MASQUERADE

ShiryuMitsuko

Gênero: AU/Yaoi/Romance/Angst/Guerra

Em Capítulos

Personagens: Radamanthys de Wyvern e Valentine de Harpia como protagonistas e quantos mais der vontade de a gente colocar. Casais? Ah, não querem que eu estrague as surpresas não é mesmo?

Direitos Autorais: Saint Seiya não me pertence, mas nem por isso podem ficar pegando nossos argumentos sem citar não é mesmo? Se gostou de alguma cena especial ou de algum personagem novo, use à vontade, apenas cite de onde veio a inspiração ok?

Fanfiction de conteúdo adulto, contendo relações homoafetivas masculinas. Se você tem menos de 18 anos, ou não suporta yaoi e relacionamentos entre homens, procure algo mais adequado à sua faixa etária e gosto. Aviso dado, nos poupem de flammers mal educados que temos mais o que fazer. Quanto aos casais que costumamos retratar, são do gosto pessoal das ficwriters. Se não gostar de algum, por gentileza não desmereça todo o nosso trabalho por isso. Todos têm direito a seus gostos e preferências. Boa leitura.

Capítulo DEZ

A noite praticamente em claro. Radamanthys acordou antes de amanhecer, o corpo doendo, hora de se arrumar, esgueirou-se da cama e viu com um suspiro que sua carruagem chegara. Eram eficientes. Vestiu-se com cuidado e saiu, arrumando na pequena sala mais um tanto de comida para Valentine. Sentou-se sem apetite e esperou que o outro acordasse. Não ia sair de lá sem se despedir.

No quarto, o jovem ruivo suspirou e levantou-se devagar. Rada já não estava ali. Arrumou-se e passou as mãos pelos cabelos. Rumou para a pequena sala – "Bom dia."

- "Depois que você comer, pegarei a licença do médico e a darei a você. Iremos para a sua casa, o deixarei lá e voltarei ao meu castelo."

Nada de bom dia. É, parecia que seria esperar demais. Valentine concordou sem palavras, sentou-se à mesa e comeu um tanto, sentindo o jeito perceptivelmente distante dele consigo, mas não falou nada, já estava acostumado com aquela forma de tratamento. Terminou de comer e suspirou. – "Obrigado por tudo."

- "De nada. Tenho deveres. Executar alguns contratos, atender pedidos de mais dinheiro, receber políticos querendo prejudicar a todo o reino, essas coisas normais. Meu coração não pode estar presente. Bem, vamos." Era sua maneira de tentar explicar porque estava tão frio. Abriu a porta, nada comera, nem se importava, não queria mais ser quem era e aquilo lhe doía por dentro.

- "Certo." O que ia dizer? Que ele devia tentar de novo? Não conseguia era perdoar o jeito dele. Tinham conversado tanto e agora... Sentiu-se um cortesão com todas as letras. Se tivessem feito sexo teria sido bem pior. Que fosse daquela forma então, mas não conseguia não admitir para si mesmo que se sentia magoado com aquilo, aquela distância e frieza. A falta de um olhar mais cheio de sentimento.

Sem mais palavra alguma, Radamanthys ostentava um olhar frio e doloroso, nada mais havia. Nem Valentine conseguira tirá-lo daquela vida sem sabor. Talvez fosse apenas isso, um monte de dias sem gosto. Entraram na carruagem, pegou alguns documentos e ficou lendo-os, sério, sem sentimento algum. Logo chegaram à casa de Valentine. Uma viagem totalmente horrível. – "Até logo."

Valentine estava sentindo-se mal. Hora de ir embora, sabia disso, mas também sabia que algo em si mudara. Sentira o gosto da esperança e não via tal chama no outro. A viagem sem palavra alguma o mortificara. Ouviu a despedida fria, mas não conseguiria se despedir.

Valentine sofria.

Apesar do tratamento sem sentimento algum que recebera naquela manhã, Radamanthys fora a primeira pessoa que lhe permitira se expressar e, mesmo que não tivesse havido um resultado bom, era grato a ele por aquilo. Titubeou um tanto, mas finalmente tomou sua decisão. Antes de sair puxou o rosto dele, dando um selinho rápido como no dia do baile de máscaras e saiu da carruagem, já entrando em sua casa e fechando a porta atrás de si. Sentia um incrível vazio. Parecia que tivera tudo e perdera. Por que? Não podia estar gostando daquele lord. Não podia. Seria um sofrimento a mais, tinha certeza. Tinha sido um sonho estúpido, somente isso. Ilusão.

Wyvern tentou pensar sobre porque fora beijado antes de Valentine ir. Talvez um pouco de agradecimento. Seria bom. De qualquer maneira tinha deveres. Ao mesmo tempo, pensou que poderia ter sido mais cortês. Ou talvez ter dito a ele que sentia muito, mas que sentia algo por ele que talvez os levasse à destruição.

O duque passou o resto do dia taciturno, sem comer, sem mais nada, não sentia mais vontade de nada. Soube que Pandora conseguira alguns avanços e foi chamado por Hades que lhe pediu conselhos.

- "Senhor, creio que o melhor que pode fazer é afastar-se de quaisquer cortesãos por algum tempo, até que o assunto fique mais palatável. Ou mesmo, senhor, deveria casar-se e levar uma vida mais normal, talvez seja bom para o reino."

- "Talvez. Algum interesse especial no caso? Soube que Valentine foi cuidado por você de um estranho mal súbito..." O olhar de Hades era gélido, era um homem perigoso.

- "Hum, quem? Ah, sim, um rapaz que conheci em um de seus bailes. Ele passou mal, senti-me no dever de cuidar dele. É alguém importante para o Senhor?" Esse jogo Radamanthys sabia jogar muito bem. Ar de puro desconhecimento, fazia-se de desentendido.

- "Sei." O imperador não parecia nada convencido. Ficou em silêncio por momentos. Talvez os boatos fossem falsos e o duque fosse inocente. – "Não, não é ninguém. Apenas um ninguém. Está dispensado."

- "Como queira." O duque saiu de lá mais triste ainda. Um ninguém? Era o que o rei pensava de Valentine? E, para piorar, era como ele, Rada, se sentia.

Em sua casa, Valentine tomou um banho, trocou de roupa, pensando no que ocorrera e depois indo ler algo, sem realmente se concentrar. Estava um tanto distraído quando, algumas horas depois, ouviu batidas na porta, erguendo-se e assustando-se ao reconhecer a figura que se escondia do restante das pessoas com um capuz. Foi empurrado para dentro da casa, a porta foi batida e viu o ser de longos cabelos negros, porte elegante e face raivosa olhar em torno. O rei.

- "Sabe que não me parece nada doente?" Hades caminhou até o cortesão, um tanto zangado. – "O que andou fazendo?"

- "Foi um mal estar desconhecido, passageiro, majestade, nada que deixe seqüelas segundo o médico. Apenas não sei se ainda é contagioso." Valentine falava em um tom respeitoso, mas estava com medo. E muito. Não conseguia, nem ia, encarar o rei.

- "Não gostaria que meu cortesão favorito ficasse doente. E, quanto a ser contagioso, vi Radamanthys hoje, ele me parecia muito bem, então não deve ser nada demais, não é mesmo?" Aproximou-se um tanto mais. – "Senti sua falta. Já está disposto?" Uma óbvia pergunta na face autoritária.

Harpia manteve a face serena, já estava acostumado a fingir perante ele e respondeu mesmo que a vontade fosse fugir dali. – "Meu dever é estar bem, Majestade. Creio que estou plenamente recuperado."

- "Não sei se sabe o que andou acontecendo em sua estranha ausência."

- "Hum... A que Vossa Majestade se refere?" Fingiu uma dúvida que não tinha, e conseguiu olhar para a face dele respeitosamente.

- "Problemas com uma dama. Talvez eu tenha que mandar você para um exílio um tanto forçado. Ela não pode saber de você, mas deixemos isso para lá por enquanto." Aproximou-se mais e abraçou-o. – "Vai matar minhas saudades, não é mesmo? Vá para o quarto e me espere do jeito que está acostumado."

Valentine pensou que então havia realmente acontecido algo envolvendo Pandora. Estranhou a mudança repentina da conversa, ou talvez nem tanto, e apenas aquiesceu, saindo do abraço e fazendo o que o outro dizia, seguindo para o quarto, despindo-se e ouvindo logo o outro entrar.

- "Depois veremos para onde o mandarei. Agora, apenas faça o que faz tão bem." Trancou-se com ele no quarto por algumas horas, saindo de lá depois com certa pressa, tinha que ir visitar a pretensa noiva.

Harpia simplesmente deixara-o fazer o que tinha vontade, não resistindo, nem poderia. Só que, depois que o rei se retirou, encolheu-se imediatamente na cama. O outro fora bem mais violento do que de costume. Ainda meio ofegante pela dor, levantou-se e foi tirar os resíduos do ocorrido de seu corpo. Mais tarde, naquele dia, uma carruagem sem marca alguma veio buscar o ruivo.

Às pressas, foi quase jogado dentro do transporte, algumas de suas coisas recolhidas e juntadas em grandes baús de viagem. Valentine não deu um grito, nem tentou resistir. Não havia chance, nem esperança. Nunca haveria. Tinha certeza que caminhava para seu fim.

Naquela mesma noite, um mensageiro foi enviado para avisar Radamanthys de que era chamado no castelo. O nobre para lá se dirigiu e avistou-se com Pandora e Hades. Parecia-lhe um belo casal e o duque sorriu interiormente, mas a sensação boa não durou. Após ser apresentado à moça como sendo noiva do rei, foi chamado para a câmara interna.

- "Ah, Radamanthys, preciso lhe contar algo." Hades sorria calmamente, estavam a sós, Pandora seria encaminhada para sua casa, por enquanto.

- "Pois não, Majestade."

- "Valentine de Harpia, aquele que você não conhece direito, teve que partir, subitamente. Eu precisei enviá-lo numa tarefa importante do reino. Passará ao menos um ano fora, eu creio."

Radamanthys manteve-se impassível e cumprimentou o rei pelo casamento que seria em breve. Que mais poderia fazer? Por dentro, seu peito ardia. Um ano? Tarefa importante? Claro que não era aquilo. Tentou descobrir para onde Val havia ido de maneira dissimulada e não conseguiu. Precisaria tentar com mais afinco. Onde estaria Valentine?

Num quarto pequeno, sem janelas, Valentine não sabia ao certo onde estava. Sentia dor, fora espancado e ferido sem ter feito nada. Apegava-se ao fato de que antes de partir conseguira ao menos deixar algo que esperava que Radamanthys encontrasse. Não que achasse que ele realmente iria à sua casa, mas era sua única esperança e iria se agarrar a ela para continuar vivo. Deixara uma flor branca, parecida com a que ele lhe dera dois dias antes.

- "Por favor, me encontre..." O ruivo murmurou baixo antes de ouvir as ferragens da porta se abrirem. E então o pesadelo começou.

Um dia inteiro em busca de informações. O que faria? Não era seu namorado, não era nada seu, mas queria saber se estava bem, se estava... Não era nada seu? Importava-se com ele! Radamanthys decidiu que ia fazer uma última tentativa e foi até a casa de Valentine. Viu tudo revirado. Como esperava, estava vazia. Passou os olhos pelo local. Tarefa? Ele tinha sido arrancado de lá à força, isso sim.

- "Para onde levaram você?" Havia tanto do ruivo por ali. Os olhos do duque ficaram turvos, sentiu as pernas estremecerem e olhou tudo, mais uma vez. Uma pequena flor branca? Andou até ela, pegou-a com cuidado.

- "Ah, Valentine, você deixou para mim, não foi? Sabia que eu viria." Sua mente começou a trabalhar rapidamente, tentando achar uma saída. Então notou o sangue na flor e desesperou-se. – "Eu vou achar você!" Moveria mundos e fundos e encontraria Valentine. Custasse o quanto custasse. Saiu disposto a descobrir tudo que fosse possível. A flor guardada em sua roupa, perto de seu coração. Se havia alguma chance, ele a daria a Valentine.

Num local distante, Valentine tentava respirar. Lembrou-se das horas na carruagem. Descera num reino vizinho e fora informado que o senhor de lá era um homem chamado Flégias. Fora levado para os aposentos dele e informado que agora serviria a ele. Lembrou-se da história. Era um traidor que fora comprado por Hades com um reino. Flégias de Lycaon, um homem desagradável e cruel. Não pôde pensar em mais nada. Sua boca encheu-se de sangue. E gritou...

No reino de Hades, Wyvern pensava que era ótimo ter dinheiro algumas vezes. Simplesmente rastreou tudo que pôde encontrar. Informações falsas, informações erradas, informações. E não podia deixar o Rei saber. O que faria? Três informações diferentes davam conta de que Valentine havia ido para um reino um tanto longe, mas não hostil. Flégias de Lycaon. Essa não. O homem era sádico. O que quereria com Val? Ora, o que... Todos sabiam. O que poderia fazer? Também havia mais informações sobre outros dois paradeiros possíveis para o ruivo. Chamou Sylphid, um amigo leal e pediu que fosse verificar.

O Conde de Basilisco ouviu o pedido, quase ordem do loiro, e estranhou a preocupação dele com o cortesão, mas nada disse. Conhecia o ruivo, já o vira várias vezes nos bailes do rei. Memorizava vozes muito bem e a dele em especial se diferia da maioria. Foi a três lugares diferentes rastreando o jovem.

No primeiro local, não havia notícia alguma de forasteiros. Dois dias perdidos.

No segundo, encontrou apenas escombros, pois houvera uma sangrenta disputa por poder. Mais três dias perdidos.

Não havia mais muitas forças em Valentine. Apenas chorava. Amarrado com correntes grossas, sentindo seu corpo pedir pela morte. O que haveria após a morte?

Enfim, Sylphid chegou a um reino um tanto mais longe. O reino de Flégias. Fingiu estar de passagem, como se estivesse voltando para o reino de Hades e passou dois dias no castelo de Lycaon. À noite, algumas vezes, tivera certeza de ouvir gritos de uma voz familiar e até ouvira de alguns empregados que Rei recebera um presente maravilhoso. Um novo cortesão. O Conde continuou a conversa normalmente e assim que voltou ao reino de Hades procurou pelo duque, contando a ele o que soubera e ouvira. Ainda era de manhã.

- "Tem certeza Sylphid? Mas... Ele foi vendido? Ele foi dado? Emprestado? O que fizeram ao Valentine?" Deu-se conta que perdera toda a compostura. Que sentimento era aquele? – "Eu vou buscá-lo."

- "Você e mais que exército? Tenho quase total certeza de que é Valentine, conheço a voz dele e, além de poder ouvir alguns gritos dele, muitos no reino confirmaram que o novo cortesão do Rei Flégias é ruivo de madeixas longas."

- "GRITOS?" Radamanthys estava transtornado. Ergueu-se agoniado, era noite já. - "Eu preciso ir buscá-lo." Passou os dedos pela pequena e murcha flor em seu peito. Guardara-a ali, num pequeno saquinho de couro atado ao pescoço.

- "Vou com você."

- "Tem certeza? Pode ser ato considerado como de alta traição."

- "Quando partimos?" Sylphid não era homem de fugir de problemas.

- "Dane-se o respeito entre reinos. Vista-se de assaltante, assassino, o que for, eu e você, vamos buscar Valentine. Dane-se o mundo."

- "Missão suicida, ao que parece."

- "Não sei quanto a você, mas morrerei se preciso."

- "Não tenho medo de morrer. Foi apenas um comentário. O que me deixa em dúvida são seus motivos."

- "Não são relevantes." Foi a resposta fria e distante. O duque não ia jamais admitir ao conde que o motivo era simples: sentia algo bem forte por Valentine e morreria para livrá-lo de outra prisão. Quem sabe morressem juntos e tudo ficasse bem? De onde lhe vinha tal amargura, não sabia. Estava cansado demais de ser quem não era e de fazer o que não queria. Valentine era ótimo motivo para qualquer ação desesperada. Ele era motivo para muita coisa.

Sylphid concordou e combinaram de se encontrar na fronteira. Iriam à cavalo, era mais fácil e fazia menos barulho. Bem, talvez nem tanto, mas era o meio de transporte possível. A pé seria absurdamente demorado. De carruagem, muito chamativo. O conde preparou-se e, galopando como o vento, chegou até as fronteiras do reino. Teriam horas de cavalgada pela frente.

Radamanthys estava inteiramente vestido de preto, rosto coberto. Espada, adaga, flechas, o que fosse. Mataria quem tentasse detê-lo.

- "Sylphid, seu cavalo está estafado. Troque. Eu trouxe um dos meus para você. Ele está descansado e alimentado."

O Conde de Basilisco ergueu uma sobrancelha ao ver o imenso garanhão negro, um dos campeões do duque. Ele usaria um cavalo praticamente sem preço. Valentine devia ser muito importante.

- "Revenge é o nome dele. Apropriado se quer saber." Radamanthys montou numa égua também preta. - "E esta é Curse. Vamos logo de uma vez."

Sylphid não ousaria comentar o quanto os animais de Radamanthys tinham nomes que condiziam com o jeito do duque.

Galoparam por horas e horas.

Os animais eram excelentes. Sylphid jamais montara animal tão rápido. Sentia algum cansaço quando finalmente chegaram ao reino. A tarde ia do meio para o fim e não poderiam agir à luz do dia. Tinham que descansar os animais para que pudessem fugir depois, se é que voltariam. Ficaram misturados com servos, mercadores, analisando possíveis entradas no castelo um tanto mais afastado da cidadela. Havia escarpas de um lado, a única ponte de acesso do outro. Era de dar medo.

Anoiteceu e logo não havia mais muito movimento por ali. Forasteiros não chamavam muita atenção, pois os reinos tinham muita gente indo e vindo, trazendo e vendendo coisas.

Radamanthys escolheu um ponto qualquer e, após atravessar o fosso cheio de sanguessugas que o feriram, mas não detiveram, depois de matar uma ou outra cobra, se livrar de nem sabia quais animais nojentos grudados em sua roupa e sentindo o odor fétido que se esperaria de um fosso de contenção, chegou aos altos muros. Havia vigias, sempre havia, mas o segredo era simplesmente fazer o maior silêncio possível e disfarçar a agitação na água. Sylphid o seguira, maldizendo a si mesmo pela hora em que concordara com aquilo.

Wyvern não titubeou. Com adagas, facas, o que fosse, foi erguendo-se nos blocos de pedra, escalando, ajustando-se à escuridão e indo devagar. A roupa grudava, exalava uma odor pútrido causado pela água fedorenta. Detritos colavam-se em suas costas. As botas encharcadas eram desconfortáveis, o peso do tecido úmido.

O vento era gelado, a estação do ano não ajudava muito. As mãos esbranquiçadas de esforço, com marcas das sanguessugas arrancadas à força. Não desistiria.

A determinação de um nobre. Não pela casta... A determinação de um nobre... De alma.

Levou uma ou quase duas horas para finalmente chegar ao cume, tomando cuidado com as ameias onde certamente haveria guardas. Uma sombra negra perigosa que enfiou uma adaga de prata na garganta do primeiro inimigo que avistou. Ele não poderia gritar e alarmar os outros.

Wyvern jogou cordas tingidas de carvão para não aparecerem e ajudou Sylphid a escalar. Basilisco agradeceu com um gesto, pensando que aquele nobre era inacreditavelmente determinado, forte e lhe parecia até mesmo um tanto invencível.

- "Sylphid, para onde? Qual lado?" Murmúrios quase inaudíveis e o nobre tentava ignorar a dor no corpo e o esforço quase sobre-humano.

Sylphid pensou por momentos. Quando ficara ali, quando estivera lá, obviamente tivera acesso restrito, era apenas alguém disfarçado que fizera amizade com alguns guardas. Tentou lembrar-se tendo por norteadora a posição da ponte. Tinha que ser a oeste. Tinha que ser. Apontou o caminho e viu a sombra negra do Lord sequer titubear. Não havia muitos guardas, não era esperado nenhum ataque.

Wyvern levava vantagem por ser um nobre, ter recebido todo o treinamento possível e ser extremamente sanguinário. Hesitar era algo que não fazia. Golpes certeiros que silenciaram os poucos guardas que encontravam.

Basilisco seguia-o, vigiando a retaguarda. Chegaram a uma espécie de corredor que levava a duas torres. Não sabia qual.

- "Teremos que descobrir, então." Foi o rosnar baixo do Duque.

Um barulho de vozes e Sylphid e Radamanthys encolheram-se nas sombras. Uma patrulha. Quatro guardas de malhas de aço, elmos e lanças. Tanto pior para eles. A lança era arma pesada, com cerca de três quilos e que não podia ser facilmente arremessada.

Radamanthys esperou que passassem por eles e emboscou-os pelas costas, com ajuda de Sylphid. Não era fácil, mas eles eram assassinos muito bons.

Chegaram à primeira porta e nada ouviram. Podia ser que Valentine estivesse dormindo. O que fariam? Arrombar a porta errada lhes traria muitos problemas e os faria perder o elemento surpresa.

- "Vamos ouvir na outra porta, primeiro." Basilisco sussurrou, sentindo cansaço e dor pelo frio das roupas molhadas.

Aproximaram-se então da segunda porta. Não parecia haver barulhos também. O duque rangeu os dentes. - "Onde estará o rei?" Murmurou baixo.

Gemidos baixos. Quase inaudíveis.

- "Provavelmente está aí dentro." Basilisco respirou fundo. Aqueles gemidos pareciam... Seus pensamentos foram interrompidos pela pergunta áspera do duque.

- "Quantos haverá aí?" Radamanthys não precisou da resposta de Sylphid pois sua linha de raciocínio foi interrompida por um barulho que conhecia muito bem. Gemidos de dor. E sabia muito bem de quem era aquela voz. O timbre de Valentine era único. Sabia que era ele. – "Droga." Não sabia bem se arrombava tudo ou não. Pela primeira vez em anos, sentia-se fazendo algo de valor. Salvar Valentine.

Dentro do quarto, Valentine jazia na cama, com Flégias sobre si, nem mais sentia o que ele lhe fazia, quase perdendo os sentidos. Dor e humilhação. Eram as palavras de sua vida. Tinhas os braços, uma das pernas e o tórax enfaixados, embora os curativos já estivessem um tanto manchados com o sangue dele. Havia hematomas no rosto, a boca mordida e machucada. Os cabelos revoltos, cortados à navalha, numa tortura humilhante.

Flégias se divertia com as lágrimas dos olhos verdes que quase sempre jaziam fechados. Com uma pequena faca, cortou de leve o ombro do rapaz e lambeu o sangue, como uma fera ensandecida. Arremeteu dentro dele com força, com crueldade e riu ao ouvi-lo gritar. Era um sádico.

- "Não importa mais quantos há." Para Radamanthys, já era demais. Demais. Destruiu a porta, que era bem forte, com um machado. Arrombou tudo e invadiu o quarto. Furioso, tomado de fúria incontida, voou em cima de Flégias. Não importava se era rei, plebeu, o que fosse. Socou-o numa rapidez tão grande que o outro nem soube o que o atingira. Rosnou baixo, morto de ódio. – "Tire-o daqui. Agora. Eu vou dar um jeito em algumas coisas." Um olhar mortal, um olhar perigoso. Radamanthys era um inimigo formidável. Não conseguiu olhar para Harpia, não queria ver o quanto ele estava ferido.

Sylphid estava surpreso com o estado do ruivo, apenas concordou, ainda pensando um pouco nos motivos do duque e enrolou o jovem ruivo nos trapos que um dia talvez tivessem sido um lençol e colocou-o sobre um ombro, ouvindo-o gemer baixinho e tapando a boca machucada. - "Não faça barulho, aguente firme." Foi saindo de lá, pensando que seria bastante difícil lutar com Harpia semi desmaiado em seus ombros. Murmurou ao loiro que não demorasse muito, logo saindo dali e buscando em sua mente alguma rota alternativa. Como passariam pelo fosso com Valentine daquele jeito?

Flégias gemia do soco potente que recebera, semi acordado. Radamanthys não titubeou e socou-o novamente, fazendo-o desmaiar de vez. Amarrou-o com cordas grossas como se ele fosse um qualquer. Pegou restos de comida apodrecida que estavam naquele antro nauseante e espalhou no corpo dele. Derramou vinho nos cabelos dele, fez-lhe alguns cortes finos no peito. Escreveu com excrementos de rato no peito dele apenas uma palavra: desonra.

O duque encontrou-se com Sylphid que estava tentando viabilizar uma saída.

- "Não podemos fazê-lo passar no fosso, com a quantidade de ferimentos as sanguessugas o matariam. Isso se não pegar alguma doença, ou sucumbir na descida. Não posso garantir que consigamos sair daqui. Além disso, a destruição da porta não foi um trabalho silencioso."

- "Delicadeza não é meu forte numa invasão e resgate." Um olhar frio e dourado. Observou de canto de olho aquele pacotinho nos ombros de Basilisco. Nunca tivera tanta certeza de se importar com alguém. Radamanthys queria pegá-lo no colo e acarinhá-lo, tratar dos ruivos fios em fiapos, mas não podiam perder tempo. - "Vamos sair pela entrada."

- "Ele está desacordado, se quer saber e, ficou louco?" Basilisco resfolegava, o vento cortante ali em cima. - "Como sairemos? Já tivemos bastante sorte até agora."

- "Apenas me siga, no maior silêncio que conseguir. Não deve haver muito movimento, não há lua e, além disso, não esperam que se tente sair, mas que se queira entrar." O duque deu um sorriso cruel. A maioria dos reis julgava seus castelos tão inexpugnáveis que não costumava manter guardas na parte interior ou de prontidão em áreas pouco prováveis de invasão. Desembainhou a espada pesada e poderosa de seu clã. Um dragão em ouro puro ornamentava a empunhadura. Prendeu a máscara negra e fez Sylphid cobrir o rosto.

- "Vejo que tem algum plano louco." Basilisco cuidou de cobrir seu rosto, embora achasse que, se fossem pegos, seriam simplesmente mortos, não importando se alguém os reconhecesse ou não.

- "Eu tenho um plano. Se é louco ou não, logo descobriremos." A voz abafada e gelada. Iria retirar seu ruivo de lá, custasse o que fosse.

Nota de ShiryuForever94: Perdão pela demora, tive problemas bem complexos, inclusive de saúde. Eis um novo capítulo e, agradeço de coração cada uma das inspiradas reviews cheias de carinho. Naya, você sabe bem o quanto é especial, não sabe? E, eis a mostra de que o sofrimento apenas começou... Eu sou uma angsteira viciada, admito (se morre). NathDragonesa! Que bom vê-la de volta! Espero que esteja ao seu gosto e, Cristal Samejima, muito importante saber que ainda está lendo. Espero não decepcionar vocês. Kakau, que que eu faria sem você me perturbando no msn pelas fics hein? Até a próxima semana se tudo der certo e me perdoem, estava bem doentinha.