Descalça, animada e exausta. Três palavras que descreviam Naomi enquanto fugia rapidamente. Eram muitos prédios abandonados, não tinha uma noção por onde começava a cidade. Ser livre, mesmo daquele jeito, era tudo para ela. Ela estava certa que nunca mais veria aquela gente de novo. E se precisasse mudar de vida, de aparência, para passar despercebida por eles, ela faria de tudo com toda certeza. Mas um deles... apetecia-lhe ver novamente.
Em seu profundo inconsciente, a imagem daquele homem estava encravada. Hisoka não saía de sua cabeça. Segundo Shizuko, ele foi um dos que estavam responsáveis pela captura dela. Mas, assim como ela, o ruivo também estava cumprindo ordens. Não haviam raptado-a por intenções pessoais, mas se visse novamente aquela jovem, eles iriam raptá-la propositalmente. Isso, Naomi não queria que acontecesse, e sabia que nunca mais poderia ver aquele homem de novo. Foi o único com quem Naomi pode falar normalmente. Mas não era só isso que a atraía. Ela sabia que ele havia lhe chamado a atenção inconscientemente, inicialmente. Mas era melhor esquecê-lo, antes que seus pensamentos atraíssem aquele grupo até ela.
Agora, havia chegado em um lugar deserto.
- Nossa... para onde fica a cidade? Estou perdida! – Naomi exclamou, com as mãos na cabeça.
Naomi continuou caminhando, já não corria mais, contudo estava sempre olhando para trás. Nenhum sinal deles. Parecia que tudo estava bem. Desde quando York Shin tinha daqueles desertos? Viu uma estrada. E seguiu para lá correndo, finalmente encontrando uma "brecha" para a cidade.
...
No esconderijo, todos estavam quietos, esperando o retorno. Hisoka não poderia sair dali, embora estivesse com vontade disso. Talvez ele a encontrasse logo, imaginou que ela seguiria em direção à estrada principal que leva ao centro da cidade. Mas ''eles'' são rápidos, poderão capturá-la logo. Mas ele queria por conta própria conseguir acha-la, pegá-la novamente como a pegou pela primeira vez. Só que seria diferente. Na primeira vez que a viu, nem havia reparado nela como no dia em que Danchou apresentou a criatura. Hisoka sentia que ela era uma pessoa esperta e vivaz, coisa que sua aparência juvenil e frágil escondia. Aquela figura de boneca escondia uma mulher, mas não uma simples mulher. Do nada, Hisoka tinha desejos mesclados em relação à Naomi, um deles era corrompê-la. Desejos de domínio e de destruição, sem tirar-lhe a vida ainda. Queria tê-la, em suas mãos... mas ela ainda não era seu objeto. Era do Ryodan. Ele só esperava que fosse o único a possuir tais desejos, pois não gostava de compartilhar seus ''brinquedos'' com os outros.
- Já são quase seis horas... – Bonolenov falou para Kurotopi.
- Eles ainda não voltaram... – comentou o baixinho de longos cabelos prateados.
- Será que já a capturaram e estão dando o tratamento de sempre?
- Não sei... mas agora, acredito que Kuroro não a trate mais com paciência. Sabemos o quão irritado fica Danchou quando alguém lhe engana ou trai.
- Vai ser um prazer em torturar aquela carne fresca... – disse Feitan, se intrometendo na conversa.
- Isso, se Danchou permitir que faça isso... – Kurotopi alertou.
- Vai sim, antes mesmo ele já havia pedido para interrogá-la junto a ele, não se lembra? Só que ela confessou tudo logo e não deu nem tempo de arrancar aquelas unhas vermelhas... – disse levemente frustrado.
Hisoka estava distante dos que conversavam, mas já imaginava o que eles deviam estar falando: na captura e tortura dela.
Chegaram os outros, menos Kuroro. Todos se levantaram, querendo saber novidades.
- A diabinha fugiu mesmo! – Ubo voltou, mas não parecia nervoso. E sim ridicularmente incrédulo.
- Não conseguimos localizá-la! – Machi disse, sentando-se em um dos bancos quebrados que existiam no lugar.
- Incrível, é a primeira vez que falhamos em uma captura...
Os outros olharam incrédulos.
- E Danchou? – perguntou Feitan para Machi.
- Vai direto para a cidade, vai arrumar uma emboscada. Ele parece frustrado...
- É claro! – ressaltou Ubogin – Ser passado para trás por uma pirralha como aquela! Até eu estou me sentindo assim!
- Fomos todos nós passados para trás! – Kurotopi completou.
- Agradeça a Shizuko... – Feitan disse, olhando para a garota que abaixou a cabeça imediatamente e ficou assim.
Hisoka saiu do sue canto e foi até eles.
- Nesse caso, vocês não terão tarefa nenhum nesses dias? Eu devo ir por uns dias...
- Não, Hisoka! Danchou não vai querer que você suma de novo! – Machi o repreendeu.
- hmm... e você também não quer que eu suma de novo, não é? – disse o ruivo, de forma saliente.
- Estou falando sério!
- Tem razão, você quando desaparece, some mesmo! – Ubo disse, jogando propositalmente a mão pesada no ombro de Hisoka, porém o ruivo não reclamou e nem sentiu nada .
- Mas eu sempre volto, e jamais contesto as ordens de Danchou. Ou faço isso? – disse com um sorriso moleque no rosto.
Sem jeito, Ubo tirou a mão do ombro dele, que estava intato.
- Preciso resolver outras coisas...
- Hisoka... será que você vai querer buscar a garota por conta própria? – perguntou a kunoichi.
- Por que me pergunta isso? ...ciúmes?
- Não seja ridículo! Apenas não tome a tarefa que é do Danchou.
- Não estou nem aí, e acho um desperdício Danchou querer essa garota aqui... ele deveria pensar em caçar os outros nossos perseguidores que estão vivos...
- Danchou sabe o que faz, logo não saia criticando-o! – Feitan disse, seriamente.
- Não estou criticando... foi apenas uma opinião. Se quiserem, podem me seguir e verificar se estou falando a verdade.
Hisoka se retirou definitivamente do esconderijo, baralhando suas cartas em suas mãos. Ele disse que poderiam segui-lo, mas só para despistar suas reais intenções. Eles provavelmente não seguiriam, e o próprio perceberia que alguém do grupo o seguisse... principalmente aquela "bela baixinha nervosa". Assim era como se referia à Machi, para si mesmo. Depois de ser desqualificado da sua primeira tentativa de fazer o Exame Hunter, não esperava encontrar breve uma nova ''diversão''.
...
O pequeno apartamento onde Naomi vivia estava interditado pela polícia local, e na entrada do local, havia o famoso cartaz ''Procura-se'' referindo-se a Naomi. Não era em toda York Shin que estava esses cartazes, apenas ali. Naomi morava sozinha em um desses apartamentos, presente dos pais quando ela saiu de casa. Aos poucos, as contas também passaram a ser controlada por ela, desde que arranjou um emprego como escritora oficial de uma empresa de um famoso jornal de Yok Shin. Ela costumava escrever livros, mas tinha apenas duas obras. Com o pseudônimo de Claire Nuit – especialmente os iniciantes tinham pseudônimos -, ela começou sua carreira com um pequeno livro de romance apimentado, chamado "O Despertar da Vida Amorosa'', onde narrava as primeiras aventuras amorosas de uma adolescente, que se envolvera amorosamente e sexualmente com diversos tipos de homens. Parte dessa história ela contou as suas próprias experiências românticas, embora ela não tivesse tanta experiência e sequer a metade da luxuriosa vida de sua personagem.
Ainda longe de sua casa, Naomi andava pelas ruas parecendo uma mendiga, ou pior, uma vítima de um assalto seguido de estupro. Estava bem vestida, mas descalça - os pés dóiam-lhe intensamente - e com a roupa rasgada ao ombro. Dessa vez, Naomi não estava toda de preto. Usava uma blusa branca meio encardida, e uma calça jeans escura, levemente apertada nos quadris, o que piorava as dores no corpo. Queria tanto encontrar sua casa, mas fugiu de um jeito que nem ela pode se achar. Estava feliz, livre, nem as dores no corpo tiravam isso. Ao encontrar um gabinete policial, foi até ele e revelou apenas que havia sido sequestrada e tinha fugido. Um dos policiais conseguiu reconhecer a mulher bem vestida no cartaz do procura-se. Naomi teve que ir até a delegacia próxima, fazer registros e falar como ela estava assim. Disse apenas que foi sequestrada por um grupo de mais ou menos 13 pessoas, e que não sabia quem era. Não quis falar do Ryodan na hora, nem mesmo Naomi não entendia por que ela queria guardar isso. Com isso, foi levada até sua casa e se espantou com aquele cartaz, porém alegrava-se por dentro de uma forma imensurável.
Os policiais tiraram a interdição e a faixa de "Procura-se". Naomi pode finalmente entrar em sua amada casa. A sua vizinha do andar de baixo, uma senhorinha muito simpática, correu para o abraço, o que fez Naomi umedecer os olhos.
- Que saudades, minha escritorinha! – disse a velha grisalha, num abraço apertado que fazia seu corpo gordo espremer o corpo delineado de Naomi.
- Eu... também... senti saudades! – respondeu a outra, se sentindo tão confortável.
- Eu fiquei tão preocupada!
- Mas está tudo bem! O que importa é que tudo se resolveu! Eu apenas... preciso descansar!
- Não sem antes de lhe fazer uns curativos e fazer aquele caldo de arroz com shoyu que você ama!
- Ah... não quero dar trabalho... não precisa...
- Precisa sim! – cortou a velha, levando-a para seu lar, antes.
Naomi sentiu-se num verdadeiro spa. Nunca aquele caldo de arroz com shoyu – um de seus pratos favoritos que a vizinha fazia - lhe pareceu tão divino! Sem contar que ainda pode comer uns doces de chocolate. A vizinha deu-lhe as roupas da filha que teve para Naomi vestir. A jovem escritora sabia que essa vizinha tinha mais que uma amizade por ela. Tinha o afeto de mãe. A amizade entre as duas ajudou superar a morte da única filha.
A senhora convidou Naomi para passar a noite. Sabia que precisava de cuidados no momento, não estava podendo andar direito. Queria ligar tanto para o padrinho, depois falaria com os pais. Imaginou neles, longe da cidade por negócios, se ficaram sabendo de algo.
- Alguém da minha família esteve por aqui? – perguntou Naomi.
- Não, meu bem. Estranho, seu padrinho também não passou por aqui. Mas o que houve realmente para você ter sumido assim? Você foi realmente raptada?
- Na verdade só fui por causa do padrinho. Mas eles me trataram muito bem, acredita?
- Sério mesmo? – a velha contorceu a cara.
- Sim! Eu só fiquei assim porque fugi!
- Ah, nossa! – a outra abraçou Naomi.
- Está tudo bem!
- Mas foi arriscado... será que eles vão querer vingança?
- Não, meu padrinho vai oferecer a quantidade de dinheiro que eles querem, eles mesmos já sabem de tudo. Só fugi porque... senti uma falta da sua comida, que!... – Naomi enfatizou com um ar sorridente.
A vizinha sufocou-a de novo em um abraço farto. Depois de algum tempo de mais conversas, Naomi foi dormir. De noite, em sua cama depois de praticamente uma semana, ela chorava, mas de alívio. Mentiu muita coisa para a vizinha, para não preocupá-la. Esperando o sono, ela olhou para as próprias mãos. O esmalte vermelho já estava descascando, retratando como foi aquele período de seis dias: conturbado e curioso de se ver. Veio aquele homem em sua mente. No seu jeito único de se vestir, de falar, de olhar, de tratá-la. Na aparente beleza dele. Naquelas mãos fortes, de unhas levemente compridas e afiadas. Naquele professor de pôquer. No coringa. No seu coringa...
Aquela mesma mão fina, delicada e com as unhas relaxadas ainda tinha disposição para afagar as partes íntimas que somente ele pode ver naquele flagra na janela abandonada, até que o sono chegasse definitivamente...
