Título: Sorte de Herói – Capítulo 10 – "Atiramos o passado ao abismo – mas não nos inclinamos para ver se está bem morto" (William Shakespeare)
Autora: Amy Lupin
Beta: Lunnafe
Par: Harry/Draco
Classificação: T
Avisos: o Projeto Sectumsempra de Amor não Dói III acabou, mas a fic não!
Razão utilizada: 58. Porque nenhum outro shipper causaria tanta discórdia se os dois resolvessem se assumir.
Disclaimer: Essa história é baseada nos personagens e situações criadas e pertencentes a J.K. Rowling, várias editoras e Warner Bros. Não há nenhum lucro, nem violação de direitos autorais ou marca registrada.
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Draco perdeu a paciência ao errar o nó da gravata pela segunda vez e praguejou antes de alcançar a varinha e arrumá-lo com um aceno curto e eficiente. Era pouco mais de sete da manhã e Draco já se sentia cansado como no final de um dia estressante. Fazia mais de uma semana que o loiro não dormia direito. De fato, seu metabolismo havia sofrido bastante depois da última noite que passara com Harry.
Por mais que tentasse negar, Draco estava sofrendo pela falta do auror. Tinha dores de cabeça constantemente devido à falta de sono, perdia o apetite nas refeições, estava estressado e facilmente irritável. Por sorte tinha o trabalho para se distrair. Provavelmente já teria perdido a sanidade se tivesse que passar dias inteiros na biblioteca da Mansão, como costumava fazer antes de entrar para o Ministério.
Por causa de Potter.
"Maldição" Draco resmungou passando as mãos pelos cabelos e encarando a própria imagem com determinação. "Draco Malfoy, você viveu vinte anos da sua vida sem ele. Não pode ter desaprendido em dois meses".
"Isso mesmo" o espelho respondeu em uma de suas raras manifestações. "Tenha mais amor próprio, garoto. Olhe para essas olheiras!"
"Ora, cale essa boca" Draco deu as costas à sua imagem. Uma coisa era se dar um sermão merecido, outra era ter que ouvir afronta de um espelho.
O loiro vestiu a capa e deixou o próprio quarto, porém não sem antes lançar um Glamour para esconder as olheiras. Enquanto descia as escadas experimentou a mesma apreensão de todas as manhãs. O que teria saído no jornal àquela manhã? Já fazia uma semana desde a captura de Jugson e a imprensa ainda estava cavando e especulando além das informações oficialmente divulgadas pelos aurores. Draco nunca sabia o que encontraria ao chegar à mesa do café da manhã.
Lucius sequer tentava esconder a satisfação por ter voltado à mídia por algo totalmente diferente da última vez.
"O contexto é a chave, Draco" seu pai repetia quando sentia o desconforto do filho diante das meias-verdades publicadas. "Você não imagina a facilidade que as pessoas têm para esquecer o passado diante de um novo acontecimento. Elas gostam de pensar que a vida não passa de uma grande novela, escrita especialmente para lhes proporcionar entretenimento. Elas odeiam os vilões, adoram os heróis e simpatizam com as vítimas".
O que deixava Draco ainda mais indignado era que ele enxergava a lógica nos argumentos do pai, só não conseguia compactuar com aquilo. Ele não era como as pessoas que seu pai descrevia, não tinha facilidade para esquecer como sua família havia sido desprezada no passado, condenada pela opinião pública, e odiava ter que aceitar a simpatia dos outros por algo que sequer pedira que lhe acontecesse. Não adiantava querer mudar aquilo. Draco jamais seria como seu pai e não sabia se ficava feliz por Lucius ter desistido de tentar moldá-lo à sua forma oportunista ou se ficava decepcionado.
Porém a opinião pública não era a única preocupação de Draco. Desde o ataque de Jugson o loiro ficara aterrorizado com a possibilidade do pai ter entendido as indiretas do Comensal da Morte. Lucius não dera nenhum sinal de desconfiança durante toda aquela semana – e Draco teria percebido, por mais insignificante que fosse. Qualquer outra pessoa poderia ter concluído que não havia motivos para se preocupar depois de todo aquele tempo, porém Draco conhecia o pai melhor do que aquilo e sabia que simplesmente não havia meio de Lucius não ter prestado atenção às palavras do invasor. Aquilo não estava certo. E aquela dúvida só fazia aumentar o temor de Draco pelo que estava por vir.
O loiro não tinha ilusões àquele respeito. Sabia que a verdade viria à superfície mais cedo ou mais tarde e por vezes experimentara uma ânsia de confessar tudo de uma só vez e acabar logo com aquela expectativa. Porém as palavras nunca saíram de sua boca nem jamais sairiam.
O loiro passou pelo acesso à sala de visitas - que sua mãe havia mandado obstruir até que a reforma estivesse concluída – e seguiu direto para a sala de jantar. Respirou fundo antes de entrar.
Lucius e Narcissa estavam sentados um de frente para o outro como sempre. Seu pai levantou os olhos do jornal ao perceber sua aproximação. Até ali, não havia nada de anormal.
No entanto quando sua mãe olhou em sua direção Draco percebeu sua testa vincada, como sempre acontecia quando seu pai a contrariava. Lucius dobrou o jornal e colocou-o calmamente sobre a mesa. Do lado oposto ao que Draco costumava sentar.
"Bom dia pai, mãe" Draco cumprimentou tentando parecer inabalado.
Seus pais responderam e a expressão de Narcissa se suavizou um pouco. Bem, não poderia ser nada tão ruim, Draco disse a si mesmo ao tomar o assento ao lado da mãe. Apesar do estômago vazio, o rapaz suspirou ao olhar para as torradas sem nenhum apetite. Narcissa pareceu perceber aquilo, pois começou a passar geléia em alguns pedaços e passá-los para o filho, enquanto este bebericava seu chá.
"Pode me passar o jornal, por favor, pai?" Draco pediu polidamente alguns instantes depois. Aquele silêncio dos dois o estava incomodando.
"Eu não leria isso se fosse você" Lucius falou sem olhá-lo nos olhos. "Não há nada que preste hoje, acredite".
Draco engoliu em seco sentindo o suor brotar nas palmas das mãos de imediato. Olhou para a mãe, cuja testa estava levemente vincada mais uma vez.
"É melhor que ele leia, para ficar preparado para o que irá enfrentar" Narcissa passou o jornal para o filho sem tirar os olhos do marido, como se o desafiasse a impedi-la.
A primeira coisa que Draco reparou foi que o Profeta Diário estava mais grosso que o usual. Ao abri-lo, seu interior despencou chamando sua atenção para o título em vermelho berrante. 'EDIÇÃO ESPECIAL'. O garoto imediatamente abandonou o restante do jornal, focando-se naquele calhamaço com uma sensação ruim na boca do estômago, que foi se intensificando a cada palavra que lia.
'Desvendada a verdadeira natureza sobre o interesse de Harry Potter pelos Malfoy' dizia a manchete em letras garrafais. 'Saiba o motivo por trás do envolvimento do Salvador do Mundo Bruxo com o caso de perseguição dos Malfoy. O Profeta Diário não se contentou com as informações oficiais divulgadas pelos aurores e investigou as implicações da aproximação do Garoto Que Derrotou O Maior Bruxo Das Trevas Dos Últimos Tempos com a família de ex-Comensais da Morte. Detalhes nas páginas 3 a 6'.
"Ah meu..." Draco exclamou por sob a respiração e se interrompeu ao perceber que havia pensado em voz alta. Não conseguiu despregar os olhos do jornal enquanto algumas palavras lhe saltavam aos olhos.
'Ex-Comensal inocentado amante do Garoto Que Sobreviveu. Leia o relato do nosso informante, que preferiu permanecer não identificado nas páginas 7 a 9'.
'Caso de amor antigo? Saiba quais evidências nos levam a crer que o envolvimento não é tão recente quanto parece nas páginas...'
'Qual seria o verdadeiro motivo por trás da decisão de Harry Potter de livrar os Malfoy da prisão? Saiba as implicações dos argumentos do Herói para livrar o amante...'
'Cego pelo amor ou vítima de Maldição Impérius? Saiba os indícios que nos levam a questionar se Potter teria realmente consciência dos crimes cometidos por Lucius Malfoy ou se seria vítima de lavagem cerebral...'
'Harry Potter: gay, confuso ou candidato à atenção da mídia? Seria o Eleito homossexual ou estaria apenas passando por uma fase difícil de seu amadurecimento? Sabia a opinião de especialistas sobre os efeitos da fama em pessoas jovens...'
'Ginevra Weasley: compactuante ou traída? Teria a ex-namorada de Harry Potter concordado com um namoro de fachada ou realmente acreditara no amor incondicional do Herói? Saiba as verdadeiras razões para o fim do namoro...'
"Eu avisei que não havia nada que prestasse" a voz de Lucius trouxe Draco de volta à realidade, fazendo com que levantasse os olhos sem realmente focalizá-lo. "Bem, nós sabíamos que mais cedo ou mais tarde eles acabariam encontrando algum motivo para questionar a nossa sentença mais uma vez. Receio que esse seja o preço a se pagar por estarmos de volta nas manchetes".
"Espera" Draco falou tentando silenciar os próprios pensamentos e enxergar alguma lógica no que seu pai dizia. "Espera um instante. O senhor realmente não levou a sério...?" ele olhou para a mãe, que passava geléia numa torrada para evitar encarar o filho. "Vocês não vão sequer me perguntar...? Que diabos está acontecendo aqui?"
"Draco preste atenção no linguajar..." seu pai reprovou, porém foi interrompido pelo soco que Draco deu na mesa, fazendo a louça pular e tilintar. Lucius fechou os olhos aparentemente tentando não repreender novamente o filho.
"Eu repito: que diabos está acontecendo aqui?" Draco continuou sem se intimidar pelas narinas alargadas do pai. Depois que começara a falar, não conseguiria mais parar. Teria que colocar tudo para fora antes de voltar a se preocupar com o tamanho da loucura que estava prestes a fazer. "Vocês leram o que está escrito aqui? Realmente leram? Quero dizer, é óbvio que a maioria do que está aqui é ridículo, mas... Tenho saído com Potter sem dar nenhuma satisfação durante meses e vocês não são estúpidos a ponto de não se perguntarem... De não me perguntarem... Vocês sabem que..."
Draco se interrompeu inclinando o corpo para trás como se a verdade houvesse realmente o atingido.
"Vocês sabem? É isso? É por isso que não me repreenderam nem tentaram arrancar a verdade de mim? Vocês sabiam, mãe?"
"Pergunte ao seu pai" Narcissa falou secamente.
Draco voltou-se para o pai ofegante. Lucius limpou a boca calmamente num guardanapo antes de responder.
"Confesso que achei irritante quando você era um garoto e não parava de falar de Potter a todo momento. Mas achei que seria uma questão de tempo até você superar, afinal você tinha onze ou doze anos. Já tive treze anos, sei como é difícil querer ser tratado como um adulto e não ser levado a sério. Aos quatorze... era compreensível você ficar ressentido ao ver Potter conseguir entrar para o Torneio Tribruxo e você não, ainda que fossem da mesma idade. Já aos seus quinze anos eu estava ficando sem desculpas para o seu comportamento obsessivo em relação ao garoto. Na sua idade eu poderia ter sido pai se tivesse sido estúpido o bastante e ainda assim você não se interessava por garotas. Pansy não me convenceu, um ano depois. Percebi a maneira como você a ignorava, apesar de ela praticamente se jogar em cima de você. Mas a cada três frases que você falasse, duas ainda eram sobre Potter".
Draco sentiu uma vertigem e sabia que se pudesse se ver naquele momento constataria que estava ainda mais pálido que o normal. Segurou a toalha da mesa com força, paralisado de medo pelas palavras do pai.
"Eu não tinha realmente com que me preocupar" Lucius continuou sem nunca alterar o tom de voz. "Obviamente seus sentimentos não eram correspondidos. Potter tinha uma namorada e a opinião pública era que o casamento estava escrito nas estrelas – se pelo menos ele sobrevivesse até lá. Mas a maneira como Potter intercedeu por nós no julgamento abriu uma pequena brecha nas minhas certezas, pois eu percebi que ele fez tudo por sua causa. Não pela sua mãe, muito menos por mim, mas por você. Porém o contexto – novamente o contexto – é a chave, filho".
"Com o Lord das Trevas derrotado" Lucius falou após uma breve e calculada pausa, "nós poderíamos nos beneficiar do interesse do garoto por você. Bastaria esperar pelo momento certo - que não tardou a acontecer, como nós bem sabemos. E não, eu não planejei nada se é isso que você está pensando" ele acrescentou ao perceber a acusação nos olhos do filho. "Foi melhor do que qualquer coisa que eu poderia ter planejado. Eu ainda não tinha certeza das minhas conjecturas quando fiz a exigência ao Ministério de que fosse Potter a nos proteger, porém logo comprovei minha teoria. Não foi por mim ou pela sua mãe que ele aceitou minha proposta. Novamente foi por você. Você estava em perigo e Potter, com seu complexo de herói, não o deixaria nas mãos de ninguém que não ele próprio. Eu precisava de alguém que levasse a incumbência a sério e, honestamente, não me importaria se ganhássemos um pouco de atenção favorável da mídia enquanto isso. Potter precisava de uma donzela em perigo. Voilá".
"Lucius!" Narcissa ofegou parecendo indignada. Mas não tanto quanto Draco se sentia.
"Quer dizer então..." Draco falou quando seu pai não fez menção de continuar. Teve que fazer uma pausa para respirar fundo. "Aquela história sobre não interessar qual é a natureza do interesse de Potter..."
"... Contanto que nós pudéssemos fazer uso dele" Lucius completou. "Exatamente. Vejo que agora compreende o que eu disse".
"Compreender?" foi a vez de Draco ofegar incrédulo. "Quer dizer então que enquanto eu me sentia culpado por desapontar minha família tudo não passava de um plano de vocês para um retorno triunfal na sociedade bruxa?" ele olhou para a mãe acusadoramente, mas antes que Narcissa pudesse se defender Lucius continuou.
"Sua mãe não fazia idéia até alguns meses atrás. Sobre vocês estarem de fato se entendendo, quero dizer. Claramente ela desconfiava da sua paixonite, mas nunca tocou no assunto com medo da minha reação" Lucius meneou a cabeça e lançou um olhar indulgente à esposa. "Como se algo do tipo fosse escapar ao meu conhecimento!"
"Eu nunca quis que você se machucasse, querido" Narcissa começou buscando a mão do filho, porém Draco recolheu a própria mão antes que a mãe a tocasse. "Jamais teria permitido isso se soubesse..."
"Ora, já estava mais do que na hora de Draco tomar seus próprios tombos, Narcissa" Lucius a interrompeu. "Se ele acha que é homem o suficiente para trabalhar pelo próprio sustento, devia saber que a vida é cheia de desilusões".
"Ah claro" Draco falou cheio de rancor. "Eu devia saber que o senhor previu até mesmo o fim do meu caso com Potter, não é mesmo pai?"
"Draco, nós dois sabemos que nunca daria certo" Lucius empregou o mesmo tom que havia dirigido à esposa antes, como um sábio aconselhando uma criança teimosa. "Qualquer um poderia ver que o relacionamento de vocês continha as sementes da própria destruição desde o início! Ou você realmente chegou a acreditar que algum dia vocês seriam uma família?"
Aquilo foi demais para Draco. Ele se levantou bruscamente da mesa e saiu sem dar atenção aos chamados da mãe. Sentiu um aperto na garganta e sua visão se turvou enquanto ele caminhava em direção à porta, porém não conseguiu chegar até ela antes que sua mãe o alcançasse e agarrasse a manga de seu casaco com força.
"Draco meu filho, me ouça!" Ela levou a mão à face do filho, com os olhos também brilhando. "Não se deixe abater pelas palavras duras de seu pai, ele só quer o seu bem..."
"Mãe..." Draco tentou se desvencilhar dela inutilmente.
"Querido, eu acreditei no seu amor por Harry" ela falou apressadamente, fazendo com que Draco parasse para encará-la. "Eu acreditei! Nunca quis que você se machucasse! Só quero que você seja feliz, filho! É tudo que quero... Seu pai também, apesar de... Draco!"
"Não tente defendê-lo, mãe!" o rapaz se desvencilhou da mãe e deu um passo para fora do alcance dela. "Além do mais, ele tem toda razão! Eu nunca acreditei em nós dois. Só um tolo acreditaria que pudesse dar certo. Agora se me permite... tenho que trabalhar".
"Você não precisa ir hoje, querido! Posso dizer que você não está se sentindo bem..." as palavras insistentes de Narcissa se perderam em meio às sebes enquanto Draco atravessava o jardim para fora da propriedade respirando fundo para recuperar o controle.
Tudo que Draco queria fazer era aceitar a oferta da mãe, voltar para o próprio quarto e não sair de lá pelo resto da semana. Só não o fez porque aquilo apenas provaria que Lucius estava certo sobre ele estar brincando de ser responsável.
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Draco achara que já havia passado pela pior parte de sua vida depois de ter sido inocentado pelo Ministério. Bastara uma única manhã para que soubesse o quanto estivera enganado. Antes mesmo de entrar no Ministério naquela manhã havia sentido os olhares como se lhe cortassem a pele. Uma coruja voara baixo em sua direção e Draco pegara seu conteúdo por puro reflexo antes que este explodisse em suas mãos. Pelo cheiro e pela sujeira não havia dúvidas de que havia acabado de receber uma bomba de bosta. O pior era que sabia que não seria a última a julgar pelos risos que os observadores sequer disfarçaram.
Uma vez no Átrio, já havia conseguido se limpar e estava livre das corujas, porém levou um encontrão de um bruxo alto da Manutenção, que aproveitou para cochichar em seu ouvido enquanto fingia que se desculpava.
"Sempre soube que sua família era desprezível, mas nunca imaginei que pudessem se rebaixar tanto para conseguir voltar aos círculos sociais".
Draco se desvencilhou do homem e nem teve tempo de recuperar a dignidade antes que outro bruxo cuspisse aos seus pés. Foi com muito esforço que conseguiu chegar até a escada que levava para o Departamento de Mistérios e, não pela primeira vez na vida, achou estar beirando um ataque de pânico. Ouviu passos às suas costas e respirou profundamente, descendo as escadas de queixo erguido.
"Ora, ora, quem diria..." o loiro se sobressaltou, porém logo reconheceu uma colega Inominável. "E pensar que eu sempre achei você com cara de perdedor" ela gargalhou.
"Cale a boca, Dolman" Draco murmurou por entre os dentes cerrados.
"Mas me diga, como ele é na cama?" a mulher provocou.
"O que..." Draco se interrompeu, tentando recuperar o controle. "Vou simplesmente... fingir que você não fez essa pergunta".
Dolman tornou a gargalhar e disparou à sua frente. Por pior que pudesse parecer, aquela foi a melhor reação que Draco obteve durante todo o dia. Porém, se tivesse que encontrar um ponto positivo em meio de todo aquele caos, diria que pelo menos não teve tempo para remoer as palavras do pai.
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Harry sequer se surpreendeu ao ver um memorando interdepartamental pairando logo à sua frente na metade da manhã. Pegou o aviãozinho de papel encantado e reconheceu a caligrafia de Arthur Weasley.
'Sinto muito por incomodá-lo Harry, mas Ron me pediu encarecidamente esta manhã que o avisasse para encontrá-lo na loja para almoçarem juntos. Arthur'.
Harry suspirou antes de escrever um 'ok' no verso do pergaminho e encantá-lo novamente. O aviãozinho de papel disparou rumo à Seção para Detecção e Confisco de Feitiços Defensivos e Objetos de Proteção Forjados. Era impossível receber corujas dentro do Ministério e Harry sabia que apenas aquilo o havia impedido de receber berradores e coisas do gênero após entrar para o expediente àquela manhã. Ainda assim, recebera vários olhares ressabiados dentro do próprio Ministério.
"Aqueles de vocês que não estiverem ocupados escrevendo bilhetinhos" Gawain Robards soou desagradavelmente, fazendo Harry se sobressaltar "prestem atenção na nossa programação para o dia de hoje. Williamson, Dawlish e eu temos investigações sobre o caso dos Mole a concluir até esta tarde e precisaremos do apoio técnico de Sutter, Beasant e Earle; Savage, Proudfoot e Mabbott deverão examinar as novas evidências do caso do Ladrão de Relógios; e aqueles cujo nome eu não mencionei devem ficar de plantão e ajudar a redigir os relatórios no final do dia. Agora..."
"Senhor!" Mabbott interrompeu o chefe do departamento corajosamente enquanto todos os outros aurores fingiam não ter percebido que apenas Harry havia sido deixado de fora da programação de atividades, portanto cabia a ele as tarefas mais tediosas.
"Mabbott?" Robards lhe concedeu a palavra, ainda que relutante.
"O senhor não vai mencionar nada sobre o furo jornalístico dessa manhã?" Mabbott falou apontando para a Edição Especial do Profeta Diário.
"Receio que você terá que ser mais claro, Mabbott. Alguns de nós não temos tempo para ficar lendo as fofocas" Robbards falou fazendo com que Dawlish desse uma risadinha e tivesse que disfarçar com uma tosse ao receber um olhar atravessado de Harry.
"Tenho certeza que o senhor sabe a que me refiro, senhor" Mabbott continuou inabalado. "Não se fala de outra coisa que não seja relacionado ao caso de um dos nossos colegas de departamento com Malfoy, que – se me recordo corretamente de suas próprias palavras, senhor – não deveria nunca ter deixado esse departamento".
Robbards limpou a garganta em meio ao silêncio carregado que se fez no departamento, porém foi Savage quem retrucou.
"Ora, e quem garante que a informação saiu daqui de dentro?"
"De fato" concordou Earle pomposamente, ganhando um olhar atravessado de Mabbott que não escapou à atenção de Harry. "Quem garante que os próprios Malfoy não tenham deixado a história vazar?"
"Não me espantaria se o próprio Lucius tivesse colocado a boca no trombone" Dawlish concordou. "Sabe como diz o ditado: falem bem ou falem mal, mas falem de mim. Ou qualquer coisa do tipo".
"Pessoalmente, acredito que Mabbott esteja certo" Williamson falou em meio aos murmúrios de aprovação que Dawlish recebeu. "Não acho que Lucius Malfoy sairia espalhando boatos sobre o próprio filho apenas para estar de volta aos noticiários".
"É uma acusação muito grave, Mabbott" Robards por fim se manifestou. "Pessoalmente, sou da mesma opinião que Dawlish. Mas se a consciência de alguém pesa nesse sentido, espero termos um culpado até o final dessa semana. Agora chega de conversas, temos trabalho a fazer".
"Você viu a cara que Earle fez?" Mabbott comentou para Harry enquanto os outros aurores se preparavam para sair. Em seguida fez uma imitação jocosa da voz do colega. "'Quem garante que os próprios Malfoy...' ora essa, que ridículo! Malfoy não faria uma coisa dessas! Aposto como foi Earle quem..."
"Esqueça isso, Scott" Harry falou, cansado. Na verdade não estava tão tranquilo em relação ao que Robbards estava fazendo quanto queria que o amigo acreditasse. Apenas não aprovava que Mabbott se queimasse com o chefe do departamento por sua causa.
Além do mais, tinha coisas mais importantes com que se preocupar. Iria almoçar com Ron, ainda que não estivesse com cabeça para aquilo. Porém não podia se dar ao luxo de ter que adiar sua visita a Azkaban, que faria logo após o término do expediente.
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"E aí, cara?" Ron o cumprimentou com um aperto de mão como de costume. "Venha até os fundos! George pediu que mamãe fizesse uma marmita extra para você. Espero que você ainda goste de costeletas e batata assada".
"Sem dúvida" Harry falou um pouco surpreso com a maneira calorosa do amigo, até perceber que o ruivo parecia um pouco entusiasmado demais para ser verdade.
"Harry! Que bom que veio!" George o cumprimentou, bloqueando seu caminho. "Ah, não seria muito aconselhável passar por este corredor nesse momento. Melhor dar a volta" ele avisou e Harry teve um vislumbre de algumas caixas se debatendo nas prateleiras da loja antes de ser conduzido por outro caminho até os fundos.
Nos minutos que se seguiram, enquanto Harry saboreava a comida da Sra. Weasley, os três conversaram sobre negócios. Ron parecia bastante nervoso e impaciente, espiando para fora a todo o momento e batendo o pé no chão. Quando Harry finalmente terminou sua refeição, o ruivo não conseguiu mais se conter.
"Então... fazia tempo que o Profeta não inventava essas histórias mirabolantes sobre você, não é mesmo?" Ron riu exageradamente. "Quero dizer, quem é que acreditaria num absurdo desses?"
"Ah, não é nada que o velho Harry não esteja acostumado a lidar, não?" George comentou dando uma batidinha amigável no joelho do sócio. "Olhe para ele, nem parece o Harry esquentadinho que ficava revoltado cada vez que Rita Skeeter publicava alguma coisa que colocava em dúvida a sanidade mental d'O Eleito".
"Não sei como você consegue não se abalar, Harry, sinceramente" Ron continuou com sua empolgação. "Mesmo depois de tudo que já publicaram a seu respeito, fazer uma edição extra recheada de idiotices desse jeito... quero dizer, mesmo se você fosse gay..."
"Será que de uma hora para a outra todo mundo esqueceu que você namorou nossa irmã?" George completou rindo e Ron continuou.
"... ainda assim, se existisse a mínima possibilidade de você ser gay... Draco Malfoy? Pffff!" Ron e George caíram na gargalhada.
Harry levantou as sobrancelhas e esperou que os outros percebessem que ele não os estava acompanhando nas risadas. O que não tardou a acontecer.
"Harry?" Ron perguntou ressabiado, seu riso morrendo abruptamente.
O moreno respirou profundamente antes de falar de uma só vez, evitando o olhar cheio de expectativas do melhor amigo.
"É verdade, Ron".
Houve uma pausa carregada de tensão antes de Ron franzir o cenho.
"Como assim, é verdade? O que é verdade?"
"Err... eu acho que estão precisando de ajuda no caixa" George falou se levantando rapidamente. "Sabe como é, a loja está bastante movimentada e... bem... não estarei muito longe se precisarem de mim" ele acrescentou antes de sair.
"Harry?" Ron insistiu, os olhos azuis arregalados praticamente implorando que Harry dissesse que tudo não havia passado de uma pegadinha. "Eu perdi alguma coisa?"
"Ron..." Harry começou. "Eu não queria que você soubesse desse jeito, mas..."
"Você não queria que eu...? Hermione sabe alguma coisa sobre isso?"
"Ela não sabia que era Draco..."
"Mas então ela sabia..." Ron se levantou de imediato, passando as mãos pelos cabelos. "Era isso que ela estava tentando me avisar essa manhã com aquela história de não fazer nada de que eu viesse a me arrepender depois...? Merda, Harry! O que foi que você fez?"
"Não é como se eu tivesse planejado alguma coisa, Ron... Apenas aconteceu..."
"Aconteceu o quê?" Ron se exasperou. "O que aconteceu, Harry? Honestamente, não estou entendendo. Você está dizendo que esteve saindo com Malfoy todo esse tempo? Enquanto eu me indignava com o fato de Malfoy fazer com que você perdesse finais de semana e..." ele foi elevando a voz gradativamente. "É por isso que você nunca reclamava quando ele chamava você nas horas mais impróprias? Enquanto eu achava que eles estavam explorando você e se aproveitando da culpa que você sentia, você estava fodendo Malfoy, é isso?"
"Ron..." Harry tentou chamar o amigo de volta à razão, porém o ruivo não lhe deu ouvidos.
"Era isso que você ficou fazendo aquela noite que perdeu o jantar em casa, Harry? Quando você disse que estava trabalhando?"
Harry fechou os olhos sentindo a culpa e a raiva se alastrarem por seus membros em proporções iguais. Levantou-se com a intenção de sair antes que perdesse as estribeiras, porém Ron o seguiu para fora da salinha reservada.
"'Não se preocupe, Ron, não é como se eu estivesse me sacrificando'" às suas costas, Ron fez uma citação debochada das palavras do amigo. "'Não posso agora Ron, estou trabalhando'! Merda, Harry! E durante todo esse tempo..."
"É claro que não foi bem assim, faz apenas alguns meses...!" Harry falou sem sequer se virar para encarar o amigo.
"Meses? E quando você pretendia me contar?"
"Porque a sua reação seria tão melhor se eu tivesse contado desde o início" Harry retrucou sarcástico.
"Você tem razão, não teria sido melhor. Porque, caso você ainda não tenha percebido, estamos falando de Draco Bastardo Malfoy. Francamente Harry... eu não teria ligado se fosse qualquer outro cara, de verdade... Mas estou começando a achar que aquela história de lavagem cerebral não é mais tão absurda quanto pensei da primeira vez".
"Você não o conhece como eu conheço, Ron..." sem que percebesse, Harry havia girado ao redor de si mesmo e voltado alguns passos, se aproximando do ruivo e elevado a voz ao mesmo tom que o amigo.
"Inferno, claro que não!" o ruivo exclamou indignado. "Não sou nem nunca vou ser tão íntimo dele quanto você..."
"Você não viu o que eu vi! Ele não é o que parece!"
"Então ele se esforça bastante para parecer o que não é! Ou quem sabe estamos falando de duas pessoas diferentes, porque o Malfoy que conheço passou a vida inteira tentando tornar a sua vida um inferno e, adivinhe só, na maior parte do tempo ele conseguia!"
"Nós éramos crianças, Ron! Alguns de nós amadurecemos desde aquela época".
"Espera" Ron deu um passo para trás como se tivesse sido atingido pelas palavras do moreno. "Você está dizendo que aquele idiota mimado é mais maduro que eu?"
"Não, estou dizendo que nós teremos que concordar em discordar sobre Draco".
"Harry, será que você não percebe? Ele está usando você pra conseguir atenção!" Ron sacudiu o jornal que ainda segurava em uma das mãos.
"Ora, então foi um plano bem estúpido, não foi? Garanto que ele não está recebendo a melhor das atenções nesse momento. Além do mais... Droga" Harry passou a mão pelos cabelos abaixando o tom de voz. "Nem sei por que estamos tendo essa discussão! Não há mais nada entre mim e Draco! E não se engane, não fui eu quem terminou".
Harry não ficou muito tempo olhando para a cara de espanto de Ron antes de lhe dar as costas mais uma vez. Notou pela primeira vez vários clientes de olhos arregalados ao redor, mas estava cego de raiva e ressentimento, portanto não perdeu tempo se sentindo um idiota. Então haveria mais fofocas nos jornais no dia seguinte, mas quem se importava? Era como George havia dito, não era nada que Harry já não estivesse acostumado a lidar.
"Harry...!" George o chamou ao vê-lo passar direto pelo caixa.
"Diga à Sra. Weasley que agradeci pelo almoço. Até mais, George" o auror respondeu por sobre o ombro, porém estacou ao ver a multidão de repórteres do lado de fora da loja.
"... era sobre isso que eu queria falar" George o alcançou colocando uma mão em seu ombro. "Eu os impedi de entrar, mas não vou conseguir segurá-los por muito tempo. Por que não usa nossa lareira? E tente não aparecer em nenhum lugar óbvio se não quiser encontrá-los novamente".
Harry soltou o ar dos pulmões aliviado, não apenas pelo que seu sócio havia feito, como também por agir como se nada de anormal houvesse acontecido.
"Obrigado, George..." o auror tentou expressar toda sua gratidão naquelas simples palavras e ganhou um piscar de olho do ruivo.
"Não há de quê. Ah, e não deixe as palavras de Ron o afetarem. Sabe como ele reage quando é pego de surpresa. Daqui a pouco ele se arrepende e volta atrás".
"Gostaria de ter essa certeza" Harry falou antes de se despedir novamente e sair pela lareira para o lugar mais próximo à cabine telefônica que usara certa vez junto a Arthur Weasley torcendo para que continuasse tão pouco usada quanto antes.
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Quando Draco deixou a mansão àquela manhã, não imaginou que ansiaria em estar de volta ao final do expediente. O loiro arregalou os olhos ao ver os repórteres que o aguardavam na saída do Ministério e cogitou voltar, porém lembrou-se que tampouco fora bem-vindo do lado de dentro. Em seu breve momento de hesitação iluminado pelos flashes das câmeras, Draco analisou suas possibilidades. Voltar para trás não era uma delas. Se desaparatasse direto para a mansão, havia a possibilidade de encontrar mais repórteres esperando por ele. Teria que encontrar uma lareira, caso quisesse entrar diretamente na propriedade, porém não conseguia pensar em nenhuma. Ou poderia ir para algum lugar onde não fosse esperado. Onde dificilmente olhariam duas vezes para ele e estariam dispostos a ignorá-lo caso ele preferisse apenas pagar pelas próprias bebidas.
Não foi nada difícil escolher.
Draco aparatou em frente ao salão abandonado que demarcava a entrada para a Taberna e Hospedaria Celestina e experimentou um breve momento de alívio diante da quietude da rua. Porém antes que desse o primeiro passo rumo ao portão, foi atingido pelo feitiço.
Sentiu como se tivesse levado uma forte pancada na nuca e então não sentiu mais nada.
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Harry tinha outros planos naquela noite ao invés de ir direto para casa. Com a desculpa de estar ocupado redigindo os relatórios dos outros aurores, esperou até ser deixado por último no departamento. Aproveitou para reler a coruja de Hermione, que dizia mais ou menos as mesmas palavras que George havia dito.
'Sinto muito por não ter escrito antes, mas as coisas estão um pouco corridas com a proximidade dos exames. E para ajudar, Ron me mandou corujas o dia inteiro! Quase ganhei uma detenção de Flitwick depois que Pig invadiu a sala pela segunda vez só na aula dele!
Ah Harry, espero que Ron não tenha enfiado os pés pelas mãos novamente, mas a julgar pelas últimas cartas que ele me mandou, temo que seja tarde demais. O que quer que ele tenha dito, releve. Não dou nem algumas horas para ele voltar atrás. Você sabe como ele é...
Só lamento não poder estar aí. Tenho certeza que você faria bom uso de um ombro amigo agora. Pena que Ron é tão cabeça dura!
Com carinho,
Hermione'
As frases que mencionavam Ron estavam tão profundas no pergaminho que Harry imaginava que faltara pouco para a pena da amiga atravessá-lo. Aquilo o fez rir por um breve momento.
Talvez fosse melhor que Hermione não estivesse por perto. Assim Harry poderia se concentrar em seu plano. Nada melhor que um pouco de ação para fazê-lo esquecer seus problemas pessoais. O moreno tornou a dobrar o pergaminho e o enfiou no bolso da capa, conferindo novamente o relógio.
Quando já fazia pelo menos quinze minutos que Mabbott havia saído, Harry vestiu o casaco e desceu até o átrio, porém não rumou para as lareiras comuns nem para o local de aparatação. Utilizou uma lareira especial com vários feitiços de identificação. Teria muito que explicar no dia seguinte, quando descobrissem que ele a havia usado, porém com um pouco de sorte até lá Harry teria todas as informações de que precisava.
A lareira o levou diretamente à Azkaban e o auror fingiu não notar os olhares surpresos dos guardas enquanto limpava a fuligem da própria roupa. Dirigiu-se ao guarda mais próximo - que coincidentemente também era o mais novo e provavelmente inexperiente - e apresentou a própria varinha para identificação.
"Sr. Potter, em que posso ajudá-lo?" o rapaz gaguejou, olhando furtivamente para os lados como se não pudesse acreditar que dentre tantos outros guardas o Herói do Mundo Bruxo o houvesse escolhido para se identificar.
"Sei que é um pouco tarde, mas Robbards me pediu que viesse ainda hoje interrogar a testemunha do caso do Ladrão de Relógios" Harry tomou o cuidado de abaixar o tom de voz diante das últimas palavras.
"Testemunha... perdão, senhor?" o rapaz perguntou confuso no mesmo tom sussurrado e Harry aproveitou para olhar ao redor, fazendo vários outros guardas desviarem os olhos.
"Você sabe, o prisioneiro que quer negociar informações sobre o caso, mas quer manter a identidade em sigilo. Espere, que cabeça a minha, vou lhe mostrar o mandado" Harry enfiou a mão no bolso da capa e retirou a carta de Hermione, entregando-a ao guarda. Antes que este pudesse pegá-la, no entanto, o auror aproveitou para lançar um feitiço Confundus não-verbal com a varinha estrategicamente escondida sob a manga. Ao invés de entregar o pergaminho ao guarda, Harry fingiu o estar pegando de volta. "Tenho certeza que agora você entende o motivo de minha preocupação com o sigilo da missão. Sei que é contra o protocolo me deixar entrar sozinho, mas o auror Scott Mabbott deve estar a caminho a qualquer momento para me ajudar com o interrogatório".
"Err..." o rapaz falou atordoado e tornou a olhar ao redor, porém os outros guardas estavam cuidando dos próprios assuntos e tentando não parecer curiosos.
"Além do mais, você sabe como o assunto é delicado quando se trata de testemunhas".
"Hmm... claro..."
"Então...?"
"Perdão?"
"Não vai abrir para mim?" Harry questionou com um quê de impaciência, fazendo o guarda mergulhar a mão no bolso da capa e se apressar com as chaves encantadas.
"Absolutamente, Sr. Potter. Sinto muito" o rapaz falou ao lhe dar passagem.
"Obrigado, Sr..." Harry leu o crachá preso na farda "Jakobsen".
Jakobsen estufou o peito à menção do próprio nome e antes de virar o próximo corredor Harry pôde ouvi-lo responder aos colegas com ar de importância que não podia comentar nada a respeito. Harry respirou aliviado ao sair da vista dos guardas. Se certificaria de que Jakobsen não perdesse o emprego quando descobrissem sobre o que havia feito.
Teve que pedir passagem para mais dois oficiais, sempre explicando que seu companheiro havia se atrasado e assegurando que não chegaria próximo ao prisioneiro enquanto este não aparecesse. Antes de ser deixado sozinho em frente à cela de Jugson, Harry tratou de se acalmar e se recompor. Não poderia demonstrar nenhum sinal de fraqueza diante do Comensal se quisesse obter algumas respostas.
Jugson levantou os olhos ao ouvir as trancas e os feitiços serem acionados e se aproximou da grade para dar uma boa olhada em Harry.
"Estava me perguntando quando você viria" Jugson falou com fingido desinteresse assim que o carcereiro se afastou. "Um pouco tarde para calar minha boca, não acha?"
"Não estou aqui para fazê-lo se calar. Ao contrário, vim fazer as perguntas que me impediram de fazer antes".
"Ah, entendo..." o homem deu um sorriso e seus dentes amarelos ficaram emoldurados pelas barras. "Eu teria dito os detalhes aos seus amigos, caso tivessem me perguntado. Mas eles não pareciam querer saber a maneira como você empurrou Malfoy contra a porta daquela estalagem barata. Com direito a beijo de língua e tudo! Ah, se pelo menos eu soubesse de antemão, teria levado uma câmera fotográfica e teria ganhado uns bons galeões com o Profeta Diário".
"Sem dúvida você seria um idiota mais rico" Harry concordou friamente. "Pena que não poderia desfrutar sua riqueza atrás dessas grades, não é mesmo?"
"Admito que fiquei curioso" Jugson fingiu não tê-lo ouvido. "O jovem Malfoy é tão submisso na cama quanto fora dela?"
"Eu faço as perguntas aqui, Jugson" Harry travou o maxilar, tentando conter a raiva. Precisava manter a calma. Precisava pelo menos tentar fazer da maneira certa. Ou menos errada. "Quem o estava ajudando?"
"Desperdiçou uma ótima pergunta, Potter!" Jugson debochou. "Fiz tudo sozinho. Olhar as respostas do meu interrogatório teria poupado a sua viagem até aqui. Ou talvez isso tenha sido uma desculpara para vir dar uma checada em mim, seu veadinho de merda" o homem cuspiu, porém Harry estava longe o suficiente para não ter que se preocupar em se defender.
"Talvez você tenha mesmo feito tudo sozinho, afinal é nisso que você é bom, não? Executar ordens. Ou nem tão bom assim, já que acabou aqui. Mas nós dois sabemos que você seria incapaz de planejar tudo isso" naquele ponto Harry teve que elevar a voz para ser ouvido por sobre os xingamentos do prisioneiro. "Agora vou perguntar novamente: quem o estava ajudando?"
Jugson deu outra de suas risadas desagradáveis.
"Você se acha muito esperto, não é mesmo, Potter? Mas não vai conseguir arrancar nada de mim. Nem com a sua preciosa Veritasserum. Mas você sabe disso, ou já a teria usado".
"É claro que seria inútil. Só estou tentando conseguir minhas respostas de maneira amigável, afinal de um jeito ou de outro eu vou consegui-las" Harry falou confiante.
"Oh, o que será que você está escondendo na manga?" o homem fingiu ter medo. "Vai oferecer a redução da minha pena se eu contar? Ou quem sabe um emprego no Ministério para meus parentes? Sinto muito em desapontá-lo, mas eu não sou Lucius Malfoy".
"Vou tentar mais uma vez, Jugson. Onde você estava se escondendo durante todo esse tempo?"
"De novo, pergunta desperdiçada. Já passei o endereço para seus coleguinhas".
"É sua palavra final?" Harry perguntou, ao que Jugson respondeu com um desdenhoso encolher de ombros. O auror deu as costas para o Comensal e caminhou lentamente até o portão por onde havia entrado.
"Isso é tudo, Potter?" Jugson soou levemente desapontado. "E toda aquela história de ter seus métodos para me fazer falar?"
"Quem disse que eu já acabei?" Harry falou apontando a varinha para o prisioneiro depois de se certificar de que não havia ninguém espiando. Teve apenas um vislumbre dos olhos arregalados de Jugson antes de sussurrar a maldição. "Imperius!"
O efeito foi imediato. O corpo do homem relaxou atrás das grades, as mãos que seguravam as barras cairam ao lado do corpo e os olhos se desfocaram.
"Para onde você pretendia levar Draco?" Harry perguntou pausadamente, ainda que temesse ser interrompido a qualquer momento.
"Não posso dizer" Jugson falou sem nenhuma entonação e Harry xingou por entre os dentes cerrados. Por um momento imaginou se a maldição não estava funcionando, porém Jugson não parecia ter força de vontade suficiente para resistir a ela.
"Por que você não pode dizer?"
"Porque não sou o Fiel do Segredo".
Aquela informação quase fez com que Harry perdesse a concentração no feitiço, porém sua mente trabalhou rapidamente. Feitiço Fidelius. Fazia todo sentindo!
"Quem é o Fiel do Segredo?" o auror perguntou sentindo um friozinho na barriga de antecipação.
"Thorfinn Rowle" Jugson falou quase etereamente e Harry sentiu o sangue gelar.
Enquanto abaixava a varinha lentamente, as recordações passaram como um filme na cabeça de Harry. Primeiro um bruxo loiro e grandalhão lutando contra Tonks na Batalha da Torre de Astronomia em Hogwarts, seus feitiços ricocheteando loucamente pelas paredes de pedra do castelo antes dele ser atingido por um feitiço de Harry. Depois esse mesmo comensal colocando fogo na cabana de Hagrid durante a fuga com Severus Snape e Draco Malfoy. Então Harry se lembrou de quando ele, Ron e Hermione estuporaram dois comensais vestidos de operários no café da Rua Tottenham Court após a fuga do casamento de Bill e Fleur. Dolohov e Rowle. Por fim Harry se lembrou dos gritos de Rowle enquanto era torturado por Draco Malfoy.
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Harry se surpreendeu quando os portões da mansão se abriram logo que se identificou. Não sabia que tipo de reação esperar dos pais de Draco, no entanto imaginou que não seria muito bem recebido depois das notícias daquela manhã. O moreno fez uma prece silenciosa para que fosse Draco a recebê-lo, mas sabia que era pedir demais. Deixou os ombros caírem em resignação ao ver Narcissa Malfoy vinha ao seu encontro no hall de entrada.
"Onde está meu filho?" as palavras determinadas da mulher fizeram o coração do auror falhar uma batida.
"Draco não está aqui?"
"Por favor, Sr. Potter" ela falou autoritariamente. "Se sabe onde meu filho está, diga a ele que sentimos muito. Diga que o pai dele sente muito pelo que disse. Convença-o a voltar para casa..."
"Sra. Malfoy, Draco não está comigo" Harry a interrompeu com urgência. "Eu não o vejo... há alguns dias".
"Como...?" Narcissa parou, então levou as mãos aos lábios, os olhos azuis arregalados. Sem nenhuma palavra a mulher lhe deu as costas e voltou rapidamente para o interior da casa, em sentido oposto ao da sala de visitas. "Lucius! Lucius! Draco não está com ele!"
Harry a seguiu sem esperar ser convidado. Encontrou Lucius Malfoy na sala de jantar, em pé e com a expressão contrariada. Ao vê-lo, sua expressão se tornou ainda mais dura.
"O que está fazendo aqui, Sr. Potter?" o patriarca perguntou com seriedade.
"Draco corre perigo" Harry falou à guisa de respostas. "Acabo de vir de Azkaban. Jugson não estava agindo sozinho".
Narcissa empalideceu e se segurou no marido.
"Quem?" perguntou Lucius.
"Thorfinn Rowle".
Harry assistiu Narcissa inalar profundamente e os nós dos dedos de Lucius ficarem brancos conforme ele apertava o encosto da cadeira mais próxima.
"Mas sei onde ele pode estar se escondendo" Harry desatou a falar. "Ninguém no departamento sabe que estive em Azkaban. Eu nem devia ter ido! Fui afastado do caso antes dele ser dado por encerrado, como vocês devem saber. A primeira pessoa que pensei em avisar foi Draco, e agora vocês me dizem que ele não está? Quando foi a última vez que o viram?"
"Esta manhã. Nós tivemos uma..." Lucius fechou os olhos por um breve momento "discussão. Talvez Draco esteja apenas querendo nos dar um susto".
"Talvez" Harry passou as mãos pelos cabelos nervosamente e girou nos calcanhares para refazer o caminho de volta para fora da propriedade, porém foi impedido pela voz de Narcissa Malfoy, que parecia fina como uma casca de ovo prestes a se quebrar.
"Auror Potter..."
"Vou encontrá-lo, Sra. Malfoy" Harry a interrompeu sem se voltar para a mulher. "Custe o que custar, vou encontrá-lo. Mas vou fazê-lo por mim, não por nenhum de vocês" e saiu apressadamente.
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Harry já havia esgotado as possibilidades de busca. Draco não estava na Taberna e Hospedaria Celestina nem em qualquer outro pub de Londres e arredores. Seria inútil fazer a busca no local que suspeitava ser o esconderijo de Rowle sem que o próprio Fiel do Segredo lhe passasse o endereço. Já havia vasculhado o cemitério pessoalmente alguns dias atrás e não encontrara nem sinal da capela.
Sua última esperança era o Largo Grimmauld.
"Kreacher!" Harry gritou assim que pôs os pés na casa.
"Sim, meu senhor Harry?" o elfo apareceu num piscar de olhos, fazendo uma leve reverência.
"Draco apareceu por aqui?"
"O Sr. Malfoy, meu senhor?"
"Sim, Kreacher" Harry engoliu uma resposta impaciente. "Ele está aqui?"
"Não, meu senhor. Ninguém esteve aqui o dia todo. Nem o mestre, que não apareceu para o almoço" o elfo reclamou, amuado.
"Droga!" Harry chutou a pilha de jornais ao lado da lareira e agarrou os próprios cabelos em desespero. Não havia mais o que fazer além de pedir reforços. E apenas o tempo que Harry perderia tentando convencer os outros aurores a iniciarem a busca poderia significar um desastre! Harry foi tomado por um sentimento de desespero e impotência. Sentiu-se novamente com quinze anos, sabendo que o padrinho estava nas mãos de Voldemort sem ter a quem recorrer. Pelo menos naquela ocasião tivera amigos com quem contar "Droga, droga, droga..."
"Meu senhor, Kreacher pede desculpas..." o elfo deu um toque delicado no ombro de Harry.
"Agora não, Kreacher..."
"Meu senhor, há uma coruja na janela".
Harry levantou os olhos e viu uma coruja marrom-avermelhada pousada no peitoril da janela, bicando o vidro. Com um friozinho no estômago, o moreno acenou a varinha e a janela se abriu. A coruja descreveu um círculo no ar e derrubou um pequeno pedaço de pergaminho nas mãos do auror antes de desaparecer de volta na noite.
Havia apenas uma frase rabiscada no pergaminho. Ao ler, Harry percebeu que se tratava de um endereço. O endereço da capela no cemitério escrito pelo punho do Fiel do Segredo. Assim que Harry acabou de reler a mensagem, o papel pegou fogo e se consumiu por completo.
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N.A.: Muito bem, depois de tanto mistério vocês finalmente tiveram algumas respostas nesse capítulo, hm? Nem vou comentar porque tem certas pessoas que têm mania de ler as notas antes do capítulo XD
Vamos aos números *limpa a garganta e ajeita os óculos*: no capítulo 9 nós tivemos 32 reviews e 380 hits. Uma queda significativa do oitavo e eu até dou um desconto por causa do feriado e tal, mas adoraria se vocês enchessem minha caixa de email de alertas de review *_* Vamos lá gente, a culpa é de vocês por terem me mimado com montes de comentários, agora não sei viver ser sem eles! XD
sweetflower(Cena de filme de ação, nossa, me senti importante agora XD Jugson é tão cativante que ninguém se lembra dele uhuahau. Que bom que você ficou menos triste! Espero que este capítulo te dê ainda mais esperanças, ao invés de acabar com elas O.o Obrigada, flor!) ze (Hey, muito obrigada! Olha, acho que tem mais um capítulo e epílogo. No máximo dois + epílogo, acho. Mas eu nunca sei com certeza, então vamos ver como as coisas saem no próximo O.o Beijos!) Paulawot (Ah, Draco mau! ò.ó Calma, não se aflija! Harry sabe o que faz, ou assim nós esperamos XD É claro que eu não me esqueço de vocês, querida! Eu posso demorar um pouquinho, mas eu acabo aparecendo ^.~ Obrigada!) Su Vivi (Bota complicado nisso! E pensar que tudo poderia ser tão mais simples se eles se esforçassem mais! Ownn quase fiz você chorar, flor? Me desculpe *oferece um lencinho* É claro que o Draco foi extremamente egoísta, mas qualquer hora ele percebe o tamanho da cagada ¬¬ Obrigada, fofa!) Isis Coelho (Oba, que bom que não perdeu as esperanças! Vamos torcer pelo melhor ;D Obrigada, xuxu!) bro (Você não é uma graça? XD É claro que você deve ao Simas, mas eu devo muito mais a você! Obrigada! Beijos! \o) Lis Martin (Ohh quer dizer que o "herói" é pomposo? Uhuahuahua agora que você falou, acho que é mesmo XD Tenho que concordar com você sobre Harry não estar sabendo manejar (ui) os devidos cordões do Draco, mas vamos torcer para que ele pegue o jeito logo ;D)
