Acabado o jantar, Mr. Bennet achou de bom tom conversar com Mr. Locke, visto que durante o jantar quem tomou a cargo a tarefa de palestrar com o visitante foram às moças mais velhas e ocasionalmente, Mrs. Bennet.
Acomodados, Mr. Bennet introduziu um assunto em que esperava ver Mr. Locke brilhar: o elogio a Lady de Bourgh, no que foi plenamente recompensado. Mr. Locke retomou todos os elogios que já havia feito a sua protetora, e acrescentou muitos mais. Como Mr. Bennet previra, o homem não era nem um pouco sensato.
A verdade é que Mr. Locke nunca tinha sido de inteligência brilhante, e criado sob a tutela de um pai repressor e pequeno de idéias, suas tendências tinham sido cada vez mais ampliadas para um comportamento ao mesmo tempo humilde e arrogante de sua própria condição de humildade. Apesar de ter freqüentado a universidade, só tinha cursado o mínimo de matérias exigidos para o diploma, e não havia travado nenhuma relação importante.
Após sua ordenação, um feliz acaso fez com que seu nome fosse citado em presença de Lady de Bourgh, que procurava um pároco. Após os acertos iniciais, Mr. Locke tomou posse da paróquia que ficava nos domínios de Lady de Bourgh, e o deslumbramento deste por sua senhoria foi enorme. Alçado rapidamente a tão importante posição, seus defeitos acentuaram-se. E como tudo que Lady de Bourgh flava era para ele como uma ordem, ele estava em Longbourn não só para reatar relações com Mr. Bennet, como também para encontrar uma esposa entre as filhas deste, como bem tinha aconselhado sua senhoria. Esta era a reparação que pretendia oferecer as senhoritas Bennet quando enfim ele herdasse a propriedade. Esperava que elas fossem tão bonitas e gentis como ouvira falar. Achava, inclusive, seu plano muito bom e desinteressado de sua parte.
Com esta intenção, desde a tarde vinha observando as irmãs, descartando logo as três mais novas: não eram tão bonitas quanto pensava e na verdade, mal olharam para ele durante todo o jantar. Seu olhar foi atraído logo sobre Jane, sem dúvida a mais bonita e mais prestativa entre todas. E sua escolha desde o principio recaiu sobre ela, que era também a mais velha e se havia uma coisa que Mr. Locke respeitava era o direito da primogenitura.
Depois de entreter-se com Mr. Locke, Mr. Bennet achou que era hora de calar-se e sugeriu que o hóspede lesse para todos. Entregaram a ele um volume, claramente pertencente a uma biblioteca circulante, mas ele se recusou a ler, alegando que nunca lia romances. Trouxeram então outros volumes, e ele escolheu os Sermões, de Fordyce. Claire desesperou-se ao olhar o grosso volume, e mal o primo tinha lido duas páginas numa voz entediante e monótona, ela deu um grande bocejo e disse:
- Mamã, você sabia que meu tio Philips quer despedir o criado, Bernard? E que se o fizer, o Coronel Foster ficará com ele? Amanhã devo ir a Meryton saber se Mr. Denny já voltou de Londres...
Kate e Jane repreenderam vivamente a irmã, insistindo para que Mr. Locke continuasse a leitura, mas o homem observou que não queria fatigar a jovem prima com leituras que, ele bem percebia, não a interessavam, apesar de serem extremamente proveitosas. Voltou-se para Mr. Bennet, convidando-o para uma partida de gamão, sentando-se rigidamente em frente ao tabuleiro durante o resto da noite.
Como não queria perder tempo em executar seu plano, esperando já retornar ao Kent com boas notícias de seu noivado para Lady de Bourgh, encontrou-se com Mrs. Bennet na manhã seguinte, antes que todos descessem para o café da manhã, abordando-a da seguinte maneira:
- Mrs. Bennet, a senhora sabe que minha situação agora é extremamente confortável. Meus rendimentos e minhas relações com Lady de Bourgh me colocam em posição considerável e como tal devo servir de exemplo à comunidade.
- Compreendo... Mrs. Bennet retrucou, desconfiada.
- Na verdade, na noite antes de minha viagem, Lady de Bourgh me aconselhou vivamente a escolher rapidamente uma esposa, e assim que a tivesse escolhido, insistiu em conhecê-la, de forma a poder ratificar minha escolha.
Mrs. Bennet assentiu, em silêncio. Não atinava exatamente com as intenções de Mr. Locke, mas gostaria de ver aonde a conversa chegaria.
- Não posso me furtar, então, de comunicá-la que minha viagem até Longbourn foi feita com a intenção de desposar uma de suas filhas, das quais tanto ouvi falar, tanto de sua beleza como de suas outras qualidades.
- Oh...foi tudo que Mrs. Bennet pôde dizer.
- Como à senhora deve ter percebido, meu interesse foi imediatamente atraído pela mais velha das senhoritas Bennet...
Mrs. Bennet o interrompeu vivamente, mas com discrição:
- Oh, Mr. Locke...sinto muito ser eu a portadora desta notícia. De minhas outras filhas nada posso dizer, mas devo avisá-lo que Miss Jane muito em breve ficará noiva.
- Noiva? Mr. Locke mostrou desapontamento na voz.
- Sim, mas o senhor deve considerar Miss Kate. Ela secunda a irmã tanto em beleza quanto em idade, e seria ótima companheira para qualquer homem.
- Sim, sem dúvida. Miss Kate. Mr. Locke calou-se, rememorando as atitudes de Kate para com ele no dia anterior.
Logo depois as meninas chegaram para o café, impedindo mais conversas entre Mrs. Bennet e Mr. Locke. Quando Mr. Bennet terminou seu desjejum, foi seguido até a biblioteca por Mr. Locke, que por lá ficaria o dia todo, remexendo nos livros e coleções de seu anfitrião, sem interesse algum, apenas para falar ainda mais de todas as riquezas e qualidades de sua senhoria, se não tivesse sido sugerido um passeio até Meryton. Mr. Locke aderiu de pronto à idéia, já que tinha mais vocação para andar do que para os livros. Assim que todos saíram, Mr. Bennet pôde desfrutar inteiramente de sua biblioteca.
No caminho até a pequena cidade, Mr. Locke não parou de falar, e algumas de suas mesuras prenderam a atenção de todas. Mas quando as primeiras túnicas vermelhas apareceram, Lizzy e Claire desabalaram pelas ruas, ignorando totalmente todas as outras pessoas. Kate encontrou Charlote Lucas, e depois de apresentar a amiga ao primo, expôs a ela em rápidas palavras que ele era o herdeiro de Longbourn, ao que Mary acrescentou que "até sua banqueta de piano pertencia ao primo". Enquanto percorriam algumas ruas, aproveitaram para procurar por Lizzy e Claire. Subindo numa calçada em frente a um conjunto de lojas, vinham conversando distraídas quando o lenço que Kate trazia ao pescoço soltou-se. O pequeno pedaço de pano bordado arrastou-se caprichosamente a sua frente, até que encontrou como obstáculo uma mão máscula, que o apanhou com destreza.
Tão entretida estava Kate em acompanhar a trajetória do lenço que quase colidiu com o rapaz que o havia apanhado do chão e agora o estendia para ela em uma atitude charmosa e elegante. Alto, envergando uma bela túnica vermelha e dono de um profundo par de olhos azuis, sua presença eclipsava qualquer outro rapaz da região. Os cabelos loiros, usados na altura dos ombros e atados com uma fita azul seguiam a última moda, e estavam displicentemente penteados, os que lhe conferia ainda mais charme. Era um toque de rebeldia que quebrava a sisudez do uniforme, das botas belamente engraxadas e da espada pendurada na cintura.
Todo o grupo parou diante do rapaz, as moças embasbacadas e Mr. Locke esquecido, relegado a um canto da calçada. O estranho disse, cravando em Kate um olhar repleto de interesse:
- Este lenço é seu? E estendeu delicadamente a peça em direção a Kate.
Mas antes que ela pudesse digerir as palavras, atordoada pelo tom melodioso e grave do estranho, Lizzy e Claire chegaram por trás dele, excitadíssimas:
- Oh, Mr. Wickham, que gentileza! Claire exclamou, praticamente pendurada no braço do rapaz.
- Ele pegou o meu lenço também. Você jogou o seu de propósito Kate? Lizzy pendurava-se no outro braço do rapaz.
Kate olhava de uma para a outra sem entender, quando um amigo de Mr. Wickham, o tal Mr. Denny que Claire queria saber se havia voltado de Londres, acercou-se do grupo e apresentou-o as Bennet mais velhas e a Miss Lucas. Mr. James Wickham estava juntando-se ao regimento, vindo de outra cidade, a convite de Mr. Denny. Imediatamente todos os outros rapazes tornaram-se desinteressantes e grosseiros comparados a Mr. Wickham.
Ele cumprimentou a todas com polidez, e rapidamente travaram um diálogo agradável. Mr. Denny desculpou-se e saiu. Mr. Wickham acompanhou as moças até uma loja. Claire insistiu:
- Por favor Mr. Wickham, venha e nos ajude a escolher fitas para o baile.
- Sou uma terrível negação em matéria de fitas. Confundo suas utilidades e não sei usar as cores.
Já dentro da loja, Kate retrucou:
- O senhor deve ser a vergonha do regimento.
- Provavelmente sou. E fivelas? Nada entendo delas e nunca sei como lhes dar o devido brilho.
- O que os seus superiores fazem com o senhor?
Mr. Wickham virou-se de costas para Kate, que fingia olhar algumas fitas, e discretamente conferiu o porte elegante do rapaz, emitindo sua aprovação com um pequeno sorriso. Ele voltou-se para ela e respondeu:
- Sou muito insignificante para ser notado. E abriu um amplo sorriso, o que fez Kate encará-lo mais reservadamente.
Absortos numa troca intensa de olhares, não percebiam mais ninguém a sua volta, até que Claire reapareceu, dizendo a Kate:
- Kate, por favor, me empreste algum dinheiro.
Kate zangou-se:
- Claire, você já me deve uma fortuna!
Mr. Wickham adiantou-se e Kate tentou detê-lo:
- Não, por favor.
Com um sorriso e uma mesura, ele passou uma das mãos por trás da orelha direita de Claire e fazendo aparecer uma moeda, depositou-a na mão da garota, que se derreteu num sorriso coquete. Mr. Wickham voltou a encarar Kate, e disse, sorrindo:
- Eu insisto! E ela não teve como deixar de sorrir também.
Voltaram todos a rua, depois de compradas as fitas, e acabaram encontrando Mrs. Philips, a tia das meninas, que convidou a todos para irem a sua casa e tomarem um refresco. Aceito o convite, Mr. Locke novamente pôde brilhar: engatou conversa com Mrs. Philips, comparando sua casa a uma das salas de verão de Rosings Park, mas a senhora só pode sentir o valor do elogio quando soube o que era Rosings Park. Permaneceram na casa de Mrs. Philips umas duas horas agradáveis, e a senhora teve a idéia de oferecer um pequeno jantar, seguido de jogos de cartas e uma ceia, no dia seguinte, já que a cidade estava recebendo várias pessoas novas. As meninas aceitaram o convite de bom grado, e despediram-se da tia. Uma vez na calçada, Mr. Wickham ofereceu-se para acompanhá-las até Longbourn, embora Mr. Locke tenha protestado energicamente contra tal estratagema. Por fim, puseram-se em marcha.
Enquanto atravessavam o campo, resolveram acompanhar a trilha que ficava ao lado de um pequeno riacho, já que tanto Mr. Locke quanto Mr. Wickham não conheciam o local. Em certo ponto, ouviram tropel de cavalos e logo apareceram Mr. Bingley e Mr. Darcy, este montado num belíssimo animal, totalmente negro. Mr. Bingley cumprimentou efusivamente todas as irmãs e Claire, dançando em volta de Jane, que estava estática no lugar, disse:
- Mr. Bingley, gosta das minhas fitas? São para o seu baile!
Mr. Bingley respondeu, olhando para Jane:
- São lindas!
Percebendo o embaraço da irmã, Claire continuou:
- Vejam como ela floresce! E deu uma tapinha nas costas de Jane, que engasgou e repreendeu a irmã severamente.
Enquanto Mr. Bingley conversava com Jane, Miss Lucas entretinha Mr. Locke e as meninas mais moças conversavam entre si, Kate não pode deixar de notar a tensão que se estabeleceu entre Mr. Wickham e Mr. Darcy no mesmo instante em que seus olhares se encontraram.
Mr. Darcy cumprimentou Kate com um aceno vago de cabeça, evitando olhá-la nos olhos, e depois de muitos instantes, levou a mão ao chapéu, tocando rapidamente a borda deste com a ponta dos dedos, mas sua expressão era dura e distante. Mr. Wickham, deliberadamente, demorou a responder, fazendo-o também de forma breve e tensa.
Imediatamente, Kate percebeu que nas relações que os dois homens um dia compartilharam, algo muito intenso e desagradável tinha ocorrido. Ficou curiosa em saber o que poderia ter sido, mas percebeu que muito provavelmente, nunca ficaria sabendo de nada. Não tinha intimidade nem coragem para questionar Mr. Wickham, e suas relações com Mr. Darcy eram de fria amabilidade, gerada mais pelas convenções da sociedade do que por agrado de ambos.
Mr. Darcy esporeou o cavalo sem esperar por Mr. Bingley, que conversava com Jane. Claire perguntou se Mr. Bingley convidaria Mr. Wickham para o baile, ao que este respondeu prontamente que sim, estavam todos convidados, e despediu-se rapidamente, acompanhando o galope rápido de Mr. Darcy, sumindo numa curva da estrada.
Após o encontro, retomaram o caminho para casa, mas os ânimos estavam levemente alterados: Mr. Wickham visivelmente tenso, Kate pensativa, Jane disfarçava a alegria do encontro com Bingley, Lizzy e Claire eufóricas. Apenas Mary, Mr. Locke e Charlote, que não haviam sido diretamente afetados pelo encontro, permaneciam os mesmos.
