Três chances
ou
O terceiro em discórdia
Capítulo Dez
– E então? Alguém vai me explicar o que está havendo? - Seiya repetiu, impaciente.
Hyoga já era visivelmente ele mesmo, mas o russo parecia ainda estar se situando no que estava acontecendo. Ikki, por sua vez, era quem respirava mais agitado agora. Ele queria entender o que tinha acontecido porque, de algum modo, o absurdo daquele momento parecia fazer algum sentido. Dentro de si, ele sentia. Algo importante, muito importante, estava se passando. E ele precisava compreender.
– Seiya... - Shiryu começou a falar - Eu acho melhor deixar que eles se entendam por agora. - o chinês, com sua voz tranquila e pausada falou e tentou puxar o amigo pelo braço, para deixarem o quarto.
– O quê?! Shiryu, mas você não viu que tem alguma coisa muito errada acontecendo?
– Eu percebi que algo está acontecendo, sim. E também percebi que algumas coisas devem ficar mais claras para os principais envolvidos primeiro. Então... Vamos dar a eles alguma privacidade? - mantendo o tom sereno, Shiryu conseguiu fazer com que Seiya percebesse que a presença deles ali não se fazia necessária.
– Está bem. - o Pégaso acedeu - Então acho que a Saori deve vir com a gente, né? Ikki e Hyoga precisam conversar, pelo visto.
– Na verdade... - Saori tomou a fala para si - Eu acho que o Ikki deve deixar o quarto também.
– Como é? - o moreno perguntou, em forte tom de revolta - Eu? Sair? Estou claramente envolvido no que quer que esteja acontecendo aqui! Tudo isso diz respeito a mim! Eu tenho que ficar!
– Acredito que tudo isso tenha mais a ver com o Hyoga, Ikki. - Saori respondeu, com a voz doce enquanto lançava a Hyoga um olhar compreensivo.
O loiro, por sua vez, não olhava para lugar algum. Seus olhos pareciam, além de perdidos, vazios.
– Olha, Saori... - Ikki, bufou, zangado - Você não tem como saber. Você não estava aqui antes; não viu o que aconteceu. Então não pode me pedir para sair porque...
– Ikki, por favor. - de repente, a voz de Hyoga se fez ouvir no quarto. O russo continuava com o olhar perdido no nada, mas sua voz parecia segura do que dizia - Saori está certa. É melhor você sair.
– O quê?! Você só pode estar brincando comigo, Hyoga! - Ikki levou a mão aos cabelos revoltos, deixando-os ainda mais desalinhados - Depois de tudo o que acabou de acontecer, você acha mesmo que eu vou deixar você aqui assim e...
– Por favor. - finalmente, o loiro elevou o rosto para poder encarar Ikki. Com os olhos claros fitando com firmeza o tempestuoso olhar do moreno, Hyoga continuou: - Eu quero que saia, Ikki.
Hyoga não se excedeu nesse pedido. Não gritou, sequer elevou o tom de voz. Aliás, sua voz nunca pareceu tão plácida. Triste, sim. Mas o russo parecia muito certo do que pedia.
– Mas... se eu também sair... Então você vai ficar sozinho. E eu acho que você não deve ficar sozinho agora. - Ikki tentou protestar.
– Tudo bem. Eu fico com ele. - com sua voz ponderada, Saori respondeu com naturalidade.
– Saori? - Ikki sentia-se estupefato - A Saori? É isso que você quer, Hyoga? Prefere a companhia da Saori, agora?
– Sim. - o loiro limitou-se em responder.
– Então está muito bem. - Ikki sentia um misto de raiva e frustração - Então está ótimo. - o moreno levantou-se da cama, onde estava sentado com Hyoga e, sem dizer mais qualquer palavra, deixou o quarto apressado, passando por Seiya e Shiryu, que continuavam à porta.
– Bem... Creio que essa seja a nossa deixa. - Shiryu tocou no braço de Seiya, para lembrar o amigo de que também eles deveriam partir. Seiya olhava de um lado para o outro, ainda tentando compreender alguma coisa, mas terminou por respirar profundamente, deu de ombros e saiu. Shiryu, por sua vez, antes de deixar o aposento, puxou a porta para fechá-la e dar maior privacidade a Saori e Hyoga.
Sozinhos no quarto, o silêncio prevaleceu por alguns segundos. A jovem sentou-se diante do Cisne e esperou que ele iniciasse sua fala. Como o rapaz parecesse mais mudo do que nunca, ela resolveu começar a falar:
– Você sabe, Hyoga... Todos vocês já me disseram que deve ser um difícil fardo ser a reencarnação da deusa Athena. De fato, isso não é nada fácil. Todas as batalhas de que participamos, as lutas travadas com outros deuses... Nada disso foi fácil. Entretanto, há uma outra parte que eu julgo tão difícil quanto tudo isso. Em alguns momentos, creio que seja ainda mais difícil.
As palavras de Saori despertaram Hyoga. Os olhos azuis logo fixaram-se na figura da jovem, indicando que ele ouvia atentamente ao que ela dizia.
– Saber-se a reencarnação de um outro ser... Ter a consciência disso... Não é fácil. Junto dessa consciência vêm recordações. Algumas mais confusas, outras mais claras... contudo, é muito difícil lidar com tudo isso. Parece que deixamos de ser quem éramos, assumimos uma nova identidade, começamos a nos confundir sobre quem somos... quem fomos... quem devemos ser...
Hyoga ouvia com profunda atenção a tudo o que Saori dizia. Finalmente parecia encontrar alguém que poderia compreendê-lo.
– Foi complicado para mim, no início. Muito complicado. Era como se eu precisasse duelar comigo mesma. E era difícil saber quem eu deveria ser, até porque eu passei a ser vista como a deusa Athena. Por diversas vezes, eu me perguntei se essa era a identidade que eu deveria assumir. Foi um período difícil...
– E... O que você fez? Que decisão tomou?
– Bem... Pesei tantas coisas... Refleti bastante... Conversei comigo mesma. E concluí que tudo tem seu tempo e sua hora. Mesmo que eu tenha vindo a esse mundo com uma missão, a missão de reincorporar a deusa Athena, isso não quer dizer que eu não tenha alguma outra missão a cumprir como Saori. Entenda, Hyoga... Em nome da deusa Athena, havia tarefas a serem executadas e eu não poderia fugir delas. Tudo bem, aceitei esse dever. Compreendi que era algo inerente a mim. Porém, a grande questão é que a Saori não tinha de ser apenas isso. A Saori é mais que apenas a reencarnação da deusa Athena. Sou uma pessoa diferente. Saori vive hoje. Essa sou eu hoje. Tudo tem seu tempo e sua hora, Hyoga. E neste tempo presente, descobri que preciso viver como a Saori. É preciso saber separar passado e presente, se quiser encontrar o seu futuro.
Hyoga ouviu aquelas palavras que, definitivamente, fizeram-lhe bem. Tomar consciência de Helena, de sua vida, de suas ações, de seus supostos erros... Tudo isso havia confundido muito o cavaleiro de Cisne. Hyoga ficou sem saber quem era, qual a sua identidade, que caminho seguir. Tudo se misturou em sua já conturbada cabeça e o russo já não sabia mais onde ele começava e Helena terminava, se é que havia uma separação entre os dois. Até porque, com a avalanche de sensações que o vinham acometendo recentemente, a presença de Helena era tão forte e real que fazia com que ele realmente se perdesse na vida da meretriz. Agora mesmo, com aquelas recordações tão violentamente fortes, Hyoga sentiu-se desaparecer dentro de si mesmo, dando espaço à Helena, como se ela pudesse ressurgir assim, como se ela pudesse regressar e tomar o lugar do russo. Aliás, não apenas isso. A certeza de que duas das pessoas desse passado, as quais estiveram profundamente ligadas à angústia que sentia agora, eram também pessoas muito íntimas e presentes em sua vida agora, deixavam o loiro mais confuso e perdido.
– Saori, suas palavras estão me ajudando muito, mas... Eu não sei se, para mim, seja possível separar quem eu fui do que eu sou.
– Entendo. É por que Ikki também fez parte do seu passado?
Hyoga demonstrou-se surpreso com a assertividade de Saori. A garota riu, suave:
– Não me foi difícil perceber pelo que você está passando, Hyoga. Mas isso apenas porque, tendo já passado por uma situação semelhante, fui capaz de me reconhecer em você. Entretanto, não creio que os outros tenham percebido o mesmo que eu.
– É bom sentir que posso falar com alguém que me compreenda. - o russo suspirou.
– Infelizmente, posso compreendê-lo apenas em parte. Eu notei que, de algum modo, seu passado está ligado ao de Ikki, não é mesmo?
– Sim.
– Por isso o chamou de Ian? Essa é a encarnação passada do Ikki?
– É... E esse é um dos motivos que me faz entrar em desespero, Saori. Como deixar o passado para trás e me concentrar na vida que tenho agora, se esse passado se faz tão presente, com pessoas daquela época convivendo novamente comigo? Como agir nesse caso?
– Eu não sei, Hyoga. Sinto muito... Mas é como eu disse, posso compreendê-lo apenas em parte. No meu caso, não há pessoas do meu passado que façam parte da minha vivência diária, convivendo aqui, comigo, agora. Pelo menos, não que eu saiba. Então, no seu caso, não tenho certeza de como proceder.
O cavaleiro de Cisne respirou pesadamente. Voltou a sentir-se solitário e perdido. Como ele gostaria de um norte agora, de uma indicação, de qualquer coisa que o ajudasse a saber como agir.
– Mas posso tentar ajudar mesmo assim. - Saori acrescentou, sorridente - Gosto de ser prestativa e sou boa ouvinte.
Hyoga não precisou ponderar muito. Era claro que ele não apenas queria, mas precisava de ajuda. Saori parecia capaz de compreendê-lo e, quem sabe, de aconselhá-lo.
– Está bem, então. Eu vou lhe contar o que tem acontecido comigo. Tenho tido sonhos, visões, que vêm perturbando meu estado de espírito e acredito que hoje posso ter descoberto o porquê.
– Faz muito tempo que você sabe que Ikki fez parte do seu passado?
– Na verdade, até pouco tempo, eu nem entendia que esses sonhos e visões eram do meu passado. Mas... agora eu sei que são, assim como reconheci em Ikki uma pessoa que fez parte dessa minha outra vida.
– Entendo...
– E o pior não é isso. Agora há pouco, eu me dei conta de que Shun também esteve lá.
– Shun? É mesmo? Ele e Ikki eram irmãos também naquela época?
– Não... Mas era como se fossem. É uma longa história.
– Adoro longas histórias. - Saori ofereceu um sorriso amigável ao seu cavaleiro e fazia o possível para ajudá-lo a se sentir bem à vontade. Porque a verdade era essa: Hyoga queria contar tudo, mas uma parte dele ainda hesitava. E o motivo para isso era a vergonha que o russo sentia de um passado sobre o qual ainda não tinha conhecimento pleno, mas no qual, pelo que já tinha visto, as coisas não pareciam destinadas a tomar um bom rumo.
– Eu acho que fiz algo terrível nesse passado, Saori. - Hyoga falou, a voz quase sumida, cabisbaixo.
– Calma, Hyoga... Às vezes, enxergamos as coisas por uma ótica distorcida, exagerada...
– Não, não. - o loiro, riu, amargo - Não, Saori. Nesse caso, eu acho que fiz algo realmente terrível. Algo desprezível, vergonhoso, horrendo... Nem tenho palavras para qualificar o que fiz, de tão terrível.
Saori silenciou por um momento. Pela maneira como Hyoga enunciou essas palavras, parecia que ele falava muito sério. Talvez, fosse bem mais sério do que ela imaginava. Mesmo assim, a encarnação de Athena sorriu e colocou sua mão delicada por sobre a mão do russo:
– Sabe, Hyoga... Eu acredito em carma. Acredito que colhemos o que plantamos. Mas não enxergo tudo isso como castigo, punição. Eu entendo que carregamos um fardo, não com a finalidade de sofrermos. Para toda ação, existe uma reação. Às vezes, cometemos erros e, como consequência, passamos a carregar um fardo. Nós o carregamos e seu peso nos incomoda, porque isso serve de aviso, como se o incômodo nos ajudasse a perceber que há algo de errado ali. A partir daí, podemos encontrar a perspectiva necessária para tentar consertar erros do passado e seguirmos mais leves.
Os olhos azuis da cor do céu brilharam mais nesse instante. Saori estava realmente conseguindo trazer um pouco de paz ao coração aflito do loiro.
– Então, não se martirize tanto. Conte-me tudo o que se passou, tudo de que se lembra, sem se preocupar. Eu não vou julgá-lo. Quero ajudá-lo, isso sim. Talvez, você esteja carregando um carma e o fato de o seu passado se fazer tão forte agora seja um sinal, um recado para você mesmo. Pode ser que agora seja o momento ideal para se resolver algum problema, algo que venha de outras vidas, mas que tenha relação com o presente.
– Pode ser... - o cavaleiro de Cisne sorriu de leve para a deusa - É uma boa forma de enxergar.
– Ótimo. Então, vamos lá, Hyoga. Do começo...
Enquanto isso, Ikki dirigia seu jipe a esmo, pela cidade. Depois de sair revoltado do quarto de Hyoga, não quis ouvir os apelos de Seiya e Shiryu, que pediram a ele que permanecesse na mansão. Os outros dois cavaleiros não achavam que fosse boa ideia o moreno sair no estado em que se encontrava. Contudo, não puderam aplacar-lhe a revolta.
A única frase que Ikki dirigiu aos dois, antes de sair, foi perguntar se eles tinham visto Shun. Seiya comentou que sim, que viram o irmão caçula do moreno sair em disparada em um dos carros da Fundação, que ali ficavam para uso dos moradores da mansão, quando os dois acabavam de chegar à residência. Shiryu reprovou o comentário do amigo imediatamente, com um olhar de reproche para ele. Mas nada mais puderam fazer; Ikki deixou o lugar às pressas, entrou em seu jipe e saiu em busca do irmão.
Ikki estava profundamente angustiado. As feições de surpresa e decepção de Shun não lhe saíam da mente. O Fênix não conseguia deixar de se culpar pelo que o irmão devia estar sentindo agora. No entanto, ainda não era capaz de se repreender totalmente pelo beijo que acontecera entre ele e Hyoga. Nunca, em sua vida, havia sentido que algo era tão certo. Até mesmo se assustava um pouco com a certeza que sentia em relação a isso, mas nada podia fazer a esse respeito. Era um fato e precisava simplesmente aceitá-lo.
Ainda não acreditava que Hyoga o havia mandado embora. Aquele russo era muito confuso! Por que ele agiu daquele jeito? Sempre achou que o loiro fosse do tipo que gostasse de resolver as coisas, discuti-las, acertá-las. Não acreditava que ele fosse o tipo de pessoa que fugisse. Afinal, era isso que parecia estar acontecendo. Hyoga estava fugindo.
Mas de que ele fugia?
Será que Hyoga estava fugindo de si? Ikki começou a pensar nessa possibilidade.
E quem era o tal Ian?
Por que Hyoga o chamara por esse nome?
No momento que o chamara assim, Hyoga não parecia ele mesmo. Era tão estranho.
Estranho porque Hyoga não parecia ele mesmo, mas era ele mesmo. Tão difícil explicar.
Ikki sentia que "aquele Hyoga" era tão diferente e tão familiar. Como podia ser? Isso não fazia o menor sentido.
E, ainda assim, era o que sentia.
Aqueles olhos... Ao chamá-lo de Ian, Hyoga o olhou de um modo que despertou sensações estranhas em Ikki. Sensações novas, mas também, com sabor de coisa antiga...
– Céus... Estou enlouquecendo... - Ikki disse para si mesmo, passando a mão pelo rosto, enquanto dirigia sem rumo.
– Ian... Ian... - Ikki repetiu o nome para si mesmo mais algumas vezes. O nome era-lhe familiar, absurdamente familiar.
Assim como Heitor.
Como se já não bastasse o mistério envolvendo o soldado de seus sonhos, vinha-lhe agora mais um nome que mexia consigo muito mais do que gostaria que acontecesse.
Sim, Ikki tinha certeza... Estava perto de enlouquecer.
O beijo entre Isolda e Heitor tinha um sabor de saudade, de uma vida inteira que pareceu renascer ali, num repente.
O beijo era a calmaria que alentava o furor de suas almas. Como se tivessem vivido em uma agitação constante até aquele momento, o beijo foi o encontro de águas calmas, após uma vida de tempestades.
A sensação de reencontro pertencia aos dois. Era uma reconfortante sensação. Dava-lhes a impressão de que o mundo subitamente se transformava em um lugar inteiramente novo, onde tudo se tornava possível, onde a vida, por si só, era o bastante para que todo o resto valesse a pena.
Essas certezas foram sentidas por ambos, mas nenhum deles precisou dizê-las em voz alta.
Eles eram como um só; as duas metades que se reencontravam enfim.
Desfizeram o beijo calmamente, placidamente. Heitor aninhou Isolda em seus braços e a camponesa repousou sua cabeça no peito do soldado.
A bonita e enluarada noite que fazia era a moldura daquele harmonioso quadro. Isolda respirou profundamente, sentindo, como nunca antes lhe ocorrera, que estava enfim no seu lugar certo. Ela não precisava compreender o porquê disso; ela apenas sentia que achara o seu lugar no mundo. Ali, tudo simplesmente parecia fazer sentido. O mundo, a vida fazia sentido.
O momento vivido por esses dois foi eterno e efêmero. O silêncio que antes povoava o ambiente em que se encontravam foi logo cortado por um grito lancinante e depois por muitas vozes desesperadas.
A comoção, que vinha do vilarejo, chamou a atenção do casal apaixonado. Isolda logo se apavorou, pensando no pior, pensando que algo poderia ter ocorrido a seu irmão.
Sem que ela precisasse se explicar, Heitor a compreendeu. Juntos então correram ambos de volta ao vilarejo.
Lá chegando, viram que todos os moradores do local estavam fora de suas cabanas e reunidos em volta de algo. Isolda, cada vez mais desesperada, foi abrindo caminho na multidão, já gritando irracionalmente o nome de Sebastian.
– Calma, Isolda! - a voz de Sam se fez ouvir e logo o chefe da resistência puxava a amiga para perto de si.
Heitor, que estava imediatamente ao lado da moça, não gostou desse gesto. Posicionou-se ao lado da jovem e encarou Samuel com hostilidade. O homem de cabelos encaracolados devolveu o olhar agressivo, mas ambos pararam com esse duelo mudo ao ouvir os apelos de Isolda:
– O que está acontecendo aqui? Onde está meu irmão?
– Seu irmão está bem, Isolda. - Sam voltou toda a sua atenção para a amiga e, com a voz terna e uma carícia suave, levou os fios negros e rebeldes de Isolda para prendê-los atrás de sua orelha.
Heitor sentiu uma fúria gigantesca queimar dentro de si. Sua respiração tornou-se até mais acelerada. Mas não atacou o líder da resistência, porque compreendia que ele tinha as respostas de que Isolda necessitava naquele momento.
– Onde ele está? - a garota repetiu.
– Na mesma cabana onde ele sempre fica. Calma, ele está bem.
– Mas então... O que está acontecendo aqui...? - a bela morena voltou a olhar para a multidão, de onde havia sido arrancada pelo amigo. Nesse instante, as pessoas abriram caminho para que Samuel se aproximasse, com seu braço entrelaçado ao da amiga.
Isolda não se desfizera daquele contato apenas porque estava ainda fora de si, devido ao susto que sofrera, pensando que algo tivesse ocorrido com Sebastian.
Porém, Heitor sentia o coração apertar diante dessa imagem. Por isso, não se moveu. Permaneceu onde estava, um pouco afastado de onde se encontrava o grupo maior e ficou apenas observando.
– Um grupo de aliados nossos, que haviam partido em missão de reconhecimento perto da base militar, foi capturado pelo Exército e, pelo que entendemos, foram todos mortos. - a voz de Samuel transmitia profundo pesar - Permitiram que apenas um dos homens regressasse, seriamente ferido, para nos dar um recado: Que devemos nos render, ou será pior para todos nós.
Isolda escutou horrorizada as palavras do amigo e então olhou para a cena que todos presenciavam. A esposa do homem ferido chorava, desconsolada, sobre o corpo do marido.
– Ele não resistiu. Ele sabia que tentariam segui-lo depois que fosse libertado, a fim de encontrar nosso vilarejo. Ele foi bravo até o fim; conseguiu despistá-los bem. Ele era bom em encobrir rastros. Mas isso fez com que perdesse tempo que não possuía. Quando enfim chegou, teve apenas tempo de me contar o ocorrido e deu seu último suspiro nos braços da esposa.
Isolda viu essa cena, em que a mulher chorava a morte do homem que amava, e isso mexeu forte demais com ela. Mexeu com ela de uma forma que nem mesmo a morena conseguia compreender.
Ela precisou se afastar, apressada. Abandonou Sam e foi atrás de Heitor. Sentiu certo desespero por vê-lo. Quando o encontrou, ele sorriu para ela. Entretanto, diferente da agradável sensação que sempre se apossava dela toda vez que a camponesa via aquele sorriso, dessa vez, a angústia que sentia cresceu-lhe no peito. Era o mesmo desespero que fazia com que até mesmo acordasse sem ar, quando tinha aquele estranho e confuso pesadelo todas as noites.
Devido a isso, precisou recorrer à única solução que sempre lhe fazia bem nessas ocasiões. Sem dar qualquer explicação a Heitor, desviou-se do caminho que a levaria até ele e rumou para a cabana de Sebatian. Refugiou-se ali, lembrando-se de como a simples visão do irmão dormindo tranquilamente lhe fazia bem. Sebastian dissera que não queria vê-la por um tempo, que precisava de espaço, mas Isolda não achou que fizesse mal em estar ali agora. Afinal, o irmão estava adormecido e não poderia se chatear com sua presença lá.
Todavia, por mais que buscasse desesperadamente por aquela sensação de calma que apenas o irmão lhe conseguia passar, não foi o que se deu dessa vez.
Heitor, por sua vez, não compreendeu porque Isolda não veio ter com ele. Por que ela o evitara daquele modo? Não compreendeu, ainda mais depois do que havia se passado entre eles, mas não foi atrás da jovem. Resolveu que seria melhor respeitar o espaço que, naquele momento, ela lhe impôs. E ficou atento ao que os camponeses diziam. Queria entender o que estava acontecendo e tratou de ouvir tudo o que comentavam sobre a ofensiva do Exército.
Heitor não era desumano e sentiu profundamente a morte trágica do homem que jazia sobre o colo de sua mulher inconsolável. O soldado nunca concordara com determinadas formas de agir do Exército, mas por ser apenas uma pequena peça de toda essa engrenagem, nunca teve voz forte o bastante para se fazer ouvir de fato. Uma de suas grandes metas era ascender na carreira militar, não apenas para provar o seu valor, mas para tentar fazer alguma diferença de acordo com o que acreditava.
Heitor sentiu muita pena dos familiares e amigos daqueles que foram capturados e mortos pelo Exército. Viu a expressão de dor estampada em cada um daqueles rostos. Não, Heitor não era hipócrita. Ele sabia bem que lutava do outro lado e que ele mesmo fora responsável por outras tantas mortes do lado em que se encontrava agora. No entanto, a proximidade com os "inimigos" estava fazendo com que os enxergasse como seres humanos e não apenas aqueles a serem derrotados. Aliás, vê-los assim tão de perto, estava fazendo o soldado sentir-se confuso. A ele, tinha sido ensinado que essa resistência era inimiga da ordem, que esses camponeses queriam apenas trazer o caos e a desgraça. Fora criado para nunca discordar do Exército. Heitor tinha perdido a mãe assim que nascera e seu pai nunca fora muito próximo dele. A única ligação que possuíam era o fato de o pai ser um grande nome dentro do Exército e, em seu leito de morte, há dois anos, ter pedido que o filho seguisse seus passos.
Heitor nunca pensara em descumprir a promessa feita ao pai, mas agora começava a se questionar sobre todas as certezas que calcaram praticamente toda a sua vida. Estava difícil encontrar o caminho certo a seguir e Isolda, em meio a tudo, fazia com que ele se sentisse ainda mais perdido.
Acompanhou à distância o enterro do único sobrevivente da fatídica missão. Naquele momento, até mudou um pouco a imagem que tinha de Samuel. O homem alto e forte, de cabelos encaracolados e olhos cor de mel pareceu-lhe um bom e justo líder. Heitor viu como ele se preocupou em confortar as pessoas do acampamento.
Era noite ainda, quando tudo isto ocorreu. Quando o sol enfim começou a nascer, Heitor se sentia péssimo. A claridade do dia iluminava as pobres cabanas, de onde saíam mais moradores, todos com vestes simplórias, mas cheios de dignidade. Cada um tinha uma tarefa, e todos executavam suas partes em perfeita harmonia uns com os outros.
Esses camponeses definitivamente não pareciam disseminadores de caos e desgraça. Tornava-se cada vez mais difícil enxergar nessas pessoas os inimigos a serem derrotados.
A luz do dia tornava essas descobertas ainda mais claras. E Heitor começou a sentir vergonha de si mesmo.
Sempre tivera uma excelente vida. Seu pai, graças ao Exército, sempre vivera muito bem. Heitor, desde criança, fora cercado do conforto e do luxo que vieram para suprir a falta de um pai ausente.
Mesmo assim, por várias vezes, achara-se infeliz e miserável, por não ter conhecido sua mãe nem ter recebido o amor de seu pai, conforme gostaria.
Ao entrar no Exército, para cumprir a palavra de seu pai, deparou-se com o preconceito de quem não o via como mais que um menino bonito, rico e mimado.
Heitor era orgulhoso e queria provar que era tão valoroso quanto os outros soldados. Entretanto, mesmo sendo obstinado e dedicado, a entrada tardia no Exército fez com que Heitor demorasse para alcançar suas metas. Por esse motivo, o jovem participava de qualquer missão. Queria participar de tudo, como se assim pudesse trilhar seu caminho mais rápido.
Como consequência disso, Heitor não criou amigos. Não tinha tempo para isso. E como estava sempre em missões diferentes, não tinha tempo de conhecer a fundo qualquer de seus companheiros.
A imagem que tinham do soldado loiro era a de um rapaz solitário, que não parecia precisar de contato humano. Inclusive, o trato dele com as pessoas ao redor costumava ser tão neutro que tornava-se frio.
Mas essa era apenas a armadura de que Heitor havia se investido. A verdade é que o soldado possuía uma grande sensibilidade. Contudo, ele sempre foi mesmo muito isolado. Desde pequeno, não teve muitos amigos. Vivia fechado em casa, pois seu pai era muito rígido e temido. Não teve colegas corajosos o suficiente para se tornarem amigos que frequentassem sua casa.
Assim, seus grandes amigos foram os livros que o acompanharam por toda a infância e adolescência. Livros esses que fizeram aflorar ainda mais seu lado sensível que, no entanto, escondia, por achar que, como soldado, precisava mostrar-se insensível.
Porém, isso ia ficando cada vez mais difícil. As pessoas daquele pequeno povoado o estavam tratando muito bem. Quando a movimentação no lugar foi aumentando, logo vieram até ele algumas pessoas oferecer agasalhos ao rapaz, pois era uma manhã fria. Outros vieram lhe perguntar se não sentia fome, se não queria tomar seu desjejum. Heitor zangou-se, porque não aceitava que estivesse sendo tão bem tratado por aquelas pessoas, pessoas que mal conhecia e que, até pouco tempo, via como os inimigos a serem exterminados.
Acabou questionando essas pessoas, de modo um tanto rude, sobre o porquê de tantos cuidados com ele. Como resposta, disseram-lhe que toda a vila já sabia do quanto Heitor era importante para Isolda. E a jovem era querida - mas, mais do que isso, ela era muito respeitada ali - e consequentemente, faziam tudo aquilo por ela.
Heitor negou todos os cuidados e se afastou do acampamento. Sentia-se muito dividido e perdido. Não sabia o que fazer. Evitava também de pensar em Isolda. No final, tinha sido bom que ela houvesse se afastado. Assim, o loiro julgava que conseguiria pensar com mais calma e razão.
Isolda, por sua vez, terminara adormecendo na cadeira em que estivera, velando o sono de Sebastian.
Despertou com os primeiros raios de sol do dia. O irmão ainda dormia e ela achou melhor partir antes que ele acordasse.
Sentia-se um pouco menos angustiada, embora estivesse longe de sentir-se realmente bem.
Aliás, questionou-se a jovem, alguma vez já se sentira realmente bem?
E como se um relâmpago lhe atingisse subitamente, sua mente clareou-se.
Sim, ela experimentara a sensação de estar bem. Uma única vez, mas ela experimentou a sensação.
E foi maravilhoso.
No braços de Heitor, Isolda finalmente sentiu que o mundo parecia no seu devido lugar.
Céus, por que o havia evitado?
Sim, é certo, ela se angustiou ao vê-lo logo após presenciar a triste cena da esposa que chorava a perda do marido. Mas por que se deixou vencer por uma sensação tão irracional?
Que tolice!
Precisava encontrá-lo e se desculpar com Heitor o quanto antes.
Não tinha como explicar por que a imagem dele, logo após ver uma pessoa chorar a perda do ser amada, foi quase insuportável para ela.
Mas ela esperava que ele pudesse compreender esse incompreensível.
Deixou a cabana de Sebastian e saiu à procura do loiro.
Sempre que via Samuel ao longe, escondia-se. Tinha certeza de que o amigo queria conversar com ela. Aproveitava-se do fato de que o líder estava muito ocupado nesse dia, em virtude dos últimos acontecimentos, e esgueirava-se pelo acampamento, a fim de não ser vista por ele.
Perguntou a todos que pôde sobre o paradeiro de Heitor. Ninguém sabia dizer onde ele poderia estar.
Depois de ter a certeza de que o rapaz não estava no vilarejo, Isolda sorriu para si mesma. Era claro. Onde mais ele poderia estar?
Afastou-se do pequeno povoado, tomando o cuidado de não ser vista. E encaminhou-se para o rio onde, na noite passada, haviam se beijado pela primeira vez.
E, como se não pudesse haver outro desfecho para essa situação, Isolda logo divisou a figura de Heitor, assim que sua vista alcançou o rio.
Aproximou-se devagar, buscando não fazer qualquer barulho.
Não é que ela estivesse querendo pregar-lhe um susto. Mas é que o loiro parecia tão compenetrado, com o olhar perdido, mergulhado no silêncio do lugar, que ela não quis interromper aquele momento.
Contudo, por mais silenciosa que houvesse sido, Heitor percebeu sua aproximação.
Quando ela já estava bem próxima, o jovem soldado pronunciou as seguintes palavras, com uma frieza da qual sabia fazer perfeito uso, embora ainda não a tivesse utilizado contra Isolda:
– Vá embora. Eu quero ficar sozinho.
Heitor disse isso sem nem ao menos voltar-se para trás. Sequer precisou disso para saber que era Isolda quem estava ali. Era como se suas almas tivessem se reconhecido e, a partir de então, pudessem sentir a presença um do outro independente de os cinco sentidos serem capazes ou não perceberem um ao outro.
– Como... Como é? - Isolda respondeu, atônita.
– Eu quero ficar sozinho. - o soldado repetiu.
– Mas... Por quê? É por causa do que ocorreu de madrugada? É porque eu o evitei naquele momento? Heitor, eu sinto muito, desculpe-me, eu não sei o que me deu naquela hora, mas eu juro que...
– Não tem nada a ver com isso. Vá embora, Isolda. - o soldado disse, sentindo certa dificuldade em ser tão frio com a jovem. Mas ele não sabia como agir e compreendia que a presença da camponesa era entorpecente, deixava-o inebriado e certamente tirava dele a razão de que tanto necessitava agora. Sim, ele precisava ficar sozinho.
– Não! Eu não vou sair assim. Não vou sair até você falar comigo direito, até olhar para mim! - a morena foi enfática.
Heitor respirou fundo. Levantou-se e, sem voltar-se para olhar para a moça, começou a caminhar para se afastar dali.
– Heitor! Por que está fugindo de mim? Por quê?!
– Droga, Heitor! Por que está fugindo de mim?
Foi uma questão de segundos. A visão acometera o moreno de repente. Foi em uma fração de segundo, mas quando se está dirigindo, isso pode ser o bastante para causar um acidente.
Ikki voltava a se situar, a compreender onde estava. Acabava de pronunciar as palavras proferidas por Isolda, mas despertava desse momento para um pequeno pesadelo. Foram milésimos de segundo, mas até que ele se desse conta do volante que tinha em mãos e do pedal sob o pé, já era tarde.
Duas colegiais atravessavam a rua.
O farol luminoso era vermelho.
Não havia tempo para frear.
Ikki precisou fazer uma manobra radical para não atropelar as meninas.
Jogou o jipe sobre a calçada, onde tinha percebido que não havia ninguém.
Entretanto, não houve como evitar, e seu carro bateu frontalmente contra um poste.
Antes de perder a consciência, conseguiu ainda perceber o alvoroço ao seu redor.
Pessoas tentavam mantê-lo desperto, outras buscavam reanimá-lo.
E perguntavam por quem deveriam chamar. Uma delas parecia segurar o celular de Ikki e indagava; para quem ligar?
O moreno, muito fraco, apenas conseguiu repetir um único nome:
– Heitor... Heitor...
Continua...
