Capítulo 10

Sara estava se penteando, para ir a sua consulta, quando vozes sem rosto dançavam em sua cabeça: "ele te ama muito, Sara", "eu sentirei sua falta, em cada batida do meu coração. Nossa vida juntos foi o único lar, que realmente, eu jamais tive. Eu não a trocaria por nada", "quando algo acontece com você, Grissom fica catatônico", "você não imagina quanto ele ficou preocupado", "é a NOSSA história, meu amor!".

A sua cabeça girava como um carrossel, com todos aquelas frases, que ouvira em diversas oportunidades. E tinha também aquela carta, escrita com coração e sensibilidade, prova irrefutável da verdade. Ela não pensava mais, que tudo havia sido uma brincadeira com ela. Sofria pensando, como podia esquecer o que parecia ser um grande amor, assim. E a morte do Warrick? Como pudera passar em cima dela, desse jeito?

A voz de Grissom, pedindo-lhe que se apressasse, pois já estavam atrasados, arrancou-lhe dessa teia de pensamentos, que a enredava.

Sara entrou sozinha, no consultório do Dr. Haldenberg. Grissom, a pedido dela, ficara na sala de espera. O médico lhe mostrou um divã, ela sorriu do clichê, perguntou: está brincando comigo? O Dr. Haldenberg disse então, que ela podia simplesmente sentar, ou deitar-se; como ela se sentisse mais confortável. E, Sara optou por deitar-se.

Enquanto ela se ajeitava no divã, o doutor notava que ela não tinha mais, o olhar vazio e, uma ruga de preocupação aparecia em sua testa.

- E então, Srta. Sidle?

- Já lhe pedi para chamar-me Sara, apenas! – Disse sem segundas intenções, sem insinuações, sem provocações.

- Como foi o seu dia, Sara? – Perguntou o médico, percebendo-a tensa e diferente do dia anterior.

-Mais ou menos. – E relatou tudo o que lhe acontecera.

Mais tarde, quando Sara foi trocar seu curativo, o Dr. Haldenberg chamou Grissom em seu consultório:

- Parece que a nossa paciente, precocemente, está ficando preocupada, com sua perda de memória. Esteja preparado, Sr. Grissom. Ela vai fazer muitas perguntas e estará muito atenta, a tudo que se conversar ou se falar, perto dela. Cautela, pois!

- Isso não é bom?- E Grissom não conseguia esconder, seu contentamento.

- Não sei! Pode ser, mas estou achando muito cedo! – E, abaixando um pouco a voz continuou. – A morte do tal Warrick e a carta que mostrou a ela, tiveram um papel preponderante nisso.

- Ela começou a se lembrar? – E, notava-se que Grissom estava esperançoso.

- Não! Mas começou a se preocupar com isso! É aquela segunda fase, que lhe falei: a do sofrimento!

Grissom não gostou de saber que ela iria sofrer de alguma forma. O médico respondeu que esse era o único caminho para a cura. Ele se prevenisse apenas, porque ela faria um mundo de perguntas, principalmente, sobre a relação deles; o médico ainda advertiu:

- Seja direto, nas respostas, nada de fantasias românticas! A época das brincadeiras e da inconseqüência terminou!

"Graças a Deus!", pensou Grissom. Mas ele não sentiria tal alívio, se soubesse que seu próprio martírio estava começando.

Despediu-se do doutor bem a tempo: Sara já vinha de volta, com o curativo refeito. Grissom perguntou se estava tudo bem, e ela limitou-se a balançar, afirmativamente, a cabeça.

No laboratório, Catherine passou boa parte da noite, às voltas com o filme fotográfico, enquanto Nick fazia uma lista para dar a Brass. Uma passada pelo AFIS revelou além dos quatro envolvidos do circo, uma digital não identificada, que devia ser do assassino e, mais 12, pertencentes a pequenos meliantes e traficantes, todos com passagens pela cadeia. Como Nick pensara tudo peixe pequeno. O assassino de Roy Burton não estava na lista, devia ser alguém, que nunca tinha sido preso, pois seu nome não constava do sistema.

Nick deu um suspiro e pegou a lista. Foi ao encontro de Catherine, achando que ela teria melhor sorte. Encontrou a loira, vendo várias fotos, espalhadas na larga mesa.

- E, então?

- E, então nada!- Disse a CSI desolada. – Acredita que ele só está em duas fotos: em uma está de costas e na outra, Bobby está na frente.

Nick achou que era uma tremenda falta de sorte e quis ver; quem sabe poderia achar alguma coisa, que escapava ao olhar de Catherine. Esta lhe cedeu o lugar e a lupa. Nick olhou de todos os ângulos possíveis. Por fim, declarou:

- Bem, nosso homem é mais baixo que Bobby, mais pra magro e tem um bom alfaiate.

- Grande! – Catherine deu uma gargalhada nervosa. – Vinda de um perito, é uma brilhante descrição, Nick!

Mas, o rapaz não a estava ouvindo; um pensamento cruzou rapidamente seu cérebro. Catherine percebeu que ele tinha alguma coisa em mente e parou de rir.

- Quem está sabendo das fotografias?

- Além de nós dois? Ninguém ainda.

- Ótimo!

- Por quê? O que você está tramando Nick?

-Uma vez que ninguém está sabendo, vamos espalhar que temos as fotos do assassino.

- E para quem vamos espalhar se não temos, a menor idéia de quem seja?

- Ora, Cath, amanhã Brass está indo encontrar com Soffer, não? Podíamos começar por aí.

- Você desconfia de Soffer?

- Isso não vem ao caso. O que interessa é que ele conversa, com muita gente! E o melhor: é gente do ramo!

- Por que não contar tudo a ele? Afinal é um dos nossos...

- Acredite-me, quanto menos gente souber, melhor! – Finalizou Nick aparentando saber do que se tratava.

- E Brass, conto pra ele?

Nick deu de ombros, contar ou não ao capitão, lhe era indiferente, ele só achava que a história não devia escapar do controle deles. Catherine achava que era uma idéia tão absurda, que até podia funcionar. Pegou a lista e foi falar com Brass.

"Uma nuvem preta, bem espessa, veio na direção de Sara. Ela estava sozinha, num lugar que ela identificava, como sendo o deserto. Sentia-se desconfortável, com muito calor e muita sede. Assim que a nuvem a envolveu e a transpassou, ela não sentia mais aquele desconforto, causado pelo sol escaldante. Mas sentia a cabeça completamente vazia. Tentou pensar algo e não conseguiu. Warrick apareceu, segurando em uma das mãos um coração humano. Sara perguntou o que ele tinha nas mãos.

- É seu coração, Sara! Já que você não está usando, vou levá-lo comigo!

Ela sentiu-se apavorada. A nuvem tinha levado seu cérebro e agora Warrick, queria levar seu coração.

- Não, não... – Gritava, tentando agarrar os braços de Warrick que não parava rir, enquanto jogava o coração como se fosse uma bola de basquete..".

- NÃO, NÃO... – Gritava Sara, sentando na cama.

Grissom que estava lendo, no quarto ao lado veio correndo, nem se lembrou de calçar os chinelos ou vestir o roupão. Abriu a porta do quarto e acendeu a luz. Perguntou aflito o que tinha acontecido.

Sara ficou meio sem graça, fora só um pesadelo, não era o caso, de dar uma de fraca. Mas o caso é que ela se assustara, e o seu coração acelerado, provava isso.

- Não foi nada... Um pesadelo apenas... Fiquei assustada...

- Esta é a função dos pesadelos: assustar! – Falou Grissom, parado descalço e com seu pijama cinza, querendo abraçar Sara, mas não se mexendo do lugar.

Ele fez menção de desligar a luz. Ela pediu, por favor, que ele não o fizesse. Que ficasse com ela, até o sono chegar. Ele se aproximou da cama, atendendo ao chamado da voz rouca. Sentia-se levemente excitado, Sara olhava para ele, com o olhar pidão, mais bonito que já se viu.

Embora hipnotizado por aquele olhar, muito parecido, com de sua Sara, de antigamente, aproximou-se da cama, meio a medo. Ela convidou-o a sentar-se na cama. Ele assim fez, não desgrudando os olhos dos dela.

- Eu não mordo! – Deu o seu meio sorriso.

- Morde sim! E eu adoro... – Respondeu sem saber ainda, com quem estava falando.

Foi um momento de grande tensão, entre eles. Grissom sentia ainda sem muita certeza, alguma vida, naqueles olhos castanhos. Sara muito confusa, sem saber direito, o que fazia, deixando-se guiar pelos instintos. Ainda olhando-a nos olhos, perguntou malicioso:

- E a sua privacidade?

- Dane-se! - ela respondeu ainda olhando dentro daqueles olhos azuis, como se estivesse imantada.

Logo a seguir, encostou sua cabeça no peito dele, ajustou uma posição que lhe parecia confortável e, deixou-se ficar quieta, sentindo-se muito segura, coisa que ela não compreendia, nem queria.

Ele, por sua vez, estava dividido. Uma parte acariciava feliz, seu cabelo, ciente de que seu amor estava voltando. Outra parte estava insatisfeita: esperava mais, muito mais.

Depois de uma meia hora, mais ou menos, Sara dormia profundamente. Grissom, então se levantou, colocou a cabeça dela sobre o travesseiro, beijou-lhe delicadamente e cobriu-a com as cobertas, sempre fazendo movimentos suaves, para não acordá-la.

Apagou a luz e foi ao banheiro, tomar um banho frio.

Na manhã seguinte, ele esperou em vão, que ela contasse seu pesadelo, para estabelecerem uma conexão. Sara, contudo, não queria nada disso. Já estava suficientemente envergonhada, por ter dado uma de fraca, na noite passada, precisando da ajuda dele. Mesmo não falando nada pra ele, dormira muito bem, não se lembrando de sentir-se melhor, nem mais segura, em toda sua vida.

Grissom preparou um chá de maçã, para eles, e antes que ela reclamasse, falou que era o predileto dela. Mas, esta manhã ela não tinha vontade de reclamar. Pegou sua caneca de chá e começou a saboreá-lo. Enquanto no fogão, Grissom fazia mingau de aveia, ela perguntou se era vegetariana há muito tempo.

- Desde que fiz aquela experiência com o porco, há alguns anos, lembra?

- Da experiência, sim. De ter virado vegetariana, não! – Disse enquanto saboreava seu chá.

Colocando o mingau no prato, ele deixou escapar, o que o Dr. Haldenberg dissera, sobre envolvimento amoroso.

- E tinha?- Outra vez, para o desespero dele, ela usou aquela voz rouca.

- Bem... Sim... Naquele tempo, havia muita tensão entre nós – disse, trazendo os dois pratos de mingau à mesa.

- Por quê? – Insistiu, cravando os olhos nele.

- Porque eu era um imbecil!

- Por quê? – Tornou a perguntar a voz rouca.

- Porque sim.

- Isso não é resposta.

- Sabia que não é educado, fazer tanta pergunta? E agora, coma o seu mingau, antes que esfrie!

Ela não se intimidou, nem desviou seu olhar.

- Sabia que não é educado, fugir às perguntas? E não mude de assunto.

Ele não sabia fugir àqueles olhos. E nem sabia ao certo, se queria isso. De certa forma, era agradável tê-la de novo, prestando atenção nele. Agradável e torturante. Ela estava tão perto, bastava um gesto para alcançá-la, beijá-la, fazer amor com ela... Assustou-se com o poder que ela exercia sobre ele. Como ele demorou a responder, ela tornou a insistir.

- Continua a não me dar uma resposta.

- Foram muitos motivos, mas acho que maior deles foi mesmo, amor demais. Sei que parece meio tolo, mas quando o amor é muito, vem junto o medo de perdê-lo, além disso, tinha o fato de eu ser muito mais velho e ser seu chefe.

Sara fez uma expressão de que aquilo era irrelevante. Grissom concordava com ela, que era meio ridículo mesmo, perdera tantos anos de felicidade, à toa. Mas na época, lhe parecera uma boa idéia.

- Deixa ver se eu entendi: eu lutava para conquistá-lo e você fugia?

Olhando por essa ótica, Grissom não se achava tão charmoso, e pela lei de ação e reação, parecia ter uma certa lógica ele estar sofrendo agora, como ela deve ter sofrido, no passado.

- Basicamente, sim! – E ele não disse mais nada, e afundou o rosto, no prato de mingau.

Sara também não fez mais perguntas, e comeram o mingau, em silêncio.