Surge uma Guerreira
No outro dia por volta das 4:30h da madrugada, Natasha foi acordada por Shaka através do cosmo. A garota tentou resistir e voltar a dormir, mas o virginiano foi insistente a fazendo levantar e se vestir, para encontrá-lo no jardim da casa.
– Sabe que horas são? Pelo amor a todos os deuses, Shaka, o que aconteceu? – falava a ruiva com uma cara de sono, como se a qualquer momento fosse cair dormindo no chão.
– Esse será o horário que irá levantar a partir de agora.
– Caraca! Mas por quê?
– Para te preparar mentalmente antes de sair para treinar, além do mais o ser humano não precisa muito mais de 4 horas de sono, se dormir profundamente.
– Brincou, né? Viu isso aonde? No NatGeo, Discovery?
– Natasha, quero deixar umas regras bem claras antes de qualquer coisa.
– Lá vem...
– Não tolero palavrões, gritarias ou assuntos inúteis em minha casa ou presença e se descumprir essa regra, irei tirar seu sentido da fala.
– Não está falando sério.
– Quer testar?
– Cara, você não pode ser a reencarnação de Buda, ele jamais faria isso. Você é um indiano muito estranho, é loiro com aparência frágil e fala grossão, além de ter paciência zero. Tá doido.
– Eu avisei... – falou Shaka muito sério, abrindo seus olhos e invocando seu golpe "Tesouro do Céu" tirando o sentido da fala de Natasha, deixando-a furiosa batendo os pés. – Aqui as regras terão de ser cumpridas e não fará o que quiser. Agora, controle-se! Antes que eu te tire mais algum sentido. – falou firme, enquanto a ruiva ficava quieta e bem contrariada – Segunda regra: não irá usar nenhum tipo de substância que seja prejudicial ao seu corpo, seja ela um simples copo de bebida alcoólica ou um cigarro. Terceira regra: deverá dar o máximo de si, não apenas nos treinos com seu mestre e comigo, mas no seu comportamento em geral. Se não conseguir obedecer a essas regras, eu mesmo te mandarei para um dos seis reinos da samsara (sofrimento), sem chance de ser trazida de volta por Athena. Não quero me dedicar a uma pessoa com uma existência inútil! Ficou claro? – a garota assentiu que sim. – Ótimo! Agora sente-se, precisa acalmar essa sua mente agitada e inconstante.
"Não acredito que vou meditar. O que eu fiz pra merecer isso?"
Com muito custo, a ruiva se sentou para meditar encontrando dificuldade até de ficar com os olhos fechados, mas insistindo por não ter mesmo escolha. Após duas horas sofridas, o virginiano disse:
– Acabou por enquanto. Vá fazer seu desjejum e se preparar para treinar com Dohko, na volta continuamos.
Natasha se levantou sentindo suas pernas e bunda dormentes do tempo que ficou "meditando" indo achar algo para comer na cozinha.
"Cadê o pão? O queijo? Presunto cadê você? Nada? Céus! Achei um leite, oba, mas é de soja, eca! Humm o que é isso? Tofu. Ele não come carne e é tudo saudável! Vou morrer desnutrida. Quer saber, deixa pra lá, não consigo comer isso não. Vou filar o café no Dohko" pensou a garota.
Subiu apressada até a casa do mestre, adentrando o lugar como um furacão, sendo "recebida" por Ling que tomava seu café, sozinha.
– Seu mestre ainda não está pronto, vai esperá-lo lá embaixo.
A ruiva não pôde responder nada, então apenas a ignorou se sentando à mesa e partindo um pão fresquinho.
– Não me ouviu? Vá esperá-lo lá embaixo, aqui não é mais a sua casa.
Natasha não a olhou, apenas deu o dedo do meio, enquanto comia seu sanduíche.
– Atrevida! Devia te dar uma lição.
– O que está acontecendo aqui? – falou Dohko ao chegar, vendo Ling alterada.
– Eu estava dizendo a ela pra te esperar lá embaixo, que ainda não estava pronto.
– E o que tem ela vir tomar café da manhã com a gente?
A chinesa ouviu tais palavras e as engoliu seco, fuzilando a ruiva que dava um riso silencioso e debochado para ela, sem o libriano ver.
– Bom dia, Natasha. – falou sem receber resposta.
– Não vai responder seu mestre? – falou a chinesa indignada.
A ruiva olhou para o libriano fazendo sinal que não podia falar.
– Shaka tirou seu sentido da fala? – disse o tigre com os olhos arregalados, recebendo um ok da pupila.
– Mal chegou e foi punida.
– Shaka apesar de ter compaixão pelas pessoas, é muito rigoroso e regrado.
– Então sua pupila, querido, não vai durar três dias. – alfinetou Ling.
– Provavelmente não foi um golpe permanente, mas deveria ficar mais alerta Natasha. – aconselhou Dohko recebendo um olhar de "eu sei"da pupila.
O café terminou e na hora de mestre e pupila saírem, Ling fez questão de beijar o libriano na frente da ruiva.
– Bom treino, querido. – falou a mulher dando um sorriso a ele, causando-lhe certo desconforto.
– Obrigada, Ling. – respondeu sem graça.
Na descida, Natasha tentava esconder ao máximo ter ficado incomodada com a possibilidade de o seu mestre poder estar entrando em um relacionamento sério com a chinesa. Apesar do pouco tempo de convivência, Dohko entendia a linguagem corporal da pupila, percebendo o que ela sentia.
– Eu e a Ling estamos tentando nos entender.
Natasha o olhou dando um sorriso forçado de "ah que bom".
– Mas apesar disso, ainda não sei se a quero da forma que ela deseja. Nos últimos tempos, tenho a visto como uma boa amiga apenas. – fez uma pausa olhando para a ruiva de forma carinhosa. - E além disso, não sei se consigo mais me apaixonar por alguém como antes, quando era mais jovem.
Natasha sem avisar parou e segurou a mão do seu mestre a levando até seu rosto e a beijando, conduzindo-a em seguida para seu peito onde se podia perceber seu coração acelerado. Em seguida, pegou a mão dele e a colocou no seu próprio peito, o fazendo notar a intensidade de seus batimentos que sempre ficavam acelerados quando estava muito perto da pupila, ou quando a tocava. Dohko compreendeu perfeitamente o que Natasha queria dizer, mesmo sem palavras. Ele percebeu que não só era capaz de se apaixonar como antes, como também já se encontrava sentindo tal sentimento e que era retribuído. Dohko nessa hora, não conseguiu dizer uma palavra sequer ou mesmo agir, então Natasha se aproximou mais e o beijou no meio da Casa de Touro. O libriano não pôde se controlar dessa vez, retribuindo o ato com a mesma intensidade. Os dois se beijaram com desejo e carinho, sentindo seus corpos esquentarem com o toque não apenas dos lábios e das línguas que se enroscavam, mas também das mãos que percorriam desde os cabelos até as costas e nádegas, deixando-os sem fôlego. Natasha o provocava, mordendo seu lábio inferior, o puxando forte pelo cós da calça para sentir seu membro duro de contra seu corpo, enquanto arranhava sensualmente as costas definidas dele, aumentando muito a excitação que o mestre sentia. A ruiva, então decidiu parar de beijá-lo, deixando-o curioso. Ao sorrir maliciosamente, pegou a mão do cavaleiro, colocando um dos dedos na boca, o sugando com vontade e o olhando com desejo. Dohko respirou fundo, vendo sua pupila passar a língua de forma circular no seu dedo ao mesmo tempo em que seu membro era tocado por debaixo da roupa, tendo assim uma gostosa onda de prazer invadindo seu corpo, precisando conter, com muito esforço, gemidos que insistiam em sair boca afora. O mestre instintivamente a imprensou em uma coluna numa parte mais isolada do lugar, recebendo movimentos de vai e vem da pequena mão da jovem que acabavam completamente com seu raciocínio. Sem poder se conter mais, derramou seu líquido quente na mão da pupila, recebendo um beijo breve e voraz em seguida. Natasha sorriu vitoriosa para ele, limpando a mão em uma das pilastras.
– Devo ter enlouquecido de vez. – falou quase para si, recuperando o fôlego.
Após dizer tais palavras, o libriano começou a sentir um cosmo se aproximar, então em seguida, Aldebaran apareceu diante deles.
–Dohko, Natasha, não sabiam que eram vocês. – falou o taurino com sua habitual simpatia.
– Bom dia, Aldebaran. – disse Dohko muito sem graça.
– Bom dia! Senti um cosmo alterado há pouco e pelo visto, me preocupei à toa. – falou notando uma troca de olhares entre o mestre e pupila.
– Não aconteceu nada por aqui. Estamos apenas de passagem indo para a arena... você não vai hoje? – desconversou o libriano.
– Mais tarde.
– Nos vemos lá então. – respondeu o libriano se despedindo e saindo rápido da presença do taurino que segurava para não rir diante do nervosismo do amigo, entendendo claramente que havia rolado algo entre eles, momentos atrás.
A uma boa distância dali, os dois seguiam sem trocar olhares, pois o libriano se sentia mal por não ter resistido à investida da pupila.
– Natasha, esse tipo de situação não pode acontecer entre nós, eu devia ter me controlado. – falou o libriano enquanto a ruiva ria silenciosamente. – Estou falando sério! Não podemos nos envolver, enquanto for minha pupila.
"Enquanto eu for sua pupila, é? E depois?" – pensava a ruiva.
– Aldebaran quase nos pegou e não ia ficar nada bonito pra mim e você, caso ele ou qualquer outro visse. O que a deusa pensaria se algo assim chegasse aos seus ouvidos? Athena com certeza chamaria minha atenção, pois as regras sobre o envolvimento com pupilos são bem claras. Poderia ser punido, deixando de ser seu mestre, sabia? – falava o libriano vendo uma expressão tranqüila e despreocupada na pupila, que tentava não rir do estresse de seu mestre.
– Natasha, está entendendo a gravidade do que aconteceu entre nós?
A garota parou e fez sinal para ele fazer o mesmo, pegou um galho de uma árvore, e começou a escrever no chão de areia.
"Mas você gostou do que aconteceu entre nós?" – escreveu a ruiva para o mestre, esperando uma resposta.
– Muito, Natasha...
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa ela escreveu.
"Isso que importa!" completou dando uma piscada para ele e voltando a andar, cortando o mestre de dizer qualquer outra coisa.
Ao final da tarde, os dois terminaram o treino que havia sido focado em técnicas de defesa e ataque com base no Wushu. Natasha não foi mal, porém ainda era um pouco lenta na hora de decidir quando usar a defesa ou o ataque a seu favor.
– Treinaremos mais defesa e ataque durante a semana e apesar de não ser o estilo de luta ensinado para cavaleiros e amazonas, acho importante que saiba dominar bem algumas técnicas do Wushu, sendo um diferencial quando for enfrentar algum inimigo mais tarde. Agora, vamos, ainda tem treinamento com o Shaka. – falou vendo uma expressão de desânimo na pupila. – Tem muita sorte de estar sendo treinada por ele também, pode parecer muito sacrifício agora, mas mais tarde verá que valeu a pena.
Ao chegarem à Casa de Virgem, mestre e pupila se depararam com o virginiano na entrada os aguardando.
– Está entregue Natasha, bom treino. – disse Dohko recebendo um olhar de "Não vai embora, por favor" da ruiva.
– Vai entrando, Natasha, coma alguma coisa e siga direto para o jardim. – ordenou o virginiano com firmeza.
A ruiva deu um tchauzinho desanimado para o mestre, entrando em seguida.
– Shaka, agradeço pelo que está fazendo.
– Não precisa agradecer. – fez uma pausa como se o observasse, mesmo estando de olhos fechados- Está preocupado com ela, não é?
– Sim, estou. – falou respirando fundo.
– Está tudo sobre controle, não se preocupe.
– Ela já está sem o sentido da fala e mal começou a treinar.
– Dohko, ela aprenderá a ter limites e se for necessário tirarei todos os sentidos restantes. Mas não se preocupe desnecessariamente, acredito que ela não vai querer chegar a esse ponto. Pode ser desequilibrada, mas não é insana e amanhã de manhã ela voltará a falar. Vou entrar para começar o treinamento, até Dohko.
– Até, Shaka.
O virginiano se dirigiu à cozinha, onde a ruiva terminava de tomar uma vitamina.
– Ande! Não podemos perder tempo.
"Mas já?" ela pensou, ainda se sentindo cansada pelo treino recebido pelo libriano. Meio a contragosto, levantou, lavou o copo e seguiu o cavaleiro até o lado de fora.
– Faremos como da primeira vez, irei ativar seu subconsciente trazendo todos os seus medos à tona, para poder encará-los. Hoje será assim, de forma bem simples, ficando apenas como expectadora do que presenciar, mas depois, farei diferente. – falou chamando a atenção da garota – Não apenas irá ver as cenas do passado, como fará parte dele, vivenciando a situação em que for lançada pela sua mente, podendo se ferir ou mesmo morrer, mesmo não estando presente fisicamente. Saiba que a mente é algo muito poderoso, Natasha, ela pode criar e destruir, ferir e curar, sendo a nossa maior arma ou o nosso maior inimigo. Esteja sempre alerta! – ao falar tais palavras, a jovem foi "arremessada" de volta ao seu temeroso passado.
Natasha viu tudo escuro e depois clareando lentamente, percebendo estar em um grande quarto, onde vestidos luxuosos estavam pendurados ou esticados cuidadosamente sobre uma imensa cama. Havia um biombo de madeira com detalhes em ouro, um imenso espelho que tomava completamente uma das paredes, além de sapatos de todas as cores, dispostos um do lado do outro em cima de uma tapeçaria árabe.
– Vamos ver se fez um bom trabalho, Irina. – falou um homem que fumava um cachimbo enquanto olhava fixamente para a direção do biombo.
– Não foi nada fácil, Yuri, mas confesso que a danada aprende rápido. – respondeu a mulher com seu tom arrogante. – Anda menina, não temos o dia todo!
Ao ouvir a impaciência da mulher, uma garota ruiva de seus treze anos, apareceu diante dos dois que a esperavam impacientemente.
– Não está linda? – falou Irina vendo seu companheiro boquiaberto.
– Enfim, você me foi um bom investimento. Receberei uma quantia generosa do doutor Matvey, quando ele a ver. – falou o homem analisando cada parte da ruiva. – Belo vestido, Irina, muito boa a escolha. Realçou os atributos dessa pequena.
– Ainda não quero cantar vitória antes do tempo, Yuri. Ela pode estar muito bela, vestida lindamente com essa roupa, mas se fizer besteiras, não se comportando com requinte e civilidade, nada disso irá adiantar.
– Tenho certeza de que ela se sairá muito bem... é como se a vida dela dependesse dessa noite.
Nesse momento, batidas na porta foram ouvidas.
– Entre!
– Senhora, o doutor acaba de chegar. – falou uma empregada.
– Excelente! Lembre-se de tudo o que te ensinei, não nos decepcione! – falou a mulher vendo uma expressão de medo surgir na face da pequena ruiva. – E vê se melhore essa cara! Não está indo para um matadouro! E mais uma coisa, de hoje em diante, esqueça o nome Milenka, agora irá se chamar Natasha.
A garota assentiu que sim, sendo conduzida de maneira apressada até o doutor que a esperava em uma sala de visitas.
– Doutor Matvey é sempre uma honra tê-lo aqui.
– Sempre fabulosa. – falou beijando a mão de Irina, lançando em seguida seu olhar para a ruiva. – Então, essa é a nova jóia do lugar. Qual o seu nome?
– Natasha. – respondeu timidamente.
– É um prazer conhecê-la, Natasha.
A pupila do libriano assistia aquilo, sentindo sua respiração falhar, as pernas tremerem e uma vontade imensa de gritar, invadir sua garganta, porém não perdeu o controle apesar de toda adrenalina e medo. De repente, tudo ficou novamente escuro e em seguida, claro novamente, presenciando outra cena. Era um quarto, com um lençol branco de cetim manchado por uma pequena quantidade de vermelho na parte do meio. Ao se aproximar mais, viu a si mesma encolhida em um canto, sem roupa, como se estivesse em estado de choque.
– Falarei bem de você para Yuri e Irina. – falava o doutor fazendo o nó da gravata, se olhando em um espelho. – Voltarei mais vezes e prometo de hoje em diante, visitar somente você. – falou ao se aproximar, para acariciar o pequeno rosto da garota. – Preciso ir... foi um prazer ter te conhecido, Natasha. – completou o homem que acabava de colocar seu sobretudo, deixando o quarto logo depois.
Mal se passaram cinco minutos para Irina adentrar o cômodo como um tornado.
– Se saiu melhor do que eu imaginava. Está chorando?
– Desculpe, mas é que eu...
– Cale-se! Devia se sentir grata de estar numa casa luxuosa como essa, comendo do bom e do melhor e vestindo roupas caras, ao invés de estar jogada num orfanato pulguento qualquer.
– Perdoe-me, senhora.
– Ingrata. Vê se toma um banho e descanse, amanhã daremos um importante almoço e vou precisar que esteja em perfeitas condições. – completou saindo em seguida do lugar.
Ao ficar sozinha, a ruiva desabou a chorar, agarrada a uma correntinha dada por sua mãe em seu aniversário, antes do fatal acidente de carro.
– Por que não me deixou ir com vocês, mamãe? Por que eu fiquei só nesse mundo? – falava baixinho com receio de ser ouvida. Entre soluços, dormiu profundamente.
A pupila do tigre, se deitou do lado dela, observando o momento que toda a sua inocência foi impiedosamente roubada. Encarava a si mesma, como nunca o fez antes, tentando se achar no momento em que se perdeu. Nesse instante, tudo ficou escuro, sendo jogada no presente, na Casa de Virgem.
– Se saiu muito bem, Natasha. – falou Shaka ao vê-la a ficar consciente - Seu corpo e sua mente não entraram em pânico, mas em um estado de reflexão. Descanse, foi um longo dia para você.
Saindo da presença do virginiano, a ruiva foi tomar um demorado banho, lembrando de cada momento, cada sensação revivida instantes atrás. Apesar de tudo o que vira, uma coragem e uma determinação a invadiu. Percebeu que não havia sobrevivido à toa, não passou por tudo aquilo e chegou ao Santuário sem uma razão. Era naturalmente uma guerreira e assumiria esse papel dado pelo destino, mesmo que este tenha sido cruel no passado. Daria seu melhor e a partir daquele momento, lutaria contra o mal e a injustiça, em retribuição de ter sua vida poupada, apesar de tudo.
