– Diga-me uma coisa: por que não pude vê-lo como você pode me ver? – Melissa perguntou para Corazon, enquanto estavam ambos a sós. Por prevenção, o loiro usou sua habilidade de barreira sonora em torno deles, caso alguém estivesse espionando longe.
– … é uma longa história… preciso antes confiar-lhe meu passado e meus segredos em você.
– Sabe que pode fazer isso… se já confiei-me toda em você… – disse ela, acariciando-lhe o rosto.
Ele pegou aquela mãozinha que o acariciava e beijou-a longamente.
– Espero que seja assim para sempre…
– Então, me conta. Quais são esses segredos que você quer contar para mim?
De repente, Corazon ouviu passos, olhando em direção para o barulho. Melissa olhou-o sem entender.
– Vem alguém aí?
– Alguém passou por perto… deixarei para mais tarde. Me espera depois da meia-noite lá em cima?
– Claro!
– Vamos voltar a treinar.
Assim, voltaram a treinar luta, uma ótima desculpa para ele estar sempre perto dela. Jora se aproximava, querendo a atenção de Melissa.
– Melissinha! Venha aqui, preciso de sua ajuda na confecção de minhas artes!
– Mas… agora? – ela perguntou.
Corazon negou com a mão e a cabeça.
– Ah, ele não me libera agora! Pode ser para mais tarde, Jora?
– Ahh, que chato esse cara! Está bem, minha querida, mais tarde você vem até a varanda. Estarei lá até a hora do jantar! – e se virou para Corazon – trata de não matá-la ainda!
Ele fez uma careta. Quando Jora saiu, ambos riram que nem dois bobos.
– Ah, você é bruto demais comigo! – brincou a morena, pondo a mão na testa.
…..
Meia-noite e cinco. Uma noite sem neve, porém extremamente fria. Lá na torre, estavam novamente os dois a sós. Não era sempre, mas de vez em quando estavam os dois lá, trocando os poucos momentos íntimos que poderiam ter.
– Meus primeiros cinco anos de vida, vivia uma vida nobre e superior à dos outros, até quando minha família perdeu a posição de um Tenryubito, Nobre Mundial. Meu pai abandonou Mariejois para seguir seus ideais de igualdade, a fim de viver uma vida normal entre os plebeus. Tanto meu pai e minha mãe eram humildes, acreditavam na pureza de uma simples e igual, contrariando os princípios dos Nobres Mundiais. Tinham a bondade e a caridade em seus corações. Você lembra muito o jeito deles. Muito mais que meu próprio irmão de sangue.
– E… ele já não foi assim alguma vez?
– Nunca. – finalizou com uma tragada longa em seu cigarro.
Ela silenciou-se. Doflamingo parecia ser uma pessoa que se preocupasse com quem amava. Pelo menos com ela era assim.
– Meu irmão sempre foi diferente de mim e dos pais. Ele nunca foi do bem… ele sim, representa o fiel e típico Tenryubito.
– Não parece…
– Precisa conhecê-lo melhor, Melissa, como está fazendo comigo agora. Mas, voltando ao que eu dizia… meu pai decidiu abandonar tudo para viver uma vida digna, do suor do trabalho até os atos de caridade. Ainda quando um nobre, fazia caridade aos mais necessitados. Falava igualmente com um nobre que nem ele como falava com um escravo. Meus pais odiavam a escravidão, assim como nunca vi graça alguma nisso também!
– E… sua família já teve escravos?
– Meu pai só recolhia escravos muito debilitados, forjando que trabalhariam para nós, mas ele cuidava deles secretamente e forjava a fuga deles em vez de fazê-los escravos. Meu irmão, ainda pequeno, apreciava os escravos e se enfurecia quando o pai desfazia deles.
– Nossa… que coisa.
– É… e quando fomos viver como plebeus que até então não éramos, não tivemos paz. Sabe bem que Tenryubitos são odiados por todos, em geral. Sofremos perseguições, apanhamos, quase fomos mortos… – ele apoiou suas mãos nos ombros esguios dela – vimos o inferno antes mesmo de morrermos! Sofremos muito mais que os plebeus sofreram nas mãos dos Nobres Mundiais!
Melissa o olhava assustada. Penalizada em saber disso.
– Eu… eu sinto...
– Carrego cicatrizes em meu corpo e em minha alma, muitas… aprendi a me defender sofrendo as piores injustiças, assim como meu irmão. A única diferença entre nós é que fui forte o suficiente para superar, e meu irmão não! Ele não conseguiu nunca aceitar todos os desafios que passamos até chegar aqui. Ele se tornou ainda pior, com influências desses agentes oficiais que nos acudiram depois da morte da mamãe… – os olhos dele começaram a ficar úmidos – ela nunca contrariou qualquer decisão do meu pai e sempre seguiu fiel aos seus ideais. Mesmo fraca e prestes a morrer em plena miséria, ela sempre seguia com a cabeça erguida e o coração aberto. Ela disse uma frase para nós três antes de silenciar sua voz para sempre: "Se a vida não ficar mais fácil, trate de ficar mais forte". – Corazon sempre começava a chorar ao lembrar dos últimos momentos com a mãe.
Ela o puxou, com certa dificuldade de movê-lo com sua própria força, para um abraço.
– Fica calmo… é bom recordar as pessoas que marcaram nossas vidas. É a melhor forma de mantê-las vivas dentro da gente…
– Verdade… apesar de dizer que "superei" não quer dizer que sou forte o suficiente para tudo. Tenho fraquezas também. Mas mantenho tudo comigo… aliás, mantinha. Encontrei você. E o que mais temo… é perdê-la.
Ela fechou os olhos, sentindo que ia chorar também.
– ...Você… me ama, mesmo? – ela tinha que confirmar novamente da voz dele.
– Sim…
– Mas… não poderemos nunca assumir perante os outros que nos amamos?
– ...não ainda. Sabe que meu irmão gosta de você. Até resolver umas coisas, preciso pará-lo com as loucuras deles e ter a segurança que você possa ser minha para sempre. – ele apertou-a em seu abraço, puxando ela para sentar em seu colo.
– Já sou sua, sabe bem disso. Entreguei-me a você e não me arrependo de nada que houve entre nós, mesmo que tenha se ocultado naquela noite para mim.
– Posso confiar em você? – perguntou novamente.
– Pode, Corazon. – respondeu pacientemente.
– Mesmo eu sendo tão cheio de defeitos?
– Defeitos todos temos, Corazon. Também não sou perfeita.
– Você é mais que perfeita… sinto-me tão impuro por amar um anjo que nem você…
Silenciaram as juras de amor com um simples beijo. O frio dali deixou os lábios quase congelados, grudados um no outro.
– Vamos para dentro, querido. Senão, vamos adoecer.
– … se quer assim, então eu faço. Mas vá na frente, caso encontremos alguém acordado…
Melissa concordou, saindo do colo dele e indo na frente. Corazon resolveu dar um tempo antes de sair do topo da torre. Ela andava esfregando as mãos em seus braços, procurando aquecer-se.
– Acordada a essa hora, Melissa?
Uma voz a fez parar. Uma voz familiar.
– O que faz vindo do topo da torre?
– Er… eu gosto de ficar lá quando não tenho sono.
– Muito ruim, você pode ficar "dodói" de novo… – Doflamingo pegou uma das mãos dela – vamos, te levo até seu quarto.
– Não… não precisa… – ela tentou tirar sua mão presa na mão bem maior do outro.
– Precisa sim! – ele parecia gentil e bruto ao mesmo tempo – vem, vamos esquentar um pouquinho essas mãos!
Ela olhou para trás, temendo que Corazon a flagrasse ali com ele. Poderia pensar o pior e justo agora que ele havia aberto seu coração para ela.
– Que houve? Tem alguém a mais lá? – Doflamingo observou Melissa.
– Não… nada, não. Vamos! – ela tinha que disfarçar sua preocupação.
Ele abriu aquele sorrisão enigmático e acompanhou-a até o quarto dela. Ele entrou junto e fechou a porta. Melissa não sabia o que fazer além de ficar parada. Corazon seguiu os dois, pois havia escutado tudo. Ele tinha que ver até onde iria os dois. Caso Melissa desse o menor dos gritos, ele arrombaria a porta e socaria o irmão ali mesmo, mesmo colocando seus planos e sua missão como membro da Marinha por água abaixo. Agora, se Melissa realmente fosse uma mente fraca, seu coração ganharia mais uma cicatriz. Era hora de saber por conta própria. Que a sorte estivesse ao lado do mais justo de tê-la como mulher…
…..
– Senta ai, vamos relaxar um pouco! – Doflamingo sentava-se no chão ficando de frente para ela que estava de pé – Parece acuada… já não lhe disse que comigo não precisa ser assim?
– É que… fui pega de surpresa… mas claro que posso lhe fazer companhia! Só não tenho bebidas aqui para oferecê-lo…
– Ah! Da próxima vez, vou encher aquele seu armário ali dos melhores vinhos! – ele apontou um dos armários qualquer do quarto dela.
– Não se incomode… sabe que não costumo beber… ia ser só para lhe oferecer! – ela sentou-se na cama, um pouco distante dele.
Ele estava bem folgado no chão, sentado com as pernas entreabertas e as mãos apoiadas para trás. Estava sem o tradicional casaco de penas de flamingo rosa. Blusa preta, gravata vermelha e uma calça capri com característicos desenhos na borda. Sempre com aqueles óculos.
– Dessa vez, queria te ensinar umas coisinhas. Que você acha?
– ...ensinar? O quê? – Melissa desviou o olhar. Ela sabia das intenções dele, mas ela nunca trairia Corazon. E ele não sabia do envolvimento do irmão com ela, logo ele estava disposto a conquistá-la e tê-la como sua própria mulher.
– Venha cá. Vem.
Ela hesitou. Ele inclinou a cabeça para o lado, não entendendo aquela desconfiança toda.
– Que foi? Hum?
Ela se aproximou, sentando-se à frente dele, no chão. Com as pernas juntas, cobrindo boa parte das coxas com a barra do vestido.
– ...o que quer me ensinar?
Ele se inclinou até ficar com o rosto a altura dela. Ela apenas afastou um pouquinho a cabeça para trás.
– Acho que está na hora de nos conhecermos melhor, como da outra vez…
– ...mas… ainda não me explicou como…
Um ângulo bonito. O belo rosto oval de Melissa fazendo frente ao dele. Aqueles olhos, aqueles lábios… pronto para serem explorados. Nem esperou a morena terminar a frase, e beijou-a imediatamente. Os lábios se roçaram uns nos outros. Melissa ficou paralisada por alguns segundos até quando ele quis penetrar sua língua dentro de sua boca, aprofundando o beijo, desviando seu rosto e levantar-se dali, ficando de frente a ele. Abandonado ali no chão, ele apenas olha para ela.
– Hmm… parece que realmente nunca fez isso, não é?
– Er… não… sim… bem…. bom, poderia me deixar sozinha, Jovem Mestre? Por favor…
Corazon escutou um ruído. A porta estava trancada por dentro.
– Mas o que há de errado? Além disso, me devia um beijo desde aquele nosso recente encontro.
– Mas é que… não dá!
– Por quê? Somos livres, adultos… essa segurança só tem justificativa se você nunca fez isso. Ou… se já tem alguém que ama.
Melissa quase engoliu seco.
– É que…
Deveria manter o segredo, como queria Corazon. Ela sabia o quanto seria ruim para Doflamingo se ela falasse a verdade em relação ao irmão.
– É que o quê? – ele parecia um adolescente prestes a se frustrar diante de uma situação ruim.
– Hmm… eu… já amo uma pessoa…
Doflamingo ficou sério. Uma pessoa veio em sua mente. Mas não… poderia ser outro. Mas qualquer um que fosse… ninguém deveria roubar o coração dela anão ser ele.
– Você… é um homem maravilhoso, acredite. – o discurso era velho, mas Melissa precisava acalmá-lo – mas… se realmente estivesse sozinha, seria totalmente sua!
Corazon conseguiu ouvir melhor. Entendeu as falas de ambos. Estava boquiaberto desde que Melissa ousou em falar que amava uma outra pessoa.
– … e não me sinto bem em mentir para você. Jamais ousaria enganá-lo!
– … eu sei, Melissa… mas isso me pegou de surpresa. Talvez, eu tenha sido muito adiantado… – Doflamingo ficou de pé e foi até a janela, dando as costas para ela – é sempre assim… quando gosto de uma pessoa, ela é proibida para mim.
– ...talvez, eu não seja uma mulher digna do seu nível…
– Cale-se. – ele se virou para ela – Você é tão valiosa como todas as mulheres desse mundo… – aproximou-se dela – talvez… a mais valiosa delas.
Melissa abaixou a cabeça.
– Agradeço seu elogio, Jovem Mestre.
Pôs sua figura enorme diante dela. Ela não se atrevia a levantar a cabeça. O silêncio deixava Corazon a ponto de arrombar aquela porta. "Droga. O que faço agora?", ele pensava.
– ...é alguém que conheço? – perguntou o loiro.
– …
– Hum? Vamos, não deve existir segredos entre nós… e você mesmo disse que jamais ousaria enganar-me…
– Sim, claro… é muito ruim mentiras…
Ele se aproximou dela, ajoelhando-se. Ficando um pouco menos alto que ela, ele a pegou pelos braços, fazendo-a ficar de frente a ele, encarando-o.
– Levanta essa cabecinha e me diz…
– Não… me sinto bem em falar agora. Pode ser numa outra hora?
Ele fez com a cabeça que não. Pressionava-a gentilmente. Apreciava-lhe ver melhor o peito dela subindo e descendo com a respiração. Seios tão firmes. Tinha a impressão que a pele dela se arrepiava um pouquinho.
– Quero ouvir agora, dos seus doces lábios… – ele levantou o rosto dela pelo queixo delicado e mimoso – quem é mais digno de provar dessa boca, desse corpo primoroso que eu?
Melissa mal conseguia encarar Doflamingo.
– ...e...
"Alguém" bateu a porta.
– Ué, quem é que está batendo a porta do seu quarto a essa hora? – Doflamingo foi destrancar a porta. Melissa respirou aliviada quando ele foi até a porta. Estava no limiar revelar aquele que era mais digno de prová-la inteira.
– Jovem Mestre! Está tendo incêndio na cozinha do castelo e o fogo está espalhando! – chegou Baby 5 gritando por socorro.
– Como isso? Foi o Corazon?
– Não, é algo pior!
– ...vou lá ver, vem Melissa! – ordenou Doflamingo.
Ela pegou seu xale e seguiu com os dois.
Um pretexto insano e perfeito ao mesmo tempo: Corazon nunca havia incendiado nada propositalmente como a cozinha e a sala do lugar, arriscando a segurança do lugar que ambos viviam...
