Alyssa estava uma pilha, em todos os sentidos. A menina corria de um lado para o outro pelo apartamento, gritando e amaldiçoando. Suas provas finais eram em duas semanas, e vários trabalhos estavam esperando para serem feitos e entregues. E como era óbvio, nenhum desses trabalhos se fariam sozinhos, e nenhum conteúdo de nenhuma prova entraria, magicamente, em sua cabeça. Xingando os Sete, ela entrou em seu quarto pela milésima vez, jogando qualquer coisa que visse pela frente no chão. Tinha que estar ali! As suas anotações, da última aula, tinham que estar ali! Todo o resto do apartamento já tinha sido revirado milhões de vezes. Sentia-se como se fosse entrar em combustão. E saber que Alex se encontrava em seu sofá, sentada calmamente com seu notebook no colo e uma xícara de chá na mão, não melhorava o humor de Alyssa.
Mais uma maldição escapou os lábios da garota quando seus olhos pousaram em sua pasta, jogada no chão junto a vários objetos, como bolsas, papéis e canetas, tornando a pasta quase invisível. Aproximou-se do objeto transparente, e quando o recuperou, a etiqueta com os dizeres "História e Tradição - As Nações do Norte" acalmou o espírito da menina, junto com as anotações logo no começo dos papéis.
Voltando para a sala, agora com suas anotações em mão, Alyssa retomou seu lugar na escrivaninha. Com seu notebook ainda a sua espera ela abriu uma nova guia e se pôs a digitar o link de um dos sites que seu professor havia recomendado, e que, obviamente, ela tinha anotado. Enquanto esperava a página carregar a garota então voltou sua atenção para Alexandra, que ainda estava na mesma posição em seu sofá.
Alyssa deixou um suspiro lhe escapar, ver sua amiga com essa calma toda, estava deixando-a mais nervosa. E a aparente falta de atenção de Alex só serviu para deixá-la mais irritada. Não sabia o que a irritava mais, movimentação enquanto tentava se concentrar ou paz de espírito alheia enquanto estava agitada. Com uma rápida olhada em seu notebook, Lys constatou que a página já havia carregado, mas ela sabia que não conseguiria se concentrar em seus trabalhos, não enquanto ela não tirasse Alexandra dessa posição.
— Você vai ficar aí — Alyssa começou a falar, após limpar sua garganta, com um som alto o bastante para atrair a atenção da outra —, sentada nessa posição pelo resto do dia?
Alex deu um leve pulinho no sofá, com o susto de ter sido despertada tão bruscamente de seus devaneios. Sua resposta, no entanto, demorou a vir. Ela se remexeu no sofá, arrumando seu notebook melhor em seu colo, e então levou sua xícara aos lábios, tomando um longo gole de seu chá.
— Alexandra!
— O que você acha do Jon? — Alex demorou para responder, mas ela fez questão de deixar Alyssa desconfortável. Agora foi a vez de Lys de se arrumar melhor em sua cadeira.
— Jon? Jon o seu Namorado-Não-Tão-Namorado? Jon Stark? — Alyssa afastou levemente seu notebook, para que sua vista ficasse focada apenas em sua amiga.
— Não somos namorados.
— É claro que não, Alex. — Alyssa deixou que mais um suspiro lhe escapasse os lábios. — Eu não insinuei nada. — levantou as mãos como se em rendição. Alex finalmente mostrou uma reação mais profunda, virou sua cabeça na direção de Alyssa, lhe lançando um olhar mortal. — Que seja.
Alex levantou-se do sofá para servir-se de mais chá. Feliz com a movimentação e decidindo que talvez fosse melhor deixar a amiga com seus pensamentos, Alyssa voltou sua atenção ao notebook, e as duas ficaram em silêncio por alguns minutos, antes que Alex voltasse a falar.
— Voltando a pergunta inicial, Alyssa, o que você acha dele? — Lys tentou, de início, ignorar o questionamento da amiga, mas o olhar de Alex, de volta a mesmíssima posição no sofá, a impediu de fazer isso por muito tempo.
— Jon é uma boa pessoa, legal, estudioso, com um bom coração e muitas injustiças em suas costas... Pensando bem, todos temos injustiças em nossas costas. Mas de novo, eu falho em ver a relevância dessa pergunta. — em uma nova tática, Lys voltou seus grandes olhos castanhos para Alex, que agora estava com aquele olhar sonhador novamente, sentando-se no sofá.
— Hipoteticamente falando, você acha que ele e eu daríamos certo? Como um casal propriamente dito?
— Hipoteticamente falando, os filhos de vocês teriam muitos tios para lembrarem os nomes.
— Alyssa, por favor! Eu estou tratando de um assunto sério, aqui! — o comentário apressado de Alex provocou uma leve risada na outra.
— Okay, okay! Mas lamento te informar que a única coisa que eu estou apta a levar a sério no momento, Alexandra, são esses trabalhos, que não irão se fazer sozinhos.
Alex bufou antes de beber mais um gole de sua xícara, e as duas estão voltaram a ficar em silêncio. Dessa vez, o silêncio durou mais, e Alyssa foi capaz de começar a fazer sua pesquisa, mas sua paz não durou muito, pois a inquietação de Alex começou a lhe tirar a paciência. Era culpa dela, devia ter deixado a amiga quieta pensando em seus dilemas amorosos. Decidiu que agitação alheia incomodava tanto quanto a calma.
— O que foi dessa vez, Alexandra?
— Nada.
— Ora, nada. Você tem noção de como é difícil conseguir ler um texto sobre as Nações do Norte sem se deparar com no mínimo cinco contradições? E então você tem que ler mais uns três textos adicionais, e os textos adicionais vêm com textos adicionais, é uma tarefa difícil. Você aí, exalando ansiedade e inquietação, não está ajudando em nada a minha pesquisa.
Lys bufou, revirando fortemente seus olhos, e foi deixada no silêncio, enquanto Alex jogava seu notebook para o outro lado do sofá, ela se levantou mais uma vez e nunca deixando a xícara de chá, puxou uma cadeira e sentou-se de frente para Alyssa.
— Eu estive pensando, você sabe como meus irmãos sempre foram meio paranoicos, e superprotetores, não como com a minha irmã, mas enfim, como você acha que eles reagiram, sabe, a notícia de que eu estou namorando?
— Pensei que você não estivesse namorando. — a outra garota arqueou uma sobrancelha.
— E eu não estou.
— Olha, eu não sei dizer. Eu só tenho um irmão, que é bem legal, você por outro lado tem três… A probabilidade de cada um ter uma reação diferente…
— Você tem dois irmãos. — corrigiu Alex. Alyssa apenas levantou sua mão, fazendo um gesto no ar.
— Esse não é o caso, de qualquer jeito, cada um deles pode ter uma reação diferente, e você já é grandinha Alex, nem seus irmãos, e nem sua família, tem que opinar em sua vida.
— Meus pais ainda pagam pelo meu estudo.
— Detalhes. — disse Lys com outro gesto no ar. Alex suspirou, e então tomou mais um longo gole de seu chá. — Mas você sabe, Jon não é exatamente um cara que o irmão sonha para sua irmãzinha.
— Jon é uma ótima pessoa! — Alex protestou imediatamente. — Você mesma disse isso!
— Ele é! Mas o cara tem um histórico, um grande histórico de ex-namoradas problemáticas.
— Isso não é verdade…
— Não é? Você quer que cite cada uma delas? Tem a...
—Tá! Tá! — Alex interrompeu Alyssa quando a outra começou a levantar os dedos para começar a contagem. — Não é como se Jon fosse um Robb da vida…
— Realmente, mas sei lá, não sei se meu irmão gostaria que eu me envolvesse com um cara com esse histórico. Porém, como eu já citei antes, seus irmãos não tem que aprovar nada.
— Eu só tenho medo… — começou a garota, traçando a borda de sua xícara. — Eu quero muito que isso dê certo, eu quero fazer as coisas direito dessa vez. Mas eu tenho medo de não conseguir passar do primeiro passo… Que seria apresentar esse relacionamento para a minha família.
— Eu entendo você, Alex — Lys confortou a amiga alisando sua mão. — Mas tudo tem uma porcentagem de chance de dar errado, e de qualquer forma, a reação da sua família não vai mudar o que há entre vocês.
— Você não conhece minha família tão bem se pensa assim.
— Alex, por favor, olha para mim… Eu sou Alyssa Arryn, pode apostar, eu sei o que é ter uma família problemática.
Alex suspirou e foi se encostar na janela do apartamento, admirando a vista cheia de prédios. Alyssa morava no penúltimo andar, o que trazia alguma vertigem para algumas pessoas, mas Alex não estava ligando para isso no momento.
— Eu não sou a melhor opção — comentou a garota de costas para a amiga. — Nem a mais fácil. Eu tenho medo de falhar nisso aqui e ele decidir ir atrás de uma das ex-namoradas problemáticas, ou arrumar outra. E aí eu vou ser só mais uma problemática da lista.
— Alexandra — Alyssa abandonou sua cadeira e seus trabalhos e foi atrás da amiga, segurando em seus ombros e a virando para si. —, se é assim que você se sente em relação ao Jon, então já tem algo errado acontecendo. Olhe para mim, é sério. Você não pode viver com a preocupação que ele não te ame mais, você é incrível, e se essa relação não está fazendo bem para você… Talvez não é para ser.
— Eu não dúvido que ele me ame. — suspirou Alex, encarando a amiga. — Não mais, pelo menos. Eu só estou com medo…
— Então converse com ele sobre isso. — aconselhou a amiga, abraçando a garota. — E realmente está na hora de vocês assumirem essa história, nenhum dos dois merece ficar se escondendo assim.
— Eu vou dar o meu melhor para resolver isso, prometo. Obrigada, Alyssa. — disse Alexandra abraçando a amiga de volta. — Acho que eu já vou indo, aliás.
— Mas já? — reclamou Alyssa enquanto Alex levava a xícara até a cozinha.
— Aham, vou deixar você estudar um pouco em paz — sorriu a garota, começando a guardar suas coisas.
— Você não atrapalha em nada…— começou Lys, mas Alex a interrompeu com um levantar de sobrancelhas.
— Está tudo bem, eu tenho que ir para casa mesmo. Gwen está fazendo um jantar… Com Robb… E Talisa. Eu tenho que presenciar isso. — riu a garota enquanto abria a porta.
— Me liga caso alguém bote fogo em alguém, intencionalmente ou não. — brincou Alyssa rindo também.
— Eu disse para Jon que devíamos comprar uma pizza logo, não quero correr o risco de ser envenenada por engano. — as duas riram um pouco na porta do apartamento, até que um barulho de coisa quebrando as assustou. — Lys, seus vizinhos estão se matando. — comentou Alex só metade de brincadeira. Um barulho abafado de gritos podia ser ouvido também no apartamento em frente.
— Você brinca, mas pode ser algo assim mesmo… Até hoje não descobri quem se mudou, mas vira e mexe as portas batem com força, ou algo assim.
— Sinistro. Bom, eu tenho que ir. Você vai ficar bem? — perguntou Alex, lançando um olhar para o apartamento em frente. Alyssa apenas assentiu. — Beijão então, qualquer coisa me liga.
Elas se despediram e Alex pegou o elevador, parando no sexto andar quando um homem entrou. Alexandra o reconheceu de imediato, é claro. Os olhos verdes, um pouco anuviados, a olharam de cima a baixo antes de entrar no elevador. Com seus cabelos e pele dourados, Jaime Lannister era um quarentão bem em forma. Ela encarou seus sapatos e esperou o elevador completar a viagem.
Quando as portas se abriram no saguão, Alex tratou de procurar as chaves do carro, que tinha estacionado na outra quadra, esbarrando em uma jovem na entrada. Ela conhecia essa também.
— Perdão. — pediu, engolindo em seco.
Daenerys Targaryen lançou um olhar superior e acenou com a cabeça, passou a mão nos cabelos platinados e seguiu seu caminho. Quando Alex olhou para trás, um par de olhos violeta a encarava com bastante curiosidade dentro do elevador.
— Que prédio movimentado… — comentou consigo mesma, com uma sensação estranha.
— Surpreendentemente movimentado. — disse Jaime, e a garota deu um pulo ao perceber que ele continuava por ali. O mais velho piscou um olho para ela e desceu as escadas até a rua.
E pensar que Alyssa queria um lugar calmo quando se mudou para ali, ela duvidava seriamente que aquele lugar fosse continuar em paz se continuasse recebendo moradores e visitas do tipo.
Caminhou até o carro, com olhos verdes e violetas ainda na memória, quando o celular tocou.
— Alex? Você pode, por favor, vir para casa? Estou prestes a enfiar uma colher de metal dentro da boca daquela garota e colocando a cabeça dela dentro do microondas…
Alexandra revirou os olhos ao mesmo tempo em que soltava uma gargalhada, ela sabia que esse jantar ia ser um desastre desde que ouviu sobre ele pela primeira vez. Com os antigos pensamentos esquecidos, a garota entrou em seu carro, pronta para ir para casa, e não tão pronta para acabar com mais uma briga entre Gwen e Robb.
