A Jornada – Capítulo Dez

La Cuca Ratcha.

ESTE CAPÍTULO É MUITO GRANDE!

Ele pode fazer você perder seu tempo lendo um montão de baboseiras, ou pode fazer você perder seu tempo lendo um montão de coisas legais!

Seja responsável e avise seu supervisor de que você está lendo textos onde as falas são representadas por hífen.

.,~*~,.

Viic Girotto

Ele estava desnorteado.

A realidade havia chegado tão rapidamente.

Ele o encarava. Chocado.

Ele o encarava. Em total estado de assombro.

Os primeiros raios de sol transbordaram do horizonte, derramando o líquido dourado por aquela parte do céu. Isso não ajudou muito clarear seus pensamentos. Aliás, o tom ouro não tornou aquela pessoa imprevista mais real, de qualquer forma. Apenas mais fantástica.

A figura lá em cima se tornou escura devido ao contraste com a luz ofuscante que tingia o oriente. Os cabelos longos e – uma coisa que o menino raramente havia visto – soltos balançavam sinuosamente ao vento, como se estivessem emersos abaixo d'água. Eles não eram mais do tom chocolate ao leite que ele outrora teve. Eles escureceram – agora tinham a cor do refinado chocolate amargo.

Mas os olhos.

Não eram os olhos foscos que Sasuke tanto havia imaginado. Eles estavam completamente focalizados em nele. Enxergando.

Ele não estava cego, não como Sasuke estava ficando. Os olhos eram os mesmos de oito anos atrás. Não havia indiferença, tampouco havia frio.

Eles se aqueceram, e a expressão de Itachi se quebrou em um sorriso feliz de tirar o fôlego. Sasuke arfou.

Quando algo muda, há 76% de chance que fique diferente, como um pano que é rasgado ou o branco quando tingido de vermelho.

Porém, não havia mais vermelho. Não havia mais rasgos.

Itachi era, de uma forma figurativa, diferente de tudo você já pôs os olhos em. Os cabelos compridos, não curtos. O físico magro e leve – como o de uma jovem árvore. Os músculos invisíveis. Os dedos finos. O nariz reto. Ele não havia mudado quase nada do Itachi que Sasuke se lembrava – ele apenas havia crescido. Como o garoto havia crescido também.

Apenas um segundo havia passado enquanto ele fazia estas pequenas comparações.

Então, a mudança veio.

Como uma flecha que é lançada de um arco, uma kunai passou por seu rosto como um raio, direcionada para Itachi. Antes de ser lançada, a menina que tinha bons reflexos havia disparado um lance de gelo certeiro nas mãos de Madara – mas isso não impediu que ele arremessasse a arma; Apenas desviou-a um pouco do curso.

Sasuke viu o lado direito do cabelo de Itachi tremular, e depois alguns fios se soltarem. E o sangue.

Vermelho.

Madara fez o vermelho retornar – mas não era o mesmo vermelho. Não era uma técnica. Não era uma cor.

E eu não havia sido hiperbólica quando havia dito que Itachi era diferente.

O sangue de Itachi era vívido, quase como hipnótico. Os olhos de Sasuke estavam presos no líquido flamejante, mas aqueles dois rastros que iam descendo pelas têmporas dele descongelaram nossos músculos (os músculos deles) e tudo se moveu rápido demais.

Sasuke nem sequer sentiu quando Kisame travou seus braços ao redor de seus úmeros, quanto mais perceber os estranhos shinobis saltando para o casco do navio, subindo como aranhas até o convés. Itachi ainda tinha os olhos vidrados nos seus, assim como os seus estavam nos dele. O transe foi quebrado quando o gigante se atirou em cima dele.

Sasuke nem noteu o que fazia. O Chidori percorreu cada poro do seu corpo, e Kisame urrou quando sentiu a eletricidade partindo suas células ao meio. Talvez, se ele fosse, hum, quem sabe, noventa por cento água, ele ficaria estático por mais tempo.

Qualquer coisa para dar tempo o suficiente de se lançar ao encontro de seu irmão.

- Ah, droga, Sasuke! – Suigetsu reclamou, cessando sua troca de bons e velhos gestos amigáveis com Juugo, que gemia, e correu aos tropeços para o navio.

Seus pés se viram grudados na madeira lateral. Sasuke não havia notado as enormes asas de metal em forma de leque, que começaram a elevar e impulsionar para baixo repetidas vezes, até o navio se erguer do chão. Ouviu-se um forte estampido e meu corpo chacoalhou, seu pulso sendo agarrado antes que eu pudesse cair de volta na praia. O gigante lançou ele e Suigetsu do outro lado do convés, onde quicaram até serem impedidos de ser jogados para fora por uma grade de metal. Suigetsu se agarrava na barra quando o chão inclinou-se para a vertical.

Os olhos nublados de Sasuke focalizaram primeiramente a menina dos cachos pendurada no mastro, disparando lances de gelos para fora do navio. Ouviu um urro quando ela pareceu ter acertado alguém, provavelmente de Kisame, a julgar pelo som áspero que lembrava bizarramente uma gargalhada.

E então ele o encontreu, nos braços do shinobi mais velho, segurando-o sabe lá porque diabos, os cabelos grudados no rosto, seus olhos nunca deixando os seus. O navio deu uma guinada para o lado e então se endireitou, voltando a sua posição normal.

Houve ausência de emissão de voz durante alguns segundos. Sasuke só conseguia ouvir a seus arquejos e olhar para os olhos dele.

Itachi fez menção de falar algo, mas a porta abriu com um estrondo, batendo a centímetros de onde ele estava. A madeira gritou e gemeu, enquanto a figura alta de um homem marchava para fora da cabine do controle com os braços estendidos para cima, as palavras rolando de sua boca como um carpete.

Sasuke hesitou quanto a desviar o rosto de seu irmão, parecia que ainda não havia o observado o suficiente. Mas os berros que o homem proferia eram impossíveis de ignorar.

- Raios que me partam! – Ele bradou. Sua voz tinha um som gutural parecido com o de Itachi, mas era mais rouco, as palavras saiam abafadas enquanto ele chamejava pelo convés. – Que trovões está acontecendo aqui para que decolassem sem a minha devida confirmação?! Foi você?! – Ele pegou um marujo qualquer que estava passando por ali pelo colarinho e o sacudiu sem gentileza alguma.

- Eu só sou o cara do café... – A pobre criatura lamentou-se, enquanto o homem que parecia ser o capitão o soltou abruptamente, fazendo-o tombar no chão. Em seguida, seus olhos faiscaram para o gigante e o resto.

- Quem são vocês e o que fazem em meu navio? – Ele fez de sua pergunta uma acusação.

- Eles estão comigo – Itachi intercedeu rapidamente, e deu um breve olhar para o irmão caçula, incluindo-o no grupo.

O capitão murmurou algo que não soou como uma aprovação.

- Cada louco que Kanna me manda... Aposto que se o velho Porom ainda estivesse aqui teríamos menos cabeças de tigela a bordo... E o café que ele fazia... Bah! – Ele saiu resmungando consigo próprio, mas tão logo ia saindo do convés, virou-se e disse, a contragosto. – Acho melhor vocês descerem. Vamos entrar em área de turbulência dentro de poucos minutos. Podem usar os quartos de baixo, é só pegar a escada leste, dobrar a direita e seguir em frente. – Ele finalizou fechando a porta meio quebrada.

O vento zumbia em seus ouvidos, deixando-o ainda mais nervoso do que era necessário. Não queria olhar para ele, pois havia anos que não sentia medo, e isso era desconcertante, o fato de seu coração estar aos pulos apenas por ele estar ali, a alguns metros de si. Sasuke não se sentira assim quando entrara no Esconderijo Uchiha – por que agora era diferente? Ele não conseguia achar a resposta.

- Oh, uhm... Acho que você querem um tempo sozinhos – o homem de cabelos cinza disse, e sua voz lembrava carvalho morno. Sasuke ainda tinha minha face virada para o lado, e não disse nada.

- Ah, tá. Eu quero um tempo com ele – o gigante replicou, e Sasuke sabia que ele estava se referindo ao seu irmão.

- Shisui, eles precisam... esclarecer os fatos. – A menina persistiu, firme. Sua voz era do som flautado de uma cachoeira.

O gigante bufou, exasperado. Ele olhou para Itachi, para Sasuke, e depois para ele de novo. Ele passou as mãos no cabelo e fuzilou seu irmão com os olhos.

- Você. Eu. Lá embaixo. Agora.

- Ah, Shisui!

- Não quero nem saber, Yuna, eles podem conversar depois. Agora, você tem de conversar conosco neste exato instante. – E falando isto, puxou Itachi, ainda meio perplexo e mole, para um alçapão a alguns pés de distância, e um por um, todos sumiram para dentro do navio, a menina chamada Yuna implicando com Shisui enquanto descia, e seus protestos ainda eram audíveis do lado de cima. Como se o garoto ligasse.

Sinceramente, ele não sabia onde estava Suigetsu. Ele poderia estar ao seu lado ou esparramado em algum canto do navio. Sasuke não conseguia mexer a cabeça para procurar mesmo. Mas o amigo acabou por aparecer, escorando-se na madeira e escorregando até ir de encontro ao chão.

Ficaram em silêncio alguns minutos quando ele finalmente perguntou:

- E aí? Qual deles era o... o seu irmão?

Sasuke não respondeu.

- Ele estava entre aquele pessoal? – Suigetsu incentivou, e Sasuke pode sentir a curiosidade ardente em seu tom.

Ele respondi com um frouxo meneio de cabeça. Suigetsu não pareceu satisfeito com a vaga informação.

- Bem, todos eram bastante interessantes, sabe. Nenhum deles parece o garoto que chacinou todo o clã Uchiha. – Ele parou, observando a reação de Sasuke. Ele continuou fitando o céu bege, tingido com um fraco tom de amarelo. Suigetsu deu de ombros. – Acho melhor descermos.

Uma vibração perpassou o chão, dando ênfase à sua frase. Sasuke precisou de duas tentativas até conseguir ficar de pé, e Suigetsu precisou de ajuda para abrir a portinhola no chão, que Shisui abrira sem dificuldade alguma.

O cérebro de Sasuke parecia voltar a funcionar em acréscimos. Então ele era Uchiha Shisui? Como o melhor amigo do seu irmão, um cara que ele considerava quase um irmão mais velho podia ser aquilo? Ele mal conseguia acreditar.

Seguiram o caminho que o capitão havia instruído, e não que tenha sido muito difícil de achar, uma vez que os gritos de Shisui ressoavam pelos canos úmidos do corredor (Um deles esguichou água no ouvido de Suigetsu, mas por algum motivo Sasuke não achou graça). Mesmo assim foi um caminho longo, porque aquele negócio era simplesmente enorme.

A porta aberta revelava uma pequena sala, com sofás e poltronas formando um círculo em volta do tapete. Havia uma mesa grande e reta, com cadeiras em volta e uma rede particularmente fora de lugar sobre elas. Itachi e Yuna estavam sentados em um dos sofás grená escuro, a mão dela (E por algum motivo aquilo embrulhou seu estômago) apertava carinhosamente a dele, como se lhe desse forças para o que quer que fosse. Seu irmão não precisava de incentivo, então aquela cena não fazia sentido algum.

Mas a expressão no rosto dele o fez duvidar disso.

Itachi parecia mais que confuso. Ele aparentava... Estupefacção. Os olhos dele saltavam ligeiramente das órbitas e as sobrancelhas estavam erguidas, como se ele estivesse permanentemente surpreso. Ele não esperava que Shisui estivesse vivo, objetando então que havia duas ou mais pessoas ressucitadas no cômodo e que isso prometia uma história provavelmente sem pé nem cabeça.

Porém ninguém iniciou uma discussão, mas todos tinham os olhos grudados nos dois como se estivessem realmente recitando um diálogo que chamasse a atenção. Shisui retorquiu repentinamente, entre dentes:

- Isso não quer dizer nada.

- Mas é um ponto de vista interessante. – O mais velho disse. Seus cabelos eram de um tom cinza claro e macio, os olhos de canela entravam em perfeita haromina com sua pele queimada pelo sol.

Shisui olhou para ele com cara de quem não está de acordo. Ele voltou-se para Itachi como se tivesse sido chamado, e seus olhos perfuravam os dele. Seus dentes trincaram e ele jogou a cabeça para trás.

- Mas é claro! Você não pode ser você mesmo durante alguns meros dias que já tem filas de gente que você seduziu!

- Eu não seduzi eles. - Itachi contestou em tom ofendido, mas acrescentou baixinho. – Não de propósito, pelo menos.

Shisui deu uma gargalhada de arrepiar a nuca.

- Tá bom, você não seduziu de propósito, mas não é essa a questão aqui! – Ele percorreu toda a sala de um jeito meio insano, passando a mão no cabelo e mandando uma lufada de ar a passar por Sasuke e Suigetsu, que continuavam paradões na entrada.

O olhar de Itachi acompanhava-o e então ele consequentemente flutuou para seu irmão menor. Novamente ficaram naquele transe intenso, onde Sasuke sentia um vazio no estômago e uma estranha sensação de abandono.

- Não tem jeito, ele vai ter de ficar aqui... O que você acha, Atem? – Shisui meditou, ainda rondando o aposento.

- Eu não acho nada que eu não tenha... Oh.

Shisui freou abruptamente, arquejante. A mesma sensação aparentemente tinha atingido os outros dois. Atem piscou convulsivamente durante vários segunos e Yuna ofegou, mas apertou a mão de Itachi, solidária.

- EU NÃO ACREDITO, ITACHI! – Shisui berrou, voltando para o dito cujo. Ele apenas o encarava. – O QUE DEU EM VOCÊ?

- Fale mais baixo. – Ele pediu, em seu habitual tom de tenor. Sasuke tremeu, e Suigetsu – muito deliberadamente – pôs a mão na sua, meio que verificando se ela ainda estava lá.

- Mais baixo? MAIS BAIXO? – Shisui deu uma gargalhada sem qualquer humor, um som áspero que arranhava. – Nós deveriamos estar à quilômetros abaixo do chão e você me pede para...

- Falar mais baixo. – Itachi completou, vazio. – Você está chamando a atenção-

- EU NÃO LIGO! – Shisui explodiu. Suas mãos aparentemente tentavam alcançar o teto. – EU NÃO LIGO SE ELES – Ele apontou para Sasuke e para Suigetsu, e Itachi encarou aquilo com um olhar de nítida descrença, como se Shisui tivesse cometido alguma blasfêmia. – OU QUEM QUER QUE SEJA ESTIVER ESCUTANDO, SABE POR QUÊ? PORQUE TALVEZ EU-

Ele foi interrompido por um alto, penetrante som, e Sasuke realmente nunca chegou a saber o porquê de Shisui não ligar. Yuna pulou do assento e Atem olhou curioso para cima, como se a mariposa que batia insistentemente contra a lâmpada âmbar fosse quem estivesse emitindo o choro.

Ouviu-se passos apressados acima de mim e logo depois apareceu na porta uma senhora que não passava dos quarenta, com uma criança num dos braços. Seu rosto aparentava desespero.

- Desculpe, eu tentei de tudo, mas ela não para de chorar...

Sasuke foi arrancado de dentro de si quando viu o rostinho da criança, e mal percebeu a mulher murmurar "Talvez algo para ela beber".

Era como se o rosto de Itachi tivesse passado por várias e várias diretrizes até dar naquilo. Ela não se encaixava exatamente na forma de uma pequena menina que acabara de nascer, como aparentava ser. Suas proporções eram mais suaves e regulares, como as de uma adulto. O véu rubro que era seus cabelos encobriam suas costas exatamente como os de Itachi, e seus olhos, mesmo vermelhos e inchados e banhados em lágrimas era visivelmente de um verde vivo e luzidio, com riscos cor-de-whisky aqui e ali.

O rosto, nada parecido e ao mesmo tempo infactível idêntico ao do seu irmão era algo que chegava a assustar. De fato, Shisui tinha os olhos amarrados no bebê, que tinha os olhos em Itachi, que por sua vez desviou sem querer dos seus, que ainda estavam presos nos dele.

- Itachi, o que você andou fazendo enquanto eu estava fora? – Shisui inquiriu, o tom sugerindo que ele próprio estava pintando um quadro imaginário da situação antes mesmo de saber a resposta.

- Ela não o que você está pensando, Shisui. – Itachi replicou e Sasuke sentiu seu peito mais leve com o alívio. Ele levantou-se e acolheu a menininha que tinha os bracinhos esticados em sua direção, o rosto levemente tingido de magenta. Suas lamúrias cessaram quase imediatamente quando Itachi encaixou-a em seus braços, e abrindo um sorriso deslumbrante, ela aninhou-se e resmungou alguma coisa.

A jovem senhora deixou o aposento com movimentos largos, e seus passos foram sumindo no silêncio, que somente foi quebrado quando o bebê esticou uma mexa do cabelo de Itachi.

- O que ela quer? – Yuna voou para o lado dele como uma brisa, espiando a garotinha alienígena.

- Fome, eu acho. – Itachi ponderou, especulativo. Yuna tirou uma mexa de cabelo que cobria o rostinho redondo.

- Ela se parece com você. – Ela disse de forma que soasse um elogio. – Qual é o nome dela?

- Akane. – Itachi respondeu, encolhendo os ombros. – Bem, foi o primeiro nome que eu consegui pensar.

- É perfeito. –Yuna admirou-se, sua voz era o som de água escorrendo por entre a fauna. E, por um segundo, mesmo que por um segundo, Sasuke pode ver a família que Itachi poderia ter tido.

Ele vacilei e tive de recostar no molde da porta para me segurar. O olhar de Itachi disparou para o irmão, seguido de todos os outros, até mesmo a estranha criança nos braços dele tinha seus olhos curiosos fixos em seu rosto.

- Ah, parece que esquecemos momentâneamente desses dois jovens. – Atem sorriu placidamente, como se ele não tivesse se esquecido completamente dos garotos. Sasuke nem prestou muita atenção nele; Itachi havia levatando uma das mãos em sua direção, mas logo abaixou-a e pressionou Akane em seu peito vazio. – Você provavelmente não se lembra de mim, mas eu costumava ir à sua casa algumas vezes. Eu sou Uchiha Atem. – Ele estendeu a mão.

Itachi desviou o olhar do seu e mordeu o lábio ao ouvir o seu sobrenome precedendo o nome dele – um sinal de ansiedade. Os olhos de Sasuke se detiveram na mão que Atem acabou abaixando, vendo como o menor não retribuía ao gesto.

- Bem, acho que você já deve conhecer Shisui – Ele olhou para o gigante que continuava a encarar Itachi com descrença contínua. – e Yuna, a noiva de seu irmão.

Noiva.

Sasuke analisou o rosto alvo em forma de coração e se perguntei como (Como) um Uchiha poderia ter gerado aquela garota de cachos brancos que poderia ser tudo, menos um Uchiha.

Noiva.

Mas se bem que olhando mais de perto, os olhos eram mais para cinza-escuro do que para o claro, o que dava um contraste engraçado na cara dela. O lábio inferior não era tão cheio, preferindo ser mais fino e rosado. Ela poderia ser confundida com uma boneca tamanho grande se ela quisesse – não passava do seu queixo, pelo menos.

Noiva.

- Acho que eu me lembro de você... – ele murmurou baixinho, e pude ouvir Itachi suspirar, enquanto ela concedia um sorriso benévolo, e ele hipnotizava quase tanto quanto o sangue de Itachi.

Noiva!

Akane olhava de cabeça para baixo para Yuna e tentou se esgueirar por entre os braços magros de Itachi, que a colocou sentada no colo dela. Yuna passou seus dedos pelo cabelo rubro e sem nós, enquanto Akane mexia em uma grande bolsa rosa que tinha presa na cintura e tirava uma colher retorcida.

NOIVA!

Agora que Sasuke tinha se dado conta. A ficha caiu com um peso de uma tonelada.

- Noiva...? – repetiu consigo mesmo, vendo se a palavra soava mais real saindo de seus próprios lábios, mas o efeito foi contrário. Tornava o fato apenas mais absurdo. Itachi. Noivo. O qu-

- Pois é, garoto, eu também não acreditei quando eu ouvi isso da própria boca do seu pai. – Shisui comentou, a voz monótona, como se estivessem falando de algo que todo mundo sabia, menos Sasuke. – Você tinha que ver como a notícia era passada de boca para ouvido. No dia seguinte, todo mundo estava comentando. E até acho que Itachi ficou aliviado com isso – houve um corte drástico no correio de vocês.

Um esboço de sorriso apareceu nos cantos da boca de Itachi, embora parecesse que ele estava se esforçando para mantê-lo agradável. Yuna beijou-lhe a bochecha, e Sasuke sentiu seu estômago despencar alguns centímetros. Espiou sua barriga, apenas para constatar que ela ainda estava fechada (Ou talvez apenas se poupar de continuar a ver a cena enjoativa).

- De qualquer jeito, Itachi, você vai amar a nossa casa. – Yuna interrompeu ansiosamente. – Fica mais para os arredores da cidade, então não tem tanto barulho – ela é mágica... Itachi?

Sasuke viu – todos viram – a expressão no rosto de Itachi, enquanto ele a encarava com descrença crescente. Então sua expressão se tornou horrorizada e depois um pouco de martírio foi acrescentado. Ele se virou para Shisui.

- Diga que você não fez isso. – Sua voz era um sussurro tão forte quando sua respiração. Sasuke se inclinou o máximo que conseguia para conseguir captar o som.

Shisui levantou as mãos, recuando, aparentemente tentando raciocinar com ele.

- Você sabe que eu não podia-

- Você não podia? – Itachi sibilou. Agora ele estava de pé também. – A decisão é minha, Shisui. Eu te falei, há sete anos atrás, que eu não queria interferências no meu julgamento. E o que você faz? Põe-me no Paraíso?! – Itachi fez de sua afirmação uma pergunta, como se ele estivesse se questionando se Shisui havia realmente efetuado tal ato e esperasse uma confirmação. Como resposta, Shisui ainda tentou implorar:

- Sim, Itachi, eu me lembro do que você me disse e... Deixe eu terminar! Eu lembro que você falou exatamente: "Deixem o meu destino nas mãos da justiça". Então, você vai receber um julgamento, como você quer, mas só por precaução nós-

Shisui parou, Itachi ainda o encarando, desacreditado. Então ele estendeu a mão em direção a Yuna, que prontamente lhe entregou uma almofada. Itachi enfiou a cara nela, gemendo, e desabou no sofá.

- Itachi? – Shisui o chamou, com movimentos pressupostos.

- Vá embora. – Ele grunhiu na almofada, e isso tornou o som tão abafado que Sasuke se aproximava cada vez mais – cada vez mais perigosamente – para tentar acompanhar a conversa. Shisui riu.

- Pense, Itachi. Eu sei que você ama se auto-flagelar e que agradeceria aos deuses se sua alma fosse para o mais baixo do níveis de Niflheim, mas e se isso magoasse Yuna? – Ela lhe lançou um olhar de censura, mas Shisui a ignorou. – Além disso, acho muito improvável que você fosse para lá, de qualquer jeito. As almas que morrem em batalha, tanto boas quanto más, vão para Valhala.

- Mas não vão para Valhala apenas as pessoas que morrem com honra? – Atem intercalou.

- Eu acho que Itachi morreu honrosamente. – Yuna replicou quase que como orgulhosa, e depois olhou de esguelha para o seu marido ("Ugh", Sasuke pensou), que tinha a cara fora da almofada e os olhos pregados em Shisui.

Ele piscou.

- O que foi...? – Shisui começou, mas Itachi sempre fora mais rápido que ele.

- Valhala? – Ele repetiu o nome estranho, com tom de quem está vasculhando a memória. Seus olhos de repente se arregalaram, e ele lançou um olhar urgente a Shisui, que pestanejou.

- Onde vocês estão morando?

Antes mesmo que Shisui respondesse, a porta se abriu, e dela saiu talvez a mulher mais linda que Sasuke já vira. A pele avermelhada entrava em contraste com os longos e lisos cabelos louro-arruivados que lhe desciam até a cintura. Seus olhos laranja flamejante se voltaram para Itachi uma fração de segundo, enquanto ela adentrava deliberadamente o aposento, como quem bem entende.

- Itachi, Mydia já preparou a mamadeira para Akane. Você quer que eu... – Ela não terminou a frase, enquanto seus olhos irrompiam das órbitas ao captarem a imagem de Shisui, que pulou três pés para trás.

- VOCÊS! – Ela berrou, apontando. Yuna resfolegou e Atem se pôs em frente dela e de Itachi, parecendo prever uma segunda reação. – O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI?!

- Eimber, você os conhece? – Itachi perguntou, piscando compulsivamente.

- Se eu os conheço? – Ela repetiu, horrorizada. – Itachi, eles deveriam estar em Atlântida!

Itachi virou-se para Shisui com um olhar de quem claramente exigia explicações, e este lhe fitou como quem pede desculpas. Yuna corou em um rosa delicado, mas Eimber trovejava pelo aposento.

- Vocês criaram um problema. – Ela se dirigiu a eles, destacando cada palavra. – É, é isso aí. Ursos pardos coléricos vão parecer domesticados perto do que está esperando por vocês. Pelas botas de Odin, eu sabia que deixar Lenneth¹ no comando não era uma boa idéia... Mas nãããão, Samyr tinha que...

- Lenneth está, neste momento, criptografando minha mensagem e enviando-a para nossas outras colegas. – Uma voz trinada se fez presente no aposento. Então uma fumaça começou a derramar das paredes, escorrendo para o chão. Não era líquida nem gasosa, e tinha um forte cheiro de insenso, que não era lá muito agradável.

Ela foi tomando forma, até que formou-se outra linda mulher, de tirar o fôlego. Seus cabelos de luz do sol desciam em pequenas mariolas por suas costas. O fato que estava usando uma camisa branca de algodão puída em vários lugares e uma calça jeans desbotada não diminuía o realce sua beleza. O olho esquerdo era de um verde cristal, como uma pequena esmeralda, mas o outro, tão vermelho que chegava quase a uma cor vinho, tinha lá um olhar meio chacino, que parecia um quadro de avisos. Perigoso, ele gritava.

Por um segundo Sasuke era apenas uma criança - uma criança que tinha vivido toda sua vida na mesma pequenina cidade. Apenas uma criança. Por que ele sabia que eu teria que viver muito mais, sofrer muito mais, para finalmente entender a agonia chamuscando nos olho direito daquela mulher.

- Oh, ótimo, Samyr. Você está sempre a um passo a minha frente. – Eimber resmungou, mas logo depois ela tentou espiar pela porta fechada. – Dallas e o moleque estão aí também?

- Ambos estão presentes e sem nenhum arranhão. Venesis ainda está fazendo a ronda – você a conhece. Ela prefere ficar perto da água, onde se sente mais confortável.

- Bem, eu também me sinto confortável longe dela. – Eimber bufou, um sorriso torto no rosto.

- Agora, vocês vão ter de se prevenir para a ira que vai colocar os ursos no chinelo. – Ela replicou, se dirigindo aos outros. Sua voz, apesar de pesada e musical, era sem vida. Shisui torceu os lábios. – É estritamente proibido deixar os domínios de Atlântida sem o devido consentimento da divindade que está supervisionando o local, e nesta era somos nós.

- É isso aí, cambada. Todo mundo para a parede. – Eimber bateu palmas, querendo apressar a vasculha de bolsos, bolsas e bolas (Wtf?).

Yuna automaticamente se aproximou mais de Itachi, com medo de suas bolas fossem verificadas (Eu realmente devia parar de escrever isso) e retorquiu em sua defesa:

- Mas, wælcyrge, estamos esperando a volta de Itachi há oito anos... e quando o nome dele sumiu da Lista de Convocação...

- Quieta. – Eimber ordenou. Yuna espremeu os lábios e olhou para o lado, as maçãs do rosto ainda coradas. – Isso está além dos seus assuntos, mocinha. Uchiha Itachi foi ressuscitado a nossa bel-prazer e não lhe cabe-

- Foram vocês que ressuscitaram ele?

A voz saiu de sua boca antes que eu pudesse conter. Todos os rostos viraram para Sasuke, e Atem me lançou um ar de advertência, mas ele não ligou muito. Eimber tinha uma sobrancelha elegantemente erguida.

- E você é...?

- Uchiha Sasuke. Irmão dele.

Agora ambas suas sobrancelhas estavam quase chegando ao couro cabeludo.

- E o que exatamente te trás a um navio pirata a mais de seis mil pés do chão? – ela perguntou, e sua frase tinha um toque de deboche.

- Não é todo o dia que o assassino do meu clã volta à vida, sabe. – ele soltou por entre os dentes.

Claro que ele esperava uma mudança na atmosfera, mas não da parte dele. Os olhos de Itachi se tornaram duros de repente. Toda a emoção, todo o calor foram trancafiados no fundo de uma caixa de ferro que Sasuke talvez jamais conseguisse destrancar de novo, e era impossível saber o que ele estava pensando. A primeira vez em muito tempo em que conseguira ler seus sentimentos havia acabado.

Frio. Sasuke imaginou um balde de água gelada bater contra as suas costas.

Mas aquilo não apaziguou a sua descrença furiosa pela mulher a sua frente.

- Bem, cara, nós o ressuscitamos, sim. E daí? Cê tava preocupado que ele fosse atrás do último sobrevivente do clã e por isso resolveu vir por conta própria? – Ela olhou para Itachi, e depois suspirou. – Vocês são tão Uchihas. Bah!

Força e ódio e calor - calor vermelho lavando através da sua cabeça, queimando, mas sem apagar nada. Sua mãe e pai mortos. A única lágrima que Itachi vertera naquela noite. Seus lábios de sangue repuxados no cantos, em seu último e machucado sorriso.

As imagens em sua cabeça eram combustíveis, construindo o inferno, mas se recusando a ser consumido. Sasuke sentiu os tremores o chacoalhando da cabeça aos pés, suas unhas enterrando-se na palma da mão.

Ela não entendia? Quando Itachi finalmente se livra de todo o peso, toda a culpa – apesar de imaginar que ele não tinha nem um pingo de arrependimento no corpo –... Quando ele finalmente consegue alcançar a paz... Ele é trazido de volta dos mortos.

Podia existir algo mais irônico?

Sasuke estava furioso demais para falar. Itachi ainda estava indiferente à situação, mas de alguma forma não sentia raiva dele – talvez por ele ter salvado a sua vida ou ainda não ter tentado impedir a sua infrutífera tentativa controlar o calor. Sasuke queria se lançar à mulher a frente, cravar a Kusanagi naquela garganta musical, mas Suigetsu já o segurava pelos ombros e Sasuke não queria machucá-lo – de jeito nenhum.

- Ei, cara, se controle. – Ele implorou, suas mãos tremendo enquanto ele tentava contê-lo, mas nem Sasuke conseguia fazer isso. Samyr o olhava, seu olho esmeraldino vagamente curioso, como se ele fosse algum canal de televisão que chamasse um pouco a atenção.

- Eeeh, você vai encarar, garoto? – Eimber provocou, levando uma mão à cintura. O sol batia em seus cabelos desgrenhados pelo vento, e tudo – absolutamente tudo nela o irritava, e ele podia sentir agora, o encorajando, o puxando pra frente. Empurrando-o pra fazer isso, pra purificar o mundo dessa abominação.

- Wælcyrge, por favor... – Yuna implorou, aflita. Ela olhou para Samyr, buscando ajuda, mas a outra simplesmente deu de ombros e disse algo como "O funeral é dele".

Os olhos de Itachi ganharam um pouco mais de cor – provavelmente prevendo o rumo que a situação tomava. Ele se levantou, Akane ainda segurando um pedaço do seu suéter. A pequena tinha um olhar grave e firme. Sasuke se perguntou o quanto ela entenderia daquilo.

Sasuke realmente devia estar pirando – tentando entender o vasto meio de interpretação de um bebê.

Ele estava preparado e pronto. Toda e qualquer iniciativa e não teria mais jeito de parar – sua mãe sempre lhe disse que Uchihas eram teimosos.

Eimber abriu um sorriso largo.

- Pode vir, neném.

Porém, a reação não foi dele – tampouco dela. Itachi gritou algo que não fez sentido na situação e não veio fazer nos próximos segundos.

- KAEDA, ESTRUPO!

Antes mesmo que Sasuke pudesse olhar para ele como se fosse um ser outro mundo, antes mesmo que Itachi ao menos desse conta do que disse e até mesmo antes que alguém conseguisse abrir uma latinha de refrigerante, a janela se espatifou em dez mil cacos de vidro, rolando por todo o lado. Motivo? Uma terceira mulher invadiu o aposento de voadora que perdurou até que atingisse em cheio o rosto petrificado de Shisui.

E Sasuke pensando que estava preparado.

- Wow, essa foi rápida. – Itachi comentou, as sobrancelhas arqueadas.

- Ela estava aqui perto? – Yuna indagou, surpresa.

- SEU IMBECIL FILHO DA... – Kaeda, aparentemente, berrou, enquanto socava cada centímetro do corpo de Shisui.

- ACK, SOCORRO! – Shisui exigiu, uma mão estendida.

- Ahm, Kaeda, era um alarme falso... – Itachi explicou, tentando acalmá-la, mas ela continuava a estirar as orelhas de Shisui (Entenderam? ENTENDERAM?) numa fúria descontrolada.

- EU ESTOU PELOS CABELOS COM VOCÊ! – Ela gritou, enquanto puxava os cabelos dele.

- Kaeda, pare! – Yuna pediu, puxando-a pela cintura, mas a mulher parecia ter os braços fundidos no peito de Shisui – socava-lhe o âmago tão rápido que os braços nem pareciam ter saído de lá.

- Atem, tire sua mulher de cima dele, faz favor? – Itachi pediu, tentando desvencilhar Shisui dos ataques certeiros de Kaeda. Atem suspirou e elevou-a a altura de seu peito. Kaeda virou-se para ele, espumando, mas Atem logo capturou seus lábios, e o estado dela pareceu passar de rígido para gelatinoso.

Atem desapareceu com Kaeda em seus braços, que estava agarrando seus cabelos. Enquanto sumiam, Shisui tinha a camisa arregaçada e verificando os vermelhos em toda a extensão do peitoral.

- Ai. – Ele disse, quando Yuna cutucou. – Isso vai ficar roxo.

- Isso vai estar muito pior amanhã. Eles recém estão em desenvolvimento. – Itachi corrigiu, ajudando-o a se levantar. Shisui lhe lançou um olhar que dizia claramente "Foi você quem começou isto". Itachi encarou Eimber.

- Não o provoque. Eu não iria gostar nada que você machucasse o meu irmão, Eimber. – Ele a alarmou, e sua voz era sincera.

Sasuke vibrou.

- Bah, não sei qual é a de vocês. – Ela balançou a cabeça, indignada. – Pessoas normais ficam felizes, sabe? Você acordou com a macaca, e você... Bem, me deprime saber que não se dá com seu próprio irmão. – Ela deu de ombros e saiu do aposento.

Um silêncio realmente constrangedor ficou pairando no ar. Sasuke daria de tudo para sair correndo dali, mas não foi preciso. O capitão veio brandindo alguma coisa na mão – que mais tarde percebeu que era um livro de preparo para máscaras de beleza – e seu rosto era de um vermelho púrpura.

- Vocêêêê. – Ele apontou o livro para Itachi, que tinha uma expressão de total inocência. O livro abriu numa página onde eu pode ler os dizeres "Rum", "muito utilizado no sono de beleza" e "não beba antes de usar". – Eu quero saber o que trovões são toda aquela gente lá fora!

Parecia que Itachi estava prestes a perguntar o que toda aquela gente lá fora queria dizer quando a porta se escancarou e um menino, não mais que doze anos aparentemente, entrou correndo e se lançou para a cintura de Itachi.

- Rieki...?

- Itachi, você tem de me ajudar! – O menino clamou. Quando Sasuke deu uma boa olhada no estado dele, percebi que ele tinha várias peças de roupa no corpo que não faziam nexo algum com as outras. Seus cabelos, marrom amelado-claro, estavam desgrenhados, como se ele tivesse destrocado de camisa um milhão de vezes, e seu tom de voz estava meio louco. – Se eu passar mais um instante da minha vida com... AH, NÃO!

Uma segunda figurinha entrou bailando, e pode ver uma menina realmente pequena, com um sorriso Colgate ofuscante no rosto e os olhos brilhando de um jeito meio vitorioso, como se ela tivesse descoberto um sentido para a vida. Seus cabelos de um forte castanho também estavam embaraçados, mas eram curtíssimos, repicados e apontando para todas as direções.

- Comprar roupas é tudo de bom! – Ela cantou, alegre. Rieki saiu correndo.

- Dallas, o que você fez com ele? – Itachi perguntou, olhando para o capitão, meio perturbado. Este espumava pela boca, e seus olhos estavam meio insanos. Ele enfiou a cara na revista dondoca e saiu a passos duros dali. Ele abriu uma grande e desnecessária margem de espaço para outra corporatura perfeita entrar saracoteando pela sala.

O nariz de Sasuke começou a sangrar.

Apesar de Yuna e seu grande estoque de lenço-e-cosméticos que se materializou do nada cobrindo grande parte da visão, ainda lhe sobrou um pouco de dignidade para contar que nunca, nunca vejam uma Valquíria descoberta.

As formas escultóricas de sua anatomia poderiam ser considerada praticamente gregas, e a suavidade e astúcia de seus movimentos eram tão rápidos que não existiam. Ela poderia ser passar por Vênus de Milo, se quisesse.

Claro que ela não estava totalmente nua. Porém o fato de usar apenas uma bermuda de brim e um biquíni do mesmo material cobrindo o busto não ajudavam em nada. Com ou sem as peças era praticamente a mesma coisa (E sasuke estava redondamente enganado ao pensa isso).

Itachi parecia processar os meus mesmos pensamentos.

- Venesis, por acaso você tem algo contra usar roupas? – Ele indagou, coçando a têmpora.

- Que naaaaaaada, bem. – Ela respondeu sorrindo, então deu uma volta para ele poder ver de todos os ângulos. – Eu estava em dúvida entre este e um macacão de borracha rosa, mas este aqui era tãããão mais bonitinho...

- Ah, tá, certo. Não precisa mais falar. – Ele disse, fazendo um movimento como se ele quisesse espantar uma mosca, jogando a mão para trás. Ele deveria estar agradecendo internamente por aquele corpo não estar espremido dentro de uma roupa provocativa como um macacão rosa de borracha.

- Olhe só para você! – Dallas gemeu, repentinamente. – Eu preciso te ensinar como usar o seu guarda-roupa.

- O que vocês têm contra suéteres? – Itachi questionou, quando pela sua expressão a sua pergunta deveria ter sido "Eu tenho um guarda-roupa?".

Dallas o ignorou.

- Venesiiiiiiss... Vem ver as roupas que eu comprei! – Dallas implorou, puxando a mão a mão da outra, como uma menina querendo mostrar para os pais um grande feito. Ela rebocou Venesis para fora e ambas sumiram de vista.

Então o nariz de Shisui começou a sangrar.

- Ah, pelo cuecão furado de Odin! – Yuna exclamou, e já começou a reutilizar seus lenços macios e dermatologicamente aprovados narinas ensangüentadas adentro.

- É, pelo menos não foi na frente dela. Já pensou no que ela faria caso meu nariz começasse a jorrar sangue? – Shisui questionou, tentando afastar Yuna e seus lencinhos de papel.

- O nariz de Sasuke sangrou e ela nem ao menos se deu ao trabalho de comentar. – Itachi disse, voltando o rosto de Shisui para si, examinando o interior do nariz, estancando o sangue com o lencinho.

- Ela não iria botar o inferno em cima do seu irmão. – Shisui retrucou, fazendo uma careta de desgosto. Sasuke não gostou daquela frase.

Na verdade, ele nunca, nunca gostou muito do fato de ter privilégios por ser o irmão caçula de Uchiha Itachi. Ele se sentia irritantemente incapaz, como se recebesse todos os méritos sem qualquer esforço. Por isso ele se empenhara – anos e anos de esforço, tentando superá-lo, quando no final, ele continuava inalcançável.

Não que seu treino tenha sido em vão. Ele ficou mais forte, amadureceu. E ele também havia guardado um pouco de sanidade para poder se desenvolver saudavelmente, de qualquer jeito – mesmo convivendo com uma serpente depravada e um servo maid.

A questão era: reconhecimento. Ou subestimação, por assim dizer. O ódio que ele tinha por Itachi era justamente isso: Ser melhor do que ele.

A antiga raiva de irmão fluiu como fumaça pelo seu corpo. Sasuke fechou a cara para o irmão, recebendo um desviar de olhar de volta.

Ele marchou para fora daquele quarto – estava em um clima festivo demais para ele – e todos acenaram, como se ele fosse voltar dali a pouco. Ele cruzou os corredores, subiu a escada e abriu a portinhola.

Ele só poderia estar sonhando. Ou dormindo, porque a vista aparentemente fruto do nosso subconsciente não poderia ser referente a imagens bonitas que usualmente nós costumamos sonhar.

O céu nanquim estava pontilhado de estrelas em todos os pontos de vista possíveis. Galáxias rodopiavam no escuro como fogos de artifício, girando como o movimento de descarga. Havia uma linha imperceptível de pequenos meteoros que vagavam disciplinarmente na direção do navio. Tinha também um grande planeta com vários anéis o cercando, como o desenho de um átomo, que parecia estar ao alcance da mão.

Sasuke se sentiu estranho – preenchido por um sentimento mais vivo do que jamais sentira. A curiosidade e o fascínio recém-nascidos por aquele novo mundo inexplorado ardeu em seu âmago como se fosse implodir de dentro dele. Correu para a lateral, se apoiando e quase caindo ao tentar ver o que havia em baixo do calado – e pode comprovar que a Terra é azul. Ou pelo menos o pontinho distante que ele deduziu ser era.

Só depois de dar pelo menos uma centena de voltas pelo convés para conseguir captar todos os cantos existentes – uma grande controvérsia, sendo que aquele espaço era ágono –, o que durou mais ou menos uma hora, pelo tamanho do convés, Sasuke notou Suigetsu o seguindo, como se fosse uma brincadeira de criança onde ele tinha de imitar tudo o que o outro fazia. Sasuke parou de chofre e Suigetsu bateu com a cara em sua nuca.

- Avisa quando for parar, ok? – disse, enquanto massageava o nariz. Sasuke devia estar com uma cara fora do usual para Suigetsu deixar o queixo cair daquele jeito.

- Cê tá legal? – ele questionou, colocando uma mão na testa do amigo, a qual ele retirou quase imediatamente.

- Claro que estou! – Sasuke retrucou, irritado – Por quê?

- Bem, é que... – o companheiro pareceu incomodado, desviando os olhos para um ponto distante.

- O que foi, Suigetsu? – Sasuke instou, nervoso.

- Aah, sabe a sua... A sua cara...

- É a única que eu tenho. O que tem?

- É que ela está... Os seus olhos também... Hum, é...

- Não enrola, cara. – estava começando a ficar preocupado agora. Por um momento delirante Sasuke imaginou seu rosto se desintegrando.

Suigetsu suspirou e liquidificou-se, tornando-se uma poça no chão e espelhando seu semblante.

Pior que desintegrando, seu rosto estava corado. Os olhos tangenciavam as maçãs do rosto de um jeito meio estranho – dava a sensação de que eles estavam boiando numa almofada rosa berrante, sem contar que eles estavam com um brilho eufórico que Sasuke nunca havia visto em ninguém antes.

Aquele não parecia ele.

- Caraca – sussurrou, passando a ponta dos meus dedos pelo rosto. Ele estava quente.

- Caraca – Suigetsu concordou. Ficaram um segundo em silêncio, quando a porta se escancarou e o capitão saiu, pisando duro, berrando algo como "QUEM ACIONOU O CAMPO GRAVITACIONAL SEM A MINHA PERMISSÃO? FOI VOCÊ?" e então ele começou a estrangular um velhinho cego que estava bebendo cerveja. Mas nas atuais circunstâncias, tudo era secundário.

- Ei, vocês! – ele berrou. Sasuke e Suigetsu viraram automaticamente, assistindo o capitão jogar o homem para fora do navio, seu grito desaparecendo ao longe – Eu pensei ter dito para ficar lá em baixo!

Suigetsu, como todo cara que só aprende a não puxar briga só depois de ter levado a sova, abriu a boca para retorquir, mas Sasuke logo intercedeu e tapou a boca do amigo com a mão.

- Nós já estamos descendo. – ele lhe disse, e logo depois arrastou Suigetsu para baixo, ainda que este xingasse e tentasse se desvencilhar.

- Maldito seja, capitão salafrário...! – exclamava, de minuto em minuto, enquanto voltavam para a salinha.

Sasuke teria preferido respirar fundo algumas vezes antes de ver o rosto de seu irmão outra vez – ele ainda não parecia convincentemente real – mas Suigetsu adiantou-se para a porta e abriu-a com um estalo.

Ela estava vazia. Piscaram algumas vezes antes de Suigetsu olhar para os lados várias vezes.

- Para onde foi todo mundo?

A resposta veio em forma de um urro boêmio, que cessou com um soluço chiado.

Adivinhando o trajeto que levaria à origem do som, foram caminhando enquanto o barulho de conversas e risos foi ficando cada vez mais fortes, até que detiveram-se em uma ala onde só havia uma única e volumosa entrada de duas portas ao fundo.

O repentino surgimento dos garotos não chegou a interromper o perfluxo. Algumas cabeças se voltaram para eles, mas logo estavam novamente entretidas, fazendo brindes com canecões que transbordavam de cerveja.

Sasuke localizou as Valquírias a uma extremidade distante, todas rindo falsamente com um grupo de homens – piratas, ele não tinha dúvida –, enquanto enchiam seus copos com meneios de garrafas imperceptíveis. Apenas Dallas não participava da preparação que antecedia ao que prometia ser uma noite deturpada; A menina estava tagarelando muito rapidamente em uma algaravia e Rieki apenas olhava-a, meio abobalhado. O capitão liderava o curso do tópico de uma roda de pessoas, onde ele gesticulava com ambas as mãos em intervalos irregulares, parando apenas para pausas dramáticas. Sua esposa estava sentada ao seu lado, os cabelos lanosos agora soltos, e ela tinha uma criança de cabelos vermelhos no colo, que sugava cobiçosa a mamadeira e parecia prestar atenção no grande homem...

Seus olhos riscaram o aposento e tudo poderia esperar, fosse a grande caneca de cerveja que voou em sua direção, fosse o fato de que era Atem quem estava cozinhando.

Por um breve relampejo de realidade, Sasuke se perguntou por que eu não havia achado-o inicialmente. Seria a coisa óbvia para se fazer, ele pensou, já que a exímia presença dele no meio da aglomeração de flibusteiros parecia piscar como um anúncio em neon: "Olhem para mim, olhem para mim". Ele estava mais ao fundo do festejo – sentado em cima de um balcão de mármore, balançando os pés distraidamente – próximos à cabeça de Shisui, que estava sentado no chão – e mordiscando uma fatia rota de queijo, enquanto Atem tagarelava alegremente, um braço em cima de Kaeda, que tinha uma careta de inegável repugnância, e o outro circundando uma colher dentro de uma panela enorme.

Sasuke puxou Suigetsu abruptamente para um canto remoto onde ninguém que tivesse o que fazer prestaria atenção.

- Sasuke, você tem certeza de que está bem? – ele perguntou, o cenho franzido, e o garoto percebeu que eu respirava em grandes arfadas superficiais de ar. Viraram a cabeça para onde Kaeda lançara uma caçarola na cabeça de Shisui, que caiu no chão com um estampido agudo imediatamente abafado pela nuvem densa de risos hilariantes.

- É aquele cara, não é? O seu irmão...

Sasuke acenou com a cabeça e o observou ajudar Shisui a se levantar. O corte em sua têmpora fora limpo e havia bandagens circundando sua testa, deixando de fora apenas a franja que caía por ambos os lados do rosto. Apenas um pequeno relance de sua figura o fez querer encolher.

Sim, era ele.

- Nossa, se bem que olhando de perto, ele não tem cara de assassino – Suigetsu comentou, em uma tentativa de apoio, imaginou. Porém antes mesmo que uma tentativa desesperadora de fugir dali tivesse início, a esposa do capitão, Mydia, bateu com uma colher de metal na caçarola que Kaeda jogar em Shisui, causando um tinido estridente que era exatamente o efeito que ela esperava.

- Damas e cavalheiros, queiram fazer a gentileza de sentarem-se às mesas. O senhor Uchiha Atem teve a bondade de preparar nossa refeição.

Um burburinho emergiu pela horda de cabeças; algumas pessoas comentavam em voz alta, e Sasuke desejou que o clã Uchiha não fosse tão conhecido assim.

- O almoço de hoje será... – ela se virou para Atem, que soletrou baixinho o nome do prato. – makarano com queijo e nozes, é isso?

Atem suspirou e deu ombros, aparentemente não se importando tanto que ela não tivesse pronunciado direito.

Todos começaram a se movimentar em direção às duas longas mesas que havia à esquerda. Houve um pequeno tumulto e empurra-empurra, e Sasuke soube que essa era a sua deixa.

Ele já estava com um pé para fora quando Suigetsu o puxou de volta para dentro. Sasuke o encarou, atônito.

- Fugir é para covardes, sabia? – ele disse, segurando o seu braço.

- Eu sou um covarde – Sasuke retrucou, seu olhar disparando nervosamente para Atem, que começava a servir um tipo de massa com um molho pastoso e granulado com pequenos pedaços de noz.

- Não, você não é – ele retorquiu, indignado. Ele virou o amigo e começou a em empurrá-lo pelas costas – Temos de enfrentar nossos medos cara-a-cara.

- Não, é muita a gentileza a sua – falou, a voz tremendo de nervosismo, e então Suigetsu os sentou na mesa.

- Ah, oi pessoal – ele os cumprimentou, um sorriso afável no rosto. – Se divertindo no passeio?

Yuna e Kaeda se olharam um breve instante, depois sua atenção voltou para os garotos. O olhar de Shisui passava de Sasuke para Suigetsu, e Atem parecia se dar os parabéns pelo ótimo repasto.

E os olhos cor de chocolate de Itachi olhavam Sasuke como se nunca tivessem o visto direito.

Suigetsu continuava com suas tentativas de iniciar uma conversa, se dirigindo à Itachi e obrigando-o a sair do transe com seu irmão (o que desagradou à Sasuke profundamente):

- Então, como é o tempo em Konoha? – ele perguntou, fuçando no bolo alimentar, com uma cara de quem tentava não ser grosseiro.

Itachi lançou uma olhada para seu irmão menor, buscando algo conexo, mas Sasuke apenas encolheu os ombros, sentindo-se menor ainda. O olhar do irmão parecia botá-lo dentro de uma mangueira de borracha.

- Chove muito? – Suigetsu persistiu, forçando-o novamente a encará-lo.

- Não – Itachi respondeu, e Sasuke sentiu um assomo de desconforto, alguma coisa lhe dizendo que ele realmente não deveria estar ali – Só garoa de vez em quando.

- Sério? – Suigetsu disse, parecendo honestamente impressionado. – Como é isso?

- Ensolarado – ele lhe respondeu.

- Você é da onde, garoto? – Shisui perguntou, um fiapo de massa grudado no queixo e a mão e esticando a mão em cima da mesa para pegar um potinho com uma pasta verde-gaio.

- Vila da Névoa. Sou um dos Sete Espadachins, sabe – ele disse, fazendo descaso, mas Sasuke viu o sorriso que ele deu quando Shisui fez cara de espanto.

- Ah, mas é claro! – ele bateu na própria testa – Os dentes pontiagudos, a cara de peixe...

- Ei, ei, olha lá quem fala – Suigetsu respondeu, irritado – E você descendeu de quem, com esse tamanho? Se bem que um elefante tem as orelhas bem parecidas com as suas...

Shisui assumiu um ar assassino, e abocanhou uma colher da pasta verde com uma careta. Itachi riu baixinho, fazendo Sasuke ficou alheio a tudo, na esperança de gravar a eufonia em seu cérebro. Ao longe ele ouviu a voz do irmão, que parecera chegar aos seus ouvidos do outro lado do salão.

- Shisui, você sabe o que está comendo?

- Não. – ele lhe respondeu, a voz engrolado pela grande quantidade de pasta que ele mascava – Mas esse treco é bom. Como se chama?

- Wasabi – Itachi respondeu, a voz ligeiramente ambígua.

- Ah, bem, preciso pegar a receita depois. Se bem que não vai precisar; Atem é quem vai cozinhar aqui, não é mesmo?

- Com toda a certeza. – Atem garantiu, fazendo jóinha.

Sasuke focalizou o rosto de Itachi e algo comprimiu seus pulmões. O irmão olhava para Atem como quem suplicasse algo.

- Atem, – ele começou – você sabe que não precisa...

- Como assim, não preciso? – Atem replicou, indignado. – Itachi, todo mundo aqui quer ajudar. Você sozinho não iria dar conta.

- Mesmo assim, vocês não são obrigad-

- No meu ver, somos sim. – Kaeda o interrompeu, esfregando uma mecha do cabelo distraidamente – Você fala como se nos importássemos. Todo mundo aqui ajuda. Não vá achando que pode ir levar toda a glória por representar o papel de "senhor Altruísta" que não vai rolar.

- Não tem nada a ver. – ele replicou, ofendido. – Vocês têm de voltar para Atlântida... Ou Valhala, mas Eimber certamente não vai aprovar... Garoto, você está bem?

Sasuke girou a cabeça e viu Suigetsu com o hashi meio enfiado na boca, alguns fios de massa sobressaindo os lábios. Seus olhos saltavam ligeiramente das órbitas e suas pupilas estavam muitíssimo dilatadas. Por um momento me perguntei se o makarano continha duboisina, quando ele se ergueu e apunhalou uma porção considerável de massa com queijo e massas e começou a sugá-la com gula. Atem estufou o peito, orgulhoso.

- Alguém quer torta de caramelo? – Mydia ofereceu, com uma grande redoma de vidro nas mãos.

- Obrigado mas estou satisfeito – Itachi mentiu.

- Itachi, você nem tocou a sua comida – Yuna protestou, fitando o prato cheio da massa que esfriava gradualmente.

- Não, sério, estou sem fome. Eu... – ele se levantou – preciso falar o capitão Solidor. Com licença.

E ele se foi. Sasuke se sentiu mais leve, uma sensação que odiou ter no corpo.

.,~*~,.

Itachi e Sasuke não se falaram depois do almoço. Ele vira Itachi combinando algo com o capitão que ele não conseguira ouvir, mas Solidor parecera satisfeito com a proposta de Itachi.

Ele e Suigetsu dividiram um cubículo úmido com três redes, localizado no duplo-fundo por mais de uma semana com um velho sonâmbulo, que começava a recitar estrofes de musicais às duas e catorze da manhã. Yuna prometeu que os tiraria dali assim que um grupo de peregrinos desocupasse as cabines, mas os garotos se divertiam a beça retirando borlas de mofo do teto e deixando-as flutuar sinuosamente até a boca que abria e fechava do velho, jurando que se ele se engasgasse e o sistema respiratório dele parasse de funcionar, eles estavam dormindo e acordaram o corpo do velho estatelado no chão.

Sasuke não via o irmão à maioria do dia. Ele apenas aparecia ao lusco-fusco matutino e vespertino, e sempre rodeado dos amigos. Eles continuavam a partilhar da mesma mesa na hora das refeições (Ele e Suigetsu estavam oficialmente incluídos no grupinho).

Todos eles se associavam com harmonia, como se um completasse o outro. Atem e Kaeda estavam juntos a muitos anos, e o noivado deles foi arranjado. Por sorte, ou por pura obra do destino, depois de incessíveis dissensões e desavenças, eles já estavam a todo o vapor aos catorze. E quando eu digo "a todo o vapor", sim, eu menciono uma cama grande, a porta trancada e um banho já pronto.

Yuna, como Sasuke desconfiava, era parte Uchiha. O pai era proveniente do País da Rocha, não era ninja, mas trabalhava nas minas. Ela contara, em um relato apaixonado, como os mineradores tinham olhos de cristais e como ela já brincara nos carretões iluminados por uma lamparina a óleo. Ela também contou, muito casualmente, que ela já fora portadora de uma doença e que não tinha amigos, pois ela tinha tendência a exercer repulsa sobre os outros.

Shisui era o primo que Sasuke nunca conhecera. Ele se assemelhava a um urso brincalhão, que fazia piadas de bom gosto e tinha o donaire como linguagem coloquial. Ele poderia desdenhar maldosamente com quem quisesse que a locução com chiste aparentaria teria sido um espécie de louvor.

Suigetsu e Rieki tiveram uma simpatia instantânea. O garotinho também era da Vila Oculta da Névoa, o que facilitava muito os diálogos entre ambos. Rieki não parava de recontar a história de como havia sobrevivido no bombardeio e, curiosamente, a versão ia mudando ao longo dos dias. Inicialmente, ele informara que fora para o porão por puro hábito, mas arruaceiros armados seqüestradores foram acrescentados à história, e Rieki narrava um combate brutal onde ele, mesmo em desvantagem, travara uma brava luta com cinqüenta bandidos, armados até a unha, que o trancara no porão de uma antiga mansão, pois o próprio Rieki era a chave para...

- E o que é que você iria fazer? Atacar os caras a roncos? – perguntou Kaeda, alfinetando-o.

As orelhas de Rieki ficaram vermelhas e dali em diante ele reverteu à versão do pesadelo.

Toda a quarta-feira, à noite, havia uma pequena reunião realizada no deque. Archotes eram acesos e as pessoas tocavam e cantavam músicas festivas, boas de dançar. Enquanto Solidor e Mydia valsavam em um quadrado perfeito, Atem e Kaeda sapateavam de lá para cá como Fred Astaire e Ginger Rogers. Normalmente era nessa parte que Solidor mandava todo dormir, teimoso demais para admitir qualquer pessoa dançava melhor do que ele.

Para espanto de todos, havia um cômodo estreito que servia não como uma biblioteca, mas como um ponto de estudo marítimo. Suigetsu se mostrara particularmente interessado por nesografia, entretanto a amelopia de Sasuke não permitia deixá-lo adquirir tanto conhecimento quanto pessoas com uma visão normal – não que ele quisesse, claro. Sasuke jamais se interessou pelo tipo de conhecimento que ele nunca iria usar na vida – o oposto exato do irmão, que não podia ser visto de um livro em baixo do braço.

Porém, a cada dia que se passava, Sasuke foi percebendo uma diferença notável no comportamento do irmão. Itachi aparentava cansaço, e olheiras de um lilás claro contornavam a parte inferior dos olhos – era uma imagem deprimente de se ver. Você começaria a bocejar na hora, é sério –. O fato não passou despercebido pelos outros, é claro.

- Mano, cê está com uma cara horrível – Shisui comentou, virando o rosto mórbido de Itachi para si, que piscou pesadamente.

- Uhm – ele bocejou. Em seguida, se retirou e Eimber tomou o seu lugar.

- Ele não parece legal, não é? – ela disse, servindo-se de salsichas crestadas como a sua pele.

- Bem observado – Yuna retorquiu, preocupada. Sasuke analisou Eimber mastigando o bolo alimentar e se perguntou se o corpo de uma Valquíria seria tão perene quanto a irritação que ela lhe causava cada vez que jogava o cabelo para trás.

.,~*~,.

Depois infrutíferas tentativas de trancar a traquéia do velho sonâmbulo, que havia se prevenido com um novo mecanismo – ele tossia as bolas mofadas para cima, mas não morria – Sasuke virou de lado em sua rede e ficou observando várias luas penderem no negrume pontilhado de estrelas através da janela suja.

- O que você acha que Itachi está fazendo? –perguntou, embalando-se chutando a parede de leve.

- Eh? – Suigetsu disse, distraído, enquanto brincava com um fiapo que arrancara de sua rede azul-suja – Sei lá, provavelmente saindo de noite, não é? Para estar cansado daquele jeito...

Sasuke não respondeu. Desviou seu olhar para os caibros com tenhas de aranhas costuradas no teto.

Itachi estava realmente saindo de noite?

.,~*~,.

Sasuke acordara bem cedo no dia seguinte. Olhando pela janela, não havia como confirmar isso – a não ser que você saiba interpretar as posições solares e lunares de outras galáxias.

Um pirata lhe deu bom-dia enquanto fazia o esfregão dançar pelo chão do corredor. Sasuke passou correndo pelo labirinto úmido e escorregadiço, derrapando em frente a entrada de duas portas e a escancarou, entrando desembestado salão adentro.

Shisui estava jogando cartas com um marujo em uma das mesas, executando uma ficela envolvendo um dayimio equipado com "um grande livro". Kaeda estava deitada por cima de Shisui, e Sasuke levou alguns segundos para perceber que ela estava tentando pegar um livro numa estante mais adiante. A pessoa que ele queria encontrar, Yuna, murmurava sem abrir a boca enquanto cerzia um tecido pateliforme.

- Yuna – Sasuke a chamou, na esperança de que, se ela a Itachi fossem noivos, talvez dividissem o mesmo quarto. Esse pensamento causou-lhe um arrepio na espinha, mas Yuna apenas ergueu o rosto curioso e respondeu em sua habitual e dulcíssona voz.

- Sim, Sasuke?

Sasuke hesitou. Obviamente iria pedir algo estranho, mas engoliu todo o seu orgulhou e peitou a menina.

- Eu quero saber onde... onde você e Itachi estão dormindo.

Ele aguardou, enquanto a surpresa transpassava o rosto jovial, que em seguida se abriu em uma sonora gargalhada.

- Sasuke – ela disse, quando parou de rir – Eu e Itachi não estamos dormindo no mesmo quarto, apesar de sermos... sabe, noivos. – Ela se entreolhou ligeiramente com a palavra, mas recuperou-se.

- Itachi está dormindo num quarto mais ou menos em cima da ponte - ela apontou para o teto, e então seu olhar recaiu sobre Sasuke novamente – Você sabe por que ele não anda aparecendo?

- Quê? – exclamou ele, surpreso. – Vocês também não sabem?

- Huh? – Shisui estirou a cabeça por cima do jogo – O que é que eu não sei?

- Bem, sabe, sobre Itachi não aparecer de dia...

- Aaaah, isso? – Shisui voltou a atenção para o jogo de carteado – Ele está trabalhando.

- Trabalhando? – Sasuke e Yuna espantaram-se.

- É, trabalhando. Ele não tinha dinheiro o suficiente para pagar a pensão de todos nós, e ele iria arrancar as minhas tripas caso ele ouvisse falar em roubo. – Shisui os encarou com seus grandes olhos negros por debaixo da franja – Por isso ele está trabalhando a noite. Ele me pediu para não contar nada, queria que vocês não se incomodassem.

- Mas você nos contou – Yuna ressaltou.

- Então acho que quebrei a promessa, não é mesmo? – Shisui sussurrou, comendo o jounin do marujo, que derrubou a mesa, desistindo.

.,~*~,.

Quarta porta a esquerda, ele repetia a si mesmo. A quarta porta a esquerda... isso mesmo, a quarta porta a esquerda...

Porém não adiantava ficar se lembrando do caminho para o quarto de Itachi, pois ele já o decorara de trás para frente. Talvez fosse apenas um jeito de se distrair do pensamento que criara raiz na sua alma, e esse pensamento o repreendeu por todo o absurdamente longo trajeto até o quarto de Itachi.

Ele está se sacrificando por você...

Como se ele já não tivesse feito isso antes.

Você viu o estado dele. Ele está péssimo.

Ele que escolheu privar-se de uma boa noite de sono.

Já não basta ele estar doente, você ainda tem de bagunçar a saúde dele?

O coração de Sasuke parou de bater por um segundo, para depois começar a saltar dentro de seu peito como se tivessem injetado adrenalina nele.

Itachi não poderia estar doente, poderia?

Bom, se ele estava doente, não havia aparentado ou dito a ninguém. Sasuke lembrou-se claramente do irmão regurgitando sangue como se olhasse uma fotografia. Estremeceu da cabeça aos pés.

Quer para de meditar com a sua consciência, seu problemático? Você chegou.

De fato, aquela era a quarta porta à direita do corredor. Tinha o número 31 entalhado na porta castanho-avermelhada e uma maçaneta de latão. Sasuke teve um relampejo de imagem onde Itachi jazia morto na cama, o sangue pingando do lençol...

Estava a ponto de dar no pé quando ouviu algo vindo de dentro do quarto. Algo como um murmúrio ou uma lamúria, mas sem dúvida era a voz de Itachi. Muito cuidadosamente, e Sasuke abençoou mentalmente quem quer que fosse que mantinha as porcas sempre oleosas, pois abriu uma brecha suficientemente espaçosa para se espiar dentro sem fazer qualquer ruído.

Itachi estava sentado no peitoral largo da janela, Akane em seus braços. Ele acalentava e murmurava para ela, e apesar das olheiras estarem mais visíveis do que nunca, seu rosto era cansado, mas sugeria que estivera o dia inteiro esperando por aquele momento. Seu cabelo formava um nó frouxo que pendia em sua nuca, escurecido na noite espacial. Ele estava vestido com um conjunto de vestes puído e largo. A camisa que quase chegava ao joelho se sobrepunha a calça que tapava metade de seus pés... tudo estava meio transparente... Sasuke podia ver cada contorno do corpo dele...

E ele fugiu, o corpo inteiro ardendo. Sasuke sentiu uma ânsia que não sabia de onde viera. Um sentimento que ele não sabia explicar apoderou-se de seu corpo, um sentimento que, com toda a certeza, não deveria estar ali.

.,~*~,.

¹ Lenneth é uma personagem do RPG Valkyrie Profile. Todos os direitos reservados.

Momentos emos do Sasuke.

MEUS QUERUBINS ROSADOS!!

Aviso meio triste, colegas. Parece que a fic vai ficar meio paradona por causa do níver da mana Coraline – Larryzinha (12 de Julho) – e está exigindo uma fic de presente. Já sabem, né? Tenho de me focar me escrever uma Dark-Fic com Lemon em todos os caps para uma tarada sadista e masoquista. E ItaSasu. Legal.

Então, não esperem atualizações recentes. Lamento, mas obrigada pela compreensão, pelo apoio e pelas reviews!

Ah, sim. O nome da fic será The Crystal Wall.

Gente, eu sei que no sexto capítulo a Kanna prende uma coisa no pulso do Itachi e que eu nunca mais mencionei, mas é que era pra ser uma pulseira e a idéia não foi muito longe. Agora pare de encher o meu saco, Fred.

Respostas das Reviews:

Vitor: Oi, amor! Saudades tua – que que andas fazendo fora do colégio? Bem, não importa muito. GRIPE SUÍNA BOMBANDO NO SUL! Máscaras com o Con, 50 centavos cada (Garanta já a sua!). E nós fomo no cinema dia QUINZE, néah? Que tudo. Curta as férias, colega.

Larryzinha: Amiga, não é pra tanto. Afrouxa essa bola aí porque eu fiz questão de postar exatamente dez dias depois do teu níver (espero que tu tenhas recebido o teu deploravelmente adorável conjunto de calcinhas de caveira). Okay, o negócio é o seguintilis: Eu vou tentar fazer essa tua fic, mas do jeito que tu quer que ela seja não vai dar para ser One-shot, so eu vou ver no que vai dar, okay?

hin-vi: Olha só, colega, desculpa se tu estás sem cabelo, mas eu tive que resolver uns negócios particulares (tais como deixar a fic de lado e jogar The Sims) mas tá tudo na banana, né? I mean, o cap saiu, não saiu?

Nandinha Da Vinci: Valeu, sis', bem-vinda ao clube. Eu sou paranóica por Uchihacest e finalmente tive tempo para escrever uma fic (ok, nem tanto tempo assim) AIS QUE FELIZ! Continue acompanhando a fic, be happy e não perca os cabelos!