— Quando você e Potter irão se casar?

Hermione fez o que pôde para manter a calma enquanto consertava uma camisa, mas por dentro xingou Artemis pela pergunta direta. O término da carreira de pontos perfeitamente alinhados deu-lhe tempo para pensar qual seria a melhor maneira de responder a pergunta. Só então ela finalmente ergueu os olhos para ele com o que esperou ter sido uma expressão confusa e ingênua.

Harry fizera o possível para sair sem ser visto pouco antes de o sol raiar, mas ela sabia que o esforço tinha sido em vão. Não havia segredos em uma casa cheia de Blacks e Grangers, mesmo em uma onde a maioria dos ocupantes ainda era muito pequena para ter total noção ou controle dos próprios dons. Por pouco não dissera isso a ele, na esperança de que ele voltasse para a cama, mas acabou optando pelo silêncio enquanto ele a beijava antes de ir embora.

Todos os meninos que tinham mais de sete anos estavam ao seu redor e nenhum deles parecia ter acreditado na sua cara de inocência. Ela poderia tentar mudar de assunto, mas não enganá-los. Isso também seria inútil e apenas acabaria ferindo os sentimentos deles.

— E por que Lorde Potter deveria se casar comigo?— Ela perguntou. — Até onde sei, ele já está comprometido.

— Mas até onde eu sei deitar-se com a filha virgem de um marquês deve pôr em risco qualquer compromisso que ele tenha — crispou Artemis.

— Artemis, posso ser inocente, mas sou uma mulher adulta uma solteirona aos olhos de muitos.

— Isto não torna aceitável o fato de ele tê-la seduzido.

— Nem mesmo se eu tivesse me deixado seduzir? — Ela argumentou e suspirou quando Artemis e os outros meninos pareceram ainda mais bravos. Ela os estava desapontando e isso doeu.

— Mas e a sua reputação? — Estefan iniciou.

— Não tenho nenhuma. Ninguém, exceto a minha família, sabe que eu existo. — Isso machucou, mas ela ignorou a dor antiga. — E mesmo que um dia a sociedade saiba sobre a minha existência, depois que descobrirem este lugar, não terei nenhum bom nome para proteger de qualquer maneira.

— Por causa de nós. Porque somos todos bastardos.

— Isso é injusto — murmurou Olwen, e a careta que o menino estampava no rosto fez com que ele ficasse ainda mais parecido com seu pai, tio Sirius.

— É injusto, mas muitas coisas que acontecem neste mundo são injustas — ela disse. — Se tudo fosse justo como deveria, eu teria conhecido Potter em algum baile ou sarau, nós teríamos flertado um pouco, dançado e talvez ele tivesse me cortejado, apaixonado-se por mim e me pedido em casamento. Mas aqui estamos nós. Eu não tenho nada, e ele precisa de dinheiro para evitar que a sua família vá para a prisão por causa das dívidas que possuem. Ele pode até escapar das garras de Gina, mesmo assim ainda terá de se casar com a herdeira de uma fortuna. — Eu o amo — ela continuou. Sei que ele gosta de mim. E que não se trata apenas de uma forte atração. Mas será que deveríamos ignorar um ao outro só por causa de uma guinada cruel do destino que torna impossível ficarmos juntos como marido e mulher? Realmente acredito que se não fosse pela necessidade que tem de salvar a família, ele se casaria comigo. Foi o que ele disse. — Ou tentou, ela completou em pensamento, mas não pôde contar aos meninos que ela mesma o silenciara todas as vezes que ele tentara. — E cheguei à conclusão de que isto era bom o bastante para mim.

— Você acha que o destino será bonzinho e irá encher os bolsos dele para que um dia vocês possam se casar? — perguntou Artemis.

— Não, por isso mesmo não há por que ser tão irônico. — Ela soltou um leve sorriso, ciente de que fora um sorriso triste, quando percebeu um leve rubor na face de Artemis por causa da reprimenda, mesmo assim o menino ainda parecia aborrecido. — Ele me faz feliz, e apenas por um tempo quero ser egoísta e me prender a isso.

Após um silêncio pesado e várias trocas de olhares carregados de mensagens veladas, ela não entendeu muito bem o significado do longo suspiro de Estefan.

— Então você ficaria infeliz se Artemis o desafiasse para um duelo em nome da sua honra?

— Muito infeliz. — Ela ficou com raiva da própria ingenuidade por não ter previsto tal conseqüência.

— Não estou gostando desta situação — disse Artemis. — Não é certo ele se aproveitar do sentimento que você nutre por ele.

— Mas ele não sabe o que sinto — Hermione argumentou, o tom carregado da sua voz indicou que ela não queria que ele soubesse. — Ele chama o que está acontecendo entre nós de loucura, e encantamento, e está com medo de que esteja agindo como o pai, um salafrário infiel que deixou a família praticamente na miséria. Sei o que se passa no meu coração e isto é o bastante. Assim como também sei que a esta altura seria crueldade tentar fazer com que ele se apaixonasse por mim. Quem sabe? Talvez o destino não seja gentil e dê a ele recursos o suficiente para que assim possa ficar livre para escolher o que desejar. Então, certamente farei o possível para mostrar a ele que o que temos é verdadeiro, que é muito mais do que uma loucura passageira.

— E o que você vai fazer se ele se casar com outra?

— Vou suportar a minha dor e me curar desta loucura. Não vou continuar sendo amante dele. Ele também não me pediria tal coisa, pois é um homem honrado. Atualmente, ele não se sente atado a um compromisso, simplesmente porque não pediu oficialmente a mão de Gina ela e Ron que o prenderam a este noivado forçado. Tenho certeza, no entanto, de que no dia em que ele trocar votos com uma mulher irá mantê-los.

Ela podia perceber que os meninos ainda estavam infelizes com a sua situação, mas a sua palavra de que não se tornaria amante de um homem casado, não importava o quanto o amasse, parecia ter atenuado um pouco a ira dos jovens. Hermione compreendia as preocupações e a ira deles. Todos eram fruto de uma infidelidade e tinham sido enxotados por muitas pessoas como se fossem os culpados. Eles não queriam que ela se envolvesse no mesmo tipo de situação que marcava a vida de cada um deles. Ela amava a todos e apreciava a preocupação e o ultraje que eles sentiam por ela, mas não poderia permitir que eles ditassem como ela deveria viver.

Um movimento de sombras no canto da sala chamou a atenção de Hermione. Ela contraiu os olhos e logo em seguida se formou o espectro de uma senhora rechonchuda de meia-idade. Quando percebeu que Conrad também olhava atento na mesma direção, ela suspirou. Conrad tinha o mesmo dom que ela. Isso foi o suficiente para confirmar a sua visão.

— Nossa vizinha, a Sra. Pettibone, morreu — ela disse enquanto colocava de lado a cesta de costura e se movia na direção do fantasma.

"Estou só. Muito só."

— Não será por muito tempo, Sra. Pettibone — Hermione disse. — Se a senhora se desprender do seu corpo físico, conseguirá ir para um lugar melhor e se juntar aos seus ente queridos que já partiram.

"Estou só. Muito só."

Hermione franziu a testa. Não era comum para alguém que acabara de morrer estar tão terrivelmente confuso, mas ela tinha a impressão de que a mulher ainda não descobrira que o seu espírito havia se separado do corpo.

— Artemis, acho que a Sra. Pettibone morreu só. Pensei que ela tivesse três filhas.

— As filhas dela estão no interior — ele disse. — Elas não voltarão antes de uma semana, ou mais. Não tenho certeza.

— Bem, sei que você é um garoto inteligente. Pense em algo para convencer o guarda da rua a dar uma olhada na casa da Sra. Pettibone para ver se está tudo bem. A última coisa que as pobres meninas precisam é voltar para casa e encontrar a mãe morta na cama há mais de uma semana. Se você conseguisse descobrir exatamente para onde as moças foram, poderíamos enviar uma mensagem para elas voltarem para casa.

Levou horas até que o problema da Sra. Pettibone fosse resolvido. O fantasma, no entanto, não foi embora. Hermione concluiu que havia alguma pendência que a mulher precisava resolver algo com as filhas, e se conformou em ter o espírito da Sra. Pettibone rondando a casa por uns tempos. A Toca dos Granger era como a sua família gostava de dizer, uma casa limpa, isenta de espíritos infelizes e do que a sua tia Olímpia costumava chamar de energias
negativas. Vez ou outra, no entanto, eles recebiam a visita de um espectro, e ela aceitava isso.

E certamente poderia aguentar mais esta, também. Seus irmãos, Darius e Septimus desapareceram durante a confusão entre o interrogatório do guarda da rua e a retirada do corpo da pobre Sra. Pettibone, deixando-a sozinha com os sete meninos menores. O excesso de energia do pequeno grupinho de peraltas logo se tornou motivo de preocupação, e depois
de concluir que o dia estava muito belo para ser desperdiçado, ela reuniu a todos para uma passeio pelo parque. O parque escolhido ficava perto da casa de Harry, mas ela disse para si mesma que tudo não passava de uma coincidência.

O que ela sabia que era mentira, mesmo assim manteve a convicção. Pensou que se ela repetisse aquilo várias vezes, acabaria acreditando e assim conseguiria mostrar surpresa caso Harry aparecesse.

Assim que Harry pisou na sala dos Wesley, só de olhar para Gina ele adivinhou que estava prestes a presenciar mais uma das suas ceninhas. Mas depois de ter passado horas se deleitando com o calor de Hermione, ele não se importava. Gina tinha forçado o noivado, e o irmão o chantageara para prendê-lo ao compromisso. Nenhum dos dois merecia seu
respeito. Assim como ele estava determinado a escapar das garras da dupla o mais rápido possível. E pela primeira vez, até contemplava a ideia de vender uma das suas propriedades se fosse preciso.

— Acho que o senhor disse que me faria uma visita ontem, Harry — Gina falou ao se sentar e acenar com a delicada mãozinha para que ele ocupasse o assento ao seu lado.

Depois de deixar a porta da sala escancarada, Harry se sentou no sofá de frente para ela. Não havia nenhum acompanhante na sala, nem mesmo uma criada. Aquilo cheirava à armadilha. Uma vez que estavam noivos, ele não entendia por que ela ainda queria prendê-lo em mais uma cilada. Se ela tinha a intenção de seduzi-lo, certamente não era porque estivesse tomada por uma paixão incontrolável. O único motivo que ele conseguia imaginar era que ela quisesse colocar mais um elo à corrente ao redor do seu pescoço para garantir assim que em breve os dois estivessem juntos diante de um altar. Se tivesse sorte, ele iria conseguir partir a corrente e deixar a bela Gina plantada sozinha no altar.

— Aconteceu algo que não pude evitar — ele respondeu e temeu pelo momento em que fosse levar um banho de chá quente.

— O que aconteceu de tão importante que você nem pôde me enviar um bilhete, avisando que não viria?

— Depois que percebi que já havia passado a hora marcada do nosso encontro, assumi que você saberia que eu não viria mais. Para dizer a verdade, não me lembro de ter prometido que viria tomar chá com você. Uma vez que eu não concordei ou prometi estar aqui, nunca me ocorreu enviar um recado informando que eu não viria.

Harry tomou um gole do chá e observou a luta de Gina para conter o temperamento. Ela almejava o título dele, a tradição familiar e a chance de se tornar uma duquesa. Não era um homem ou um marido de verdade que ela queria. Ela queria um cãozinho de estimação. Ela e o irmão poderiam até conseguir forçar o casamento, mas ele nunca se curvaria aos caprichos dela. Por causa da fraqueza do seu pai, ele teria que se vender, mas isso não queria dizer que iria se tornar um escravo.

— Posso saber o que foi que aconteceu? — Gina perguntou sua tentativa de fazê-lo com um tom de voz suave e doce se perdeu por detrás do eco de raiva embutido em cada palavra.

— Foi a visão de uma mulher saindo da sua casa, carregando uma mala. E era uma malinha, por sinal. Naturalmente, como cavalheiro que sou, ofereci ajuda. Mas imagine a minha surpresa quando descobri que a moça era sua irmã.

— Meia-irmã — Gina resmungou, sua face perdeu um pouco do brilho rosado. Harry continuou como se não tivesse percebido nada.

— Uma irmã que morava aqui o tempo todo. Como é possível eu nunca ter conhecido ou visto a moça?

— Ela é uma garota muito tímida e um pouco estranha — Gina apressou-se em responder, olhando de relance para o lado enquanto falava. — Ela nunca gostou de sair e nunca quis participar nem mesmo de um jantarzinho. Agora que estou prestes a me casar e me tornar uma viscondessa, ela ficou com medo das festas e das recepções que teremos de frequentar e oferecer a todos os seus conhecidos.

— Neste caso, acho melhor você trazê-la de volta e acalmá-la. — Harry sorriu para a noiva e se perguntou se havia soado como um tio bondoso.

— O que quer dizer com isso? Como eu poderia fazê-lo?

— Dizendo a ela que vamos passar a maior parte do tempo no campo. Temo que as minhas terras estejam muito largadas há bastante tempo, e vai demorar até que consigamos colocar tudo em ordem novamente. Vou querer a minha esposa ao meu lado enquanto estiver ocupado com isso. Com todas as casas, terras e agricultores para atender, vai sobrar pouco tempo para frivolidades e certamente não teremos tempo de ficar zanzando por Londres. —Harry sabia que alguns o chamariam de grosseiro e mentiroso pelo que estava fazendo, mas ele foi obrigado a admitir que estava se divertindo muito.

— Mas, certamente, teremos que vir para Londres durante a temporada. A suas irmãs precisam arrumar marido — Gina disse em um tom que implicava que ela tinha acabado de triunfar sobre ele.

— Minha mãe cuidará disso. Você não precisa se preocupar. Já vai ter muito com que se ocupar, especialmente quando nossos filhos começarem a chegar.

— É claro que compreendo o meu dever de lhe dar um herdeiro, mas...

— É um reserva. Não se esqueça do reserva. Venho de uma família grande, e é isso que desejo para mim.

Gina contraiu os olhos e pousou a xícara de chá sobre o pires com um estalo.

—Sei muito bem qual é o seu joguinho. Quase acreditei nesta bobagem toda, mas já percebi tudo agora. Você espera que eu desista que fuja assustada da ideia de me casar com você.

— Você está imaginando coisas, minha querida. Só estou falando a verdade. — De certo modo, estava mesmo, mas com certo exagero, só para assustar um pouco Gina.

Ela se levantou e andou pela sala por um momento antes de se virar para encará-lo.

— Não tenho a menor intenção de morar no campo e me tornar a sua égua reprodutora.

Agora o jogo se tornaria duro e cruel, ele pensou, mas continuou:

— Não estou certo de que você tenha muita escolha quanto a esta questão. — Harry apanhou uma fatia de bolo de limão da bandeja que estava sobre a mesa e começou a comer como se não tivesse nada com que se preocupar no mundo.

— Meu dinheiro não vai ser desperdiçado com vacas e ovelhas e com casas de agricultores.

— O seu dinheiro? Depois que nos casarmos, minha querida, será meu.

Ele sorriu para ela e então limpou os lábios com a pontinha do guardanapo delicadamente bordado.

— Você não leu o contrato de noivado? A única restrição quanto ao uso do dinheiro é que só posso pôr as mãos nele depois que nos casarmos. Depois disso, será tudo meu. Você deveria ter se manifestado antes que os papéis fossem registrados e assinados. Mas acho que estava muito ansiosa para se tornar uma duquesa. — Pela cara de Gina, dava para perceber que ela não havia lido uma palavra sequer do contrato, que o próprio irmão dela o fez assinar para garantir todos os interesses de Gina.

— Podemos mudar o contrato e você terá que assinar um novo.

Harry suspirou, agiu como se já tivesse pensado nisso e então balançou a cabeça.

— Não creio.

— Você precisa de mim e daquele dinheiro mais do que eu preciso de você, seu maldito convencido — ela silvou. — Não pode se dar ao luxo de romper o nosso noivado, pois a sua preciosa família está a apenas um passo de ir para a prisão por dívidas. E sou eu quem vai lhe dar o dinheiro para salvá-los. É melhor que não se esqueça disso, lorde. Pouco me importo com o destino da sua família, mas você se importa.

Ele analisou-a. Gina estava com os olhos contraídos e tinha um brilho duro no olhar. Os lábios estavam cerrados de raiva e as bochechas, ruborizadas. Ele achou estranho que mesmo assim ainda parecesse tão bela se não tivesse ouvido tudo que ela tinha dito ou olhado no fundo dos seus olhos cruéis. Harry culpou a si mesmo por não ter percebido o teor do caráter dessa mulher antes, por se deixar cair na armadilha dos Wesley. Ele já imaginava que ela não tivesse nenhum pingo de afeto, mas toda aquela frieza era muito pior. Qualquer homem que se casasse com ela iria acabar, mais cedo ou mais tarde, descobrindo que tinha se atado à pior das megeras. Harry estava determinado a não ser a pobre alma.

Harry se levantou e se aproximou dela.

— Minha querida, Gina, por que imagina que seja você quem está controlando este jogo? Quando quem está controlando tudo é seu irmão. E ele não fará nada para arriscar este casamento que tanto lutou para conseguir. Você pode bater os pezinhos quanto quiser e amaldiçoá-lo até se cansar, mas não vai conseguir mudar nada.

— Bobagem. Meu irmão...

— Quer subiu na pirâmide social e se tornar alguém poderoso e importante. Quer entrar para a política. E ele não poderá fazer nada disso se não estiver ligado a uma família de bom nome e tradição. Depois que estivermos casados, esta pessoa serei eu. Acredite no que estou dizendo, as únicas condições naquele contrato de noivado são as que dão a ele algum poder sobre
mim e me impedem de simplesmente virar a costas para ele depois que nos casarmos. Você e seus caprichos nunca foram levados em consideração.

Ele deteve a mão de Gina quando ela a ergueu no ar. Depois de saber sobre o modo como ela tratava Hermione e o pajem, ele chegou à conclusão de que ela tinha a tendência de sair dando bofetadas quando ficava brava.

—Estou preso a uma armadilha, não resta a menor dúvida quanto a isso, mas não foi você quem me colocou nela. É triste, mas você não passou de uma isca. Fui um tolo por não ter verificado, antes de cair nesta armadilha, que a carne usada como chamariz estava rançosa. — Ele jogou a mão dela para o lado e saiu andando rumo à porta da sala. —Se eu tiver tempo, encontramo-nos mais tarde no baile dos Henderson.

Ele não ficou surpreso quando ouviu algo se quebrar contra a porta às suas costas, assim que cumprido a missão que se propusera, pensou, enquanto dizia ao cocheiro para levá-lo para casa e subia na carruagem.

Colocara os irmãos um contra o outro. Podia até ser uma pequena fissura passageira no relacionamento dos dois, mas já era um começo. Harry só esperava que fosse o suficiente para mantê-los ocupados por um tempo para assim Ron não perceber que ele estava fazendo perguntas sobre ele. Estava até assoviando uma canção quando entrou em casa. Enquanto ele entrega a Marsoton o casaco, chapéu e luvas perguntou sobre a família e descobriu que todos haviam saído. Seus amigos, entretanto, esperavam por ele no escritório. E sem duvida bebendo seu conhaque, pensou ele com um pequeno sorriso, enquanto caminhava até eles.

— Você parece surpreendentemente feliz— disse Neville assim que Harry entrou no escritório e se serviu de conhaque.

—Espero que estejam aqui para me deixar ainda mais feliz—Disse Harry se sentando na confortável poltrona ao lado de Simas. —Creio que tenham vindo me trazer novidades e não dar uma olhada na minha incrível beleza—Ele sorriu quando seus amigos riram e lhe bombardearam de insultos.

—Bem, algumas de nossas novidades certamente o deixarão feliz, mas não tenho certeza que todas terão esse efeito.— disse Dino. — O advogado de Lady Hermione, Sr. Horace, certamente se deixou corromper.

—Ou foi chantageado — Disse Neville— Não temos certeza qual das duas opções.

—Ou as duas talvez, —Disse Dino— Corrompa o tolo e depois faça chantagem.

—Mas, por que?— Perguntou Harry.

—Não temos certeza do que aconteceu primeiro.—Disse Neville. — O tolo tem sido seguido durante dois dias. Ele não é capaz nem mesmo de tentar esconder os próprios vícios, a menos que esteja entrega a tanto tempo nesses vícios que nem se importe mais. É viciado em jogo e, pelo jeito, não é muito bom nisso. Costuma perder muito. Mas não creio que este seja o seu maior problema. Todas as noites ele dá uma passadinha no Dobbin.

Harry quase engasgou com o conhaque. O Dobbin era um famoso bordel. Corriam boatos de que ocorria a venda de crianças no local, especialmente, meninos bonitos, mas ele nunca nem tinha passado perto. Nas poucas vezes que o estabelecimento foi invadido por autoridades ou por algum grupo com moral ultrajada, não foram encontradas provas de que ali não funcionasse nada além de uma estalagem, onde algumas criadas costumavam ganhar um dinheiro extra em segredo. Nada que valesse a pena e trabalho com a abertura de um processo. Isso não impediu as pessoas de acreditarem no pior. Se os boatos de que Horace frequentava tal local se espalhassem, em pouco tempo ele iria acabar sem clientas e falido. Podia até ser mandado para a forca, pois Harry desconfiava que sodomia fosse punida assim.

—Pelo pouco que descobrimos sobre o pai de Hermione, ele era um libertino, mas não um estranho que ele tivesse um advogado com tais vicios que acabaram deixando-o exposto à corrução e à chantagem.

—Talvez tais fatos não fossem um problema quando o marquês o contratou ou então ele simplesmente não tenha prestado muita atenção à vida pessoal dele.

—Ou talvez esse Horace seja filho do advogado que atendia ao falecido marquês. Se o homem já esta sendo chantageado, então tenho certeza de que podemos fazer com que eles nos contem tudo o que precisamos saber.

Neville franziu a testa.

— Pelos menos tenho certeza de que o homem não hesitará em abusar da confiança de seus clientes para salvar a própria pele. O único modo de sabermos se ele ira responder ou não nossas perguntas é confrontando-o.

Harry concordou com um aceno da cabeça.

—Por acaso um de vocês conseguiu descobrir algo que vala a pena? Por causa do meu pai, minha mãe, acabou se afastando um pouco da sociedade. Mas, antes disso, ela soube de algo. Pelo pouco que ela se lembra, parece que o marquês era um homem infiel, mas não era de jogar dinheiro fora. A esposa tinha uma boa fortuna. O título e as terras atreladas ao marquês passaram para o sobrinho dele, mas deve ter mais propriedade e dinheiro.

— Quando você e Potter irão se casar?

Hermione fez o que pôde para manter a calma enquanto consertava uma camisa, mas por dentro xingou Artemis pela pergunta direta. O término da carreira de pontos perfeitamente alinhados deu-lhe tempo para pensar qual seria a melhor maneira de responder a pergunta. Só então ela finalmente ergueu os olhos para ele com o que esperou ter sido uma expressão confusa e ingênua.

Harry fizera o possível para sair sem ser visto pouco antes de o sol raiar, mas ela sabia que o esforço tinha sido em vão. Não havia segredos em uma casa cheia de Blacks e Grangers, mesmo em uma onde a maioria dos ocupantes ainda era muito pequena para ter total noção ou controle dos próprios dons. Por pouco não dissera isso a ele, na esperança de que ele voltasse para a cama, mas acabou optando pelo silêncio enquanto ele a beijava antes de ir embora.

Todos os meninos que tinham mais de sete anos estavam ao seu redor e nenhum deles parecia ter acreditado na sua cara de inocência. Ela poderia tentar mudar de assunto, mas não enganá-los. Isso também seria inútil e apenas acabaria ferindo os sentimentos deles.

— E por que Lorde Potter deveria se casar comigo?— Ela perguntou. — Até onde sei, ele já está comprometido.

— Mas até onde eu sei deitar-se com a filha virgem de um marquês deve pôr em risco qualquer compromisso que ele tenha — crispou Artemis.

— Artemis, posso ser inocente, mas sou uma mulher adulta uma solteirona aos olhos de muitos.

— Isto não torna aceitável o fato de ele tê-la seduzido.

— Nem mesmo se eu tivesse me deixado seduzir? — Ela argumentou e suspirou quando Artemis e os outros meninos pareceram ainda mais bravos. Ela os estava desapontando e isso doeu.

— Mas e a sua reputação? — Estefan iniciou.

— Não tenho nenhuma. Ninguém, exceto a minha família, sabe que eu existo. — Isso machucou, mas ela ignorou a dor antiga. — E mesmo que um dia a sociedade saiba sobre a minha existência, depois que descobrirem este lugar, não terei nenhum bom nome para proteger de qualquer maneira.

— Por causa de nós. Porque somos todos bastardos.

— Isso é injusto — murmurou Olwen, e a careta que o menino estampava no rosto fez com que ele ficasse ainda mais parecido com seu pai, tio Sirius.

— É injusto, mas muitas coisas que acontecem neste mundo são injustas — ela disse. — Se tudo fosse justo como deveria, eu teria conhecido Potter em algum baile ou sarau, nós teríamos flertado um pouco, dançado e talvez ele tivesse me cortejado, apaixonado-se por mim e me pedido em casamento. Mas aqui estamos nós. Eu não tenho nada, e ele precisa de dinheiro para evitar que a sua família vá para a prisão por causa das dívidas que possuem. Ele pode até escapar das garras de Gina, mesmo assim ainda terá de se casar com a herdeira de uma fortuna. — Eu o amo — ela continuou. Sei que ele gosta de mim. E que não se trata apenas de uma forte atração. Mas será que deveríamos ignorar um ao outro só por causa de uma guinada cruel do destino que torna impossível ficarmos juntos como marido e mulher? Realmente acredito que se não fosse pela necessidade que tem de salvar a família, ele se casaria comigo. Foi o que ele disse. — Ou tentou, ela completou em pensamento, mas não pôde contar aos meninos que ela mesma o silenciara todas as vezes que ele tentara. — E cheguei à conclusão de que isto era bom o bastante para mim.

— Você acha que o destino será bonzinho e irá encher os bolsos dele para que um dia vocês possam se casar? — perguntou Artemis.

— Não, por isso mesmo não há por que ser tão irônico. — Ela soltou um leve sorriso, ciente de que fora um sorriso triste, quando percebeu um leve rubor na face de Artemis por causa da reprimenda, mesmo assim o menino ainda parecia aborrecido. — Ele me faz feliz, e apenas por um tempo quero ser egoísta e me prender a isso.

Após um silêncio pesado e várias trocas de olhares carregados de mensagens veladas, ela não entendeu muito bem o significado do longo suspiro de Estefan.

— Então você ficaria infeliz se Artemis o desafiasse para um duelo em nome da sua honra?

— Muito infeliz. — Ela ficou com raiva da própria ingenuidade por não ter previsto tal conseqüência.

— Não estou gostando desta situação — disse Artemis. — Não é certo ele se aproveitar do sentimento que você nutre por ele.

— Mas ele não sabe o que sinto — Hermione argumentou, o tom carregado da sua voz indicou que ela não queria que ele soubesse. — Ele chama o que está acontecendo entre nós de loucura, e encantamento, e está com medo de que esteja agindo como o pai, um salafrário infiel que deixou a família praticamente na miséria. Sei o que se passa no meu coração e isto é o bastante. Assim como também sei que a esta altura seria crueldade tentar fazer com que ele se apaixonasse por mim. Quem sabe? Talvez o destino não seja gentil e dê a ele recursos o suficiente para que assim possa ficar livre para escolher o que desejar. Então, certamente farei o possível para mostrar a ele que o que temos é verdadeiro, que é muito mais do que uma loucura passageira.

— E o que você vai fazer se ele se casar com outra?

— Vou suportar a minha dor e me curar desta loucura. Não vou continuar sendo amante dele. Ele também não me pediria tal coisa, pois é um homem honrado. Atualmente, ele não se sente atado a um compromisso, simplesmente porque não pediu oficialmente a mão de Gina ela e Ron que o prenderam a este noivado forçado. Tenho certeza, no entanto, de que no dia em que ele trocar votos com uma mulher irá mantê-los.

Ela podia perceber que os meninos ainda estavam infelizes com a sua situação, mas a sua palavra de que não se tornaria amante de um homem casado, não importava o quanto o amasse, parecia ter atenuado um pouco a ira dos jovens. Hermione compreendia as preocupações e a ira deles. Todos eram fruto de uma infidelidade e tinham sido enxotados por muitas pessoas como se fossem os culpados. Eles não queriam que ela se envolvesse no mesmo tipo de situação que marcava a vida de cada um deles. Ela amava a todos e apreciava a preocupação e o ultraje que eles sentiam por ela, mas não poderia permitir que eles ditassem como ela deveria viver.

Um movimento de sombras no canto da sala chamou a atenção de Hermione. Ela contraiu os olhos e logo em seguida se formou o espectro de uma senhora rechonchuda de meia-idade. Quando percebeu que Conrad também olhava atento na mesma direção, ela suspirou. Conrad tinha o mesmo dom que ela. Isso foi o suficiente para confirmar a sua visão.

— Nossa vizinha, a Sra. Pettibone, morreu — ela disse enquanto colocava de lado a cesta de costura e se movia na direção do fantasma.

"Estou só. Muito só."

— Não será por muito tempo, Sra. Pettibone — Hermione disse. — Se a senhora se desprender do seu corpo físico, conseguirá ir para um lugar melhor e se juntar aos seus ente queridos que já partiram.

"Estou só. Muito só."

Hermione franziu a testa. Não era comum para alguém que acabara de morrer estar tão terrivelmente confuso, mas ela tinha a impressão de que a mulher ainda não descobrira que o seu espírito havia se separado do corpo.

— Artemis, acho que a Sra. Pettibone morreu só. Pensei que ela tivesse três filhas.

— As filhas dela estão no interior — ele disse. — Elas não voltarão antes de uma semana, ou mais. Não tenho certeza.

— Bem, sei que você é um garoto inteligente. Pense em algo para convencer o guarda da rua a dar uma olhada na casa da Sra. Pettibone para ver se está tudo bem. A última coisa que as pobres meninas precisam é voltar para casa e encontrar a mãe morta na cama há mais de uma semana. Se você conseguisse descobrir exatamente para onde as moças foram, poderíamos enviar uma mensagem para elas voltarem para casa.

Levou horas até que o problema da Sra. Pettibone fosse resolvido. O fantasma, no entanto, não foi embora. Hermione concluiu que havia alguma pendência que a mulher precisava resolver algo com as filhas, e se conformou em ter o espírito da Sra. Pettibone rondando a casa por uns tempos. A Toca dos Granger era como a sua família gostava de dizer, uma casa limpa, isenta de espíritos infelizes e do que a sua tia Olímpia costumava chamar de energias
negativas. Vez ou outra, no entanto, eles recebiam a visita de um espectro, e ela aceitava isso.

E certamente poderia aguentar mais esta, também. Seus irmãos, Darius e Septimus desapareceram durante a confusão entre o interrogatório do guarda da rua e a retirada do corpo da pobre Sra. Pettibone, deixando-a sozinha com os sete meninos menores. O excesso de energia do pequeno grupinho de peraltas logo se tornou motivo de preocupação, e depois
de concluir que o dia estava muito belo para ser desperdiçado, ela reuniu a todos para uma passeio pelo parque. O parque escolhido ficava perto da casa de Harry, mas ela disse para si mesma que tudo não passava de uma coincidência.

O que ela sabia que era mentira, mesmo assim manteve a convicção. Pensou que se ela repetisse aquilo várias vezes, acabaria acreditando e assim conseguiria mostrar surpresa caso Harry aparecesse.

Assim que Harry pisou na sala dos Wesley, só de olhar para Gina ele adivinhou que estava prestes a presenciar mais uma das suas ceninhas. Mas depois de ter passado horas se deleitando com o calor de Hermione, ele não se importava. Gina tinha forçado o noivado, e o irmão o chantageara para prendê-lo ao compromisso. Nenhum dos dois merecia seu
respeito. Assim como ele estava determinado a escapar das garras da dupla o mais rápido possível. E pela primeira vez, até contemplava a ideia de vender uma das suas propriedades se fosse preciso.

— Acho que o senhor disse que me faria uma visita ontem, Harry — Gina falou ao se sentar e acenar com a delicada mãozinha para que ele ocupasse o assento ao seu lado.

Depois de deixar a porta da sala escancarada, Harry se sentou no sofá de frente para ela. Não havia nenhum acompanhante na sala, nem mesmo uma criada. Aquilo cheirava à armadilha. Uma vez que estavam noivos, ele não entendia por que ela ainda queria prendê-lo em mais uma cilada. Se ela tinha a intenção de seduzi-lo, certamente não era porque estivesse tomada por uma paixão incontrolável. O único motivo que ele conseguia imaginar era que ela quisesse colocar mais um elo à corrente ao redor do seu pescoço para garantir assim que em breve os dois estivessem juntos diante de um altar. Se tivesse sorte, ele iria conseguir partir a corrente e deixar a bela Gina plantada sozinha no altar.

— Aconteceu algo que não pude evitar — ele respondeu e temeu pelo momento em que fosse levar um banho de chá quente.

— O que aconteceu de tão importante que você nem pôde me enviar um bilhete, avisando que não viria?

— Depois que percebi que já havia passado a hora marcada do nosso encontro, assumi que você saberia que eu não viria mais. Para dizer a verdade, não me lembro de ter prometido que viria tomar chá com você. Uma vez que eu não concordei ou prometi estar aqui, nunca me ocorreu enviar um recado informando que eu não viria.

Harry tomou um gole do chá e observou a luta de Gina para conter o temperamento. Ela almejava o título dele, a tradição familiar e a chance de se tornar uma duquesa. Não era um homem ou um marido de verdade que ela queria. Ela queria um cãozinho de estimação. Ela e o irmão poderiam até conseguir forçar o casamento, mas ele nunca se curvaria aos caprichos dela. Por causa da fraqueza do seu pai, ele teria que se vender, mas isso não queria dizer que iria se tornar um escravo.

— Posso saber o que foi que aconteceu? — Gina perguntou sua tentativa de fazê-lo com um tom de voz suave e doce se perdeu por detrás do eco de raiva embutido em cada palavra.

— Foi a visão de uma mulher saindo da sua casa, carregando uma mala. E era uma malinha, por sinal. Naturalmente, como cavalheiro que sou, ofereci ajuda. Mas imagine a minha surpresa quando descobri que a moça era sua irmã.

— Meia-irmã — Gina resmungou, sua face perdeu um pouco do brilho rosado. Harry continuou como se não tivesse percebido nada.

— Uma irmã que morava aqui o tempo todo. Como é possível eu nunca ter conhecido ou visto a moça?

— Ela é uma garota muito tímida e um pouco estranha — Gina apressou-se em responder, olhando de relance para o lado enquanto falava. — Ela nunca gostou de sair e nunca quis participar nem mesmo de um jantarzinho. Agora que estou prestes a me casar e me tornar uma viscondessa, ela ficou com medo das festas e das recepções que teremos de frequentar e oferecer a todos os seus conhecidos.

— Neste caso, acho melhor você trazê-la de volta e acalmá-la. — Harry sorriu para a noiva e se perguntou se havia soado como um tio bondoso.

— O que quer dizer com isso? Como eu poderia fazê-lo?

— Dizendo a ela que vamos passar a maior parte do tempo no campo. Temo que as minhas terras estejam muito largadas há bastante tempo, e vai demorar até que consigamos colocar tudo em ordem novamente. Vou querer a minha esposa ao meu lado enquanto estiver ocupado com isso. Com todas as casas, terras e agricultores para atender, vai sobrar pouco tempo para frivolidades e certamente não teremos tempo de ficar zanzando por Londres. —Harry sabia que alguns o chamariam de grosseiro e mentiroso pelo que estava fazendo, mas ele foi obrigado a admitir que estava se divertindo muito.

— Mas, certamente, teremos que vir para Londres durante a temporada. A suas irmãs precisam arrumar marido — Gina disse em um tom que implicava que ela tinha acabado de triunfar sobre ele.

— Minha mãe cuidará disso. Você não precisa se preocupar. Já vai ter muito com que se ocupar, especialmente quando nossos filhos começarem a chegar.

— É claro que compreendo o meu dever de lhe dar um herdeiro, mas...

— É um reserva. Não se esqueça do reserva. Venho de uma família grande, e é isso que desejo para mim.

Gina contraiu os olhos e pousou a xícara de chá sobre o pires com um estalo.

—Sei muito bem qual é o seu joguinho. Quase acreditei nesta bobagem toda, mas já percebi tudo agora. Você espera que eu desista que fuja assustada da ideia de me casar com você.

— Você está imaginando coisas, minha querida. Só estou falando a verdade. — De certo modo, estava mesmo, mas com certo exagero, só para assustar um pouco Gina.

Ela se levantou e andou pela sala por um momento antes de se virar para encará-lo.

— Não tenho a menor intenção de morar no campo e me tornar a sua égua reprodutora.

Agora o jogo se tornaria duro e cruel, ele pensou, mas continuou:

— Não estou certo de que você tenha muita escolha quanto a esta questão. — Harry apanhou uma fatia de bolo de limão da bandeja que estava sobre a mesa e começou a comer como se não tivesse nada com que se preocupar no mundo.

— Meu dinheiro não vai ser desperdiçado com vacas e ovelhas e com casas de agricultores.

— O seu dinheiro? Depois que nos casarmos, minha querida, será meu.

Ele sorriu para ela e então limpou os lábios com a pontinha do guardanapo delicadamente bordado.

— Você não leu o contrato de noivado? A única restrição quanto ao uso do dinheiro é que só posso pôr as mãos nele depois que nos casarmos. Depois disso, será tudo meu. Você deveria ter se manifestado antes que os papéis fossem registrados e assinados. Mas acho que estava muito ansiosa para se tornar uma duquesa. — Pela cara de Gina, dava para perceber que ela não havia lido uma palavra sequer do contrato, que o próprio irmão dela o fez assinar para garantir todos os interesses de Gina.

— Podemos mudar o contrato e você terá que assinar um novo.

Harry suspirou, agiu como se já tivesse pensado nisso e então balançou a cabeça.

— Não creio.

— Você precisa de mim e daquele dinheiro mais do que eu preciso de você, seu maldito convencido — ela silvou. — Não pode se dar ao luxo de romper o nosso noivado, pois a sua preciosa família está a apenas um passo de ir para a prisão por dívidas. E sou eu quem vai lhe dar o dinheiro para salvá-los. É melhor que não se esqueça disso, lorde. Pouco me importo com o destino da sua família, mas você se importa.

Ele analisou-a. Gina estava com os olhos contraídos e tinha um brilho duro no olhar. Os lábios estavam cerrados de raiva e as bochechas, ruborizadas. Ele achou estranho que mesmo assim ainda parecesse tão bela se não tivesse ouvido tudo que ela tinha dito ou olhado no fundo dos seus olhos cruéis. Harry culpou a si mesmo por não ter percebido o teor do caráter dessa mulher antes, por se deixar cair na armadilha dos Wesley. Ele já imaginava que ela não tivesse nenhum pingo de afeto, mas toda aquela frieza era muito pior. Qualquer homem que se casasse com ela iria acabar, mais cedo ou mais tarde, descobrindo que tinha se atado à pior das megeras. Harry estava determinado a não ser a pobre alma.

Harry se levantou e se aproximou dela.

— Minha querida, Gina, por que imagina que seja você quem está controlando este jogo? Quando quem está controlando tudo é seu irmão. E ele não fará nada para arriscar este casamento que tanto lutou para conseguir. Você pode bater os pezinhos quanto quiser e amaldiçoá-lo até se cansar, mas não vai conseguir mudar nada.

— Bobagem. Meu irmão...

— Quer subiu na pirâmide social e se tornar alguém poderoso e importante. Quer entrar para a política. E ele não poderá fazer nada disso se não estiver ligado a uma família de bom nome e tradição. Depois que estivermos casados, esta pessoa serei eu. Acredite no que estou dizendo, as únicas condições naquele contrato de noivado são as que dão a ele algum poder sobre
mim e me impedem de simplesmente virar a costas para ele depois que nos casarmos. Você e seus caprichos nunca foram levados em consideração.

Ele deteve a mão de Gina quando ela a ergueu no ar. Depois de saber sobre o modo como ela tratava Hermione e o pajem, ele chegou à conclusão de que ela tinha a tendência de sair dando bofetadas quando ficava brava.

—Estou preso a uma armadilha, não resta a menor dúvida quanto a isso, mas não foi você quem me colocou nela. É triste, mas você não passou de uma isca. Fui um tolo por não ter verificado, antes de cair nesta armadilha, que a carne usada como chamariz estava rançosa. — Ele jogou a mão dela para o lado e saiu andando rumo à porta da sala. —Se eu tiver tempo, encontramo-nos mais tarde no baile dos Henderson.

Ele não ficou surpreso quando ouviu algo se quebrar contra a porta às suas costas, assim que cumprido a missão que se propusera, pensou, enquanto dizia ao cocheiro para levá-lo para casa e subia na carruagem.

Colocara os irmãos um contra o outro. Podia até ser uma pequena fissura passageira no relacionamento dos dois, mas já era um começo. Harry só esperava que fosse o suficiente para mantê-los ocupados por um tempo para assim Ron não perceber que ele estava fazendo perguntas sobre ele. Estava até assoviando uma canção quando entrou em casa. Enquanto ele entrega a Marsoton o casaco, chapéu e luvas perguntou sobre a família e descobriu que todos haviam saído. Seus amigos, entretanto, esperavam por ele no escritório. E sem duvida bebendo seu conhaque, pensou ele com um pequeno sorriso, enquanto caminhava até eles.

— Você parece surpreendentemente feliz— disse Neville assim que Harry entrou no escritório e se serviu de conhaque.

—Espero que estejam aqui para me deixar ainda mais feliz—Disse Harry se sentando na confortável poltrona ao lado de Simas. —Creio que tenham vindo me trazer novidades e não dar uma olhada na minha incrível beleza—Ele sorriu quando seus amigos riram e lhe bombardearam de insultos.

—Bem, algumas de nossas novidades certamente o deixarão feliz, mas não tenho certeza que todas terão esse efeito.— disse Dino. — O advogado de Lady Hermione, Sr. Horace, certamente se deixou corromper.

—Ou foi chantageado — Disse Neville— Não temos certeza qual das duas opções.

—Ou as duas talvez, —Disse Dino— Corrompa o tolo e depois faça chantagem.

—Mas, por que?— Perguntou Harry.

—Não temos certeza do que aconteceu primeiro.—Disse Neville. — O tolo tem sido seguido durante dois dias. Ele não é capaz nem mesmo de tentar esconder os próprios vícios, a menos que esteja entrega a tanto tempo nesses vícios que nem se importe mais. É viciado em jogo e, pelo jeito, não é muito bom nisso. Costuma perder muito. Mas não creio que este seja o seu maior problema. Todas as noites ele dá uma passadinha no Dobbin.

Harry quase engasgou com o conhaque. O Dobbin era um famoso bordel. Corriam boatos de que ocorria a venda de crianças no local, especialmente, meninos bonitos, mas ele nunca nem tinha passado perto. Nas poucas vezes que o estabelecimento foi invadido por autoridades ou por algum grupo com moral ultrajada, não foram encontradas provas de que ali não funcionasse nada além de uma estalagem, onde algumas criadas costumavam ganhar um dinheiro extra em segredo. Nada que valesse a pena e trabalho com a abertura de um processo. Isso não impediu as pessoas de acreditarem no pior. Se os boatos de que Horace frequentava tal local se espalhassem, em pouco tempo ele iria acabar sem clientas e falido. Podia até ser mandado para a forca, pois Harry desconfiava que sodomia fosse punida assim.

—Pelo pouco que descobrimos sobre o pai de Hermione, ele era um libertino, mas não um estranho que ele tivesse um advogado com tais vicios que acabaram deixando-o exposto à corrução e à chantagem.

—Talvez tais fatos não fossem um problema quando o marquês o contratou ou então ele simplesmente não tenha prestado muita atenção à vida pessoal dele.

—Ou talvez esse Horace seja filho do advogado que atendia ao falecido marquês. Se o homem já esta sendo chantageado, então tenho certeza de que podemos fazer com que eles nos contem tudo o que precisamos saber.

Neville franziu a testa.

— Pelos menos tenho certeza de que o homem não hesitará em abusar da confiança de seus clientes para salvar a própria pele. O único modo de sabermos se ele ira responder ou não nossas perguntas é confrontando-o.

Harry concordou com um aceno da cabeça.

—Por acaso um de vocês conseguiu descobrir algo que vala a pena? Por causa do meu pai, minha mãe, acabou se afastando um pouco da sociedade. Mas, antes disso, ela soube de algo. Pelo pouco que ela se lembra, parece que o marquês era um homem infiel, mas não era de jogar dinheiro fora. A esposa tinha uma boa fortuna. O título e as terras atreladas ao marquês passaram para o sobrinho dele, mas deve ter mais propriedade e dinheiro.

— Foi exatamente o que ouvimos dizer— Disse Simas— O homem adorava um rabo de saia, e os sócios mais velhos do clube têm várias histórias sobre as aventuras amorosas dele. Mas todos foram unânimes em dizer que ele costumava usar o dinheiro com cautela e que era quase muquirana. Os que não estavam atrelados ao título devem ter sido herdados pela viúva e, depois disso, pela filha. Pelo que sabemos algo foi separado para os filhos dele, pois os garotos eram reconhecidos abertamente como seus.

— Pelo visto, a família não costuma esconder os filhos ilegítimos — Concordou Harry— Posso não aprovar o modo como todos jogam a responsabilidade para Hermione mas pelo menos, de algum modo, todos tentar tomar conta dos filho. Não fazem muito, mas qual é a boa notícia?

— Em parte, foi o que acabamos de contar, apesar de ainda não termos certeza de como vamos usar o que já sabemos até que consigamos reunir mais informações sobre o advogado corrupto — disse Neville. — A outra novidade é que,apesar dos nossos investimentos ainda estarem no começo, pelo visto as chances de que rendam lucros muito mais altos do que esperávamos e se paguem são grandes. Apesar do alto custo do transporte do navio cargueiro.

— Então vamos rezar para que o navio não afunde. No momento, só preciso do suficiente para pagar as promissórios de Ron e conseguir me livrar de Gina.

— Harry, temo que Gina não seja a noiva virgem inocente que fingi ser — Começou Neville — Ela pode ser fria,mas pelo jeito, não tem escrúpulos em usar o belo corpo para conseguir o que quer.

— Você a seguiu também? — Harry estava começando a pensar que Neville estava adorando a missão.

— Na verdade, coloquei um homem meu para segui-lá. Não posso ter certeza absoluta, uma vez que ele não viu o casal na cama, mas ela passou a maior parte da última noite na casa de Sir Gerald Taplow. Uma vez que duvido que tenha sido paixão ou amor, não vejo outro motivo para ela ter se deitado com ele. Devo tentar descobrir a fundo?

— Se puder. Quando mais armar tivermos contra o inimigo melhor. — Harry franziu a testa— Você tem razão em dizer que duvida que ela esteja loucamente apaixonada pelo homem. Gina é, na verdade, muito ambiciosa. Ela almeja alcançar tudo que a sociedade tem para lhe oferecer e é capaz de qualquer coisa para conseguir. A resposta pode estar no motivo de ela ter passado todas as noites com Taplow. Talvez o meio mais fácil seja descobrir o que ele tem a oferecer a ela.

— Você realmente não deseja seguir adiante com este casamento,pretende? — Indagou Dimas, sorrindo.— Pois se pretendesse, deveria estar no mínimo preocupado que ela esteja arriscando a linhagem de seu futuro herdeiro.

— Não vou me casar com aquela mulher. Estou até pensando em vender uma das minhas propriedades se preciso for para sair deste buraco. Depois dou um jeito de compensar meus irmãos pela perda.

— Caso decida vender uma de suas propriedades, fale comigo — Disse Neville — conheço todas e adoraria comprar qualquer uma delas.

— Então você será o primeiro a saber. Mas espero, porém que o nosso investimento me ajude a quitar as dívidas que pesam sobre meus ombros. Quero poder dar tudo a meus irmãos e irmãs. Isso era o que meu pai deveria ter feito.

— Não se preocupe conosco — disse uma voz na porta — É melhor que encontremos nossos caminhos por conta própria do que você ser obrigado a se casar com aquela mulher.

Harry sorriu ao ver seu irmão James. Ele se levantou e abraçou o irmão, pois fazia meses que não tinham se visto. Somente três anos mais novo do que ele, os dois sempre foram muito próximos na infância e nunca deixaram de ser. Eram até muito parecidos fisicamente.

Enquanto se acomodava em um dos assentos e ganhava uma taça de conhaque, James se inteirava das novidades. Harry se surpreendeu um pouco ao perceber o ânimo com que o irmão se juntou ao serviço de espionagem de Neville, que por sua vez se mostrava muito eficiente. E ele não pôde deixar de se perguntar se as viagens do irmão pela Europa tinham sido mesmo motivadas por uma sede de conhecer o mundo como James afirmara. Havia vários
grupos secretos que atuavam junto ao governo que se ocupavam em coletar informações dos aliados e dos inimigos também.

— Você se envolveu em uma tremenda confusão, meu irmão — James disse. — E no centro disso tudo está Lady Hermione, se não estou enganado. Ela é bonita?

— Eu acho — disse Harry e ignorou o sorriso do irmão. — Assim como também acho que ela foi passada para trás pelos Wesley — Infelizmente, são poucos os recursos que restam para uma moça tão jovem recorrer em uma situação como esta.

— Por isso, os cavalheiros da bela donzela estão aqui reunidos. Bem, podem contar comigo como um de vocês. Mesmo que não houvesse uma bela donzela em perigo, eu ajudaria, pois quero que você tenha o direito de escolher a sua noiva, Harry. Não é justo que tenha que se vender só porque nosso pai foi um tolo irresponsável.

— A última boa notícia é que a entrega de vinho será daqui a duas semanas — disse Neville. — E o fornecedor, um sujeito rude que se chama Tucker, está mais do que disposto a nos ajudar. Parece que ele tem uma filha, e a história de como a Sra. Dolores arrumou algumas das suas funcionárias o deixou enojado e ultrajado. Ele chegou a se perguntar se uma ou as duas das
moças que desapareceram na região onde ele mora não foram levadas para lá e, por isso, agora deseja ajudar a fechar as portas daquele bordel antes que outras desapareçam. Parece que uma das moças desaparecidas era namorada do filho dele.

— Como não tínhamos percebido tal coisa? Como pudemos frequentar aquele lugar sem nunca saber que algumas daquelas meninas não estavam lá por livre e espontânea vontade? — perguntou Harry.

— Creio que depois que elas são, digamos defloradas, muitas acabam ficando por medo de voltar para casa e não serem aceitas. Além disso, se a Sra. Dolores matou mesmo alguém, pode ter uma ameaça de violência que as prendem àquele lugar. — Neville encolheu os ombros. — E as mantêm caladas. — Em seguida se levantou. —Tenho que ir agora, pois preciso jantar com a minha avó e depois acompanhá-la ao baile dos Henderson. Vejo você lá?

— Se a minha mãe quiser muito ir. Ela e Lady Henderson são velhas amigas.

Os outros se foram logo em seguida, deixando Harry sozinho com James. Ele fez algumas perguntas sobre as viagens de James, mas sua mente continuava pensando em tudo que seus amigos tinham lhe contado. Quase podia sentir as correntes que os Wesley haviam colocado ao redor de seu pescoço caírem, mas ele disse a si mesmo que era melhor não ter muitas esperanças tão cedo.

— Investimentos. Forçado a ficar noivo e ameaçado para não romper o compromisso. Uma cafetina assassina. Uma bela jovem que está sendo privada do direito de herdar o que é seu. Você andou muito ocupado enquanto estive fora — James provocou. — E estou certo em imaginar que a bela Hermione será a noiva escolhida caso você consiga ficar livre?

— Sim, ela seria. Mas mesmo que consigamos limpar todos os obstáculos que estão no caminho, ainda resta um problema com relação ao meu casamento com ela. — Ele contou a James sobre os Granger sobre Hermione acreditar ser capaz de ver fantasmas e sobre, a menos que seus investimentos rendessem bons lucros, ainda precisar de dinheiro.

— Fantasmas, é? Intrigante. Quanto ao dinheiro, venda tudo que não está atrelado ao título. Você não precisa se sacrificar por nós. Ninguém deseja isso. Sim, seria bom nos livrarmos dessas dívidas sem ter que perder nada, mas podemos viver muito bem das terras que vão nos restar e encontrar um meio de reconstruir a nossa fortuna.

— As meninas precisam de dotes, James. Elas precisam frequentar a sociedade para encontrar maridos. Isso custa dinheiro. Belinda está com vinte e três — Ela realmente não pode esperar mais até que consigamos ganhar o suficiente para lhe dar um dote modesto. E ainda tem Helen. Acha justo que a pobre espere ainda mais até que consigamos casar Belinda e depois mais um pouco ainda até levantarmos fundos para o dote dela? — Ele encolheu os ombros. — No momento, preciso me concentrar em conseguir me livrar das garras de Ron Wesley

— Então acho que já passou da hora de reunirmos a família para discutirmos todas as possibilidades de sairmos desta situação sem sacrificar o seu futuro. Existe uma porção de casamentos infelizes ao nosso redor, Harry. Se nosso pai não tivesse passado tanto tempo ausente, perseguindo qualquer tornozelo bonito que ele colocasse os olhos, nós teríamos visto um casamento infeliz bem de perto. Não venha nos pedir que fiquemos parados vendo você se
sacrificar pelo nosso bem. E tem mais uma coisa que você não levou em consideração.

— O quê?

— Se a sua Lady Hermione esta sendo passada para trás, quando a tal herança voltar para as mãos dela, ela pode ser a noiva que você está procurando.

Por um momento, Harry encarou boquiaberto o irmão.

— Caramba!


Na: Oii gente, finalmente acabei este capítulo! Espero que tenham gostado, sem momentos HH, para compensar o capítulo anterior! No próximo melhora.

Gente, muito obrigado por vocês terem lido, e principalmente para quem comenta, muito obrigado pelo apoio.

Witchysha: Heii espero que tenha gostado desse capítulo mesmo sem tendo momentos cutes, e eles tem que aproveitar o tempo perdido né? Mas não se preocupe eles ainda vão ter muitos momentos como esse e nosso casal ainda vai dar uma tapa miserável naqueles irmãos! Espero que tenha gostado, bjoos.

Midnight: Pois é, o que eu gosto nos livros de Hannah é isso: os personagens são muito francos e sabem o que querem, pena que as complicações externas são grandes, mas vamos torcer para que nosso casal favorito passe por cima disso, espero que tenha gostado do capítulo, bjoos.

Marianna Thamiris: Não sei nem por onde começar a responder sua review, ela é tão incrivelmente fksfknfklnwkgngr! Esses momentos HH não são a coisa mais cute? - Pena que não teve nesse capítulo, mas... - e em relação a Gina, ela ainda vai ter o que merece pode apostar nisso, e serio você tem que parar de tentar adivinhar o que vai acontecer - como assim, você conseguiu saber o resultado? To começando a achar que vc já leu o livro. E estou começando a achar que você quer ver seus leitores viciados morrerem com tanta espera, como assim você para nas melhores partes? Isso não pode acontecer jamais :) Por favor, toda manhã, juro, que a primeira coisa que eu faço é olhar no cel para ver se tem alguma atualização sua, não nos deixe assim! Espero que tenha gostado do capítulo. Bjoos flor