A HERANÇA DO CÁRCERE - OS FILHOS DO INQUISIDOR
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Alguns dias após o casamento de Teodora, após a costumeira penitência que Blimunda costumava levar, Timóteo foi chamado de lado pelo inquisidor.
- Os soldados me disseram que vossa mercê os impediu de se divertirem com a bruxa. É verdade?
- Ora, iam eles a violá-la em frente ao altar-mor! Não deveria eu impedir uma ignomínia dessas?!
- Fez muito bem em impedir que tal fosse feito; o altar-mor é local sagrado. Porém, caso um dia os soldados queiram tomar à bruxa fora dos limites da igreja, podem fazê-lo.
O jovem padre engoliu em seco. E ficou bastante pálido de apreensão quando Expedito lhe disse mais um sórdido detalhe:
- Eu mesmo os avisei de que podem tomá-la quando quiserem, desde que seja fora da igreja.
- M-mas e se ela não desejar fazê-lo?
O frei fez um gesto de desdém.
- Um resto de gente destes, ainda tinha de agradecer quando alguém a olhasse e a desejasse! Que com esse porte dela mal-acabado, devia mesmo era se surpreender de alguém ainda querer! É um favor que os guardas lhe fazem!
- Mas... e se for ela mulher direita? Afinal de contas, foi esposa de Baltasar Mateus.
Outro gesto de desdém veio do inquisidor.
- Era pobre, ela! Ambos cavaram o sustento com as próprias mãos, antes de ser ele prisioneiro da inquisição e de ser ela uma reles mendiga errante! E as mulheres pobres o que mais conhecem é macho - antes, durante e depois do casamento! Deve ter ela se interessado por ele porque era maneta e lhe daria um amparo mais fixo por assim dizer, sem largá-la por medo de não conseguir outra que tolerasse sua deficiência; mas essa gente não tem casamentos decentes!
- Ficou ela nove anos a procurar por ele. Quem sabe não tinha por Baltasar uma afeição mais especial?
- Não se iluda, meu caro padre Timóteo! Essas mulheres não tem mais o que fazer da vida e saem em romaria por aí. Não tendo filhos para cuidar, que faria ela? Cuidaria da cunhada e do sobrinho? Nada. É vagabundagem de gente vadia, que não tem mais o que fazer. Não se engane: nesses nove anos, muito homem deve ter passado por debaixo da saia dela! Mas reitero: fez muito bem em impedir que o ato fosse consumado dentro da igreja. Lá fora, eles que se entendam.
E sem mais nada dizer, Expedito saiu da nave da igreja e voltou a seus afazeres. Timóteo suspirou de alívio mas também de apreensão; foi logo em seguida procurar Blimunda, a qual ainda estava a mitigar os ferimentos da penitência na salmoura.
- Blimunda, se não quiseres ser violada pelos soldados, é bom que não saia de dentro da igreja. Expedito acabou de dizer que permitiu aos guardas tomarem-na caso não seja no recinto sagrado.
Ela o observou com medo.
- É cruel, teu pai! Sempre soube. Mas enfim, também sempre soube que deveria me acautelar.
- Eles darão um jeito de atrai-la la para fora, inventar algum subterfúgio; pois o perverso do senhor inquisidor já lhes deu permissão para fazerem das suas! Sabem que eu não a poderei proteger caso esteja fora da igreja.
- Eu me cuidarei.
- Vigiemos, Blimunda. Vigiemos!
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Cerca de um mês se passara desde que Teodora e Pedro haviam se casado. Na frente de Expedito e Violante, mal se falavam. Ficavam contidos até chegar ao quarto e poderem conversar sossegados. Com o tempo, as carícias entre ambos se tornaram cada vez mais intensas e íntimas; Teodora perdia totalmente o medo dele, pois era o único que a ajudava e escutava de fato naquela casa. E jamais forçara qualquer coisa que ela não quisesse fazer. Então, um dia, quando Pedro menos esperava, ela disse que queria tentar consumar o casamento. Ele ficara um pouco apreensivo, pois a esposa sequer sabia direito como se efetuava o ato sexual. Então, sugeriu a ela que se fizesse de camisola. Ela aceitou, mas Pedro lhe disse que era preciso tirar as calçolas.
Teodora assim o fez e se deitou na cama. À meia-luz, finalmente, ambos consumaram o casamento. Demorara um pouco para que ele conseguisse penetrá-la, pois ao contrário do que o sogro o admoestara, fizera devagar, com cuidado, sempre perguntando a ela se estava a sentir dor ou desconforto. Claro que Teodora sentira um pouco de desconforto, porém nada semelhante ao que sua mãe sentira naquela defloração abrupta. Apesar do desconforto, disse a Pedro que "fizesse logo aquilo", pois temia que o pai descobrisse que ambos estavam há mais de um mês casados e sem consumar o casamento. Se consumassem logo, era um peso que saía de suas costas.
Após o membro dele entrar em si, Teodora pensara que terminava ali; mas que nada, Pedro ainda ficou em cima de si por um tempo considerável, se movendo de um modo que ela não entendia; ele a beijava, a acariciava, mas ela nada sentia; apenas o desconforto da penetração. Não estava sendo bom, e Pedro percebeu; mas pensava que na primeira vez de fato a maioria das mulheres não sentisse prazer.
Ela então ficou ali, apenas a olhar para o teto, esperando ele acabar aquilo que ela sequer sabia direito o que era. Então ele finalmente acabou; deitou-se então cansado ao lado dela, e a moça finalmente teve coragem de dizer algo:
- Por que ficou tanto tempo em cima de mim, Pedro?
- É assim a consumação dos deveres conjugais, Teodora.
- Pois é? É por isso que fazem tanto alarde? É por isso que não deixam a mulher sozinha com o homem antes do casamento? Com medo de que ela faça... isso?
Pedro a olhou nos olhos.
- Não foi bom para ti, foi?
- Foi... estranho. Para que fizemos isto?
- Para que eu colocasse a minha semente dentro de si.
- Então já estou a esperar um filho?
- Pode ser que sim, pode ser que não. Algumas engravidam muito rapidamente, outras precisam de mais vezes. Por isso, por causa do neto que teu pai tanto quer ter, é necessário fazermos isto com frequência.
- Entendo. Mas e depois que eu engravidar, por onde a criança sairá?
-...pelo mesmo lugar que entrou.
- Credo-em-cruz! Como vai sair, se é tão grande uma criança?
- De uma forma ou de outra, as mulheres conseguem fazê-lo. Fique tranquila, na hora certa uma parteira cuidará de ti. De qualquer forma, te doeu? Estás bem?
- Não doeu exatamente. Foi... estranho, só isso.
- Pois sim. Agora precisamos fazer as abluções.
Então foram ambos às jarras e vasilhas a fim de se lavarem. Olharam ao leito; não saíra sangue da defloração dela.
- Me disseste que ia sangrar, Pedro!
- Algumas não sangram. Mas fique tranquila, eu sei que era virgem. Eu senti o himen a se romper.
- Eu sei, mas... bem, de qualquer forma, se deveremos ter logo o neto que meu pai quer, devo me acostumar com isto.
E assim se lavaram.
Nos dias seguintes, continuaram a fazer os tais "deveres conjugais"; e por mais que Pedro se esmerasse em beijá-la, em acariciá-la, ela não sentia nenhum prazer; sequer um suspiro mais longo ou um gemido. Nada. E Teodora igualmente não entendia porque o esposo ficava a gemer e resfolegar em cima dela, se pra ela era tão sem graça. Apenas ficava a olhar para o teto, a esperar que o ato acabasse.
Naquele período, eles também não saíram; não ousavam desafiar as ordens de Expedito, e no geral Pedro ia a seus afazeres com o rei e Teodora ficava em casa a rezar e a costurar. Sua mãe lhe ensinara algumas novenas para que rezasse pedindo um filho e um bom parto após a gravidez, e passaram ambas a rezá-las com esta finalidade. Apenas aos domingos iam todos à igreja, quando viam a Timóteo e o cumprimentavam ligeiramente, pois Expedito não permitia que a filha e a mulher abraçassem a ele dentro da igreja.
Até o dia em que, com cerca de dois meses de casados, já cansado daquela rotina tão diferente da que tinha quando solteiro, após fazerem as devidas abluções que eram necessárias depois do ato sexual, Pedro disse a Teodora:
- Minha senhora, por que não vamos ao parque amanhã?
A moça se exasperou.
- E meu pai? Não vai cismar?
- Se formos de dia, é provável que não cisme. Estamos quase há dois meses sem fazer nada senão ir à igreja...
- Meus pais sempre fizeram assim.
- Pois és jovem. Eu também sou. Precisamos de viver mais um pouco!
- Infelizmente, tenho medo das reações de meu pai.
- Pois bem. Temos de enfrentá-lo, mas em silêncio. Vamos dizer a ele que vamos à igreja! Afinal, o parque fica perto da igreja; se formos lá após o passeio, não estaremos exatamente mentindo.
Teodora sorriu.
- É verdade! Estou ansiosa para que possa passear contigo outra vez, só nós dois!
E então beijou Pedro, ao que em seguida dormiu. Já Pedro matutava em algo mais complicado do que simplesmente passeios. Matutava numa forma de saírem, ele e Teodora, daquela casa em definitivo; tal pensamento se tornava cada vez mais frequente pois a vida ali era sufocante, viviam como dois velhos papa-hóstias; Teodora não sentia falta de nada pois nunca fora livre; já ele sempre fora, e naquela ocasião, queria sê-lo novamente. Mas sem arriscar a vida de sua mãe ou à sua própria.
To be continued
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Gente, esse cap demorou um pouquinho mais pra sair, mas saiu! Rsssss!
Sobre a consumação do casamento deles, fiz que ela não sentisse prazer por duas razões. Uma era a inexperiência e a repressão que vivera a vida toda; outra era que sexo "normal" às vezes demora pro casal se "encaixar', ainda mais quando a mulher é virgem.
Então, pq com a Violante e com o Morcego ela "pirou" logo de cara com os "chás de pica" que ele deu nela?
Primeiro: sexo com sociopatas é sempre MUITO BOM ou MUITO RUIM. Tipo uma droga mesmo. A palavra-chave é "droga", vício. Quase todo mundo que relata sexo com sociopatas ou narcisistas diz que ou a pessoa o/a dominava completamente através de sessões fantásticas de sexo, ou que o sexo era péssimo. Não tem meio-termo.
Com Expedito e Violante foi a mesma coisa: ela foi do extremo do êxtase ao extremo da dor em pouco tempo, e isso adoece qualquer um também. Mas ai ela lembra do sexo bom e esquece de como sofreu... é assim. Vide as noites super tórridas onde os dois se pegam loucamente, até as noites péssimas onde ele a surra e força a transar e ela só sofre.
É loucura e, claro, não é saudável.
Já Pedro e Teodora, apesar de serem um casal mais "normal" e o sexo não ser (pelo menos por enquanto) aqueeeeelas coisas, pelo menos os dois estão a desenvolver uma relação normal, de confiança e carinho, aos poucos. É a mesma coisa a comparação entre uma caminhada e uma montanha-russa. A relação com sociopata é a montanha-russa (só que sem segurança, freio ou mesmo trilhos...) e a relação normal é uma caminhada: mais "sem graça", porém bem mais segura, mais tranquila e, a longo prazo, te leva a algum lugar e te satisfaz muito mais do que "emoções fortes e efêmeras".
Espero que estejam gostando! Prometo tentar atualizar com mais frequência, rsssss!
Abraços a todos que estão lendo!
