Capitulo 10: Decepções
A madrugada inteira a quimera aprisionada entrou em guerra contra a jaula que lhe prendia. Os bruxos do povoado de Hogsmead ouviram arrepiados os horripilantes guinchos do animal, e creditaram o mito de que a Casa dos Gritos estivesse povoada por almas penadas. Ninguém sabia que o que estava lá dentro era de carne e osso, a não ser quatro bruxos de dezesseis anos que passaram o resto da noite e da madrugada dormindo profundamente em Hogwarts.
As quatro amigas grifinórias acordaram cedo. Lilian penteava os cabelos ruivos e espessos de frente para o espelho, Alice rolava preguiçosamente na cama, relutante em se levantar, enquanto Daynna esmurrava a porta do banheiro:
—Julieee saia logo desse banho! E não se faça de surda!
— Daynna!— Lilian se virou no banco da penteadeira— Deixa a menina e para de fazer escândalo!
Antes que Daynna respondesse, a porta finalmente se abriu. Julie tinha o rosto pálido e os olhos amendoados brilhantes de lágrimas. Os cachinhos mesclados ainda pingavam, mas ela já usava o uniforme da escola.
—O que aconteceu?— perguntou a loirinha se afastando num passo— Caiu shampoo no seu olho?
—Não.— respondeu a outra numa voz quase inaudível. Caminhou para sua cama e começou a dobrar os lençóis.
Sempre que a garota ficava sem jeito ou triste começava a arrumar alguma coisa. Ela inexplicavelmente se sentia mais aliviada fazendo aquilo do que encarando pessoas. As amigas já estavam acostumadas.
— Julie, pode parar!— dessa vez foi Alice (ainda em seu pijama de unicórnios) que falou— Os elfos domésticos fazem isso! Você não vai nos ignorar e dessa vez vai contar o que houve!
—Alice!— Lily pousou a escova de cabelos na penteadeira e caminhou até Julie, que tinha desistido de ajeitar sua roupa de cama— O que aconteceu, Ju?
— Eu...— ela balbuciou sentando-se na cama. Lily fez o mesmo— Eu tive um sonho horrível.
—Ah...— a outra suspirou mais calma— Mas isso não é motivo pra se preocupar, não é?
— Não é isso Lily, pareceu tão real! Eu nem devia chamar de sonho, devia chamar de visão... — Julie balbuciou fixando os olhos amendoados no travesseiro. Era muito mais supersticiosa do que Lilian, que tinha mordido os lábios.
— E como era?— perguntou Daynna desistindo do banho. Alice ouvia atentamente.
— Bem... Vou te poupar dos detalhes, mas... — a garota sufocou um soluço. Sussurrou— Meus pais eram assassinados!
As outras três se entreolharam.
— É isso mesmo, morriam! Morriam torturados! Ah, não quero nem lembrar... — Julie deixou que Lilian puxasse seu corpo mais para perto, dando um abraço bem apertado.
— Era só um pesadelo. — assegurou a ruivinha.
— Vocês ficaram sabendo?—arrebatou Mundungo Fletcher assim que viu os marotos darem as caras no Salão Principal.
— Quê?— balbuciou Tiago ainda um pouco desacordado.
—Eu não acredito que não!— Fletcher pareceu realmente espantado— Vocês são sempre os primeiros a saberem de tudo!
— Do que é que você está falando?— perguntou Sirius com fadiga.
—Tá legal...—Mundungo deu de ombros— Bem, é só que...
Mas antes que ele pudesse completar sua fala uma garota voou para o pescoço de Tiago, fazendo o garoto cambalear e os demais perderem o fio da conversa. Ela usava vestes com o emblema de Corvinal e seus cabelos eram lisos e castanhos.
—Olá Peny!— balbuciou ele ainda afogado pelos braços da jovem.
—Ah Tiago, bom dia!— sorriu ela dando um beijo na bochecha do grifinório— Eu só queria dizer "Alô"!
— Então isso tá mais que suficiente...— Pedro Pettigrew rolou os olhos.
— Credo!— ela soltou Tiago para levar as mãos para a cintura— E eu não posso ouvir?
—Pode, ué!— Mundungo deu de ombros— Bem, o que eu tava dizendo era que...
—Sirius!— agora outra garota atacava o grifinório. Ela era morena também, mas nesse caso tinha vestes de Sonserina— Finalmente você acordou, eu queria...
—Shhh...—ele colocou seu dedo indicador nos lábios carnudos da sonserina— depois eu falo com você, fique quietinha.
Ela ia protestar, mas antes que isso acontecesse Sirius enlaçou sua cintura e a acalmou. Agora a rodinha de estudantes inicialmente com cinco havia crescido para sete.
—Como eu ia dizendo...— Mundungo bufou, ficando irritado— Eu ouvi dizer que o...
—Ah, você está aí!— era Julie, que inocentemente se aproximava do grupo e vinha em direção a Remo. Ela parecia ter se recuperado da tristeza de minutos atrás. —Não se esqueça que hoje você me deve uma aula de duas horas!
—Ai meu santo Merlin...— Tiago deu um tapa na testa e deixou a mão deslizar até seus lábios. Sirius bufou, Pedro cruzou os braços mas Mundungo ficou realmente irritado:
—Será que o mundo está conspirando contra mim hoje?
—Minha nossa, que recepção!— Julie se afastou um pouco chateada.
—Não, tudo bem. — Remo sorriu bondosamente para ela. Pelo jeito ele era o único que achava a situação divertida— É que o Mundungo vai ter um colapso se não conseguir contar pra gente uma super novidade...
—Ah é?—fez ela sorrindo —Então eu também quero ouvir.
Agora que sua plateia era maior Fletcher respirou fundo para retomar o fôlego. Mal abriu a boca quando foi novamente interrompido:
—Alguém aí viu a Alice?— era Frank, que vinha saltitante pedir informações para os amigos.
—Não!— as oito vozes se esganiçaram, fazendo o pobre Longbottom se encolher como um micróbio.
—Me desculpem, não queria ofender... — ele balbuciou ainda meio constrangido.
— Fique aí Frank— falou Mundungo agora já roxo de tanta raiva— Você também vai ouvir...
—É fofoca?—os olhos do garoto com sardas e covinhas no rosto brilharam de excitação.
—É.
—Oba.
O grupo estava disposto a ouvir o que Mundungo tinha a dizer. A roda ficou em silêncio, todos os olhos fixos no rapaz. Finalmente, como se o propósito de sua vida fosse aquele, Fletcher encheu os pulmões de ar para falar. Sua novidade tinha subido de nível de importância tão rapidamente que agora ele se sentia sobre um pedestal de ouro. Bem, isso foi até Alice irromper no Salão Principal:
—Frank, estava me procurando?
Todos os pares de olhos se lançaram de modo tão congelante para a garota que em questão de segundos ela se calou.
— OIgorKarkaroffsemudouparaaRússia!— Mundungo falou a frase num só fôlego.
— Que foi que você disse?— indagou Julie. Sem perceber a garota segurava uma das mãos de Remo, que estava roçando na sua segundos atrás. Ele parecia ter percebido, pois estava vermelho e constrangido.
— Disse que o Igor...
—Julie!— agora era Daynna que se aproximava. O grupo soltou um urro de fúria e indignação. Jackie correu para tapar a boca da baixinha, que ficou assustada, mas pelo menos muda.
—Continue Fletcher, por favor!
— Está bem... — Mundungo não sabia se ria ou estava realmente pagando por seus pecados —O Igor Karkaroff se mudou. Ele não está mais no Reino Unido. Acho que foi pra Rússia.
Todos os espectadores, com a exceção dos marotos, fizeram cara de desdém. Frank foi o primeiro a protestar:
—Era...isso?
—SIM! — Mundungo pareceu indignado— Só que ninguém me deixava falar!
— Bah, eu tenho mais o que fazer!— Jackie deu um selinho em Sirius e se foi. Ela estava furiosa por ter perdido seu tempo com grifinórios, agora que sabia exatamente que eles não conversavam sobre nada realmente interessante. Peny, com um aceno de cabeça para Tiago, também se foi para a mesa de Corvinal. Frank puxou Alice para uma conversa em particular enquanto o resto permaneceu.
— Quem se importa com um sonserino arrogante que saiu da escola ano passado?— perguntou Julie com um tom ainda de tédio.
— Vocês que vem procurar chifre na cabeça de hipogrifo!— respondeu Fletcher indignado.
— Bem Mund, você sabe o porquê disso?— questionou Tiago tentando soar casual.
— Ah...— fez Fletcher, coçando o queixo— Não.
"Por ter conjurado a Marca Negra" pensou Sirius, a imagem da caveira cintilante carimbada em sua mente.
Os horários de aula aquele dia começavam com Transfiguração, seguido de Feitiços, Defesa Contra as Artes das Trevas e Trato das criaturas mágicas, o que queria dizer que Grifinória só dividiria a última aula com Sonserina, e isso deixou todos mais aliviados.
Uma coruja parda pousou cautelosamente ao lado de Remo, lhe estendendo o Profeta Diário. Lupin era o único maroto assinante do jornal. Abrindo cuidadosamente as notícias sobre a mesa (para que não batesse na montanha de comida de Pedro, ao seu lado), Remo leu sem interesse a manchete: "Araminta persuade o ministro".
De início ele somente correu os olhos sobre aquele amontoado de letrinhas, até se dar conta da real importância daquilo:
"Araminta Melíflua, prima da respeitável senhora Black, apareceu hoje no ministério da magia com uma das propostas mais ousadas já discutidas. O ministro Bill ficou encabulado com o pedido da bruxa, que quase o obrigou a tornar a caça aos trouxas permitida. Acompanhada de Regulus Black, Melíflua admitiu: "Temos que exterminar essa raça. Eles forçam nosso povo a manter sigilo e precaução. Não podemos viver livremente nem usufruirmos dos nossos poderes mágicos apenas para não chamarmos a atenção! Mas são apenas trouxas! Porque nos preocupar?".
Remo parou de ler, pois teve que desviar o jornal dos olhos curiosos de Sirius:
—Alguma coisa interessante aí, Aluado?
—Er...não. Claro que não.— disfarçadamente o maroto deslizou o jornal por baixo da mesa.
— O que você tem aí?— agora Sirius estava realmente curioso, o movimento do amigo somente aumentado suas suspeitas— Sei que está escondendo algo de mim.
—Que bobagem Sirius!— ele deu um sorrisinho nervoso— Alguma vez eu já escondi algo de vocês?
Agora até mesmo Tiago se engasgou com o suco. Pedro deixou de morder sua rosquinha para tossir um "licantropia!". Relutante, Remo deixou que Sirius lesse o jornal.
—Hum.— fez ele enquanto passava os olhos pela entrevista— Titia disse que faria isso mesmo, nunca pensei que estivesse falando sério. Agora esse meu "irmão perfeito"...putz!O que o Regulus foi fazer no ministério? Patético.
O tom de voz e o olhar de Sirius eram inteligíveis. Remo recolheu O Profeta assim que Almofadinhas terminou de ler, se apressando em mudar de página e ir em busca de notícias mais agradáveis, o que não encontrou.
— Ei caras.— Tiago agora se espreguiçava na cadeira, satisfeito— Vocês acham que Karkaroff se mudou com medo de ser perseguido depois do que fez?
— Bem, se havia dúvidas de que ele conjurou a marca negra acho que não há mais. Nenhum inocente ia buscar exílio na Rússia.— deduziu Sirius enquanto passava geleia em uma torrada.
— Quero as pesquisas sobre quimeras em cima da minha mesa. — anunciou o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas — Senhor Longbottom, isso não é hora de rabiscar mais uns parágrafos!
Um por um os alunos se ergueram para entregarem seus respectivos trabalhos. Daynna e Lilian estavam relutantes, Julie ansiosa, Alice apreensiva. O bruxo contou os pergaminhos entregues, se certificando dos nomes. Faltavam apenas quatro, o único grupo de trabalho que até aquele momento não tinha sequer dado as caras na sala de aula.
—Potter, Black, Lupin e Petigrew...— chamou o professor levantando os olhos— Onde estão vocês?
Todos os alunos também percorreram os olhos mais cuidadosamente pela sala; Mundungo notou as quatro carteiras vazias onde tipicamente eles se sentavam. A espera de todos mal começou e já encontrou o seu fim, pois a porta, naquele momento, rangeu timidamente:
— Sentiram nossa falta?— era Sirius, que entrava de costas. Suas mãos puxavam algo do outro lado, e era possível ouvir o bufar de cansaço dos demais marotos.
— Mas o que...?— o professor estava atônito. A classe num misto de surpresa e curiosidade.
Sirius seguiu em frente, andando de marcha ré e depositando todas as suas forças para puxar a imensa jaula coberta por uma capa de veludo. Logo em seguida surgiram Tiago e Pedro, cada um em uma extremidade puxando, empurrando, se esforçando em permitir que ela passasse pela porta. Fechando o cortejo vinha Remo, empurrando a parte de trás como se fosse um carro atolado na lama. Aquela entrada, bastante teatral, conseguiu prender a atenção de todos.
—Senhores...— começou o professor, olhando para o grande embrulho vermelho um pouco desconcertado— Espero uma boa explicação para isso.
— Mas é claro.— sorriu Tiago. As meninas da classe suspiraram.— Aqui está o nosso trabalho!
—O seu...
— Optamos por algo prático ao invés de teórico! — explicou Sirius, agora endireitando o corpo para pronunciar — Das profundezas da Floresta Proibida nós trazemos para vocês uma fera selvagem...Uma criatura da mitologia grega muitíssimo rara...Prendam a respiração, preparem seus corações...
Os alunos sentados nas carteiras mais próximas se afastaram alguns metros para trás. O professor, atordoado e agora sem autoridade alguma, fez o mesmo. Pedro e Remo, um tremendo e o outro emburrado, aproximaram-se da capa de veludo e de um Sirius que ainda discursava:
— Ninguém jamais ousou chegar tão perto, e os poucos bruxos corajosos que tentaram tiveram que pagar com suas próprias vidas...— todos tinham olhos arregalados e incrédulos. Olhavam para a jaula com pavor explícito— E agora a única, a melhor, a mais aterrorizante besta de três cabeças...
O professor continuava pasmado. Não era possível, ele devia estar tendo um pesadelo...será mesmo que a depravação de Tiago Potter e Sirius Black não conhecia limites?
— A quimera!— finalizou Tiago. Remo e Pedro puxaram a capa, deixando à mostra sua prisioneira.
Espumando de raiva, as três cabeças arreganharam os dentes afiados e se lançaram para frente. A jaula sacolejou bruscamente. O animal dava urros e patadas no ar, as afiadíssimas unhas zunindo, as mandíbulas babando, o rabo ricocheteando.
Pânico. Caus. Desordem total. Os alunos de Grifinória empurraram suas cadeiras num impulso, e logo a gritaria tomou conta enquanto os jovens tropeçavam e esbarravam nas mesas, derrubando pergaminhos pelo chão. Toda a classe correu para longe e se encolheu nos fundos da sala. O professor, seus os olhos quase saltando para fora da cara, encheu os pulmões de ar prestes a atacar os rapazes, mas um rosnado da quimera fez sua voz morrer e ele se engasgou, o dedo ainda em riste.
—Relaxem, pessoal...— fez Tiago displicentemente.— Ela está presa, não vai fazer mal a vocês. —ele gesticulou a besta mitológica, que nesse momento farejava e lambia os beiços como se estivesse dentro de um açougue— Diga olá para a galera!
A quimera soltou um bafo que cheirava a enxofre. A cor de todos os alunos desapareceu. Pedro encolheu-se atrás da escrivaninha do professor, que permanecia paralisado diante da cena. Sirius e Tiago mantinha uma distância relativamente pequena da jaula, enquanto Remo havia escondido o rosto entre as mãos.
— E aí mestre?— Sirius pousou a mão no ombro do bruxo mais velho como se fossem velhos amigos— Pode falar: é um vinte ou um trinta?
Remo e Pedro eram os únicos que não ousavam se expressar. O primeiro porque a incredulidade estava em seu auge, o segundo pelo mais completo pavor.
—Vocês...— balbuciou o professor. A quimera agora andava impaciente de um lado para o outro.— Vocês... — os olhos do homem estavam arregalados.
— Pode dizer!— Tiago se apoiou no ombro de Sirius. Estava super confiante.
—VOCÊS PERDERAM COMPLETAMENTE O JUÍZO? Menos cinqüenta pontos para Grifinória! Já para fora! JÁ! FORA!
Mas os marotos permaneceram ali, incrédulos com a reação. O professor agora trovejava quase tanto quanto o bicho:
— Minerva McGonagal vai saber o que fazer com os quatro! SAIAM DA MINHA SALA DE AULA E LEVEM ESSA COISA COM VOCÊS!— ele apontou para a quimera, que pregava os seis olhos amarelos num garoto gordinho do outro lado.
—Se é assim...— o sorriso de Sirius se desmanchou no rosto, e ele conjurou o feitiço Mobiliarmus para a jaula flutuar atrás de si.
— Os grandes gênios sempre são mal compreendidos...— murmurou um frustrado Tiago. Remo o puxou agarrando seu braço.
O estranho grupo finalmente se arrastou para a porta, fechando-a com estrondo. A classe permaneceu mergulhada num silêncio extasiado durante alguns minutos.
Depois do jantar, Julie levou seus livros de DCAT e suas anotações para um canto do Salão Comunal que já adotara para as aulas com Remo. Ela se sentou pacientemente, esperando. Mimo, o gato de sua amiga Daynna, pulou com leveza em seu colo ronronando como um motor. Com o fuço ele forçou que a garota acariciasse suas orelhas, e assim ela o fez até que Remo apareceu silencioso pelas suas costas.
— Eu demorei?— ele perguntou suavemente, fazendo a garota tomar um leve susto.
— Não.— respondeu Julie ruborizada— Acabei de chegar...
— Vai conseguir ficar por duas horas?—perguntou ele tomando o pergaminho para corrigir suas lições.
— Mas é claro!— assegurou Julie —Não é sacrifício nenhum...
Ele já havia jogado toda a sua atenção para a lição. Ela adorava vê-lo assim; compenetrado. Como era inteligente! Como era maduro! A não ser pelo incidente do dia...
—Ah... Remo? O que vocês fizeram hoje na aula... — Julie soltou sem querer. Estava muito impaciente e precisava perguntar aquilo— Foi imprudente demais, não é? Alguém podia ter se machucado...
— Eu sei.— ele respondeu envergonhado— Mas você sabe como são Tiago e Sirius, eu perco o controle quando estou com eles.
Julie soltou uma risadinha. A cada dia que passava ela conhecia uma nova faceta do garoto, que ia se tornando cada vez mais especial.
— Eu queria te dar os parabéns!— sorriu ele minutos depois — Está tudo certo! Você não errou nada.
—Jura?— a grifinória arregalou os olhos com a notícia— Ah, então vamos começar com a aula de hoje porque elas estão rendendo bastante!
Lilian Evans e Daynna Burnett caminhavam ombro a ombro a caminho do Salão Comunal de Grifinória. Elas não conversavam muito, ainda inconformadas pela casa ter perdido 50 pontos. Cruzavam um dos corredores com archotes de madeira que seguravam tochas tremeluzentes. Do lado de fora, a escuridão já havia caído e encoberto toda a paisagem de Hogwarts.
Lilian não fazia ideia da visão que teria na próxima virada. Sua amiga parou bruscamente e estendeu um braço, barrando sua passagem.
Usando a parede como apoio, Tiago Potter beijava uma garota de Corvinal com ardor, apoiando os braços torneados na parede de modo a impedi-la de fugir (apesar dela não apresentar indícios de querer fazer isso). Uma das pernas da moça enlaçava a cintura do rapaz, e suas mãos agarravam os cabelos negros de maneira tão desesperada que era um milagre Tiago não ganir de dor. O casal demonstrava no momento uma das cenas mais picantes já presenciadas em Hogwarts. Lilian e sua amiga tinham motivos para tamanha surpresa.
Eles não expressavam sinais de terem consciência da presença das garotas, graças à ávida atenção que dedicavam um ao outro. Daynna ficou constrangida, mas Lilian foi pega por um sentimento que ela jamais sonhou que teria. Não em relação a Tiago Potter.
Era um ciúmes dolorido e apertado. Ela perdeu o ar por alguns instantes, enquanto seu coração pareceu parar de bater. Aqueles eram os mesmos lábios quentes que tinha experimentado, os mesmos que dedicavam sorrisinhos tortos para ela, que a chamavam para sair, que gritavam o "Evans!" mais afoito que ela conhecia.
Lilian já tinha se deparado sem querer com Tiago e suas companheiras, mas em todas as ocasiões conseguiu fingir completa indiferença. Agora, no entanto, estava pálida e boquiaberta. Seus olhos verdes queimavam.
Foi num intervalo rápido para tomar fôlego que Penny cruzou o olhar com o rosto consternado de Daynna.
—Er...oi meninas.— ela tentou cumprimentar envergonhada, enquanto discretamente tirava as mãos de Tiago de sua cintura. O apanhador também deslocou a atenção para o outro lado do corredor, e ao se dar conta de quem eram suas espectadoras sentiu as entranhas se contorcerem.
—Evans...oi.
—Não vamos incomodar, só estávamos de passagem!— a loirinha sorriu meio nervosa, puxando Lilian para cruzar o corredor e passar pelo constrangido casal.
Mas a ruiva tinha perdido sua habilidade de falar, e seu rosto demonstrava sincero exatamente o que a garota sentia: uma salada de sensações desagradáveis.
Assim que as duas sumiram, o garoto voltou a procurar os lábios da corvinal e retomar com o que estavam fazendo, mas Penny desviou o rosto e entregou somente uma bochecha.
—Acha que estávamos muito ousados?— sussurrou.
—Nah...— Tiago, por sua vez, não tinha gostado nada da interrupção, mas apreciou muito a comoção estampada no rosto de Lily. Ele tentou mais uma investida, no entanto Penny parecia decidida:
— Tenho que voltar pro meu Salão Comunal. Daqui a pouco vão começar a vistoria dos corredores, e não quero perder pontos para Corvinal. Não agora que estamos em primeiro lugar!
— Ah...certo. Eu te acompanho.— ele respondeu desanimado, sem esconder a inveja. Só agora notou quanta falta aqueles 50 pontos faziam para Grifinória.
Remo apreciava cada movimento de Julie tão inebriado que mal ouvia o que ela falava. Julie recitava para ele a parte teórica do feitiço Ridiculus para dominar bichos papões, aguardando ser corrigida ou receber um elogio. Ele, no entanto, tentava guardar na mente a incrível harmonia entre os traços da garota. O nariz afilado, os olhos mel que combinavam tão bem com os cabelos castanho-claros; os cachos que se curvavam modelando o rostinho corado, as pontas que por vezes esbarravam numa boca rosada... O pescoço alvo, com uma correntinha dourada que sumia em seu colo...
—Remo? Você ouviu o que perguntei?
—Oi?— fez ele, saindo de seus devaneios. Julie sorriu.
— Eu queria saber se está certo o que estou falando.
—Ah... Está sim... — respondeu ele tentando parecer o mais natural possível. Ela ainda sorria, achando graça.
Naquele momento o quadro da Mulher Gorda girou, e os poucos alunos que ocupavam o Salão Comunal deram um salto em seus lugares. Um grupo de garotas de primeiro ano que conversavam em pufes, dois garotos de quarto ano sentados próximos à lareira, e um casal de sexto ano, acomodado próximo a uma janela bem particular no salão; todos ficaram em alerta.
Minerva Mc Gonagal raramente fazia visitas à sua própria casa. Ela caminhava decidida em direção a Remo e Julie, que ao avistarem a bruxa e sua rígida postura, seus óculos, coque e um pontudo chapéu, se colocaram de pé imediatamente.
— Senhorita Cabbot, o diretor quer falar com você. — Minerva falou de um modo seco e muito profissional.
—Comigo?— ela se assustou. Julie nunca, em seis anos de estudo em Hogwarts, havia estado com Dumbledore em particular, sendo que só o via nos banquetes coletivos no Salão Principal. Àquela altura do campeonato a garota até mesmo começara a se perguntar se o diretor sequer tomava conhecimento de sua existência. Parecia que sim.
— E existe outra Cabbot aqui?— retorquiu Mc Gonagal impaciente— Mexa-se! O diretor não pode esperar!
Lançando um último olhar indeciso para Remo, Julie se foi. Agora os demais ocupantes do salão já tinham perdido o interesse na cena, e um por um voltavam aos seus afazeres. Minerva, no entanto, ainda queria trocar algumas palavrinhas com o monitor de Grifinória.
— Senhor Lupin, hoje quando vocês foram expulsos da aula... — começou ela com um tom de advertência na voz. Remo sabia que estava prestes a receber uma bronca ou pergunta embaraçosa, no entanto não desviou olhar. — Eu realmente fiquei muito decepcionada, em especial com você. Potter e Black são irreparáveis, o senhor Petigrew faz o que sua dupla heroica fizer, mas o senhor... Francamente!
— Eu sei. — foi a única coisa que sua voz devolveu, fraca e baixa.
— Mas o que realmente preciso saber é onde vocês encontraram aquela quimera! E fale a verdade.
Minerva parecia tentar ler os pensamentos de seu aluno, porque seu olhar era duro, a expressão impassível. Remo vacilou um pouco:
—Não me lembro muito bem...
—Como ousa dar uma resposta dessas?—ela não gritava, mas estava começando a ficar cada vez mais indignada.
Aos poucos o monitor foi perdendo a força de vontade para mentir, afinal de contas aquela era a vice-diretora de Hogwarts e diretora de Grifinória. Alguém que esbanjava da confiança de Alvos Dumbledore. Não devia representar uma grande ameaça. Talvez fosse mais perigosa se enganada.
— Ah, professora...
Mc Gonagal transmitiu no momento a certeza de que esperaria por uma resposta quanto tempo fosse preciso. O maroto suspirou:
—Hagrid vinha escondendo ela na Floresta Proibida. — ele contou relutante— Não sei como conseguiu aquele animal, juro. Mas seja como for, ele também não sabe que estamos com ela.
— Foi muito bom ter contado a verdade, senhor Lupin. — respondeu a mestra em Transfiguração, já dando a impressão de querer se retirar— Rúbeo deve ter um pouco mais de juízo, e vocês também! Ah, francamente...
—O que vai fazer?— perguntou ele em tom desesperado.
—Contar para o diretor assim que ele estiver disponível. — e lembrando-se do motivo que a impedia de ir falar com Alvos— Ah, prepare-se senhor Lupin, sua amiguinha não vai ficar nada bem.
—Como assim?
Mas Minerva não falou mais. Girando nos calcanhares ela marchou para o quadro da Mulher Gorda, sendo seguida de perto pelos olhares de todos seus alunos grifinórios. Do lado de fora ela se encontrou com a aluna de sexto ano.
Julie seguiu a professora em silêncio enquanto um verdadeiro espetáculo de sensações a angustiavam por dentro. Sentia as palmas úmidas, o coração disparado e a cabeça doer. Perguntava-se por qual misterioso motivo estava sendo chamada, e o que de tão incomum podia ter feito para tomar o precioso tempo de Dumbledore. Será que havia um engano? Ela não se lembrava de ter feito nada de errado... Será que descobriram que ela havia colado na ultima prova de poções? Mas aquilo era ridículo, não podia ser motivo para falar com o diretor...
Julie estava confusa, mas acima de tudo morrendo de medo. Mal percebeu quando a professora parou abruptamente para dizer a senha e fazer com que uma gárgula de pedra se movesse. A grifinória nunca imaginou ser aquela a entrada para o escritório de Dumbledore, o que era deprimente levando em conta que ela estudava em Hogwarts há seis anos. Até que o tempo passou rápido, refletiu.
— Fênix Fawkes!— ordenou a diretora de Grifinória.
Obedientemente a gárgula girou, deixando que todas as escadas em espirais ficassem à vista, convidando Julie a subir. Minerva se despediu somente com um olhar.
Julie deixou de início que as escadas de pedra lhe guiassem, mas assim que o movimento parou não soube o que fazer. Essa deslocação durou pouco, pois logo estava diante de uma porta de carvalho cuja maçaneta tinha a forma de uma fênix. Lembrando-se da senha ordenada por Minerva a estudante não deixou de reparar o quanto aquela ave era apreciada pelo diretor. Suas mãos trêmulas se estenderam para a maçaneta, e ela voltou a se perguntar o que estava fazendo ali.
— Entre Julie, vamos... — sorriu Alvos assim que ouviu a porta ranger timidamente. Mais tímida, no entanto, estava a garota de cachinhos que agora tinha suas bochechas duplamente rosadas. Olhando para o chão, ela seguiu em frente e permaneceu em pé.
— Sente-se.— pediu o bruxo por detrás da barba grisalha e comprida, mas ela não obedeceu de imediato. Talvez por estar tímida, talvez pela surpresa do momento, talvez por ser a primeira vez que o encarava sozinha, talvez pela incrível aparência daquela sala circular, ou ainda talvez fosse tudo ao mesmo tempo.
Os olhos da garota desviaram de seus sapatos para passearem curiosos pelo escritório de Dumbledore. Havia quadros por toda a parte que mal deixavam à vista o forro vermelho de veludo, além de objetos mágicos que nem mesmo os bruxos sabiam qual seria a utilidade (tomando como exemplo ela, que não fazia a mínima ideia do que se tratavam). Havia uma penseira prateada e gelatinosa, um grande e majestoso telescópio (ou pelo menos foi esse o nome que Julie o batizou) apontando para o céu, visível através de uma janela, e finalmente Fawkes, que no momento estava interessada em arrumar suas penas douradas e vermelhas.
— Ou se preferir... — comentou Alvos divertido, notando que os joelhos da jovem não dobravam para que ela aceitasse a cadeira. No entanto, saindo de seus devaneios com esse comentário, ela se sentou.
Dumbledore sorriu calmamente, deixando que seus olhos azuis fizessem a costumeira vistoria de seu visitante. Ele notou que ela estava impaciente, curiosa e com medo, tudo ao mesmo tempo. Este era o dom que o bruxo mais se gabava: o de enxergar através das pessoas.
— Pro...prof...professor...— começou ela num fiapo de voz. Dumbledore não ouviu isso apesar do silêncio da sala e logo a interrompeu:
— Você notou que está chovendo?
— Quê?
— É sim, ouça. — e ele fez silêncio novamente. Confusa, Julie também se calou, bem a tempo de ouvir o som de um trovão reboando no céu escuro do lado de fora. Fawkes se incomodou um pouco, levantou o pescoço e arrepiou as penas. Dumbledore acariciou a ave com a ponta dos dedos para que ela se acalmasse e continuou— O que a chuva trás para você?
— A-a chuva?— não era possível. Não era possível que ele a chamara ali para filosofar sobre a chuva e fazer perguntas vazias como aquelas. A garota estava incrédula, mas mesmo assim respondeu— Bem, eu não sei... Não gosto muito de tempestades.
— Ah é?— fez ele parecendo muito curioso— E porquê?
— Ah... Elas me assustam. Os trovões e raios parecem querer rasgar o céu, fazendo tudo tremer. Também as gotas caindo... me lembram tristeza. Um tempo feio não parece trazer esperanças ou felicidade, apenas acaba com nosso ânimo. É cinza e frio. — quando ela terminou deu um suspiro, se perguntando se era aquilo que ele queria ouvir. "Vou perguntar pra Lily o que Dumbledore conversa com ela quando estão aqui..." pensou Julie, já que a amiga ruiva já tinha estado no escritório do diretor diversas vezes.
— Mas não é gostoso quando a chuva passa?— perguntou Dumbledore enigmático. A garota odiava falar em metáforas: ela não entendia nenhuma delas.
— É.— respondeu rapidamente— É, às vezes surge um arco-íris...
— E o que você acha do arco-íris?— ele novamente queria a opinião da adolescente. Parecia um psiquiatra fazendo uma primeira consulta com uma criança de menos de oito anos.
— Bonito.— ela respondeu ainda sem entender.— Mas ele é mais bonito ainda porque vem depois da chuva.
— Isso é porque ele faz com que a tristeza inicial seja encoberta por felicidade e esperança. — completou Dumbledore— Os raios de sol acabam por formar, como num prisma, o arco-íris. Ele é belo, mas só vem depois de um tempo feio.
— É. — ela concordou sem descobrir a moral da história. Percebendo o pouco que tinha conseguido com seus rodeios, o diretor de Hogwarts decidiu ser mais claro:
— Senhorita Cabbot, eu quero que agora você se preocupe em esperar seu arco-íris. Passe pela torrente de tristezas e dificuldades, mas a vida vai voltar a fazer sentido no final de tudo, e quero que a senhorita não se esqueça disso. — agora um brilho refletiu os óculos de meia lua. Ele não tirava os olhos da aluna confusa à sua frente.
— Algo ruim aconteceu, professor?— finalmente ela captou a mensagem. Afinal, Dumbledore estivera preparando o campo, agora ela teria que estar preparada.
A chuva castigava os terrenos da escola. Novamente um raio faiscante rasgou o céu negro e nebuloso do lado de fora, iluminando metade do escritório através da janela e formando breves sombras nos demais objetos. Fora isso, o silêncio reinava.
Reinou por apenas um minuto, e finalmente o diretor tomou coragem para responder:
— Seja forte, acima de tudo. Seja corajosa. —ele olhou de relance para o brasão estampado no uniforme negro da aluna. Ela percebeu isso. Seu coração estava disparado, a garganta seca. Ela estava doida para arrumar alguma coisa (sua mochila, as gavetas à sua frente, qualquer coisa!) apenas para se ver livre daquela pressão e daquele angustiante sofrimento. Nenhum ser humano está preparado para o suspense da vida real.
— Por deus professor... — ela falou com suas últimas forças— O que aconteceu?
— Seus pais morreram Julie. Foram assassinados. — ele por fim declarou, com um pesar tão doloroso que parecia conter lágrimas. Uma sombra pairava em seus olhos, seu semblante estava sério e ao mesmo tempo melancólico.
Julie agarrou com força as bordas da cadeira para que não desmaiasse. Era como se ela tivesse levado um tabefe. Sua cor desapareceu e seus olhos se esbugalharam. Era inacreditável. Ela tinha sido pega de surpresa, e de maneira tão arrebatadora que nada naqueles seus dezesseis anos de vida haviam lhe preparado para compreender o momento. Seu coração pareceu parar de bater.
— Venha até aqui, Julie... — Dumbledore murmurou muito preocupado— Você está tremendo...
E era verdade. Os lábios dela tremiam em sintonia com o corpo, mas ainda nenhuma lágrima foi derramada. Por fim, como um sonâmbulo que despertou de repente, a voz fraca da garota soprou no ar quase como num sussurro:
— Você está mentindo.
Dumbledore levou as mãos às têmporas e as massageou. Depois, lentamente, se levantou. Moveu a varinha e fez um copo d'água flutuar em sua direção, que ele entregou para ela depois de dar a volta pela escrivaninha, sempre num passo muito lento. Na verdade não entregou a água: pousou enfrente à garota, que não apresentava indícios de querer segurar algo além das bordas da cadeira.
— Eu sinto dizer que é verdade. — ele respondeu pesaroso, tocando o ombro da aluna de leve— Vai ser difícil pra você, mas saiba que sempre terá aqui todo o apoio que precisar.
— É mentira. — ela teimou, ainda na mesma posição de choque e incredulidade.
— Seus parentes já foram informados... Eles moram na França, não é?— Dumbledore falou em tom brando— Pois bem, eles virão lhe buscar se quiser. Estão todos ao seu dispor, assim como Hogwarts também está.
— Eu não acredito. — Julie finalmente virou o rosto para fitar o diretor atrás dela. Ele se ajoelhou, tentando ficar na altura da garota sentada. Seus olhos azuis eram tristes, mas tentavam com toda a sinceridade transmitir conforto e segurança, tudo o que ela, por sua vez, não sentia. Estava desolada, mas ainda sem derramar um pingo de lágrima— Meus pais estavam bem até ontem... É impossível... eu não acredito em você!
— Seus corpos foram encontrados a algumas horas...
— É injusto!— berrou Julie por fim, se levantando, o que fez a cadeira ser arrastada bruscamente para trás. Alvos se ergueu, ainda mantendo serenidade e compreensão— É INJUSTO!
— A vida é assim, querida. Não há justiça ou injustiça. — ele tentou abraçar a garota, que parecia estar voltando ao mundo real naquele momento. Antes ela estivera fora de si e completamente mergulhada em transe provocado pelo choque— Você não pode escolher o destino de ninguém, nem julgar o que é certo ou não é. Tem apenas que aceitar o que a vida lhe reserva, e fazer isso Julie, só o aceitar já é um grande passo dado. Já é um grande desafio anulado.
Lágrimas grossas finalmente começaram a se acumular nos olhos mel da estudante. Ela empurrou o bruxo sábio à sua frente, desatou a correr pelo escritório e só em fim parou durante alguns segundos para levar as mãos à maçaneta do escritório. Alvos não a impediu. Ela viu seu caminho livre e correu para fora, desembestando pelos corredores.
Dumbledore pensou em ir atrás da aluna, mas seus instintos lhe diziam que ela ficaria bem. Ele sabia que outros poderiam a consolar, e que talvez tivessem palavras ainda mais reconfortantes. Ou talvez apenas gestos.
— Você só pode estar brincando, Tiago!— exclamou Sirius novamente, fazendo sua voz ecoar pelo corredor de pedra.
Era engraçado o modo como os dois haviam se encontrado: Tiago acompanhava Penny para seu Salão Comunal quando, de repente, a armadura medieval que guardava a passagem se movimentou. E quem estava lá na entrada sorrindo abobalhado? Sirius Black é claro, deixando o salão Corvinal no mesmo momento. Ele bem sabia que havia quebrado um milhão de regras da escola indo àquele encontro, e que alguém poderia ter facilmente o delatado, mas ele afinal de contas era Sirius Black e isso era autoexplicativo. Penny fingiu não ver o maroto enquanto Tiago acompanhou o amigo de volta para sua verdadeira casa.
Caminhavam ombro a ombro, discutindo um de seus assuntos preferidos.
— O Appleby Arrows não vence uma partida há mais de dois anos!
— Eu boto fé ainda, Almofadinhas!— respondeu o maroto de óculos— E o seu Puddlemere United já está mais que ultrapassado! É velho demais, não tá na hora de mudar de time não?
—Eu sou fiel, Pontas!— e nesse momento Sirius bateu no próprio peito tentando demonstrar bravura—"Rebatam esses balaços, rapazes, e joguem essa goles para cá"— ele cantou um trecho do hino do time, fazendo Tiago tapar os ouvidos:
— Não sei o que é pior; o seu mal gosto pra times ou você cantando!
— Isso tudo é inveja. — sorriu o outro.
— Quê?
— É sim, só porque os Puddle venceram o Winbourne Wasps e deixaram seu time na pior... que aliás perdeu para o Chuddley Cannons! Huahahaha!
Mas nesse momento a discussão dos rapazes foi bruscamente interrompida, pois algo realmente rápido surgiu do outro extremo do corredor e trombou sem querer entre os dois. Eles sentiram o impacto e massagearam os ombros, mas a garota que passou com a cabeça baixa e engolindo soluços sequer olhou para trás. Seus cachos vinham tamborilando às suas costas, e os sapatos de boneca exigidos pelo uniforme saíram ecoando até ela virar e sumir de vista.
— Hei aquela esbaforida ali não era a bonequinha?— perguntou Tiago se virando, assombrado.
— Era sim, o que será que o Remo fez?— rebateu Sirius.
Lilian e Daynna estranharam a ausência da amiga, pois pelo que elas conheciam de sua agenda aquele era o momento das aulas particulares. No entanto apenas o monitor grifinório se encontrava no momento, sozinho diante de uma poltrona vazia. As duas deram de ombros e se alojaram num canto do salão, escolhendo um sofá grande para conversarem baixinho.
— Ei Aluado! — berrou Sirius, surgindo com Tiago pela passagem que se abria. — O que você fez dessa vez?
— Não sei. — suspirou o monitor um tanto cansado, baixando o livro que lia— O que eu fiz dessa vez, Almofadinhas?
Tiago sentou-se com estrondo na poltrona desocupada, largando os pés num pufe. Arrepiou os cabelos antes de explicar:
— Fomos atropelados por uma bonequinha de coração partido.
—A Julie?— exclamou Remo intrigado, aprumando-se— Mas ela foi falar com Dumbledore, a professora Minerva veio pessoalmente aqui, depois não voltou mais.
— Então vai atrás dela, cara!— agora quem ordenou foi Sirius — A notícia não deve ter sido boa, e seria bom você estar bem ali pra oferecer o seu ombro amigo, se é que me entende...
— Oooo Julie..! — zombou Tiago, de repente fazendo uma péssima imitação do companheiro e se inclinando amorosamente para Sirius.
— Beije minhas lágrimas, Lupin! — Almofadinhas piscava os cilícios de maneira ridícula enquanto se fazia de mulher. Fez beicinho e agarrou o pescoço de Tiago.
Remo se ergueu revirando os olhos, dando as costas para a dupla de palhaços que agora fingia se amassar num beijo ardente.
— Aonde você vai?— perguntou Pontas de repente, empurrando Sirius para longe —Sabe onde ela está?!
Remo na mesma hora enfiou a mão no bolso interno de suas vestes, trazendo à tona o Mapa do Maroto. Depois de recitar a senha ("Eu juro solenemente não fazer nada de bom") tocou o pergaminho com a ponta da varinha. Os outros dois fitaram todo o processo de abertura do mapa até que os pontinhos nomeados surgissem. Tiago se demorou com os olhos por mais alguns segundos até que finalmente exclamou:
— Ela está lá fora, no meio do temporal. É mole?
— Vai mesmo fazer isso?— perguntou Sirius curioso.
— E o que você não faz por uma garota?— retrucou o outro com uma piscadela. Depois, sem mais demoras, Remo caminhou para fora do salão sem se preocupar com o horário limite para se recolher. Ele tinha pelo menos a vantagem de ser monitor, e com esse pensamento seguiu em frente.
A chuva já castigava o terreno da escola há algum tempo, enlameando o gramado, escorrendo nas balizas do campo de Quadribol, rasgando e ocasionalmente iluminando o céu. A água do lago transbordava, e o leito estava agora muito mais espesso. O sopro do vento era como um uivo triste, do tipo que provocava calafrios. Mas a garota que se debulhava em lágrimas enfrentava tudo isso, seus cabelos ricocheteando de um lado para o outro e grudando em seu rosto.
Remo levou um banho ao deixar para trás o aconchego do hall e escadarias do castelo. Ele aplicou um feitiço secante em sua capa bruxa e a puxou para mais perto do corpo. Desviou uma franja teimosa e molhada dos olhos, tentando enxergar, e minutos depois conseguiu avistar uma silhueta contornada pelo clarão de um raio. Os contornos da garota estavam próximos ao lago, e Remo apressou o passo. Seus sapatos acabaram cada vez mais encharcados, e apesar da capa estar seca todos os membros expostos iam ficando ensopados.
Julie se engasgou em meio a soluços desesperados quando ouviu o salgueiro rangendo ao seu lado, os galhos grossos se debatendo como se estivessem vivos. Ela olhou para a árvore com receio, abraçando-se ainda mais como se esperasse um ataque. Sentia-se sem forças, incapaz de respirar e muito menos de continuar correndo.
Seus pais estão mortos— uma vozinha má sussurrou na sua cabeça, tentando relembrar o sofrimento. O choro recomeçou doloroso.
— Julie?
A voz terna de Remo foi abafada pela tempestade e seus ruídos horrorosos, mas mesmo assim foi audível. Julie preferiu não responder, já que não estava em condições de falar com ninguém. Não com tamanha dor dilacerando seu peito e apertando sua garganta.
— O que aconteceu? — Remo, sem esperar por uma resposta ou reação, ajoelhou-se ao lado dela, chegando bem perto. Seu semblante era acolhedor, e Julie não se segurou por mais tempo. Ela voou para o aconchego dos braços dele, apertando o rosto no peito do amigo e enlaçando seu pescoço com os braços. Chorava, soluçava e tremia cheia de tristeza e frio. Era um frio intenso que vinha mais de dentro do que de fora, que penetrava e enrijecia sua alma.
Ele a apertou com força, tentando mostrar que ela não estava sozinha e que tudo ficaria bem. Mais um raio cortou o céu nublado, iluminando agora o contorno dos dois, que, unidos, pareciam ser um só. Um ronco nos céus seguiu a descarga elétrica, e mais um trovão reboou atrás das nuvens. O vento bagunçava o caminho das gotas, que eram atiradas para todos os lados.
— Julie, venha comigo. Vamos voltar, você está completamente encharcada.— ele se levantou, trazendo a garota consigo já que o abraço ainda não tinha encontrado um fim. Ela estava enregelada, mas ainda assim, fungando, tentou resistir:
—Não... Me deixe, pode voltar! Eles se foram e agora... — ela afastou um rosto contorcido de dor— nada mais importa...
E ele compreendeu. A garota tinha sofrido uma perda, e isso era pior do que pensava.
— Eu sinto muito.— sussurrou— O que posso fazer por você?
— Sou forte... Posso... posso passar por isso sozinha. — ela balançava a cabeça agora, transtornada.
— Não nego que seja forte. — ele corrigiu levantando o rosto vermelho da garota pelo queixo. Os olhos dela estavam inchados, mas as lágrimas ainda brotavam incessantemente — Mas te prometo que nunca estará sozinha.
— Eu perdi meus pais, Remo... — Julie finalmente admitiu, sufocando-se com o significado das palavras— Eles foram assassinados! E por quê? Só porque são trouxas..? Eles nunca fizeram nada a ninguém... — ela novamente apertou o rosto contra ele.
Lupin não arranjou nada para dizer, então apenas retribuiu ao abraço. Depois, com cuidado, afastou a garota. Julie não compreendeu. Ficou estancada ali, olhando para ele enquanto chorava como uma criança desolada e confusa. Ele, no entanto, queria apenas espaço para desabotoar os únicos botões que prendiam a capa do uniforme. Em seguida, apesar de trêmulo, estendeu a peça seca e enfeitiçada sobre as cabeças de ambos.
— Você fez um guarda-chuva pra mim?— ela tentou perguntar, lutando contra as lágrimas amargas.
—Bem, a ideia é essa. — ele sorriu, ainda mantendo a capa firmemente sobre a cabeça de Julie. A garota se colou junto ao corpo de Remo, tentando ficar o mais protegida possível. Ele gostou do toque, mas aquele não era o momento para qualquer impulso ou comentário.
Assim, seguiram caminhando lentamente pelo gramado, atravessando a chuva com persistência, e agora, com um guarda-chuva improvisado.
Assim que se viram no hall do castelo o par de estudantes se separou. Remo torceu a barra de suas roupas tentando amenizar a quantidade de água impregnada, deixando assim que uma poça se acumulasse no chão do castelo. Julie não tinha mais forças para chorar, mas pela expressão de seu rosto era muito óbvio o quanto estava abalada. Seus cabelos estavam desgrenhados, os cachos haviam sido desfigurados e os olhos pareciam perdidos. Sua roupa já estava grudada ao corpo, e os sapatos ficaram imundos.
—Remo, eu... — ela gaguejou sem forças. Queria agradecer pela ajuda, mas sentia-se esgotada até mesmo para falar.
—Não precisa dizer nada. Eu vou te levar pro Salão Comunal, tudo vai ficar bem. — ele sorriu em resposta. Abraçando Julie pelo ombro, o monitor se dirigiu até o quadro da Mulher Gorda deixando um rastro de água por onde passavam.
Ele falou a senha em respeito ao silêncio de Julie. Assim que entraram, porém, uma turma barulhenta e grande de amigos se amontoou para recepcioná-los, todos com semblantes de preocupação que logo se transformou em alívio:
— Ju, onde você estava?—Berta Jorkins perguntou já abraçando a amiga. Recebeu, no entanto, um empurrão de Daynna, que tomou seu lugar:
—O que aconteceu? Porque você sumiu? Porque está molhada? Você estava chorando?
Logo Lily puxou Daynna pelo ombro para que soltasse Julie, que havia sido encurralada na passagem.
— Você está bem?— ela abraçou a amiga sem se importar com seu estado deplorável, que acabou por manchar seu próprio uniforme, antes sequinho— Venha, venha tomar um banho quente...
Alice e Frank Longbottom também queriam perguntar o que houve, mas respeitaram sua tristeza e engoliram a curiosidade abrindo espaço para que Lily passassem. Havia, porém, mais alunos grifinórios ao redor da garota sumida:
— Estava com Remo, né?— era Pedro, com sua cara gorducha sempre tão alienada. Nem mesmo Tiago e Sirius queriam fazer esse tipo de brincadeira, nem nenhuma outra, pelo menos não agora. Foi por isso que o maroto loiro recebeu uma dupla cotovelada.
Mundungo e todo o time de Quadribol de Grifinória também observavam o rosto choroso e as vestes castigadas pela chuva da garota que saiu desamparada da sala do sempre tão animador Alvos Dumbledore.
—Melhoras, Julie!
—Qualquer coisa pode contar com a gente!
E os comentários encorajadores foram ficando cada vez mais distantes na medida em que Julie e suas amigas se afastavam para o segundo andar.
—Aluado, o que aconteceu afinal?— perguntou Sirius seriamente preocupado. Como esta era uma expressão que raramente dominava seu rosto, qualquer garota teria achado o maroto incrivelmente bonito naquele momento.
— Os pais dela foram mortos. — respondeu Remo cheio de pesar, mas também sem fazer rodeios, falando mais para o grupo inteiro do que particularmente para Sirius.
—Os pais dela eram trouxas, né?— Tiago perguntou em busca de confirmação. Alice, a única garota restante do círculo intimo de amizade de Julie, assentiu.
—O que isso tem a ver, Pontas?—murmurou Sirius pelo canto da boca, no modo mais discreto que conseguiu.
—Tem tudo a ver, Almofadinhas...
