Porque você não faz isso direito
Hoje é feriado aqui. Acordei às quatro horas da tarde e comi o café da manhã mais delicioso do mundo. Eu e a Lil ficamos acordadas até as dez discutindo "O ACONTECIMENTO", como ela tem chamado o meu... tudo bem, o meu amasso com o Sirius. Me fez contar todos os detalhes e a cada oportunidade dava um suspiro e falava "Ai, eu sabia!". Sabia de quê? Afinal de contas como alguém poderia saber o que estava acontecendo, se nem Sirius, e estou bem certa disso, não fazia idéia do que estava fazendo.
Estou deitada, usando minha camisola verde-limão, no tapete do quarto da Lils, com um pote imenso de bolinhos de nozes coberto com açúcar mascavo enquanto ela fala com James ao telefone. Estou começando a ficar sonolenta com toda essa lengalenga melosa e sem sentido quando a ouço perguntar numa voz diabética, de tão açucarada:
-Você tá sabendo que a Lene e o Sirius deram o maior pega, né?
-LILY EVANS!-Me levanto num pulo e tento arrancar o telefone de sua mão.
-Xiu, Lene! Que eu tô tentando descobrir se ele falou de você!-Ela diz rindo enquanto me empurra com os pés.
-Ai, meus Deuses!-Posso sentir minhas bochechas ficando roxas com a vergonha.
-O Jay mandou você ficar de boa aí!-Lils fala dando risada.
Estou absurdamente indignada com esse tratamento hostil e pouco respeitoso da minha privacidade e dos meus amassos, porém, a curiosidade é tão grande que não consigo sair do quarto. Sim, ás vezes parece que eu não tenho orgulho próprio.
Acho que vou ter um enfarto enquanto ouço-a fazer perguntas murmuradas e comentários sussurrados. Creio que ela sente pena do meu sofrimento e diz pro James que liga mais tarde e, pelo que ouço, ele a está fazendo jurar que não vai me contar nada. Não sei por que ele a faz jurar, é obvio que assim que desligar ela vai me contar tudo.
Lils coloca o fone no gancho e pergunta:
-Alguém está amando?
-Eu não estou amando!-Guincho furiosa.
-Ah, bom, bem...por que – Lily parece constrangida-o Sirius aparentemente também não está.
Ela se joga no chão, me olha de lado, levemente preocupada com minha reação, e enche a boca de bolinhos. Estou estatelada na cama com os olhos arregalados, espantada demais pra dizer qualquer coisa. De súbito me sento, ainda com os olhos imensos e pergunto numa voz fantasmagórica:
-Ele não falou sobre mim?
-Bem, não muito-ela diz revirando os olhos – mas ele ainda não foi para casa do Jay, então vai ver é que ainda não deu tempo!
Não sei dizer por que, mas sinto uma leve frustração quando fico sabendo que ele não comentou nada. Eu sei que não significou nada, pelo menos assim logo de cara e que tipo, a gente só se pegou uma vez, mas cá entre nós, depois de todas essas batalhas verbais e demonstrações de quem tinha mais força de vontade e palavras ferinas para proferir, pensei que ao menos...
-LENE!
-AHHHHHHHHHHHHHHHH! Que susto, sua maldita! Quer me matar do coração, é? E me deixar surda também pelo visto. -Acrescento fazendo uma cara azeda.
-Eu chamei um zilhão de vezes e você não ouviu, até taquei um bolinho na sua cara!-Ela diz apontando.
Olho ao redor e vejo um bolinho no meu colo.
- Você se assusta muito fácil. - Conclui comendo mais bolinhos.
Esse comentário me faz pensar nele. Mas que coisa! Porque eu tenho que pensar nele, se ele nem pensa em mim?! Não que eu esteja realmente morta de amores e tudo mais, embora talvez você ache isso agora devido minha atitude no passado, mas puxa vida, custava pelo menos ter comentado algo? Comentar que, sei lá, que eu tinha gosto de vinho, ou que fiz um escândalo.
Só agora percebo que Lilly ainda está falando, ela me pergunta:
-E então?
Meu Deus! Porque eu devaneio tanto?
-Humaninamns!-Murmuro insegura, tentando dar uma resposta que não seja nem um sim e nem um não.
-Ótimo! Então você toma banho primeiro, depois você faz aquela maquiagem esfumada no meu olho?
-Aham, mas - pigarreio- eu super ouvi o que você falou -dou uma risadinha forçada- mas maquiagem pra quê mesmo?
-Pra balada que vamos hoje!-Lils revira os olhos impacientes. -Lene você precisa prestar mais atenção!
Não posso dizer que não quero ir a essa festa! Ele vai saber, vai saber e vai saber que não fui por causa dele! O que eu faço?! Vou dizer que estou doente. Vou fingir demência, vou ficar demente!
Lilly está me empurrando em direção ao banheiro e ignorando todas as minhas argumentações. Ela bate a porta na minha cara e diz para eu me apressar. Droga.
Estou lavando o cabelo demoradamente, quem sabe eu consigo ficar aqui até amanhã? Eu sei que estou gastando água, mas, pelo amor, eu não quero ir. Lil está esmurrando a porta e dizendo que vai desligar a água quente se eu demorar mais um pouco.
Ferrou, ferrou bonito, ferrou total... Eu me ferrei!
Vestido midi com as costas abertas, meia calça -pois eu sinto frio- e peep toe altissímo, porque midi achata a gente que é pequena. A Lil está tãooo bonita! Está usando uma blusa vermelha de veludo com uma saia bandage e botas de salto. James passou para nos buscar e novamente, como em todas as vezes em que ele vem nos buscar e Lils desce as escadas, só faltou ele babar. Dessa vez caprichei, Lils disse que estou maravilhosa. Fiz isso porque quero esfregar minha beleza e indiferença na cara do Sirius. Eu já disse isso antes, não disse? Hum...acho que disse, estou começando a me tornar repetitiva. Enfim, vamos encontrar Sirius e Remo lá, eles queriam chegar cedo e foram de táxi.
Chegamos e o local me surpreende. É muito grande! Eu achei que seria uma coisa mais humilde, visto que estamos meio que no interior. Um imenso galpão com o nome da balada numa imensa placa de metal, deixamos nossos casacos e bolsas na guarda-volumes.
Sirius está usando uma camisa branca, você simplesmente não acredita em como ele fica bem de branco, seus olhos ficam de um cinza azulado e ele fica parecendo um anjo caído. Eu disse que ele era bonito, você só não imagina o quanto. E quando ele sorri ao nos ver chegar eu sinto como se meu estômago tivesse se evaporado.
De qualquer forma estamos todos juntos agora perto do bar ouvindo a terrível história do rompimento de Remo e Helena, não sei de onde veio isso, visto que ontem os dois estavam se devorando vivos, mas quem sou eu para achar qualquer coisa, não é mesmo? Eu visivelmente não entendo de nada.
Enquanto estou no começo de um singelo daikiri de morango, Sirius e Rem parecem querer acabar com o uísque do mundo. A sorte é que James não está bebendo, ele que vai nos levar pra casa. Devo dizer que James nem sempre foi assim, ouvi de sua boca que ele era maior party boy, do tipo sexo , drogas e rock and roll, mas desde que começou a namorar Lily tudo mudou, ela colocou juízo na cabeça oca dele. Isso não é lindo?!
Volto minha atenção para o relato de Remo que parece estar sofrendo bastante, devia estar gostando dela de verdade. Helena disse pra ele que estava ficando muito sério e que ela super queria aproveitar a vida antes de sequer pensar em namorar. Que ela estava no auge da carreira, conhecendo gente nova todo o tempo e queria aproveitar a experiência. Rem parece ter ficado muito chocado e disse algo pra ela do tipo "Helena, eu duvido que você vá se divertir mais com quer que seja!" e ela respondeu "Você sem tem em alta conta mesmo heim? Você não é o único tanquinho onde eu posso lavar a minha roupa darling!" Saiu e deixou o coitado sem saber que caminhão o tinha atingido.
Agora ele está absurdamente furioso e chamando a pobre de tudo quanto é nome, na verdade ele está sendo terrivelmente infantil e machista tanto que não consigo me segurar e digo:
-Dói mais porque você que foi dispensado né? Se tivesse sido o oposto você estaria sorrindo.
-Dói apenas no meu ego Lenezinha! Você não quer me ajudar a melhorar?-Ele olha sedutoramente pra mim e pega minha mão antes que eu consiga dizer qualquer coisa e me leva até a pista de dança.
-Odeio que me chamem de Lenezinha, me faz sentir menor do que eu já sou!-Replico brava, arrancando minha mão da dele. Eu também já disse isso, não disse?!
-Tudo bem Lene vamos ser adultos então!-Ele responde com um sorriso de lado. É incrível, eles três dão esse mesmo sorriso . Será que eles treinam juntos? Ficam praticando na frente do espelho, só pode. Porque sempre tem esse efeito devastador sobre a minha pessoa. Mesmo o James, quando ele sorri desse jeito eu sinto como seu meus órgãos virassem líquido. Que Lily nunca descubra, amém. Imagino o que ocorrerá se um dias os três, ao mesmos tempo, sorrirem assim pra mim. Acho que passarei desta para uma melhor ou me tornarei uma pasta líquida e terei que ser levada aos lugares dentro de um potinho.
Estamos dançando empolgadamente quando tenho um vislumbre de Sirius encostado no bar nos olhando, seus olhos estão sombrios e sua boca tem um vinco de irritação. Eu devo dizer que Rem está realmente elétrico suas mãos fazem rápidos passeios em locais indevidos do meu corpo, tão rápido que sequer tenho tempo de repreendê-lo. De repente ele está atrás de mim e sinto sua respiração no meu pescoço e me sinto bastante incomodada, qual o problema desses garotos? Não tem a menor consciência espacial!
Quando me viro pra ele e tento dizer para parar de invadir meu espaço pessoal ele me beija. Sua língua invade minha boca antes que eu possa detê-lo e eu respondo minimamente antes de conseguir empurrá-lo. Ele parece realmente alucinado, seus olhos estão com um brilho fundo e seus dentes brancos sorrindo pra mim o fazem parecer estranho, de uma forma que não compactua com a imagem que fiz dele. Não gosto disso. Sinto ondas de pânico começarem a ressoar no fundo do meu ser.
Dou um passo atrás e antes que eu possa perceber Sirius apareceu e deu um murro na cara dele. Os dois estão rolando no chão se socando furiosamente. Quando o segurança consegue separá-los ele começam a gritar e se xingar.
-Você não teve capacidade de segurar a garota que você queria, toque na Marlene de novo e eu não respondo por mim!-Sirius grita se debatendo violentamente nos braços do segurança gigantesco que o segura pelo pescoço.
Preciso dizer que estou chocada? As veias dele saltam no pescoço e seu rosto está horrivelmente vermelho. Sirius Black está com ciúmes de mim! Há!
-Se você tem medo da competição o problema é seu! E eu não sabia que você era dono dela ou de qualquer uma!-Remo retruca rindo de modo assustador e tentando se soltar da chave de braço do outro armário que o segura.
De alguma forma Sirius consegue se soltar e pula em cima do Remo, cujo supercílio começa a sangrar depois de um soco e ambas as camisas estão rasgadas e manchadas de sangue. Remo acerta Sirius cujo nariz começa a sangrar. Eu só consigo ficar olhando de longe não conseguindo acreditar que eles estão fazendo isso.
Tudo bem, foi divertido no início, mas já deu. É muito pra uma Marlene só, uma fúria incandescente começa a crescer dentro de mim e de repente pulo entre os dois distribuindo chutes e pontapés. Deve ter doído a beça, pois eu chutei com o salto do sapato e, você sabe, saltos são armas.
-Quem vocês pensam que são para me tratarem assim?! - Ralho em altos brados ao mesmo tempo em que estapeio os dois.- Eu tô me lixando, se vocês querem se matar o problema é de vocês, mas não me metam no meio disso!
Saio batendo os pés e encontro James e Lils se engolindo no bar de verão, arrastoos dois até o estacionamento e solto todas as minhas feras e abros as minhas asas sobre eles. Quero ir embora, odiei tudo isso.
Deito no banco de trás com a cabeça no colo da Lils enquanto ela fala calmamente que pelo menos eles estavam brigando por mim e não um pelo outro. Olho pra ela estarrecida e acabo dando uma risada, a lógica da Lil as vezes é surpreendente. Os dois aparecem meia hora depois de cabeça baixa e me pedem desculpas por serem idiotas e tudo mais, eu resmungo qualquer coisa porque, na real, ainda não estou a fim de falar com eles.
James deixa Remo na casa dele e depois a gente nas nossas respectivas casas, quero dizer, deixa o Remo, eu e o Sirius, porque vai dar uma volta no quarteirão pra se despedir "apropriadamente" da Lils, se é que você me entende.
Estou abrindo a porta quando percebo que não estou sozinha, Sirius está atrás de mim com os olhos baixos e um horrível hematoma em seu nariz. Recuso-me a sentir pena dele e finjo que não o vi, ele segura meu braço antes que eu possa entrar, suspirando pergunto:
-O que você quer?
-Eu... Desculpa Lene, sério mesmo. Nós fomos dois idiotas!
-É! Foram mesmo! Eu não sou sua propriedade Sirius Black! Você não pode e nem deve me tratar como se fosse. -Digo irritada. Os meus sentimentos feministas, que no começo da briga estavam meio dormentes pelo choque, eu admito, agora acordados e cheios de indignação.
-Você tem licença para porte de armas?-Ele pergunta rindo depois de um tempo em que ficamos nos encarando.
-Quê?-Questiono confusa.
Ele aponta pro meu pé e pros meus sapatos.
- Doeu mais do que os soquinhos ridículos do Remo.
Arqueio as sobrancelhas e dou um peteleco na ponta do seu nariz sanguinolento.
-Ai, Len!
-Não foram tão insignificantes então, não é?- Um sorriso sarcástico brota nos meus lábios e não consigo escondê-lo.
-Hunf.-Ele murmura.-Você me desculpa, Len?
Seus olhos estão tão lindos essa noite que não consigo deixar de olhá-los e a expressão de arrependimento em seu rosto é real demais pra se ignorar, tanto que assinto e respondo:
-Tudo bem, deixa pra lá.
-Estava flertando inocentemente com a Sheila, ela me beijou, mas eu não correspondi,muito... embora ela seja bastante persistente. -Depois de um tempinho ele acrescenta. - Eu nunca tive nada com ela.
-Que bom... Pra ela!- Arremato maldosamente.
Entro no pub e fecho a porta na cara dele.
Eu não acredito no que eu acabei de dizer.
Porque você não faz isso direito, Marlene?
