Quantas vezes encontramos nosso destino
nos caminhos que tomamos para evitá-lo?
La Fontaine
Damashi no Mori
Floresta de Enganos
Capítulo 9: O aparecimento do meio-irmão
Para Rin-chan
Era algo extremamente difícil viver Na Floresta de Enganos. Os sentidos, mesmo os mais apurados dos demônios, quase não tinham função no território, principalmente a audição. Para eles, pior que perder a audição apurada é não conseguir distinguir os cheiros pelo olfato.
Amaldiçoando essa condição que alguém pulou de um galho para outro. A vista pelo menos não era tão prejudicada. Era só saber olhar.
Continuou pulando de galho em galho até chegar a um determinado ponto da floresta em que pôde ver, a uns 30 metros de onde estava, um grupo fazer uma pausa para descansar perto de um riacho, permitindo-se sorrir.
Perfeito.
Desde que se levantara, Rin não sabia ao certo como se dirigir a Sesshoumaru. Lembrava-se perfeitamente do que acontecera. Houve primeiro um beijo, depois outro... e outro...
Corou ao relembrar do último. Quando quisera reabrir os olhos, Sesshoumaru fizera o mesmo e se afastaram. Simplesmente ergueu-se e deu-lhe as costas. A noite passou e Rin custou a dormir, perguntando-se sempre como seria se por acaso as coisas tivessem continuado, se tivessem...
Um calor invadiu o peito dela, os pensamentos ficaram mais embaraçados. Os passos pararam e o olhar procurou ver o rosto da pessoa que estava andando mais à frente, costas voltadas para ela.
Não haviam trocado palavra alguma desde que se puseram a caminhar. O dia mal havia começado e Jaken a fez levantar-se, dizendo que o mestre desejava ir embora. Não estava mais chovendo, e incrivelmente o sol aparecia como se brilhasse em qualquer outro lugar da região de Musashi. Sim, a Floresta de Enganos ficava lá dentro, ao que tudo indicava, mas depois de Rin receber a confirmação de que ali era também um país...
Sesshoumaru parou. Quando ele parava, os outros também tinham que parar. Rin observou as feições sérias dele, sempre tão calmo e inexpressivo.
Daria o mundo para ler um único pensamento dele, saber o que ele pensara na noite anterior.
Estranhamente, ele virou o rosto e olhou para cima, para as copas das árvores de aspecto assombrado e que tanto "enfeitavam" a paisagem da floresta. Aquela análise durou apenas alguns segundos, talvez menos de um minuto, mas ela percebeu o modo como ele franzira a testa e o olhar se estreitara... Era como se...
O olhar dele desceu das copas das árvores e foi encontrar o dela. Diferente de outras vezes, quando tão corajosamente o enfrentou em discussões, ela baixou o rosto e se recusou a encará-lo.
-Vamos ficar aqui, Sesshoumaru-sama? – Jaken perguntou sem ter idéia do que acontecera entre os dois.
Sentindo um tremor na espinha, Jaken prendeu a respiração. O lorde havia estreitado o olhar e o observava de modo tão estranho...
-Vamos andar até encontrar um rio. – o demônio finalmente anunciou – Aposto que Rin quer se alimentar antes de continuarmos a caminhada.
Ao escutar o nome ser pronunciado dos lábios que beijara durante a noite, Rin sentiu o coração acelerar.
O que tá acontecendo comigo?, pensou ao pôr a mão sobre o peito, sentindo as batidas.
Quis falar algo a Sesshoumaru, mas nada saiu ao vê-lo novamente observando as copas mais altas. O olhar estava ainda mais estreito.
-Vamos. – ele ordenou.
Os outros tiveram de segui-lo.
-Ei, Jaken-sama...
O pequeno demônio olhou atentamente a garota humana que acompanhava o grupo há alguns meses. Os olhinhos daquele ser verdinho ficavam ainda mais miúdos quando ele queria encará-la.
-Pra onde estamos indo? Sesshoumaru-sama falou alguma coisa pra você? – ela perguntou, mantendo a voz suficientemente baixa para não chamar a atenção do líder, muito à frente deles.
-Não, menina curiosa. – ele respondeu um pouco mal-humorado.
-Ué... – ela franziu a testa de irritação – Não é querer ser curiosa... Mas você pode perguntar pra ele, né?
-Por acaso não confia mais no instinto do senhor Sesshoumaru, sua humana? – ele a desafiou.
Rin deu um suspiro.
Talvez fosse melhor mesmo lançar a sorte e confiar em Sesshoumaru. Quer dizer, não da mesma forma cega que Jaken confiava. Claro que ele era mais confiável que qualquer outra pessoa que encontrasse naquele lugar...
Confiável? Mas não tinha sido ele que escondera dela o fato da tinta tomar o corpo do dono?
De novo, um calor invadiu o peito quando lembrou-se do que acontecera entre eles.
Suspirou novamente.
Horas depois, finalmente pararam perto do tal riacho que Sesshoumaru tanto procurava. Não parecia ser exatamente porque ele queria tomar banho ou pegar algum peixe, mas porque ela desejava tais coisas e porque ele sabia disso.
Foi pensando nisso que ela, afastada dos demais, tirou a roupa para se lavar. Jaken estava preparando alguma coisa para ela comer. Sesshoumaru em algum lugar longe, sem se preocupar em avisar aos outros.
-Frio... – ela murmurou ao entrar na água. Essa infelicidade era sempre reservada a ela, que acostumou-se a tomar banho diários por conta das longas caminhadas. Sempre se sentia bem depois de lavar-se.
Mergulhando o corpo até o pescoço, ela começou a esfregar os braços e parte das costas embaixo d'água. Os longos cabelos flutuavam enquanto não dava a devida atenção a eles, mas não ficavam embaraçados.
Pra onde será que Sesshoumaru havia...?
Uma gralha fugiu ao longe. Aquilo chamara a atenção de Rin. A região onde estava era silenciosa demais, assim como outras da Floresta. Para um pássaro fugir, era porque...
Olhou receosa para trás, a feição formando-se assustada por cima do ombro. Não havia ninguém por perto, e a floresta continuava tão quieta quanto antes.
Talvez fosse melhor terminar logo e ir para junto de Jaken. Esfregou-se com pressa e deixou partes do corpo vermelhas, depois se levantou e sentiu a água escorrer pela pele até encontrar o chão, pisando com cuidado na beira para subir e pegar um quimono limpo. Era branco, feito de algodão e foi dado por Sesshoumaru três dias antes. Algo bem mais feminino que os trajes que usava antes.
Outra gralha fugiu e balançou as folhas das árvores mais próximas. Rin cobriu a frente do corpo com o tecido, dando passos para trás enquanto procurava alguma coisa na direção de onde, acreditava, a gralha fugira. Não havia nada além de árvores.
-Algum problema?
O sangue da humana gelou e, virando o rosto para trás, deu com os olhos numa expressão confusa e, ao mesmo tempo, preocupada de Jaken. Dando-se conta que ele a via nua de costas, ela deu um grito que ecoou pela floresta e uma pancada que pôde chegar aos ouvidos de Sesshoumaru. O demônio, já imaginando o que teria acontecido, apenas ergueu uma sobrancelha e deixou um sorriso irônico aparecer no canto dos lábios.
As noites na Floresta de Enganos eram os momentos mais temidos anteriormente por Rin antes de conhecer Sesshoumaru. Tinha sempre que tomar cuidado com os animais selvagens e bandidos, que agiam melhor na escuridão que durante o dia.
-Você não vai mesmo me perdoar? – perguntou Jaken a Rin num tom tímido, longe dos olhares reprovadores de Sesshoumaru, principalmente depois que este fez a parte dele de aplicar a surra necessária no capetinha verde ao descobrir o que havia acontecido no riacho.
-Nunca na vida. – ela respondeu num tom mal-humorado, comendo arroz da tigela de barro preparado especialmente para ela. Apenas Rin comia arroz e outros legumes preparados por Jaken; os demônios não tinham costume de se servirem de alimentos humanos. Carne era evitada por causa dos surtos de cólera.
Agora, os momentos mais aterrorizantes para ela era ter que ir procurar um lugar sossegado para tomar um banho decente.
-Por sua culpa ainda nem tomei banho direito. – ela reclamou, esfregando os braços com força – E ainda nesse frio!
-Garotinha mimada. – ele resmungou – Até parece que é bonita sem essa roupa de homem.
Uma pedra voou na direção dele e o acertou por trás da cabeça, fazendo-o cair com o rosto voltado para o chão. Rin forçou um sorriso e sentiu uma gota escorregar pela testa quando, para completar a cena, Jaken tentou erguer o rosto e sentiu um pé de Sesshoumaru pisar na nuca.
-Jaken – Rin pôde notar uma aura vermelha ao redor do demônio, que tinha a voz mais estranha que já ouvira -, já fez o que ordenei?
Uma voz engasgada tentou dar uma resposta, mas a pressão no pescoço era tanta que mal Jaken pôde pensar em formular algum pensamento senão o de sair dali.
Enquanto brigavam, uma sombra se movia pela mata rapidamente, com os pés quase não tocando o chão. Não fazia barulho. Não deixava rastro. Precisaria estar invisível para conseguir chegar até seu alvo. Pulou para o todo de uma árvore: sua vista era privilegiada daquele ângulo.
Sim, dali era possível ver aquela garotinha humana e quem tomava conta dela. Até ficou em dúvida se atacava naquela hora ou não. Não, melhor mesmo deixar para depois.
Viu o mais alto levantar o pé e deixar aquela criatura esverdeada que sempre andava com a menina se arrastar pelo chão enquanto dizia algumas coisas que não conseguia entender dali. Maldita floresta, maldita audição modificada pela natureza sombria!
Prendeu a respiração quando viu o demônio parar de gritar impropérios contra o servo e olhar na mesma direção em que ele se encontrava. Pôde ver mesmo o olhar estreitado dele, tão típico e familiar. Por um momento, chegou a pensar que Sesshoumaru largaria tudo e iria retalhá-lo ali mesmo, na frente de todos. Só então o viu baixar os olhos e continuar gritando contra o outro youkai. Talvez ele esteja também com os sentidos afetados, pensou.
A garota fez uma reverência a ele e deu as costas, indo embora... Quê?! Ela foi embora?! E sozinha? Ah, não, aquele outro youkai de duas cabeças foi atrás dela, o outro que apanhou continuava no chão.
Interessante. Para onde foi aquela humana sem Sesshoumaru?
Pela segunda vez num mesmo dia, Rin precisou olhar para os lados antes de deixar o haori escorregar pelo corpo e cair no chão. A única presença ali para protegê-la era Ah-Un, valentemente em frente à moita na qual ela se despia.
-Espero que não esteja bravo comigo, Ah-Un. – ela sussurrou apenas para a criatura ouvir – Acho que ia querer ir dormir, não servir de guardião pra uma menininha apavorada que nem eu, né?
Um das cabeças olhou por cima da moita enquanto a outra lambia uma pata. Achando graça naquilo, Rin afagou a cabeça e continuou se despindo.
Foi por culpa de Jaken que agora ela precisava tomar outro banho. Da outra vez, ela, assustada, não conseguiu se lavar direito e ainda se machucou arranhando as partes do corpo; depois nem quis continuar se lavando depois de viu Jaken espionando o local. Nojento, ela classificou aquilo.
Colocando a ponta do pé na água, ela teve vontade não de gritar, mas de agradecer a Jaken por achar uma terma apenas para ela. Claro que tinha sido por ordem de Sesshoumaru, mas ainda sim ele encontrou...
-Tão quentinha... – ela murmurou, mergulhando o corpo até o pescoço e fechando os olhos.
Encostou-se numa pedra e permitiu-se sorrir ao lembrar de um evento em especial: uma noite chuvosa, numa caverna, Sesshoumaru e ela juntos...
Mas a lembrança também trazia um certo ar de tristeza por conta da indiferença de Sesshoumaru.
São nesses momentos de silêncio que temos a chance de refletir em certas coisas que são caladas para nós. Outras, embora não sejam caladas, são tão difíceis de se entender que acabamos por querer esquecer delas para não nos irritarmos ou não ficarmos mais magoados.
Um galho quebrou próximo de onde estava e ela ficou momentaneamente alarmada. Ainda submersa, foi até à beirada da terma e ficou em pé, protegida por um arbusto. Ah-Un estava de costas para ela, protetoramente vigilante, sentado sob as patas traseiras enquanto cada cabeça se ocupada de observar um lado.
Voltando à posição anterior, ela apoiou as costas contra a pedra e inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos. A testa apoiava um braço e a respiração calma podia ser claramente ouvida.
Para a felicidade de Rin, não era ainda possível para os demônios ler os pensamentos dos humanos. A vantagem era essa, o que facilitava a liberdade de pensamento dela. Poderia pensar quantas e quantas vezes quisesse no que acontecera no dia anterior e não receberia olhares reprovadores de Jaken e, principalmente, de Sesshoumaru.
Ergueu o braço esquerdo e começou a esfregá-lo, fazendo depois o mesmo com o direito. A água morna e o silêncio tornavam o momento muito agradável, e ela sentia uma tranqüilidade que há anos não experimentava.
Ficara minutos relaxando, e fitou as ondas circulares da terma. Estava na hora de voltar, infelizmente. Será que ficariam muito tempo naquele lugar? Tomara que sim. Tomar banho todos os dias ali seria uma ótima forma de descansar.
Ficou em pé, com a água batendo na cintura. À medida que avançava à beirada, a água revelava as curvas e ela rapidamente procurou por um pano para enxugar-se. Estava dobrado cuidadosamente em cima de outro quimono limpo. Pegou-o e levou-o ao rosto, dando instintivamente um bocejo.
Ao abrir os olhos, sentiu o coração parar.
-Feh!
Parado, em cima da pedra diretamente em frente a ela, um youkai de orelhas de cachorro e quimono cor de sangue estalava os dedos e a olhava com o ar zombeteiro.
Incapaz de se mover, ela sentiu uma garra tocar o queixo dela e o rosto ser erguido para encará-lo.
-Mais uma humana, né? – ele disse com ar meio vitorioso.
Mais que apavorada em ver um youkai com as feições humanas ali, era ver Sesshoumaru parado atrás dele erguendo aquela espada, pronto para atacá-lo. Ao sentir a presença atrás, o demônio de quimono vermelho afastou-se de Rin e deu um salto, defendendo ao mesmo tempo de um golpe de Sesshoumaru.
O primeiro ataque do lorde foi facilmente esquivado, o mesmo não acontecendo com o segundo. Sesshoumaru lançou o outro youkai tão longe e com tanta força que foi possível ouvir as árvores atingidas pelo golpe caírem uma sobre as outras a alguns metros dali. Não satisfeito com um ataque que quase abriu um vale no bosque, Sesshoumaru saltou atrás do inimigo, que reaparecera inteiro depois do ataque.
-RIIIN!! – Jaken apareceu correndo, e ao vê-la ainda sem roupa, tratou imediatamente de fechar os olhos e começou a correr cegamente em direção a ela, tropeçando numa pedra.
-Jaken! – ela havia esquecido completamente de vestir o quimono e tratou de corrigir a falta, correndo depois para ajudar o servo esverdeado – E-Ele... Eu... – o que dizer agora?
-Inuyasha tocou em você?
Uma outra árvore desabou e levantou poeira um pouco distante deles, mesmo assim a deixou assustada.
-"Inuyasha"? – ela repetiu e terminou de dar o nó do quimono e levou a mão ao coração – Eu fiquei sem voz, sem saber o que fazer... Ele só falou que eu era humana e...
-O irmão de lorde Sesshoumaru é muito perigoso! – Jaken avisou ao apontar o Bastão de Duas Cabeças em direção da humana – Sabe-se lá o que aconteceria com você se Sesshoumaru-sama não tivesse aparecido.
A nova informação foi processada lentamente. Quando ela finalmente entendeu, a voz saiu num sussurro:
-"Irmão"? – falou assustada – Mas... como é possível?
