Gênese
Shinji, Hiyori e Gin no Jardim do Éden
Aquele não seria um dia como qualquer outro, embora Hiyori não soubesse disso ao acordar, vestir o uniforme e começar a trabalhar na mais recente das invenções malucas de Kisuke. Como em qualquer outro dia, o cientista saudou-a com seu sorriso aéreo e desmiolado e levou um chute na cara, e o sol brilhou lá fora com um apelo particularmente cruel enquanto ela ficava encarcerada entre quatro paredes e cinco milhões de tubos de ensaio. Como em qualquer outro dia, Mayuri e Akon importunaram Hiyori até fazê-la perder a pouca paciência que tinha e começar a quebrar tudo em que conseguisse colocar as mãos, inclusive as quatro paredes e os cinco milhões de tubos de ensaio. Como em qualquer outro dia, Kisuke interferiu na situação, não a tempo de prevenir mais uma explosão de fumaça colorida e cheiro ruim na Décima Segunda Divisão, mas pelo menos cedo o suficiente para impedir sua vice-capitã de por fim assassinar Kurotsuchi Mayuri e seu assistente de estimação. E, como em qualquer outro dia, Kisuke inventou uma missão qualquer para tirar Hiyori do laboratório e curar as feridas de seu orgulho.
- Hirako-taichou pediu-me que lhe entregasse isso – disse ele, colocando um pacote embrulhado em seda verde nas pequenas mãos de Hiyori – É uma arma em que estamos trabalhando. Está quase perfeita.
- Quase?
- Sim, bem, há um pequeno probleminha – Kisuke teve a decência de parecer ligeiramente embaraçado antes de continuar, alegremente – A arma deveria servir para sugar o reiatsu do inimigo. Infelizmente, ainda não conseguimos criar um mecanismo que a impeça de sugar o reiatsu de qualquer um que entre em contato com ela.
Hiyori, compreensivelmente, jogou o pacote a dez passos de distância. Ignorando os protestos escandalizados de Mayuri e Akon, o capitão da Décima Segunda Divisão recolheu o pacote cuidadosamente e colocou-o mais uma vez nas mãos da garota.
- Não se preocupe, eu coloquei um kidou no tecido para diminuir o efeito da arma. Parte do seu reiatsu será sugada no caminho até a Quinta Divisão, mas você tem mais do que suficiente para ficar bem depois de um dia de descanso.
Hiyori deu um chute na cara de Kisuke, e empurrou o pacote de volta às suas mãos.
- Mande outra pessoa levar essa porcaria.
Kisuke devolveu o pacote a Hiyori, e deu um tapinha gentil na sua cabeça dourada.
- Ninguém na Décima Segunda Divisão, além de eu, você e Mayuri, tem reiatsu suficiente para fazer isso. Eu estou ocupado e, sinceramente – sua voz baixou sensivelmente – Não confio em Mayuri. Por favor, Hiyori, eu preciso da sua ajuda. Você faria isso? Por mim?
A garota soltou um muxoxo de desdém, sabendo que a ocupação de Kisuke provavelmente era alguma bobagem vergonhosa relacionada a Yoruichi, e que a tal desconfiança de Mayuri só tinha sido mencionada para lisonjeá-la, mas enfiou o pacote dentro do uniforme e deu as costas ao capitão para sair do laboratório.
- Não pense que estou fazendo isso por você, idiota.
E, com um último chute de lembrança, Hiyori desapareceu.
- Ele não está – disse Aizen com seu sorriso calmo e beatífico – Quer que eu deixe algum recado?
Hiyori encarou o vice-capitão da Quinta Divisão, ligeiramente desconfiada. Apesar de estar, tecnicamente, no mesmo nível hierárquico que ela, Aizen tinha o poder de fazê-la se sentir pequena e inadequada como nunca lhe acontecera antes, nem quando era uma criança solitária e mal educada, mal saída da Academia. Aquele, no entanto, não era o motivo pelo qual Hiyori não confiava em Aizen.
Hiyori não confiava em Aizen porque ele era gentil. E também porque ele era calmo, forte, inteligente, eficiente, compreensivo e, ela tinha que admitir, até mesmo atraente. Ele era perfeito.
Hiyori não acreditava em perfeição. E, definitivamente, não acreditava em Aizen. Hiyori acreditava, sim, que aquele pacotinho embrulhado em seda verde e escondido em seu uniforme devia ser estupidamente perigoso e potencialmente ilegal. As coisas que Kisuke inventava eram, em geral. E de jeito nenhum que ela ia deixar um negócio daqueles nas mãos de Aizen.
- Eu espero – ela declarou, e Aizen tinha experiência suficiente com a pequena companheira de seu capitão para saber que ela não sairia dali até resolver o que tivesse que resolver com Hirako Shinji.
- Sinta-se à vontade, Sarugaki-fukutaichou. Gostaria de se sentar?
Aizen fez um gesto na direção do curioso móvel ocidental que Shinji tinha adicionado à decoração do escritório, mas Hiyori sacudiu a cabeça, mechas douradas acompanhando o movimento suavemente.
- Vou esperar lá fora.
E para fora ela foi, intimamente satisfeita por ter uma desculpa para passar o dia todo longe do laboratório. Não havia uma única nuvem no céu, e Shinji provavelmente retornaria apenas à noite, ou no dia seguinte, se tinha partido numa missão. Com um suspiro de contentamento, Hiyori sentou-se exatamente onde um quadrado de luz dourada projetava-se sobre as sombras da varanda, levantando as mangas do uniforme e sentindo com satisfação o toque morno do sol em sua pele. Poucos minutos depois, Hiyori já estava deitada no chão de madeira, meio perdida num estado entre a consciência e o sono e decidida a nunca mais se voluntariar para trabalhar num dia de folga. Por mais que desgostasse de deixar a Décima Segunda Divisão nas mãos de Kisuke, ela tinha que admitir que ele não era um idiota completo, e tinha provado seu valor nos últimos tempos. Talvez, afinal de contas, não fosse acontecer nenhuma desgraça se ela deixasse sua Divisão sozinha por um dia ou dois, de vez em quando. E trabalhar era cansativo. Depois de tantos anos lutando para sobreviver no Rukongai, se matando de estudar na Academia e trabalhando incessantemente no Gotei 13, ela merecia uma folga, não merecia?
E foi aí que o ordinário dia de Hiyori deu uma reviravolta, para revelar-se não tão ordinário assim. Ela nada viu, pois tinha os olhos fechados, e nada ouviu além do rumor suave do vento nas cerejeiras. Mas houve uma sensação, estranha e desagradável, como se alguém tivesse agarrado a parte de trás de suas vestes e derramado um líquido frio e viscoso que ia escorrendo pela sua espinha. Ela estava sendo observada.
Hiyori abriu os olhos, e levou um susto tão grande que provavelmente nem percebeu o grito que deu ao ver um rosto de garoto, pálido, magro e sorridente, pairando acima do seu. Hiyori fez apenas o que faria em qualquer situação, e em milésimos de segundo o garoto tinha sido lançado com uma força improvável contra a parede do escritório onde Aizen devia ter interrompido seu trabalho para perguntar o que diabos estava acontecendo ali.
Aizen não apareceu, no entanto, e Hiyori levantou-se num salto, encarando o garoto. Ele a encarou também, olhos cor de sangue e boca aberta em surpresa por um instante. Depois, os olhos se fecharam e o sorriso voltou, e Hiyori se acalmou o suficiente para perguntar o que diabos ele pensava que estava fazendo. O sorriso do garoto se alargou ainda mais.
- Eu estava olhando.
A raiva de Hiyori titubeou por um instante diante da honestidade e simplicidade da resposta, mas a garota ainda conseguiu encontrar indignação suficiente para responder.
- Bem, não faça mais isso! Você tem idéia de como isso é estranho? E por que diabos você fez isso, de qualquer forma?
O sorriso alargou-se ainda mais, se é que aquilo era possível, e o garoto respondeu mais uma vez, muito simples:
- Por que você é bonita.
A noite estava calma e agradável. Em seus aposentos, Aizen encarava com curiosidade velada o garoto sentado diante dele, que segurava a xícara de chá com uma mão, enquanto a outra tocava delicadamente o hematoma colorido em tons de verde e roxo no seu olho esquerdo.
- Hoje eu conheci Hiyori-chan.
- E o que você achou dela?
O sorriso do garoto se alargou, e ele depositou a xícara no chão com a mesma graça predatória com que matara o terceiro em comando da Quinta Divisão. Seu rostinho pálido tomou uma expressão intensamente pensativa por alguns instantes, e então Ichimaru Gin respondeu.
- Ela é bonita.
Se Aizen fosse um homem um pouco menos excepcional, provavelmente teria engasgado com seu chá. Sendo quem era, ele limitou-se a pousar a xícara ao lado da que Gin usara e encarar o garoto com uma seriedade intrigada.
- Bonita? Não é a palavra que costumam usar para se referir a Sarugaki-fukutaichou.
O rosto pequeno e jovem de Gin – e, ainda assim, havia nele algo de extremamente idoso e conspurcado – contraiu-se novamente enquanto ele pensava, embora o sorriso não tivesse deixado os seus lábios nem por um instante. A expressão fazia-o parecer particularmente esperto e cruel, e talvez tenha sido por isso que a sua resposta deixou Aizen tão surpreso.
- Eu entendo por que as pessoas pensariam que Hiyori-chan não é bonita. Ela está sempre séria, e zangada, e nervosa, e ela bate em todo mundo. Mas hoje ela estava... Diferente. Eu acho...
Gin pausou, parecendo mais intrigado que pensativo, e por um instante o sorriso quase escapou de seu rosto, e Aizen viu a sombra de olhos cor de sangue. Então os olhos se cerraram com mais força do que nunca, e os lábios se alargaram no sorriso tão grande que parecia cortado a faca, de orelha a orelha.
- Eu acho que Hiyori-chan usa uma máscara, Aizen-sama.
Hiyori voltou no dia seguinte, os olhos espreitando de um lado para o outro como se esperasse que um atacante saltasse das sombras para arrancar seus olhos das órbitas e arrancar a pele que cobria seus ossos de passarinho. Aizen teve dificuldade para esconder o quanto aquilo o divertia e responder, com toda a seriedade:
- Ele ainda não voltou, Sarugaki-fukutaichou. Gostaria de deixar um recado?
Olhando com mais atenção, Aizen percebeu que Hiyori parecia não apenas tensa, mas também pálida e cansada, como se tivesse alguma doença. Sua postura estava um pouco menos firme e orgulhosa do que de costume, e ela parecia até mesmo ter perdido algum peso, mas a voz soou alta e teimosa como sempre quando ela respondeu rispidamente que preferia esperar. Seu reiatsu, geralmente tão teimoso e petulante quanto sua voz, no entanto, não mentia. Ele tremia e bruxuleava como uma vela antes de se apagar. E o suave volume do pacote escondido em suas vestes ainda estava ali, no mesmo lugar onde estivera um dia antes.
Dando as costas ao vice-capitão e rumando com passos duros para o mesmo quadrado ensolarado onde descansara no dia anterior, Hiyori deixou o corpo cansado despencar e pousou as mãos sobre o pequeno volume do pacote embrulhado em seda verde dentro de suas vestes. Ela sabia que aquilo era a culpa de sua fraqueza e exaustão, mas não conseguia se obrigar a levá-lo de volta para Kisuke e admitir que falhara numa missão tão simples. Ah, Hiyori sabia que não era culpa sua se Shinji não estava, mas se esse era o caso, então o seu dever era manter o pacote maldito sob seus cuidados até que ele aparecesse. Ela só esperava que isso acontecesse logo.
- Você não está tão bonita quanto ontem.
Hiyori levantou o rosto para encarar o garoto que pulara de dentro dos arbustos, a mesma carinha cinzenta, sorridente e estranha que a assustara no dia anterior – Ichimaru Gin, terceiro em comando, ele se apresentara, após ser jogado contra a parede e levar um chute na cara. O seu próprio rosto se franziu na habitual careta desdenhosa, mas Hiyori não conseguiu juntar energia para dar ao garoto a surra que ele merecia.
- Deixe-me em paz, moleque. Você não tem trabalho para fazer?
O sorriso se alargou, a careta se aprofundou.
- Tenho, mas prefiro olhar para você. Mesmo estando menos bonita que ontem.
Dessa vez Hiyori levantou-se, brandindo os punhos na direção do garoto.
- Pare de me importunar, moleque idiota. Você por acaso quer morrer?
O sorriso congelou-se, e por um instante Hiyori viu-se tomada por uma sensação de terror tão absoluta e paralisante quanto irracional.
- Não. Você quer, Hiyori-chan?
Ichimaru Gin aproximou-se lentamente, passo a passo, projetando sobre ela um reiatsu tão descomunal e esmagador que Hiyori merecia crédito por ter sido capaz de simplesmente gaguejar uma resposta.
- Não.
Ele estava próximo agora, tão próximo que Hiyori podia sentir sua respiração quente e úmida no rosto, e ela estava cansada, esmagada e paralisada numa mistura assoladora de fúria, impotência e medo.
- Então que tal você me deixar segurar um pouco esse pacote que você está carregando? Isso não parece estar lhe fazendo bem, Hiyori-chan. Você é forte, muito forte. A maioria das pessoas teria sido partida ao meio com a força do meu reiatsu. Mas todo mundo precisa descansar um pouco. Então eu vou segurar esse pacote para você, só um pouquinho, e aposto que logo, logo você vai se sentir muito melhor. Tudo bem?
Hiyori apenas encarou-o, incapaz de responder. Ele esperava e sussurrava coisas gentis num sorriso gentil, e por algum motivo ela não conseguia desconfiar dele do mesmo jeito como desconfiava de Aizen. Ah, ela sabia que ele era estranho e perigoso, e provavelmente não muito certo da cabeça, também, mas ainda assim...
- Não é tão fácil assim me partir ao meio.
- Mas aposto que eu conseguiria se quisesse, Hiyori-chan...
Mãos tão suaves e gentis quanto a voz que lhe falara deslizaram, escorregadias, por dentro das dobras do seu uniforme. Por um ou dois segundos, Hiyori sentiu o fantasma de um toque de dedos magros e gelados em seu estômago, mas logo depois as mãozinhas, pouco maiores que as suas, encontraram o pacote e trouxeram-no para a luz do sol.
Foi como se ela tivesse prendido o ar dentro de seus pulmões por um dia inteiro, e finalmente o soltasse, voltando a respirar normalmente. Energia correu pelas suas veias, tão rápida e elétrica que fez com que Hiyori se sentisse levemente tonta e pesada. Não era uma sensação completamente desagradável, no entanto, e ela ergueu o rosto para encarar o garoto, apenas um pouco mais alto, que observava o pequeno pacote com clara e aberta curiosidade. Ele encontrou seu olhar e alargou o sorriso.
- O que é isso?
- Não é da sua conta. Devolva-me.
- Não devolvo, não. Você precisa descansar um pouco mais, para ficar tão bonita quanto antes.
Ele era tão absurdamente idiota e insolente que Hiyori se viu sem palavras e sem ação por um instante. Ela estava acostumada a ser intimidante e assustadora para a maioria, e a receber ao menos a compreensão e respeito daqueles que não tinham realmente por que temê-la, gente como Shinji e Kisuke, fortes demais para sentir a ameaça de seu temperamento e seus punhos, mas com a capacidade de entendê-la e oferecer-lhe o espaço e a paz que de que ela precisava.
Aquele garoto, no entanto, era forte demais para ser intimidado – Hiyori ainda sentia a pressão esmagadora e sufocante de seu reiatsu, embora ele o tivesse suprimido novamente. E, aparentemente, Ichimaru não estava nem um pouco interessado em respeitar seu desejo por espaço. Naquilo, ao menos, ele era honesto.
Talvez ela devesse ser honesta, também.
- Minha missão é tomar conta desse pacote até que ele esteja nas mãos de Shinji, e você me atacou. Acha que vou conseguir descansar enquanto isso estiver em suas mãos?
Hiyori arrancou o pacote das mãos de Gin, que não ofereceu resistência, limitando-se a inclinar a cabeça, como uma delicada serpente avaliando sua presa. O fluxo de energia que entrara pelas veias da garota parou e deu meia volta, voltando a correr na direção contrária e fazendo-a perceber o quanto ainda estava cansada e exaurida. Ela cambaleou, suavemente, e não ficou inteiramente surpresa quando ele segurou seus dois braços com firmeza, impedindo-a de cair.
Ele era perfeitamente capaz de jogá-la no chão, também, ela sabia. Mas não foi isso que ele fez.
- Pobre Hiyori-chan. Você não se cansa de sempre tentar fazer a coisa certa?
E então, tão delicadamente quanto antes, as mãos do garoto deslizaram por suas vestes, dessa vez subindo pelos braços e ombros, parando por alguns instantes no colarinho do uniforme, uma mão escorregando por trás do seu pescoço, puxando-a delicadamente para frente, a outra levantando seu queixo apenas uns poucos centímetros e fazendo-a encontrar seus lábios.
Eles eram finos e quentes, bem mais quentes que as mãos magras e calejadas segurando-a com firmeza no lugar, não que ele precisasse fazer aquilo, ela estava suficientemente chocada – e indignada, furiosa, confusa, curiosa, ansiosa, estranhamente lisonjeada - para permanecer incapaz de se mexer até o fim do mundo. O coração dentro de seu peito batia como um tambor enfurecido, e ela tinha certeza de que Gin podia senti-lo, com seus peitos colados do jeito que estavam. Eles inteiros estavam colados, na verdade, e a impressão que ela teve foi a de que podia sentir cada centímetro do corpo dele, magro e rígido, cheio de uma graça calma e predatória, enquanto aqueles lábios finos e mornos sugavam os seus delicadamente, puxando-os, provocando, brincando, e ele devia estar fazendo alguma coisa errada, porque ela nunca imaginou que um beijo fosse ser assim.
E então, tão de repente quanto começara, acabou. O calor dos lábios sobre os seus foi substituído por ar frio e limpo e a proximidade atordoante do corpo magro desapareceu. Hiyori abriu os olhos – quando eles se tinham fechado? – e, para a sua surpresa, não era a forma delicada de Gin, quase tão pequena quanto a dela, que estava diante de si.
Shinji – uma voz reverberou dentro dela, e subitamente parecia impossível respirar, tão impossível quanto se alguém tivesse fechado os dedos ao redor de seu pescoço e apertado com todas as forças. Havia uma pressão dentro dela, semelhante à sensação de quando Gin a atacara com seu reiatsu, mas muito, muito pior. Algo lhe dizia que ela nunca tinha visto Shinji tão furioso, mas a verdade era que Hiyori não conseguia vê-lo com clareza, como se algo estivesse distraindo e confundindo seus sentidos. A expressão dele, no entanto, parecia a mesma de sempre, séria e calma e ligeiramente jocosa, simples e belo como Shinji sempre seria para ela. E ela... Hiyori nunca tinha traído alguém, e não fazia sentido pensar que aquilo fosse uma traição, mas era aquilo que ela sentia, que tinha feito algo errado e vergonhoso e que Shinji nunca, jamais, em hipótese alguma, seria capaz de perdoá-la.
E então a sensação passou, e ela se sentiu sacudida por uma onda de raiva e indignação. Quem era Gin para fazer o que fizera, e quem era Shinji para interrompê-lo e fazê-la se sentir errada, suja e culpada daquele jeito? E quem era ela, pelos deuses, para se permitir ser tratada daquele jeito?
A primeira coisa que Hiyori fez foi enfiar a sandália na cara de Shinji, derrubando-o no chão com a maestria adquirida após décadas de prática, e jogando o pacote embrulhado em seda verde no seu colo.
- Você demorou, idiota. Kisuke me pediu para entregar-lhe isso.
Livre do objeto, Hiyori sentiu sua força retornar com a raiva e violência que lhe eram tão familiares, aproximando-se passo a passo, lentamente, de Gin, que esperava com algo entre calma curiosidade e cuidadoso temor atrás de Shinji. Ele ainda sorria, no entanto, e Hiyori sorriu também, um esgar animalesco e um tanto assustador, tão predatório e maligno quanto a natureza mal escondida do garoto. Quando ela finalmente parou, tão próxima que podia ver sua respiração fazendo as pontas do cabelo prateado de Gin oscilar para frente e para trás, ele parecia estar esperando uma surra de magnitudes apocalípticas.
Hiyori detestava desapontar.
- Vamos ver quem vai ser partido ao meio agora, seu moleque atrevido.
A noite estava calma e agradável. Em seus aposentos, Aizen encarava com curiosidade velada o garoto sentado diante dele. Ele não estava segurando uma xícara de chá, no entanto, pois sua mão direita tinha sido enfaixada, assim como todo o braço, até o ombro. A outra estava no chão, ajudando-o a se manter firme, impedindo-o de despencar feito uma fruta madura. Sua postura estava diferente também, o que era compreensível, com duas costelas quebradas e todos aqueles hematomas. O pior dano, no entanto, tinha sido feito ao rosto do garoto. Bem, pelo menos ele estava acostumado a andar de olhos fechados. Seria realmente difícil abri-los, inchados do jeito que estavam, pelos próximos dias. O mais doloroso para Gin, no entanto, deviam ser os lábios. Os dentes quebrados estavam crescendo de volta, graças ao esforço de Unohana, mas até os poderes dela tinham limites, e com todos aqueles cortes e hematomas, era impossível para o garoto sorrir. Devia ser terrível para ele, e Aizen tinha certeza de que Hiyori tinha feito de propósito. Se aquele era o caso, a garota era realmente de uma crueldade inimaginável. Quanto à sua força, bem, aquilo estava fora de questão. Não era qualquer um que conseguia fazer aquilo com Gin, embora Aizen acreditasse que, se o garoto tivesse reagido, o resultado teria sido diferente.
E aquilo, de fato, era o mais intrigante. Gin não reagira. Apesar do seu admirável instinto de preservação e sua natural tendência à crueldade e violência, Gin nada fizera enquanto a garota, usando apenas aquelas mãos ridiculamente minúsculas, quebrava cada osso de seu corpo.
Aizen se perguntou, pela primeira vez, se tinha escolhido a pessoa certa para servi-lo como seu vice-capitão. Ah, Hiyori o tinha intrigado e interessado no começo, mas ele sempre acreditara que ela era ligada demais à falsa moral do Gotei 13 em geral, e a Shinji em particular, para tornar-se uma seguidora minimamente confiável. Agora, no entanto...
Ele nunca tinha pensado que poderia atrair Hiyori para a sua órbita, e através dela, a arma que o protegeria tanto da possível traição de Gin quanto da inevitável fúria de Shinji, quando os planos de Aizen viessem à tona.
Um gemido combalido trouxe sua atenção de volta ao presente, e Aizen encarou o garoto destroçado com uma razoável dose de compaixão. Ele gostava de Gin, de certa forma, do jeito como se gosta de um cachorrinho de estimação surpreendentemente eficiente que lhe faz companhia e obedece às suas ordens, mas que poderia muito bem abandoná-lo por alguém que lhe oferecesse um osso maior.
- Por que você não lutou de volta? Tenho certeza de que é forte o suficiente para dominar Sarugaki-fukutaichou.
Os músculos do rosto do garoto se torceram dolorosamente, no que Aizen identificou como uma tentativa de sorriso.
- Eu estava zangado, Aizen-sama. Se tivesse começado a lutar contra Hiyori-chan, provavelmente não conseguiria parar, e então ela seria destruída. E eu sei que você não quer isso, quer, Aizen-sama?
Aizen pensou na força de Hiyori, na sua raiva, na sua crueldade. Acima de tudo, ele pensou na sua influência sobre Hirako Shinji e Ichimaru Gin. Na influência que ela deveria ter também sobre Urahara Kisuke, sobre Kirio Hikifune. Hiyori podia não ser a pessoa mais poderosa que ele já vira, mas certamente estava ligada a um número surpreendente de pessoas que poderiam se revelar verdadeiros obstáculos no caminho de Aizen rumo ao poder.
- Não, acho que não.
Dessa vez o garoto conseguiu sorrir, embora o gesto fosse ainda mais perturbador, considerando a sua boca desdentada.
- Eu também não, Aizen-sama. Hiyori é bonita quando está descansando. Mas ela é ainda mais bonita depois de ser beijada.
No telhado do laboratório da Décima Segunda Divisão, duas sombras muito silenciosas aproveitavam a quietude e o ar fresco e limpo da noite. Hiyori observava a lua deitada, as mãos cruzadas atrás da cabeça servindo-lhe de travesseiro e os pensamentos rodeando, ligeiramente perdidos, imagens de garotos sorridentes de cabelo prateado e homens calmos e sérios, ligeiramente jocosos, que lhe pareceriam para sempre simples e belos. Kisuke, por sua vez, observava Hiyori, sentado e com os cotovelos pousados sobre os joelhos.
- Pare de olhar para mim, idiota.
- Desculpe. Estou aliviado por você estar bem. Foi uma missão perigosa.
Hiyori ergueu o corpo ligeiramente, apoiando-se sobre os cotovelos ossudos e encarando seu capitão com incredulidade.
- Está louco? Eu fiz o que qualquer moleque de recados poderia ter feito.
- Mas não foi tão fácil assim, foi? Shinji não estava, e você passou mais de um dia com o pacote. E isso não te fez bem.
Hiyori deu de ombros.
- Pode me compensar com um aumento, se quiser.
- Um aumento? Eu deveria é descontar o seu salário. Você sabia que Unohana fez a Décima Segunda Divisão pagar pelo tratamento de Ichimaru Gin? Como se o nosso orçamento já não fosse apertado demais para tudo o que fazemos por aqui.
- Você não teria problemas com o orçamento se não gastasse todo o dinheiro nesses seus brinquedos malucos e ilegais.
- Não machuque meus sentimentos, Hiyori-san, eu tenho muito orgulho dos meus brinquedos.
- Bem, você devia se livrar desse. Ele é realmente perigoso.
- Não se preocupe, já pensei num jeito de controlá-lo melhor.
- Não estou falando disso. Ele tem outros poderes, não tem?
Kisuke franziu a testa, tentando entender aonde Hiyori queria chegar, embora fosse difícil decifrar sua expressão agora que ela tinha virado o rosto de volta para a lua. Obviamente, ela desconfiava de que ele tinha dado algum outro poder ao seu brinquedo, sem avisá-la. Era o tipo de coisa, Kisuke tinha que admitir, que ele seria bem capaz de fazer, embora não tivesse feito, pelo menos não dessa vez. Ah, o cientista sabia que Hiyori desconfiava dele, e ela estava certa em fazê-lo. Ainda assim, magoava um pouco. A verdade era, bem, que ele gostava da sua vice-capitã. Ela era um pesadelo, claro, mas era também honesta, e forte, e simplesmente... Pura. E não havia como não gostar de algo tão bom, do qual ele próprio era tão irreversivelmente desprovido.
E ele estava feliz porque a inocência corrupta e selvagem de Hiyori tinha sobrevivido às adversidades de mais um dia.
- Não foi a minha invenção que fez Ichimaru Gin te achar bonita, Hiyori-san.
A surpresa foi tão forte que Hiyori quase caiu do telhado. Ele segurou um de seus pulsos fininhos e delicados e puxou-a de volta para o seu lado, sorrindo abertamente enquanto um violento tom rosado coloria seu rosto sardento, o brilho prateado da lua fazendo seus cabelos dourados brilhar como um halo angelical na noite escura. Não, Hiyori não precisava de invenções malucas para parecer bela. Claro, ela não tinha nem de longe o esplendor felino e sensual de Yoruichi, mas Kisuke não podia deixar de pensar que, com seus olhos magnificamente complexos, as sardas pontilhando o adorável nariz arrebitado e a massa rebelde de cabelos dourados caindo sobre seus ombros delicados, ela era a garota mais bonita do mundo. Aquilo era, ele imaginava, mais ou menos o que pais deviam sentir pelas suas filhas. Kisuke se perguntava se todos os pais sentiam tanta vontade de bater nos garotos que beijavam suas filhas quanto ele sentia de bater em Ichimaru Gin. Se bem que, pelo relatório de Unohana, o garoto tinha apanhado o suficiente para compensar por dez beijos roubados de filhas queridas.
- Você está pensando em bobagem, não está? Pare de pensar em bobagem, seu idiota.
- Estou pensando se você gostou do seu primeiro beijo.
Kisuke não pôde deixar de rir dos protestos inflamados de Hiyori, nem mesmo quando ela conseguiu atravessar as suas defesas – sinceramente, ela estava ficando boa demais naquilo – e acertar um soco certeiro no seu nariz. Nem quando o soco seguinte atingiu o seu olho, ou quando o chute acertou sua canela em cheio, e ele acabou rolando pelo telhado e caindo bem em cima de um arbusto espinhoso. Bem, aí ele parou de rir.
- Hiyori-san, me ajuuuuuude.
Do alto do telhado, Hiyori cruzou os braços sobre o peito, vitoriosa e indomável.
- Sofra, velho pervertido.
Kisuke teve tempo apenas de soltar mais um gemido antes de Hiyori desaparecer na noite escura. E talvez ele estivesse delirando por causa da dor, mas parecia que ela desaparecera na direção da Quinta Divisão.
Ele devia estar delirando.
Mas ele não estava delirando. Hiyori tinha, de fato, desaparecido na direção da Quinta Divisão, e o motivo era muito simples. Kisuke, afinal, não era o único velho na vida de Hiyori, e nem mesmo o único velho pervertido, infelizmente. Havia outro, e a garota tinha a impressão de que ela lhe devia uma visita e uma explicação. Ou talvez ela simplesmente estivesse, de fato, cansada de fazer sempre a coisa certa.
Ela conhecia o caminho tão bem que poderia segui-lo vendada, surda, muda ou rastejando em seus minutos finais de vida, se necessário fosse. Felizmente, aquele não era o caso, e Hiyori chegou rapidamente à porta do quarto onde Hirako Shinji passava suas noites.
Normalmente, ela teria simplesmente chutado a porta até ela se abrir ou cair destroçada no chão, o que acontecesse primeiro. Aquelas, no entanto, ela tinha que admitir, eram circunstâncias especiais. Cuidadosamente, um tanto incomodada com a estranheza do gesto e com a proximidade dos quartos do vice-capitão e do terceiro em comando da Quinta Divisão, Hiyori bateu à porta, uma, duas, três vezes. Através das finas paredes de papel de arroz, ela ouviu os sons de um corpo se livrando de cobertores e passos no chão de madeira. A porta de arrastou então, num gesto rápido e resoluto. Hiyori notou, com uma dor estranha e surda mergulhando em suas entranhas, que Shinji não estivera adormecido, como devia estar àquela hora, e que ele não estava olhando para ela, como devia fazer, como sempre fazia.
- Você errou de porta. O quarto ao qual você deve estar interessada em fazer uma visita noturna é o próximo à esquerda. Boa noite.
Shinji fez menção de fechar a porta, mas Hiyori simplesmente empurrou-o e entrou no quarto familiar e escuro, iluminado apenas pela lua que entrava pela janela aberta. O cheiro de Shinji, entranhado nos lençóis, nas paredes, no chão e em cada objeto daquele quarto, assaltou os seus sentidos, e ela precisou de um milésimo de segundo para se recuperar antes de girar sobre os calcanhares e encará-lo. Ele tinha se virado também, e fechado a porta atrás de si, mas continuava sem olhar para ela.
- Não estou interessada em visita noturna nenhuma. Só vim aqui para te dizer uma coisa.
- Se você quer a minha permissão para se relacionar com o garoto, pode esquecer. Não me importo com o que você faz, mas preciso do meu terceiro em comando inteiro, e isso vai ser difícil se ele começar a andar com você.
Ele estava sendo um idiota completo, e era melhor que mais tarde, quando a raiva passasse, ele apreciasse o fato de que ela conseguira juntar calma suficiente para não surrá-lo até a morte como a maldita prova de amor que era.
- Não preciso da sua permissão para nada, seu imbecil. Se eu quisesse me relacionar com aquele moleque idiota, eu me relacionaria, e você não teria nada a ver com isso. Mas acontece que eu não quero.
Ela cruzou os braços sobre o peito, uma expressão de estranha contrariedade em seu rosto, e Shinji levantou o seu para encará-la pela primeira vez desde o momento em que a arrancara dos braços de seu precioso terceiro em comando para encarar a desorientação inebriada de seus olhos e os seus lábios inchados, vermelhos e brilhantes como a mais tentadora das frutas.
- Não era o que parecia hoje de manhã.
Quando tudo aquilo passasse, ela ia bater tanto em Shinji que seria preciso arranjar um novo capitão para a Quinta Divisão.
- Você acha que eu gostei de ser beijada por Ichimaru? Ichimaru, Shinji?
Ele engoliu em seco, mordendo o lábio inferior, o cabelo caindo ao seu redor numa cortina sedosa e dourada estupidamente perfeita. Era realmente injusto que ele conseguisse ficar com o cabelo assim mesmo depois de horas rolando entre os lençóis, sem conseguir dormir porque ela lhe tirara o sono.
- Sim, é exatamente o que eu acho.
A voz dele soou dura e ressentida, tão estupidamente infantil que ela deu um passo à frente para socá-lo antes de conseguir se controlar. Mas ela conseguiu, e engoliu a raiva, e encontrou alguma coisa dentro de si que a fez olhar bem nos olhos de Shinji, com honestidade e vulnerabilidade suficientes para desarmá-lo por um segundo.
- Sabe de uma coisa? Kisuke disse a mesma coisa hoje à noite.
- Não quero saber o que você anda fazendo com Urahara, além de Ichimaru.
- Idiota, pare de falar bobagens, você vai se arrepender disso quando a sua raiva passar. E pare de me interromper, ou vou bater tanto em você que a surra de Ichimaru vai parecer um carinho de mãe.
Shinji cruzou os braços, uma expressão petulante em seu rosto tão obviamente roubada dela que Hiyori quase sorriu. Depois, ela se lembrou do que tinha a dizer, e o sorriso morreu, substituído por uma careta contrariada e um calor profundo subindo furtivamente pelo seu rosto.
- Kisuke me perguntou se eu gostei do meu primeiro beijo. Ouviu bem o que eu disse? Meu primeiro beijo. Meu primeiro beijo foi com Ichimaru Gin. Bem, dane-se, essa coisa de se importar com primeiro beijo é para garotinhas românticas e imbecis. E bem, sim, eu meio que gostei. Quero dizer, fez cócegas, e as mãos dele eram frias, e eu realmente não queria beijar Ichimaru Gin, mas há coisas piores.
- Se é isso que você tem a dizer, mais uma vez, você errou de porta.
Dessa vez Hiyori enfiou a sandália na cara de Shinji, porque sim, ela meio que gostava dele – mais do que de Ichimaru Gin, pelo menos – e sim, ela gostaria de fazer as coisas direito pelo menos daquela vez, mas ela não era santa e Shinji estava sendo um idiota, e ele se precisava de uma sandália na cara para ficar quieto e ouvi-la, então ele ganharia uma sandália na cara, diabos.
- Quer calar a boca e me ouvir? O que eu quero dizer, de verdade, é que... É que apesar de não ter sido totalmente horrível, eu tive, o tempo todo, a impressão de que ele estava fazendo alguma coisa errada. Porque a sensação foi... Bem, eu não sei como deveria ser um beijo, mas eu não acho que deveria ser como foi, Shinji.
Shinji a encarou, um tanto aturdido, olhos piscando muito rapidamente e uma expressão curiosamente incrédula em seu rosto.
- Você veio aqui para dizer que meu terceiro em comando beija mal? Hiyori, eu não tenho nada a ver com isso. Não sei o que anda acontecendo na sua Divisão com aquele maluco pervertido do Urahara, mas a técnica do beijo certamente não é algo que esteja incluído no currículo que ensinamos aqui na Quinta Div...
E então os punhos de Hiyori estavam fechados sobre o colarinho das roupas de Shinji, fazendo-o abaixar-se com uma força brutal, e todo o peso dela estava apoiado nas pontas de seus pés, e no meio do caminho seus lábios se encontraram.
Beijar Hirako Shinji não foi nem um pouco como beijar Ichimaru Gin.
Ela fora capaz de descrever o beijo de Ichimaru. Cócegas e mãos frias, lábios finos brincando com os seus e a surpresa fazendo seu coração dar um salto e ficar preso na garganta, batendo com a força de mil trovões. Mas se alguém lhe perguntasse como fora beijar Shinji – como Kisuke provavelmente perguntaria, porque Kisuke descobriria inevitavelmente e perguntaria ainda mais inevitavelmente, incapaz de resistir à tentação de torturá-la – ela simplesmente... Não haveria palavras para descrever, porque nada que ela pudesse dizer chegaria sequer perto da realidade.
Ela poderia dizer, talvez, que seu coração não se limitara a pular ou bater como mil trovões, porque ele virara de fato o trovão, um único e infinito trovão ressoando dentro dela com força suficiente para matá-la. Ela poderia dizer que não houvera cócegas, apenas uma onda descomunal afundando-a e trazendo de volta à tona, e de volta às profundas do mar e à superfície novamente, um ciclo de ir e vir que era mais natural do que a própria morte em que eles viviam. E havia outras coisas mais fáceis de dizer, como que depois de alguns segundos eles descobriram como lidar com a diferença de altura ou o modo como o nariz dele ou os cabelos dela se enfiavam no caminho o tempo todo, ou que as mãos de Shinji não ficaram em seu pescoço e seu queixo, porque ele jamais seria capaz de sequer tentar prendê-la, mas que ele certamente fizera de tudo para memorizá-la inteira com mãos que eram quentes e grandes, tão firmes e poderosas quanto pareciam, e dotadas da capacidade única de com um único toque tirar algo de dentro dela que não tinha nome nem explicação, como se todas as suas preocupações de dissolvessem e não houvesse regras no mundo, e tudo o que existisse fosse ele e ela, e a dolorosa loucura de estar em seus braços. E ela não diria nunca, nem sob tortura, que suas próprias mãos tinham explorado e vagado com ainda mais ousadia que as de Shinji, sentindo pele e pêlos e ossos e músculos com uma ousadia que era tão embaraçosa quanto desconhecida, desatando o nó que fechava suas roupas de dormir e fazendo com insuspeitado instinto a roupa deslizar por ombros largos e fortes, escorregar pelos músculos suaves de seus braços e cair no chão como uma poça d'água.
E então ele se afastara, com um suspiro trêmulo e um grunhido que parecia profundamente doloroso, quando as mãos dela tocaram o cós de suas calças, que só não tinham caído junto com o resto das roupas porque eles não estavam mais de pé, e sim meio sentados, meio deitados, no futon onde Shinji passara tantas horas se revirando e remoendo, pensando no amor secreto de Sarugaki Hiyori e seu terceiro em comando. O que era completamente absurdo, ele admitia agora.
Absurda, também, era a sua posição, praticamente nu no seu futon, suado, ofegante, pulsando dolorosamente de desejo e com os cabelos irreparavelmente desalinhados, com a vice-capitã de Kisuke Urahara, que tivera seu primeiro beijo naquele dia, montada sobre as suas pernas, cabelos soltos numa desordem selvagem, olhos enevoados numa ânsia confusa, rubor espalhando-se violentamente do seu colo delicado até as pontas de suas orelhas, e o uniforme externo jogado a metros dali, apenas a yukata branca interna, completamente descomposta, protegendo os restos de sua precária e inocente modéstia de garota.
E ela só viera ali para ter o seu segundo – não, dane-se, primeiro, Ichimaru Gin simplesmente não contava – beijo.
Com mais um grunhido doloroso, e afogando internamente os protestos da voz que vinha das regiões mais baixas do seu corpo, Shinji afastou Hiyori cuidadosamente de si, deitando-a ao seu lado. Ela aceitou tudo silenciosamente, provavelmente entendendo também que eles tinham ido longe demais, desviando seus olhos tumultuados dos dele e fechando a yukata branca para fazer desaparecer o excesso de pele exposta em seu colo. Ele procurou suas próprias roupas, mas as pequenas mãos de Hiyori pousaram sobre as suas, e seu rosto estava levantado de novo com um ar admiravelmente decidido.
- Você se importa? Eu sei que... Eu vou me comportar, juro, mas eu quero sentir você.
Shinji sentiu, mortificado, um calor violento cobrir seu rosto. Claro, dava pra imaginar que Hiyori seria o tipo de garota capaz de deixar um homem de centenas de anos de idade envergonhado como um garotinho de treze anos ao ser pego no seu quarto com figuras eróticas. Fingindo que estava escuro demais para Hiyori ver seu rosto, Shinji se acomodou ao lado dela, trazendo-a pra junto do peito e beijando sua cabeça dourada.
- Você, se comportar? Por favor, como se eu acreditasse que um macaco demoníaco como você fosse capaz de um segundo de bom comportamento.
- Você parece gostar bastante de mim, considerando que eu sou um maçado demoníaco. Idiota.
- Cale a boca e durma, sua criatura infernal.
Pela primeira vez na vida, Hiyori pareceu realmente aceitar um conselho, ajustando-se melhor à posição e pousando a cabeça sobre o ombro de Shinji, uma das mãos acariciando distraidamente a trilha de pêlos macios e dourados que levava às calças dele.
- Ei, Shinji.
Ou não.
- O que foi, garota dos infernos?
- Você pode dizer que só parou porque está sendo nobre e fazendo a coisa certa, mas sabe o que eu acho? Você só está com vergonha de eu descobrir que você é realmente careca.
Ele tentou agarrá-la, mas Hiyori foi mais rápida, pulando para fora do seu alcance. O movimento fez a yukata mal amarrada exibir uma considerável quantidade de pele, mas a garota ignorou tranqüilamente o acontecimento, rindo diabolicamente enquanto enfiava o uniforme amarrotado e dava o fora do seu quarto, deixando para trás um Shinji completamente sozinho e desconsolado. Bem, ele supunha que ela não podia passar a noite ali mesmo, ou Kisuke notaria alguma coisa e os infernizaria até o fim dos tempos. E era melhor que ela fosse embora mesmo, ou ele não conseguiria dormir nem por um único segundo.
Shinji acomodou-se melhor entre os lençóis que ainda tinham o cheiro e o calor de Hiyori. Bem, não havia por que ficar chateado. Pensando bem, as coisas tinham acontecido do melhor jeito possível.
Além disso, aquelas paredes de papel de arroz eram realmente finas, e Hiyori não era a mais silenciosa das garotas. Shinji esperava que Ichimaru tivesse ouvido tudo.
N.A:
Algumas coisas a respeito desse conto
- Ele é longo pra caramba, eu sei. Fazer o quê?
- Eu não tenho religião e, portanto, sinto-me plenamente livre para brincar com a idéia de Shinji e Hiyori perdendo a inocência no Jardim do Éden que é o Seireitei graças à influência da adorável serpente Ichimaru Gin. Se algum de meus adoráveis leitores, no entanto, é de fato religioso, saiba que minha intenção não é de maneira alguma ofender.
- Estou feliz com essa história. Ela tem minhas pessoas mais favoritas do mundo todo em Bleach – Hiyori, Shinji, Kisuke, Gin, Aizen. E ainda aparições brinde de Mayuri e Akon, embora não consiga imaginar alguém que goste deles. Além disso, eu adoro fazer o Shinji e a Hiyori darem uns amassos, embora raramente encontre um jeito de fazer isso sem que a coisa toda pareça forçada e mal caracterizada. Acho que consegui fazer tudo direitinho dessa vez, mas adoraria saber a opinião de vocês. Gostaria de saber o que acharam também da caracterização do Ichimaru. Eu o amo, amo, amo de paixão, mas nunca tentei escrevê-lo, e não sei se saiu bom. O que acham?
- Ainda em relação à caracterização do Gin – obviamente, ele não está perdidamente apaixonado por Hiyori, nem nada assim. É apenas o Gin. Ele gosta de observar pessoas, e provavelmente pararia para observar Hiyori se a visse dormindo um dia no meio da Quinta Divisão. Ele provavelmente se divertiria com o temperamento dela, e gostaria de provocá-la. Ele é maluco o suficiente para isso. Além disso, acho que o Ichimaru poderia, de fato, de interessar pela máscara que eu acredito que Hiyori usa. E que a maluquice bizarra de Gin poderia ser suficiente para desarmar Hiyori momentaneamente. Além disso, eu adoro fazer o Shinji sofrer com ciúmes. Sim, eu sou má.
- A idéia para essa história surgiu, mesmo, de uma conversa minha com uma amiga sobre "o primeiro beijo". Eu gosto de emprestar minhas opiniões às personagens das minhas histórias e, de fato, acredito sinceramente que o primeiro beijo não é tão importante assim, mas se fosse, não contaria se não fosse com alguém de quem você realmente gostasse. Porque claro, beijar é legal. Meio tipo frango. Agora beijar alguém de quem você realmente gosta... Oh, man. Enfim, minha amiga não ficou convencida, talvez porque eu não me lembre tão bem assim do meu primeiro beijo. Ele foi há tempo pra caramba. Eu sou velha, afinal de contas. Mas enfim, e vocês? Convencidos?
Reviews, please, e saudações!
