Quebradiço como gelo
If you could only see the beast you've made of me
I held it in but now it seems you've set it running free
Screaming in the dark, I howl when we're apart
Drag my teeth across your chest to taste your beating heart
Quando abriu os olhos e encarou a paisagem do lado de fora da janela, flocos de neve dançavam no ar e aos poucos cobriam o chão, formando um tapete branco e fofo. Jon não estava deitado em nenhum lugar próximo a ela e Arya não sabia dizer ao certo quando ele deixou o quarto, tão pouco se voltaria. Isso a deixou subitamente consciente do frio que estava fazendo e de como seu corpo estava gelado e trêmulo.
Apesar do frio, ela não se mexeu, nem tomou qualquer iniciativa para se cobrir novamente. Ficou deitada sobre a cama, abraçada às pernas e tremendo. Era uma sensação desoladora. Sentia-se mais solitária agora do que durante os anos que viveu vagando de cidade em cidade, sem um nome, sem uma casa e sem ninguém para cuidar dela. Quando ela não tinha nada, se agarrava as lembranças de Jon e isso lhe bastava para agüentar mais um dia. Seu querido Jon estava morto e fora cruelmente substituído por uma cópia fiel, desprovida de carinho e qualquer afeição por ela.
Jon Snow estava morto e por ele suas lágrimas caíram, molhando o travesseiro e fazendo-a soluçar convulsivamente. E seus piores pesadelos se tornavam realidade diante dela. Uma rainha, presa num casamento arranjado e atada a um homem que agora a odiava. Se tentasse fugir, se tentasse correr, mais uma guerra desnecessária teria início e ela estaria desonrando o nome de sua família e a memória do próprio pai. Não havia espada que pudesse salvá-la agora, não havia para onde ir. As paredes do quarto se fechavam ao redor dela e tudo o que Arya queria era gritar.
As horas se arrastaram, lentas e penosas, sem que ela tivesse consciência do tempo que já havia se passado. Ela não deixou de chorar em momento algum. Talvez Ponta Tempestade fosse a melhor escolha, mas agora era tarde de mais para voltar atrás. Tudo o que ela podia desejar era que Jon Targaryen não decidisse atacar as terras de Gendry em busca de vingança.
A neve havia começado a cair perto do nascer do dia e Jon assistiu a queda dos primeiros flocos sentado ao pé da árvore-coração. O bosque sagrado de Correrrio não trazia a mesma paz que o bosque em Winterfell, mas estar na presença de seus deuses ainda era um alívio.
O silêncio do nascer do dia era tão incomodo quanto o barulho de uma multidão de comerciantes numa feira. Ele havia lutado contra a vontade de destruir qualquer coisa que estivesse ao alcance de suas mãos e foi com nojo que ele constatou que por muito pouco não havia agredido Arya no meio de um acesso de fúria.
A que ponto havia chegado para assustar ela daquela maneira? Estava furioso, sim, mas isso não justificava nada. Ela ainda era sua esposa, ainda era sua rainha e, por tudo o que era sagrado, ainda era Arya.
Ele fechou os olhos e olhou para a espada que tinha nas mãos. Agulha era tão leve para ele que Jon tinha receio de acabar partindo a lâmina num movimento descuidado. Parecia uma espada de brinquedo, muito mais do que com aço de castelo.
Jon tocou a lâmina com a ponta dos dedos e sentiu um gosto amargo lhe tomar a boca. Ele havia sido ingênuo por acreditar que ela sempre o olharia com a mesma devoção e o mesmo amor do dia em que recebeu Agulha. Naquela época Arya o venerava e Jon era capaz de dizer que ela era a única pessoa no mundo que sempre o aceitou pelo que ele era. Eram dois desajustados e viam um no outro a única aceitação a qual tinham direito.
Então ele foi para Muralha e só os deuses poderiam dizer o que ela viveu neste meio tempo. A única certeza que ele tinha, era que ela havia se tornado uma mulher e Jon não sabia nada a respeito dela. Estava casado com uma estranha e, até onde Jon conseguia entender, ela não queria estar casada com ele. O que era para ser a união perfeita, segundo Bran, estava se tornando um desastre monumental em menos de vinte e quatro horas.
My fingers claw your skin, try to tear my way in
You are the moon that breaks the night for which I
have to howl
My fingers claw your skin, try to tear my way in
You are the moon that breaks the night for which I
have toHowl, howl
Howl, how
Jon levou uma das mãos ao rosto e massageou as têmporas. A dor de cabeça não passaria tão cedo e ele nem mesmo tinha esperanças de conseguir dormir pelas próximas noites. Aquele era o momento em que sua honra e seu orgulho eram colocados em xeque. O que fazer com Arya naquelas condições?
Suas opções se resumiam a continuar com aquele maldito casamento, ignorando o que havia acontecido e matar Gendry Baratheon na primeira oportunidade, mesmo sabendo que Arya amava o bastardo; tornar aquele casamento uma farsa e viver com ela como irmão, tão logo ele tivesse um herdeiro, arranjar um bom número de amantes e matar Gendry Baratheon na primeira oportunidade; ou conquistar a afeição de Arya de modo que ela se sentisse feliz ao lado dele e então matar Gendry Baratheon na primeira oportunidade, sem que ela soubesse da participação de Jon neste assunto.
Não que qualquer uma dessas opções fosse apagar todo rancor que ele sentia e nem mesmo sabia o por que. Tudo o que Jon conseguia processar era a sensação de ter sido traído por ela, mesmo que Arya não soubesse da existência do acordo na época. A verdade é que nos últimos anos, quando ele nem mesmo sabia se ela estava viva, Jon a colocou num pedestal e a envolveu em santidade. Saber que Arya era um ser humano, de carne e osso, movido por impulsos e desejos como qualquer outro, mexia com todas as idéias dele. Pior que isso, saber que ela escolheu amar Gendry, deixando Jon relegado a um segundo plano em suas afeições, o feria muito mais do que gostaria de admitir.
Nunca esteve preparado para dividir Arya com quem quer que fosse. A certeza de que ela jamais se casaria, a certeza de que ele sempre seria o favorito dela, a certeza de que ela sempre estaria ali para acolhe-lo, tudo isso havia sido tomado dele por um rapaz tão bastardo quanto ele próprio. E com um toque de desespero, Jon percebeu que Gendry Baratheon era um rival que lutaria contra ele em pé de igualdade.
Ambos eram bastardos de reis, ambos poderiam mobilizar exércitos e ambos poderiam torná-la uma rainha. O que poderia dar a qualquer um deles alguma vantagem em relação ao outro? Jon acreditava que o fato de conhecê-la há mais tempo seria determinante, mas Gendry foi aquele que esteve ao lado dela em suas mudanças mais drásticas. Pra completar, ela havia se entregado a ele por livre e espontânea vontade, enquanto a noite passada não havia sido mais do que uma obrigação para validar o casamento.
Jon se perguntou com que cara olharia para ela no momento que a encontrasse novamente. Se perguntou como se atreveria a tocá-la outra vez e como ela reagiria. Ambos tinham obrigações para com o reino agora e ele não poderia evitá-la para sempre. Se perguntou quando descobriu que estava tão apaixonado por ela.
Em três dias acabaria o período de núpcias em que seriam obrigados a dividir o mesmo quarto, depois disso ele poderia dar a ela o conforto de aposentos próprios e evitá-la por um tempo. Sentiu o desejo de por o exército em marcha o quanto antes e de se manter em batalha pelo maior tempo possível. Enquanto ele usasse uma armadura, enquanto ele tivesse uma espada em mãos, não haveria espaço para Arya nos pensamentos dele e todos os súditos aceitariam sem questionar.
O castelo começava a despertar quando Jon se ergueu e encarou a árvore-coração uma última vez. Tocou a casca grossa e nodosa de forma reverencial antes de dar as constas ao bosque sagrado e seguir em direção a Correrrio . Só esperava que os deuses fossem bondosos e lhe mostrassem o caminho a seguir.
Mal teve tempo de entrar no castelo, quando avistou a figura desengonçada de Tyrion Lannister. O anão parecia transtornado de alguma forma e foi até ele o mais rápido que suas pernas atrofiadas permitiam. Em suas mãos uma carta com o selo negro e o kraken estampado. Notícias dos estaleiros, no mínimo. Asha Greyjoy finalmente achou por bem comunicar os avanços, ou alguma tragédia.
Now there's no holding back, I'm making to attack
My blood is singing with your voice, I want to pour it out
The saints can't help me now, the ropes have been
unbound
I hunt for you with bloody feet across the hallowed groundLike some child possessed, the beast howls in my
veins
I want to find you, tear out all of your tendernessAnd howl, howl
Howl, howl
- É bom vê-lo de pé tão cedo, Vossa Graça. – o anão disse imediatamente – Por um momento achei que teríamos dificuldades em tirá-lo de seus aposentos. Não importa, está de pé e o assunto é urgente.
- Algum problema com os drakares? – Jon perguntou enquanto Tyrion lhe estendia a carta parcialmente amassada.
- Problema algum. – o semblante do anão estava dividido entre a satisfação e a dúvida.
- Então qual é a urgência? – ele perguntou.
- Talvez Vossa Graça queira saber das notícias de Asha, antes que nossa amada rainha tenha a chance de saber. – Tyrion disse sério – Nossas correspondências com os estaleiros foram interceptadas. Asha não recebeu as ordens de cancelar o ataque e zarpou da costa do Vale há quase um mês. – Jon sentiu a boca secar.
- E o que aconteceu? – perguntou ansioso.
- A esquadra de Ponta Tempestade foi esmagada contra a baía ontem. – Tyrion disse sério – Não sobrou muito para as defesas do lugar e os lordes vassalos deixaram suas armas de lado e decidiram dobra os joelhos.
- E quanto à Gendry Baratheon? – Jon perguntou sério – O que aconteceu com o bastardo?
- Derrotado. – Tyrion disse de forma cautelosa – Asha Greyjoy o derrotou em combate singular e fez dele prisioneiro. Ela aguarda ordens quanto à execução dele.
- Se não foi capaz de aguardar ordens sobre o ataque, como posso ter certeza de que ele já não está morto? – Jon esbravejou – O que essa mulher tem na cabeça?
- Água salgada, eu imagino. Não podemos negar que é um inimigo a menos e depois do cativeiro de sua prometida, essas notícias vão elevar o moral das tropas. – Tyrion concluiu – Só achei pertinente avisá-lo tão cedo por que não sabia dizer a reação que estas notícias teriam sobre sua noiva.
- Fez bem. – Jon disse parecendo exausto – Arya não deve saber disso por mais ninguém. Eu direi a ela pessoalmente. – Tyrion lançou ao jovem rei um olhar piedoso.
- Eu me pergunto o que Robert teria feito à Lady Lyanna caso, a senhora sua mãe tivesse sido resgatada da Tower of Joy com vida. – Tyrion disse sério – Não tenho razões para crer que ela teria uma vida feliz ao lado dele, Robert não era o mais sensível dos homens e os deuses são testemunhas de seu orgulho lendário.
- Aonde quer chegar? – Jon o encarou com olhos severos.
- Não deixe o orgulho e a raiva lhe subirem a cabeça. – Tyrion retrucou – Pode não ter sido o primeiro, mas isso dificilmente é o fim do mundo. Esperava uma donzela em sua cama e uma garantia de que ela amaria apenas ao senhor. Ela não era donzela, mas isso não significa que ela não o ama. Você pode escolher viver o resto de seus dias como Robert e Cersei viveram, ou pode ter em Arya sua maior aliada e talvez sua única amiga verdadeira. A escolha é sua e uma noite não deveria servir de fator determinante para nada.
- Só gostaria de saber como o senhor tem conhecimento do que se passa nos meus aposentos e na minha cama. – Jon o encarou constrangido.
- Brienne foi até o corredor de seu quarto para verificar o que poderia ser feito quanto à guarda pessoal. Ela estava constrangida em ter que mandar soldados para guardarem a porta de um casal recém casado, mas graças aos deuses foi ela quem viu Arya saindo do quarto e a escoltou de volta para dentro antes que mais alguém a visse. Brienne reportou o ocorrido a mim e não foi difícil deduzir o resto. – Tyrion respondeu – Sugiro que tenha mais cuidado com isso, se não quer que alguém que deseje sua viúves tenha argumentos para conseguir isso.
- O que teria acontecido com minha mãe, se Robert Baratheon a tivesse recuperado? – Jon perguntou por fim.
- Ele teria se casado com ela, nem que fosse para provar para o mundo que a amava e que toda aquela rebelião tinha de fato um propósito. – Tyrion respondeu – Mas Lyanna Stark teria sido a mais humilhada e mais maltratada das mulheres. Robert não a deixaria esquecer nem por um minuto da traição e ainda teria isso como desculpa para se enfiar em todos os bordeis dos Sete Reinos. Sem mencionar as agressões.
- Os deuses são irônicos. – Jon respondeu – Meu pai roubou a noiva de Robert Baratheon e agora o filho dele roubou a minha noiva. O que um Targaryen faria nestas condições?
- Não deve se perguntar o que um Targaryen faria, nós dois sabemos que o sangue do dragão pode correr em suas veias, mas o que governa seus atos é o som do uivo dos lobos. Deixe que a honra dos Stark fale mais alto. Pense em sua mãe e pense que esta garota a quem deu uma coroa é a mesma que o venerou a vida toda. Com um pouco de empenho e sorte, ela pode acabar se tornando uma esposa muito melhor do que poderia supor.
- Obrigado pelo conselho. – Jon agradeceu e recebeu em troca um sorriso deformado, mas genuíno.
- De que serve uma Mão que não dá conselhos, ainda que estes não sejam solicitados? – Tyrion riu do próprio gracejo – De todos os reis que servi, você é de longe aquele que tem as maiores chances de ser o melhor rei que Westeros já viu desde Aegon, o Conquistador.
Jon agradeceu uma última vez e seguiu seu caminho até os aposentos destinados a ele e Arya com a sensação de que estava indo em direção à pior das batalhas.
Mesmo que sua raiva o levasse a pensar na morte de Gendry Baratheon, ter a chance de levar este plano a cabo era algo muito mais delicado do que aparentava. Ponta Tempestade estaria desprotegida, sobrando apenas o jovem Edric Storm para assumir a casa Baratheon. Além disso, ele não sabia dizer qual seria a reação de Arya ao saber.
Crises de choro, ataques de histeria, súplicas, nada disso condizia com o temperamento dela, mas Jon desconhecia o que uma mulher como Arya fazia quando seu amante estava em situação de perigo. Amante...Só de pensar naquela palavra a idéia de mandar o bastardo para a forca parecia mais apelativa.
Be careful of the curse that falls on young lovers
Starts so soft and sweet and turns them to hunters
Hunters, hunters, hunters
Hunters, hunters, huntersThe fabric of your flesh, pure as a wedding dress
Until I wrap myself inside your arms I cannot rest
The saints can't help me now, the ropes have been
unbound
I hunt for you with bloody feet across the hallowed groundAnd howl
Ele abriu a porta do quarto e a viu sentada junto a janela, observando os flocos de neve caírem placidamente, vestindo um longo manto cinza chumbo. Os olhos vermelhos e o cabelo desgrenhado, unhas roídas e uma expressão desolada. Ele havia causado tudo aquilo a ela.
Fechou a porta do quarto atrás de si e notou, pelo canto do olho, que a bandeja de comida estava intocada. O leito ainda estava desarrumado. Arya não ousou encará-lo e tudo o que Jon conseguia pensar era em como havia chegado àquele ponto.
- Um corvo chegou bem cedo esta manhã. – ela comentou num tom distante – Alguma notícia? Já estão lhe enviando propostas de casamento? – a voz dela estava carregada de raiva e mágoa. Jon segurou Agulha com força em suas mãos. – Quanto tempo até desfazer o casamento?
- Está tão desesperada assim para se livrar de mim? – ele rebateu com amargura – Não há proposta alguma e o casamento não será desfeito. – ele respondeu sério – Bem ou mal, estamos atados um ao outro pelo resto da vida.
- Como queira. – ela respondeu enquanto tocava o vidro da janela com a ponta dos dedos.
- Um corvo chegou esta manhã. – ele disse ponderadamente – Asha Greyjoy não recebeu minhas ordens de cancelar o ataque à Ponta Tempestade. Os drakares zarparam e ontem a frota de Ponta Tempestade caiu. Os vassalos dobraram os joelhos e esperam misericórdia.
Ela levou a mão à boca numa tentativa de abafar o som de espanto. Arya se agarrou ao manto que usava com tanta força que seus dedos chegaram a ficar esbranquiçados. Ela temia por Gendry Baratheon...Ela temia pela vida do amante e não fazia a menor questão de disfarçar isso.
- Asha tomou Gendry Baratheon como prisioneiro e aguarda ordens quanto ao que deve fazer com ele. – Jon completou. Arya abaixou a cabeça, socando a parede com força em resposta.
- Vai matá-lo. – ela sussurrou – Do que adiantou eu ter voltado? Vai matá-lo do mesmo jeito...
- Ainda não está decidido. – Jon respondeu, caminhando até a cadeira junto à escrivaninha e se sentando para observá-la melhor – Eu disse que ele é prisioneiro, não que foi condenado.
- Por que está me falando isso? Pra me torturar também? Vai me obrigar a assistir a execução, assim como Joffrey obrigou Sansa a assistir a decapitação do nosso pai? – ela se virou para encará-lo. Seus olhos vermelhos não tinham mais lágrimas – O que quer que eu faça?
- Me diga você! – Jon retrucou perdendo a paciência – O que eu devo fazer com o seu amante? – ela lançou um riso amargo a ele como resposta.
- Meu amante? Você tem idéias extraordinárias às vezes, Jon. – ela respondeu – É como se estivesse na cama dele minutos depois de ter me casado com você. Qual parte do "eu não fazia idéia de que existia um contrato" que você não entendeu? Eu o traí? Até onde eu sabia você era um membro jurado da Patrulha da Noite, um celibatário, e eu não tinha qualquer expectativa de voltar a vê-lo. Então pare de me olhar com essa cara de nojo, pare de ficar falando de como eu o ofendi apenas porque num momento de solidão e fraqueza acabei me deixando levar por Gendry. – ela o encarou com toda determinação e força do Norte estampada nos olhos vermelhos – Eu estou aqui, não estou? Eu fugi de um casamento com ele tão logo soube que você procurava por mim, que me queria de volta! Eu vim, lhe prestei um juramento de lealdade e, contrariando tudo o que eu acredito, eu me casei com você! Me tranque numa torre, numa masmorra, arranque minha cabeça e a coloque num espigão se quiser! Isso não trará seus pais de volta, isso não o fará melhor que Robert Baratheon, nem o transformará em Rhaegar Targaryen!
Jon ficou calado diante da explosão dela. Arya estava tão segura de cada palavra, tão determinada a revidar cada uma das acusações que ele havia feito até então, que ele não teve outra alternativa se não ouvir calado ao que ela tinha a dizer.
- Se está tão enojado com a minha presença, vá embora de uma vez. Faça de conta que eu não existo e nunca mais coloque os pés dentro dos meus aposentos. Não se dê ao trabalho de lembrar que um dia houve uma Arya Stark e quanto a Gendry, faça o que bem entender com ele. Mostre pro mundo o quão poderoso é o novo rei! Isso nunca vai mudar o fato de que você e ele são exatamente a mesma coisa. Dois bastardos de muita sorte, dois bastardos com quem um dia eu me dei ao trabalho de me preocupar e com quem por acidente acabei dividindo a cama!
- Já chega! – Jon finalmente encontrou forças para por um fim a tudo aquilo. Ele seguiu até ela com passos firmes, deixando Agulha sobre a escrivaninha – Você falou tudo o que tinha para falar e agora é a minha vez de pelo menos me defender de tudo isso. Em primeiro lugar, eu não estou enojado, como diz. Eu não vou trancá-la numa torre ou puni-la de qualquer modo, a menos que considere a minha presença uma punição. Não vou embora e ei de entrar em seus aposentos quando bem entender. Em segundo lugar, você não é mais Arya Stark, é Arya Targaryen, e eu jamais esquecerei de quem é, muito menos ignorarei o fato de que a tomei por esposa, ainda que você teste todos os limites do meu juramento. Terceiro, eu vim lhe comunicar sobre a prisão de Gendry Baratheon, antes que qualquer informação deturpada chegasse aos seus ouvidos e, quem sabe, mostrar alguma misericórdia em relação a ele, numa tentativa de restabelecer a paz entre nós. Aparentemente, está desabituada a esta palavra, paz.
O silêncio pairou desconfortável entre eles, enquanto ambos tentavam recuperar o fôlego perdido durante a discussão. Jon a encarou com atenção, notando como os cabelos desgrenhados davam a ela uma aparência selvagem e atraente. Também reparou que por baixo do manto ela estava nua.
As pernas brancas e torneadas não eram encobertas pelo tecido, tão pouco ela conseguia esconder seus mamilos rijos. Aquela beleza exótica e a língua afiada tornavam-na um desafio particularmente interessante. Chegava a ser vergonhoso desejar tão vencer aquele desafio.
- Me perdoe por ontem a noite. – ele quebrou o silêncio – Eu não devia ter assustado minha senhora, muito menos tê-la acusado da forma que fiz. Eu sinto muito. – ela relaxou um pouco diante dele.
- Desculpas aceitas. – ela respondeu – E me perdoe por ter me descontrolado. – Jon passou as mãos pelo rosto, tentando afastar o cansaço.
- Desculpas aceitas. – ele disse por fim, olhando-a diretamente nos olhos – Como foi que chegamos a esse ponto?
- Não faço idéia. – ela disse séria – Nós nunca gritamos um com o outro antes. Eu não sei mais quem você é, ou o que espera de mim. Antigamente você me defenderia de tudo, me apoiaria em qualquer decisão e agora...Um nome é tudo o que é necessário para começar uma discussão.
- Não posso prometer que vou manter a calma toda vez que falar dele, mas eu juro que vou me esforçar. – Jon disse determinado – E quanto ao destino do bastardo, ele vive até segunda ordem. Será tratado de acordo com a importância do sobrenome que carrega. Se concordar em prestar juramento de lealdade a mim, abdicar de toda e qualquer pretensão em nome dele e de seus descendentes e manter a paz do rei como senhor de Ponta Tempestade, então ele receberá meu perdão. Estes termos são aceitáveis?
- Muito gracioso de sua parte. – ela respondeu desconfiada.
- Estas são apenas as condições dele. – Jon completou – Quanto a você. Nunca mais se referirá a ele pelo primeiro nome, tão pouco o verá outra vez, salvo em caso de algum evento oficial e tão somente quando eu estiver presente. Qualquer correspondência entre vocês está proibida também.
- Eu gostaria de entender a necessidade de estabelecer condições para mim também. – ela o encarou confusa – Por que tomar atitudes tão tolas quanto essas, Jon?
- São as minhas condições. É com elas que você comprará a vida dele ou não. – Jon respondeu enquanto se aproximava dela – É muito simples. Eu nunca vou esquecer que ele tentou roubar você de mim, também não darei a chance para que ele tente fazer isso outra vez. – Jon levou uma das mãos até a cintura dela, puxando-a pra junto de si, enquanto com a outra mão lhe acariciava o rosto – Não confio em ninguém que tenha o sangue Baratheon nas veias.
- Está ficando neurótico. – Arya disse sentindo o hálito dele batendo contra a pele de seu rosto. Os lábios dele eram uma distração inconveniente àquela distância e Arya sentia suas pernas trêmulas diante da expectativa – Não tem que se fazer de marido ciumento pra mim, ou pro resto do mundo. Ninguém realmente espera que um casamento nessas condições tenha grandes demonstrações de sentimentos.
Jon puxou-a pela nuca, deixando suas bocas a milímetros uma da outra. O pulso acelerado dela era evidente em suas bochechas coradas.
- Mas, minha senhora, eu sou um marido ciumento. – ele disse num sussurro, deslizando a mão para dentro do manto dela para sentir um dos mamilos rijos em suas mãos. Ele se apossou da boca dela, não dando tempo para que Arya dissesse se quer uma palavra em resposta.
Be careful of the curse that falls on young lovers A man who's pure of heart and says his prayers by If you could only see the beast you've made of me
Starts so soft and sweet and turns them to hunters
night
May still become a wolf when the autumn moon is
bright
I held it in but now it seems you've set it running free
The saints can't help me now, the ropes have been
unbound
I hunt for you with bloody feet across the hallowed ground
(Howl, Florence + The Machines)
Nota da autora: EEEEEEEEEEEEE laiá! Brigas, brigas, mais brigas. Pois é, um corvo que não chegou e Asha Greyjoy invadiu Ponta Tempestade. A vida do Gendry fica complicada e a do Jon já virou de pernas pro ar há muito tempo. Questão delicada essa, o que fazer com o cara que está apaixonada pela sua mulher e pode a qualquer momento decidir que é uma boa idéia atacar e roubar ela de volta. Ânimos exaltados e eu nem mostrei o que está rolando em Ponta Tempestade ainda XD. Espero que gostem e comentem. Pode ser que o próximo demore um pouquinho mais.
A special thanks to RaverSawyer and the google translator. Hope you enjoy this chapter, darling.
Bjux
