Oi, oi gente! Bora ler mais um capítulo?

Mary Snape: Mistério... Pode deixar, vou demorar um pouco entre uma postagem e outra, mas não deixarei de atualizar ^^

Sandra Longbottom: Seja muito bem vida. Aproveite o próximo capítulo ^^

Lembre-se, comentar nunca é demais!

Bjs e uma boa leitura!


Alguns dias mais tarde, Hermione resolveu perguntar a Snape algo que a preocupava.

— Devo anunciar nos jornais de Londres a fim de obter uma boa equipe de empregados para o orfanato?

Severus pareceu pensar um momento.

— Bem, se deseja um tutor, será necessário fazer isso, mas não creio que precise de um. Entretanto, o resto da equipe pode ser encontrada aqui.

— Mas eu não conheço ninguém...

— Não se preocupe. Fale com a Sra. Weasley e receberá mais candidatos do que poderá entrevistar. E, é claro, Graham ajudará também. Enviará qualquer anúncio que deseje ver publicado em Londres. Quanto a mim, estarei ocupado com as reformas da Mansão Shrieking Shack.

Os conselhos de Severus deram certo. A cada novo dia, uma mulher diferente se apresentava em Wulfdale para se candidatar a superintendente do novo orfanato, e vários agricultores, para o cargo de administrador da propriedade. Hermione estava contente porque, enquanto selecionava, ia conhecendo as pessoas da região.

Entre as entrevistas para os empregos e a preparação da festa que dariam em Wulfdale, não tinha um minuto para se entediar.

Fez infindáveis listas com Graham, que despachou os anúncios e os convites.

*.*.*.*.*

Certo dia, quando a castanha e Severus conversavam sobre os progressos do orfanato, Sr. Weasley surgiu à porta para anunciar a visita de Helen e Evan Rosier.

— Que bom revê-los! — exclamou Hermione, estendendo as mãos para a cunhada e recebendo um beijo no rosto — Quando chegaram a Yorkshire?

— Alguns dias atrás. Evan me acompanhou — a castanha comentou consigo mesma que devia haver algo mais profundo que amizade entre a irmã de Caldbeck e Rosier.

O conde estendeu a mão para Evan, que se recusou a apertá-la, revelando uma bandagem.

— Desculpe, mas tive um problema com o atiçador da lareira.

— De novo? Está sempre se queimando — comentou Severus. E o amigo riu e aceitou um cálice de vinho.

— Nunca irá me deixar em paz com essa história, não é? — Evan voltou-se para Hermione — Quando éramos garotos de escola, certa vez quase incendiei o dormitório. Estava brincando de atear fogo em papel rasgado, e uma brasa caiu sobre o tapete — fitou Snape — Mas, respondendo a sua pergunta, dessa vez não tive culpa, e o tapete em frente à lareira pegou fogo também.

— Teve sorte. Houve um incêndio em Wulfdale há poucos dias, e a moradora de um chalé faleceu.

Helen balançou a cabeça com tristeza.

— Ouvimos essa história. Leila Creevey trabalhava aqui na mansão quando eu era menina. Lembro-me que era muito alegre e bonita. Coitada! Ficar viúva e depois perder a própria vida, deixando os filhos sozinhos!

Evan aquiesceu com um gesto de cabeça.

— Sim, também me recordo de Leila. Uma moça muito agradável — deu de ombros — É tudo muito triste. O que acontecerá às crianças?

— Irão viver no orfanato que estou construindo — respondeu a castanha com uma ponta de orgulho.

Rosier sorriu.

— Ouvi dizer que compraram a Mansão Shrieking Shack.

— Sim — Severus depositou seu copo sobre a mesa — Hermione irá administrar o orfanato e a fazenda, que fornecerá alimento para as crianças. Providenciarei um rebanho de ovelhas e um pomar.

— Também estou à procura de uma propriedade para comprar — anunciou Helen.

— Verdade?

Como sempre, a voz de Snape soou calma e sem emoção, entretanto a castanha começava a perceber as ligeiras nuanças de tom e sentiu que o comunicado o deixara alerta, prestando toda a atenção na irmã.

— Sim. Não desejo mais morar na casa que herdei de Bole.

Helen relanceou um olhar para Evan e baixou os olhos. Severus fitava-a de modo intenso.

— Dominick está sendo desagradável?

— Sempre é, mas nos últimos tempos ele... bebe demais, e eu...

— Está com medo — cortou Caldbeck em tom amargo. Evan fez um gesto de impaciência.

— Helen não precisa ter medo, nem comprar... — interrompeu-se e tomou um gole de vinho.

— Desculpe a intromissão — disse Hermione — mas quem é Dominick?

Helen sorriu.

— Que indelicado de nossa parte! Desculpe. Dominick é meu enteado, o atual conde de Bole. Não... nos damos muito bem.

A castanha nada disse, surpresa por tomar conhecimento da viuvez da cunhada. Na verdade, até o momento pouco sabia sobre sua vida. Evan interrompeu seus pensamentos.

— Ninguém pode gostar daquele rapaz insolente! O pai o mimou de modo exagerado, e aos vinte e dois anos é um bêbado, malcriado e cruel.

Helen fez um gesto conformado.

— É verdade. Passei muitos anos tentando compreendê-lo. Desejava ser uma boa mãe, porém era muito jovem na ocasião. Dominick precisava de alguém mais experiente.

Rosier começou a caminhar de um lado para outro da sala.

— Quando vai parar de se culpar? Sim, era de fato muito jovem quando casou, e o pai do rapaz fez tudo para estragá-lo.

A morena esboçou seu lindo sorriso outra vez.

— Não me culpo, Evan. Só lamento que Dominick seja do jeito que é. E também não culpo seu pai, porque não sabia o que fazia. Morria de medo de perder o menino, como havia perdido os outros filhos.

Rosier parou de andar e a fitou com carinho.

— Seus filhos também, Helen.

— Quero esquecer isso — assim dizendo, A morena voltou-se para Hermione — Peço perdão por não ter contado tudo isso para você antes, mas o meu passado é triste — mudou de assunto — Recebi o convite para a sua festa. Deseja ajuda? — antes que a castanha tivesse tempo de responder, Severus ergueu uma mão e voltou-se para Evan.

— É melhor nós dois deixarmos as duas conversar sobre os detalhes da recepção. Vamos até o estábulo.

Os dois homens se retiraram, e Hermione virou-se para a cunhada.

— Seu irmão nunca deixa de me surpreender. Jamais sei quando está brincando ou falando sério. No início, eu o julgava frio e distante, mas mudei de opinião.

Helen riu.

— Severus sempre foi assim. Tinha oito anos quando mamãe faleceu, e eu, três. Dizem que não demonstrou nenhuma emoção. Mas é um grande provocador e gosta de brincar com as pessoas. Além disso, é muito bondoso e preocupado com o bem-estar do próximo.

— Tem razão — murmurou a castanha, recordando os braços protetores do marido.

A morena franziu a testa.

— Está acostumado a se responsabilizar pelos outros, e isso o faz parecer um tirano, de vez em quando. Tenho certeza de que carregou Evan para discutir meu problema com Dominick. Vai aconselhá-lo a se casar comigo e me livrar do meu enteado.

Hermione soltou uma risada.

— Severus gosta mesmo de comandar a vida dos outros. Aprecio a sua preocupação mas eu sempre fui muito independente. Meus tios, com quem morei muitos anos, não se importavam comigo.

— Sente-se ressentida? — perguntou a cunhada, encarando-a com atenção.

— Não, de fato. Bem... talvez um pouco. Porém Severus é tão atencioso...

— ...que você trata de não desobedecer as suas ordens — atalhou a morena, sorrindo — Meu irmão tem esse dom. As pessoas acabam aceitando seu domínio com prazer.

Hermione voltou a rir, embora no íntimo não concordasse totalmente com a afirmação.

— Creio que a adaptação faz parte do casamento — fitou a cunhada e murmurou — Não quer se casar com Evan?

Um breve silêncio se seguiu, e depois Helen respondeu.

— Não se trata disso. De certa forma, gostaria, mas também sou independente. Casei-me tão cedo que hoje prezo muito ser dona do meu nariz.

— Foi infeliz no casamento?

Mal fez a pergunta, arrependeu-se. Estava sendo muito indiscreta. Entretanto ela não pareceu se importar.

— Não, lorde Bole me tratava muito bem. É claro que eu não o amava quando nos casamos. Papai já não estava bem e desejava me ver amparada. Meu marido era vinte anos mais velho que eu, porém acabei por amá-lo. Sofri dois abortos, assim como sua primeira esposa, que só conseguiu ter Dominick. Evan acha que existe uma fraqueza hereditária no sangue dos Bole.

— Lamento muito, Helen. Deve ter sofrido.

— Sim, mas creio que lorde Bole sofreu mais, e é por isso que estragou o filho único com mimos.

Em seguida, a conversa foi desviada para assuntos mais leves e, meia hora depois, Evan regressou à sala e despediu-se com Helen. Severus foi cuidar de seus afazeres, e Hermione viu-se sozinha a meditar sobre o encontro com a cunhada e suas revelações.

Por certo, no frigir dos ovos, a morena aceitaria Evan, refletiu a condessa de Caldbeck. Não era difícil ver que ele estava apaixonado, e a irmã de Severus o fitava com óbvia ternura. Concluiu que seu casamento e o de Helen tinham algo em comum. Ambas haviam sido forçadas a aceitar os maridos, entretanto a cunhada aprendera a amar o seu.

Ante essa constatação, analisou os próprios sentimentos. Sem dúvida havia mudado desde que se casara, mas amaria Severus? Essa palavra nunca fora dita entre os dois. Ela o apreciava por sua bondade e atenção, mas continuava irritada pelo fato de ter sido compelida ao casamento, sem mesmo uma corte apropriada.

Além disso, o conde tinha a enervante mania de protegê-la como se ela fosse uma criança, entretanto, sem dúvida, existia uma atração sexual muito forte entre ambos. Seria isso o prenúncio do amor?

Lembrou também que sentia sua falta quando ele se ausentava para suas responsabilidades diárias. Seria isso sinal de um afeto maior ou apenas o resultado de sua solidão?

Hermione precisou admitir que não sabia responder a essas perguntas.

*.*

O vento agitava seus cabelos, mas ele não sentia o frio nem a chuva que o fustigavam. Sua necessidade de se misturar ao negrume da noite continuava. Pelo menos iniciara seu trabalho! E a sensação era muito agradável. Ela o recebera, até ver o brilho em seu olhar, e percebera qual seria seu destino. Então sentira medo e tentara lutar... em vão.

Ele a forçara a se purificar por meio do fogo, mas o mal continuava, desafiando-o de modo arrogante. A impureza precisava ser detida e exterminada para sempre.

*.*

Uma vez iniciada, a reforma da velha mansão transcorreu bem depressa. Algumas semanas mais tarde, durante o almoço, Hermione anunciou para Severus suas escolhas de empregados.

— Escolhi o Sr. Whitby para administrar a fazenda, e a Sra. Giggleswick para ser a superintendente do orfanato. Graham sugeriu seu irmão mais velho, Thomas, para ocupar o cargo de tutor. Disse-me que no momento está livre, já que seu último pupilo foi estudar em Eton — Severus ergueu o rosto do prato e concordou.

— Whitby é uma boa escolha. Valorizou muito suas próprias terras, e é um fazendeiro capaz.

— Sim, foi a impressão que me deu — a castanha sorriu com satisfação — Tem a aparência de um avozinho. As crianças irão adorá-lo.

— E se de fato deseja um tutor, Thomas Pritchard será ótimo — Caldbeck bebericou o chá — Já o conheço. Um rapaz muito simpático e, segundo lembro, excelente estudante. A única preocupação que tenho é com a Sra. Giggleswick. Foi ferida em um acidente há vários anos, e manca.

— Não se nota muito — defendeu-a Hermione, ansiosa por valorizar sua escolha. Dessa vez o marido não iria impor sua vontade! — Seu defeito físico não é um problema.

— Mas será que conseguirá fazer seu trabalho bem? É preciso ser ágil e rápida para supervisionar crianças, e sua perna nunca voltou a ficar perfeita. Teria preferido que escolhesse a Sra. Clapham. Ela sim é qualificada para o cargo.

Então o conde andara se interessando pela lista dos candidatos! E prometera deixar tudo a seu cargo, refletiu. Será que pensava poder supervisionar tudo? Ergueu o queixo em um gesto de teimosia.

— Ela não é tão bondosa com as crianças quanto a Sra. Giggleswick. Não gostei de Clapham. — Severus analisou o rosto contrafeito da esposa por alguns instantes.

— Compreendo. Talvez tenha razão. Se acha que as responsabilidades do posto não serão demais para a Sra. Giggleswick...

— Claro que não! Ela me contou que tomou conta da sua casa e de crianças por muitos anos, após o acidente. Agora que todas cresceram e que seu marido faleceu, precisa se ocupar com alguma coisa e ter alguém de quem cuidar. Tenho certeza de que será uma excelente superintendente.

— Faça como achar melhor — Severus terminou o chá e levantou-se — Gostaria de cavalgar até a Mansão Shrieking Shack e vistoriar a reforma comigo?

Surpresa por ver que o marido dera o braço a torcer com tanta facilidade, Hermione gaguejou:

— Si-sim, é claro. Adoraria.

— Ótimo. Vá se preparar.

Enquanto subia para vestir a roupa de montaria, a castanha ponderou sobre a mudança no lorde. Tivera certeza de que iria lhe lançar um de seus olhares gelados, mas isso não acontecera. Detestava quando o marido adotava sua expressão de superioridade! Aqueles olhos negros tinham o poder de deixá-la assustada quando queriam.

Entretanto ele acatara sua decisão. Hermione soltou uma risada e correu para cima.

*.*.*.*.*

Um cenário de muita atividade os saudou ao chegarem à velha mansão. Homens martelavam, pintavam e caiavam, rindo entre si enquanto trabalhavam. Uma mulher gorducha, de quatro, sobre o assoalho da sala principal, esfregava as tábuas com força. Ao ver o lorde e sua esposa, levantou-se, ajeitou os cabelos louros e fez uma reverência.

— Lady Caldbeck — apresentou Severus — Esta é a Sra. Ribble, encarregada da limpeza das acomodações.

— Bem-vinda, milady — disse a mulher, com um sorriso agradável — O que acha?

Fez um gesto amplo em volta da sala espaçosa.

— Vai ficar maravilhoso! — cumprimentou a castanha.

— Vou limpar a próxima sala ainda hoje, antes que escureça.

Hermione acompanhou-lhe o olhar, porém não soube a qual porta ela se referia. A Sra. Ribble era bastante estrábica.

Sem desejar constranger a mulher, a castanha perguntou:

— Deseja continuar ajudando a Sra. Giggleswick quando o orfanato começar a funcionar?

— Se assim quiser, milady. Gosto dos pequeninos, embora o bom Deus não tenha permitido que eu tivesse filhos — A Sra. Ribble suspirou — É triste, mas quando essas coisas acontecem, o melhor é se conformar.

Com gesto impulsivo, Hermione deu uma palmadinha no braço roliço da ajudante.

— Tenho certeza de que será uma ótima aquisição para o orfanato.

A senhora sorriu-lhe com satisfação, ou, pelo menos, a castanha assim pensou. Com seus olhos estrábicos, tanto poderia estar olhando para ela como para alguém atrás.

Severus a chamou, e ela deixou a Sra. Ribble voltar aos seus afazeres.

— Esta será uma sala de aula? — perguntou o lorde quando a esposa se aproximou.

— Sim. É tão alegre e quente — respondeu, apontando para as janelas recém pintadas — A luminosidade é excelente — fez uma pausa, e logo prosseguiu — Milorde, creio que deveríamos deixar todas as crianças de Wulfdale frequentarem as aulas, e não apenas as que viverem no orfanato. Thomas pode muito bem ensinar para mais alunos.

Severus silenciou por uns momentos, e depois balançou a cabeça em dúvida.

— Os pais não permitirão. Precisam de muitas mãos na lavoura, para o serviço doméstico e as colheitas. A vida é muito dura para os arrendatários agrícolas, Mione. O trabalho não tem fim.

A castanha franziu a testa.

— Mas por certo os pais desejarão que seus filhos adquiram conhecimentos que os façam progredir na vida.

— Talvez, porém a sala de aula não significa isso para eles, e talvez tenham razão. Pense, Mione. Que oportunidades existem para essa gente, além de cuidar da terra?

A expressão de Hermione era de teimosia.

— Por certo existirão oportunidades para arrendatários agrícolas educados. Poderão ser auxiliares administrativos, ou...

— Ou o quê? São poucos os empregos. Eu e mais uns dois proprietários de terras poderemos contratar alguns, mas precisamos de gente na lavoura. A maioria dos empregos para os que estudarem estarão localizados nas grandes cidades, e as pessoas das fazendas não gostam das metrópoles — fitou a esposa com atenção — Sabe muito bem como vivem os pobres de Londres. E quanto às moças? Não poderão trabalhar em escritórios. Não, Mione, é impossível concordar com a sua ideia.

— Mas... as meninas poderão ser governantas, como a Sra. Weasley.

— Talvez, porém é pouco provável. Em sua maioria elas se tornarão esposas e mães, como acontece há muito tempo, em todas as gerações — Severus colocou a mão no ombro da esposa e a fitou com carinho — É uma mulher boa e generosa, Mione, mas não pode mudar certas coisas.

Ela desvencilhou-se com gesto irritado.

— Não vejo por que não. As mulheres precisam ter meios para se sustentar, assim como os homens. Veja a minha situação, por exemplo. Fui obrigada a me casar!

Assim que pronunciou as palavras, arrependeu-se. O conde não alterou a expressão facial, mas algo mudara em seu olhar. Hermione tratou de consertar o erro, e segurou-o pela manga do paletó.

— Não foi isso que eu quis dizer. Tive sorte de ser escolhida por você. Outras mulheres não teriam tal oportunidade.

Snape a fitou por mais alguns instantes, e depois ofereceu-lhe o braço, murmurando:

— Tem razão, não teriam — mudou de assunto — Disseram-me que Whitby está no curral. Vou até lá conversar com ele.

Caminharam em silêncio, Caldbeck sempre controlado, e Hermione aborrecida com a atitude polida do marido e com sua própria irreflexão. Suspirou. O casamento era mesmo uma estrada tortuosa.

Ao se aproximarem do curral, a castanha viu uma figura trotando.

— Quem é? — perguntou ao marido.

— Parece que terá o prazer de conhecer o conde de Bole.

Ela o fitou de modo rápido, a fim de ver se falara com sarcasmo, porém o rosto do moreno continuava impenetrável como sempre.

— Caso esteja se referindo ao enteado de Helen, posso muito bem passar sem esse prazer.

— É claro que sim, mas não temos escolha.

Severus esperou que o cavaleiro alto e moreno apeasse junto ao curral. O rosto do jovem parecia o de um falcão e denotava sinais de uma vida desregrada.

Ele se aproximou, conduzindo o cavalo pelas rédeas, e fez uma reverência.

— Bom dia, Snape. Ouvi dizer que está gastando seu dinheiro com um punhado de órfãos. Não o julgava um bom samaritano. Porém posso ver que os comentários sobre a beleza de sua esposa são verdadeiros. Quer me apresentar?

Severus aquiesceu com frieza.

— Hermione, apresento-lhe o conde de Bole, Dominick.

Com relutância ela estendeu a mão, e o rapaz a beijou, demorando demais no cumprimento.

Quando viu que a condessa ficava corada de constrangimento, sorriu de modo maldoso e largou-lhe os dedos.

— Vejo que a tem escondido naquela fortaleza que chama de casa. É muito linda para ser exposta aos olhares do mundo... apesar desse tom de castanho de seus cabelos.

Ela enrijeceu, mas Severus não mordeu a isca da provocação.

— Está há muito tempo em Yorkshire, Dominick? Pensei que preferisse Londres.

— Fui forçado a voltar. Para encher os bolsos de novo.

— Ah! As corridas. Então pretende se tornar um senhor rural? Vai ficar aqui por muito tempo?

— Espero que não. Lugar horrível para morar! — Hermione, que ficara muda ante tanta rudeza, analisou o rosto do rapaz. Muitas cicatrizes marcavam as feições depravadas.

— O que houve com o seu rosto? — perguntou à queima-roupa.

— Mulher estúpida! — rosnou Dominick.

A castanha piscou diversas vezes, sem acreditar no que ouvira, entretanto Snape se antecipou.

— Como não posso conceber que tenha se dirigido a lady Caldbeck, presumo que falou, de outra pessoa, correto?

— Sim, uma moça perto do vilarejo.

— Exigiu dinheiro ou não quis conceder seus favores a você?

Apesar de falar com tranquilidade, percebia-se o desprezo na voz do conde de Caldbeck.

— Sim, estava se fazendo de difícil — respondeu Dominick, sem dar a perceber que notara a ironia — Mas eu lhe deixei algo que a fará refletir. Levará muito tempo antes que atraia o olhar de outro homem.

A raiva quase sufocou Hermione.

— Quer dizer que... ela o recusou, e você...

Parou de falar ao sentir o braço do marido apertando-lhe a cintura.

— Não creio que esta conversa seja adequada para os ouvidos de minha esposa, Bole. Pretendemos regressar a Wulfdale antes que escureça.

— De fato, não podemos ofender sua sensibilidade, não é mesmo? — Dominick sorriu com pouco caso — Tudo bem. Estou morrendo de sede e irei à taverna — fez um cumprimento irônico para a castanha — Foi um prazer, lady Caldbeck. Sou seu criado, Severus.

Voltou a montar e partiu.

Hermione virou-se para o conde, o olhar brilhando de raiva.

— Será que entendi bem? Abordou uma jovem, e quando ela o recusou, espancou-a ou... algo assim?

— Isso mesmo. O comportamento vil com as mulheres é apenas um dos traços do caráter dele.

— Não pode fazer alguma coisa para impedir esse comportamento?

— Não, a não ser que um dos meus inquilinos venha se queixar a seu respeito. Mas um dia Dominick irá longe demais e pagará por seus atos.

— Como consegue tolerá-lo?

Severus segurou-lhe a mão e murmurou:

— Faço muita força.

A castanha deixou-se guiar até as montarias.

— Bem, Graham enviou-lhe um convite para a nossa festa, e pedirei que mande um bilhete, cancelando!

— Não fará isso, Mione.

Ela estacou e pôs as mãos nos quadris.

— Como não?

— Embora deteste tê-lo em minha casa, é um vizinho e parente.

— Então deverei tolerar suas grosserias? — a expressão de Hermione era sombria — Creio que não conseguirei.

Com gentileza, Snape a fez continuar a andar, e prosseguiu, como se não tivesse sido interrompido.

— Também não quero que atraia sua animosidade. Dominick pode ser muito vingativo, Mione.

— Com certeza não iria...

— Embora goste de pensar que minha presença o deteria, não se pode prever o que fará quando bebe. Já percebeu que o cavalheirismo não faz parte de suas qualidades.

— Nem as boas maneiras! "Apesar desse tom de castanho de seus cabelos!" — a castanha imitou a fala de Bole — Que audácia! E mencionou a tal moça como se não fosse ninguém!

— E verdade. Dominick só se importa com os seus desejos. Mas não se preocupe muito com isso. É provável que não compareça à festa, pois considera os encontros sociais um aborrecimento. Entretanto se mandar avisar que não é bem-vindo, fará questão de vir, e serei forçado a expulsá-lo — fitou a esposa com seriedade — Um transtorno para minha irmã e um escândalo para nós, anfitriões.

— E isso é tudo?

— Pelo momento, sim.

O conde de Caldbeck terminara a discussão.