Todos os personagens pertencem a MasashiKishimoto. A história é de autoria de Carina Rissi do seu livro Mentira Perfeita.
Essa fanfic é uma adaptação.
Capitulo 10
Sakura
Não se deve levar em consideração as coisas que uma garota semibêbada diz. Sasuke não esperava de verdade que eu fosse aparecer naquela noite, esperava? Porque não havia a menor chance de eu levar aquilo adiante.
Minha cabeça estivera confusa por conta de todo aquele álcool, e só por isso eu tinha concordado em encontrá-lo. Acho.
Eu gostaria de ter seu telefone para poder dizer isso a ele, mas não tinha, e quando liguei na Fundação Narciso só deu ocupado. Tudo bem. Ele iria sobreviver se eu não aparecesse. Na verdade, eu podia apostar que ele já sabia que eu não ia aparecer.
Então, tive que voltar a pensar no meu problema. Cheguei à conclusão de que a ideia de Sasuke era realmente boa; eu só precisava fazer uns ajustes. Fiz uma pequena lista dos homens que eu conhecia na faixa dos vinte aos trinta anos, depois fui eliminando os comprometidos, em seguida os que tia Tsu conhecia. Sobrara apenas um nome.
Saco.
Olhei por cima da divisória de madeira branca, observando Shino com atenção. Ele não era feio, e, tá, eu não ia namorar o cara de verdade, mas eu inventara um homem interessante, e Shino teria que nascer de novo para se encaixar nessa categoria.
Ele ergueu a cabeça de repente, me flagrando.
— Quer alguma coisa, Sakura?
— Ah, não. Só estava... perdida em pensamentos.
— Isso é perigoso, garota. Você pode ficar presa no mundo dos sonhos e nunca mais voltar. Que nem naquele filme do Leonardo DiCaprio. — Deu risada, ou algo semelhante. Era parte ronco, parte engasgo, a coisa mais assustadora que eu já tinha ouvido.
Peguei a caneta e risquei o nome de Shino.
Certo. Não sobrara ninguém. Como é que eu podia conhecer tão pouca gente?
Meu celular tocou. Olhei para o relógio. Quase meio-dia.
— Saky, é a tia Tsu.
Reprimi o riso. Ela sempre fazia isso, mesmo que eu já tivesse explicado mil vezes que o celular tinha identificador de chamada.
— Oi, tia.
— Liguei na Allure hoje. Aconteceu alguma coisa? A Kurenai disse que você ainda não entregou a lista de convidados. Não precisa ser a real, só uma estimativa.
— Hã... eu... — Fechei os olhos e deixei a cabeça cair para a frente, batendo a testa na mesa. Eu não tinha mais nada. Nenhum plano. Um plano decente, quero dizer.
Não acredito que vou fazer isso.
— Tia, estive atrás de uns novos documentos que o seu advogado pediu para tentar conseguir a sua aposentadoria. Você vai ter que assinar uma papelada.
— Ah, meu amor. Obrigada por estar sempre cuidando de tudo — ela disse, e eu quis morrer. — Então, já que você vai estar ocupada com a minha aposentadoria, eu poderia fazer a lista para você. Nossa família é fácil, mas vou precisar falar com o seu noivo para pegar a lista dele. Me dá o número dele. — Não foi um pedido.
— Tia, ele nem me pediu ainda! A senhora não pode ligar para ele e perguntar sobre a lista de convidados. Ele iria fugir!
— Minha nossa, Saky! Não tinha pensado nisso! Deus me livre assustar o... o... como é mesmo o nome do seu namorado, querida?
Se havia algo que ninguém jamais poderia dizer contra tia Tsunade é que ela não era astuta. Pressionar sem ser direta sempre foi seu modus operandi.
— Humm... ih, tia, aconteceu um problemão aqui. Preciso desligar. Até mais tarde. Beijos! — Finalizei a chamada e joguei o celular na mesa, encarando-o como se ele fosse ganhar vida e pular no meu pescoço.
Teria que ser o Shino mesmo.
Abri a boca para convidá-lo para um café, mas ele começou a rir de novo.
— Já viu esse vídeo? — perguntou. — O pior cantor de karaokê do mundo! Nem vai fazer quarenta pontos! — E mais daquele riso, ronco, grunhido.
Tá. Não ia ser o Shino.
Karin, a única outra garota de TI, parou em frente à minha mesa.
Ela era linda, cabelo ruivos, corpo de dar inveja. Também era o gênio do banco de dados desde o ano passado, quando foi contratada. Shino estava louco por ela e sempre dava um jeito de se colocar em seu caminho, sem jamais se deixar intimidar pelos tocos.
— Aqui. Você está com cara de quem precisa de cafeína. — Colocou um copo plástico ao lado da minha mão. — Forte e sem açúcar, como você gosta.
— Obrigada, Karin. — Não sei de onde ela tirou aquilo. Eu nunca disse a ela como gostava do café. Na verdade, eu nem gostava de café. Mas ela era sempre gentil, então eu agradecia e fingia que bebia. Apenas muito raramente regava com ele o cacto que Shino mantinha sobre sua mesa.
— Como está indo? — ela quis saber.
— Quase no fim do projeto. Nem acredito nisso. Acho que vai dar tempo!
— Eu nunca tive dúvidas. Aquele saco de banha — ela relanceou a porta da sala de Américo — sabe escolher os profissionais a dedo. Você é a melhor coisa que já aconteceu neste TI.
— E eu? — Shino perguntou, ofendido.
Ela se sentou no canto da minha mesa, olhando para ele por entre as pestanas empinadas com rímel.
— Mas é claro, Shinzinho! Eu quis dizer vocês dois.
Eu juro que o vi inflar o peito, como fazem os pombos.
— Ah, não — Karin exclamou, fazendo beicinho. — Esqueci um documento na sala de reuniões! Poxa vida, estou tão cansada... Mas vou ter que voltar lá, né? Quando a cabeça não pensa, os pés pagam a conta.
Claro que Shino já havia se levantado.
— Fique aí, gatinha. Eu pego pra você.
— Jura, Shinozinho? Você faria isso por mim?
— Não há nada que eu não faça por você. — As bochechas dele ficaram rosadas.
— Obrigadinha. — Ela bateu de leve o indicador no nariz dele. O cor-de-rosa se intensificou. — Aproveita e me traz um refrigerante. Esqueci também. — E piscou para ele.
Revirei os olhos enquanto Shino saía tropeçando nos próprios pés em direção ao elevador.
— Você não devia brincar com ele assim. — Eu ri.
— O que eu posso fazer? Já disse que não estou interessada, mas ele não quer acreditar e continua no meu pé. Quem sabe se eu brincar um pouquinho ele acaba se cansando. Como ele está se saindo?
— É o melhor parceiro que eu já tive. — Uma coisa era apontar os erros de Shino para ele. Dizer isso à gerente de banco de dados era outra, completamente diferente. E ele era mesmo bom. Apenas um pouco desatento.
— Ótimo. — Mas eu percebi que ouvir a palavra "parceiro" a desagradou. Me peguei pensando se Shino não tinha razão, no fim das contas, em continuar insistindo com Karin. — É ótimo para a empresa quando a equipe se entende. Nossa, Sakura, que horror! — Ela pegou minha mão e a aproximou do rosto. — Quando foi a última vez que você fez a unha?
— Hã... Foi para... humm... a formatura, eu acho. — Tá, eu não era muito boa com aquela coisa de ser "menina". Não sabia fazer as unhas e na última tentativa tinha acabado com esmalte no cotovelo e na colcha de tia Tsunade. E era melhor nem começar a falar sobre maquiagem. Eu usava apenas os itens que sabia para que serviam: batom e rímel — o que já era complexo o bastante, uma vez que sem os óculos eu não via nada e borrava a cara toda; com eles, borrava as lentes.
— Credo! Isso já deve ter uns três anos! — Ela pegou o celular e digitou um número, ainda segurando minha mão. Tentei puxá-la, mas ela não permitiu. E ainda me olhou feio! — Você vai comigo ao salão na hora do almoço, e não adian... Alô! Rin, querida, é a Karin. Tenho uma emergência aqui que só a Neidinha pode resolver. Sim, preciso de um horário para hoje...
Desligou depois de marcar uma hora, toda alegre.
— Mas, Karin, eu não posso sair...
— Pode parar! Você vai fazer a unha e está acabado. Uma mulher que se sente mais bonita rende muito mais no trabalho. Você vai se sentir muito melhor quando se livrar de toda essa cutícula. Credo! — Estremeceu de leve. — Saímos à uma hora.
Ela me deu as costas, sem me dar a chance de dizer que eu não achava que tirar pedaços de meu corpo me faria sentir melhor.
Adiantei o serviço, e logo que o relógio marcou uma hora Karin veio me pegar. O salão ficava bem em frente ao prédio da L&L. Enquanto eu me contorcia na cadeira e assistia a Neidinha, a manicure favorita de Karin, arrancar pedaços do meu corpo e depois pincelar minhas unhas com um lilás apático — mas que minha gerente insistiu que combinava com meu tom de pele —, Karin folheava uma revista.
— Essa cor ficou uma graça em você. — Ela acariciou meu braço.
— Humm... Obrigada.
— Isso é tão divertido. Devíamos fazer mais vezes. Já que você está com estas unhas de arrasar, podíamos sair hoje ou amanhã. Tem alguma coisa marcada?
— Não, mas vou tentar dar uma adiantada no site. Faltei muitos dias. Tem umas páginas que eu quero testar. — O site já tomara forma, faltavam pequenos ajustes e a incansável busca por falhas não terminaria tão cedo.
— Precisa de ajuda com isso? — Ela deixou a revista de lado. — Eu não me importo em ficar até mais tarde hoje.
— Obrigada, Karin. Eu e o Shino damos conta.
Ela desviou o olhar, parecendo decepcionada.
— Certo. E que tal amanhã?
Balancei a cabeça.
— Minha tia ainda precisa de cuidados, e eu prefiro ficar com ela. Não posso pedir para a Kushina ficar com ela só para que eu dê uma escapada. Além disso, eu não ia conseguir me divertir, de qualquer forma.
— Você é uma mulher muito incrível, Sakura. — Tocou meu braço de leve, tomando cuidado para não borrar suas longas unhas recém-pintadas de vermelho. — É tão bonito ver a maneira como se dedica à sua tia. E ela nem é a sua mãe!
Mas ela era, sim! Tia Tsunade era a única mãe que eu conhecia, e eu só não a chamava assim porque toda vez que eu deixava a palavra escapar ela chorava, e eu não queria entristecê-la.
Uma hora depois, voltamos para o escritório. Karin, feliz da vida, embevecida com o maravilhoso aroma de tinta. Eu, equilibrando meu almoço — uma barra de cereais — entre os dentes, tomando cuidado para não borrar o trabalho de Neidinha. O que infelizmente aconteceu, assim que me acomodei na minha cadeira e esbarrei o dedo sem querer na ponta do teclado, deixando um risco cheio de grumos na unha do dedo anular.
Tudo bem. Era só esconder aquela mão caso Karin estivesse por perto.
Quando o relógio marcou seis horas, todos foram para casa. Shino, vendo que eu ficaria até mais tarde, decidiu ficar também.
— Você sabe que isso não é uma competição, né? — perguntei assim que o andar ficou vazio.
— Claro que eu sei. Mesmo porque, se fosse uma competição, nós já sabemos quem teria ganhado. Eu, é claro. — Suas sobrancelhas subiram e desceram rapidamente. — E eu não tinha nada urgente para fazer. Pretendia lavar roupa, porque estou sem cueca limpa, mas posso me virar por um dia.
Estremeci de leve, voltando a atenção para a tela e bloqueando qualquer imagem de Shino sem cueca que surgisse em minha mente. Eu não precisava daquilo para ter pesadelos. Sua risada já dava conta disso.
Inesperadamente, imagens de Sasuke, deitado na minha cama, preencheram minha cabeça. E ele não estava usando cueca. E aquela mão imensa estava sobre o peito largo, escorregando para a barriga sequinha e indo em direção...
— Sakura!
— AHHH! — Dei um pulo da cadeira quando algo atingiu minha cabeça. Um crucifixo de madeira preso a um cordão grosso e preto. Eu o peguei do chão. — Que droga, Shino! Por que você jogou seu crucifixo em mim?
— Você não está sentindo nada queimar? Sua mão, por exemplo?
— Não! Por que você fez isso? — Lancei o cordão para ele, que o pegou no ar.
— Você ficou toda estranha, com o olhar vidrado, e começou a gemer, fazendo uns "hummmm". Achei que tivesse se transformado em zumbi. Só estava testando. — Passou o cordão pela cabeça.
— Pelo amor de Deus, Shino! Segundo a literatura, crucifixo funciona contra vampiros, não zumbis — cuspi, irritada.
— Você tá bem informada sobre esse assunto, hein? — Ele me olhou desconfiado.
Achei melhor me sentar e começar a trabalhar, ignorando descaradamente meu colega. Era isso ou pegar o cacto para bater na cabeça dele.
Eu me concentrei o melhor que pude no que estava fazendo, inserindo as imagens de alguns produtos para testar o funcionamento da página.
Simulei diversos tipos de acesso, sempre à procura de bugs.
— Eu soube que você virou office girl ontem. — Shino me lançou um olhar afiado.
— Não enche, Shino.
— Só fiquei pensando que não é justo você ficar puxando o saco da chefia.
— Não estou puxando o saco de ninguém. Só fiz um favor para uma amiga.
Olhei para o relógio; já eram sete e quarenta e cinco.
Tamborilei os dedos no tampo da mesa.
Claro que eu não ia me encontrar com Sasuke. Nem dava mais tempo.
Não fazia a menor ideia de por que eu havia pensado nele na minha cama. E não sei por que me flagrei imaginando até que ponto ele estava paralisado.
Esquece isso. Não é da sua conta.
Não, eu não ia me encontrar com ele. Ia resolver as coisas do meu jeito!
Já havia imprimido os supostos documentos que tia Tsunade deveria assinar. Amanhã de manhã isso estaria acabado. E, quanto ao meu namorado, ele podia viajar indefinidamente. Dar um nome a ele era tudo o que eu precisava fazer.
Peguei a papelada e inseri o distrato no meio. Folheei uma vez para ver se destoaria muito dos demais. Ela nem perceberia. Confiava em mim cegamente e nem desconfiaria de que eu a estava traindo.
Senti os olhos pinicarem e a bile subir pela garganta, abafando um soluço. Quando dei por mim, estava rasgando todos os papéis furiosamente.
Eu não podia. Não podia fazer isso com ela. Jamais!
Mas, então, o quê? O que eu faria agora?
Com um suspiro derrotado, desliguei o computador, dei uma ajeitada rápida na mesa e peguei a mochila no chão.
— Já vai? — Shino perguntou quando eu me levantei. — Pensei que a gente fosse atravessar a madrugada.
Era o que eu deveria fazer.
— Lembrei que tenho um compromisso. — Não acredito que eu vou levar isso adiante.
— Você tem um encontro? — Ele me olhou dos pés à cabeça. — E vai vestida assim?
Olhei para baixo. Tá legal, a blusa cinza de manga comprida e o jeans não eram lá muito atraentes ou elegantes, mas eu não estava tentando impressionar ninguém. Sobretudo o Shino.
— Vai pro inferno, Shino.
Eu ainda podia ouvir sua gargalhada quando entrei no elevador.
Continua!
Obrigada pelos comentários minha Diva Obsidiana Negra e Bela 21 pelos comentários!
