Capítulo X
O vento batia lá fora como que anunciando o início do inverno. Às vezes fazia a janela ranger, mas apenas quando era forte demais. Castle tinha os pés na mesinha de centro, o laptop aberto no colo e vários pensamentos na cabeça. Estava mal humorado, cansado até. Não pregara os olhos a noite inteira. O motivo? Nem ele sabia ao certo. Era uma pontadinha incômoda, que agora o fazia tamborilar os dedos no teclado do laptop incessantemente.
A porta do apartamento se abriu e ele nem se incomodou em descobrir quem havia chegado. Logo a voz feminina encheu a sala.
_ Oh. Olá, filho. O que está fazendo em casa?
Martha tirou o casaco e as luvas enquanto segurava a bolsa.
_ Oi, mãe.
_ Achei que estivesse no hospital. - disse, pondo suas coisas ao lado de Castle.
O silêncio nada convencional fez a mulher parar por um instante e encarar o filho. Este olhava fixo para a tela, mas mantinha as mãos paradas sem digitar uma só palavra.
_ Aconteceu alguma coisa? Beckett...
_ Não. Ela está ótima.
_ Richard, o que é que não está me contando?
O escritor continuou quieto; apenas deu um suspiro profundo. Martha continuou encarando-o, as mãos nas cinturas à espera de uma resposta. Nisso, Alexis desceu as escadas e foi saltitante dar um abraço na avó. Vendo as expressões nada animadoras de seus familiares, a garota indagou, um pouco preocupada:
_ O que foi? - Como ninguém respondeu, insistiu: - Pai?
Finalmente Castle desviou o olhar da tela brilhante. Tinha uma expressão frustrada cobrindo o rosto.
_ Ela acha que foi um sonho.
_ Quem acha que o quê foi um sonho? - Alexis tratou de sentar-se ao lado do pai.
_ Beckett acha que o que disse a ela foi um sonho. - explicou, tornando a olhar para o cursor do editor de texto, que piscava para ele como que contando o tempo.
_ E o que foi que disse a ela? - A atriz foi sentar-se na outra ponta do sofá.
Rick não respondeu de imediato. Ainda não havia dito aquilo para si mesmo, mesmo sendo algo tão claro. Este era um sentimento que só havia se permitido sentir uma única vez, e nessa vez as coisas não haviam terminado muito bem. Kyra agora estava casada com outra pessoa, mas ela sempre seria alguém importante para ele. Com Beckett era ligeiramente diferente. As provocações, as brincadeirinhas e as broncas que costumavam acontecer desde o começo serviam de cortina para esconder o que estava nos bastidores, a base que fazia aquela espécie de parceria esquisita funcionar do jeito que vinha funcionando. Colocaria tudo o que haviam construído a perder por causa de um sentimento que poderia mostrar-se passageiro? Ou sofrer em silêncio era a melhor opção? De uma coisa tinha certeza: não queria perdê-la.
_ Preciso ir. - anunciou após certo tempo trocando pensamentos com sua consciência.
_ Pai, o que foi que disse a Beckett?
Castle pôs o laptop em cima da mesinha de centro, deu um beijo em Alexis e outro em Martha, e seguiu para a porta, pegando seu casaco no caminho.
O ar frio do inverno fazia-se bastante perceptível. As folhas das árvores que enfeitavam a entrada do hospital dançavam de acordo com o vento gélido, ora mais intenso, ora mais leve. Kate observava aquele movimento da janela do seu quarto, sentada na beira da cama. Sentia-se imensamente melhor, apesar de ainda ter um curativo na testa. O grande problema agora era que fazia dois dias que não recebia a visita de Castle.
A enfermeira disse que o escritor não havia deixado aquela poltrona, vez ou outra passando a noite ali, exatamente do jeito que o havia encontrado quando acordou. Algo podia ter acontecido. Ou então, agora que exames comprovavam a sua melhora, ele resolvera pôr em dia o que deixara de lado durante todo aquele tempo. Precisava terminar um livro, não? E era provavelmente impossível fazê-lo com a cabeça cheia.
Ela respirou fundo, a pele arrepiando-se com a brisa que adentrava o quarto. Nem se mexeu. Aquele frio a fazia sentir-se viva. E pensar que passara vinte e cinco dias em coma. Vinte e cinco dias deitada imóvel naquela cama. Parecia que o acidente havia acontecido no dia anterior. Quando tentava se lembrar de algo, além do borrão que tornara sua visão na hora em que o outro carro a fez girar o volante rapidamente, as palavras de Castle ficavam cada vez mais nítidas. Não podia ter sido um sonho, mas não conseguia imaginar Richard Castle declarando-se para ela. Era até um pouco cômico.
Foi quando ouviu um barulho vindo da porta. Quando virou a cabeça em direção ao movimento, lá estava ele.
_ Olá, estranho. - cumprimentou ela com um sorriso camuflado.
_ Desculpe.
Ele pegou a mesma poltrona que havia ocupado durante quase todo o mês que permanecera naquele quarto e ajeitou-a de frente para Beckett. Antes de sentar-se, fez menção de fechar a janela.
_ Deixe aberta. - ouviu ela pedir.
_ Está frio. Você não quer pegar um resfriado.
_ Castle, deixe aberta. - continuou, recebendo logo em seguida um olhar de reprimenda.
_ Pelo menos vá para baixo do cobertor.
Com um revirar de olhos, Kate puxou a colcha verde claro para que pudesse se deitar de novo. Apertando um botão, conseguiu com que parte da cama inclinasse.
_ Como está se sentindo? - perguntou o escritor finalmente sentando na poltrona, arrumando o móvel para que ficasse entre ela e a janela.
_ Melhor. Cansada, mas melhor.
_ O que fez ontem?
A pergunta seca a fez hesitar um pouco.
_ Exercícios. - Castle continuava com aquele olhar, e tudo o que lhe restou foi quebrar o contato visual intenso. - Estou conseguindo mexer meus pés de novo.
Com isso ela mexeu as articulações por baixo do cobertor, observando os próprios movimentos com os lábios pressionados.
O outro não disse nada. Apenas acompanhou-a com os olhos.
Logo em seguida uma enfermeira de roupas rosas adentrou o quarto, sorrindo tanto para a paciente quanto para o visitante.
_ Olá, querida.
A enfermeira checou alguma coisa nos aparelhos, rabiscou na prancheta pendurada na cama e juntou as mãos, ainda sorrindo para Kate.
_ Pronta para alguns alongamentos?
Mal Beckett concordou com a cabeça Castle levantou-se de sua poltrona.
_ Posso ajudá-la com isso.
_ É mesmo? - A mulher levantou as sobrancelhas, alternando entre ele e Beckett. Como não houve objeção alguma, continuou, dessa vez erguendo o dedo indicador em direção à Castle. - Ela precisa desses alongamentos. E também precisa voltar a andar.
_ Pode deixar comigo.
A mulher de roupa rosa pareceu satisfeita com a determinação de sua voz, tanto que apenas concordou com a cabeça. Antes de sumir para o corredor, disse:
_ Volto mais tarde.
Vendo que tornaram a ficar a sós, Kate empurrou com certa dificuldade o cobertor. Assim que conseguiu pôr as pernas para fora da cama, os olhos verdes procuraram os castanhos. Ela ainda não havia tentado andar sozinha desde que acordara. Não tinha certeza se continuava com força nas pernas.
Rick estendeu as mãos para que ela colocasse as dela sobre as suas. A detetive achou engraçada a sensação que lhe ocorreu quando seus pés tocaram o chão. Primeiro achou que estava indo muito bem. Não balançava feito um joão-bobo, dividindo seu peso entre as próprias pernas e Castle. Mas quando resolveu dar um passo para frente, faltaram forças. Os braços dele a impediram de cair, puxando-a em direção ao peito coberto pela fina camisa azul. O instinto a fez agarrar-se à camisa e pressionar-se contra seu apoio.
_ Está tudo bem aí? - Ele perguntou, tentando colocá-la de pé novamente.
_ Acho que devemos deixar isso pra mais tarde.
Castle sorriu com a observação, mas não se moveu.
_ Eu disse àquela enfermeira que a faria andar hoje.
_ Não quero cair no chão, Castle. Já me basta ter essa coisa na testa.
_ Estou bem aqui, não deixarei que caia. Agora, vamos lá. Mais uma vez.
De volta na posição inicial, dessa vez ele não a segurava pelas mãos. A tinha firmemente apoiada nos antebraços. Quando o primeiro passo foi um sucesso, Kate parou, aparentando certo cansaço.
_ Um já não é suficiente? - perguntou ela, querendo desesperadamente se sentar. - Estou ficando tonta.
No mesmo instante o escritor deu um jeito de pô-la de volta na cama sem que ela fizesse qualquer esforço. Beckett respirava profundamente e tinha os olhos fechados, a cabeça repousada no travesseiro. Castle continuou de pé junto dela, abrindo e fechando uma de suas mãos. Então ela murmurou algo, a voz parcialmente baixa.
_ O que você disse não foi um sonho, foi?
Rick sabia do que ela estava falando, e em nenhum momento parou o que estava fazendo.
_ Não. - respondeu.
Ela tornou a fechar os olhos, deixando-se levar pelo toque em sua mão.
