- "A primeira balsa do dia, as da oito e meia..."... Hmm...

Voltava a checar a correspondência. Como faria para chegar ao porto sem que ninguém o percebesse?
Era uma tarefa difícil. Mas pra quem conseguiu encarar uma guilhotina e sair de lá vivo (também, graças ao Warlock, claro...), o Kuroboshi colocava a cabeça pra raciocinar.

Seus planos nunca falharam. Tanto que o seu último, que foi o seu sacrifício, ocorreu perfeitamente. Passou pela sua gêmea e ninguém tinha duvidado. Ninguém mesmo!

Com exceção daquela garota estranha, Negai, que questionou todos os eventos. Parecia querer investigar a fundo aquele caso... Algo a impulsionava a querer saber mais e mais.

Porém seu momento de gênio dos planos foi interrompido com um leve chamado. Ah, era a voz adorável de...

- Hein? – o aprendiz olhou para trás, vendo uma cena um tanto estúpida e bizarra: O lupino na forma "humana", cantarolando enquanto organizava o seu lado do quarto.

- Lance-kun, poderia fazer o favor de ir pensar em outro lugar? – esboçou um sorriso.

Não dava pra conter o riso. E logo o garoto soltou um. Por conseqüência recebeu um rosnado e um insulto:

- Ô destrambelhado, saia IMEDIATAMENTE que eu estou arrumando, ok? Vai pensar na vida ou "seja lá o que for" em outro canto!
- Tá, tá! Já tou saindo! – e zarpou pra fora do quarto.

Desceu as escadas e foi para a biblioteca. Voltou a olhar para o papel e não percebeu que tinha mais alguém lá.

- Ok... O que faço agora...

Ouviu o virar de uma página de algum livro e desviou sua atenção para sua frente. Viu o mago Warlock ocupado, lendo certo livro, mas este não era de magia.

- Ah? Sensei? O que está procurando? – perguntou o curioso.
- Hm? – olhou por cima da lente dos óculos e viu o rapaz ali – Ah, Lance-kun. Estou apenas revisando anotações antigas... E comparando-as com as atuais, todas do mesmo assunto.
- E posso perguntar do que se trata?
- Bem, talvez seja um pouco confuso para você... Mas são estudos, experimentos e teorias sobre existência de outras dimensões, mundos paralelos.
- Dimensões? O que seria isso, huh?

- Como que irei te explicar de uma forma simples e eficaz? *gota* – levou sua mão direita até a testa.
- É como... Como se fosse um outro mundo, porém com certas diferenças, algumas semelhanças...
- E... tempos que podem variar com o nosso, ou ser a par.
- Podem também possuir outros habitantes, serem mais inteligente que nós ou primitivos, bem mais antiquados.

- Também não poderia ser uma variante do nosso próprio tempo, gerando diversos futuros que teremos contato apenas com um deles e os demais só serão considerados por nossa mente como "imaginação"? – supôs Lance.

- C-como é que... – o bruxo ficou boquiaberto.
- É só uma coisinha que fiquei pensando depois de ler um de seus livros...
- P-pensou nisso? – ainda estava em choque.
- Eh... Eu acabei decorando isso e repetindo. Até que é fácil entender essas coisas, não?

Capotou. Antes pensara que o Kuroboshi tivesse MESMO pensado numa teoria.
Mas ficou claro que... Ele apenas decorou o que estava escrito.
Por um lado, isso era bom. A memória dele era incrível... Mas nem tão boa assim...

Quando praticava as magias... Ou errava alguma palavra, ou confundia a ordem dos encantamentos... Ou esquecia ALGUMA sentença.

Muitas vezes os feitiços atrapalhados do garoto não surtiam efeito ou explodiam na cara do "assistente" designado pelo mestre.

- SEU... GAROTO BURRO! O QUE FOI QUE VOCÊ ERROU AGORA? – bufou enquanto corria atrás do servo.
- MAI BAD! – fugia da criatura gigantesca que estava querendo retalhá-lo com suas garras – !

Precisa-se dizer quem era?

- OKAMI, PARE DE CORRER ATRÁS DO MENINO! – esbravejava MiyaShurimon.
- Lance... DÁ PRA SE CONCENTRAR ANTES DE TUDO?

E o moreno... Apenas fazia um facepalm e dizia sua frase costumeira:

- Dragon Hu, dai-me paciência!

O tempo passou. Passou e ele foi controlando-o. Fez seu treino, o café, arrumou a casa...
Quando marcou no relógio de pêndulo antigo oito horas... O menino desapareceu.

Onde ele foi? Receber aquela que sonhava em reencontrar algum dia. Aquela que era fiel, e ainda é...

Chegou lá e escondeu-se atrás de alguns caixotes para a exportação. Espiava cautelosamente o movimento do cais, esperando com certa ansiedade em revê-la.

Esperou e esperou. O rapaz dava umas rápidas olhadas no relógio do porto... Mas nada.
O barco que vinha pela rota marítima Kuroboshi - Gakushoku não aparecia.
Continuou ali, quietinho e contendo sua saudade. Algumas lembranças vinham em sua cabeça, mesmo assim concentrou-se ali... Ali, naquela plataforma onde via os barcos de fora do continente.
Quando deu oito e meia... Lembrou-se de que se ficasse sumido por muito tempo todos do castelo dariam conta de sua falta e ficaram preocupados. Graças a isso retornou.

Passado uns minutos, chegou tal balsa. Exatamente às 08h55min. Houve um problema e tiveram de voltar. A sorte da antiga regente foi que não a perceberam ali, escondida no barco salva-vidas.
Logo que ancoraram no porto, ela saltou fora. O mais rápido que podia, para que não a vissem... E seguiu em direção da floresta, para que não a identificassem.

Suas roupas eram normais. Nada mais "extravagante" ou "nobre", era apenas um vestido acinzentado com branco e um laço rosado no peito e uma fita da mesma cor na cintura. Sapatos comuns, sem salto. Era definitivamente uma garota normal e não mais a riquíssima monarca.

Prosseguiu na sua fuga, desaparecendo pelo deslumbrante verde da flora do reino Gakushoku.

...

- Que apetitooooooooso! Ai, Lance-kun... Dessa forma você vai roubar o cargo de cozinheiro do Okami! – elogiou a sentinela enquanto desfrutava do almoço, feito pelo garoto.

Estavam todos reunidos na mesa na sala de jantar, que estava repleta de variados pratos.
Além de algumas frutas, doces e alguns sucos naturais.

- Uh... Disponha – deu um sorriso tímido – É que... eu aprendi a cozinhar quando fui abrigado por algumas pessoas... E depois, quando me tornei servo da Yami-chan, continuei praticando e... Fazia as refeições de minha mestra.

- Só que você não precisa agir como se fosse empregado... – notificou Warlock – Não é necessário fazer todas as tarefas dos outros.

- Ah, mas eu faço por costume... E para retribuir pelo que me fizeste antes. Pensei que iria morrer, mas você apareceu e me deu uma nova oportunidade!
- É, e ele cozinha qualquer coisa... Ao contrário do Okami que promete, mas não cumpre! – Miya desferiu uma indireta ao lupino.
- EI! – bufou o lobo – E eu tenho culpa de você falar esses nomes esquisitos aí?
- Não acho esquisito "Boeuf bourguignon"... – comentou Lance.
- Ah claro, Então o que é isso ô mestre cuca?
- Carne de músculo cozida com molho de vinho tinto, cebolinhas e champignons.
- É isso? Então por que não dizer isso logo? Tem de complicar tudo? – olhou para a garota de cabelo violeta.
- Ahn, Okami... – interrompeu o cozinheiro – Deixa de encrencar, vai! Eu fazia isso pra minha princesa... E também "Raclette", "Choucroute garnie", "Crêpe"...
- Tá, tá! CHEGA de nomes estranhos! Só quero pensar em encher a pança!
- Ai, esse troglodita só sabe dar vexame... – sussurrou a guardiã ao aprendiz, que acenou positivamente a cabeça, concordando.

Terminado o almoço, lá foi ele lavar a louça. Recebeu uma ajudinha de MiyaShurimon devido à quantidade de pratos, talheres e recipientes para lavar.

Depois disso, saiu para pegar um ar fresco e observar o jardim. Até que viu estranhos olhos em um arbusto. Curioso, foi lá:

- Oi! - sorriu, olhando para um par de olhos nos arbustos – Não tenha medo, não irei te machucar!
- O-oi... – a criatura saiu do esconderijo, era uma Black Tailmon – V-você...
- Não tenha medo... Ah, sua pata... – o menino olhou diretamente para a pata esquerda da gata, que possuía um espinho.
- N-não me toque... h-humanos não são m-muito gentis...
- Heh, eu não sou tão "humano" assim.
- C-como assim?
- Bem... eu sou aprendiz de um mago... isso me faz meio "feiticeiro", não?
- M-mas...
- E eu também não tenho essa aparência... Eu a alterei para que ninguém descobrisse minha verdadeira identidade.
- C-como?
- ... Eu era um serviçal de uma princesa, que se passou por ela para salvá-la da morte. Porém eu fui salvo por um mago bondoso, mas as pessoas do meu reino pensam que eu estou morto.
- S-sério...?
- Aham. E eu vim morar com ele. Ah, meu nome é Lance, porém passei a ser chamado de Kiseki para não levantar suspeitas.
- Oh... E-eu... Eu sou Black Tailmon...
- Prazer – sorriu outra vez.
- Uh... K-Kiseki-san... Já que… Já que você...
- Hm? Claro que posso tirar esse espinho da sua pata. Se deixar.
- Por favor... Isso está doendo muito!
- Ok!

Removeu o espinho delicadamente, tirou um lenço de seu bolso e enfaixou a mão dela, que ronronou em retribuição. Despediu-se dele e saiu andando pela floresta.
E ele voltou ao lugar onde estava lendo um livro qualquer abaixo de uma árvore a dois metros do castelo.
A leitura agradável logo o fez cair no sono, voltando a ter sonhos com aquela pessoa que aguardava. O seu reencontro pareceria muito mais emocionante do que o primeiro, quando tinham nove anos.

...
Ela corria, mas não conseguia sair daquele matagal todo. Sua energia estava quase acabando e suas forças diminuíam a cada passo dado. Não havia comido nada desde que tinha descido em terra firme. Sentia-se tonta, e também trêmula.

Quando não agüentou mais, tropeçou em seus pés e caiu de joelhos. Desmaiou em seguida.

Seu corpo ficou ali, a beira do final da trilha que levava para o castelo, mas não sabia da existência dele. Não sabia aonde ir, apenas ouviu de Negai que o tal jovem iria recebê-la.
Inconsciente, a princesa de Kuroboshi começara a ver algo em sua mente. Um borrão num ambiente todo branco. Essa incógnita esticava sua mão para ela.
Aproximou-se sem saber ao certo quem seria... Até a imagem ficar um pouco ajustada.

Só viu um sorriso. Aquele que via desde pequena. Aquela pessoa era...

Ao se aproximar mais, ouviu outras vozes. De uma mulher e de um homem.
Não, ela não tinha morrido. E as vozes eram diferentes.

Poderia ter sido largada ali mesmo, até ter o seu fim... Mas...
Milagres acontecem.

...
A sentinela e o garoto-lobo encontraram-na a tempo. Levaram para dentro e avisaram Warlock e o seu adormecido pupilo. Este último despertara com o cutucar em seu ombro, abrindo seus olhos lentamente e vendo a face de Miya embaçada.
Mal a ouvia... Apenas a frase:

"Lance-kun! Rápido! Apareceu uma estranha garota e ela... Ela inconscientemente está repetindo seu nome!"

O que o fez dar um salto e sair em disparada para onde estava tal moça.
Entrou sem pedir, abriu a porta sem bater. Esperava que fosse ela. Pedia que fosse...
Desejava do fundo de seu coração.

E assim que parou na sala de estar... Viu um indivíduo repousando no sofá.
Sonhando. Sonhando com algo que queria tanto recuperar.

E em sua cabeça a gêmea tentava alcançá-lo. Mas não conseguia. Algo a impedia de se aproximar, de pegar em sua mão.
Nessas tentativas ouviu uma voz familiar. Alguém estava chamando-a. Parou de esticar seu braço para tocar na palma da figura assim que percebeu que não era ela quem a chamava.

"Yami-chan! Yami-chan!"
"Acorde! Yami! Acorde!"

Vinha de outro lugar. O que a fez despertar do sonho...
E ver com seus próprios olhos... Olhos iguais aos seus.

Aquele rosto... Quanto tempo não o via? O rapaz não pode conter sua saudade e a abraçou fortemente, como se a tivesse perdido antes.
Ela, confusa com aquilo, largou-se dele espantada.

- Você está bem! Eu... Eu estive pensando em você este tempo todo! Queria te reencontrar, mas...
- Espera aí! Quem é você? – interrogou ela.
- Não se lembra de mim, Yami-chan?
- Nunca te vi antes! É o jovem que a Negai me falou?
- Sim. Mas não me reconhece?
- Te reconhecer? Como assim?
- Mudei muito? Não se lembra?
- Lembrar... Estou tentando... A única coisa que me lembro foi ouvir ela dizer...
- É difícil explicar, só vendo para acreditar. – riu.
- ... Não entendi ainda. Poderia parar de gracinha? Eu... Eu estou assustada já. Como um garoto da minha idade pode querer me conhecer depois de tudo que fiz?
- Só se este garoto ter vivido ao teu lado, Yami-chan.
- NÃO, ESPERA! NÃO ME DIGAS QUE...
- Haha, É uma longa história, irmã.
- "irmã"? É... É você? Lance-oniichan?
- O seu querido irmão gêmeo – sorriu.

Ela JAMAIS esperava vê-lo outra vez.
Ela o viu na guilhotina. Ela viu a execução.

- COMO... COMO VOCÊ ESTÁ VIVO?
- Tenha calma... Está surpresa? É algo bem espantoso mesmo, nem eu acreditei.
- Mas... mas... – ela o abraçou com todas suas forças, derramando lágrimas de felicidade.
- Yami-chan...
- Eu... Eu te peço perdão pelo que te fiz! Pelos problemas que eu te arranjei!
- Não precisa pedir perdão, eu sei que não fizeste aquilo por mal, só não sabia como administrar um reino assim... Tão jovem.
- Mesmo que diga isto, eu te peço perdão por tudo!
- Calma, minha princesa... Agora está tudo bem. Está tudo em paz. – sorriu a ela.

Logo depois explicou a ela tudo que aconteceu.
Explicou quem havia o salvado. Falou o que aprendeu com esta pessoa.
E principalmente, que havia se arrependido do que tinha feito.

Depois disso, o jovem aprendiz de Warlock tentou convencer ao bruxo que deixasse a menina ficar. E ela, por vontade própria, pediu que também lhe ensinasse assim como ele ensinava ao seu irmão. O mago não recusou, depois de ter ouvido as confissões de Yami.
Finalmente... A felicidade deles havia retornado.
Estar ao lado do outro, agora não mais presos em um castelo com aquela pressão toda, era o que queriam.

...
- Sensei! Ela pode ficar? Ela não tem pra onde ir e nem sabe aonde foi parar a família...
- Huh? Ela? – exclamou o mestre.
- É, a Black Tailmon!

Passado alguns dias, ele a reencontrou de novo enquanto colhia frutas para uma sobremesa favorita de Yami. A gatinha estava atirada em um canto... No mesmo que sempre ficava. Solitária, o Kuroboshi a pegou pela pata e a levou para o castelo.
Onde pediria para que pudesse ficar. E convidou-a para morar com eles também.

- Bem... eu nunca tive monstro algum neste castelo antes... Com exceção de Okami e Miya... Mas eles são híbridos...
- Ah, por favor! Ela é minha amiga! – disse o pupilo.
- Ahn... Lance... E quanto a opinião dela?
- Eu a convidei e ela aceitou.
- Eu... eu não tenho família. Fui abandonada e maltratada na cidade... – contou a gata.
- Ah, por favor! Ela não pode continuar sofrendo na mão dessas pessoas más! – implorou Lance.
- Eu... Eu concordo com você, Lance... Está bem, ela pode ficar.
- Obrigado, sensei! – abriu um grandioso sorriso, idem à felina. Logo saiu mostrando a casa para a nova parceira.

Os dias passaram, e Kiseki fazia mais e mais amigos monstros desabrigados... E os levava para a morada. Todos começaram a se dar bem com os outros moradores, mas o único que eles tinham confiança era no ex-serviçal. Para as criaturas, Lance era um "escolhido".

Foi quando perguntou a sua grande amiga Black Tailmon... Do por que deles o chamarem assim. E ela explicou-o: "És o humano escolhido para fazer elos com nós"
Nisso, lembrou daquele papo sobre dimensões e mundo paralelos que seu professor estudava e...

- Sensei! Estive pensando se... Sobre aquele seu estudo sobre a existência de outros mundos ou dimensões...
- Hm?
- Será que... existe em algum deles um... Um elo entre humanos e monstros? Como se fosse parceiros...
- Parceiros?
- É, é... Parceiros, um elo de amizade entre monstros e humanos. Parceria, equipe.
- Não sei, talvez exista...
- ... A Black Tailmon tinha dito que eu... Hm, sou um... escolhido.
- Hein?
- Humano escolhido... que faz elos com monstros...
- Isso existe...?
- Han... Acho que sim... Eu consigo conversar com eles normalmente, sem que um tenha medo do outro. Como se fossemos... Ahn... iguais.
- Hm...
- Ah! Licença... Está quase na hora do chá!
- Mas, você não tinha preparado tudo já?
- Para a virada do ano sim, mas não o lanche de agora! – retirou-se, indo para a cozinha.

Aquele ano terminou com muitos sorrisos, novos amigos, novas descobertas e tudo.
Via-se apenas alegria naquele castelo. Irmãos de um passado negro que conseguiram redimir de seus pecados.
Estavam vivendo longe de Kuroboshi. Longe do passado aterrorizante que tiveram.

Finalmente tinham a paz e tranqüilidade que tanto buscaram.

Até um certo dia...
No 3º mês daquele novo ano...

Nuvens negras se acumulavam no céu. Tudo tornava-se escuro e tenebroso... Começava até a descolorir o cenário, tornando-o monocromático e deprimente.

- Não perceberam como este mundo se tornou um caos? – perguntou o grande mago, observando a paisagem pela janela da sala de estar.

Os irmãos Kuroboshi, sentados em uma poltrona e comendo alguns biscoitos feitos pelo próprio Lance, focaram sua atenção no jovem rapaz.

- Como assim, sensei? – falou o garoto.
- Não entendi... – comentou a irmã.

- Está cinza... Monocromático. – virou-se para os irmãos – Como se algo tivesse o contaminado.
- Não parece?

- Ahn... Até que percebi umas nuvens negras ultimamente, sensei. Mas não entendi ainda...
- Parece que o tempo está nublado e virá uma tempestade...

- Não, não é tempestade... É outra coisa. – respondeu Warlock, um tanto sério.
- Tenho a impressão que... Alguém libertou todos os males aprisionados na caixa...
- Mas não entendo... Aquela caixa foi selada no oceano negro do mundo sombrio...
- Ao menos que... alguém tenha sido atraído para lá, pela portadora da caixa...

- Eh? Que caixa, sensei?
- Lembro-me que quando éramos pequenos, no nosso aniversário de dez anos...
- Yami-chan e eu encontramos uma mulher estranha, com olhos roxos medonhos!
- Lance... Abriu a caixa que ela segurava. – Yami encurtou toda a história.

O feiticeiro se aproximou deles, ainda sério.

- Ahn? Aquela é a tal caixa que se referiu sensei? – indagou o aprendiz.
- Lance, sabe por que fui à Kuroboshi três anos atrás?

- Três anos atrás? Fala daquela época que me salvaste da morte?
- Hm... não...

- Pois bem... Eu fui encontrar o foco das trevas.
- E pressenti uma aura negra... Vinda de duas crianças.
- ... Sabe por que te salvei, Lance?

- Ehh... Tinha outra razão além de ter me arrependido dos meus crimes?
- Pensei que era só isso... Isso foi até um milagre... ser poupado da morte e ter uma nova chance de corrigir meus erros, recomeçar outra vez.

- ... Foi por isso e também por que era você que emitia essa aura.
- Você e sua irmã.
- Foram corrompidas por ela... Quando libertaram o mal contido na caixa.
- E aquela mulher estranha, de olhos roxos... Ela era a dona da caixa, se chama Pandora.
- Pandora era uma maga bem prestigiada, porém foi ela quem libertou os males antes, numa busca insana por mais poder. Mas um mago poderoso os reuniu e os selou numa caixa. E consequentemente a maga.

- Mas... Mas então... Então por que você queria que eu fosse seu aprendiz?
- Tem algo a ver com isso?
- E eu não sabia! Se soubesse que aquela mulher acorrentada era má, não teria ajudado-a!

- Você que libertou o que continha na caixa.
- Então só você pode reverter isso.
- E também, gostei da sua atitude... – deu um pequeno sorriso – Isso prova que tens um bom coração, Lance-kun.
- Mesmo que tenha feito algo estúpido em ir ajudar uma condenada.
- Mas como disse que não sabia... Está tudo bem, crianças nessa idade costumam ser inocentes e agir por pura solidariedade.

- Eu senti... Eu senti que tinha algo de ruim naquela moça, e naquele lugar onde ela estava – confessou Yami.
- Mas o Lance-oniichan não gosta de ver os outros tristes, nem recusa um pedido de ajuda.
- A culpa é minha também, pois não consegui dizer a ele o que sentia.

- Yami, você apenas foi vítima dela. Dos males contidos na caixa de Pandora. – explicou o jovem bruxo.
- Você e seu irmão apenas caíram num truque dela, pois não sabiam sobre ela ou sobre a caixa.
- No entanto, as trevas contaminaram o mundo, as suas almas, e a de todos.
- E pra isso que o tirei daquela guilhotina.
- Se você morrer, jamais poderá reverter esta situação.

Os dois engoliram a seco a última frase.
E o Lance estava atônito também.

- E-então...
- Tenha calma. – falou Warlock, pegando um biscoito do pote e sentando-se no sofá a frente dos dois – Enquanto estiver comigo lhe darei proteção.
- Espera, essas trevas podem acabar... impulsionando alguém a nos matar? – questionou a irmã.
- Provavelmente, mas se não saírem dos arredores do castelo estarão protegidos.
- Sensei – o menino pousou os olhos nele, com calma parcial – O que devo fazer para reverter isso? Eu quem a libertei, portanto só eu posso selá-la, certo?
- Sim. Por isso que ando te ensinando as magias da minha família... O mago que baniu Pandora e trancafiou os males na caixa era meu tataravô.
- Sério? Por isso que você é famoso pelo reino?
- Uh... isso é de família... – corou, afinal tinha orgulho da família.

- Mas... mas espera um pouco – Yami fitou o mago.
- Como assim nós fomos corrompidos?

- A aura negra os possuiu e corrompeu suas almas.
- E isso os fez agirem dessa forma, sendo frios, amedrontadores, maléficos.
- Mas de certa forma...
- Vocês tomaram juízo do que fizeram e se arrependeram. Isso eliminou a aura negra de vocês.

- Então isso foi um milagre, certo? – indagou Lance.
- Certamente, caro amigo. – respondeu Warlock.

O verdadeiro motivo que o bruxo tinha dito naquela vez, quando salvou o servo da morte...
Finalmente foi revelado não só a ele, como também a sua irmã.