Capítulo 8 – Procurando Encrenca

Harry viu aquilo assim que abriu os olhos. Qualquer um que se deitasse naquela cama o teria visto, mas é claro que ninguém dormira ali desde que Sirius Black tinha sido assassinado. Era um triângulo cinzento enfiado numa dobra da cortina do dossel da cama. Para vê-lo, era preciso estar deitado de costas, como Harry estava.

Ele não conseguiu alcançá-lo. Teve de equilibrar uma cadeira sobre o colchão e subir mo assento para pegá-lo. Bambeando, quase caindo, enfim conseguiu apanhar o triângulo entre os dedos e puxá-lo.

Na verdade, era um pedaço de papel quadrado, dobrado em dois. Alguém fizera um desenho estranho e anotara embaixo o que devia ser um número de referência.

(N/A: Figura 1 – Cap. 8, link no profile).

Apesar de não haver muita coisa escrita, Harry reconheceu a letra de Sirius. O que significaria isso? Pôs uma roupa, foi até a mesa e puxou uma folha de papel em branco. Rapidamente, escreveu uma mensagem curta, em letras maiúsculas.

(N/A: Figura 2 – Cap. 8, link no profile).

Pegou seu Game Boy, encaixou o cartucho Nemesis, ligou o aparelho e passou a tela sobre as duas folhas de papel, escaneando primeiro sua mensagem e depois o desenho. Sabia que alguma máquina no escritório da agente McGonagall, em Londres, seria acionada instantaneamente e receberia a cópia das páginas. Talvez ela desvendasse o mistério. Afinal de contas, trabalhava para o serviço secreto.

Harry desligou o Game Boy, retirou a tampa de trás e escondeu o papel, dobrado, no compartimento da bateria. O diagrama devia ser algo importante. Sirius Black o escondera. Quem sabe foi isso que lhe custou a vida?

Alguém bateu à porta. Harry foi atendê-la. Esgar estava plantado lá fora, ainda com o mesmo uniforme de mordomo.

-Bom dia. – disse Harry.

-Oom ia! – Esgar fez um sinal e Harry o seguiu pelo corredor em direção à saída da casa. Sentiu-se aliviado de estar ao ar livre, longe de todas aquelas obras de arte. Assim que pararam diante do chafariz, ouviram um ronco repentino de um avião cargueiro. A hélice desapareceu por trás do telhado da casa e aterrissou na pista.

-Eee ooião. – explicou o Sr. Esgar.

-Justamente o que pensei. – respondeu Harry.

Chegaram ao prédio moderno mais próximo e o senhor Esgar pressionou a mão numa placa de vidro ao lado da porta. Apareceu uma luminosidade verde enquanto suas impressões digitais eram verificadas e, segundos depois, a porta deslizou silenciosamente.

Tudo era diferente do lado de dentro. Harry saiu da elegância e do refinamento da casa principal direto para o século seguinte. Longos corredores brancos com piso metálico. Luzes halógenas. O frio artificial do ar condicionado. Outro mundo.

Uma mulher – séria, de ombros largos, cabelos loiros presos num coque apertado – esperava por eles. Tinha um rosto bolachudo estranhamente pálido, usava óculos de aro de metal e nenhuma maquiagem, exceto um vestígio de batom amarelo. Estava de jaleco branco, com um crachá preso ao bolso: VOLE.

-Você deve ser Felix. – disse ela. – Ou, se entendi direito, agora é Harry? Sim! Meu nome é Fräulein Vole. – Ela tinha um forte sotaque alemão. – Mas pode me chamar de Nadia. – Olhou para Esgar. – Agora eu fico com ele.

O Sr. Esgar assentiu com a cabeça e saiu.

-Por ali. – Vole foi na frente. – Nós temos quatro blocos aqui. O bloco A, onde estamos agora, é a área de Administração e Recreação. No bloco B fica o Departamento de Programas de Computador. O bloco C é o de Pesquisa e Depósito. E o bloco D é onde se encontra a principal linha de montagem do Stormbreaker.

-Onde é servido o café da manhã? – perguntou Harry.

-Você ainda não comeu? Vou pedir um sanduíche. Herr Sayle está ansioso para que comece logo os testes.

Ela andava como um soldado, costas eretas e pés metidos em sapatos de couro que martelavam o chão. Harry a seguiu. Entraram numa sala quadrada quase vazia, onde havia uma cadeira, uma mesa e, sobre a mesa, o primeiro Stormbreaker de verdade que ele já vira.

Era uma máquina linda. O iMac podia ter sido o primeiro computador com um design bem pensado, mas o Stormbreaker ganhava de longe. Era todo preto, com exceção de um relâmpago branco impresso num lado da máquina, e a tela mais parecia uma janela para o espaço sideral. Harry sentou e ligou o computador, que carregou o sistema no mesmo instante. A animação de um raio atravessou a tela, nuvens rodopiaram e depois se formou o logotipo das Empresas Sayle – ES – em letras vermelhas incandescentes. Segundos depois, apareceu a área de trabalho com os ícones de matemática, ciências, francês – todas as disciplinas -, prontos para serem acessados. Mesmo em tão pouco tempo, Harry pôde sentir a rapidez e a potência do computador. E Herod Sayle ia colocar um Stormbreaker em cada escola do país! Ele tinha que respeitar o homem. Era um presente incrível.

-Vou embora. – disse Fräulein¹ Vole. – Acho melhor você explorar o Stormbreaker sozinho. À noite você vai jantar com Herr² Sayle e contar o que achou.

-É, vou dar minha opinião.

-Mandarei trazer um sanduíche para você. Mas lhe peço que não saia desta sala. É por motivo de segurança, entende?

-Certo, certo, Miss Vole. – disse Harry.

Ela saiu. Harry clicou num ícone e, durante as três horas seguintes, mergulhou num dos moderníssimos programas do Stormbreaker. Mesmo quando chegou o sanduíche, ele o deixou de lado, endurecendo no prato. Nunca tinha imaginado que fosse divertido fazer trabalhos de escola, mas teve que admitir que o computador conseguia isso. O programa de história deu vida à batalha de Port Stanley³, com música e videoclipes. Como extrair oxigênio da água? O programa de ciências mostrou a Harry. O Stormbreaker conseguia tornar até geometria quase suportável, coisa que o professor de Harry jamais tinha sido capaz de fazer.

Quando Harry olhou para o relógio, era uma da tarde. Já estava na sala havia mais de quatro horas. Espreguiçou-se e ficou de pé. Nadia Vole lhe dissera para que não saísse de lá, mas, se houvesse algum segredo nas Empresas Sayle, não seria ali que ele ia encontrar. Foi em direção à porta, que, para sua surpresa, se abriu sozinha quando se aproximou. Saiu para o corredor. Ninguém à vista. Hora de agir.

O bloco A era de Administração e Recreação. Harry passou por várias salas até chegar a uma cantina comum, revestida de ladrilhos brancos. Havia cerca de quarenta homens e mulheres, todos com jalecos brancos e crachás de identificação, conversando animadamente no horário de almoço. Ele tinha escolhido uma boa hora. Ninguém passou por ele enquanto atravessou uma passarela de plexiglás em direção ao bloco B. Telas de computadores estavam por toda parte, reluzindo nos escritórios apertados e cheios de papéis. Era o Departamento de Programas de Computador. Foi direto para o bloco C – Pesquisa – Passando por uma biblioteca com intermináveis prateleiras de livros e CD-ROMs. Harry abaixou-se atrás de uma estante quando apareceram dois técnicos conversando. Ele já tinha passado dos limites: estava sozinho, bisbilhotando tudo sem ter a menos idéia de que estava procurando. Encrenca, provavelmente. O que mais poderia encontrar ali?

Andou devagar, como quem não quer nada, até o final do corredor, dirigindo-se ao último bloco. Ouviu um burburinho de vozes e se escondeu rápido num canto do corredor, agachando-se atrás de um bebedouro, enquanto dois homens e uma mulher, todos de jaleco branco, passaram discutindo sobre servidores de internet. Logo acima, Harry notou uma câmera de segurança girando em sua direção. Em cinco segundos, a câmera o pegaria, mas ele ainda tinha de esperar os três técnicos se afastarem para sair correndo, fugindo da lente grande-angular.

Será que a câmera o flagrara? Harry não podia saber. Mas uma coisa ele sabia: seu tempo estava se esgotando. Talvez a tal de Vole já tivesse percebido sua ausência. Talvez alguém tivesse levado o almoço para ele na sala. Se era para encontrar alguma coisa, tinha de ser rápido...

Seguiu por uma passagem de vidro que ligava os blocos C e D, e ali finalmente encontrou algo diferente. O corredor dividia-se em dois, e uma escadaria de metal descia para o que parecia ser uma espécie de porão. Embora todos os prédios e todas as portas tivessem uma placa de identificação, a escada não tinha. Não havia luz a partir do meio do caminho. Era como se alguém quisesse que a escada passasse despercebida.

Passos nos degraus de metal. Harry encolheu-se e, instantes depois, apareceu o senhor Esgar, emergindo no andar como um vampiro de mau humor. Assim que a luz do sol bateu em seu rosto de morto-vivo, as cicatrizes se contraíram e ele piscou várias vezes antes de seguir para o bloco D.

O que ele estaria fazendo? Aonde levaria essa escada? Harry desceu os degraus em passo acelerado. Era como entrar num necrotério. O ar condicionado estava tão forte que ele sentiu gelar o suor na testa e nas palmas das mãos.

Parou ao pé da escada. Agora estava em outro corredor comprido que se estendia para trás, no subsolo do conjunto de prédios, na direção de onde ele viera. O corredor terminava numa porta metálica. Mas havia ali algo muito estranho. As paredes do corredor estavam inacabadas: eram de rocha marrom-escura com filetes do que poderia ser zinco ou outro metal. O chão também era pedregoso, e o caminho, iluminado por lâmpadas comuns penduradas em fios. Isso tudo o fez recordar alguma coisa... algo que tinha visto recentemente. Mas não conseguia lembrar o quê.

Harry pressentia que a porta no fim do corredor estaria trancada. Parecia ter sido trancada para sempre. Assim como a escada, a porta não tinha placa. E parecia pequena demais para ter alguma importância. Mas o senhor Esgar acabara de subir as escadas. Ele só poderia ter vindo de um lado – o lado oposto. A porta tinha de levar a algum lugar.

Harry foi até ela e tentou girar a maçaneta. Nem se mexeu. Encostou o ouvido no metal e prestou atenção. Nada senão... uma espécie de vibração – ou será que estava só imaginando coisas? Uma bomba d'água ou coisa parecida. Harry daria tudo para enxergar através do metal – e de repente lembrou que podia. O Game Boy estava em seu bolso. Pegou o aparelho, encaixou o cartucho Exocet, ligou-o e pressionou o aparelho contra a porta. A tela ganhou vida; uma janelinha na porta metálica. Harry viu uma sala imensa. Bem no centro, havia um troço alto em forma de barril. E pessoas. Fantasmagóricas, meras manchas na tela, andavam de um lado para o outro. Algumas carregavam objetos – achatados e retangulares. Algum tipo de bandeja? Num canto parecia haver uma mesa com pilhas de instrumentos que ele não podia decifrar. Harry ajustou o botão de brilho na tentativa de dar nitidez à cena. Mas a sala era grande demais. Tudo estava muito longe.

Tateou o bolso e pegou os fones de ouvido. Ainda segurando o Game Boy contra a porta, encaixou o plugue e ajeitou os fones nos ouvidos. Se não conseguia enxergar direito, pelo menos conseguiria ouvir – e é claro que as vozes surgiram, fracas e desconexas, porém audíveis, por causa do potente alto-falante do aparelho.

- ...no lugar certo. Temos vinte e quatro horas.

-Não basta.

-É o que temos. Eles chegam hoje à noite. Às duas da madrugada.

Harry não reconheceu nenhuma das vozes. Amplificadas pela minúscula máquina, soavam como um telefonema de longa distância numa ligação ruim.

- ...Esgar... supervisionando a entrega.

-Mesmo assim não vai dar tempo.

E depois as vozes sumiram. Harry tentou juntar o que ouvira. Algo seria entregue. Duas horas da manhã. O senhor Esgar estava cuidando da entrega.

Mas o quê? Por quê?

Harry tinha acabado de desligar o Game Boy e de enfiá-lo no bolso quando ouviu um rangido de sapatos, sinal de que não estava mais sozinho. Ele se virou e deu de cara com Nadia Vole. Percebeu que ela tentara espreita-lo. Nadia descobrira que ele estava lá embaixo.

-O que faz aqui, Harry? – perguntou ela. Sua voz era de uma doçura maligna.

-Nada. – respondeu Harry.

-Pedi a você que ficasse na sala do computador.

-Sim. Mas fiquei lá a manhã toda. Precisava dar um tempo.

-E veio aqui?

-Vi a escada. Pensei que fosse dar num banheiro.

Houve um longo silêncio. Às suas costas, Harry ainda conseguia ouvir, ou sentir, a vibração que saía da sala secreta. Então, a mulher balançou a cabeça como se tivesse decidido aceitar a história.

-Não há nada aqui. – Disse ela. – Esta porta dá somente na sala do gerador. Por favor... – ela fez um sinal – Vou levá-lo de volta ao prédio principal, sim? E, depois, você deve se arrumar para jantar com Herr Sayle. Ele quer saber quais são suas primeiras impressões sobre o Stormbreaker.

Harry passou por ela e voltou para a escada. Tinha certeza de duas coisas: a primeira era que Nadia estava mentindo, ali não era a sala do gerador. Ela escondia algo; e a outra, que ela não acreditara nele. Uma das câmeras deve tê-lo pegado e mandaram Nadia procura-lo. Assim, também ela sabia que Harry estava mentindo.

Não era um bom começo.

Harry chegou à escada e subiu em direção à luz, sentindo os olhos da mulher como punhais em suas costas.


(N/A¹: Fräulein significa senhorita em alemão).

(N/A²: Herr é senhor em alemão).

(N/A³: Capital das Ilhas Falkland, chamadas Malvinas pelos argentinos. Nessa cidade, em 28 de maio de 1982, ocorreu a vitória dos britânicos contra os argentinos na Guerra das Malvinas).