Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.
Clarice Lispector
Capítulo 10 – Mais uma vez
Sakura estava colocando mel em cima das panquecas doces que havia acabado de preparar, quando sentiu dois braços fortes a envolverem por trás e lábios macios depositarem um beijo em seu pescoço. Sorriu.
- Bom dia, Sasuke-kun – Ela disse, sorrindo.
Ele não respondeu, apenas acariciou inconscientemente o ventre dela. Agora, com nove meses, a barriga de Sakura estava enorme. Os dois estavam totalmente ansiosos, sabendo que o bebê poderia nascer a qualquer momento. Já tinham tido dois alarmes falsos.
Sakura segurou a mão de Sasuke e o guiou até a mesa, na qual depositou o prato com as panquecas. O Uchiha logo se serviu de duas, enquanto a esposa apenas o observava comer, sorrindo.
- Não vai comer? – Ele perguntou, indicando com o garfo o prato.
Sakura balançou a cabeça, os cabelos indo junto no processo, enquanto dizia que não estava com fome, que mais tarde comeria algo. Sasuke deu de ombros, voltando sua atenção para a comida.
Não conversaram muito enquanto Sasuke comia, o que ele estranhou. Sakura estava sempre tagarelando sobre alguma coisa – geralmente, algo que não o interessava nenhum pouco. Franziu o cenho, baixando os talheres e observando a distraída esposa que olhava pela janela.
Ela parecia incomodada com algo, uma vez que sua expressão estava um tanto quanto engraçada. Ele cruzou os braços, perguntando-se mentalmente se havia feito algo de errado. Após quase cinco minutos, ele desistiu e decidiu perguntar de sua irritante esposa:
- Qual o problema, Sakura?
A menina virou o rosto para encará-lo, com um suspiro, levantou-se e recolheu a louça suja. Sasuke a seguiu com os olhos, reparando que ela andava muito devagar.
- Eu não sei – Ela finalmente disse. – Eu estou me sentindo estranha, um pouco tonta.
Ele se levantou imediatamente, passando o braço pela cintura dela e levando-a até a sala. Ajudou Sakura a se sentar no sofá e ajeitou uma mecha do cabelo róseo dela para trás da orelha.
Naquele exato momento, Sakura sentiu uma pontada forte nas costas, algo um pouco parecido com uma cólica menstrual, só que muito mais forte. Passou os braços pela barriga e encolheu-se.
Sasuke sentia-se completamente incapaz, sem a menor ideia do que deveria fazer. Precisou de alguns segundos para lembrar-se de seu celular. Levantou-se rapidamente, indo em direção as escadas.
- Só um minuto. – Ele disse, indo para o segundo andar rapidamente.
Escaneou o quarto que dividia com Sakura com os olhos, procurando o paradeiro de seu celular. Foram precisos alguns instantes para encontrá-lo. Pegou-o rapidamente e desceu as escadas, amaldiçoando-se mentalmente por não ter o número nem da obstetra e nem da Hokage.
Quando voltou a sala, encontrou Sakura agachada ao lado do sofá. Rodeada por uma poça de água no chão.
- Kami-sama – Ele murmurou, completamente pálido.
Sakura respirava com força, sua testa suada.
- A minha bolsa estourou.
Não precisava ser um gênio para saber que ela estava em trabalho de parto.
Fora preciso que Tsunade ameaçasse Sasuke de morte, para que ele finalmente se convencesse que um trabalho de parto demorava bastante e, por a dilatação de Sakura não estar completa, ainda demoraria algum tempo para que ela desse a luz, e que, portanto, ele poderia perfeitamente tomar alguma coisa.
Muito relutante, ele deixou o quarto. Tsunade revirou os olhos quando ele o fez.
A Godaime, além de fazer questão de estar presente quando o bebê nascesse, disse que iria auxiliar no parto. Se Sakura a conhecia bem, quem acabaria apenas ajudando no parto seria a obstetra, e não Tsunade.
- Shishou – chamou Sakura, sua voz baixa.
A loira, que estava sentada numa cadeira ao lado da maca, inclinou-se para ouvir o que a pupila dizia.
- Sim?
- Tsunade-sama – Disse Sakura, respirando forte. – Se vocês tiveram de escolher entre mim e o bebê, escolham-no.
Tsunade prendeu a respiração antes de responder.
- Não seja boba – Ela finalmente disse, passando os dedos pelo cabelo da pupila. – Está tudo perfeitamente normal, o parto será muito tranquilo.
- Eu sei – Sakura disse, arfando. Aquilo doía demais. – Mas se algo der errado, se vocês tiverem que escolher, prometa que...
Tsunade estudou o rosto da pupila cuidadosamente. Há meses que as duas não se falavam direito, desde que Sakura descobrira que fora enganada por ela.
Fora muito mais fácil perdoar Naruto, afinal de contas, ele também devia lealdade a Sasuke, que era melhor amigo dele. Mas Tsunade? Não. Parte de Sakura não conseguia entender por que sua mestra havia omitido aquilo dela. Ela ainda estava magoada.
A loira suspirou. Era absolutamente cruel que Sakura estivesse considerando uma hipótese daquelas. Como ela poderia pedir que Tsunade tivesse de escolher entre a vida dela e a do bebê? Não havia uma balança que pudesse medir qual era mais importante.
Tsunade já perdera tantas pessoas importantes, que doía só de imaginar em perder mais uma.
- Menina tola – ela disse, sorrindo. – Nunca mais me peça para decidir algo desse tipo.
Olhando para os olhos cor de mel da mestra, Sakura entendeu por qual motivo havia sido enganada. Aquela mulher a tinha como uma filha, e a possibilidade de Sakura se machucar, caso procurasse o marido, era muito grande. Se havia mentido mesmo vendo o sofrimento da pupila, o fizera por culpa de sua superproteção maternal.
Sakura finalmente sorriu, fechando os olhos e tentando relaxar.
- Você tem razão. – Ela disse, baixinho. – Vai dar tudo certo.
Sasuke achava que se a esposa apertasse um pouco mais a mão dele, ela acabaria quebrando-a. Além disso, ela o xingava sempre que tinha oportunidade. Coisas como "Eu não acredito que você fez isso comigo" ou "Seu maldito! Isso é tudo culpa sua!".
- Empurre mais – Disse a obstetra. – Só um pouco mais!
Sakura fez uma careta de dor e pensou em murmurar algo como "é fácil falar!", mas achou que não tinha energia suficiente para isso e simplesmente obedeceu a médica. Apertou a mão de Sasuke com mais força.
Naquele momento, o Uchiha teve certeza de que sua mão nunca mais seria a mesma, e se não fosse tão indigno dele, ele teria gemido de dor. "Tudo bem", pensou, "vale a pena".
Aproximadamente cinco minutos mais tarde, um choro se fez presente no quarto. O tempo pareceu parar.
Sakura jogou-se na maca, exausta, embora sorrisse muito. Sasuke estava sem palavras, completamente incapaz de tirar os olhos daquela criaturinha vermelha. O coração dele batia tão forte e tão alto, que achava que as outras pessoas na sala pudessem ouvir.
A obstetra teve que repetir a pergunta duas vezes para que ele finalmente despertasse de seus pensamentos. "Você quer cortar o cordão umbilical?". Ele assentiu levemente que sim. Depois disso, uma enfermeira pegou o bebê e logo depois o trouxe de volta, limpo, colocando-o em cima do peito de Sakura, para que ela pudesse vê-lo.
Lágrimas escorriam livremente pelo rosto dela, enquanto passava as mãos naquele ser pequeno e delicado.
- Ele é perfeito – Ela murmurou, encantada.
Sasuke inclinou-se, concordando, em silêncio, com a esposa. Aquela era a criatura mais perfeita e incrível na qual ele já colocara os olhos, e parecia absolutamente surreal que ele, juntamente com Sakura, tivessem feito-a.
Com uma imensa delicadeza, ele esticou a mão e tocou a bochecha do filho com o a ponta do dedo, acariciando-a suavemente.
- Ele é igualzinho a você – Disse Sakura, o sorriso jamais deixando os seus lábios.
Sasuke nunca se sentira tão orgulhoso de si mesmo.
- Mas tem os seus olhos. – Falou, sua voz baixa.
O sorriso de Sakura ficou ainda maior.
Os dois estavam tão concentrados no bebê que sequer perceberam que Tsunade, a obstetra e todas as enfermeiras haviam deixado a sala, no intuito de dar-lhes alguma privacidade.
Depois de anos, pela primeira vez desde que todo seu clã havia sido assassinado, Sasuke sentiu-se completo. Não estava mais sozinho no mundo, no que dizia respeito a laços sanguíneos. Tinha uma família mais uma vez. E aquele era o sentimento mais acolhedor que existia, e encheu o peito dele com um calor gostoso.
Os olhos dele ardiam e seu nariz pinicava um pouco, sinais óbvios de que estava prestes a chorar. Mas era orgulhoso demais e, não sem muito esforço, segurou as lágrimas.
- Obrigado – Ele disse, sua voz rouca. – Obrigado, Sakura. – Finalizou, beijando a testa dela com delicadeza.
Mesmo com os cabelos bagunçados e grudados na testa dela, com a expressão cansada e esgotada, Sasuke achou que sua esposa jamais estivera tão linda. E ele era incrivelmente grato a ela, por ter devolvido a ele o sentimento de sentir-se parte de algo. Por terem construído uma família juntos.
Foi como se ele tivesse se apaixonado por ela, de novo, naquele momento.
Se Sakura dissesse que estava cansada, estaria mentindo. Aquela não era uma palavra boa o suficiente para descrever quão esgotada ela estava se sentindo, e o bebê havia nascido há menos de uma semana!
Se Itachi não estava dormindo, estava chorando de fome ou por que estava sujo. Embora Sasuke realmente tentasse ajudá-la, estava mais do que óbvio que ele não levava o menor jeito para aquilo. Por exemplo, um dia atrás, quando Sakura pedira que ele trocasse a fralda do bebê, Sasuke fizera uma careta tão feia que ela não teve coragem de insistir.
Rindo, ela se aconchegou melhor na cama, sentindo-se realmente grata por finalmente poder descansar.
- Eu não quero ter outro bebê tão cedo – ela disse, entre risadinhas.
Sasuke fez uma careta. Num movimento rápido, ele estava por cima da esposa, prendendo-a pelos braços.
Inclinando um pouco a cabeça, ele começou a distribuir beijos pelo pescoço dela, enquanto ela continuava rindo.
- Como é que eu vou reconstruir meu clã – ele começou, sem parar de beijá-la. -, se você não quer ter outro bebê "tão cedo"?
- Ei! – Ela disse, soltando os pulsos do aperto dele e batendo de brincadeira no braço do marido. – Eu não sou uma máquina de fazer bebê, sabia?
Sasuke sorriu contra o pescoço dela. Embora ele tivesse planos de se divertiraquela noite, ele não achou que sua cansada esposa concordaria, então beijou os lábios dela rapidamente e voltou para seu lugar na cama.
- Boa noite – ela disse, aconchegando-se no peitoral dele.
O Uchiha a envolveu com o braço e fechou os olhos, inalando o delicioso cheiro de baunilha que o cabelo dela exalava.
Sakura não demorou nada para adormecer, sentindo-se completamente confortável nos braços do marido. Apesar de exausta, dormiu com um lindo sorriso nos lábios.
Muito cedo, na opinião de Sakura, Itachi começou a chorar, acordando-a com seus berros. Ela duvidava que sequer tivesse dormido três horas inteiras. Ela rolou na cama, choramingando.
Ela estava tão cansada que o simples pensamento de ter que levantar-se era doloroso. Mas, por outro lado, ela não podia deixar seu filho chorando. Com um longo suspiro, ela começou a levantar-se, quando uma mão grande segurou o pulso dela, impedindo-a.
- Você está cansada – Sasuke disse, sentando-se. – Eu vou.
Podia parecer bobo, mas Sakura se sentia tão emocionada pela preocupação e consideração do marido que tinha vontade de chorar. Embora não o tenha feito, ela deu um beijo na bochecha dele e sorriu.
- Obrigada, Sasuke-kun. – Ela disse. – Mas pode deixar, eu vou. Afinal, o que você vai fazer se ele estiver sujo?
Sasuke revirou os olhos. Por que era tão difícil assim tentar ajudar a esposa?
- Eu dou um jeito. – Ele respondeu. – Agora, durma.
Sakura teria demorado mais para ser convencida, se não estivesse tão cansada. Então simplesmente assentiu e voltou a se deitar.
O Uchiha não demorou nada para chegar ao decorado quarto do filho. Com um imenso cuidado, ele inclinou-se e o pegou nos braços. Geralmente, só o carregava se fosse realmente preciso. Morria de medo de deixá-lo cair.
Puxou um pouco a fralda dele, ficando realmente aliviado por ele estar limpo. Se não estava sujo, só poderia estar com fome.
Desceu as escadas cuidadosamente e dirigiu-se para a cozinha, com o filho nos braços.
Pegou a mamadeira na geladeira e colocou-a no microondas.
Depois de verificar a temperatura do leite na costa da mão, tentou alimentar o pequeno Itachi. Mas falhou miseravelmente. Não parecia que ele estava com fome também.
Com um longo suspiro voltou para o quarto do bebê, sentando-se na cadeira de balanço e tentando niná-lo. Não estava funcionando, Itachi não parava de chorar.
Não foi uma surpresa quando uma sonolenta Sakura apareceu no quarto, com os cabelos bagunçados e a camisola amassada.
- Eu não sei qual é o problema – disse Sasuke. – Ele não está sujo e nem com fome.
Sakura bocejou, indo até eles e pegando o bebê no colo. Sasuke fez uma careta quando Itachi se acalmou um pouco. Sakura apenas sorriu.
- Ele deve estar com cólica – Ela falou, enquanto ia até o trocador de fraldas e o colocava deitado na caminha.
Sasuke levantou-se e observou a esposa massagear delicadamente a barriguinha rosada de Itachi, aplicando um pouco de chakra. Foi um alívio quando ele parou de chorar, acalmando-se.
Por mais estranho que parecesse, era realmente doloroso para Sasuke ouvir o filho chorar. Revirou os olhos, pensando que, como Naruto sugerira no dia anterior, ele estava realmente ficando com o "coração mole".
Após terminar a massagem, Sakura ninou o bebê no colo por alguns minutos e ele logo adormeceu. Com cuidado, ela o colocou no berço. Os dois ficaram observando o pequenino dormir por alguns minutos.
- Eu aposto que você vai ser um ótimo pai. – Sakura disse, baixinho, enquanto eles deixavam o quarto.
Sasuke resmungou.
- Eu duvido.
Sakura abraçou o braço do marido e encostou a cabeça no ombro dele, sempre sorrindo. Os dois se sentaram na cama.
- Você será – Ela falou, como se realmente tivesse certeza. – Confie em mim.
Sasuke baixou o olhar e os dois ficaram se observando por um bom tempo. Com a mão livre, o moreno acariciou a bochecha macia da esposa. Lentamente, depositou um suave beijo nos lábios dela.
- Eu confio.
O sorriso de Sakura apenas aumentou.
Embora ela realmente estivesse exausta, durante toda aquela semana, ela sentira-se extremamente feliz e nunca deixara de sorrir. Aquela era a vida que ela sempre quisera compartilhar com Sasuke.
Embora nem sempre as coisas tivessem sido fáceis, apesar de as provações terem sido muitas e o caminho ter sido realmente doloroso, ela estava feliz e satisfeita. Eles haviam conseguido.
E todos os dias, ambos se descobriam apaixonando-se pelo o outro mais, mais e mais uma vez.
FIM
Notas da autora: Antes de tudo, desculpem o atraso. Eu sei que deveria ter postado terça passada, mas só terminei de escrever ontem. :(
Eu realmente não acho que o capítulo ficou bom, então vou considerar o nove como o último mesmo, haha.
Bom, obrigada por todos que leram e por todos que comentaram, fico muito feliz que vocês tenham gostado da fanfic! Desculpem se, em algum momento, a história não ficou satisfatória. :/
É isso! Obrigada por tudo! :D
Beijocas!
