Capítulo 10
Ele sempre fora dele. De um modo estranho e possessivo, como se ele fosse apenas um objeto de valor, e não uma pessoa.
Ele era dele desde que se conheceram, ainda pequenos. Afrodite era dele desde o primeiro momento.
Estava sentado observando. Sempre fora observador do mundo, mas nos últimos dias só havia uma coisa que gostava de observar: aquele menino tímido e retraído, que não falava com ninguém.
Era lindo. Uma beleza com a qual a puerilidade do italiano não sabia lidar.
Então ele observava, de longe, tudo que Afrodite fazia.
Esfregou o rosto, subindo os últimos degraus que levavam à sua casa. Entrou.
Afrodite sempre fora, para ele, como uma peça valiosa, da qual ele tinha ciúmes. Sim, sempre tivera ciúmes. Ciúmes de que outras pessoas pudessem olha-lo, tocá-lo e até mesmo conversar com ele. Não queria que ninguém pudesse estar com Afrodite. Afrodite era dele.
Sim, ele era possessivo. Com o tempo e a maturidade, as coisas foram se acalmando. Continuava possessivo, mas a idéia de que poderia manter Afrodite como posse sua começou a parecer ridícula, e ele entendeu que não poderia manter o pisciano em uma redoma de vidro. Os anos o fizeram aceitar os outros amigos do pisciano, bem como seus amantes. Até que a idade e o costume lhe convenceram que o sueco era apenas mais um companheiro de lutas. E Máscara da Morte aceitou de bom grado.
Máscara sentou-se no sofá, fechando os olhos. Não passaria nem mais um dia sem falar com a "vadia de peixes".
Esperou que ele viesse. Shura foi o primeiro a passar. Camus e Milo passaram logo depois. Shaka subiu, e dez minutos depois, um Mu sorridente e vermelho também subira. Aioria foi o último a subir. E então seguiu-se um longo período de silencio.
E nada de Afrodite aparecer.
Ainda na arena, o pisciano tentava acalmar-se para então subir. Quando vira o canceriano tomar o ruma das doze casas, quase teve uma síncope.
Pela Deusa! Ele queria fazer as pazes com Máscara. Eles eram amigos. Ele era o seu melhor, primeiro, e por algum tempo, único amigo ali.
Fora ele que o apoiara, que o ajudara. Fora com ele que tivera as conversas mais profundas e fora ele quem o ajudara a se fortalecer.
Esfregou o rosto com força, querendo gritar. Seria mais fácil subir de uma vez, jogar aquele maldito italiano na parede e dizer que não agüentava mais ficar brigado com ele? E ai, talvez, aproveitar a distancia e beijá-lo. Provar dos lábios dele só mais uma vez. E depois inventar uma desculpa ridícula.
Talvez dizer que o beijo era o pagamento por essas três semanas de brigas.
- Você não vai subir? – o pisciano levantou os olhos para encarar Aldebaran.
- Não, Deba. Acho que vou ficar mais um pouco por aqui...
- Debaixo desse sol quente? – indagou o brasileiro. Ele tinha um estranho meio sorriso no rosto, Afrodite reparou, que parecia revelar que Touro sabia de alguma coisa.
- Ah... – não tinha resposta.
- Vem – disse o taurino – Vamos até meu templo e almoçamos juntos.
- Hmmm – só de imaginar a comida de Deba, seu estomago já revirava de fome. Maldito brasileiro que sabia cozinhar bem – Se meter sua comida no meio, não há nada que eu negue, Deba!
Aldebaran sorriu – Vamos lá, branquelo. Fiz feijoada. E tem caipirinha.
Peixes sorriu, acompanhando o amigo. Sentia-se incrivelmente pequeno perto de Aldebaran. Não só seu tamanho parecia reduzir, mas o tamanho de seus problemas também. Aldebaran parecia mesmo um pai, ou um irmão mais velho, daqueles que resolvem qualquer coisa com uma simples frase.
Entraram na segunda casa, e Deba o conduziu até a cozinha. Sentou-se enquanto o brasileiro preparava duas caipirinhas e colocava a comida para esquentar.
- Certo – disse o rapaz, sentando-se de frente para Afrodite e colocando na mesa o copo do moço, enquanto tomava um gole do seu. – Pode desembuchando: Por que você e o italiano não estão se falando? – o pisciano abriu a boca para soltar a desculpa que vinha usando nas ultimas três semanas, mas Deba o impediu de falar – Não venha com desculpas, Afrodite. Diga-me a verdade.
- Deba... – suspirou – As coisas não são simples como você deve estar pensando e...olha...é pessoal.
Aldebaran riu, ergueu-se, desligou o fogo. Pegou a louça, pôs a mesa. Colocou as panelas sobre a mesa e sentou-se novamente. Tudo isso sendo acompanhado pelo olhar de Afrodite, que não deixava passar aquele sorrisinho insolente do outro.
- O que é, Deba? – perguntou ele, finalmente – O que é que você sabe?
- Eu sei que você se declarou para o canceriano.
Afrodite avermelhou-se – Quem te contou?
- Ele.
- Ele o que? – perguntou, atônito. Desde quando Máscara da Morte ficava comentando sobre sua vida amorosa, ou qualquer coisa que dissesse respeito a isso?
- Ele mencionou que você havia se declarado para ele. – disse o brasileiro – Não precisa surtar, branquelo. Ele só disse porque eu perguntei.
Afrodite relaxou, tomando mais um longo gole de bebida. E comeram em silencio por um bom tempo, até que a caipirinha começou a fazer efeito, deixando o pisciano suado.
- Eca! – disse Afrodite, rindo – Eu to nojento!
Aldebaran riu. – Fraco. Só tomou duas doses!
- Porra, Deba! Já deu uma olhada no que você chama de dose? – reclamou o sueco – Uma "dose" sua é quase meia garrafa de vodka, rapaz. Cruzes. Nem o Milo consegue beber tanto assim!
- Claro que consegue! – disse o brasileiro – Não foi ele quem te "ensinou" a beber?
- Na verdade... – disse Peixes – Foi o Máscara quem me ensinou a beber. Mas Milo foi o primeiro a me levar para um bar e se embebedar comigo. Mas não fiquei tão bêbado aquela noite quanto na noite em que foi beber com o Máscara.
- Você está maluco, Afrodite? – reclamou o rapaz – Vai sair com o Milo pra beber? Com o Milo? Você nem sabe beber, porra!
- Ah, não enche, vai! – disse o pisciano. Estava começando a se arrepender por ter contado ao amigo que Milo o havia convidado para que fossem comemorar no bar. – Eu já sou velho o bastante para aprender a beber!
Máscara bufou, esfregando o rosto.
- Cazzo! – disse ele – Va bene! Io vou te ensinar a beber!
- Não. – disse o pisciano – Eu prometi que o Milo ia me ensinar.
- E você vai confiar seu primeiro porre ao Milo? – disse ele, rindo – Dite, você vai beber um monte de coisa, e vai acordar na merda. O Milo não tem responsabilidade, e vai beber também. E vão estar só vocês dois. É arriscado, seu cabeça oca!
- Você sempre reclama! Tudo é arriscado! Que merda, Máscara! – e ao reclamar desse jeito, bufando e fazendo uma careta infantil, o pisciano fizera Máscara gargalhar.
- Ah, Pesce! – disse ele, e com o carinho que só destinava à Afrodite, acariciou-lhe o topo da cabeça. – Bebe comigo hoje. Vou deixar você ficar bêbado e sentir o poder da ressaca amanhã. Então, quando foi sair para beber com o Milo...bom...ai a escolha será sua.
Afrodite o encarou, sentia ânsias de abraçá-lo e dizer o quanto era feliz por tê-lo por perto. Mas controlou-se. Aquele não era mais seu amiguinho italiano. Aquele era seu companheiro de batalhas, o cavaleiro de câncer. Ele tinha de respeitá-lo.
Naquela noite, bebeu tudo que podia. Italiano filho da mãe. Encheu a cara do pisciano de vinho.
No dia seguinte, acordou sobre sua própria cama sem ao menos saber como havia chegado lá. Grunhiu alguma coisa e tentou sentar-se, mas a cabeça girava. – Ah...que dor.
- Aproveitando a ressaca, Pesce? – ouviu uma risada. O olhou. Ele lhe parecia ainda mais lindo, trazia uma caneca com café. – Toma.
- Nunca mais vou beber tanto assim.
- Sábias palavras, cavaleiro de peixes.
Ele sentou-se na cama do pisciano, esperando que ele tomasse todo o café e, depois que Afrodite colocou a caneca sobre a mesa de cabeceira, Máscara lhe sorriu, puxando-lhe o braço. – Já pro banho, Peixes!
O sueco se deixou ser guiado pela mão forte do outro. Amaldiçoando sua mente inquieta que o impedia de focar-se em outra coisa que não no toque da pele do italiano na dele.
No banheiro, Máscara virou-se de frente para ele e tirou-lhe a camisa. Estremeceu. E antes que o canceriano pudesse até mesmo pensar em tirar o resto de sua roupa, Afrodite disse – Não, Máscara, eu faço isso sozinho.
- Você mal consegue ficar de pé, Dite. Não faz drama, ta? Como se fosse a primeira vez que eu te vejo sem roupas.
- Não...não é a mesma coisa... você sabe...eu...- bufou – Faço isso sozinho.
- Tanto faz, Pesce. Tanto faz. – disse – Vou esperar do lado de fora. Me chame de passar mal debaixo do chuveiro.
Suspirou, tirando o resto da roupa quando Máscara saiu do bainheiro e fechou a porta. A ereção dolorida.
- Se ele me visse assim...ia ser o fim.
- Terra chamando, Afrodite! – brincou Deba – Tá dormindo, porra?
O sueco riu – Estava pensando.
- Pensei que não fizesse isso... –disse.
Afrodite o olhou espantado – Definitivamente, você passou muito tempo com o Mu.
Viu o brasileiro arquear uma sobrancelha e dar de ombros. E quando Afrodite perguntou se ele ainda sentia muito pelo término do relacionamento, Touro apenas sorriu – É passado. E quem vive de passado é museu. Eu estou feliz como estou, e ele está muito feliz com o Buda loiro dele. Para que pensar em coisas tristes?
- Você está certo, Chifrinho.
- Ah, não! Chifrinho, não! – riu o rapaz.
O sueco suspirou – Preciso de um banho, Deba.
- Você não ta pensando que EU vou dar banho em VOCÊ, está?
- Não, seu pervertido. Apesar de que, me ver nu seria o ponto alto da sua vida, tenha certeza. – riu-se – Estou, sutilmente, pedindo que você me empreste uma toalha limpa e roupas e que me deixe usar seu banheiro.
- Tem toalhas limpas no armário do banheiro. E tem umas roupas do Milo por aí...
Afrodite o cortou – Você tem roupas do Milo? Aqui no seu templo? – viu o taurino assentir – E o que Camus pensa sobre isso?
- Que o namorado dele é abusado, e que não sabe se controlar perto de bebidas. Logo, chega bêbado, e não consegue subir até a oitava casa. E acaba dormindo por aqui.
Em câncer, Máscara estava a ponto de ir buscar Afrodite pela orelha. Aonde aquele filho da mãe tinha se metido, que não subia?
Engoliu o almoço tão rápido que nem se deu conta de que a comida estava fria.
Tomou banho, e jogou-se no sofá novamente. E estava quase cochilando quando Afrodite finalmente apareceu.
O primeiro impulso foi de agarrar-lhe o braço, fazê-lo sentar-se, e gritar com ele. Sacudir o corpo dele e dizer que ele não passava de uma bicha maluca ninfomaníaca.
Respirou fundo, trancando seu instinto violento dentro de si. Iria apenas conversar. Conversar. Sem tentativas de decapitação.
Afrodite o encarou. Ele podia ver escrito nos olhos do pisciano que estivera bebendo. Quase riu. – Vamos conversar, Afrodite.
- Eu não quero conversar – disse. Seu tom de voz tinha uma nota de tristeza e uma de desinteresse. – Das últimas vezes que conversamos...acabamos brigados. E eu não quero brigar com você. Não tenho ânimo para brigar de novo.
- Ótimo – bufou o italiano. Tentava controlar o impulso de gritar com ele. – Então você vai sentar neste maldito sofá e me escutar. De boca fechada.
Mas o pisciano não se moveu, olhando com interesse enquanto o italiano esfregava o rosto e parecia controlar seu instinto assassino. Aquilo lhe dava vontade de gargalhar. Sempre gostara de vê-lo daquele jeito. Tentando controlar seu lado sádico e assassino.
Para Afrodite, todo aquele sadismo, a maldade, a crueldade e o terror que emanava do cavaleiro de Câncer, era afrodisíaco.
- Se você não vai dizer nada, eu vou subir. – disse o sueco. Caminhou calmamente como se de fato pretendesse sair, mas a mão firme do canceriano em seu braço o fez parar. – O que você quer?
- Cala a boca, Afrodite.
O sueco gargalhou. O som da voz rouca e irritada de Máscara só o provocava cada vez mais. Fazia seu corpo se arrepiar.
A mão do italiano apertou ainda mais seu braço. E ainda rindo, Afrodite disse – Quem você pensa que é para me mandar calar a boca?
A próxima coisa que se deu conta foi que, de algum modo, fora arremessado na parede. Tinha as mãos suspensas por sobre a cabeça, e o rosto do canceriano estava a poucos centímetros do seu. – Você...você... – bufou ele – Eu devia arrancar essa sua cabeça e guardar na minha coleção, seu maldito filho da puta! Seu promíscuo desgraçado! O que fez comigo? O que fez com o maldito amor que você disse que sentia por mim?
- Você é inacreditável – disse o pisciano, carregando a voz com seu sarcasmo.
- O que fez, Afrodite? – disse o canceriano. E sua boca estava perigosamente perto da orelha do pisciano. Sua respiração era quente e forte, e fazia a cabeça de Afrodite girar. – O que fez com o que sentia por mim?
- Você realmente acha que tem direito a uma resposta, não é? – disse – Realmente acredita que você está certo no meio de tudo isso, não é mesmo? Pôs nessa sua cabecinha que eu sou o "vilão" da história? – sua boca também estava perigosamente perto da orelha do italiano, e a sua voz prendia Máscara em um tipo de feitiço. – O que você queria que eu fizesse, maldito? – sussurrou ele – Queria que eu me trancasse no meu templo, esperando por você? E por que eu deveria fazer isso?
- Porque você é meu.
- Seu? – riu o pisciano, mas não pode conter em sua risada, o tom de tristeza – Seu? Como eu poderia ser seu? Por que você se esquece, convenientemente, que me rejeitou?
Bufou. E então gargalhou, deixando o italiano atônito.
- Somos tão redundantes. – disse o sueco – Estamos nessa discussão babaca há tanto tempo que eu acho que nunca mais vamos nos acertar. É uma pena, eu realmente gosto da sua amizade. Ou gostava, eu já nem sei. Mas eu sei que nós não vamos ficar bem, acho que você...
O peso dos lábios dele sobre os seus o fez se calar. Não demorou para corresponder, porque desta vez, não se importava tanto assim. Afrodite o queria. O queria com toda sua força e, se o italiano estava disposto, ele o teria. Receberia de bom grado naquele momento tudo que Máscara quisesse lhe dar.
N/A: Olá pessoas! *agita os braços*
Taí o novo capítulo. Nossa, nem sei dizer se gostei mesmo desse capítulo, sabe? Foi tenso escrevê-lo, pois sempre que escrevia algo, apagava e queria escrever melhor. Sempre. Então foi demorado, maçante, irritante. Mas acabei, pelo menos este capítulo.
Esses dois ainda vão me deixar maluca, de verdade. Então, espero que vocês gostem desse capítulo. Eu gostei da parte do Deba, e, sim, por aqui, ele já deu uns pegas no Mu. Ah gente, vocês acham que o Mu é santinho? Mu é pegador. E eu gosto do shipper MuAldebaran.
Não tenho mais nada a comentar, só a pedir que vocês mandem suas reviews. E, é claro, agradecer a todos que continuam lendo e mandando suas opiniões. Adoro ler o que vocês me escrevem.
Beijos a todos,
Um bom fim de semana.
Lika Nightmare.
Ps: Vou postar no meu blog as fanarts que a Thaiz Atena fez da fic. Quem quiser mandar algum desenho, é só colocar o link lá no blog, ok.
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