Capítulo IX – This isn't for nothing
Kirk havia acabado de voltar de uma consulta com um médico vulcano, e resolveu procurar Amanda. Ele havia conseguido arrebentar as costas enquanto tentava levantar Spock naquela manhã. Não tinha mais idade para conseguir levantar um vulcano de mais de oitenta quilos que queria ficar na cama. Imaginava que as coisas só fossem piorar conforme o tempo passasse, mas não queria pensar sobre isso no momento.
Para sua surpresa, encontrou Amanda chorando, apoiada com as costas no balcão da cozinha. Não era a primeira vez que a via chorando, mas era a primeira vez que a via fazer isso de maneira tão aberta.
"Amanda, o que aconteceu? Está tudo bem com Spock?" assim que as palavras partiram de seus lábios, repreendeu-se por estar pensando somente em Spock quando ela estava sofrendo. Nos últimos dois meses, aproximaram-se consideravelmente, e Kirk se preocupava com ela também. Mas nada poderia ocupar o mesmo lugar em sua mente que Spock.
Ela precisou de um momento para recompor-se, tentando encontrar a compostura condizente com a esposa de um importante embaixador vulcano. "Spock se recusou a comer. Não consigo nem fazer o meu filho almoçar."
Kirk se aproximou dela e ofereceu um abraço reconfortante. "Eu sei que isso não é fácil, Amanda. Mas precisamos fazer isso por ele. Agora, porque eu não faço um pouco da minha famosa sopa de plomeek? Spock sempre disse que gostava dela."
Começou a reunir os ingredientes necessários. Fazia um certo tempo desde a última vez que cozinhara, mas era um dos seus muitos prazeres inesperados. Havia muitas coisas que gostava de fazer que contrariavam o que era esperado de um capitão ou de um almirante da Frota Estelar, mas havia muito tempo que não se preocupava com isso. Havia conquistado seu lugar e podia se dar ao luxo de ignorar as opiniões alheias. É claro que agora era um criminoso procurado e provavelmente perderia sua comissão assim que o almirantado conseguisse encostar as mãos nele, então isso não importava muito.
"Spock nunca me disse que você cozinhava para ele..." começou Amanda. "Na verdade, ele nunca me deu muitos detalhes sobre vocês. Sempre imaginei que havia muito que ele não gostaria que o pai ficasse sabendo, e ele sempre foi uma pessoa discreta, mas gostaria de saber mais sobre como era a vida de vocês."
Kirk parou desconfortável com a panela nas mãos. Ele e Spock não costumavam anunciar a exata natureza da sua relação. É claro que qualquer um que passasse qualquer quantidade de tempo com eles era capaz de ver que não se tratava de uma simples amizade, mas ele nunca foi o tipo de beijar e contar e Spock era ainda mais discreto. Ainda se lembrava de quando Spock reclamou sobre as perguntas indesejadas que ouvira sobre ele e seu na época capitão, e sobre como sua maior fonte de indignação (ainda que ele houvesse replicado que vulcanos não sentem indignação quando Kirk sugeriu isso) era que estranhos estavam especulando sobre sua vida pessoal, não que metade do quadrante achasse que seu relacionamento era muito mais do que era na época.
Finalmente, decidiu que Amanda merecia saber mais sobre o filho, e que não haveria mal em partilhar apenas algumas informações. Então, enquanto cozinhava, passou a contar sobre pequenos detalhes de suas vidas. Coisas inócuas que não iriam ofender Spock se ele soubesse que sua mãe tomara conhecimento delas. Coisas como o pequeno restaurante de um Trill na Terra que Spock simplesmente adorava e que ele tinha uma foto holográfica de Amanda na sua sala na Academia. E antes que percebesse, encontrou-se falando sobre os mais absurdos detalhes sobre Spock, estando inclusive envergonhado porque agora ela perceberia que ele sabia esse tipo de coisas sobre ele. Detalhes como o modo como ele trocava a mão dominante para jogar xadrez quando estava nervoso, a forma delicada com que até hoje acariciava sua ka'athyra antes de tocar e o fato de que apesar de anos vivendo em ambientes com a temperatura climatizada para humanos, ainda dormia com a temperatura do seu quarto pouco mais baixa do que o que causaria insolação nos humanos e utilizando várias cobertas. Realmente não queria pensar em como Amanda imaginaria que ele sabia disso, porque nada do que ela imaginasse poderia ser mais embaraçoso do que a verdade. Mas simplesmente não conseguia parar de falar sobre todos esses pequenos detalhes que descobriu nas duas décadas de convivência. Por sorte, conseguiu morder a língua antes de dizer que Spock quase sempre utilizava a mão esquerda para acariciar o seu cabelo, ou que ele ficava extremamente carente quando comia chocolate acidentalmente. Spock jamais iria o perdoar se tivesse revelado esse tipo de coisas para sua mãe. Com um certo pavor, percebeu que Sarek esteve em sua mente e temeu o que poderia ter visto lá. Mesmo se não fossem tão discretos, havia certas coisas que um pai não deveria ver, e muitas delas estavam em sua mente. Descartou esses pensamentos, convencendo-se de que, como um bom vulcano, Sarek apagaria qualquer memória indesejada. Ou ao menos esperava que ele agisse assim.
No que pareceu uma questão de minutos, a sopa estava pronta. Precisava dá-la a Spock antes que esfriasse, apesar de que essa não era uma grande preocupação em um planeta tão quente. De qualquer modo, teria mais tempo para conversar com Amanda depois, agora precisava garantir que Spock estivesse bem alimentado.
Ka'athyra é o nome da lira vulcana.
