Capítulo Nove: Loira da cabeça aos pés
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O quarto estava fresco. O sol e o vento entravam pela janela, balançando as cortinas – o tecido diáfano da cor do céu havia sido escolhido por sua mãe, há anos atrás. E a primeira coisa que Ino viu quando abriu os olhos, foram os passarinhos pousados no parapeito da sua janela, que sempre a lembravam do antigo jardim perto da soleira da porta da frente.
Ela mexeu o pé, que escapava da cama, e suspirou. Sentia com perfeição a nudez da sua pele contra o tecido do lençol. A brisa batia suavemente em sua costa desnuda, numa carícia que movimentava os cabelos loiros espalhados por esta. Virada de bruços, Ino agitou a cabeça sobre o travesseiro, a sonolência sumindo.
Já devia passar do meio dia, constatou, notando o sol alto no céu. Mas estava tão gostoso dormir nessa manhã que eu não poderia resistir mesmo se quisesse, ela sorriu para si mesma, soltando um suspiro.
Não sentia Gaara ao seu lado – havia percebido logo no início do alvorecer a ausência dele. Porém, de uma maneira espantosa, Ino sentia com precisão o cheiro dele em si mesma, como jamais houvera sentido. O cheiro do suor e de criança (ela não sabia ao certo se era alecrim ou lírio), como se a respiração dele ainda estivesse batendo contra o seu ouvido, os lábios tocando suavemente seu lóbulo, num gesto involuntário. Ela não estava fazendo amor agora, mas sentia como se estivesse.
As mãos dele a segurando, apertando, roçando contra sua pele. Ino arquejava e gemia e os seus suspiros enchiam o quarto, ensopavam a cama, bagunçavam seus cabelos.
Levemente, movimentou a mão, o dedo indicador tocando o lábio. E sorriu – diabos, e como.
"Gaara..." murmurou, fechando os olhos.
"O que há, Ino?"
Ela sentou-se na cama, o lençol deslizando pelo seu corpo, revelando seus seios.
Gaara, escorado no umbral da porta, a observava, sério. Os braços cruzados procuravam contribuir para a expressão que havia em seu rosto, mas os lábios avermelhados quebravam e saiam do contexto. Aquela boca lhe lembrava quando o mordera, na madrugada, sentindo os dedos dele deslizarem pelo interior da sua coxa.
Mesmo contra sua vontade, ele precisou admitir a si mesmo que a queria. Os cabelos dourados e a brancura da pele, o perfume, não havia nada ali que dispensaria em Ino – ele gostava daquilo, daquela loira.
"Achei que tivesse saído." Disse ela, suave.
Sentindo seu olhar deslizar pelo ombro e colo dela, Gaara obrigou-se a voltar os orbes para a janela.
"Estou aqui há algumas horas." Respondeu como se não tal fato não tivesse uma grande importância, franzindo levemente o cenho ao fitar os pássaros que se afastavam no horizonte, assustados pelo barulho das suas vozes.
"Ficou me observando dormir?" Indagou Ino, as sobrancelhas arqueadas enquanto jogava o lençol para o lado.
Quando ela ficou de pé, os cabelos despencaram até a sua cintura, cobrindo completamente as costas. E Ino espreguiçou-se, soltando um suspiro. Seus lábios estavam secos e ela molhou-os de leve com a ponta da língua, escondendo-a na boca logo depois.
Reparando na própria nudez, deu um pequeno sorriso. Gaara não era capaz de resistir aos seus encantos – todas as suas tentativas para tal, provaram-se completamente ineficazes com o passar do tempo. E, na cama, ele era o tipo de homem que ela jamais imaginaria. Não havia Shukaku alguma em seu corpo e Ino devia supor que aquele ardor eram qualidades específicas dele.
O corpo dele, o jeito como seus lábios se entreabriam quando estava ofegante e aquela maneira de passar a mão no cabelo ruivo quando este estava úmido de suor tiravam-na do sério.
Gaara demorou alguns minutos para responder, percebendo-a pensativa.
"Você fica bonita quando está calada." Então ela se virou para ele, fazendo-o dar um pequeno sorriso – quase imperceptível. Ino era toda loira, os pêlos do seu corpo quase tênues na escuridão, visíveis apenas à luz do dia. E, bem, embora a preferisse em silêncio na maior parte do tempo, gostava quando ouvia os sussurros dela no seu ouvido.
Ino riu, sem compartilhar do seu pensamento.
"Hey, é injustiça da sua parte falar algo do tipo." Aproximou-se, a cintura gingando de um jeito felino, devagar. Os dedos pousaram sobre o tecido da camisa que ele usava e Gaara descruzou os braços para recebê-la. "Hmm." Ela gemeu, aconchegando-se no peito dele. A textura da roupa do ruivo arranhava sua pele. "Eu sei que, no fundo, você adora ouvir minha voz." Murmurou marota, ficando na ponta dos pés para que pudesse alcançar o ouvido dele.
Sua mão direita correu pelos cabelos loiros, deslizando por entre os fios. A mão esquerda seguiu até o rosto dela, segurando-o na sua palma e erguendo-o, para que pudesse visualizar os olhos azuis. Eles brilhavam.
Estreitando os orbes, Gaara analisou-a. Ino estava tranqüila e não havia mais do nervosismo e medo que a perturbaram na chegada de ambos à Konoha. Ele via apenas os lábios que ela entreabria, suavemente, como se pedindo um beijo.
Baixando a cabeça e aproximando os seus narizes, Gaara apenas murmurou uma frase, antes de capturar a boca rosada em um beijo. "Eu te amo, loira." Ino ouviu, sentindo a língua dele roçar em seus dentes.
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Sakura ergueu rapidamente a cabeça ao ouvir o barulho da porta se abrindo.
Sem perder a linha de raciocínio, ela voltou os olhos à prancheta, onde escrevia a condição de Yamanaka Inoshi naquela manhã. Pressão sanguínea normal, sem qualquer alteração no seu estado, anotou. Os aparelhos ao lado da cama dele bipavam, mantendo-o vivo, embora aquele homem já estivesse morto em juventude – restavam apenas alguns resquícios da boa saúde.
Suspirou, pensando com pesar que dificilmente o quadro se reverteria. Pendurou a prancheta no pé da cama e só então se voltou para quem quer que fosse o visitante – talvez uma enfermeira. Mas seus olhos pareceram lhe pregar uma peça.
Era Ino quem entrava.
Ambas retesaram à presença uma da outra.
"Hmm...Oi, testuda." Ino tomou a iniciativa, dando um sorriso pequenino, como o de quem está desconfortável. Os olhos se voltaram para o chão, desviando o olhar.
Os cabelos dela estavam presos em um coque desleixado, alguns fios fugindo e caindo sobre seu rosto. A blusa branca e a saia preta formavam um contraste que caíam bem na típica beleza de Ino, uma beleza que não era exótica ou clássica, mas totalmente arrasadora.
Por um minuto, Sakura sentiu inveja da amiga. Bem, sem modéstia, era óbvio que suas habilidades como ninja eram muitas vezes melhores, mas ela daria apenas um pouquinho dela para ter uma parte daquela beleza dourada.
Claro que eu fico bem com muitas coisas também, pensou, mordiscando o lábio. Mas a Ino, sei lá...é diferente, concluiu.
"Oi, Ino." Sussurrou Sakura, apertando um pouco mais a caneta antes de colocá-la no bolso do jaleco.
Ela lembrava perfeitamente quando Sasuke falara sobre a formosura de Ino (havia despertado o monstro do ciúme no seu coração). "Ela é loira e é bonita, mas é irritante, aborrecedora, espalhafatosa, fútil e sua voz é muito alta", dissera ele, pondo fim à discussão estúpida de Kiba e Naruto sobre a garota mais bonita que conheciam.
Sasuke falara certo, apesar de tudo. Ino é tão linda e, às vezes, tão chata, riu internamente.
As duas ficaram num silêncio cortado apenas pelo bipe constante dos aparelhos ligados a Inoshi.
Foi a loira quem resolveu quebrar a morbidade da sala, tornando a encará-la.
"Então, testuda..." Ela deu um sorriso sincero, embora pequeno. "Quando é mesmo a data do seu casamento?"
Sakura abriu bem os olhos, num gesto involuntário, demonstrando sua surpresa.
"Vinte e três de maio. Por quê?" Arqueou as sobrancelhas, desconfiada.
"Eu estava pensando, bem...em ir." Murmurou Ino, um tanto insegura.
Silêncio.
"Sério?" Indagou a outra, pasma. "Mas eu pensei-" E interrompeu-se, subitamente.
Os olhos de Sakura perscrutaram a face de Ino, para ver se havia algum resquício de mágoa em seus olhos. Diferente do que imaginara, porém, ela mantivera-se com a mesma expressão.
Ino sorriu e Sakura teve certeza de que não havia mais rancor em seu coração.
"Tudo bem. Eu estou com outra pessoa agora." Disse, suavemente.
"Gaara?" Indagou, lembrando-se de ambos andando de braços dados em Konoha.
"Você é bem esperta." A loira piscou, divertida.
"Eu..." Sakura não encontrou palavras para explicar o quão aliviada e satisfeita se sentia. De repente, um peso enorme saíra dos seus ombros. "Obrigada, Ino." Agradeceu, num desabafo trêmulo.
"Não agradeça a mim, testuda. Agradeça ao Gaara."
Elas se observaram caladas, sorrindo uma para outra.
"Você pode...ser minha madrinha de casamento?" Indagou Sakura.
"Não abuse."
Silêncio.
De repente, as duas começaram a rir espalhafatosamente.
"Senti sua falta, porquinha." Disse Sakura, suavemente.
"Eu também, testuda."
Elas se abraçaram.
"Agora me deixa ficar um pouco com o meu pai, vai." Pediu Ino, enquanto se afastavam. Havia uma pequena tristeza surgindo no fundo dos seus olhos azuis. "E diz pro Gaara não fugir de mim." Pediu com um bico insatisfeito, demonstrando aquele jeito moleca que Sakura bem conhecia.
Quando a testuda saiu do quarto (sorrindo), Ino voltou os olhos para seu pai, deitado placidamente naquela cama de hospital.
Sentia falta da sua voz e do jeito como acariciava seus cabelos quando estava em casa, de como sua risada sempre fazia todos rirem consigo e como suas piadas eram divertidas, embora muitas outras não tivessem graça alguma. Ele era uma criatura tão viva, sempre de bom-humor, que parecia até um pecado deixá-lo parado e semimorto ali, como se houvesse apenas um corpo.
Quando perdera a mãe, anos atrás, Inoshi procurara desesperadamente suprir a presença dela em sua vida. Disfarçando a tristeza, afastava-se de tudo e todos e passava dias dentro de casa, pedindo para que Ino lhe fizesse companhia, os dois brincando de casinha e tentando cozinhar algo na cozinha totalmente fora de ordem.
Ela sempre soubera do sofrimento do pai e forçava-se a não chorar perto dele, pois sabia que apenas aumentava seu martírio. Ino trancava o quarto na hora de dormir, depois de receber um beijo de boa noite no topo da cabeça, e enfiava o rosto no travesseiro, desabafando ali toda a dor que ainda existia em seu coração. E, na manhã seguinte, ia acordar o pai com cócegas, sorrindo para não atormentá-lo ainda mais.
Com o passar dos dias, Inoshi negava as missões que recebia, alegando que precisava cuidar dela. Decidira cuidar da floricultura de Kyoko e Ino o ensinava tudo sobre as flores. Eles haviam se tornado pai e filha, como Kyoko sempre esperara que eles fossem. Iam ao parque e regavam o jardim, comiam algodão doce e ramen no Ichiraku, arrumavam a casa juntos e pulavam na cama, fazendo guerra de travesseiros. E o pai tornara-se a maior figura em sua vida.
Como sentia falta dele. Forçava-se a não pensar, a deixara para lá.
Quando Inoshi recomeçou a aceitar os trabalhos impostos pelo Hokage, ela já estava no fim da escola de treinamento. Ela dormia na casa de Sakura, a mãe desta sempre lhe acolhendo com todo o cuidado e delicadeza. E quando o pai voltava, sempre trazia um presente.
Estendendo a mão, Ino acariciou os cabelos loiros do pai.
"Você pode descansar agora, pai." Murmurou, os olhos lacrimejantes. "Eu vou ficar bem, achei quem cuide de mim." Explicou para ele, numa voz sussurrante. "Eu te amo, apesar de tudo. Você sempre foi um bom pai. Não sofra mais. Vai, pai. Vai cuidar da mamãe." Abaixou-se, beijando sua testa com suavidade.
Meia-hora depois, quando Ino saiu do quarto, deixou ali um pedaço do seu coração.
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"Gaara." Chamou, enquanto caminhavam pelo centro de Konoha.
"Hmm?"
"Eu te amo, ruivo." E ela riu.
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"Sakura."
"Deus!" Ela gritou de susto, dando um pulo. Então se virou, o coração aos saltos, as sobrancelhas franzidas em aborrecimento. "Não faça mais isso, Sasuke." Resmungou, tornando a baixar os olhos para o paciente que dormia induzido por um sedativo.
O Uchiha fez uma cara de desdém.
"Você devia ter sentido minha presença." Disse, rouco.
Sakura conteve o arrepio que ameaçava subir pela sua espinha, ao ouvir o timbre da voz dele. Diabos como Sasuke sempre conseguia arrancar dela as mesmas sensações!; resmungou em pensamentos.
"Eu estou concentrada." Justificou ela, tentando encobrir a voz trêmula com aborrecimento.
Como sempre acontecia, ele notou a sua tentativa frustrada e sorriu de canto. "Sei." Apenas acenou em positivo, cruzando os braços. "Bem, vamos?" Indagou.
"Onde?" Sakura voltou-se para o noivo, surpresa.
"Para casa, é claro." Respondeu Sasuke, como se fosse algo muito óbvio. "Seu turno acabou."
Ela sorriu.
"Você sabe a hora que meu turno acaba?" Perguntou, suavemente.
Uma coloração rosada quase imperceptível tomou conta das bochechas dele e Sasuke virou o rosto, escondendo aquela reação involuntária.
"Você sabe." Ela mesma respondeu o questionamento, aproximando-se dele. "Ai, Sasuke, isso é tão fofo." Disse, beijando-o.
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A tarde já caía quando eles chegaram ao Ichiraku. O céu pintado de rosa colorava as nuvens também e Ino suspirou, segurando a mão de Gaara.
Ela não podia estar mais feliz.
"Hey, pessoal!" Exclamou, acenando para os amigos sentados numa mesa dentro do estabelecimento de ramen. E puxou Gaara consigo, caminhando rapidamente na direção deles.
Tenten e Hinata se ergueram de suas cadeiras, correndo para abraçá-la.
Quando Ino soltou da mão dele, Gaara sentiu-se infimamente desorientado no meio daquelas pessoas que não conhecia e daquelas amigas espalhafatosas que combinavam perfeitamente com o jeito da sua loira: as três saltitavam na calçada.
"Ino! Achei que você não viesse, sua vaca." Disse Tenten, assim que parou de abraçá-la.
"Eu também, pra falar a verdade." Ino deu uma gargalhada alta. "Mas tudo bem, Gaara concordou em vir, não é?" Ela voltou-se para ele, os orbes azuis cintilando, e junto dela, voltaram-se também as outras duas garotas – que ele não fazia a mínima idéia de quem eram.
"Oi, Gaara." Cumprimentaram Tenten e Hinata, dando um risinho suspeito.
Gaara desviou o olhar, desconfortável, e não respondeu.
"Essas são Tenten e Hinata. Dá oi pra elas, Gaara!" Ino apresentou e logo beliscou no ruivo, o que ocasionou olhares divertidos da parte das meninas.
"Olá." Cumprimentou ele, contrafeito.
"Ele não é muito sociável." Comentou Tenten, marota.
"Não mesmo." Respondeu Ino.
As três começaram a rir.
"Yo, Ino."
Ela voltou-se ao ouvir aquela voz conhecida e deu um gritinho ao reconhecer Shikamaru.
"Shika!" Exclamou, correndo para abraçá-lo.
Quando a loira passou os braços ao redor da cintura do chuunin, o lábio inferior de Gaara tremeu, seus olhos estreitos e sérios.
"Ino, o Gaara tá com ciúmes. Não exagera na demonstração de afeto!" Gritou Tenten.
Ino voltou o rosto para o ruivo, sorrindo.
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"Eu quero casar com você, Ino." Ela ouviu-o, voltando-se para ele de súbito.
"Gaara, você-"
"Quero você só pra mim." Os olhos frios dele de repente mostraram um pouco de aborrecimento. "Ninguém pode tocá-la." Disse, mais para si mesmo do que para Ino.
"Você diz...Shikamaru?" Ino reprimiu a risada, tentando não parecer tão emocionada quanto estava. Ela sentia seu coração pequeno para tanta satisfação, mas isso era apenas um pequeno detalhe. "Ele foi apenas meu companheiro de time."
Gaara agarrou o pulso dela, olhando-a, sério. "Não use o pronome possessivo meu para se referir a outro homem. Você é minha. Ninguém é seu." Ele murmurou, soltando-a.
Passando os braços pelo pescoço do ruivo, Ino aproximou sua boca do ouvido de Gaara. "Você é meu, não é? Você é todinho meu." Então seus dedos longos e marotos se enroscaram por debaixo da blusa dele, tocando a pele quente, acariciando suas costas.
O calor escaldante lá fora fazia com que os corpos de ambos se recobrissem continuamente por uma fina e desconfortável camada de suor. Mesmo Gaara, tão acostumado ao clima, sentia-se transpirar.
"Faça amor comigo, Gaara." Ela afastou-se apenas um pouco, só para tirar a blusa.
À visão dos seios redondos, os mamilos rosados, ele sorriu – um sorriso discreto.
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Dia vinte e quatro de outubro, Yamanaka Inoshi morreu.
Ino não chorou a morte do pai. Ela apenas sorriu e Gaara lhe disse que estava tudo bem.
FIM
N/A: Bom, gente, finalmente o final! xD
Espero que tenham gostado tanto quanto eu gostei de escrever. Brigada pelas reveiws e pelo povo que andou acompanhando desde o início. Sou muuuuito grata a todos, que gostam e comentaram a fic. Sei lá. Gaara e Ino é perfeito.
Está nos meus planos uma NejixTenten, mas veremos.
Desculpem a demora. Época de vestibular, vocês sabem. E espero que comentem esse último cap, para eu saber o que vocês acharam do meu The End.
