9. A Rosa e o Medo
.
Fear is only in our minds
But it's taking over all the time
You poor sweet innocent thing
Dry your eyes and testify.¹
1983, oito anos antes
O homem loiro remexia nos documentos jogados em cima da sua mesa, praguejando. A veia pulsando no canto da sua testa indicava o estado da sua irritação e ele mal abriu a boca para descontar em um dos elfos a sua consternação quando o garotinho entrou em seu escritório, ainda com o pijama listrado e o cabelo loiro bagunçado, como quem tinha acabado de acordar.
Lucius levantou o olhar para o filho, que parou no meio do tapete persa. Reparou que o menino tinha uma expressão travessa no rosto rosado.
– Draco – disse, tentando não soar irritado – Você pegou a varinha do papai?
Ele balançou a cabeça em negativa, coçando um olho com as costas da mão.
– Tem certeza? Só me diga, certo? Eu estou atrasado para o trabalho. Vou ficar muito aborrecido se estiver mentindo para mim.
O loirinho negou com mais veemência, fazendo os fios loiros sacudirem loucamente.
– Se não disser agora, posso garantir que vai se meter em problemas. – Lucius disse com a voz mais perigosa. Draco correu para a porta do escritório, se agarrando nas pernas da mãe. Só então Lucius notou a esposa com o ombro apoiado no umbral das portas duplas e os braços cruzados. Apesar de sua incrível imagem, vestida numa camisola de seda azul, ela tinha um vinco entre as sobrancelhas, e não parecia nada feliz.
– Eu peguei a sua varinha, Lucius. Para garantir que não fugisse de mim como fez ano passado.
Ele bufou. Deveria ter imaginado.
– Draco, você não tem nada pra dizer ao seu pai? – perguntou ao filho, num tom sugestivo.
O bebê esticou a cabeça para fora da proteção das pernas de Narcissa.
– Liz 'nivesário, papai. – ele disse, e Lucius rolou os olhos para a esposa, mas abriu os braços para o filho e este veio para o seu colo, envolvendo o pescoço do homem com os braços.
– Obrigado, ok? Você é um menino muito bonzinho, mas é melhor ir tomar o café da manhã com a mamãe agora, preciso ir trabalhar. Infelizmente ela insiste em agir como se tivesse a mesma idade que você e acha divertido me atrasar para o trabalho. Mas não é divertido. – ele completou, em um tom sério, desviando um olhar para a esposa, que continuava com os braços cruzados e agora estava um tanto cheia de si, o cenho erguido em desafio.
– Funcionou, não foi?
– Já chega, Narcissa. Me dê a varinha e não procure uma discussão a essa hora da manhã.
– Você não pode fazer isso conosco. – foi a resposta séria que ela lhe deu, sem parecer que ia atendê–lo, fazendo com que Lucius perdesse a paciência.
– Eu não estou... – se interrompeu – Francamente, quantas vezes nós já tivemos essa discussão?
– Oito vezes. Oito aniversários. Oito anos em que você me negou uma coisa tão simples, ser condescente e respeitar uma das mais importantes tradições familiares. Que exemplo você pretende dar ao seu filho agindo dessa maneira?
Ele ergueu a sua própria sobrancelha loira, incrédulo diante do argumento.
– Essa é a coisa mais ridícula que eu já ouvi. Você realmente acha que Draco vai lembrar que eu não comemorei o meu aniversário quando ele tinha dois anos?
– E Bervely. Ela precisa entender a importância das confraternizações em família, você sabe que ela teve bases familiares frágeis e deturpadas. Sabe–se lá como isso pode se refletir mais tarde?
Ele teve vontade de rir, mas se conteve.
– Me desculpe, querida, mas você não está tentando apelar para qualquer preocupação que eu guarde pela educação da bastarda? Por que eu tenho que lhe lembrar... eu não dou a mínima.
Narcissa lhe lançou um olhar frio, por um breve momento, então deu meia volta e sumiu do escritório. Lucius suspirou, mas sem muito remorso. Não gostava de aborrecer a esposa, mas se era essa a condição para ter paz até o dia terminar, ele assumiria as conseqüências. Duas mãozinhas chegaram a cada lado da sua bochecha, e o filho virou sua cabeça forçando–o a olhar para ele.
– Papai – ele disse com um biquinho magoado – não bigue mamãe. Hoze é seu 'nivesálio!
– BD –
Lucius ficou para o café da manhã apesar do péssimo humor de Narcissa. Ele esperou que ela praguejasse qualquer coisa, mas a esposa comeu num silêncio de descaso, ignorando a sua presença.
A bastarda e Draco agora travavam alguma discussão rotineira aos sussurros – já que eram proibidos de falar alto durante as refeições.
– Pelas barbas de Merlin, Narcissa – ele reclamou quando não agüentava mais o silencio ofendido que a loira mantinha – Eu é quem devia estar aborrecido aqui!
– É claro que deveria – ela não tirou os olhos do café que servia para si mesma – Essa é só a sua mulher tentando comemorar o seu aniversário como se deve, eu acho que você deveria ficar furioso.
– Você sabe que eu considero aniversário uma comemoração sem propósito. Qual o meu mérito, afinal? Eu nasci, grande coisa. Porque não escreve para a minha mãe e lhe dá os parabéns pelo feito? Faça uma festa para ela, ela pariu!
Cissa fez um barulho como o de um gato aborrecido.
– Eu não vejo qual o problema de reservar esse dia para passar com a sua família!
– Não é a questão. Me diga o dia que quer e passaremos juntos. Qualquer dia no ano inteiro...
– Hoje!
– ...menos hoje! Eu não vou alimentar essa sua fixação doentia por aniversários. É só uma data!
– Eu não tenho uma fixação doentia, Lucius – sibilou – Você tem uma aversão, uma espécie de trauma com o próprio nascimento e não vou deixar você passar isso para o Draco!
– Ótimo, nós faremos uma grande festa no aniversário dele.
– Por que você é tão teimoso?! – exasperou–se.
– Eu só não vejo sentido em comemorar menos um ano para viver. Todas as pessoas e seus parabéns hipócritas.
– Essa é uma perspectiva muito negativa da coisa toda.
– Sinto muito, querida, mas este sou eu.
Eles se encararam por um momento, ele como quem diz 'você suporta porque quer' e Cissa com vontade de chamá–lo de babaca, até um barulho do outro lado da mesa chamou a atenção.
– Olhe o que você fez! – Bervely praguejou para Draco sobre sua tigela de cereais entornada pela toalha de mesa – Tia, ele não pára de colocar essa colher nojenta cheia de baba no meu prato! – choramingou.
Narcissa suspirou, se sentindo muito cansada. Ela chamou um elfo para limpar a bagunça e Lucius aproveitou o momento de distração para levantar da mesa e anunciar que estava indo trabalhar. Ele deu um beijo breve na esposa e em Draco, enquanto Cissa chamou a atenção da sobrinha.
– Bevy, dê parabéns ao seu tio, hoje é aniversário dele.
Ela olhou para o homem, o nariz franzindo, e de volta para a tia.
– Eu preciso mesmo?
– Sim, você precisa. – ela disse entre dentes. – Vá, seja boazinha.
Ela fez uma careta e pigarreou.
– Hum, senhor Malfoy? – disse incerta – feliz... feliz aniversário.
Lucius olhou feio para Narcissa e deixou o salão de refeições, ignorando a sobrinha.
– Por que ele me odeia? – ela perguntou, olhando para o lugar de onde o tio sumira.
Narcissa alargou seu cristalino olhar azul com dó.
– Oh, meu bem, Lucius não te odeia. É apenas que... ele não sabe como demonstrar, entende. Ele não lida muito bem com crianças.
– Ele lida muito bem com Draco. – disse olhando com desgosto para o primo, que tinha puxado o prato de cereal com leite dela e o usava como um tambor.
Cissa rolou os olhos para o filho com um sorriso. O misturado de leite escorria pela boca rosada e empapava a gola dos seus pijamas. Voltou–se para Bevy, apertando os lábios diante da sua postura ainda incomodada.
– Ouça, querida, é complicado. Vá se trocar e depois me espere na biblioteca para a sua lição de hoje, está bem? Lá conversaremos. – e dizendo isso se virou para o elfo que estivera parado ao lado da mesa durante toda a refeição como sempre fazia – Dobby, chame Charlotte para limpar o Draco e ficar com ele agora pela manhã. Eles podem dar um passeio no jardim, o dia está bonito.
– Sim, senhora, Dobby vai indo. – o elfo se curvou e foi para a cozinha.
Narcissa se voltou para encontrar a sobrinha ainda no mesmo lugar e a olhando agudamente.
– Bevy, por Merlin, anda logo – disse começando a exasperar–se.
– O senhor Lucius não gosta de mim e o senhor Lestrange também não gostava. É por que eles não são meus pais?
A mulher empalideceu.
– Quem foi que lhe disse que Rodolphos não é o seu pai?
Perante o dar de ombros da criança, Cissa pulou da sua cadeira e deu a volta na mesa, dobrando os joelhos para alcançar a altura dela e a tomando pelos ombros. Seus olhinhos de ônix corriam pelo rosto da tia com ansiedade.
– Tem que me prometer que nunca vai repetir isso para ninguém. Entendeu? Não comente isso com ninguém.
– Charlotte sabe.
– Então vou falar com ela também. Vai me prometer?
– Eu não tenho um pai? – sua expressão era neutra e reticente.
– Vai me prometer, Bevy? – apertou os ombros dela com mais força, evitando
deliberadamente o campo minado que o assunto predizia – Vai ser boazinha sobre isso, não é?
Ela assentiu. Não dava para dizer não a tia Narcissa. A mulher desanuviou a expressão e se ergueu, desamarrotando a saia longa.
– Ótimo, agora vá trocar a roupa para a lição. Consegui um livro muito legal para você.
– BD –
Os pequenos dedos folhearam um exemplar novo de Mil Ervas e Fungos Mágicos. As folhas lustrosas brilhavam, e cheirava bem como tinta fresca. A capa dura tinha uma imagem de um curioso e gordo cacto que pulsava e parecia coberto de acne rosada. Era nojento e engraçado ao mesmo tempo.
Dentro do livro, cada par de página dava conta de uma espécie de planta diferente com ilustrações bem vívidas, informações em letras miúdas e algumas instruções detalhadas de como cultiva–las. Bevy se deteve numa que mostrava uma planta retorcida e encaroçada. Lembrava–se daquela, tinha visto na estufa de Bellatrix anos atrás e chamara a sua atenção porque girava em torno do próprio eixo sem parar, como um peão.
Espiracéia, usualmente suas folhas são usadas para embaralhar os sentidos. Muito popular entre jovens da década de 70. Seu uso indiscriminado provoca abobamento e fala arrastada e pode durar de 24h a duas semanas.
– E então? – Cissa a olhava com expectativa – Que achou?
Bevy tinha aprendido a ler há pouco tempo. Quase todas as manhãs a tia lhe pedia para ler em voz alta algum livro diferente – sobre a geografia local, costumes bruxos, texto longos que descreviam paisagens e até mesmo pequenas receitas.
Era cansativo, mas sempre valia o incentivo e a nota de orgulho da senhora Malfoy. O brilho de satisfação em seu rosto significava muito para Bevy, embora ela se sentisse muitas vezes injustiçada; enquanto tinha que se esforçar em palavras complexas e dar mil idas ao dicionário grande e empoeirado para ver Cissa contente consigo, tudo o que Draco precisava fazer para conseguir o mesmo era aprender uma palavra nova.
– É muito bonito. – disse com sinceridade passando os dedos pelas imagens – Gosto de plantas. Bellatrix tinha uma estufa com muitas flores na mansão Lestrange.
– Ah, sim, eu a conheci. Sua mãe transferiu a bendita estufa quilômetros inteiros através do país, até Lancaster.
– É possível fazer isso? – a garotinha se surpreendeu, levantando o olhar fascinado.
– Bem, ela fez. – disse dando um tom de assunto terminado. Incomodava a Narcissa quando a sobrinha parecia empolgada demais a qualquer citação de Bellatrix. Era suposto que a esquecesse. Bevy tinha parado de pedir para ir visitá–la Azkaban e isso era um alívio, mas Cissa temia que a menina embora não comentasse mais, estivesse pensando sobre a mãe mais frequentemente do que poderia ser saudável – Agora abra a página 45 e leia para mim sobre Mandrágoras.
– "Mandrágoras são plantas usadas para produção de um poderoso tônico reconstituinte, usado para trazer de volta pessoas que foram transformadas ou enfeitiçadas no seu estado natural. Enquanto imaturas, precisam se desenvolver sob terra sempre fresca. Casoopte–se por cultivá–las em vasos, devem ser reenvasadas periodicamente a fim de não asfixiarem." – ela se interrompeu, puxando o dicionário. Já sabia o que significava "imatura", mas "asfixiada" ainda era uma palavra desconhecida. – Asfixiar. – recitou – sufocar, abafar. Não poder respirar livremente. Causar asfixia, do grego asphyxia.
– O quê? Ah. – a mulher voltou de uma onda distante de distração – Faça duas frases com a palavra, só para fixar, ok?
– Com que palavra? – ela testou, fechando o dicionário.
– Com a que acabou de procurar, Bevy.
– A senhora não estava prestando atenção!
– Não estava mesmo, me desculpe. Querida, vou precisar fazer uma coisa. Fique aqui terminando de ler sobre Mandrágoras e escreva duas frases sobre cada palavra nova que encontrar, está bem? Me traga a lista mais tarde para eu lhe testar.
Ela se levantou para deixar a biblioteca.
– Tia – a menina chamou, seus olhar afiado – a senhora está bem?
– Sim – Cissa sorriu tranqüilizadora – Só tenho que tomar umas providências em nome da tradição.
Da saída, passou pelo quarto de Draco e entrou, encontrando–o sendo banhado por Charlotte. Espuma tomava parte do chão e a menina estava empapada como se ela mesma estivesse tomando banho. Os dois se divertiam com alguns golfinhos encantados de banho que Lucius trouxera de Londres para Draco meses atrás.
– Oh, Senhora Malfoy! – Charlotte se ergueu rápido, estivera de joelhos no chão ao lado da banheira – Me desculpe por isso, o Draco se empolga no banho, mas vou enxugar tudo quando acabar.
– Está bem, querida – ela disse sorrindo – peça a um elfo para enxugar. Vim lhe pedir outra coisa. Sabe que hoje é o aniversário do senhor Malfoy?
– Draco me contou – a garota revelou com diversão.
– Liz 'nivessário! – o bebê jogou água para cima, e as duas riram.
– Pois bem. Quero que dê ao Draco papel e tintas coloridas e lhe mande fazer um desenho de presente para o Lucius com muito colorido. Depois me traga, sim?
– Pode deixar. – assentiu.
– E não o deixe demorar muito ai, ou ele vai acabar com um resfriado. – recomendou.
Quando ela saiu, Draco virou para Charlie e negou sacudindo a cabeça muito rápido.
– Charlie não tila Daco do banho agola. Peixinho qué megulho! – justificou apontando o brinquedo.
– Ok, bebê–peixe – afagou o cabelo loiro grudado na cabeça – só mais um pouco, ouviu bem?
– BD –
Um cheiro sedutor se espalhou pela mansão Malfoy de tal modo que galgou as escadas e alcançou o andar superior. Bevy o farejou e sua boca encheu–se de saliva. Aquela não era qualquer torta – era a Torta de Maçã da tia Narcissa, praticamente uma lenda. Dando sua lição por terminada, pegou o pergaminho rabiscado de frases e seguiu corredor afora. Um murmurar divertido chamou atenção, vindo do quarto de Draco. Espiou para dento da porta entreaberta.
– Entra, Bevy, vem desenhar conosco.
Charlotte e Draco estavam debruçados sobre um enorme pergaminho. O bebê tinha tinta até os braços, apesar do cabelo molhado indicar que mal saíra do banho. O quarto cheirava como sua loção de bebê.
– Por que estão fazendo essa bagunça? – fez uma careta ao ver as manchas de azul e verde nas roupas dos dois e no chão.
– Draco está fazendo um presente para seu papá porque é aniversário dele. Olha que bonito – apontou o monte de rabiscos que o bebê fazia com os dedos – Desenhou a casa, um bonito cavalo e também a você. Bem, eu acho que é você. Essa pequena bolinha preta e aqui, vê? Agora está desenhando o papai e a mamãe, não é, Draco?
Na verdade o que ele estava fazendo eram duas linhas cor de laranja, com cabeças grandes e uns braços tortos. Ela rolou os olhos se aproximando mais para julgar.
– Ele desenha bem mal. – concluiu.
– Não é verdade. Quando eu tinha dois anos não desenhava assim certinho. Porque não faz também? Pode dar de presente um seu, junto.
Bevy franziu as sobrancelhas finas até quase se encostarem.
– Porque eu faria isso?
– Bem, você não vai dar nada a ele? Ele é seu tio afinal de contas.
– Eu não gosto de tintas. – ela disse, então se afastou indo para a porta – vou atrás de tia Narcissa, ela está fazendo torta de maçã!
Narcissa cozinhava quando estava feliz. Quando isso acontecia, ela mandava todos os elfos para longe, usava um avental com girassóis e cantarolava uma canção. Bevy adorava observá–la, ela parecia uma fada de luz deslizando pelo piso lustroso da cozinha da mansão, acenando a varinha para derramar e dosar ingredientes, eventualmente tirando as mechas do seu cabelo do rosto, pois sendo tão liso e lustroso, tinha dificuldade de ficar preso.
Ela amaciava a massa com as próprias mãos. Seus dedos ficavam brancos de farinha e o cheiro do recheio esquentando lentamente numa panela já tomava o ar aquela altura. Então ela sentava, esperava então colocava sua apetitosa obra de arte na janela para esfriar e o cheiro maravilhoso que desprendia era como um chamado a toda casa.
Quando Bevy chegou à cozinha, a torta dourada já estava no parapeito, desprendendo uma suave névoa de calor para o dia fresco. A mulher desamarrava o avental e soltava os cabelos, parecendo apressada, e não feliz.
– A senhora fez torta! – Bevy comemorou com animação, ao que Cissa negou.
– Não, Bevy, essa torta é para seu tio Lucius.
Os elfos reapareceram e a mulher lhes deu algumas ordens, mas Bervely estava aborrecida demais para escutar. Tudo era para Lucius, e ele nem mesmo merecia torta, todo enfezado e brigando com tia Narcissa no café da manhã. Deu meia volta e ia sair quando a tia a chamou de volta.
– Vou até a cidade – avisou, apressada – Se Lucius chamar da lareira lhe diga que estou cuidando do jardim ou algo assim. Avise à Charlotte também. Vou lhe fazer uma surpresa, então ele não deve saber que saí. Ah! Peça para ela vestir Draco com aquele lindo conjunto azul marinho de veludo que os Parkinson lhe deram de Natal.
– Tia Cissa – ela se virou meio impaciente, já deixava a cozinha – Acha que preciso dar algo de presente a tio Lucius? Como o Draco vai dar o desenho?
– Eu não sei, se quiser... beijos, meu anjo, não demoro. – e com isso foi embora, deixando só o cheiro inebriante da torta de maçã na qual Bevy não podia tocar.
–BD–
– Ela disse que não demorava. – Bevy resmungou uma décima vez do topo da cama de Draco, balançando as pernas, impaciente.
– Não seja boba. Acho que ela foi comprar algo para comemorar o aniversário do senhor Malfoy agora à noite. Porque mais mandaria arrumar o Draco?
Charlotte estava com a blusa encharcada e as faces ainda vermelhas, lutara para tirar o bebê Malfoy do segundo banho do dia. Ele ainda segurava um golfinho que se debatia em sua mão e impedia a manga do casaco de entrar devidamente.
– Ah, por Deus, bebê, solte isso! – disse lhe arrancando o brinquedo, ao que Draco fez um beicinho – não, não se aborreça, olha lá no espelho como você está bonito, olha.
O espelho refletia o tom branco–leite da pele dele contra o azul bem escuro. Seus olhos grandes e brilhantes se destacavam e como um par de pedras água–marinha lapidadas. Ele era um lindo e caro boneco, mas não se portava como um. Bevy desejou que o primo fosse quieto e silencioso como as bonecas das prateleiras do seu quarto, ai quem sabe gostaria um pouco mais dele.
– Charlie, você tem uma caixa?
– Que tipo de caixa?
– Uma para eu guardar o presente do tio Lucius.
Charllotte lhe olhou com desconfiança.
– O que vai dar para ele?
– É segred... digo, é surpresa.
– Ah, Bevy, não se meta em problemas.
– Eu não faria isso. – disse, soando um pouco ofendida.
– Ok, pega essa caixa aqui que veio a roupa do Draco. É bem bonita.
Ela pegou a caixa e a tampa que também eram azul escuras, só que com estampa de estrelas amarelas.
– Acha que estraga se eu fizer uns buraquinhos nela?
– Buraquinhos... quê...? – desconfiou – Bevy, à sério...
– Não enche, Charlie – bufou, pulando da cama para deixar o quarto – ele vai gostar, você vai ver.
– Leve também o desenho do Draco. Como a senhora Malfoy está demorando, e o enrolei e pus um laço, caso ela chegue em cima da hora e não tenha tempo de arrumar.
Um pouco mais tarde e com sua missão cumprida, deixou tanto a caixa (com dois buracos um de cada lado) quanto o desenho sobre a cama dos tios, foi descer para jantar. Eles jantavam antes dos adultos nos dias de semana porque Lucius chegava muito tarde.
O estranho era a tia Cissa estar demorando também. Ela raramente saia da mansão, e quando ia à cidade costumava levar Bevy e Draco para passear, então sua ausência deixava a casa vazia e parecendo enorme e silenciosa demais.
Estavam a ponto de terminar a sopa quando Dobby entrou correndo no salão de refeição. Seus olhos de bola de tênis poderiam pular das órbitas.
– Dobby, elfo mau, não pode entrar esbaforido assim enquanto comemos! – Bevy praguejou. Esbaforido era uma palavra que pesquisara no dicionário há uns três dias antes, depois de ler num conto de gnomos.
– Dobby pede perdão à menina Black! Vir avisar que tem um homem entrando na mansão, Dobby dizer que só crianças estão, mas homem insiste em esperar aqui pelos senhores Malfoy.
– Que homem, Dobby? Você não pode deixar alguém entrar assim na mansão, o senhor Malfoy vai arrancar o seu couro! – Charlie repreendeu. Dobby levou a sério o comentário e começou a bater sua cabeça na quina na mesa.
– Dobby, chega! – Bevy deu um grito estridente que o fez parar – você pode ir se castigar na cozinha depois, mas diga logo que homem é que está vindo!
– Homem do ministério, homem de roxo com distintivo!
Uma sombra de terror passou pelos olhos da menina. Ela virou–se à Charlotte atemorizada e repentinamente pálida.
– Eles estão vindo, Charlie, eles nos acharam, eles me acharam... – choramingou.
– Do que você está falando...?
Um perfil alto acompanhando de dois pequenos e nervosos elfos foi se aproximando da casa. A sala de refeição da mansão Malfoy tinha janelas grandes que deixavam ver o jardim da frente da casa e conseqüentemente o caminho de entrada.
Bevy viu o terror antigo se reavivar semelhante demais para não ser real: embora só fosse um, e não muitos homens, e ele viesse a pé, e não sobre um enorme cavalo com seus cascos pisoteando a grama, ainda assim ela sentiu o medo sacudir seu corpo.
Ela correu para trás de Charlotte, que estava surpresa.
– Bevy, está tudo bem, os homens do ministério não são maus!
– Eles levaram minha mãe! – ela disse num misto de grito e choro – Eles vão levar tia Narcissa agora! E eu também!
Charlotte compreendeu toda aquela preocupação e suspirou com dó.
– Fique aqui bem quietinha com Draco enquanto eu falo com ele. Vai dar tudo certo. – prometeu, e foi para o hall de entrada com Dobby em seus calcanhares.
Bervely não acreditava. Se abaixou num dos pés da mesa, que eram largos e ocultavam bem seu pequeno corpo. Apurou os ouvidos. Draco saltou de sua cadeira e veio se agachar perto dela animado.
– Bincá de econder?
– Shii! – reclamou com nervosismo – Não é brincadeira de esconde–esconde, seu bobo, eles não podem nos ver!
O bebê assentiu e imitou sua posição. A menina o puxou para perto, se certificando que estavam fora de vista – ouviu a porta abrir e a voz masculina com um sotaque estranho e carregado.
"Insisto em esperar um dos senhores Malfoy aqui. Trago um comunicado urgente."
"Sinto muito, senhor, eles não estão e não podemos deixar estranhos entrarem"
"Não é problema, senhorita, posso esperar por eles aqui fora."
– Não! – Bevy disse baixinho, apertando os punhos. Ele não podia esperar, era uma armadilha, assim que sua tia chegasse ele a levaria a força e nunca mais a veria!
Mal tinha pensado nisso, um estalo distante anunciou que Narcissa chegava. Ela sempre aparatava dentro dos terrenos, ela e Lucius eram os únicos que podiam fazer isso sem disparar os feitiços de proteção por toda a mansão. Logo a voz preocupada da tia trouxe a Bevy duas sensações – alívio e tensão logo em seguida, não podia impedí–la de ser encontrada pelos homens de roxo.
"O que o senhor está fazendo em minha casa?" ouviu–a reclamar, e esperou com ansiedade. "Pelas barbas de Merlin, não creio que qualquer um, sendo ou não do Ministério, possa invadir uma propriedade privada sem permissão dos seus donos!"
"Mil perdões, senhora Malfoy, mas a natureza urgente do assunto a que venho me faz agir assim. Acredito que a senhora vá querer me convidar a entrar e conversar em particular."
"Do que se trata? Algo aconteceu ao meu marido?"
"Não senhora, inclusive, o assunto é referente ao senhor Malfoy, mas na ausência dele..."
"Certo, então" – mesmo dali Bevy pode ouvir o bufar de exasperação da tia. – "Os elfos vão lhe levar à sala de visitas, me espere lá por um momento."
Os passos dela foram se aproximando e logo sua silhueta altiva apareceu no salão de refeição. Tão logo Bevy a constatou sozinha, correu para seus braços e a abraçou com toda força. Cissa a recebeu com surpresa, mas abraçou forte de volta. Sentia os soluços da sobrinha. Era tão raro que a garota chorasse, ela devia estar aterrorizada. Afagou seus cabelos um pouco até que o aperto ficasse menos vigoroso.
– Bevy, está tudo bem – a tranqüilizou falando baixo em seu ouvido – Anda, me deixa olhar para você – ela se afastou e revelou–se pálida, assustada e com os cílios grudados de lágrimas, os orbes escuros cintilando – Se acalme, estou bem aqui.
– Ele é o homem do Ministério – perguntou sem fôlego – como daquela vez. Eles não vieram para me pegar, vieram? Ou para buscar você? Vão te levar para longe como levaram a Bellatrix? – ela despejou tudo aquilo muito rápida e soluçante. Cissa teve uma onda de ternura por aquela figurinha atemorizada.
– Não, coração, não vou a lugar algum. Ele não é um homem mau e só quer falar comigo. Vou ter que ir saber o que quer, mas tem que me prometer que vai se acalmar.
Ela segurou Narcissa mais forte de novo.
– Não me deixe sozinha. – choramingou.
– Hey, hey, tem que confiar em mim. Alguma vez já menti pra você?
Bevy negou, fungando.
– Então. Agora pare com essas lágrimas, está assustando Draco. Você é ou não é uma Black? Seja corajosa. Vai lá ficar com seu primo. Charlie, fique aqui com eles. Não demoro.
Bervely deixou a tia ir e enxugou o rosto, desviando–se de Charlotte que assistia a cena da porta. Encontrou um Draco de novo fazendo beicinho e com os enormes olhos azuis a fitar–lhe em antecipação. Parecia que se ela voltasse a chorar ele choraria também. Achou graça daquilo e acabou rindo da expressão dele.
– Você é mesmo um bobo, Draco. – zombou, a voz meio trêmula, e lhe deu língua. O primo enfezou–se e ela riu de novo apesar do coração ainda pesado de medo.
Cissa realmente não demorou com o homem do Ministério. Mas quando voltou, desta vez ao quarto de Bevy, onde os garotos estavam reunidos perto da lareira, anormalmente quietos, ela tinha uma expressão atribulada. Seus olhos estavam meio perdidos quando falou, e a voz era automática.
– Vou ter que fazer uma pequena viagem, meus amores. Acho que volto amanhã, na verdade não sei bem.
– Não! – Bevy ficou de pé – Você prometeu!
– Não seja difícil, Bevy. – Charlie lhe advertiu, percebendo que algo não ia nada bem com Narcissa. Era claro que o homem do ministério trouxera notícias ruins.
– Não, não – a garotinha bateu o pé. Não ia deixá–la ir. Bella prometera que voltaria e nunca, nunca voltara. – Me deixe ir com você, tia Cissa.
– Não pode ir comigo, vai ter que agir mais maduramente do que está fazendo agora. – falou firme – te pedi para confiar em mim. Sei que está preocupada, mas lhe garanto que eu jamais deixaria vocês aqui sem mim, eu vou voltar e seu tio Lucius também, porque somos uma família, lembra? E enquanto eu estiver fora, você deve ajudar Charlotte a manter tudo em ordem.
Ela deu uma olhada rápida para o bebê, que alheio a qualquer problema, cantarolava uma canção que aprendera no último Natal.
– Não vai levar Draco, então? – perguntou, desconfiada.
– O quê? Prefere que Draco fique aqui com você? Pensei que não gostava de tê–lo por perto se pudesse escolher.
– Não gosto mesmo – ela confirmou rápido – mas sei que se deixá–lo aqui, vai ter voltar rápido.
Cissa achou graça. Ela quase riu apesar do peso da notícia que acabara de receber.
– Está bem, deixo Draco como garantia com a condição de que vai ajudar Charlie a cuidar dele até que eu volte.
Aquela parecia uma premissa muito pesada e Bevy teve que pensar, olhando do primo para tia e para o primo de novo, torcendo–se numa careta de esforço ao dizer "Está bem".
Narcissa lançou um último olhar significativo à Charlie e esta lhe devolveu com um sorriso tranqüilizador, garantindo sem palavras que a cobriria e manteria tudo sobre controle para ela.
Sim – pensou Cissa quando recolhia sua capa, varinha e a bolsa, muito atordoada, e jogava pó de Flú na lareira – aquela menina Lestrange era uma peça de ouro e não sabia como teria dado conta das duas crianças sem a sua ajuda.
–BD–
Lucius já se preparava para ir embora. Aquele fora um longo dia de trabalho em cima de papeis enfadonhos. Sua atividade com legislação bruxa se reduzira a um monte de defesas pouco interessantes desde o fim da guerra; apesar de tudo ele ainda advogava para os bruxos mais influentes do país e ganhava dinheiro aos montes por seu trabalho – e também por sua reputação e clientes poderosos, conseguira se livrar das acusações sobre ser um comensal da morte.
O homem lembrava com satisfação de alguns bruxos que levara à falência – perderam prestigio e fundos financeiros e até as próprias calças – por seu intermédio, pela sutil trama de vinganças que traçara àqueles que duvidaram da sua integridade.
Todo mundo com o mínimo de juízo sabia que era perigoso mexer com Lucius Malfoy. As lembranças calorosas de quem fizera sofrer por acusá-lo serviam de combustível para suportar o trabalho burocrático. Ele ria consigo mesmo, arrumado a papelada em pilhas para retomar no dia seguinte.
Em poucos minutos estaria em casa e com sorte Narcissa teria parado de insistir sobre aquela coisa de aniversário. Ganharia uma massagem daquelas mãos incríveis, ela lhe daria provavelmente um pouco mais do que isso e teria uma noite de sono bem agradável.
A linha de pensamentos foi quebrada quando a porta abriu. A sua secretaria já tinha ido embora àquela altura – ela tinha até aparecido para avisar, não tinha? – então quem quer que fosse estava sendo no mínimo pouco educado em não bater na porta.
Para sua surpresa, quando levantou o olhar, deu–se com Narcissa parada e encarando–o.
Ele teve um vislumbre da última vez que a esposa viera até o seu trabalho, em seu primeiro ano de casados. Ela tentara animar seu escritório com um kit festa que espalhou estrelas verde e prata e cartazes com seu nome pela sala. Bem, Lucius tinha ficado muito aborrecido. Felizmente fizeram as pazes quando ela arrancou a sua capa e revelou estar só de lingerie, e uma que combinava com a decoração que trouxera.
Ainda assim fora constrangedor quando outros colegas de departamento viram balões pairando pelo corredor, saindo da sua sala. Era o tipo de coisa que diminuía a sua autoridade e o Malfoy odiava ser posto ao ridículo.
– Narcissa – ele começou, num tom de alarme – eu pensei que podia confiar em você não repetir aquilo do ano passado. Não no meu ambiente de trabalho!
– Lucius...
– Seja lá o que inventou dessa vez – ele anunciou, levantando e empurrando sua cadeira pesada, que rangeu – Não faça. Dessa vez eu não vou ser complacente. Eu não admito esse tipo de comportamento...
– Lucius – ela tentou de novo, a voz cansada.
– Vamos para casa. Eu não quero saber o que tem dentro dessa bolsa, palhaços que cantam "Have a Magic Birthday" ou... ou não sei o quê! Se você pudesse apenas respeitar a minha vontade e deixar passar essa data maldita como se fosse qualquer outra...! – ele sabia que estava sendo grosseiro, mas não podia evitar.
– Lucius, cale a boca e me ouça.
A verdade é que o loiro não era o mais sensível dos homens, então ele demorou a perceber o tom tempestuoso dos olhos dela e só captara algo de errado pelo timbre da sua frase.
Se encararam até que ele captasse a gravidade da situação pelo vinco tenso entre as sobrancelhas dela. As mãos também tremiam ligeiramente.
– Aconteceu alguma coisa com o Draco? – foi tudo o que pôde pensar.
– Não. O Draco está perfeitamente bem. É melhor se sentar.
– Diga logo, Narcissa. O que houve?
Ela apertou os lábios. Como ia falar aquilo? Não queria. Já não bastava a dor que a guerra trouxera? Não podiam viver mais um pouco de tranquilidade?
– Um auror do ministério esteve lá na mansão hoje, procurando por você.
– Um auror? E porque ele não veio até aqui, diretamente a mim?
– Bem – ela sugou ar pela boca, buscando força – era um auror do ministério da Suiça.
Ele claramente empalideceu. Sua voz estava mais grave e o azul dos seus olhos, mais escuro, quando voltou a falar.
– Fale de uma vez, Narcissa, é a Dallas?
Ela sentiu os olhos encherem de lágrimas densas.
– A casa deles pegou fogo, mas alguém a selou e não puderam sair. Estavam lá dentro e queimaram... oh, Lucius!
Ele a tomou nos braços, mas seus músculos estavam duros e mal a acolhiam.
– Estão mortos, todos eles?
– E acho... só Dallas e Thor... o pequeno Hector, ele está em Drumstrang... – ela não conseguia mais formular as frases, mas se afastou dele para ver seu rosto. Estava tenso e não demonstrava emoção. Se Cissa não conhecesse as matizes de seus olhos, poderia dizer que dava a noticia sobre estranhos, e não sobre sua prima – que sempre tivera como a uma irmã – e seu cunhado.
– Então nós temos que ir à Suiça. – ele constatou.
– Precisamos... reconhecer o corpo... – nem acreditava que aquelas palavras tinham saído da própria boca – e noticiar ao Hector. Ninguém o fez ainda, foram cuidadosos, os aurores, acharam melhor que ele soubesse por um familiar.
– Então vamos agora, e estaremos lá pela manhã.
Ela assentiu. Gostaria que ele não parecesse uma rocha inabalável quando sabia que estava se desmanchando por dentro. Ele era filho único, e também Dallas, de modo que foram como irmãos até ficarem adultos e cada um seguir com a própria vida.
E agora estavam indo, não para reestreitar laços há muito esgarçados, mas para reconhecer um corpo provavelmente queimado e retorcido sobre alguma maca de necrotério.
– BD –
1991, de volta ao hospital.
– Eu preciso lhe mostrar algo, mas será difícil para você. Confia em mim?
Ela assentiu, fechando seus olhos. Não confiava em sua voz. Mas confiava nele.
A sala de atendimento do Dr. Fritz era a mesma de sempre – as paredes cor de creme, assoalho de salgueiro com arranhões, duas cadeiras com uma mesa entre elas, e o enigmático quadro abstrato na parede do fundo, rajado em verde e azul. Mas, era a primeira vez que entrava ali sentindo que, quando saísse, não seria mais a mesma pessoa de antes.
O que talvez não fosse assim tão terrível. Doze mal podia compreender quem ela era, o total significado disso, desde que acordara do seu sono de seis meses no hospital.
– Por favor, sente-se.
Obedeceu, um bolo se formando em sua garganta com a expectativa. Assistiu o medibruxo dar a volta na mesa, abrir uma gaveta e tirar duas coisas. Não eram nada impressionante, nenhum dos objetos pareciam ser "difíceis" para ela.
Um livro e um espelho.
Fritz sentou em sua própria cadeira, hesitou por um momento e escorregou o espelho sobre o tampo da mesa, na direção dela.
– Dê uma olhada, e me diga o que vê.
Doze franziu ligeiramente seu cenho, aceitando o objeto e erguendo a superfície refletora para a frente do seu rosto. Ela sempre se perguntara porque nunca tinha visto um espelho no hospital, nem em seu quarto, nem em nenhum corredor. Chegara à conclusão que que talvez a equipe os considerasse objetos perigosos para deixar ao alcance dos pacientes, pois sabia-se que feitiços anti-quebra não eram completamente eficazes em superfícies refletoras.
Mas, numa reflexão tardia, nem mesmo as outras superfícies espelhadas do hospital refletiam. Os vidros das janelas e de algumas portas, os pratos e talheres…
Sua linha de raciocínio quebrou-se brutalmente quando a imagem refletida foi finalmente assimilada por seu cérebro. Ela olhava para um rosto oval, suave, que terminava num queixo pequeno e fino. Havia um rosado saudável nas bochechas, mas o mais marcante eram um par de olhos amendoados, enormes e azuis celeste. O cabelo que aqueles olhos espantosamente azuis viam eram castanho avermelhados, meio volumosos, com cachos fechados em suas pontas.
Sua boca – no momento aberta num espanto mudo – era pequena e polpuda na parte de baixo, como a de uma boneca blythe. Todo tipo de emoção passou naquele rosto, de estupefação à repulsa. Mas quando ela abaixou o espelho, podia-se sumariar seu estado como o mais puro horror.
– O que…? Como…?
O Dr. Fritz a olhava com expectativa e preocupação, e ela se forçou a puxar bastante ar, a fim de articular o próprio discurso. Enquanto o fazia, lançava olhares ao espelho, como se esperando que ele de alguma forma tivesse mostrado a ela o reflexo errado de propósito.
– Mas essa não sou eu! – disse por fim, de forma desesperada, como se fosse muito importante que ele acreditasse – Esse não é o meu… eu não…
– Eu sei. Nós sabemos. – disse, calmamente. – Uma vez me perguntou qual era o dano mágico que a tinha trazido até aqui, e na ocasião eu não pude responder, mas… ai está. Não o seu coma, não os seus pesadelos. Mas o seu rosto.
Ela arrebatou o espelho de novo. Não conseguia acreditar, não fazia qualquer sentido lógico o que via ali.
– Quer dizer que isso não é o efeito de alguma coisa? Poção Polissuco? Uma azaração de ridículo mau gosto?
– Não – ele suspirou pesarosamente – nenhuma poção ou feitiço de transfiguração humana dura tanto tempo. Tudo o que tentamos para reaver o seu rosto original foi inefetivo, e pensamos que pode ser permanente.
– Permanente! – ela repetiu com uma dose aguda de pânico. Aqueles olhos azuis não eram os dela. Aqueles cabelos… – Como algo assim pode acontecer a um bruxo? Mudar sua aparência sem saber como e não conseguir voltar ao normal? Isso é sequer possível?
– É possível, para alguns bruxos… – a voz dele foi morrendo. Esperava uma reação ruim, mas ela parecia verdadeiramente perturbada com o que vira no espelho. Como se não estivesse apenas diferente, mas desfigurada, o que certamente não era o caso. Doze tinha, se muito, a aparência de uma garota inglesa típica.
Não. Ela tinha a aparência de uma garota inglesa típica específica. Preparando-se para talvez o aspecto mais curioso do dano mágico de sua paciente, desta vez o Dr. Fritz empurrou o livro até ela, sentindo-se intrigado em saber o que aconteceria a partir dali. Esperara para ter respostas desde que a paciente acordara, e aguardar o momento certo lhe custara muito auto-controle.
– Olhe para esse livro. Você já o viu antes?
Ela continuava tão atordoada por estar presa a um rosto que não era o seu, que demorou um tempo para perceber o que lhe fora perguntado. Olhou rapidamente para a capa do tal livro, o que importava um livro, afinal, quando ela tinha uma coisa tão séria acontecendo ali na sua frente, como estar usando a cara de outra pessoa?
Mas então ela olhou de novo. Os olhos azuis que portava, apesar de não serem os seus, se arregalaram em um reconhecimento atônito. Havia uma ilustração em cores na capa do volume, mostrando um casal de crianças voando. Um deles era um rapazinho vestido de folhas, com um chapéu engraçado com uma pena.
A outra era uma garotinha de camisola. Nada errado até ai. A não ser pelo fato de que o rosto dela, no desenho do livro, era o correspondente exato ao que ela acabara de ver no reflexo do espelho.
¹O medo está somente em nossas mentes
Mas nos controla o tempo todo
Você, pobre, doce, coisa inocente
Seque os seus olhos e testemunhe.
(Continua...)
Musica do capítulo: Sweet Sacrifice - Evanescence
Nota: Meninas, obrigada pelas reviews nesse cap, e também por conversas sobre o plot que tivemos em PM, e foram muito interessantes :) Brenda: eu tenho postado semanalmente, e observo que em menos tempo que isso algumas pessoas não conseguem acompanhar e acabam não deixando review a cada att. Mas mesmo assim, porque sei que tem gente que lê rapidinho, às vezes posto no sábado também, e tento conciliar. Esse sábado, por ex, pode ter att a depender se eu ver que as leitoras habituais passaram por aqui ;)
O que acharam do dano mágico da Bervely? Da morte da Dallas Malfoy? E o que será que a pequena Bevy deu de presente a Lucius? Palpites, palpites, palpites!
PS: Troquei a capa, o que acharam?
