Capítulo 10
Sentei na ponta da cama novamente e suspirei, subitamente cansada.
- Ela foi embora? – Edward perguntou.
- Sim.
- Do que ela estava falando?
- Você é muito curioso, sabia?
- Estou acostumado a estar na mente de todos. E agora você me bloqueou. – ele falou sentando ao meu lado e me encarou como se tentasse me ler de alguma forma.
- Percebi. – falei sorrindo. – Como eu fiz isso?
- Não sei. Uma hora eu estava na sua cabeça e no segundo seguinte não havia mais nada a não ser a sua voz normal. Nem mesmo a fantasma eu pude ouvir.
- Bom saber que eu posso, afinal, bloquear a minha mente.
- Certo. – ele resmungou, faltando apenas cruzar os braços e fazer bico para parecer uma criança birrenta. – Pode desfazer agora?
- Hum... Não! Está ótimo assim.
Ele ainda continuou me encarando com o olhar firme, talvez fazendo algum esforço mental para destruir a barreira que eu sequer sabia como tinha criado. No momento, eu evitava pensar a respeito, por medo de que, se pensasse demais, poderia acabar desfazendo isso.
Edward suspirou derrotado e se jogou para trás, deitando na cama, mantendo as pernas para fora. Me olhando meio de lado, ele bateu de leve no colchão ao seu lado. Deitei também e o encarei ainda sorrindo.
- O que Clícia quis dizer quando falou que você poderia transportar os outros fantasmas?
E ele sabia bem como acabar com a minha alegria.
Desfazendo o sorriso, eu desviei o olhar e encarei o teto.
- Esquece isso, Edward. – resmunguei.
- Por que seu coração fica tão acelerado quando fala sobre isso? – ele perguntou, apoiando o corpo em um cotovelo para me encarar.
- Que tal você usar aqueles tampões de ouvido bem potentes? – sugeri ainda sem o encarar. – Um absurdo isso de ficar ouvindo até os batimentos do meu coração. Uma invasão de privacidade, se quer saber.
Edward riu de leve e se inclinou sobre o meu corpo lentamente, ainda com um sorriso no rosto.
Por um segundo eu pensei que ele fosse me beijar, mas seus olhos estavam cravados no meu pescoço. E foi para lá que ele dirigiu seus lábios gelados e macios.
- E se você quer saber, Suze, eu adoro ouvir o som do seu coração disparado. Ou até mesmo ouvir a batida errática dele quando faço isso. – ele sussurrou, depositando um beijo suave no meu pescoço, realmente fazendo meu coração falhar e então acelerar. E falhar de novo quando ele continuou me beijando daquele jeito gentil.
- Eu adoro quando você faz isso. – sussurrei de volta, sentindo cada poro do meu corpo reagir àquele contato.
- E eu adoro fazer isso.
Edward continuou beijando meu pescoço e logo passou para o outro lado, ficando agora quase completamente em cima de mim, sua mão começando a passear pelo meu ombro, descendo pelo meu braço, me deixando ainda mais arrepiada.
Mas foi apenas quando ele mudou o tipo de beijo, passando do suave para o ousado, chegando a usar a língua e roçando os dentes pela pele sensível do meu pescoço, que eu gemi.
E o som desencadeou todo o resto.
Edward me puxou para cima, fazendo com que eu ficasse completamente em cima da cama e seu corpo cobriu o meu, voltando a devorar meu pescoço, parecendo completamente viciado naquela parte do meu corpo. E eu não faria o mínimo esforço para privá-lo daquele vício.
Eu adorava sentir seus lábios gelados na minha pele. Adorava ainda mais quando ele roçava os dentes de leve, em seguida passando a língua, me deixando completamente incoerente.
E ainda mais incoerente eu fiquei quando sua mão deslizou pela minha cintura, subindo por dentro da blusa, quase chegando tocando um seio.
- Me fala o que Clícia quis dizer, Suze – ele pediu falando contra o meu pescoço numa voz muito persuasiva.
Mas nem com a continuação das suas carícias foi o bastante para me desviar daquele assunto.
- Obrigada por quebrar o clima – resmunguei, empurrando-o de leve pelo peito, mas ele sequer se moveu.
Fiz um pouco mais de força e só então Edward parou de beijar meu pescoço e tirou a mão de dentro da minha blusa, mas não saiu de cima de mim.
- O que tem de tão grave nessa história?
- Você não vai desistir enquanto eu não falar, não é? – perguntei, desistindo de tentar tirá-lo de cima de mim e passei a brincar com os seus cabelos perfeitamente desalinhados.
- Não – ele respondeu de pronto com um sorriso. – Tenho a eternidade para descobrir isso. E também vou ficar tentando entrar na sua mente novamente. Esperando só um deslize nessa sua barreira irritante para ler a sua mente.
- Você é que é irritante, Edward. – Mas eu sabia que ele tinha razão. Uma hora ou outra ele ia conseguir entrar na minha mente, então era melhor eu contar logo, assim não me sentiria tão invadida. Suspirei derrotada antes de começar a falar. – Eu, como deslocadora, tenho a habilidade de me transportar no tempo, além de poder transportar os fantasmas para o mundo dos mortos. O limbo, por assim dizer.
- Isso é uma coisa ruim? – ele perguntou com o cenho franzido, acariciando meu rosto enquanto eu continuava brincando com seus cabelos entre os meus dedos.
- No começo eu não achava. Era bem mais prático simplesmente levar os fantasmas para lá e deixar que eles entrassem na porta certa e seguissem seus caminhos.
- E por que deixou de ser prático?
- Porque eu descobri que isso estava me fazendo mal – respondi seca.
O cenho de Edward franziu ainda mais e eu levei o dedo indicador para aquele ponto, fazendo-o relaxar antes de continuar.
- Comecei a me sentir mal depois de me deslocar algumas vezes. Vivia com enxaqueca, mas de início não associei uma coisa à outra. Mas Paul se preocupou e resolveu investigar. Ele descobriu que havia outro deslocador nos Estados Unidos e foi visitá-lo. Eu queria ir junto, mas o cara morava no Texas e eu estava em época de provas, então minha mãe não me deixou viajar.
- Por que você está falando nesse cara no passado?
- Porque ele morreu.
- Mas... Mas...
- Vampiros gaguejam? – perguntei com ironia.
- Como isso aconteceu? Por quê? – Edward perguntou depois de menear a cabeça para clarear os pensamentos.
- Ele, assim como eu, fez muito uso dessa facilidade de transportar os fantasmas, ao invés de mediá-los. Mas eu usei apenas por alguns meses. Pouco menos de um ano. Mas ele usou por quase duas décadas. – Respirei fundo assim como Edward tinha feito, antes de continuar a falar – Esse dom é também uma maldição. Ao menos é como eu vejo agora. Ela pode ser útil para acelerar o processo de mediação, mas acelera também o processo de envelhecimento das células do corpo humano. Começa apenas com dores de cabeças fracas, que vão aumentando com o tempo. Depois o sistema imunológico despenca. Michael Sheen, o outro deslocador, tinha quarenta e dois anos quando morreu, e tinha passado os dois últimos anos da sua vida numa cama de hospital.
- Isso mata tão rápido assim? – ele perguntou espantado.
- Acho que não tão rápido assim, mas Michael abusou. Ele ia para o mundo dos mortos apenas para se divertir. Eram idas quase diárias. Mas, de qualquer forma, eu prefiro não arriscar.
- Como Clícia sabe de tudo isso? Você tentou transportá-la?
- Não! Claro que não. Nem sabia que podia fazer isso quando peguei o caso dela. Ela só sabe do que eu faço porque meu nome é um pouco conhecido no mundo dos fantasmas – respondi. – Nem todos os fantasmas que encontro são mediados por mim. E esses espalham as coisas por aí.
Do nada, uma expressão de alívio tomou conta do rosto de Edward, mas ele beijou minha testa de leve antes que eu pudesse perguntar alguma coisa.
- E você não gosta disso – ele falou com um sorriso.
Não era uma pergunta.
- Não. Eu não gosto.
- Algumas pessoas, a maioria ao menos, gosta de ser famosas.
- Você gostaria? – perguntei arqueando uma sobrancelha, mas não lhe dei tempo para resposta. – É complicado chegar para mediar um fantasma se ele já souber quem eu sou. O que eu faço. Gosto de pegá-los de surpresa, como aconteceu com Alex.
- O soco, você fala?
- Claro. Se ele soubesse quem eu era, não teria permitido que me aproximasse tanto.
- Mas agora eles sabem. Não vai ser fácil.
- Eu sei. Mas dou meu jeito.
- Esse é o seu jeito de lidar com as coisas, Suze? Na cama com um vampiro? – Mas não foi Edward quem perguntou aquilo.
Soltei o ar pesadamente ao ouvir a voz de Clícia de volta no quarto e já ia começar a empurrar Edward quando ele mesmo tomou a iniciativa e se afastou, sentando ao meu lado na ponta da cama.
- Oi para você também, Clícia – ele murmurou, olhando ao redor no quarto.
- Merda! E eu jurando que ainda estava bloqueando a minha mente para você – resmunguei, sentando também.
- Falhou há alguns segundos – ele falou com um sorriso satisfeito, feliz por ter voltado à sua realidade invasiva.
- Vocês vão ficar de papinho, ou querem ouvir o que tenho para falar? – Clícia perguntou parada ao lado de uma das prateleiras cheias de livros e CDs de Edward.
- Manda.
- Falei com Maggie e ela vai trazer os pais aqui daqui a pouco para uma conversa. Só vocês. Sem filhos. Bem, talvez Maggie, mas se você quiser, peço para ela ficar de fora.
- Acho melhor.
E assim que ficou combinado. Quando a noite chegou, eu estava na sala da casa de Edward esperando os fantasmas – apenas Agatha e George – ao lado de Clícia.
Edward queria ficar também, mas achamos melhor que ele não participasse da conversa. Ao menos não ativamente. Mas eu bem sabia que ele ficaria por perto e ouviria tudo.
Carlisle já tinha encerrado seu turno no hospital, mas Edward tinha lhe pedido para ele não ir para casa agora. O que era até melhor, porque eu ainda não sabia como ia encará-lo depois do que tinha acontecido entre ele e Laura na noite anterior. Não tinha sido totalmente culpa minha ficar espiando, mas... Bem, talvez tenha sido culpa minha, já que Edward só viu o que viu por minha causa. É... Definitivamente era melhor o médico ficar longe da casa por enquanto. De preferência até eu ir embora.
Estava começando a ficar impaciente com a demora dos dois fantasmas quando eles finalmente apareceram.
E Maggie estava com eles.
- Oi, Maggie – cumprimentei sem levantar do sofá.
- Oi. Só vim trazê-los – ela informou, mesmo sem eu ter perguntado nada. – Vamos? – ela chamou, olhando para Clícia.
- Você não vai ficar? – perguntei, vendo a fantasma levantar do sofá e andar até Maggie.
- Não. Essa conversa não me diz respeito. Acho que você dá conta de tudo sozinha, não é? – ela perguntou num tom zombador.
- É claro. Só pensei que você fosse ficar.
- Não mesmo. Vou cuidar para que certo alguém não apareça aqui e atrapalhe a conversa.
Sabia bem a quem ela se referia. Clícia ia vigiar Laura.
- Ok. Obrigada.
No instante seguinte eu estava sozinha com os dois fantasmas e fiz sinal para que eles sentassem no sofá à frente do que eu estava. Sabia que fantasmas não se sentiam cansados, mas desse jeito eu me sentia mais normal naquela conversa. Com exceção do leve brilho que os corpos espectrais à minha frente exibiam, nós três parecíamos simples pessoas conversando sobre o dia a dia.
- O que você quer conosco? – George perguntou sem rodeios.
E da mesma forma eu respondi.
- Quero que vocês vão embora dessa casa. De preferência para o mundo ao qual vocês pertencem.
- Se era só isso que você queria falar, perdeu sem tempo – ele falou, já se preparando para ficar em pé.
- Não. Não é só isso – falei num tom firme, fazendo-o sentar novamente. – Eu quero que vocês partam, é claro. Mas não apenas pelo motivo que vocês pensam.
- Você quer que nós deixemos esses vampiros assassinos em paz – Agatha falou começando a se irritar. – Isso não vai acontecer.
- Não é apenas por isso. – Mais uma vez meu tom era firme, e eu aproveitei o silêncio dos dois para falar tudo que precisava. Aquela poderia ser a minha última chance de mediá-los pacificamente. – Eu fui contratada por essa família para tirar vocês daqui, é claro, mas não foi por isso que eu aceitei o serviço. Eu aceitei vir aqui pelo mesmo motivo que eu sempre aceito. Por vocês. Não é por eles que eu faço o que faço. Se fosse só pelo dinheiro, eu viria aqui, exorcizaria vocês e iria embora.
- E por que não faz? – George perguntou com uma sobrancelha arqueada. – Se quer tanto se livrar de nós...
- Não é isso que eu quero – o interrompi com firmeza, mas consegui não ser rude. – Como eu disse, não é por eles que eu trabalho. E eu sei que o exorcismo não é nada legal. Nem para mim, e muito menos para vocês. Então eu prefiro trabalhar assim. Conversando. Explicando o porquê de vocês precisarem seguir adiante. Não é para deixar um bando de vampiros em paz. É para que as suas almas fiquem em paz.
Respirei fundo antes de continuar, dando tempo para que eles falassem algo, mas os dois agora estavam atentos ao que eu falava.
- Vocês acham que é saudável ficar nesse mundo? Vocês estão apenas indo contra o curso natural das coisas. E o que os prende aqui é tão insignificante que realmente não vale tanto esforço.
- É claro que vale. É a nossa casa! – Agatha retrucou.
- É um monte de concreto – devolvi calmamente. – Um monte de concreto que não vale mais nada para vocês. Agatha, você está morta. Seu marido está morto. Seus filhos estão mortos. E você acha mesmo que eles estão felizes? – Mas eu não lhe dei tempo para responder. – Tudo que seu filho faz é brigar, sua filha mais velha está se envolvendo com um vampiro que vocês deveriam odiar, e a sua filha mais nova fica por aí brincando com outra pessoa que está morta. Mas não é a briga, o vampiro ou Clícia que está prendendo-os nesse mundo. É essa fixação doentia que vocês têm por um monte de tijolos que não serve para nada para vocês. Se os Cullen saírem da casa, outros virão. E o que vocês farão? Vão assombrá-los também?
- Se eles não forem dignos da nossa casa, nós...
- Vocês vão impedir que seus filhos sigam seus destinos por algo tão mesquinho? – a interrompi, falando num tom baixo e chocado. – Vai impedir que seus filhos tenham a oportunidade de ir para o lugar ao qual eles são destinados? Eu não sei se esse papo de reencarnação é verdade, mas e se for? Vocês vão prender seus filhos aqui, quando eles poderiam nascer de novo? Ter uma nova e talvez longa vida? Se isso não é ser egoísta, eu não sei o que é.
- Eles estão na causa conosco.
- Estão mesmo? – perguntei, arqueando uma sobrancelha. – Será que eles estão seguindo o coração deles ou o de vocês? Porque eu não vejo seus filhos tentando proteger a casa. Eu vejo Alex tentando comprar briga e machucar as pessoas, inclusive a mim. Eu vejo Laura encantada por um vampiro que vocês deveriam odiar. E eu vejo Maggie implorando para vocês virem aqui falar comigo. E agora me respondam uma coisa: por que vocês acham que a sua filha mais nova pediu para vocês virem?
Agatha e George se entreolharam e não responderam. Eu sabia que a semente da dúvida estava plantada. Aquele era o ponto fraco deles. Os filhos. A felicidade dos filhos.
Eu tinha arriscado nesse palpite, apenas levada pela certeza de uma coisa que a minha mãe tinha me dito uma vez: não importa o quanto uma coisa pode ir contra os ideais de um pai, a felicidade do filho está sempre em primeiro plano.
- Eu não quero ter que fazer nada disso à força. E eu estou disposta a voltar aqui todos os finais de semana se for necessário. Pode levar o tempo que for, mas eu quero fazer vocês enxergarem que o que estão fazendo é errado. Não pelos vampiros. Pouco me importa se eles estão incomodados com a presença de vocês. Claro que esse eles fossem humanos e estivessem se machucando com as brincadeiras de vocês, eu não estaria sendo tão tolerante, mas esse não é o caso. E, portanto, se eu não conseguir convencer vocês nesse final de semana, eu volto no outro. E no outro. E no seguinte. Posso vir aqui quantas vezes quiser, até fazer sua família seguir o caminho certo. Tenho muito tempo. – É claro que eu não ia ficar tentando mediá-los por tanto tempo, mas eles não precisavam saber disso. – Mas posso apenas dizer que isso não vai ser um desperdício de tempo apenas para mim. Vai ser, principalmente, para vocês.
- Nós temos uma eternidade pela frente – George lembrou sabiamente.
- Sem dúvida. E o que vocês fariam se, por exemplo, os Cullen fossem embora depois de alguns anos e viesse uma família perfeita para morar aqui?
- Então nós iríamos embora – ele respondeu simplesmente, como se aquela fosse uma pergunta muito idiota.
- E o que vocês fariam se descobrissem que Laura estava apaixonada por Carlisle?
- Isso é um absurdo! – George exclamou ultrajado.
- Não é impossível – falei com calma. – Ela já demonstra algum interesse nele e isso pode não demorar a evoluir. E então não vai ser mais a fixação de vocês pela casa que a manterá nesse mundo. E então, quando vocês se sentirem prontos para partirem, sua filha não será capaz de seguir com vocês. Porque ela tem a eternidade dela para estar apaixonada por um vampiro que é tão eterno quanto ela. E ela ficará presa aqui para sempre.
- Isso nunca aconteceria – Agatha falou, mas assim como no marido, havia incerteza no seu olhar.
- Pode ser que não. Pode ser que sim. Mas se não for com Laura, será com algum dos seus filhos. Quanto mais tempo eles passam aqui, maior é a probabilidade deles se prenderem a algo que vocês não podem controlar. É isso que vocês querem?
- É claro que não – George respondeu com a voz fraca.
- Mas, amor... A nossa casa – Agatha reclamou, virando para o marido como se suplicasse.
- Ela está certa, meu bem. Essa casa era nossa quando nós estávamos vivos. Com os nossos filhos vivos. Ela não nos pertence mais. E mesmo se pertencesse, vale mesmo a pena sacrificar a pós-vida deles por isso? – ele perguntou, abrangendo a sala com os braços. – Eu não quero ver meus filhos infelizes.
- Nem eu, mas...
- Nós temos que ir – ele falou num tom baixo, mas firme, quase triste. – Antes que eles não possam mais ir conosco.
Seria mesmo assim tão fácil? Apenas algumas palavras bonitas da minha parte e eles iriam embora?
- Tudo bem, nós vamos – Agatha falou. Quase pulei do sofá vibrando, mas me contive. – Mas com uma condição.
E ali estava o suborno. Sempre havia uma condição. Nunca, em toda a minha carreira como mediadora, eu tinha conseguido despachar um fantasma apenas com conversa sem que ele ou ela me pedisse algo em troca. Só esperava que, seja lá o que eles quisessem, estivesse ao meu alcance. Algo abaixo de ter que levar as cinzas deles para serem jogadas do Monte Fuji.
Juro que quando o fantasma de um japonês excêntrico me pediu isso, eu tive vontade de quebrar a urna na cabeça fantasmagórica dele.
É claro que depois de uma conversa bem estressante, eu convenci o cara de que o que ele queria era loucura e ele aceitou que suas cinzas fossem jogadas num lago que ficava há alguns quilômetros da casa dele.
- Se estiver ao meu alcance, farei o que for possível – falei com cuidado, medindo as minhas palavras de forma a fazê-los entender que eu não era a Mulher Maravilha.
- Quero que você converse com Laura e a convença a ir também.
Sério? Laura? Pior seria se fosse o idiota do filho deles.
- Ok.
Eu consegui convencer os pais. Por que a filha seria tão difícil? Tudo que eu precisaria fazer era dizer que Carlisle ficaria feliz com a partida dela.
