Os dias tinham passado depressa e logo Frederick e Matheu estavam arrumando as malas para partir de volta para a França. Antes que eles fossem para o aeroporto, no entanto, Chantal os convidou a passar no colégio para cumprimentar o diretor. Os rapazes concordaram. Sempre gostaram do tio da ruiva, pai da loira. Então, como fizeram no primeiro dia, encontraram com as duas amigas no portão do colégio. De lá, foram direto para a sala do diretor.

Quem bateu na porta foi Aurore. Não demorou muito para que alguém desse permissão para entrarem. Ryuu fez como sempre, colocou a cabeça para dentro e esperou por uma nova permissão. Não demorou para o diretor largar tudo o que fazia e recebê-la com um grande sorriso no rosto.

- Trouxemos visitas, titio. – Ayame sorria mais alegremente do que o normal, fazendo o diretor franzir o cenho.

Matheu e Frederick entraram na sala, sorrindo um tanto sem graça. O homem loiro pareceu se alegrar imensamente ao ver os rapazes. Sabia que os quatro andavam sempre juntos na França, chegara a conhecê-los em uma das visitas e logo se tornou um grande amigo deles tanto quanto das meninas. Era como se os dois fossem da família.

- Há quanto tempo, não é? E como anda, tio? – Frederick tinha ganhado o hábito de chamar o senhor Suou de tio, e não parecia que iria perder esse costume tão cedo.

- Ainda com esse hábito, rapaz? – o diretor riu – Sentem-se, sentem-se. Eu estou bem, especialmente depois de ter quase a família toda aqui por perto. E vocês, meninos, como andam? Não aprontando muito, eu espero.

Frederick deu os ombros, como se dissesse "ah, o de sempre". Matheu suspirou.

- Sabe como é… Apesar do tempo já ter passado bem, ainda sentimos falta das duas por lá. – então ele desviou o olhar para Ayame, que olhava distraída pela janela.

- Das duas, uh? – o senhor Suou riu de leve, abrindo um largo sorriso ao perceber o rubor na face de Matheu – Desculpem por tirá-las de lá assim, mas foi preciso… Prometo devolvê-las logo.

Frederick soltou uma risadinha.

- Não se incomode, tio. Sabemos das razões e entendemos… Mas ainda esperamos que elas pelo menos nos visitem às vezes.

O diretor logo concordou efusivamente. Ficaram mais algum tempo conversando, até que os rapazes não puderam mais adiar. Precisavam pegar o avião de volta para a França. Despediram-se do diretor, prometendo voltar qualquer dia e saíram com as amigas. As duas apenas deram um breve aceno para o senhor Suou quando saíram, como um aviso de que voltariam logo. O homem então suspirou pesadamente, ponderando sobre o que estava fazendo.

"Vai dar tudo certo… Eles têm a cabeça no lugar… Acalme-se, Suou, vai ficar tudo bem…"

Soltou um longo suspiro e se recostou na cadeira, fitando o teto.


Uma vez que os amigos tivessem ido embora, Ayame e Ryuu voltaram para casa. Não aguentaria voltar para o colégio, por mais que precisassem. Ainda tinha duas aulas antes de o dia acabar, mas nenhuma das duas ligou. Elas só queriam descansar.

- Acho que devíamos ficar na casa secundária e fazer uma surpresinha ao Tamaki-baka. – Ayame tinha o olhar perdido na janela ao falar.

Ryuu franziu o cenho.

- Tipo…?

- Tipo… Sei lá, recepcioná-lo. – Ayame deu os ombros.

Ryuu suspirou. Apenas soltou um grunhido baixo em resposta, sinal de que concordava, mesmo que não totalmente e então olhou pela janela no carro, dizendo ao motorista aonde ir. Ayame desviou o olhar para o motorista, notando a expressão confusa do funcionário. A ruiva revirou os olhos e apenas mandou que ele fosse logo. Aos poucos, o aeroporto era deixado para trás. Chantal rapidamente secou uma lágrima que escorrera, sem dar tempo para que a loira perguntasse algo. Isso se tivesse notado algo.

Logo pararam na porta da mansão secundária, descendo calmamente do carro. Ayame pegou o telefone e discou para a mansão principal, pedindo que alguém providenciasse roupas e pijamas para ela e Ryuu antes do fim do dia e então dispensou o motorista, que logo se retirou.


Tamaki chegou cansado, indo direto para o quarto. Não reparou nas duas figuras tão familiares sentadas no sofá, conversando calmamente. Tirou o uniforme do colégio, deixando-o sobre a cama, e foi direto para o banho, sem se preocupar com qualquer coisa. Ainda se sentia incomodado com algumas coisas, mas não havia o que fazer… Ou havia e ele que não percebera?

Assim que fechou a porta do banheiro atrás de si, o loiro notou um papel sobre a pia. A caligrafia era familiar, mas ele não a reconheceu de imediato. Precisou chegar ao final da nota para descobrir o autor. A letra redonda e caprichada, com um tom bem humorado, apesar de ácido, debochava do rapaz, assim como a pessoa faria se falasse diretamente com ele.

Aposto que nem nos notou na sala. Seu bobão distraído. Deixe de ser idiota e nos cumprimente! Com amor, sua prima.

Claro, não podia faltar o coração ao final. Era quase como uma assinatura da garota em notas como aquela, especialmente para Tamaki. O loiro releu o bilhete, se certificando de que tinha entendido. Então apenas deu os ombros e foi para o banho. Elas podiam esperar mais um pouco…


Ayame suspirou pesadamente. Tinha certeza de que Tamaki desceria às pressas quando visse o recado no banheiro, mas ele não o fez, a decepcionando um pouco. Ela queria ver a reação do primo. Ryuu apenas achou graça da reação da ruiva, a observando mais um pouco.

- Pare de me encarar e diga algo, Aurore. – Chantal franziu o cenho.

A conversa se desenrolava em francês para que os empregados não entendessem, mesmo que só estivessem as duas na sala. Afinal, é sempre melhor prevenir que remediar.

- E o que quer que eu diga? Que Tamaki-nii é um idiota por não descer correndo só para confirmar nossa presença? Sabe o quão absurdo isso soa? – Ryuu tinha um tom de deboche na voz.

- Eu sei, eu sei… É só que não fazer isso é tão… "Não Tamaki". – Ayame franziu o cenho.

Ryuu riu com gosto. A prima tinha razão, mas o que havia de fazer? Tamaki preferiu seu banho quente a sua estupidez cotidiana, por qualquer milagre do universo. Uma vez conformada com isso, a ruiva mudou de assunto, mas sempre falando em francês. A loira respondia da mesma forma, sem se importar com o que falavam.

Tamaki não demorou a descer, estranhando ao ouvir as duas conversando não em japonês, mas francês.

- Pourquoi le français? – Por que francês?

As garotas se voltaram para o rapaz ao ouvir a pergunta, acenando brevemente para ele. Tamaki se aproximou, perguntando o que elas fazia ali. Ayame fez questão de responder em francês que tudo que queriam era passar a noite lá. Inofensivas. Quando o loiro franziu o cenho, a ruiva riu, dizendo que se acalmasse.

- Não vamos te pintar de azul enquanto dorme, relaxe. Não queremos pagar esse mico amanhã. – Ryuu tinha um tom zombeteiro ao falar.

- Exato. Confie um pouco mais em nós, Tamaki-baka. – Ayame sorriu largamente.

Tamaki suspirou. Pelo visto, não tinha escolha.