Os personagens de Saint Seiya pertencem ao tio Kurumada. Se fossem meus, o negócio se chamaria Saint Shiryu. Não ganho nada com minhas fics.

INESPERADO

Chiisana Hana

"E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse
Que a força esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente
Eu chegasse ao fundo do fim
De volta ao começo"(1)

Capítulo X

No dia da primeira audiência do processo que Shiryu moveu contra Eiri e a emissora, ele e Shunrei aguardavam no corredor do fórum, quando a repórter aproximou-se com um sorrisinho debochado.

– Como vai, Shunrei? – Eiri cumprimentou, ainda com o sorrisinho que Shunrei julgou totalmente desnecessário. Não queria estar ali, mas não teve alternativa. A loira usava um terninho cor-de-rosa e os cabelos estavam arrumados num coque frouxo, um visual que quase fez Shunrei perguntar se Eiri ia fazer um teste para a refilmagem de "Legalmente Loira".

– Ah, Eiri, me poupe, por favor – respondeu Shunrei, sentindo-se cansada.

– Eu não sei o porquê de tanto escândalo – a loira continuou. – Eu só estava fazendo o meu trabalho, gente.

– Você invadiu a minha casa –Shiryu corrigiu.

– Só usei um drone pra sobrevoar o jardim! O que tem demais nisso?

– E você acha pouco? – perguntou Shunrei. – E não foi só isso. Você inventou mentiras sobre nós.

– Só aumentei um pouquinho. Faz parte. E, no final das contas, vocês estão mesmo praticamente casados que eu sei. Uma fonte me disse que você até já se mudou para a casa dele.

Diante da expressão de incredulidade do casal, Eiri se retirou com um tchauzinho tão cínico quanto o sorriso e foi para junto de seu advogado.

– Bom, ela é inescrupulosa, mas é bem bonita – suspirou Hyoga, que acabara de chegar com Shun. Os dois tinham sido arrolados como testemunha por Shiryu.

– Pelo amor de Deus, Hyoga! – protestou Shiryu.

– O que é? Ela é bonita mesmo!

– Sou obrigado a concordar – Shun disse, o que fez Shiryu e Shunrei revirarem os olhos.

Depois de uma longa audiência, Eiri e a emissora de TV acabaram aceitando fazer um acordo com o advogado de Shiryu no qual ele encerraria o processo mediante uma indenização razoável e a promessa de não haver mais invasão de sua privacidade e de não ser veiculada qualquer notícia sobre sua vida pessoal.

– Tão rico e ainda quer mais dinheiro... – provocou Eiri depois de sair da sala.

Shiryu deu de ombros. Não ia ficar com nenhum centavo, pois pretendia doar tudo ao orfanato de Mino, mas não daria nenhum tipo de explicação a Eiri.

– Ainda bem que acabou – Shunrei suspirou quando finalmente entraram no carro.

– Sim – Shiryu disse e afagou a esposa. – E tomara que ela aprenda.

– Disso eu duvido...

Meses depois...

Quando estavam em casa, Shiryu e Shunrei passavam bastante tempo juntos no escritório, que era uma versão maior e mais moderna do cantinho de leitura com o qual ela sonhava. O cômodo era amplo, claro, com pé direito muito alto e estantes que iam do chão ao teto. A mesa de trabalho de Shiryu era grande, larga e de madeira escura. Sofás confortáveis, objetos de arte e o tapete mais fofo que ela já vira completavam o ambiente. A parede externa era de vidro como a garagem, mas abria-se para uma varanda que dava para o jardim. Shunrei achou que faltava cor no lugar, já que era todo branco, e logo providenciou almofadas e mantas coloridas. Logo o escritório tornou-se seu cantinho preferido da casa.

– É o seu livro? – Shiryu perguntou certo dia, ao ver Shunrei compenetrada, digitando freneticamente no notebook. Vez ou outra parava, ficava pensativa, depois retomava a digitação.

– Sim, é o meu livro – ela respondeu. – Enquanto não arrumo emprego, estou tentando terminá-lo.

– Por que não faz disso a sua profissão? – sugeriu ele.

– Escrever? – surpreendeu-se ela.

– É. Por que não se dedica a isso, já que é algo que gosta de fazer?

– É só um hobby, amor. Eu não sei se sou boa o suficiente para transformar em trabalho.

– Deixa eu ver? – ele perguntou, largando os papeis em cima da mesa e aproximando-se dela. Shunrei consentiu e entregou o notebook a ele. Depois de vários minutos lendo, ele declarou:

– Acho que pode sair algo muito interessante daqui. É intenso.

– Ainda estou aprendendo e, você sabe, o mercado literário não é uma coisa muito fácil.

– Termine-o. Aproveite essa oportunidade que a vida te deu e dedique-se somente a isso. Quando estiver pronto, me avise. Tenho um amigo editor. Quem sabe ele não se interessa e lança?

– Pensei que você ia sugerir pagar para isso...

– Eu já conheço você o suficiente para saber que recusaria.

Com o começo do campeonato de motocross, Shunrei passou a acompanhar Shiryu nas viagens. Já tinha ido com ele para as etapas na Espanha, em Atenas e nos Emirados Árabes. Era indiscutível o conforto e a praticidade de viajar no avião particular dele e ela sempre podia usar o tempo livre para continuar o livro. Agora estava até achando bom não ter um emprego. Nesses meses tinham surgido algumas oportunidades de trabalho na TV, mas ela as dispensou.

Entretanto, na etapa Alemã do campeonato as coisas não saíram tão bem. No último salto, Shiryu cometeu um erro e não conseguiu executar uma manobra, despencando de uma altura de dez metros. Shunrei quis correr até ele, mas foi contida por Seiya. Apreensiva, viu os médicos entrarem na arena e retirarem Shiryu, que continuava desacordado. Ela e Seiya correram até os bastidores e viram quando ele foi colocado na ambulância e levado ao hospital.

– Eu falei que você não ia ganhar esse ano! – Ikki tripudiou no dia seguinte, quando foi visitar Shiryu no hospital, acompanhado de Shun, Seiya e Hyoga. O milionário quebrara a clavícula e o braço esquerdos, além de algumas costelas, e ficaria um bom tempo de molho.

– Isso não é hora para brincadeiras desse tipo – censurou Shun.

– Não seja chato, Shun – Ikki rebateu.

– Tudo bem – Shiryu respondeu. – Não se pode ter tudo. Ano passado eu ganhei o título e coisa melhor: a Shunrei.

Ela estava ao lado dele e deu-lhe um beijo na testa.

– E aí, agora que ele se quebrou todo está pensando em pedir para o Shiryu parar de saltar? –Ikki provocou-a. Ela aprendera a lidar com o humor dele e essas provocações já tinham virado uma piada entre os dois.

– Eu admito que já pensei nisso muitas vezes e agora... Quando ele caiu e ficou no chão, imóvel, eu pensei no pior e disse que se ele estivesse bem ia fazê-lo largar essas loucuras.

– Eu sou duro na queda – ele disse rindo.

– Felizmente não foi tão grave quanto parecia – ela continuou. – E apesar desse acidente, não penso em pedir para ele parar. Eu sei que isso é o que ele ama fazer. Ele não seria feliz sem sua dose de adrenalina.

– É – ele admitiu. – Mas agora vou ter que ficar um bom tempo sem ela. Acho que vou ajudar alguém no livro para garantir minha dose de adrenalina diária.

– Mas e esse livro da Shunrei tem ação? – perguntou Seiya em tom de deboche.

– É um excelente thriller cheio de cenas de ação – Shiryu respondeu.

– Assim que estiver pronto, vocês serão os primeiros leitores – Shunrei disse.

– Achei que você estava escrevendo um romance açucarado – disse Ikki.

– Está bem longe disso! – Shunrei declarou, encarando as expressões de surpresa.

– Tá, por essa eu não esperava, Shunrei – Hyoga disse.

– Tem morte? – Ikki perguntou. Shunrei riu e respondeu:

– Você quer dizer "tem morte brutal, sangue esguichando nas paredes, desmembramento de corpos"? Sim, tem.

– Então você desistiu mesmo de ser repórter? – indagou Shun.

– Agora eu quero ser uma boa escritora – ela respondeu. – Às vezes a vida nos surpreende com novos sonhos, novos planos, totalmente diferentes do que a gente achava que queria. Estou envolvida com o livro e ansiosa para terminá-lo. Sou grata pelo tempo que passei na TV, especialmente por ter sido enviada ao evento de motocross, porque sem ele eu não estaria aqui, com meu lindo marido de costelas quebradas, mas agora chega. Vou ficar apenas escrevendo, mesmo que não dê certo.

Ela voltou-se amorosamente para Shiryu e fez um carinho no rosto dele.

– Apesar de a vida com Shiryu ter sempre algum sobressalto – ela prosseguiu –, alguma coisa inesperada, como esse acidente é inegavelmente maravilhosa.

– Ela até já se acostumou a andar de moto comigo – ele disse.

– Posso dizer que até gosto um pouquinho, desde que não vá muito rápido.

– Estávamos planejando cruzar o país de moto depois do campeonato – ele disse. – Mas agora que eu estou desse jeito...

– Podemos fazer a viagem de carro – ela completou. – E eu dirijo.

Um ano depois...

– "Máscara da Morte", livro de estreia de Shunrei Suiyama, foi lançado essa semana e já é considerado pelos críticos como o melhor livro do ano. A trama ágil e bem amarrada levou a autora a ser cotada como a favorita para o prêmio de revelação da literatura. Conseguimos uma entrevista exclusiva com a autora aqui na noite de autógrafos. Olá, Shunrei! Conte-nos, de onde veio a inspiração para escrever esse livro brutal onde a sua heroína enfrenta um serial killer que coleciona as cabeças da vítima?

– Bom, Eiri, eu tinha essa vontade de escrever há muito tempo – Shunrei começou a responder, procurando não parecer irritada e muito menos revelar que se inspirara vagamente no ex-marido. Aceitara dar a entrevista ao jornal da noite, aquele que um dia sonhara ser âncora, só não esperava que fosse Eiri a entrevistadora. – Mas era apenas um hobby, até que decidi levar a sério e encarar como uma possibilidade real.

– O livro já é cotado para vencedor do prêmio de melhor do ano e você para autora revelação. Como se sente?

– Estou tentando não pensar muito nisso. Apenas espero que os leitores apreciem e se envolvam na trama.

– Tem planos para novos livros?

– Sim, estou trabalhando na sequência de "Máscara da Morte", ao mesmo tempo em que finalizo um livro sobre a viagem que fiz com meu esposo cruzando o Japão de automóvel.

– Ah, sim! – o sorriso de Eiri iluminou-se e Shunrei viu o espírito de fofoqueira sobressair-se. – Como tem sido a vida com Shiryu Suiyama, o milionário excêntrico que também é piloto de motocross.

– Excelente – Shunrei respondeu laconicamente, e resolveu não dar chance a Eiri. Sempre sorrindo, começou a discorrer sobre o que queria, não deixando a repórter falar mais nada. – Sobre a viagem, passamos alguns meses cruzando o Japão. Foi uma experiência incrível para mim, que sou chinesa e só conhecia Tóquio. Queria aprofundar meu conhecimento nesse país que tanto amo. Então surgiu a ideia. Fui tomando notas durante o trajeto para transformar a experiência num livro. Será minha homenagem ao Japão. Tivemos dias fabulosos e conhecemos pessoas incríveis no caminho. E também tive muitas ideias para futuros livros, mas agora devo focar neste, que ficará pronto em alguns meses, e, como disse antes, na sequência de "Máscara da Morte". Então é isso. Agradeço imensamente sua presença aqui, mas se me permite, preciso encerrar a entrevista e voltar para os meus leitores. A fila para os autógrafos já está ficando um pouco grande, não é mesmo?

Eiri foi obrigada a concordar e agradecer, encerrando ali a entrevista. Depois de ter certeza que a câmera foi desligada, Shunrei não resistiu a uma provocação.

– Você deixou aquele programa tosco e inútil mas ele não saiu de você, hein, Eiri?

– É a força do hábito – respondeu a loura. – Mas logo deixarei isso de lado. Agora estou no jornal da noite, por enquanto, como repórter, mas chegarei a ser âncora, pode apostar.

Shunrei riu ao lembrar-se de que um dia fora o seu sonho. "Pode ficar com a bancada do jornal", pensou. "Eu não quero mais mesmo."

– Espero que consiga – ela disse.

– Se Deus quiser! E sobre tudo aquilo, você sabe, eu estava fazendo o meu trabalho. É que eu sempre fui assim, ousada.

– É, eu sei – Shunrei disse, encerrando o assunto e caminhando em direção à mesa onde recebia os leitores.

Eiri ia saindo com o câmera quando esbarrou num convidado que chegava.

– Melhor olhar por onde anda – o rapaz de cabelos louros disse, antes de perceber quem era. – Ah, você? Eiri, não é? A repórter do programa de fofocas.

– Não mais, meu querido! – ela respondeu, balançando o microfone. – E você é o amigo bonitão do milionário, não? Hyoga Yukida. Nunca esqueço um rosto, muito menos um nome.

–"Bonitão"? – surpreendeu-se Hyoga. – Acha mesmo?

– Claro que acho! Me liga – ela disse e deu a ele um cartão.

Ao longe, Shunrei e Shiryu observavam a cena.

– Parece que a "nossa amiga" está atacando o Hyoga... – Shunrei disse.

– Parece que ele está gostando ser atacado riu Shiryu. – Vamos lá, seus leitores aguardam, revelação do ano!

– Ainda não ganhei o prêmio, Shiryu.

– Aposto que vai ganhar – ele disse, e afastou-se um pouco, deixando-a livre para receber seus leitores.

Quase ao final da noite, ela recebeu um leitor inesperado.

– A camponesinha virou escritora de um thriller sangrento – disse uma voz jocosa que ela reconheceu no ato. – Quem diria?

Shunrei levantou o olhar.

– Olá, Emanuele – cumprimentou, olhando-o nos olhos de forma altiva.

Ele reparou que ela usava um vestido caro de seda, os cabelos estavam arrumados num coque e também usava brincos e aneis que certamente custavam uma fortuna.

– Está bonita, Shunrei.

– Obrigada – ela respondeu secamente. Pensou em dispensá-lo sem autografar o livro, mas resolveu que queria tripudiar um pouco e chamou Shiryu. – Este é o Shiryu, meu esposo.

Shiryu cumprimentou o italiano com um aperto de mãos mais forte que o necessário. Enquanto isso, ela começou a escrever no livro.

– Hum... então se casou de novo? – Emanuele perguntou.

– Na verdade, foi a primeira vez já que a anterior não valeu – ela disse.

– É, essas coisas acontecem... – ele começou a dizer, mas foi interrompido por ela.

– Essas coisas acontecem quando a gente se mete com homem cafajeste – ela disse. – Felizmente eu aprendi e não cometo mais esse tipo de erro.

– Hum... Pelas joias que está usando, você acertou em cheio foi no dinheiro. O que o seu marido faz?

– Eu faço várias coisas – Shiryu respondeu. Shunrei abaixou a cabeça e começou a escrever no livro de Emanuele.

– Trouxe um vinho para presenteá-la – disse o ex-marido.

– Vamos aceitar por educação – Shiryu disse, pegando a garrafa –, mas não gostamos de vinho italiano. Preferimos os franceses.

– Devia experimentar mulheres italianas – provocou Emanuele. – Muito melhores.

– Prefiro as camponesas chinesas – disse, abraçando Shunrei. Ela fechou o livro e o entregou a Emanuele com um olhar de desprezo.

– Próximo da fila, por favor – disse, dispensando-o e atendendo gentilmente o leitor seguinte. – Ah, você quer uma foto? Tudo bem, vamos tirar.

O ex-marido afastou-se sob o olhar atento de Shiryu. Tinha visto os cartazes anunciando o livro de estreia de Shunrei e pensou que era uma sorte estar na Ásia na mesma época. Não podia perder a chance de revê-la. E provocá-la. Mas as coisas não tinham saído exatamente como ele planejara. Abriu o livro para ver o autógrafo.

"Esperava ver meu olhar de medo, não é?

Esperava que eu tremesse ao vê-lo, não é?

Surpreendeu-se ao deparar-se com o inesperado?

Pois é...

Aquela Shunrei ficou no meio de uma curva do passado.

Essa nova Shunrei renasceu das cinzas daquela.

Não vou dizer que espero que goste do meu livro,

Porque duvido que passe do primeiro capítulo.

Eu sei que você não é do tipo que lê...

Infelizmente...

Porque ler o ajudaria a melhorar seu vocabulário pobre.

Faça bom proveito da sua vidinha medíocre, Emanuele.

Shunrei SUIYAMA."

FIM

(1) (1) De Volta Ao Começo, Gonzaguinha

Oi, povo!

Hoje é o dia do aniversário da Shunrei!

Eu adoraria ter uma fic nova para postar, mas não consegui terminar nenhuma. O que deu pra fazer foi terminar o último capítulo dessa fic. Já estava quase pronto, faltavam apenas alguns detalhes, então deu certo!

Geralmente termino o capítulo, deixo de lado e reviso no dia seguinte. Dessa vez vai pro ar assim mesmo para não perder a data! ;)

Então é isso! Ainda vai rolar um epílogo (não me perguntem quando) e, talvez, outras fics nesse universo.

Obrigada a todos que acompanharam essa história!

Até mais!