Adaptação da obra literária "Se nada der certo até os 30, casa comigo?", de Karina Halle.


CAPÍTULO OITO


Isabella

Você sabe que seu dia não tem condições de correr bem quando acorda com água pingando na sua testa, como uma espécie de tortura chinesa.

Abro um olho bem na hora em que outra gota o acerta.

– Que porra é esta?

Enxugo depressa o rosto e me sento longe das gotas. Olho para o teto, onde uma bolha gigante se formou e dentro da qual a água começa a correr, caindo direto na minha cama.

Puta maravilha. Comprei o minúsculo apartamento no distrito de Mission, há dois meses, e ele já está caindo aos pedaços. Antes, eu morava de aluguel, então bastava chamar o senhorio e ele que lidasse com o problema. Agora, o apartamento é meu, então é meu problema enfrentar o impacto das tempestades de outono que têm caído.

Feliz porcaria de aniversário de 30 anos para mim. Aqui está uma nova década cheia de responsabilidade que você não se lembra de ter pedido.

Suspiro e saio da cama, desejando que Mike tivesse pernoitado e assim pudesse me ajudar. Depois, me lembro de sua tendência a desaparecer quando a merda pesa (como qualquer coisa que não seja posar para uma câmera), e sei que chamar Edward seria uma ideia melhor. Pelo menos, aí está um homem que põe a mão na massa.

Mas não o chamo. Sei que a namorada dele me detesta, e não imagino que meu pedido de socorro cairia bem. Além disso, o apartamento é meu, minha responsabilidade. Tenho 30 anos, agora. Só preciso levantar a cabeça e lidar com isso. O surpreendente em fazer 30, além de ter um despertar tão grosseiro, é não ser tão devastador quanto pensei que seria. Acho que 29 foi muito pior, assim como acho que 39 vai ser pior do que 40. Quando aquele ano mágico-terrível se aproxima, você já fez as pazes com ele.

No entanto, não parece que eu vá fazer as pazes com o fato de ter comprado um imóvel com vazamento. Imagino que seja meio culpa minha, já que optei pelo menor e mais barato em uma área duvidosa, mas comprar uma propriedade em São Francisco é impossível. Se não fosse pela minha mãe consignar a hipoteca (os bancos não gostam muito de autônomos), e pelo fato de ter sido uma venda particular por meio do sobrinho de uma amiga de mamãe, eu não teria conseguido comprá-lo.

É um lar, embora não bem o tipo de lar que imaginei ter aos 30. Tem 55 metros quadrados, um quarto com uma saleta do tamanho de uma caixa e um terraço ainda menor, que dá para uma linda igreja e sem-tetos em bancos de praça – anos-luz da casa vitoriana de três andares, historicamente admirada, envolta em tons de sorvete, com quintal nos fundos, na qual eu esperava terminar. Também esperava ter um bando de filhos correndo pela casa, um marido e vizinhos que aparecessem o tempo todo. Talvez o cunhado gato do meu marido ensaiasse The Beach Boys com sua banda underground na garagem.

Agora que parei para pensar, acho que os meus 30 eram baseados em episódios da série Full House. Não eram muito realistas.

Pego rápido um balde de metal debaixo da pia e o coloco sobre a cama. A primeira gota cai com um plim satisfatório. Isto vai ter que ser suficiente por enquanto.

De qualquer modo, meu alarme despertaria em meia hora, então tomo uma ducha e me apronto para o dia. Levo um bom tempo para secar o cabelo com o secador e depois ondulá-lo, mas, já que mais tarde vou para o Lion, para as bobajadas do meu aniversário, vale a pena. Meu cabelo está enfim com o melhor corte e a melhor cor, uma coisa realmente sofisticada e (queira Deus) sexy. Chega um pouco abaixo dos ombros, num tom chocolate profundo e brilhante, com reflexos vermelhos que, por algum motivo, deixam meus olhos maiores e mais castanhos.

Fico parecendo mais velha, mas não de um jeito negativo, embora eu tenha a sensação que destaca ainda mais minha expressão franzida, de quem está sempre puta.

É quinta-feira, então vou para o trabalho e olho minha lista de currículos.

Depois de um ano de loja, decidi contratar ajuda. Teria feito isso antes, mas não dava para pagar enquanto estava tentando economizar para dar entrada no apartamento. Além disso, acho que tenho problema em delegar tarefas. Se continuar cuidando de tudo sozinha, entretanto, minha saúde vai pelo ralo. Mal consigo ir à academia depois do trabalho, então agora meu corpo de novo oscila. Com frequência faço minhas refeições no balcão durante o horário de trabalho, engolindo às pressas comida pra viagem, que provavelmente não é tão saudável quanto parece, e, quando chego em casa, estou cansada demais até para transar com meu namorado. Eu costumava gostar de transar, portanto, isso diz muito.

Além disso, Mike ainda é um modelo. Ele também está me dando nos nervos nos últimos tempos, mas acho que estou avançando contra tudo e contra todos de tanto estresse e sobrecarga. O foda é quando você está se matando de trabalhar, tentando tocar um negócio e sua vida (e talvez um e outro sejam a mesma coisa), e seu namorado não faz a mínima ideia do que significa dar duro. Ele vai a sessões de fotos uma vez por semana e passa o restante do tempo bebendo e comendo em festas e eventos exclusivos, exibindo seu belo rosto e seu corpo sem camisa no Instagram. Na maioria dos dias, dorme até as 11. Note bem, ele tem 27 anos, não 17.

Tiro todas minhas reclamações da cabeça enquanto me esforço para neutralizar minha cara emburrada e tento atrair clientes com os descontos que dei nas peças do outono. Devo estar sendo cri-cri, porque estou cansada e ninguém gosta de trabalhar no dia do aniversário.

Por sorte, recebo uma saraivada de postagens no meu mural do Facebook, além de textos e mensagens de todos os tipos de pessoas, o que me faz sentir querida e confusa. Tem uma de Leah, namorada de Jacob, e outra do próprio Jacob. Edward acaba me mandando uma mensagem mais tarde, dizendo que queria me ligar, mas não tinha certeza se seria adequado. Não sei bem se ele quer dizer que me ligar no trabalho poderia ser inadequado, ou simplesmente me ligar em geral. Considerando o pouco que o tenho visto, em parte por causa da minha agenda estúpida, espero de verdade que não seja a segunda opção.

Minha mãe me telefona quando a loja está fechada, mas meu pai nem ao menos me mandou uma mensagem. Não digo isso a ela, já que só serviria pra irritá-la, mas magoa. Eu me lembro da regularidade com que meu pai costumava me ligar quando eu era mais nova, porque era superprotetor e preocupado com Ollie, e o quanto isso me deixava puta. É curioso as coisas que você passa a apreciar.

Estou quase de volta ao apartamento, atrasada como sempre, e esperando ter tempo suficiente para dar um jeito no rosto e achar algo pra vestir antes de ir para o bar, quando Mike me telefona.

– Ei, aniversariante sexy – ele diz. – Já está em casa?

– Quase – digo, atravessando às pressas um sinal amarelo na rua Gerrero.

– Não vá pro Lion – diz rápido. – Venha até a minha casa.

Tento não parecer irritada. Ele mora nos confins do Judas, perto do zoológico, numa casa que divide com dois outros modelos e que cheira a roupa suja. Detesto ir lá, embora talvez tenha que ir mais vezes se não mandar consertar o vazamento no meu apartamento.

– Mike...

– Só pra um drinque. Os caras querem te desejar um feliz aniversário.

Reviro os olhos. Tudo o que os seus amigos fazem é encarar os meus peitos e a minha bunda. Provavelmente querem me comer.

– Por que eles não podem vir ao Lion como todo mundo?

– Por favor, Isabella – ele diz, parecendo um menininho. Depois, acrescenta baixinho: – Quase não te vejo. Seria bom ficar sozinho com você antes de ter que te dividir com todos os outros.

Suspiro. Não estou acostumada a essa sua tática de me fazer sentir culpa, muito embora ele tenha mencionado há pouco que seus colegas de moradia estão lá.

– Tudo bem, estarei aí em 45 minutos. Só preciso dar um tapa no visual.

– Você está sempre ótima, baby – ele diz.

– Tá, tá.

Desligo o celular. Vou para casa, checo o balde na cama e descubro que está quase cheio, então esvazio e o recoloco no lugar. Isto é tudo o que posso fazer agora. Depois, visto um vestido azul forte e um pouco cintilante, que revela meu leve bronzeado e consegue disfarçar todas as áreas que estão um pouco flácidas demais. Meu cabelo conseguiu, de algum modo, manter o penteado e as ondas, e só dou uma borrifada de spray por garantia. Coloco cílios postiços discretos e escuros, e dou uma passada de batom magenta. Vejo-me esperando que Mike não queira transar, para não ter que me arrumar tudo de novo, e então fico envergonhada.

Gente, pensei que o impulso sexual de uma mulher aumentasse com o passar da idade e não que diminuísse. Encolho-me com esse pensamento, mas mesmo assim dirijo-me até o carro e enfrento o trânsito maluco até Sunset, onde estaciono perto da 46a com a Vincente.

A casa de Mike é um sobrado simples, com uma escada até o segundo andar e uma garagem embaixo. É comum, em especial porque nela mora um bando de caras, mas por ser muito próxima ao zoo e à praia, sei que o aluguel é absurdamente alto, como tudo mais em Sunset. Antes de comprar meu canto, por algumas vezes imaginei meu futuro com ele e pensei se deveria convidá-lo a morar comigo.

Ajudaria com a hipoteca e, a longo prazo, ficaria mais barato para ele, mas não acho que poderia encarar isso. Não que eu queira viver sozinha pelo resto da vida; só acho que jamais poderia viver com ele.

Esse pensamento me deixa um tanto racional e me leva a parar no primeiro degrau. Às vezes, quando me pego pensando assim, me pergunto por que me dou ao trabalho de ficar com ele se não vejo futuro para nós. Mas a ideia de ficar sozinha de novo e o panorama amoroso da cidade, principalmente agora, me deixa pirada, e detesto pensar em mim como alguém que desiste fácil.

Respiro fundo, me obrigo a ter pensamentos mais felizes, como a taça de vinho que mal posso esperar para tomar, e meus amigos, que verei mais tarde, e subo a escada. Bato na porta e ele aparece segurando uma cerveja.

– Você está o maior tesão – diz enquanto me olha de cima a baixo.

Passa um braço à minha volta e me puxa para junto dele. Já está bêbado, o que me deixa puta, porque isso significa que terei que dirigir no meu aniversário. Uma corrida de táxi daqui seria cara pra danar, e não acho que ele pagaria. Ele me beija de leve nos lábios e depois pega a minha mão, me levando para dentro da casa. Está escuro, a única luz vem da cozinha, no final do corredor.

– Por que está tão escuro? – pergunto, olhando ao redor na sala de visitas. – Cadê o Paul e o Jared?

– Sente-se – ele diz, praticamente me empurrando para o sofá. – Vou te trazer uma bebida.

Vejo sua silhueta desaparecer no corredor.

– Nada muito forte – digo. – Acho que sou eu quem vai dirigir.

– Não, não vai – ele grita de volta.

Está a maior escuridão, até as cortinas estão puxadas, bloqueando todas as luzes da rua. Inclino-me no sofá e acendo o abajur ao meu lado.

Por uma fração de segundos, meus olhos se ajustam à luz, e então não consigo acreditar no que estou vendo. Parece que todas as pessoas que conheço estão em pé à minha volta, algumas agachadas, outras encostadas na parede. Edward, Jacob, Rosalie, Nicola, Leah. Estão todos rindo, imóveis. E, então, Edward grita:

– Surpresa!

E mais alguém grita:

– Feliz aniversário, gostosa!

De repente, estou cercada por todos os meus amigos.

Também acho que tive um leve enfarte. Levo um momento para me lembrar de respirar, e depois soltar um grito de surpresa.

– Que diabos?! – exclamo com a mão no peito, olhando para todos eles.

Percebo que Paul e Jared estão aqui, bem como Emmett, o novo namorado de Rosalie, Caroline e Dan, que trabalham para Jake no Lion, e Angela, minha ex-colega do All Saints. Esta é uma das coisas mais sensacionais que já me aconteceram. Uma coisa muito simples, juntar numa sala um punhado de pessoas que conheço, mas com o maior significado.

Rose me puxa para um abraço:

– Sua cara estava incrível.

Jacob me bate nas costas:

– Foi muito difícil não contar nada. Não acredito que você caiu nessa.

Meu coração está acelerado pela emoção, e Edward se aproxima.

– Feliz aniversário, Baby Blue.

Antes que tenha uma chance de me abraçar (ou talvez essa nunca tenha sido sua intenção), Leah agarra meus pulsos e me puxa.

– Espero que você não tenha mijado na calcinha – ela diz, enquanto me dá um abraço apertado, e eu rio.

– Foi por pouco – brinco, e então Mike está ao meu lado, me estendendo uma taça de vinho.

Olho para ele com os olhos brilhando. Não posso acreditar que ele realmente tenha planejado isto para mim. Sinto uma pontada de culpa pelos meus pensamentos recentes. Preciso tratá-lo melhor; ao que parece, ele está cheio de surpresas.

Alguém coloca "Trampled Underfoot" de Led Zepellin, uma das minhas músicas favoritas de Zep, e a noite começa a bombar. Agora, o Lion está fora de questão. O lugar da festa é aqui, onde sempre deveria ter sido. Vou para a cozinha ajudar Rosalie e Mike a tirar algumas entradas da geladeira.

Depois que Rosalie sai com uma tigela de pasta de espinafre e alcachofra, agarro Mike pela cintura e o trago para junto de mim.

– Obrigada – digo com sinceridade, olhando para ele. – Obrigada, obrigada. Você não faz ideia de quanto isto significa pra mim.

Ele me dá um sorriso tímido, de menino.

– Não por isso. Achei que era uma boa ideia, mas tudo partiu do Edward.

Será que ouvi direito?

– O quê?

– É, ele me telefonou há algumas semanas e disse que tinha uma grande ideia pro seu presente de aniversário, mas precisava da minha ajuda. Queria usar a minha casa porque assim você ficaria menos desconfiada, e eu disse, claro, legal. Foi tudo ideia dele. – Ele estica o braço e aperta a minha bunda. – Mas meu presente de aniversário vai vir mais tarde, não se preocupe, baby.

Estou surpresa demais para prestar atenção nessa promessa.

Foi tudo ideia de Edward?

Edward fez tudo isto... para mim?

Solto Mike e o vejo com novos olhos. Ele não parece nem um pouco envergonhado, ou mesmo enciumado, que outro cara tenha feito tudo isto. Na verdade, nunca vi Mike com ciúmes de Edward, nem uma vez sequer. Eu costumava gostar muito disso, mas agora começo a especular se um pouquinho de ciúmes não seria saudável.

– Mais vinho? – ele pergunta e tira a garrafa da geladeira, completando minha taça antes que eu responda. – Aqui está, à porra dos 30, sua balzaca – diz em tom de brincadeira.

Meu olhar se fixa nele enquanto deixa a cozinha para se juntar ao restante da festa.

Fico recostada no balcão, bebendo meu vinho por um tempo, tentando entender tudo. Edward fez isto por mim. Tenho certeza de que para algumas pessoas não é nada de mais; os amigos dão festas surpresa o tempo todo, e ele é meu amigo. Mas, por alguma razão, mexeu comigo e de um modo maravilhosamente carinhoso.

Decido ir ao banheiro. Sigo pelo corredor, me afastando da festa e virando a esquina, dou de cara com o homem da vez: Edward. É surpreendente como o roçar do meu corpo contra o dele libera um tonel de borboletas dentro do meu estômago.

– Desculpe – Edward diz com um sorriso atrevido, me olhando com intensidade.

Agarro seu braço. Adoro um bom braço forte em um homem, e o dele é perfeito. A pele ainda pouco bronzeada pelo verão, pelos o suficiente para deixá-lo masculino, mas sem exagero, as frases tatuadas na parte de dentro (Ela é louca, mas é mágica. Não há mentira em seu fogo*), e músculos para usar. Você pode imaginá-lo cortando lenha com facilidade ou agarrando seu quadril ao pegá-la com força por detrás.

Começo a pensar que talvez agarrar o seu braço tenha sido uma má ideia. Solto-o e então, pelo que parece ser a primeira vez, não sei o que lhe dizer.

– Edward – falo, e depois me interrompo, mordendo o lábio como uma colegial imbecil.

Seus escuros olhos verdes perscrutam os meus. Eles podem ser malditamente intensos algumas vezes, e tenho medo do que estejam procurando, e do que ele esteja prestes a deduzir.

– Mike te contou? – pergunta com cautela.

– Contou. – Faço que sim com a cabeça.

– Eu não queria que ele contasse – ele diz, sem tirar os olhos de mim.

– Por que não?

Ele dá de ombros, franzindo a testa:

– Não sei. Não pareceu certo. Queria que você pensasse que era tudo ideia dele.

Sacudo a cabeça de leve:

– Por quê?

Ele fica calado, o pomo de Adão sobe e desce no seu pescoço largo, e por um instante imagino como seria mordê-lo ali, só uma mordiscada gentil, ou duas. Aposto que ele tem gosto de sálvia e testosterona.

Seus olhos pousam nos meus lábios:

– Porque isto é o tipo da coisa que o homem da sua vida deveria fazer pra você. Não o seu amigo.

Algo no meu peito está se aquecendo, me arranhando por dentro. Não sei se é coisa da minha cabeça ou o quê, mas algo neste corredor escuro está mudando. O ar à nossa volta está ficando elétrico, como antes de uma tempestade de verão, e a tensão parece densa o suficiente para nos dar um choque.

– Então, por que você fez isso? – pergunto, e agora minha voz não passa de um sussurro. Seja o que for que estiver acontecendo, tenho medo de que, se falar alto demais, desaparecerá, quebrando o encantamento.

Ele me encara intenso, deve estar sentindo a mesma coisa. Olha para os meus lábios como se quisesse devorá-los. Talvez queira me sentir tanto quanto quero senti-lo. Isso seria impossível, claro. Então, ele mais uma vez estende a mão para o meu rosto.

Ah, Senhor, tenha piedade.

Com aquele mesmo olhar, põe os dedos nas maçãs do meu rosto e sobe devagar por elas, até prender meu cabelo atrás das orelhas. Seu toque é como uma tocha, disparando fogos de artifício, dando vida à minha pele.

– É muito ruim essa história do pacto – ele murmura, enquanto mexe com o meu cabelo, esfregando as mechas entre os dedos. Fico muito feliz por ter dado um bom trato nele nesta manhã, porque o sorriso que brinca no canto dos lábios de Edward me diz que gostou do resultado.

Limpo a garganta de mansinho, muito alerta a tudo: à proximidade entre nós, à maneira como ele toca o meu cabelo, à maneira como vou me perdendo em seus olhos.

– O que tem ele?

Ele sorri triste e retira a mão. Mas não recua nem desvia o olhar.

– Hoje você faz 30 anos. E está com outra pessoa.

– Você também. Aliás, onde está Tanya? – pergunto e na mesma hora me arrependo. A menção ao seu nome faz Edward se empertigar.

– Não pôde vir. Tinha outros planos. Sinto muito.

Eu não. Ela também não apareceu no meu último aniversário. Tudo bem que estava no hospital, mas mesmo assim. Ele solta um longo suspiro e passa a mão pelo próprio cabelo.

– Ouça, Bella... – Ele chega ainda mais perto. O calor entre nós aumenta e a tensão vira uma corda esticada.

– O que está rolando aí? – uma voz retumba.

Nós dois viramos a cabeça de imediato, e vemos Jacob parado no corredor, de braços cruzados. Não parece satisfeito. Na verdade, parece prestes a nos matar. Sinto como se estivéssemos fazendo alguma coisa errada. Talvez porque lá no fundo eu queria fazer uma coisa errada. Ou talvez porque Jake pareça magoado e desgostoso.

– Nada, cara – Edward responde. – Só estou desejando à aniversariante um feliz aniversário.

Jacob continua a nos encarar, e dou um passo consciente para trás.

– Mike me contou que foi tudo ideia do Edward. Você sabe, de fazer a surpresa. Então, só estou lhe agradecendo.

Edward me desfere um olhar assassino, e por um instante não tenho ideia do que isso significa. Jacob levanta as sobrancelhas, chocado, e pergunta:

– A ideia foi sua?

Ah. Então Jake também achava que tinha sido de Mike. Fico me perguntando por que diabos Edward não lhe contou.

Edward lhe lança um olhar exasperado:

– Grande coisa. – Me dá uma rápida olhada. – Falo com você depois. – E volta para a festa.

Agora estou só com Jacob e não posso deixar de lembrar o que aconteceu entre nós há exato um ano. Espero que ele não traga isso à tona.

– Do que mais vocês estavam falando? – Jake me pergunta. Está tentando mostrar indiferença, mas há um tom de suspeita em sua voz.

– Nada – digo. – Só estava agradecendo, só isso.

Ele me olha com ar desconfiado, o bastante para que eu diga:

– Qual é a tua, Jacob?

– Não sei – ele diz, enquanto passa por mim para ir ao banheiro, e eu me lembro que foi por isso que vim até aqui, para começo de conversa. – De onde eu estava, pareceu muito mais do que um agradecimento.

Olho pra ele com um uma expressão maluca.

– Que seja. Pare de ser tão esquisito.

– Não estou sendo esquisito – ele diz na defensiva, e agora posso ver as engrenagens atrás dos seus olhos castanhos. Está se lembrando do meu último aniversário, sei disso.

– Ótimo – retruco antes que ele tenha chance de tocar no assunto. Sei que seria algo com frases como: "Sempre se saindo bem no seu aniversário" ou coisa parecida. Nunca discutimos o que aconteceu naquela noite, e quero que continue assim.

Desisto do banheiro, deixando que ele o ocupe, e me apresso pelo corredor de volta à cozinha, onde me abasteço de mais vinho. Quando minha taça não tem mais uma gota, estou me sentindo muito bem em relação aos 30 anos, e faço o possível para excluir tudo mais da minha cabeça.

Não penso em Jacob.

Não penso em Edward.

Pelo menos, tento não pensar em Edward. Mas, quando mais tarde descubro que ele também fez a playlist que estamos ouvindo, com todas as minhas músicas favoritas (muitas do Zeppelin), não consigo evitar.

Não posso parar de pensar nele.

Não posso parar de pensar no pacto.

Na manhã seguinte, acordo com uma ressaca furiosa. Não é bem como pensei que entraria nos meus 30, mas, mais uma vez, a esta altura era de se esperar. Claro, eu costumava conseguir traçar uma garrafa de vinho branco e alguns coquetéis sem me sentir mal demais, mas agora estou mal. Talvez as ressacas sejam mais difíceis de lidar aos 30.

No lado positivo, não acordo ao lado de ninguém de quem me arrependa.

Mike dorme profundamente ao meu lado e ronca macio. Passo alguns minutos fitando-o com olhos enevoados, tentando acordar.

De fato, ele é um espécime bonito. Sou sortuda, sou mesmo. É errado eu ter que ficar repetindo isso para mim?

Saio devagar da cama e vou ao banheiro, a única suíte da casa. Jogo água fria no rosto e analiso meus poros por alguns instantes antes de engolir dois Advil sem água. Tenho alguns produtos de beleza guardados no armário de remédios, então passo um pouco de base hidratante e aplico blush em creme nos lábios e nas faces.

Ainda parece que fui atropelada por um caminhão.

Depois de ter vestido uma das camisas xadrez de Mike e enfiado uma de suas cuecas, desço a escada e pisco surpresa ao ver um monte de gente caída por toda parte. A última coisa de que me lembro de ontem à noite foi revelar a Leah o quanto eu amava Michael Keaton como Batman, e então alguém deve ter me levado para a cama.

A própria Leah está dormindo em um dos sofás, com Jacob no chão logo abaixo, deitado sobre um monte de casacos. O outro sofá está ocupado com Dan. Não vejo Edward em parte alguma, e me pergunto como ele foi para casa. Não consigo me lembrar de vê-lo sair, mas me lembro de sentir uma grande decepção quando ele se foi.

Tenho que dizer que estou um tanto aliviada. Pela tensão estranha entre nós mais cedo, não seria muito bom se ele ficasse por perto. Talvez eu conversasse com ele sobre Michael Keaton em vez de com Leah, e então o que teria acontecido? A bêbada e trintona Isabella poderia ser uma força a não ser menosprezada.

Na cozinha, faço um bule gigante de café, e já estou no fim da minha primeira xícara, entre mordidas em uma banana passada, quando todos os outros começam a se levantar. Eles gravitam à minha volta como zumbis, estendendo os braços para as canecas de café, murmurando coisas incoerentes, os rostos pálidos. A maquiagem pesada que Leah tinha nos olhos ontem à noite borrou por todo o rosto, mas ela é a mais animada do grupo.

– E aí, quando vamos acampar? – ela me pergunta.

– Quê? – Meu cérebro dá cambalhotas tentando imaginar a que ela se refere.

Está lento.

– Ontem à noite, conversamos sobre como é incrível acampar e que a gente devia viajar em casais, para acampar. – Ela olha para Jake. – Você não se lembra?

Ele faz que sim com a cabeça, embora esteja franzindo o cenho tanto quanto eu. Gente, eu devia estar muito bêbada pra conversar sobre camping. Leah não desiste:

– De qualquer modo, eu estava pensando mais sobre isso esta manhã.

– Você acabou de acordar – Jake diz a ela.

– E – ela continua – acho que conheço um lugar perfeito. Vocês já ouviram falarno Sea Ranch, logo ao sul de Mendocino?

– Claro que sim – digo a ela.

O Sea Ranch é esse resort rústico logo acima do tempestuoso Pacífico. Nunca estive lá, mas sempre passei pela região nas poucas vezes em que fui pela Highway One.

– Minha colega de trabalho tem uma casa para temporada lá, e a gente poderia usá-la num final de semana. Acho que deveríamos ir todos. – Ela olha rápido para Dan. – Menos você, Dan, porque você é solteiro e não te conheço. Mas todos os outros. Você e Mike, eu e Jacob, Edward e Tanya.

Dan dá de ombros e se serve de uma xícara de café, parecendo satisfeito de não ter sido incluído nesse grupo confuso.

– Não sei – diz Jake cauteloso. Seu cabelo está espetado em todas as direções, como se também estivesse de ressaca.

– Ah, vamos lá – diz Leah, dando-lhe uma cotovelada na barriga. – Ficaria muito barato, talvez até de graça, e seria divertido.

– Mas não é um acampamento de verdade – observo, também sem ter certeza de como me sinto em relação à coisa toda.

Ela franze o nariz, exibindo o piercing do seu septo que combina com o de Jacob.

– A esta altura, passamos do ponto de acampar. É assim que os adultos acampam.

– E o trabalho? – Jacob pergunta.

– Dan cobre a sua ausência, certo Dan? – ela pergunta, e Dan, o silencioso Dan, apenas concorda com a cabeça.

– Mas e o trabalho da Bella? – Jake acrescenta.

Ele tem razão. Sou só eu no trabalho, e não tem como contratar alguém de um dia para o outro. Não só eu estaria presa com alguém que provavelmente não seria a pessoa certa como teria que deixá-la encarregada da loja. Não vai rolar.

– Sinto muito – digo a ela. – Jacob tem razão. Sou a única funcionária. Tenho que trabalhar.

– Então, feche a loja neste fim de semana – ela diz. – Quando foi a última vez que você teve um descanso decente? Até mesmo um fim de semana?

Tento não pensar nisso porque sei a resposta. Visito minha mãe em alguns domingos. Fora isso, há um ano não vou a lugar nenhum. Uma porra de um ano inteirinho.

– Eu sei, mas é assim que as coisas são – digo-lhe. – O trabalhador é um otário.

..::..

Passam-se alguns dias e estou prestes a fechar a loja quando recebo uma mensagem de texto de Edward. Não soube dele desde o meu aniversário, nem mesmo no dia seguinte. Soube que Tanya tinha ido buscá-lo enquanto estávamos todos entretidos num karaokê, e imagino que, depois disso, ela não tirou os olhos dele.

Ei, Baby Blue, Leah acabou de me mandar uma mensagem perguntando se eu e Tanya queríamos ficar no Sea Ranch com ela e Jacob no próximo fim de semana. Acho que você deveria ir.

Isto, pra mim, era novidade. Não achava que eles ainda iriam acampar caso eu não fosse, mas aí está.

Fala, caubói. Disse a Leah que não poderia ir. Trabalho.

Ela me contou. Mas ainda acho que você deveria ir. Feche a loja no final de semana. Feche mais cedo na sexta e você só perde o sábado.

Sábado é o dia mais movimentado aqui. Perderia um montão de dinheiro.

Nem tudo pode se limitar a dinheiro. Você também precisa viver.

É fácil pra você falar, penso.

Eu sei, mas escolhi isto. Sabia que teria que fazer sacrifícios.

Você vai se acabar, Bella. Por favor, estou preocupado com você. Precisa de uma maldita folga, uma chance pra relaxar.

Há uma pausa e percebo que ele está escrevendo mais alguma coisa. Prendo a respiração e espero. Surge: Eu ficaria muito feliz se você fosse. Por favor, estou com saudade.

Inspiro ainda mais fundo. Edward não costuma ser assim. É uma pedra, impassível, insensível. Não é do tipo de dizer a ninguém, seja lá quem for, que sente saudade. Depois disso não diz mais nada, então sei que está esperando minha resposta.

Realmente, não tenho escolha.

O.k., escrevo de volta. Vou fechar a loja no fim de semana. Só porque você tem razão, preciso mesmo de uma folga.

Era isso que eu queria ouvir.

Solto o ar devagar e vejo a última pessoa sair da loja de mãos vazias. Com certeza, vai me prejudicar fechá-la por um dia, mas acho que meus danos seriam maiores se eu morresse cedo de tanto trabalhar. Se conseguir ignorar o sentimento de culpa, talvez, a longo prazo, tirar uma folga se provará a melhor opção. Digito rápido uma mensagem para Mike sobre os planos, sem nem ao menos saber se ele conseguirá escapar do trabalho. Mas ele consegue, claro. Só vai ter que abrir mão de mais uma festa. Pobrezinho.

Então, acho que, afinal de contas, estou indo numa viagem de casais. Uma bola se forma no meu estômago, e percebo que minhas reservas não tinham nada a ver com o fechamento da loja, mas com algo mais. É quase como se esta viagem fosse mais do que apenas uma viagem. Este é um fim de semana em que absolutamente tudo poderá mudar.


E com certeza tudo irá mudar :3

O James é um puto, eu sei, quem comentou sobre ele não ajudar.. Não, ele não tem vontade de ajudar. Puto(2).

FELIZ 2019, MOÇADA! MUITA SAÚDE, PAZ E DINHEIRO :D