CAPÍTULO X

Ravena chegou ao Sanit Mungus em fraçőes de segundos. Andou por um corredor bem iluminado. Ao final havia um balcăo onde uma moça com vestes brancas e um ar eficiente atendia um casal de vestes escarlates. O homem gesticulava muito e năo falava uma palavra em inglęs, ao que Ravena prontamente começou a traduzir para a bruxa atrás do balcăo, que parecia no limiar de sua pacięncia. Após serem atendidos, agradeceram pela ajuda e saíram na direçăo que a bruxa de branco havia informado. Ela entăo se virou para Ravena e perguntou em que poderia ajudar, a menina perguntou onde ficava a ala das pessoas atingidas pela Maldiçăo Cruciatus.

– Quarto andar, senhorita - disse-lhe a jovem enfermeira. - Pegue o elevador no hall a esquerda, por favor.

– Obrigada - e dizendo isso, seguiu para a direçăo indicada por ela.

Em poucos minutos surgiu um hall com quatro portas douradas, quando se ouviu um leve tilintar de campainha, a porta a sua frente abriu e ela entrou. Ao chegar ao andar fez-se ouvir novamente um tilintar avisando a parada do elevador. Ravena saiu e a porta a sua frente indicava a entrada da enfermaria. Havia uma mesa ao canto, mas năo parecia ser utilizada. Começou a andar e entrou em um outro corredor com fileiras de boxes uns ao lado dos outros. Năo era propriamente o que tinha em mente sobre um hospital de bruxos, mas năo havia dúvidas de que viera ao lugar certo.

Pôs-se entăo a olhar todos os boxes, procurando qual seria o da senhora Belair. Olhou o primeiro, onde duas senhoras dedicavam-se a uma conversa acirrada sobre agulhas de tricô. Caminhando em frente revistou o segundo onde um senhor deitado com as măos cruzadas sobre o peito e olhos abertos, parecia estar morto, mas um leve piscar de seus olhos a fez relaxar e seguir adiante. Mais dois boxes ŕ frente e nada, vazios. Foi quando teve que escolher entre um corredor que seguia ŕ esquerda e outro ŕ direita. Decidiu-se pelo da esquerda e encontrou mais dois boxes vazios. Sua perna começou a tremer ligeiramente quando ela dirigiu-se para o terceiro. A cortina em volta desse box estava totalmente fechada. Ravena achou a extremidade do tecido e abriu uma pequena fresta para que pudesse ver seu interior. Havia pouca luminosidade lá dentro, mas suficiente para que um frio percorresse sua espinha ao ver uma figura de vestes negras debruçada sobre um corpo na cama bem ao centro. Ele estava de costas para ela, mas Ravena năo precisava ver seu rosto para que tivesse a certeza que encontrara o que viera procurar. Entrou em silęncio e aproximou-se da cadeira onde ele se encontrava, estava adormecido segurando uma das măos da tia entre as suas. A senhora, por sua vez, estava num sono profundo, os cabelos pareciam mais brancos e a tez bem pálida. Ravena tinha a impressăo que podiam soar gongos que ela năo despertaria, porém sua expressăo era serena.

Verificou que em cima da cabeceira havia vários frascos com algumas substâncias conhecidas e uma ediçăo do dia anterior do "Profeta Diário". Ela retirou sua capa verde escura e a colocou na cadeira vazia ŕ direita da cama. Aproximou-se dele, que estava com o rosto baixo apoiado na junçăo das măos, e carinhosamente passou sua măo entre os fios lisos de cabelo preto que caíam sobre seu rosto, fazendo com que pudesse ver-lhe a expressăo. Estava tăo serena como a da tia, mas ao leve toque dos seus dedos, Ravena percebeu que o deixara a ponto de despertar. Ele segurou-lhe a măo e a afagando disse "Ravie!", fazendo-a sorrir. Nunca o ouvira chamar-lhe assim, e essa mera referęncia ao seu nome fez com que revivesse todos os momentos que tinham passado juntos.

Instantes depois Snape acordou. Estreitou os olhos e uma sombra de dúvida iluminou-lhe o olhar. Parecia impossível que a figura a sua frente fosse quem imaginava, ergueu-se assombrado.

- Senhorita Brown?! - de repente, como se desse conta da realidade da visăo, mudou o tom de sua voz tornando-a mordaz. - O que faz aqui? Năo me lembro de tę-la chamado.

E mais do que depressa se virou em direçăo ŕ outra extremidade do box. Ravena năo se moveu, fitava-o e sua expressăo parecia cansada e triste. Desviou o olhar para a senhora Belair, ali deitada, e perguntou-se o quanto aquilo teria sido capaz de atingi-lo. Como a resposta dela tardou uma nova pergunta a fez voltar ŕ realidade.

– Vamos, senhorita, responda! - sua voz estava fria. - Quem a mandou vir?

– Vim visitar uma amiga, professor - e dirigindo-se para a cadeira que antes ele ocupara, disse. - Tenho permissăo para isso, senhor, me foi dada pelo diretor Dumbledore.

Snape estava de pé do outro lado da cama, mas bem a frente de Ravena, imóvel, com o rosto iluminado pela fraca luz que pendia do teto. Ao encarar novamente a garota, vislumbrou um sorriso, um lindo sorriso infantil. E andando na direçăo dela, a fez se levantar e abraçou-a num longo aperto. Um beijo era tudo o que ele desejara nas últimas horas dias, aos quais estivera ali ao lado da tia, e que se mortificara por todas a s palvaras que dissera ŕ Ravena. Ele a deixaria ir depois, a colocaria a salvo dele e de todos os outros. Mas quem ele tentava enganar? Nunca a deixaria ir! Năo de novo! E com medo de seus próprios pensamentos, deslizou seus lábios na direçăo dos dela e a beijou intensamente. E teve a certeza de que năo a deixaria partir. Ela se afastou e olhando-o maliciosamente, perguntou:

– Severo, vocę achou mesmo que conseguiria me manter longe?

– Sim - e falou tristemente para ela. - Eu precisava fazer isso. Viu ao que expus minha madrinha? Quase năo a visitava e olhe o que aconteceu! - virando-se para o leito onde a pobre senhora estava inerte. - Năo quero esse destino para vocę! - e sentou-se novamente na cadeira, passando as măos nervosamente pelos cabelos lisos que já estavam em desalinho. Ravena se abaixou ao lado dele e o abraçou, como se faz com uma criança que está perdida.

– Năo estou aqui por sua escolha - e encarando-o. - Estou porque escolhi estar com vocę. Năo importa a quem ou o que terei que enfrentar. O que importa é vocę... eu te amo! - e sorrindo timidamente acrescentou -, será que nunca percebeu isso, professor? Quer queira quer năo, estamos juntos.

– Vocę năo sabe o que está dizendo - mas a pegando nos braços novamente. - Está louca, mas eu amo essa sua loucura - e a beijou.

Ele sabia que nada que pudesse ser dito a levaria para longe dali, ou da sua vida. Ravena estava determinada a lutar pelo que queria, e isso significava: Snape. Por alguns momentos deixaram-se ficar ali, abraçados. Foi a voz da enfermeira que os trouxe a realidade do lugar onde estavam.

– Tenho que dar a poçăo dela, senhor - e indo ŕ cabeceira da doente pegou um dos fracos que lá estavam - Está na hora - ele assentiu e a mulher terminou seu trabalho. Ao sair, se virou para trás e em tom maternal falou ŕ Snape:

– Seria bom, senhor, que fosse descansar. Năo há mais nada que possa fazer aqui. Cuidaremos dela - e dizendo isso fechou as cortinas atrás de si. Severo estava em pé olhando a tia quando Ravena lhe perguntou:

– Năo há nada que possa ser feito? - e olhou para a senhora Belair. - Ela vai ficar assim para sempre?

– Năo há nada mais a fazer - e balançando a cabeça repetiu -, năo, mas eu ainda faço Belatriz pagar por isso!

– Foi... foi ela que fez isso, Severo? - e sua voz tremeu. - Foi mesmo Belatriz?

– Eu năo tenho dúvidas. Ela acha que traí o Lorde das Trevas, mas apesar de ter deixado de ser um Comensal, nunca delatei ninguém. Fui para Hogwarts com o consentimento do Lorde, ele sempre confiou no meu papel de espiăo, por isso fui útil. Vocę estava lá quando ela me acusou! Nunca precisei fazer isso para que Dumbledore acreditasse em mim, nunca!

Ravena o olhou intrigada, e ele sabia que a pergunta que mais temia viria e năo teria como fugir disso. Simplesmente esperou que ela falasse, năo pretendia esconder mais nada dela.

– O que vocę fez entăo para que ele nunca duvidasse da sua lealdade?

– Na realidade, Ravena - ele a encarou com seus olhos negros. - Fui eu quem ouviu a metade da profecia feita sobre Harry Potter. Vocę já ouviu falar sobre ela, năo é mesmo? Năo se fala em outra coisa depois que ele desapareceu.

– Sim, é claro - ela estava nervosa.

– A profecia, na realidade, năo se referia ŕ Potter nominalmente, mas sim a uma criança nascida numa determinada época, e de pais que por tręs vezes haviam atacado o Lorde das Trevas. Eu, como disse, năo a ouvi toda. Dumbledore me descobriu antes disso e me colocou para fora do bar. Logo depois me procurou e tivemos uma longa conversa - Snape tomou mais fôlego para continuar a narrativa e Ravena năo se atreveu a interromper. - Bom, há muito já estava descontente com as ordens do Lorde. Suas últimas missőes para os outros Comensais eram de matar e matar, quando ele mesmo năo o fazia. A sede de poder dele năo tinha limites, confesso ŕ vocę que me juntei a eles pelo poder - e baixando os olhos continuou -, năo me orgulho disso, mas tive uma infância muito dura, meus pais viviam brigando, minha măe era fraca, năo reagia aos insultos e outras atrocidades que meu pai desferia. Quando fui para Hogwarts era um bom aluno, mas aquela turma do Potter sempre me fazia de palhaço. Decidi provar que podia ter e controlar o que quisesse com o poder. O Lorde fez isso parecer tăo fácil... e eu estava cego de ódio de todos que me subestimaram.

Ravena o escutava atentamente. Seus olhos verdes pousados naquela figura negra, que percorria o box de um lado para o outro. Queria conhecę-lo melhor que ninguém e tinha certeza que estava penetrando num universo pessoal que talvez nem Dumbledore tivesse conseguido.

– Eu errei, Ravena - e olhou para ela afetuosamente. - Dumbledore me fez ver isso no dia em que foi atrás de mim, me pediu que năo revelasse o que ouvira da profecia, mas jáera tarde. Entăo, contei-lhe exatamente tudo o que escutara no bar e ele me acalmou. A parte que eu ouvira năo era tăo comprometedora, mas eu deveria escolher ŕ quem serviria a partir daquele momento e, caso fosse a ele, Dumbledore, eu teria que espionar o Lorde das Trevas até que ele atacasse a criança da profecia. Depois disso, Dumbledore me deu o cargo de professor de poçőes em Hogwarts. Tenho sido os olhos de Dumbledore junto ao Lorde e desde aquele dia do ataque aos Potter, Belatriz vem achando que eu os delatei e passei para o outro lado - e encarou-a -, o que năo deixa de ser uma verdade.

– Vocę é o responsável pela morte dos Potter? - estava aturdida - E por quase Voldemort ter matado Harry?

– Năo fale o nome dele assim, só Dumbledore diz essa palavra! - e segurou-a pelos braços. - Minha querida criança, năo! - olhou sério para Ravena, que odiava quando a chamava assim por motivos óbvios. Parecia que ele era muito mais velho quando só havia 5 anos de diferença entre eles. Snape năo passava dos vinte e dois anos. - Eu năo o levei a matar os Potter e nem a marcar Harry. Foi sua obsessăo em se livrar da profecia que o fez torná-la verdadeira. Dumbledore me falou que a profecia se referia a qualquer criança cujos pais tivessem lutado tręs vezes contra o Lorde das Trevas. Poderiam ter sido os Longbottom ou quaisquer outros pais. Havia uma guerra, como ainda há essa caça aos Comensais. Eu năo tive culpa e me expus a grande perigo para provar que era digno da confiança do diretor. Ele acredita em mim! - e pegando as măos de Ravena entre as suas, perguntou a ela: - e vocę, acredita? É tudo o que me importa nesse momento.

Ela o fitava com seus lindos olhos e depois de alguns segundos sorriu-lhe sorrateiramente.

– Sim, professor Snape - e beijou-lhe os lábios. - Mais do que nunca!

– Pensei que a perderia - e acariciou os cabelos dela. - Eu năo podia mentir mais para vocę.

– Eu entendo e acho ótimo que pense assim - e segurando-lhe as măos -, conte-me o resto. O que aconteceu com Vocę-Sabe-Quem?

– O Lorde das Trevas, apesar de me considerar seu preferido, năo me contou suas reais intençőes em relaçăo a profecia. Por isso năo pude avisar quando ele foi atacar os Potter. Năo sabia que ele tinha ido. Mas sofreu uma séria derrota ao atacar Harry. Lilian protegeu o menino com magia antiga, o amor dela pelo garoto o salvou da morte. Ela foi muito esperta. Era uma excelente bruxa, pena que tenha casado com Potter.

– Vocę gostava dela, năo? - disse-lhe ela friamente. - Só que ela escolheu o Tiago!

Ele a olhou impassível e encarando-a até deixá-la rosada, perguntou.

– Está com ciúmes, senhorita? - e sorriu. - Tem razăo, ela escolheu Tiago... sorte minha! - e sorriu para ela sugerindo:

– Vamos embora, Ravie? - e a fitou, um imenso sorriso aflorou nos lábios dela. - Está tarde e temos que voltar a Hogwarts.

– Sim, mas e sua tia? - ela olhou para a enferma. - O que faremos?

– Eu virei visitá-la quando puder - e inclinando-se sobre o rosto da madrinha beijou-lhe a testa. - Vocę passou no teste de aparatar, năo?

– Sim, mas năo podemos aparatar dentro da escola, năo é mesmo?

– Bom, dentro, năo, é verdade, mas nos portőes sim! Vamos! - e um zumbido ecoou dentro da cabeça de ambos.