N/A: Make It Rain. Make It Rain. Make It Rain.
Fire
Eve chutou uma lata de lixo, frustrada. Sangue escorria do lábio aberto e o lado esquerdo do rosto já começava a inchar. O que havia acabado de acontecer ela não sabia. Sabia só que suas costelas doíam e a adrenalina aos poucos começava a deixar seu corpo. Ela cambaleou alguns metros adiante, sentindo seu estômago ceder ao excesso de uísque e se apoiando em uma parede, ignorando o telefone que vibrava em seu bolso. Por Deus, como ela podia ser tão fraca?
Encostou o rosto na superfície fria da parede por alguns segundos enquanto esperava que seu estômago se acalmasse, e continuou em frente. Ela era tão burra. As duas eram. Com aquelas brigas constantes. Com aquela atração ridícula que aumentava cada vez mais. E ela por se deixar ceder àquela tentação idiota. Ela era casada, diabos. Casada. Ela tinha um marido mais que demais, como diria Mavis, e, mesmo assim, estava mais atraída do que nunca por aquela detetive idiota de Boston. Por aquela detetive e seus olhos e cabelos cor de carvão. Por aquele corpo esguio levemente definido por músculos. Por aquela covinha no queixo que ela mesma tinha e rosto quadrado com maçãs altas. E aquela teimosia. Ah, aquela teimosia! Aquela teimosia que ia de encontro com a sua e fazia com que as duas vivessem se digladiando pelos corredores da delegacia.
Eve suspirou, exausta, procurando onde tinha deixado o carro. Tentaria ir para casa tomar um banho quente e relaxar... A quem ela estava enganando? Ela não conseguia relaxar nas últimas semanas. Quando não era algum caso, era Jane invadindo a sua mente de formas que ela não podia mais suportar, e mal conseguia quietar a mente algumas horas por noite antes que tudo recomeçasse novamente.
Encontrou o carro na esquina seguinte e entrou, tentando se decidir sobre o que fazer. Tinha que conversar com Roarke assim que voltasse à Nova Iorque. Mas também tinha que se certificar de que não destruiria seu casamento por nada mais do que uma paixão platônica. Ligou o motor e seguiu para casa, deixando tudo isso de lado, enquanto tentava se recordar por que raios de motivo ela começara uma briga em primeiro lugar.
Elas não tinham brigado. Não dessa vez. Mas Eve estava cansada daquele sentimento que a atormentava cada vez mais cada vez mais. E, depois de trabalhar até a exaustão, partira para aquele bar que ela tinha ido uma vez com os rapazes da delegacia comemorar a conclusão de um caso. E bebera, tentando esquecê-la, sabendo de que nada adiantaria. Mas continuara mesmo assim. Ninguém a esperava em casa mesmo. E quando alguém dera em cima dela... Ah! Ela dera um murro no sujeito. E agora estava toda roxa para provar, apesar de ter quase certeza que o deixara em um estado um pouco pior quando saíra de lá. Eve estava pronta para parar na porta de casa quando notou que aquela não era a sua rua.
Eve estacionou em meio às sombras e parou por um instante, com os olhos fechados, cansada. O que ela estava fazendo? Ela não devia estar ali. Ela não devia estar enrolada em toda essa situação. Era para ela estar em Nova Iorque uma hora dessas, com Roarke e em um evento qualquer que ele tivesse que comparecer. Não ali em Boston, sem ele. Sem Roarke e com Jane. A maldição dos dias e noites dela. Jane, a maldita detetive que não conseguia sair dos seus pensamentos nas últimas semanas. Tudo por causa de um caso com dupla jurisdição. Um caso que deveria ser do FBI, mas ali estava ela, em Boston, investigando lado a lado com Jane. E a xingando mentalmente por ser tão cabeça dura e irônica como ela. Eve já não sabia mais o que fazer. Maldição, ela nem sabia mais o que estava fazendo.
Ela continuou sentada no carro, procurando uma razão para ter vindo parar ali. Tentou encontrar um único motivo para estar ali, mas não havia nenhum que pudesse ser racional o suficiente para ela. Aquilo era loucura. Vir para Boston, trabalhar com ela, ser tirada do sério constantemente, tudo bem. Mas aquela droga de atração era mais do que ela podia suportar. A porcaria da atração que estava acabando com o casamento dela e fazendo com que ela pouco se importasse com isso, desde que ouvisse aquela voz rouca novamente ou visse os olhos cor de carvão na sua frente. Aquela atração estava a levando a fazer algo que ela nunca fizera antes e estava perto demais de comprometer o julgamento dela.
Racionalmente, elas jamais poderiam trabalhar e dormir juntas. Não durante aquele caso, não com tanta coisa em jogo. Não quando elas tinham que lidar com aquele tipo de pressão. Ela não podia querer se arriscar tanto. Mas ela queria, muito mais do que desejava admitir. Emocionalmente... emocionalmente, ela estava uma bagunça. Havia aquela coisa que ela não sabia definir por Jane. E havia Roarke. Ela respirou fundo, tentando escolher entre um dos dois, sabendo que teria que largar um para continuar com o outro, mas expeliu o ar de volta, frustrada. Se ao menos ela soubesse o que Jane queria, ela teria uma chance. Céus! A quem ela estava enganando? Jane jamais ficaria com ela.
Encostou a mão gelada na porta, dando sinais de que ia empurrá-la e sair rua afora, mas continuou lá dentro, encarando o vidro fechado. O que diabos ela achava que estava fazendo? Ela devia ligar o carro, dar meia volta, ir para casa e tentar dormir ou trabalhar um pouco mais no caso. Era isso o que ela devia fazer, mas não conseguia simplesmente dar partida e ir embora. Ela precisava ver Jane. O caso podia esperar até a manhã seguinte, ela sabia disso. O caso poderia...
Ela ouviu o celular tocar e revirou os olhos. Um segundo de paz era tudo o que ela queria. Só um segundo. Atendeu, irritada, e observou o corpo mergulhado em sombras que apareceu contra a luz da janela que ela sabia pertencer à Jane.
- Vai ficar aí a noite inteira? Suba.
A irritação de Eve se dissipou em um instante e foi substituída por pura surpresa. Como é que Jane sabia que ela estava lá? Enfiou o celular no bolso e saiu do carro, respirando fundo. Trancou o Lexus e atravessou a rua, esperando Jane destravar a porta para ela. Subiu contando cada passo e tentando controlar o tremor nas mãos. O que ela estava fazendo?
Seu estômago estava se revirando novamente, e, pela primeira vez, Eve sentiu a dor nos nós dos dedos quando os bateu na porta de Jane, mas sua atenção foi completamente desviada dos focos de dor que começavam a aparecer em outros pontos do corpo quando a viu. Os cabelos emaranhados, o robe pendendo de um dos ombros e mostrando mais do que devia, terminando no meio da coxa e expondo aquelas pernas longas de que ela tanto gostava. Mas o leve sorriso no rosto de Jane desapareceu quando viu a aparência de Eve e todo o sangue que parecia manchar a roupa dela.
- O que raios aconteceu com você? – Jane perguntou, puxando-a para dentro, fechando a porta e já pegando um estojo de primeiros socorros no quarto.
Eve deu de ombros, vendo Jane andando de um lado para o outro, até parar e empurrá-la para o sofá.
- Acho que metade do sangue nem é meu.
- Acha? – Ela ergueu uma sobrancelha em descrédito enquanto tirava a camisa ensanguentada de Eve e começava a examinar os machucados um por um, fingindo não notar como a pele da tenente se arrepiava a cada toque seu.
Eve tentou se concentrar em qualquer outra coisa que não fossem os dedos passando por sua pele, mas falhou miseravelmente, ainda resistindo à urgência de tocá-la quando ela estava tão perto de si, em uma situação tão... Céus! Aquele perfume levemente amadeirado confundia seus sentidos, fazendo com que seus dedos fossem automaticamente brincar com os cabelos de Jane.
Jane encarou Eve, desconcertada, com o corpo parecendo estar eletrificado pela proximidade excessiva. Ela se moveu lentamente quando Eve levantou seu rosto delicadamente e a encarou de volta com toda aquela profundidade que parecia permear aqueles olhos cor de uísque. Então, beijou os ferimentos de Eve um por um enquanto a ouvia suspirar, as costas dela arqueando sob seu toque, o rosto se virando para o seu em um gesto inconsciente. E estava ridiculamente próxima do ferimento que deixara por último, aquele do lábio dela, quando ouviu os toques simultâneos dos telefones dela e de Eve e sabia que algo relativo ao caso tinha acontecido. E se afastou.
