Apesar de a porta de sua prisão ser uma simples grade que não oferecia qualquer proteção contra o vento, Hyoga recebera cobertores pesados que lhe proporcionaram uma noite razoavelmente confortável. Para compensar a pobre refeição do dia anterior, seu café da manhã fora caprichado, até melhor do que ele costumava ter em Kohotek. Enquanto comia, perguntava-se se aquela não seria uma forma de desencorajar a fuga daquela cidade.
Ignorando os olhares curiosos dos moradores, Hyoga observou admirado as andanças dos homofalcos. Agasalhados com grossos casacos, decolavam e aterrissavam, trazendo e levando coisas, como pássaros de um ninho. Muitos caçavam pequenos animais ou pescavam em pleno vôo, com uma habilidade que traria inveja a qualquer homem. Ájax, como Hyoga pensara, não era o tipo de homem que tirava vantagem de sua posição de líder. Era gentil com os moradores e até ajudava em algumas tarefas corriqueiras, como consertar as casas. Charis acompanhava-o o dia inteiro, aprendendo a coordenar o trabalho dos homofalcos.
Paralelamente ao trabalho dos moradores, havia um grupo de jovens que se dedicava à luta, treinando metade do dia. Eles treinavam não apenas lutas terrenas, como ataques voadores, semelhantes aos dos pássaros. Enquanto assistia ao treino, Hyoga naturalmente pensava nos defeitos e virtudes de cada rapaz, assim como nos conselhos que daria para melhorarem. Era um senso que acabara desenvolvendo após anos de experiência como cavaleiro. Mesmo assim, assistia em silêncio, como se fosse uma insignificante sombra na cidade.
Na hora do almoço, todos os homofalcos recolheram-se em suas casas, e o cheiro da comida espalhou-se por todos os cantos, atiçando o apetite de Hyoga. Ájax trouxe-lhe a bandeja fumegante acompanhado do homofalco que provavelmente era o seu braço direito. Hyoga estava deitado na cama, entediado, já que sua prisão só possuía a cama, a mesa, um banheiro e uma bacia de água para lavar o rosto.
"Como você está, Hyoga? Precisa de alguma coisa?"
Os objetos básicos Hyoga já possuía na mochila. Com a exceção de objetos cortantes, que os homofalcos retiraram após uma revista, estavam todos os apetrechos de viagem, não necessitando de nada. Ao observar os moradores, Hyoga até achara que estava em melhores condições. Contudo, o tempo simplesmente não passava sem ter nada para fazer.
"Não. Para dizer a verdade, estou bem confortável. Se for para desejar algo, pudera ter uma leitura para passar o tempo. Um livro, qualquer coisa. Quanto ao resto, vou muito bem."
"Eu imagino como deve ser cansativo ficar sem fazer nada o dia inteiro. Eu notei que você não parava de observar os homofalcos de manhã. O que achou de nossa cidade?"
"Ela é impressionante. Estou vendo que as asas servem pra muitas coisas além da simples locomoção e entendo como vocês conseguem sobreviver num local tão isolado."
"Fico feliz que tenha gostado. Nós vivemos assim há centenas de anos. Isso é graças ao poder do cristal, que sempre nos protegeu. Devemos agradecer a Ártemis e a Athena. Eu vivo para proteger tudo isso. Sou uma espécie de guardião dos homofalcos, vivo para servi-los. Não sei se um homem da civilização consegue compreender isso com a alma."
"Acho que só alguém que realmente tenha feito isso pode entender esse sentimento, Ájax."
"Você tem razão. Charis ainda é muito nova para compreender e acabou trazendo você até aqui. Isso é ruim, tanto para nós como para você, Hyoga. Se o cristal tivesse ficado azul, é claro que não teríamos nenhum problema... Mas agora... O mínimo que posso fazer por você é isso: a cada cinco dias, deixarei que toque novamente no cristal. Se os deuses desejarem, um dia ele ficará azul para você. Eu sinto muito... Sei que é difícil de entender e de acreditar..."
"Eu prometi a Charis que não faria mal aos homofalcos. Pretendo ir até o fim com essa promessa."
O olhar de Ájax endureceu durante um momento, como se o ameaçasse.
"Você prometeu isso à futura líder dos homofalcos e à minha filha. É melhor que cumpra, para o seu próprio bem. Mandarei trazerem um livro para você depois. Os homofalcos possuem diversas e interessantes lendas."
O livro foi trazido como Ájax prometera, e Hyoga lançou-se à sua leitura como um homem no deserto a encontrar um oásis. Como Ájax não estava interessado em relatar mais sobre a história dos homofalcos, escolheu para Hyoga um clássico da literatura homofalca, 'Crônicas de um homofalco cego', escrito há mais de duzentos anos. Apesar do grego arcaico, Hyoga parecia apreciar o livro, pois passara o resto da tarde em silêncio. Só parou quando Charis aproximou-se da grade, pensativa.
"Ei, Charis. Como vai você?"
"Você ainda não tentou fugir."
"Por que eu fugiria?"
"Você não precisa contar pra todos o que viu nesta terra?"
Com os olhos do homofalco que estava em guarda sobre ele, limitou-se a ficar sentado na cama e deixar o livro de lado.
"Eu prometi que não contaria. Também prometi que não faria mal aos homofalcos."
"O homem que me bateu prometeu que não me machucaria. Por que promessas dos humanos são tão frágeis? Por que eles não podem prezar a palavra como os homofalcos?"
Sentindo que era um desabafo que estava há tempos trancado na garganta de Charis, Hyoga estava impelido a aproximar-se mais e conversar de perto. Mas sabia que se o fizesse, mataria o diálogo.
"Sabe, Charis... Seu pai me passou um livro muito interessante hoje à tarde. As 'Crônicas de um homofalco cego'. Já leu?"
"Sim, ele já me fez ler. Mas o que tem a ver com o que eu lhe disse?"
"Tem muito a ver. Fala sobre um homofalco que fez um pacto com a natureza por ter nascido sem a visão. Um pacto é uma promessa. Por ter sido feita com a natureza é mais especial ainda. Como ele não podia prejudicá-la, já que ela lhe dera o poder de voar sem ter medo de chocar-se contra uma pedra, precisava fazer sacrifícios. Essa promessa tornou-se parte de sua vida, de sua própria conduta. Mas quando ele prejudicou a natureza, mesmo que inconscientemente, quase morreu numa montanha. O preço de uma promessa pode variar. Eu achava que o preço da minha não seria alto, que eu a entregaria a salvo nesta cidade e voltaria para casa. Mas não foi. Isso não muda o fato de que preciso cumpri-la. Se eu não cumpro minha promessa, quebro o vínculo que criei."
"Mas se você entende isso, porque os homens não cumprem as promessas?"
"Por que eles não entendem isso. Eles querem ter vantagem sobre os outros. Charis, você viu a quantidade absurda de homens que existe no mundo lá fora."
"Sim."
"O mundo lá fora é uma guerra constante. Os homens lutam entre si para sobreviver. Essa é a maneira que eles criaram. Vocês também possuem as suas maneiras, que são o isolamento e o cristal. Todos possuem armas para se defenderem. Acontece que optei por outras armas e mantive a força da promessa viva. Quando prometi a você, fiz um pacto. Eu cumpro a minha palavra. Em troca, as pessoas acreditam em mim. Você pode não acreditar neste exato momento; por isso, tem toda a razão de desconfiar de mim. Eu não estou chateado por isso. Só serei merecedor de sua confiança quando tornar minha promessa uma realidade."
"E se ela não se tornar realidade?"
"Se ela não se tornar... Serei um tremendo imbecil."
Charis sorriu sutilmente e deu-se por satisfeita. Como o seu pai dissera, apenas o tempo traria a resposta daquele estranho humano que era Hyoga.
