te deixa com vergonha"
"Você só vê filme ruim"
"Você que é culta demais para mim"
Ri.
"Lembra de quando apresentei você para o meu avô?" ele continuou, animado, só parando para pegar mais um pouco do sorvete na boca. Aproveitei para comer um pouco mais também, diminuindo um pouco o ritmo do meu andar para não me sujar com isso "Ele me passou o feriado inteiro falando de como você tinha lido Dostoievski e gostado"
Comecei uma risada ao me lembrar de seu avô - um amor de velhinho, simpático, interessado, bonzinho -, mas terminei com um sorriso meio forçado por me lembrar que fora Charlus Potter a me dar meu exemplar de 'Crime e Castigo'. Eu me lembrava desse dia como se fosse hoje; tínhamos que ler o livro para um trabalho na escola e eu pedira o dele emprestado, mas ele só sorrira para mim e me entregara dizendo que estava em boas mãos.
James dissera, logo depois, que não poderia haver melhores que as minhas.
"E... Qual o outro? Foi..."
"Ivanhoe"
"Ivanhoe. Walter Scott"
"Vê...? Você sabe alguma coisa, afinal"
Ele revirou os olhos, divertido.
"Mas foi você quem me ensinou" apontou "Acho que, antes de te conhecer, o livro mais elaborada que eu tinha lido era... 'Fortaleza Digital?"
Ri "Não fale isso na minha frente, Ben"
"Foi um livro bom"
"Horrível. Deus, eu odiei"
Rimos juntos.
"Ok, esqueça os filmes e os livros. Vamos entrar em um acordo" ele disse, sorrindo,virando comigo em uma esquina mas parando depois de termos chance de pegarmos osinal aberto. Estávamos indo para o St. James, mas não tínhamos pressa alguma e poderíamos nos dar o luxo de perder um ou dois minutos "Música"
"Vamos à uma loja comprar CDs?"
Ele sorriu, olhando para mim meio de lado.
"Seria uma boa ideia" começou, divertido, mal me dando oportunidade de, na realidade, discordar dele "Mas não, não ia te convidar para comprar CDs. Estava pensando mesmo em matar minha vontade de te ouvir tocar piano mais uma vez. O meu lá em casa está praticamente criando teias de aranha, já que a minha mãe diz que meio se sentiu humilhada pelo jeito como você tocava"
Me lembrei do piano na casa dos Potter. De Dorea me ensinando.
"Mas teríamos que encomendar o almoço. Não tem ninguém em casa, e..."
"... Você não iria se aventurar no fogão?"
"Com você? Destruição total"
Sorri, prendendo um movimento de negação para afastar da minha mente todos os pensamentos que não deveriam estar ali. Estava difícil - impossível, na realidade, mas eu não queria pensar nessa palavra agora - e eu sabia que o esforço era mais do que unicamente inútil, mas me enganar não iria me deixar pior.
Não agora.
"Só se for comida tailandesa"
Ele piscou os olhos, parecendo pego de surpresa, mas então abriu um sorriso. Mais aberto, mais sincero, mais feliz do que o meu, e por isso - por tudo isso - eu me senti culpada.
Eu tinha culpa.
"Feito"
E foi. Feito, quer dizer. Terminamos o nosso sorvete enquanto cruzávamos o parque, alcançamos o ponto de táxi do outro quarteirão e seguimos para a casa dele. Como ele disse, não havia ninguém, o que me fez ficar mais livre; tirei logo o que calçava e cruzei as pernas em cima do sofá enquanto escolhia uma das partituras para tocar, mesmo que tenha acabado sem nenhuma delas porque Ben queria ouvir uma peça que eu soubesse de cor. Toquei umas cinco antes de fazê-lo sentar no meu lugar para, assim, tentar ensinar algo a ele, mas acabei desistindo nas três primeiras notas de cada música que tentava ensiná-lo.
Depois, seguimos para a cozinha. Pedimos a comida e, enquanto esperávamos, pegamos alguns pratos e talheres e arrumamos a mesa, só para depois desistirmos e seguirmos com tudo isso para a frente da TV. Ficamos passando os canais até encontrarmos um programa que nós dois gostássemos - e que se consistia em um seriado policial que levava em consideração a psicologia -, mas acabamos conversando e só pegando frases soltas até que a comida chegou. Comemos, no chão, e logo depois levamos as coisas para a cozinha para arrumarmos, saindo de lá por volta de apenas umas três horas. Mais conversa até a hora do chá, quando fizemos café e roubamos bolo e ficamos mesmo pela cozinha.
Por volta das seis, eu fui embora. Me despedi dele com um beijo no rosto, um abraço um pouco mais longo que o comum e uma promessa de marcar alguma coisa com ele naquela semana mesmo, dizendo alguma coisa sobre cumprimentar os pais dele por mim quando ele mandou um cumprimento para os meus. Dispensei que me acompanhasse até um ponto de táxi não tanto pelo trabalho que ele poderia ter; não, foi mais porque eu achava, de verdade, que queria andar mais um pouco. Foi o que eu fiz; andei por volta de uns dez quarteirões antes de parar em uma cafeteria e comprar um café, só para seguir, ainda a pé, na direção da minha casa.
Eu gostava de pensar enquanto andava. E eu pensava agora. Pensava em como havia sido divertido, delicioso, relaxante esse tempo com o Ben. Pensava em como havia sido bom procurá-lo, revê-lo, ter mais um pouco de sua presença e de sua conversa. Mas pensava, também, em como não era difícil deixar isso e voltar para casa.
Casa.
Nós nascemos e fomos criados numa neblina de verão
Unidos pela surpresa dos nossos dias de glória
"Ei" ouvi Sirius dizer da porta, mas quando voltei o olhar para ele já estava uns três passos mais perto de mim. Sentou-se em uma poltrona ao meu lado e me sorriu em cumprimento, esperando que eu sentasse - estava deitado no sofá - para continuar a fala "Como está?"
Não respondi "Achei que estivesse dormindo"
"James, já é quase hora do almoço. Sua mãe só está esperando o molho ou algo assim"
Pisquei.
"Mesmo?" mas não precisava que ele confirmasse "Não vi o tempo passar"
Ele teve a vez dele de não me responder, estreitando um pouco os olhos ao me ver dar de ombros. Então, sem demorar, ele se levantou, foi até a geladeira e pegou duas latas de cerveja, jogando uma em minha direção enquanto voltava ao lugar no qual estava antes.
Sirius realmente me conhecia.
"O que houve?"
Demorei um pouco, pensando na pergunta. Para ela eu tinha, ao menos, cinco respostas diferentes; poderia dizer que fora a minha decisão de viajar, poderia dizer que fora a viagem em si, poderia dizer que fora o término que Lily impôs, poderia dizer que fora o silêncio dela ou que fora, também, um pouco de imaturidade da minha parte. E poderia, também, dizer que fora tudo isso junto; se eu não tivesse viajado, ela não teria terminado comigo, e se ela não tivesse mantido aquele silêncio eu...
Deus.
"Lily viu as fotos com aquela garota da Espanha"
Eu não me lembrava o nome dela. Não me lembrava muito bem dela, na realidade; tinha o cabelo castanho escuro, era alta e falava inglês quase sem sotaque, mas não me lembrava da cor dos olhos, da roupa que usava ou do tom de sua voz. Acho que o fato de eu estar bêbado ajudava nisso; eu não me lembrava de já ter bebido tanto em tão pouco tempo, e não me lembrava de ter ficado mal a ponto de não me lembrar da maioria das coisas que aconteceram em um período de tempo. Duas horas sumiram da minha noite, e outras quatro ficaram embaçadas de tal forma que eu só pude ter certeza do que realmente acontecera ao vê-la dormindo ao meu lado.
Eu me senti como um nada. Tudo veio ao mesmo tempo; desgosto por mim mesmo, raiva, arrependimento. E, claro, a culpa; ela veio, e veio forte, a tal ponto que a maior vontade que eu tive naquele momento foi de pegar o meu celular, reenviar a mensagem – que Lily, mais uma vez, não me respondera – mas não esperar por resposta e simplesmente voltar à Inglaterra. Queria ver Lily como nunca antes; vê-la, tocá-la, reafirmar a ela que ela valia à pena.
Mas, acho, pela primeira vez, pensei antes de agir. Me lembrei de que ela terminara comigo, de que ela cortara todos os contatos, de que ela parecia não querer saber de mim. De nada que fizesse referência a mim; então, simplesmente, não voltei, mesmo que pensar tudo isso não me fizesse parar de tentar falar com ela de todos os outros jeitos.
Eu tentei de tudo. Tentei, e continuei tentando, sempre esperando uma resposta de volta e sempre pensando ter ouvido o toque do meu celular avisando que ela chegara. Foi assim na Espanha, em Portugal, de novo na Espanha e também na Itália, quando, por estar onde ela mais queria visitar, achei que ela fosse me responder.
Silêncio, de novo.
Nesse momento, perdi a justificativa estúpida do 'estava bêbado'. Tudo o que eu fiz foi mais do que consciente; saí do hotel consciente, cheguei na boate consciente, comecei a conversa com aquela garota consciente e fui consciente durante todo o tempo que passei com ela. Mas tudo isso só fez com que eu me sentisse ainda pior depois; arrependimento e culpa vieram ainda mais fortes, e eu só poderia dizer que já estivera pior um dia porque, cinco meses antes, Lily terminara comigo.
Fora somente nesse momento que eu percebera.
"Ela... não me lembro de vê-la chorando mais"
"Por quê?"
Levantei os olhos para ele.
"Eu disse a você antes e vou dizer a você agora" ele continuou ao ver meu olhar, deixando a cerveja de lado. Foi nesse instante que percebi que não havia tocado na minha "Você viajou, mas foi ela quem terminou com você. Ela, James. E ela escolheu também cortar qualquer outro contato. Nesse caso, ela não pode cobrar nada da sua parte. Ela não tem o direito de não se sentir bem"
"Engraçado" retruquei antes que ele pudesse continuar, meu próprio tom de voz me surpreendendo. Amargo, eu acho, e irônico "Eu não posso dizer que não a entendo"
Ele arqueou as sobrancelhas.
"Estou me sentindo a última das pessoas por causa do Ben"
"Quem é..."
"Quisera eu saber"
Sirius demorou a me responder.
"Você pode entendê-la" disse "Mas não deveria se sentir mal por isso"
Pisquei os olhos, quase surpreso pelo o que ele dissera. Era ridículo o fato de que não deveríamos nos sentir mal; não, a nossa situação só dava oportunidades para isso. Não havia jeito da gente se sentir bem com tudo, não havia jeito da gente ficar confortável com algo assim, não havia jeito da gente...
Não havia jeito nenhum.
"Não, não eu não deveria" e me surpreendi, de novo, com meu tom; ainda mais irônico que o primeiro "Para início de conversa, porque eu não estaria desse jeito se Lily não tivesse descoberto do jeito que descobriu sobre... isso. E, olha só, ela não teria descoberto, também, se eu não tivesse transado com ninguém"
"Mas você transou"
"Você incitou"
"E daí? Quem decidiu foi você"
Apertei a lata nas mãos.
"E quer saber? Eu repetiria tudo o que eu disse quantas vezes eu quisesse, e não me arrependeria nem um pouco" continuou "E também não acho que você precisou tanto assim do meu incentivo"
Não consegui impedir uma risada de indignação.
"E não adianta sentir raiva de mim agora, James"
"Pode apostar que eu estou" retruquei "Mas quer saber? Foda-se"
E, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, abandonei a lata de cerveja, me levantei e saí de onde estava, passando pela piscina para só então reparar que não sabia para onde ir. Não sabia o que fazer; a idéia de passar pela cozinha e ter que lidar com a minha mãe não era nem um pouco tentadora, e a de ir parar na biblioteca e acabar encontrando com meu pai também não me chamava tanta atenção. A única alternativa viável era seguir para o meu quarto; pulei o almoço, pulei o chá e teria pulado, também, a janta, não fosse ter olhado pela janela e ter visto que Lily chegara.
Ela chegara.
Eu tinha esperança de que você veria meu rosto
E de que você se lembraria
De que pra mim não acabou
"Lily" minha mãe me cumprimentou assim que entrei em casa, mais do que molhada pela chuva que desabara nos meus últimos cinqüenta metros, um sorriso no rosto se misturando ao olhar de preocupação por causa do meu estado. Essa era minha mãe; eu poderia ter sessenta anos que ela continuaria a achar que eu iria cair e me machucar como se tivesse dois "Onde você estava, filha?"
"No centro"
"E veio a pé?"
"Uhum"
"Lily!" ela exclamou "Deus, você deve estar exausta"
"Não" discordei, embora sentisse meu corpo reclamar um pouco. Acho que meu lado esportista viajou com James para o continente; sem ele, a minha vontade de levantar um pouco mais cedo para correr era negativa.
Tudo era negativo.
"Só preciso de um banho"
"Precisa" ela concordou, chegando um pouco para o lado para que eu pudesse passar "Vou fazer um chocolate para você, ok?"
Fiz que sim, agradecendo com um sorriso, e comecei a subir as escadas quase correndo. Cheguei no meu quarto e entrei logo no banheiro, abrindo a água quente e me enfiando embaixo dela logo que me livrei de todas as roupas e liguei o iPod no aparelho. Tanto quanto andar, aquele era, também, o meu lugar para pensar; a água, a melodia, as letras e o conjunto daquilo tudo eram meus.
Tudo o que era meu entrava ali comigo. Não conseguia me impedir, por mais que quisesse; entravam comigo quando eu era criança e brigava com meus pais, entravam comigo quando eu estava no início da adolescência e entravam comigo quando eu discutia com James e ficava triste por isso. Entraram comigo, também, no verão no qual ele escolheu viajar, e entraram comigo no inverno imediatamente após ao tempo em que Ben aparecera e seis meses depois disso, quando James voltara e voltara a mexer com um mundo que somente permanecia no mesmo lugar.
James, de um jeito ou de outro, sempre voltava.
Suspirando, neguei rapidinho com a cabeça, tentando pensar nas coisas que haviam acontecido. Eu conhecera Ben, tinha nele um amigo, e nos formamos juntos em psicologia não havia nem um mês. Eu tinha milhares de caminhos que poderia seguir e, como meu pai disse, ainda era nova; poderia errar, poderia consertar, poderia encontrar meu caminho com um pouco de calma.
Eu tinha tempo. Tinha tempo, tinha inteligência, tinha até mesmo uma vontade que eu achava ser suficiente para seguir, para conseguir tudo o que eu queria. Era só começar, dar o primeiro passo e continuar andando, e eu já fizera isso tantas vezes que seria mais do que ridículo achar que, dessa vez, eu não seria capaz de fazer.
A diferença é que, agora, havia algo deixado para trás. Algo que eu achava saber o que era, que eu achava conhecer a dimensão, que eu achava ter certeza que era o mais importante que eu já tivera e que, na verdade, eu ainda tinha. Eu tinha; tinha, porque eu ainda pensava no que havia acontecido entre James e eu apesar dele...
Não.
Não, eu não tinha que pensar nisso.
Eu não tinha que pensar.
Por isso, desliguei a água e saí do banho, negando de novo com a cabeça como se isso pudesse resolver todos os meus problemas. Não me importei com isso; ainda negava quando me enxuguei, ainda negava quando coloquei uma roupa qualquer, ainda negava quando penteei meu cabelo e o prendi antes de descer para ficar com meus pais. Eu queria mesmo um tempo com eles; eu passara um ano inteiro sem voltar para casa e, quando finalmente estava aqui, havia mais do que...
James.
Por um segundo, achei que fosse imaginação minha. Achei que fosse uma peça pregada pela minha mente, e que a última coisa possível - apesar de James estar a duas casas de distância, apesar de James sempre estar perto mesmo com uma distância física enorme -seria encontrá-lo ali, agora, enquanto eu pensava nele com força igual à que costumava me fazer imaginá-lo em todos os lugares. Cheguei a quase dar as costas sem nem pensar uma segunda vez nisso, e só não o fiz porque, se imaginasse James, ele estaria sorrindo e me olhando daquele jeito que me fazia me querer não separar mais dele.
Se eu imaginasse James, não seria aquele olhar que estaria em seu rosto.
Não haveria medo. Não haveria mágoa. Não haveria desespero, e não haveria mesmo esperança. Porque era isso, era tudo isso, que eu via em James ali; medo e mágoa e desespero e esperança, tudo que ratificava que não era imaginação minha. Pior; tudo o que ratificava que todo o resto também não era imaginação. Ter ido embora, ter voltado, e antes disso ter passado por tudo aquilo e ter tirado aquelas fotos e...
"Lily" ele me chamou, e seu tom de voz foi suficiente para que minha mãe desse um passo para trás e seguisse para a cozinha. Ela não sabia o que acontecera - o único que estava aqui embaixo era o meu pai, e eu não julgava que ele falaria mesmo se tivesse percebido alguma coisa no meio segundo que passei aqui antes de subir -, mas tudo estava tão óbvio ali, com ele molhado e desesperado e controlado e comigo perdida e à beira do choro e sem controle algum que ela não pôde deixar de ir embora "Lily, eu quero..."
"Eu não"
"Por favor"
"Por favor?" repeti, tentando colocar um tom irônico na voz mas falhando. Quem conseguiria ser irônica quando tudo o que queria era desaparecer dali? "Saia da minha casa, James. Não quero ver você agora"
"Lily..."
"Estou sentindo como se não quisesse te ver nunca mais"
Ele suspirou e, num gesto nervoso, passou os dedos pelos fios da nuca.
"Estaria mentindo se não dissesse que entendo" disse, sorrindo um sorriso triste. James nunca estava triste, e James nunca sorria triste "E eu entendo, de verdade, mas..."
"Entende. Entende, mas está longe de sentir. Longe"
"Você acha?"
Não respondi, simplesmente por não conseguir falar ao pensar na resposta para essa pergunta. Era absurdo, simplesmente absurdo, que ele pensasse que poderia se sentir do mesmo jeito que eu; ele escolhera ir embora, ele escolhera se separar, e ele escolhera deitar com aquela garota e com quem quer mais que tivesse aparecido em seu caminho.
E ele se sentia do mesmo jeito que eu?
"Vá embora"
"Quero - preciso - que me escute"
"Escutar o quê? O que você pode me dizer que eu já não tenha visto?"
Ele prendeu um respirar.
"Muito bem retratado, aliás. Mais explícito impossível"
"Eu posso..."
"Não pode"
"Você não pode fazer isso comigo. Não pode não me dar a chance de..."
"Chance? Você quer uma chance?"
Ele não respondeu mais uma vez, dessa vez parecendo mais pela surpresa com o meu tom de voz do que pela minha fala em si. A verdade é que sim, eu também estava surpresa; não saberia nem ao menos descrever o que havia em meu tom, em minha expressão, em mim por inteiro.
Eu estava completamente perdida.
"Por que eu deveria te dar uma?"
Totalmente perdida.
Não se esqueça de mim, eu imploro
Vou lembrar de você dizer:
"Às vezes o amor dura, mas, às vezes, fere"
Era tudo impossível para mim.
Talvez porque eu não esperava, um dia, passar por isso. Talvez porque eu nunca pensara que, um dia, Lily e eu estaríamos assim, de frente um para o outro enquanto nos olhávamos quase assustados. Talvez porque eu nunca achara que, um dia, ela olharia para mim daquele jeito - indecifrável, porque havia tanta coisa em seu olhar que eu não poderia nem começar a descrever - que não me deixava saber como olhá-la de volta. Ou, talvez, porque eu tivera certeza que, por nenhum dia, aquela situação estaria acontecendo entre duas pessoas como nós dois; amigos desde sempre, namorados por tanto tempo, com tanta intimidade um com o outro que não havia qualquer margem para que... Para que fôssemos diferentes do que sempre fomos.
Mas, ao mesmo tempo em que eu sabia que era impossível estarmos ali, eu sabia que estávamos. Sabia que eu não conseguiria ignorar a visão de Lily ali, com os olhos vermelhos pelas lágrimas e a expressão determinada de quem sabia que tinha razão, o cabelo ruivo um pouco despenteado contrastando com o tom pálido de sua pele. Sabia que não conseguiria ignorar o fato de que eu mesmo não estava nada bem,c om a sensação de que algo que eu conhecia iria desaparecer não importava o que eu fizesse. E, mais importante que tudo isso, eu sabia que não conseguiria ignorar o fato de que nós dois estávamos daquele jeito, distantes apesar de haver menos de um metro entre a gente, parecendo que nada do que vivemos foi suficiente.
E era tudo para mim.
"Eu esperei por você"
O tempo parou entre a gente.
"Eu esperei tanto por você" ela repetiu, e havia tanta sinceridade e tanta tristeza em sua voz que, por mais que eu lutasse, não conseguiria não fazer com aquilo não alcançasse a mim. Não era o que eu queria; queria que a tristeza passasse longe dela, longe da gente, e queria fazer com que eu fosse capaz de tirá-la de entre nós dois "Eu imaginei você"
"Lily..."
"Perdi a conta das vezes em que vi você pelo canto de olho, nos lugares em que a gente ia, fazendo as coisas que a gente fazia" ela me cortou, e eu baixei os ombros e desisti de falar por aquele momento porque eu tinha que ouvi-la. Eu devia isso a ela; devia isso à Lily criança, à Lily minha amiga, à Lily minha namorada e mesmo à Lily que havia se separado de mim quando nós dois mais queríamos a companhia um do outro. Mais do que tudo; devia isso à Lily que saíra chorando do meu quarto ontem à noite, devia isso à Lily que não me olhara nos olhos de início, devia isso à Lily que estava, agora, à minha frente, parecendo dar tudo de si para estar aqui "Perdi a conta das vezes em que revivi tudo o que nós tivemos simplesmente por olhar para um lugar e me lembrar da gente, perdi a conta das vezes em que voltei para todos esses lugares e fiquei lá, pensando, chorando até não poder mais. Quantas vezes alguém abria a porta e eu olhava desesperada achando que era você?"
Mas a vontade que eu tinha era de abrir a boca. Era de dizer a ela que eu também a imaginara, que eu também conseguia vê-la em todo lugar com uma facilidade tão impressionante que não dava a mínima para o fato de que era impossível ela estar em todos os lugares em que a via. Eu sabia que não poderia ser ela na Universidade de Coimbra, sabia que não poderia ser ela no estádio do Barcelona, sabia que não podia ser ela naquele barco de Veneza. Ela não poderia estar em nenhum daqueles lugares e, mesmo assim, estava, tão real que fazia doer ainda mais por eu ter certeza que... que ela não estava.
"Eu ouvia você rindo toda hora como se estivesse do meu lado, e toda vez que meu celular tocava o som de mensagem no meio da noite eu esperava que fosse você me dizendo que estava de volta e que era para eu abrir a porta, sem barulho para que ninguém percebesse, exatamente como nós sempre fizemos. Eu cansei de acordar e olhar para o lado esperando te ver ali, cansei de acordar com a sensação de que você realmente estava, e cansei de chorar ao ver que nada disso acontecia de verdade" eu queria abraçá-la. Queria dizer que ela não estava sozinha. Queria afirmar a mim mesmo que eu também não estava "Tinha medo de dormir, porque sonharia com você e acreditaria que nada tinha acontecido, mas então eu acordaria e passaria um dia inteiro tendo que me acostumar com a idéia de que você não estava. Era uma luta porque, todo dia, quando eu começava a aceitar que... que não era como no meu sonho, eu teria que dormir e sonhar de novo e passar por tudo isso de novo. Dia após dia".
Seus olhos se embaçaram ainda mais à minha frente, e foi quando eu reparei que a culpa não era única e exclusivamente do choro dela; não, eu estava à beira do choro exatamente como ela estivera antes de chorar desse jeito.
E, como ela, eu sabia que eu iria chorar.
"Lily, eu...
"Nunca se perguntou por que eu não te respondia?" sempre. Sempre, sempre me perguntei, sempre quis saber. Sempre quis que ela me dissesse alguma coisa, que ela me desse uma palavra, que ela mostrasse estar comigo de alguma forma "Eu não conseguia responder às suas mensagens, aos seus e-mails e telefonemas porque sabia que, se eu falasse com você, eu ia implorar para que voltasse"
Não respondi, tentando encontrar palavras para aquilo, tentando encontrar palavras para tudo. Ou, ao menos, tentando encontrar um jeito de falar; falar o que eu queria falar, falar o que ela queria ouvir, falar qualquer coisa que pudesse melhorar a nós dois.
Nós não estávamos bem.
"E ia receber um 'não', da mesma forma quando implorei a você para ficar"
"Não, você não..."
"E quer saber por quê? Porque você poderia estar dormindo com uma desconhecida. Foi isso o que você fez, não foi?" ela continuou, e a raiva e a dor e a mágoa e tudo isso junto me fizeram querer abraçá-la, segurá-la, confortá-la, mesmo que isso fosse impossível agora. Não; Lily estava chorando por minha causa, por minha culpa "Saiu daqui, me deixou sozinha, e transou com a primeira que apareceu na sua frente como se eu não existisse, como se eu não quisesse você, como se eu não estivesse aqui, sozinha, chorando por você enquanto você se divertia com os seus amigos"
Senti a primeira lágrima descer.
"Você me deixou"
"Não, eu não..."
"Deixou. Escolheu. E voltou como se não tivesse escolhido. Brincou comigo"
Não.
"Voltou como se eu sempre tivesse esperado por você. E quer saber?" ela fungou um pouco mais, tirando algumas das lágrimas do rosto em um gesto brusco. Firme. Desesperado. E eu, também desesperado, chorei um pouco mais, até que senti que controlar o choro seria difícil "Estúpida que eu sou, eu esperei. Por algum motivo, eu esperei"
Mordi o lábio inferior.
"E me arrependo disso"
Não.
Nada se compara, nenhuma preocupação ou cuidado
Arrependimentos e erros são feitos de memórias
Se eu não sabia como começar a nota de Drinks, vocês conseguem imaginar como estou nessa.
Não sei exatamente quanto tempo demorei a postar, mas sei que, quando postei Drinks da última vez – e isso foi há mais de dois meses -, não postei TS junto. Esse capítulo demorou, é triste e foi difícil, e ainda ouso dizer que não vou escrever um mais difícil do que isso; sim, mesmo com a continuação dessa fic, porque não consigo ver como pode sair algo mais triste do que isso daqui. Especialmente a última cena, acho, acabou comigo; é mais ou menos a mesma história de quando a gente espera um celular tocar e imagina o toque dele, mas com o agravante de que Lily via o James em todos os lugares. Todos, sem exceção.
Mas... bom, vocês sabem do capítulo. Vocês leram, e aqui, de qualquer jeito, é o espaço para a nota. E, como minhas promessas de manter uma postagem regular e meus pedidos de desculpa já se esgotaram, só posso dizer mais uma coisa; não vou ter férias no meio de ano. Sim, isso mesmo; sem férias. É impressionante, eu sei, mas estou em ano de vestibular e, apesar de dar uma relaxada depois da UERJ, eu sei que a coisa só piora daqui em diante.
Mas, de novo, não estou aqui para reclamar de algo que 1- vocês já passaram e não quero repetir; 2 – vocês estão passando e sabem do que estou falando, não precisam de mais um lembrete; e 3- vocês vão passar um dia, e para quê assustar agora? Além do quê, as provas e os estudos e as aulas que tomam o meu dia inteiro não são o principal motivo de demora da fic. Quer dizer, veja o capítulo de Drinks; 35000 palavras. Esse tem pouco menos de doze, três vezes menos.
De qualquer jeito, acho que vocês já sabem o motivo. Eu disse na nota passada, e talvez tenha dito na anterior também. Não lembro, mas a questão é que essa fic, pessoalmente, é difícil para mim. Tem uma história parecida com a minha, especialmente no momento em que estou agora – e ainda mais especialmente daqui a apenas uma semana – e em relação a grande parte do que escrevo. E, vou te contar, não é fácil. Não é nem um pouco fácil. E, para ser sincera, não acho que isso vá ficar menos difícil em algum momento. Mas querem saber de uma coisa? Mais difícil também não vai ficar.
Bom, só espero que entendam a demora. Que não fiquem tããããão tristes com o capítulo como eu fiquei. Que não tenham ódio da Lily ou do James (difícil, acho, e nos dois casos. Não em um só; porque sim, ambos estão errados) e que entendam o lado dos dois.
Eu estou tentando fazer isso.
Agora, utilizando-me do clichê do 'por último mas não menos importante', esse capítulo vai para a Lalah Souza. Espero que goste e que tenha valido à pena á demora *-* Maiores conversas na resposta à review, ok? :)
(e ah, posso não ter férias, mas espero, de verdade, que tenha uma semana em que provas/trabalhos/aulas não formem um conjunto intragável. Talvez eu consiga adiantar bastante o próximo capítulo; já tenho até música ^-^)
Bem, vamos às reviews:
Nathália – obrigada. Acho que sempre agradeço, não?
NG – for real? Vejo com muito mais clareza o lado da Lily – e não apenas porque estou nele, juro que não.
Gabriela Black – bem, demorei de novo, não é? E, infelizmente, talvez mais do que da última vez? Não lembro, de verdade, e é horrível. Mas espero que seja como você disse; o que importa é que eu postei. Demorou séculos, mas eu postei. E espero postar o próximo mais rápido, especialmente por causa dos parênteses ali em cima ^-^
Você acha a Lily egoísta? Engraçado, eu acho a situação deles complicada demais e não tenho uma grande opinião formada sobre o erro de nenhum dos dois. Quer dizer, sei que os dois erraram, e os dois erraram feio, mas acho que erraram mais por imaturidade/medo/orgulho/surpresa/segurança-insegurança, essa primeira no caso do James e a segunda no caso da Lily. Consigo culpar um mais que o outro – e não, você não vai saber qual agora XD -, mas não consigo ver como essa situação pode pender para qualquer um dos lados, sabe? Bom, espero que esse capítulo tenha esclarecido um pouco o lado da Lily, os sentimentos dela, tudo o que ela passou. Eu fiquei morrendo de pena, pelo menos *-*
E bom, aqui está o mais. Espero que goste ^-^
Beatriz Paz: muito, muito obrigada, pelos elogios e pelo desejo de sucesso *-* De verdade.
Clara Casali – obrigada pela compreensão *-*. Mas deixa eu te dizer uma coisa? Escrever é, atualmente, a melhor parte da minha vida. Mesmo capítulos como esse, acho X) É difícil; não, não vou mentir e dizer que é fácil, que flui, que você está sempre pronta a escrever, mas é gratificante.
Sobre o capítulo... bom, se você ficou tristinha no outro, posso imaginar este. Quer dizer, não sei se é só comigo, mas esse capítulo me destruiu. Sério. Ele vai, praticamente, contra todas as minhas ideologias no que diz respeito a JameseLily. Vai realmente contra tudo.
E, mais uma vez, obrigada *-*
Lalah Souza – acho que esse capítulo meio que contradisse o início da sua review, e só posso dizer 'infelizmente' por isso :/ Eu queria, e muito, que eles não brigassem, mas a situação dos dois pede por uma briga. Não tinha como resolver isso com uma conversa única, como se os dois fossem adultos o suficiente para entender de uma vez que os dois erraram. Ambos. E acho que a Lily vai demorar um pouco mais do que o James a perceber; e isso eu vou pegar, um pouco, do meu entendimento da história original ^-^
Acho que esse capítulo está mais triste do que Broken Strings, não? A tristeza do outro está muito mais concentrada na última cena, exatamente como esse, mas acho que as outras cenas estão mais tristes, mais pesadas, mais... 'saudades', sabe? De tudo e de todos.
Vamos lá, sobre as músicas:
- Iris (and I'd give up forever to touch you...): eu sou apaixonada por essa música. Mesmo. Mas posso dizer com quase 100% de certeza que ela não vai entrar na fic :/
- Someone Like You: não preciso nem dizer, né? *-* Espero que tenha gostado.
- Too little too late: não é como se não se encaixasse. Músicas são manipuláveis. Veja Someone like you; os primeiros versos inviabilizariam tudo, mas eu os tirei. A grande questão é: tem músicas que caem melhor.
- Here Without You (and I dream about you all the time): também amo essa música, da mesma forma que Iris. Mas essa está em situação um pouco diferente; ela tem 50% de chance de entrar ^-^
- She Will be loved: mesmo coisa da música da Jojo.
- Far away: essa eu tenho certeza; estará na fic. Tem duas músicas que eu faço questão; essa e Fix You, do Coldplay. Imagina só? 'And I forgive you for being away'? Sério, acho que combina muito.
- Talking to the moon: essa, infelizmente, não entra :/
- Pyramid: essa eu não conheço, dou uma pesquisada depois.
- Vento no litoral: essa música é linda. 'Dos nossos planos é que tenho mais saudade' e 'Lembra que o plano era ficarmos bem'. Ai, Legião Urbana acaba comigo. Sério. Mas não tinha pensado nessa música, vou ver se encaixo ^-^
Beijos ;*
lusouza – infelizmente, a reação da Lily está compatível, não é? Queria que não estivesse; se ela estivesse reagindo de forma exagerada, significaria que o James estaria menos errado. Mas ele não está; infelizmente, ele está muito errado. Mas isso também, não tira, a culpa da Lily. Não vou te dizer agora exatamente como porque vem no próximo capítulo, mas pode ter certeza de que ela está também e que ela, mais tarde, vai perceber isso. Vai demorar, mas acho que também não seja algo que você admita assim, rápido. Quer dizer, se fosse simples ver os dois lados, eles não estariam assim agora D:
Sobre o capítulo... é, acho que a Lily sabia também. Pelo menos uma parte dela. Por isso, acho, ela fala que se arrepende, e por isso ela não queria ouvir, desde o início, tudo o que o James tinha a contar. Acho que Broken Strings – a letra – retrata bem essa parte dos dois, de quando os dois finalmente saberiam um pouco mais do outro. Especialmente no que diz respeito à conseqüência: 'And I Love you a little less than before'. Acho que eles vão ter que reaprender, sabe? E vão se amar mais no final, mas não como continuação do que foi antes e sim como um recomeço *-*
Por último, eu queria agradecer. O que você disse sobre esperar as atualizações e a preocupação e o carinho. É como você disse; você nem sabe como eu sou e se importa mais do que muita gente que sabe. E quer saber? Você importa mais também. E está certa; eu vou passar por isso. Porque é como você disse: de vez em quando, uma pessoa muda tudo. E algumas estão mudando *-*
Beijos ;*
PS: essa é a última coisa pela qual deve me pedir desculpas :)
PPS: já pensei, sim. Mas não tenho tempo e, para ser sincera, não sei se os dois vão terminar juntos :/
PPPS: pode ter certeza de que James e Lily vão ficar juntos. Eu só não sei como, quando, e como vai ser depois.
Lady Aredhel Anarion – exatamente; James só dando dor de cabeça. E que bom que você viu o lado da Lily; mas não esqueceu o do James, né? Os dois estão errados, e se esse capítulo foi para mostrar mais um pouco do lado da Lily, o próximo – ou o próximo do próximo ;) – vai mostrar um pouco do lado do James.
Espero que esse capítulo corresponda à ansiedade ^-^
Nanda Soares – e então? Esse capítulo bate o outro? Desculpe, mas eu simplesmente não consigo parar de pensar no quanto esse capítulo foi triste. Eu me senti mal, realmente mal, de escrevê-lo. Eu queria tanto que as coisas se resolvessem de um jeito mais simples. Só não fiz porque era mesmo impossível na situação dos dois, senão, juro, teria feito. A vida real já é triste, afinal. Mas acho que essa é TS; vida real. Quando penso em Drinks, então, é mais 'vida real' ainda.
Força para nós, que já passamos por situações parecidas ^-^
Beijos ;*
PS: espero que o capítulo tenha valido a demora *-*
Giulia – acho que você é a primeira que tende a ver que os dois estava errados. Quer dizer, sei que a situação não é fácil e que sempre tendemos um pouco mais para um dos lados – eu tendo mais para um deles, embora não vá dizer qual -, mas ambos têm sua parcela de culpa. James de ter feito a decisão sozinho e feito Lily escolher a partir desta, e Lily de ter sido extremista e ter feito algo como 'a viagem ou eu'. Acho que a Lily fez isso por insegurança, ou talvez por acreditar que James não viajaria. E o James não contou porque a Lily havia pedido para não contar da viagem; o que, de qualquer jeito, foi uma zona de segurança para ele, porque duvido que ele iria querer contar assim que chegasse.
Sugestão de música anotada ^-^
Beijos ;*
PS: obrigada pelos elogios *-*
PPS: veja o do Rock in Tio, com o Chris Martin cantando, além de Fix You, The scientist. Sério, essa música ficou linda.
PPPS: sinto muito por você :/ Você poderia ter dado um grito que, acho, conseguiria te vender um ingresso. Sou MUITO fã das músicas que eles não tocam nos shows; Brighter, Another Day, Breathe (Until tomorrow) e We are broken são as principais. Essa última, então... a questão é que, no show, eram só quatro músicas que eu realmente gostava; Decode, Playing God, Brick by Boring Brick e The only Exception.
PPPPS: são as duas letras mais bonitas da Katy Perry *-*
manu96 – espero que, dessa vez, tenha sido um grito inteiro ;) E pode deixar; acredito se você me disser que chorou na cena da Lily com o pai. Foi muito difícil de não chorar ao escrever, especialmente na parte em que ela se lembrava das conversas. E é como você disse; o capítulo passado, esse e talvez o próximo vão ser um pouco mais dedicados à insegurança da Lily.
Por último, Manu... obrigada pela preocupação e pelo carinho. E, claro, pelo 'não desisti de você' *-* Obrigada.
Justine – thank ya :D
Sophie – desisto de você XD
Samantha – de novo, mais uma vez, all over again, obrigada.
Obrigada, pessoal ;*
