Capitulo 9
Revelações de um passado distante
Quando finalmente o pôr-do-sol repousava sob a linha do horizonte, já uma boa quantidade de barris de rum estavam armazenadas na cave do Pérola Negra, tal e qual com Jack havia idealizado. Com uma expressão de satisfação, ele apreciara aqueles enormes barris serem conduzidos pelos seus marujos, apenas se mexendo para tirar a chaves do cinturão para entregar a Gibbs.
"Enfim, o navio está completo" Pensava Jack que esfregava as mãos de contentamento.
Nesse mesmo fim de tarde, após ver concluída a tarefa que incumbira aos seus marujos, Jack tratou de cumprir a promessa que fizera a Isabella: a de levá-la a conhecer cada recanto daquela ilha. Já conhecendo a habitual balbúrdia que reinava nas ruas saturadas de bêbedos arruaceiros, Jack optou por levá-la por sítios mais seguros, onde apenas residiam os acatáveis habitantes de Tortuga, que permaneciam recolhidos em suas pequenas e acolhedoras casas para se afastarem dos problemas. Quanto mais tempo conseguissem proteger os seus preciosos bens das garras daqueles piratas trapasseiros, que atracavam lá por pura diversão, melhor.
Outra das evidentes preocupações do capitão, era exibir Isabella por essas ruas cheia de olhares cobiçosos, que mais cedo ou mais tarde, acabariam por recair sobre a bela jovem. E como tal, galanteios seriam escutados para tentarem chamar a atenção de Isabella, algo que Jack com certeza não ia aprovar. Logo com Isabella, que era uma mulher destemida e delicada ao mesmo tempo, num misto de pecado e prazer ao olhos de quem a contemplasse. Uma mulher de porte elegante não passaria indiferente perante as ruas mal cheirosas de Tortuga.
"Mas o que raios estou para aqui pensando?" Jack coçou a cabeça "Ela é apenas uma mulher impossível de suportar, que possui uma boa técnica de luta e… Jack Sparrow você precisa de rum urgentemente."
-Com certeza é uma ilha muito animada e movimentada, ainda que a ache um pouco sombria. – Isabella quebrou a linha de pensamentos de Jack, que chocalhou com a cabeça para a fitar.
-Bem vinda ao paraíso, querida. Seja brindada com o característico cheiro de Tortuga, não é agradável? – À medida que caminhava, esbracejava com satisfação.
-Para falar a verdade, o cheiro é bem notável. – Reconheceu, torcendo o nariz.
-E ainda não viu nada. – O Capitão soltou um sorriso debochado.
Entrando por um atalho minimamente escuro e de piso escorregadio, Jack guiou-a por um caminho onde novas casas iam surgindo, ainda que pouco iluminadas e com pocilgas fedorentas. Mais à frente, Isabella presenciou uma disputa acesa, talvez um duelo de espadas renhido e violento, que a assombrou de imediato. Porém, quando escutou o soar de um disparo, que acabou por morrer no ar, agarrou-se inevitavelmente ao braço de Jack, que exibiu o seu melhor sorriso matreiro. Com um esgar de desprezo, ela acabou por largá-lo e cruzar os braços ao nível do peito.
-Porque teimam nessa disputa ridícula? – Resmungou, após passarem discretamente por aqueles piratas.
-Para ver quem é o pirata mais forte; por pequenos tesouros; rum ou até mulheres… São maluquinhos. – Jack pôs o dedo indicador na cabeça e rodou-o.
-Já vi que não é o único a sofrer de graves traumas psicológicos. – Gracejou, evitando rir da expressão cómica que ele evidenciou ao elevar a sobrancelha.
Num beco mais á frente, entre duas casas ligeiramente minúsculas e recatadas, algo fez Isabella cessar o sorriso e estreitou o olhar, quando, na pouca iluminação que lhe dispunha aquele lugar, viu duas pessoas numa situação comprometedora. Porém, sua expressão modificou totalmente quando se apercebeu que era um casal escondido, talvez um pirata e uma rameira praticando o acto carnal em plena noite, longe das vistas matreiras, á medida que gemidos abafados eram escutados.
-Por Deus, não havia outro sítio melhor? – Resmungou, para de imediato desviar o olhar. – Qualquer um pode apanhá-los nestas circunstâncias menos impróprias.
-Mentalize-se de uma mera coisa: em Tortuga não há regras, a não ser a da sobrevivência. De resto, diversão para todo mundo. – Jack estendeu os braços no ar, como se a qualquer momento fosse abraçar algo invisível, num júbilo notório.
-Capitão, para você tudo é pura diversão. Beber é diversão; ficar em perigo é diversão; USAR as pessoas é diversão – Acentuou bem a palavra, fingindo contar pelos dedos, concluindo: - Ainda tenho uma lista vaga para enunciar.
-Você tem boa memória! – Murmurou, dissimulado.
-Com o tempo, aprendi a ler várias expressões suas e isso ajudou-me a conhecê-lo melhor que a palma da minha mão. – E num suspiro ressentido, completou: - Só conseguiu me enganar uma vez, quando me apontou a pistola à cabeça.
-Nesse dia acabei por te salvar a vida, acho que mereço uma recompensa… - Ela riu espontaneamente.
-Sabe, eu preferia ter morrido naquela ilha, do que te dar qualquer tipo de recompensa. Além de que, eu te salvei a vida por duas vezes e ainda não recebi a minha suposta recompensa. – Ele deteve-se, boquiaberto, o que a forçou a parar para o encarar.
-E o que quer que faça? Que me vista de havaiana e dance o hulla-hulla…
-Aceito boas sugestões, capitão. Vou ficar esperando. – Triunfante, ela virou-lhe costas e deixou um Jack estático para trás, ainda perplexo.
-Eu joguei pedra na cruz só pode. - Bufou, num falso arrependimento. - Porque não a deixou na ilha quando teve essa oportunidade?
-Porque na hora em que pensou isso, um súbito peso na consciência tomou conta de você. E aí, você finalmente percebeu que já não podia mais viver sem mim. Até porque, lá no fundo, nós somos iguais, Jack, feito duas gotas de água; farinha do mesmo saco. Sofremos das mesmas ambições, mesmo que eu não seja tão obcecada quanto você. – Rebateu Isabella ao vê-lo tomar o lugar ao seu lado, enquanto ela gesticulava com as mãos cada frase que proferira.
-Auto-estima sempre foi um dos pontos fortes da sua personalidade. – Alfinetou, com uma expressão de puro escárnio. – Por aqui, por favor. – E apontou para um caminho mais largo.
-Vou ignorar você por breves momentos.
O caminho que ia ficando cada vez mais deserto e sem povoado perto, deu lugar a um aglomerado número de troncos de cor óssea e de vegetação imensamente verde, depois de trilharem uma longa caminhada. Com um passo galanteador, Jack aproveitou para afastar os galhos suspensos naquelas majestosas árvores, para que Isabella pudesse apreciar o cenário magnífico que se impunha perante os olhos de ambos.
-Apenas aproveite. – sussurrou ele, perto do ouvido.
Após fitá-lo por breves segundos, ainda absorta com a esplêndida paisagem á sua frente, Isabella moveu-se sem proferir uma palavra. Por incrível que parecesse, aquele pedaço de ilha em nada se parecia com a outra parte que acabara de atravessar. Era como se tivesse nadado até outra ilha, o que a arrepiou completamente. Todo o panorama era revestido por uma tonalidade esverdeado, tanto o solo, como o mar que acolhia os reflexos verdes daquela densa vegetação. Para completar em chave de ouro aquele quadro pintado pelos Deuses, um belo pôr-do-sol permanecia repousar no leito do mar. Aquele sim, era o pedaço de paraíso onde gostaria de passar o resto dos seus dias, caso um dia não pudesse mais abraçar o mundo da pirataria.
-Isto é perfeitamente lindo.
Jack encurtou a distância entre ambos, ao deter-se atrás das costas dela. Ambos apreciavam em silêncio cada pormenor que aquele lugar lhes proporcionava, até Isabella notar algo fora do comum.
-Como é que ninguém deu com este pequeno pedaço de paraíso? – Ela observava ao redor, como se procurasse alguém.
-Porque eu o assombrei! – Um sorriso matreiro apossou-se dos lábios do capitão.
-Como assim, assombrou-o? – De soslaio, Isabella tentou perceber as feições inflexíveis dele.
-Quando aportei nesta ilha, depois de pensar que John morrera, eu procurei um bom lugar para dormir, que não fosse numa pocilga mal cheirosa. E foi então que descobri este local. – Deu duas passadas para a frente. – Tratei logo de afastar muitos dos piratas bêbedos, que pensavam que este lugar estava possuído por espíritos capazes de os transformar em lulas gigantes. Parece que a lenda espalhou-lhe. – Encolheu os ombros, como se não fosse muito importante aquele pormenor. – Foi também aqui que me refugiei de Cutler, muitos tempo depois do navio de meu pai ter sido destruído.
-Quem foi que destruiu o navio do seu pai? – Indagou Isabella, sentando-se numa rocha ao tentar captar a expressão do rosto de Jack, que ficou em silêncio durante algum tempo.
-Capitão São Feng – Arremessou praticamente o nome do homem, com uma centelha de ódio nos olhos.
-Agora percebo o porquê de tanta pergunta sobre esse capitão.
-Nosso caminhos ainda se vão cruzar novamente! – Jack olhou sério para Isabella. – E nesse dia um de nós não sairá vivo para contar a história.
-Não vamos estragar o nosso passeio com esse tipo de assuntos. – Fitou novamente o paraíso à sua frente e murmurou: - Este sitio é realmente belo! – E num enrugar de cenho, ponderou: - Quantas mulheres trouxe até aqui, capitão?
-Não houve muitas que se arriscaram a passear com o pirata mais charmoso do Caribe e arredores, por isso, dê-se por feliz por ser a primeira.
-Claro, vou fingir que acredito, querido. – E abanou a cabeça ao morder o lábio, divertida.
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Com os dedos entrelaço nos de sua amada, juntamente na companhia de Tia Dalma, Will encaminhou-as para o Faithful Bride, a taverna mais antiga Tortuga, que seria o ponto de encontro com Jack e Isabella. Já na porta, Will analisou cada detalhe daquela construção em madeira. As velhas tábuas, em plena decomposição, denunciavam o estado antiquíssimo daquele edifico; o novo proprietário teimava em afirmar que cada recanto daquela bodega contava a história de bravos piratas que aportaram lá, mas em especial, contava a história da filha do antigo dono daquela taverna, que se tornou numa extraordinária capitã, capaz de fazer frente á Companhia das Índias Orientais.
Num leve encontrão, Will abriu a porta e deu passagem às duas mulheres que foram acolhidas pelo ambiente festivo que a taverna lhes proporcionava. O ar era inundado pela música alegre, mesmo que esta fosse abraçada pela confusão habitual provocada por piratas embriagado, ou abafada pelas vozes berrantes que exigiam atenção. Will atreveu-se a abrir caminho por entre a multidão que bebiam e dançavam alegremente enquanto prostitutas moviam-se de um lado para o outro, com seus elevados decotes para atrair a cobiça dos homens necessitados de seus serviços.
-Agora percebo o porquê deste local ser o favorito de Jack. – Com a ponta dos dedos, Tia Dalma afastou um homem atravessou o se caminho. – Vá beber água homem, que seu bafo é pior que o do próprio Kraken.
Depois de enfrentarem metade da balbúrdia, conseguiram encontrar uma mesa livre ao fundo da taverna bem iluminada, ocupando assim as suas cadeiras vazias. De imediato foram atendidos por um pequeno homem, talvez um miúdo novo naquelas andanças, que transportava devotamente uma bandeja na palma da mão.
-O que vai ser?
-Uma caneca de hidromel e duas de Rum. – Anunciou Will, após ter conferido com as duas mulheres.
-Já a sair.
No meio daquela massa de gente que dançava sob o tabuado rangente da taverna, encontrava-se uma mesa ocupada por dois homens encapuçados. Estes tentavam manter distância dos festejos piratas, para permanecerem imperturbáveis e despercebidos. Porém, os dois pares de olhos focavam-se sobretudo em três pessoas específicas que tinham acabado de se dentar numa das mesas, a poucos metros do sitio onde se encontravam.
-Chegaram mais cedo do que eu imaginara. – Comentou um dos encapuçados ao desviar o olhar par fitar o companheiro, num gesto óbvio. – Se Will e Elizabeth…- Estranhamente, ao mencionar o nome dela, a voz saiu um pouco tremida, arrastada, mas logo pigarreou para continuar: - Estão aqui, então isso quer dizer que Jack Sparrow também se encontra algures nesta ilha.
-E o que pensa fazer?
-Preciso achá-lo o mais depressa possível. Prometi ao Cutler que conseguia levar o Sparrow, principalmente com vida. – Por fim, James pegou na caneca e deu um gole.
-Para desmontar tanta determinação em apanhar o Sparrow, então é porque o Lord lhe prometeu uma recompensa rechonchuda. – Mercer esfregou o polegar no indicador.
-Digamos que fizemos um pequeno acordo que renderá para os dois lados. – James fez um brinde sozinho e voltou a beber, suspenso sobre o olhar curioso de Mercer. - Cutler quer o Sparrow até ao fim do mês, pois, segundo ele, o Rei George II visitará Port Royal para fazer novas mudanças. Em troca, me recompensará bem.
-E se fossemos procurá-lo agora? Talvez ele esteja sozinho. – Sugeriu o homem, esfregando as mãos.
-Sim, já estou cheio desta tasca dos infernos.
Ao mesmo tempo, James e Mercer ergueram-se, chamando a atenção de Elizabeth. Mesmo encapuçado, a luz filtrou-lhe sobre o rosto, fazendo Elizabeth resfolegar discretamente. O olhar de ambos cruzou-se por entre as pessoas, e de modo descarado, o ex-comodoro acenou-lhe, dirigindo-se apressadamente para a porta.
-Não pode ser! – Murmurou para si mesmo, embora não tenha passado despercebido para Will.
-Algo de errado? – Tentou certificar-se ao vê-la pálida.
-Problemas. – ressoou Tia Dalma ao direccionar o olhar em direcção ao de Elizabeth.
-Querido, eu já venho.
Sem dar mais satisfações, ou dar tempo para Will contestar, Elizabeth ergueu-se e saiu disparada, como se fosse uma determinação, empurrou cada pessoa que se interpunha no seu caminho ao mesmo tempo que agarrava o cabo da espada. Lá, fora, ela olhou para os dois lados, até captar os dois homens com capas esvoaçantes caminharem apressadamente.
-James! – Berrou ao deter-se no meio do arruamento enlameado; quando ele se voltou, ela voltou a aproximar-se já de espada aprumada.
Mercer adiantou-se e colocou a mão no cabo para sacar a sua espada, todavia, James antecipou-se sobre o homem e fez um gesto para que ele permanecesse quieto.
-Elizabeth! – Sua expressão mantinha-se congelada, observando-a naquela pose de ataque. – Pelo que vejo, seus modos piratas estão cada vez mais refinados. – Um sorriso contrafeito brotou em seus lábios.
-Apenas aprendi a me resguardar de pessoas como você. – Ela abanou a cabeça, com a respiração ofegante: - Como pôde? Eu confiava em você. Como pôde nos trair assim…
-Não fale em trair, pois você traiu a minha confiança há muito tempo, quando aceitou meu pedido de casamento para salvar o seu amado – Num passo veloz e furioso, ele colocou a mão na lâmina dela e afastou-a, a modos de encurtar a distância entre ambos. – Por isso, não volte a falar em confiança.
-Mas nunca coloquei sua vida em perigo. – Seus olhares ficaram presos no tempo, magoados.
-Norrington, não temos o tempo todo. – Proferiu Mercer, impaciente.
-Ele prometeu-lhe liberdade, não foi? – Arremessou Elizabeth, num tom rude e dolorido. – Foi por isso que entregou o coração a esse homem? – Nos lábios dele, uma linha recta se formou, incapaz de pronunciar qualquer palavra que fosse. – James, ele está te manipulando. Cutler usa as pessoas mediante os seus propósitos. – E numa súplica, ela tentou: - Por favor, pela nossa velha amizade, me diga, onde está o coração?
-Pensava que eu me renderia com suas falas mansas? – O riso dele entoou naquele espaço, para surpresa de Elizabeth. – Posso ainda te amar, mas não sou tolo de cair na sua façanha de boa moça que se preocupa comigo. Não pense que voltarei a abraçar uma vida que não é a minha, Elizabeth.
-James, por favor. – Ela quase soletrava as palavras, num sussurro arrastado. – É a minha vida, tal como a sua que estão nesse jogo ridículo, onde Cutler tem as peças todas para nos derrubar.
-Adeus, Elizabeth. – Sem ela contar, James deu-lhe um suave beijo na testa enquanto fechava os olhos, numa despedida dolorosa; ao se afastar, afagou o rosto dela: - Cuide de si, pois da próxima vez que nos encontrarmos, as consequências serão devastadoras para ambos os lados. – Recuou então para seguir Mercer.
-James. – Empunhou novamente a espada, contudo, sentiu que nunca conseguiria ferir aquele homem, devido ao carinho que ainda sentia por ele.
-Elizabeth… - Uma voz fê-la rodopiar para trás ao mesmo tempo que guardava a espada na bainha; Will correu até ela e abrigou-a em seus braços. – Nunca mais faça uma coisa dessas, ouviu? Nunca mais.
-Eu tinha de agir antes que James fugisse. – Suspirou, rendida. – Ele está diferente, Cutler sem dúvida fez-lhe uma lavagem cerebral. Maldito seja. – bramou ao formar uns punhos apertados. – Ele fugiu sem me dar nenhuma informação
-Não se preocupe, já sabemos que ele se encontra aqui, por isso, é uma questão de encontrá-lo e fazê-lo falar. – Carinhoso, beijou o tomo da cabeça da mulher. – Sabe, você tem me surpreendido com essa sua coragem.
-Aprendi com alguém – Respondeu ao beijá-lo, fazendo Will sorrir. -Vamos lá para dentro, Tia Dalma está sozinha.
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-Nunca tinha contemplado uma lua reinar tão majestosamente em seus domínios. – Fascinada, Isabella observava a lua cheia, que impunha seus reflexos sobre o mar
-Sinal que está na hora de ir, tal como combinamos com Will.
Num gesto irreflectido, Jack estendeu a mão para ajudá-la a levantar-se do rochedo onde estava sentada. Ao bufar irritada, ela acabou por aceitar o auxílio, todavia, ao empregar demasiado balanço para subir, desequilibrou-se e acabou por tombar contra o peito dele. Na curta distância que os separava, ambos fixaram seus olhares um no outro, o que fez com que as bochechas de Isabella ganhassem uma tonalidade rubra. Inconsequentemente, Jack envolveu o outro braço em volta da cintura dela e puxou-a mais para si, para que ambos os corpos se unissem quase que instantaneamente. Com o dorso da mão, ele deslizou-a desde a têmpora da jovem até aos lábios, acariciando-os apenas com o indicador e o dedo médio. Nesse mesmo instante, a respiração dela acelerou, juntamente com o seu coração, para logo sentir os lábios de Jack sobre os seus, num beijo sôfrego, mas ao mesmo tempo suave. Esse momento era acompanhado pelos inocentes reflexos da lua, que os iluminava de uma forma translúcida e mágica. Contudo, Isabella interrompeu o beijo e de cabeça baixa, quase com a testa encostada ao queixo dele, sussurrou:
-Temos que já devíamos ir a caminhos. – Logo ergueu a cabeça para mergulhar na imensidão negra dos olhos do homem à sua frente; roçou os lábios nos dele para completar: - Eles estão nos esperando. – A muito custo, ela afastou-se de um Jack de beicinho.
-Bugger. – Jack cruzou os braços e seguiu Isabella.
Em pleno silêncio sepulcral, trilharam de volta o caminho inverso ao que tomaram para chegarem àquele pedaço de paraíso, cada um perdido nos seus próprios pensamentos. O que se passava entre eles? Nem Jack Sparrow sabia ao certo. Talvez não quisesse saber tão cedo, já que não fazia intenções de se relacionar com qualquer tipo de mulher. Já Isabella, discretamente passeava seus dedos sobre os lábios, num sorriso aluado. Não sabia o porquê, mas estava cada vez mais envolvida na teia daquele capitão, e com toda a franqueza, não tinha a certeza se queria escapar dela.
Quando deu por si, Isabella já tinha mergulhado nas rotineiras e barulhentas ruas de Tortuga, onde se evidenciavam as habituais rixas de rua entre piratas com os cidadãos comuns que defendiam seus pertences. De esgueira, viu Jack caminhar com um á vontade impressionante, mesmo que sua mão voasse de vez em quando para o cabo da espada, sobretudo quando passavam demasiadamente perto de uma área contingente. Após virarem uma esquina, Jack deteve-a ao lhe segurar pelo ombro. A velha placa de tinta gasta e inexpressiva anunciava Faithful Bride.
-É aqui? – Numa breve mesura de cabeça, Jack abriu a porta, sendo acolhido pelo ambiente alegre.
Ambos trataram de procurar Will, Dalma e Elizabeth, porém sua busca foi facilitada quando viram o jovem Will acenar-lhes. Suas expressões sisudas e preocupadas denunciavam problemas, e tanto Jack, como Isabella, apressaram-se para saberem o que ocorrera na ausência deles.
-Ainda bem que chegaram. – Proferiu Will ao ver Jack sentar-se ao seu lado, juntamente com Isabella que mantinha seu semblante cerrado de apreensão.
-Algum problema?
-James Norrington está em Tortuga. – Anunciou Elizabeth cravando seus olhos amendoados para um Jack surpreso, que a fitou de relance. – Apanhei-o à saída da taverna. Eu não sei porque motivos se encontra aqui, mas essa vinda deve estar relacionado com Cutler, pois ele veio acompanhado por Mercer. – Ao abanar negativamente a cabeça, murmurou entre dentes: - Ele passou literalmente para o lado de Cutler, pois, por mais que eu tenha apelado ao velho sentimento da nossa amizade, e por mais que tenha explicado o perigo que nossas vidas enfrentam, ele não se removeu e muito menos me contou onde o coração estava.
-Caramba, eu deixo-vos sozinhos por uns minutinhos e olhem o que acontece. – Ele abriu os braços, como algo evidente. – O mundo cai-vos em cima. – Todos naquela mesa olhavam-no incrédulo – Bom, seja como for, amanhã o nosso querido amigo vai nos dizer o que veio aqui fazer, basta procurá-lo para descobrir esses meros detalhes.
-Muito cuidado com essa confiança, Jack. Ele já vos enganou uma vez, pode muito bem enganar outra. – Preveniu Dalma, deixando Jack pensativo. – Ele segue ordens, e não olhará a meios para cumpri-las.
-Eu sei! – Jack olhou em seu redor e comunicou ao se erguer: – Mas, meus caros, amanhã trataremos disso. Hoje vamos aproveitar esta magnífica noite. – Sua atenção recaiu sobre um Will abismado com a tranquilidade do capitão. – Você fica encarregue de as levar para o navio, savvy?
-Não se preocupe.
No seu passo desordenado, Jack moveu-se até ao balcão para ir falar com o velho taberneiro. E lá ficou por um tempo, enquanto o pequeno homem lhe servia uma caneca de rum.
-Como ele pode estar tão tranquilo? – Elizabeth observava a boa disposição de Jack à distância, não compreendendo o facto de ele permanecer calmo, sabendo que James estaria na mesma ilha que ele.
-Jack está preparando alguma, eu sei reconhecer aquela expressão em qualquer parte do mundo. – Retrucou Dalma com um sorriso torcido, ao mesmo tempo que levava a caneca de hidromel aos seus lábios.
-Quem é esse James? E o que se passa com esse coração de que tanto falam? – Ao ver que falava depressa demais, respirou fundo e encarou Dalma com uma centelha de dúvida no rosto. – Perdão se pareço impertinente, mas estou um pouco desnorteada, parece que fui arrastada para o meio de uma tempestade.
-Tempestade? – Dalma pousou a caneca no meio de uma risada. – Eu diria mais que você acabou de se meter na boca de um tornado. E sim, já que faz parte da nossa tripulação, tem todo o direito de saber tudo a pormenor. – O olhar de Dalma desviou-se do de Isabella para fitar compassivamente Will e Elizabeth, que anuíram. – Então está na altura de saberem o porquê do coração de Davy Jones ser amaldiçoado. – O timbre de voz dela tornou-se sombrio, fazendo Isabella arrepiar-se.
-E qual é o motivo disso?
-Porque será, jovem William? O que faz um homem ter atitudes irracionais? – Will percebeu indirectamente a resposta e acabou por baixar a cabeça para murmurar:
-Uma mulher.
-Uns dizem que ele foi amaldiçoado pelos Deuses, por ter insistido em dobrar o cabo da Boa Esperança, outros afirmam que o capitão, ao atravessar uma tempestade, foi visitado por Nossa Senhora, e culpando-a pelos infortúnios da sua viagem, atacou a imagem, atraindo para si maldição de continuar vagando pelos sete mares até ao fim dos tempos. Porém, isso são apenas lendas do mar, canções de velhacos bêbedos que as trovam para assustar jovens e iniciantes piratas. O facto é que tudo começou numa primavera, em meados do século dezasseis, quando Davy Jones, um corsário bem sucedido na época, atracou o Holandês Voador em Espanha para tratar de negócios com o rei. Numa dessas visitas ao palácio, Davy Jones conheceu a jovem Constância de Habsburgo, uma das primeiras filhas ilegítimas de Carlos I com uma aia da rainha Isabel. De imediato, soube que teria de conquistar aquele tesouro para si, pois seu coração tratou de lhe pregar uma peça: a de se apaixonar pela infanta. Apesar de saber os riscos que corria por amar a jovem, logo viu que seu sentimento era dolorosamente correspondido.
-Claro que isso não poderia correr bem. – Isabella, que permanecera quase em transe ao escutar a história, teve necessidade de interromper Dalma, fitando a feiticeira com um olhar opaco. – Nunca que o rei aceitaria esse romance, sobretudo por Davy ser um corsário, mesmo que este tenha jurado abandonar tudo por ela. – Will e Elizabeth estranharam aquela corte vindo da jovem.
-Depois de muitas cartas trocadas pelos amantes, e de muitos passeios furtivos pelos jardins reais, Davy resolveu prolongar a sua estadia naquele país, para ganhar tempo e conseguir fugir com a Infanta.
Suores frios incomodavam Isabella, que se mantinha demasiado envolvida com aquela história. Sua respiração acelerada era acompanhada pelo pulsar violento de seu coração, que gritava silenciosamente por motivos que ela desconhecia. Porque será que aquela história tocava tanto sua alma, e ao mesmo tempo parecia sabê-la de trás para a frente, como um conto que haviam lhe contado em criança? Tia Dalma observava as emoções contraditórias da moça, cada vez com mais certeza que deveria levar aquela historia até ao fim.
-O que correu mal?
-O que sempre ocorre. Só em casos muito extraordinários é que a diferença entre classes social não se sobrepõe a casais apaixonados. – Num desprezo incompreendido, Isabella acabou por replicar a Elizabeth, tendo Dalma a dar continuidade ao comentário:
-Desconfiado que alguma coisa se passava com a filha, o regente mandou uma aia revistar o quarto da filha, e esta acabou por entregar-lhe uma caixinha, onde a infanta guardava os lindos poemas que Davy lhe escrevia, ou as cartas a marcar encontros. Como tinha planos de casar a filha com Dom Luis, Duque de Beja, resolveu tomar atitudes drásticas e prendeu a filha no palácio, expulsando o corsário do seu país. Nesse mesmo dia, antes de Davy partir, Constância conseguiu fugir do palácio, pronta a partir com Davy. Quando pensavam que tinham o plano de fuga perfeita, os amantes foram descobertos antecipadamente. – A ênfase das palavras de Dalma, fizeram com que Isabella estreitasse os olhos, cada vez mais ofegante. – Dando falta de sua filha, o rei ordenou que os seus guardas fizessem uma rusga pelas ruas de Espanha, e que na primeira oportunidade matassem Davy Jones e trouxessem sua filha são e salva. – Os olhos de Tia Dalma pareciam mudar de cor. – Ao serem descobertos na entrada do porto, um dos guardas preparou-se para disparar conta Davy, contudo a infanta foi mais rápida e colocou-se à frente dele para aparar o golpe. Ao vê-la tombar em seus braços, quase sem vida, Davy entrou em desespero, porém, ela conseguiu lhe entregar um bela caixinha de música em forma de colar, prometendo-lhe que um dia viria buscá-la.
-Como não há evidências desse acontecimento?
-Essa história manchou de tal maneira as páginas da realeza Espanhola, que nem aparece nos registos histórico, pois o rei ordenou que abafassem o assunto. É como se essa Constância de Habsburgo nunca tivesse nascido.
-E Davy? O que aconteceu para ele ficar naquele estado? – a voz de Isabella saia urgente, como se necessitasse daquelas respostas.
-Ensandecido por ver sua amada morrer em seus braços, ele tratou de matar os homens que haviam acabado com sua felicidade e partiu no seu navio, com a promessa que a iria trazer de volta nem que fosse a última coisa que fizesse. A partir desse dia, Davy Jones fez uma busca incessante pela feiticeira e ninfa do mar Calypso, até finalmente descobrir a sua localização na ilha Ogígia. Completamente enlouquecido pela dor, pediu à deusa que trouxesse sua amada de volta, em troca, entregaria seu coração e alma à Deusa. – Fez uma pausa ao dar ombros. – Engenhosa, Calypso aceitou a barganha e cruelmente arrancou o coração ao jovem apaixonado, informando-lhe que ele teria de navegar em busca de almas para ela, em troca, poderia vir de dez em dez anos a terra procurar a sua amada. Enraivecido por ter sido trapaceado pela Deusa, Davy tentou atacá-la, contudo, ela vingou-se e transformou-o naquele monstro, amaldiçoando também a sua tripulação a tal destino.
-Pobre homem.
-Complacente, e enfrentando a ira de Calypso, Hermes teve piedade pelo destino do homem e deu poderes ao seu coração, para que este pudesse enfrentar os perigos que se avizinhariam. Entretanto, alertou-lhe o facto do coração poder cair em mãos erradas; caso isso acontecesse, poderia ser desastroso. Por isso Davy Jones resolveu esconder o seu coração na Isla Cruces, onde enterrou também metade da sua vida. Dois séculos se passaram e cada vez mais desiludido por não encontrar a sua amada, Davy Jones tornou-se num monstro desprovido de sentimentos, passando a vida atormentando os navegadores que cruzavam o seu caminho para cumprir o seu trato com Calypso.
-E como se quebra a maldição? – Isabella inclinou-se um pouco para prestar atenção à resposta de Dalma
-Talvez quando Davy reencontrar a reencarnação de sua amada e usar o poder do coração para os unir, ainda que sua alma esteja entregue à Deusa. – Por fim, Dalma observou uma Isabella pálida e extremamente agitada. – Você está bem?
-Sim, estou só impressionada com a história. – Dalma arrastou a caneca de hidromel para que a jovem bebesse um gole; sem cerimónias, ela deu um longo trago e pousou bruscamente a caneca para lhes questionar: - E agora onde pára o coração?
-Nas piores mãos possíveis. – Retrucou Elizabeth sem tirar os olhos da sua caneca. – E o responsável é James Norrigton, que acabou por entregá-lo a Cutler Beckett, o homem que sonha acabar com a pirataria.
-Quem encontrasse o coração, não só poderia apunhalá-lo e matar Davy Jones, libertando assim a sua tripulação amaldiçoada, como também poderia usá-lo para outros propósitos, como dominar os mares. – Explicou William, dando continuidade ao raciocínio de Elizabeth, que lhe retribuiu um sorriso ao afagar a mão do seu amado. – Agora temos de analisar as hipóteses que temos de descobrir onde esse coração está, antes que Cutler descubra e leve o seu plano avante.
-E quem deveria estar preocupado em decidir essas soluções, está neste momento no bem bom. – rosnou Isabella ao direccionar o olhar para Jack Sparrow.
Três pares de olhos curiosos seguiram o olhar de Isabella, para encontrarem, por entre a multidão, um Jack encostado ao balcão da taverna. Enquanto levava a caneca de rum aos lábios, gesticulava animadamente os braços no ar, uma mulher bem elegante, e com um decote pomposo à vista de todos, encontrava-se praticamente acostada a ele à medida que lhe acariciava o rosto. De compensação, Jack passou-lhe os dedos pelo ombro dela e ambos riram. Novamente, os três pares de olhos voltaram-se para uma Isabella de olhar estreito, que no segundo seguinte pegou na caneca de rum de Will e ergueu-se, caminhando ligeiramente em direcção aos dois.
-Ah capitão, a festa vai acabar. – Murmurou para si mesma, de dentes cerrados.
-Isto não vai acabar bem. – Dalma levou a mão ao rosto, abanando-a.
-Está se divertindo, capitão? – Com a voz sarcástica e com a expressão mais dissimulada, Isabella encostou-se ao balcão, chamando a atenção dos dois.
A mulher abreviou o olhar, com um esgar de aborrecimento, ao mesmo tempo que apreciava a jovem que interrompera aquele momento. De seguida fitou Jack, que encolheu os ombros.
-Ora, querida Isabella, veio se juntar à conversa? – Era notório o estado alterado do capitão, e quando ia a rebater, a mulher antecipou-se:
-Queridinha, há mais homens na taverna, por isso vá se divertir com eles. – Ofendida, Isabella abriu a boca para logo cerrá-la enraivecida, dado dois passos em direcção à mulher e apontando-lhe o dedo.
-Se voltar a dirigir a palavra à minha pessoa, você vai se arrepender de ter acordado hoje. – E logo de seguir encarou Jack. – Se era para me humilhar, óptimo, conseguiu.
Antes de virar costas, arremessou o conteúdo líquido da caneca contra o rosto de Jack, que expeliu logo de seguida, confuso. Por fim, encarou fulminantemente a mulher que estava com ele; esta encolheu-se nos braços dele com receio que aquela doida lhe arrancasse os cabelos. Com um urro de raiva, Isabella pousou a caneca no balcão e saiu disparada da taverna, sem esperar qualquer tipo de reacção de Jack, muito menos que viessem atrás dela. Já Will, Dalma e Elizabeth riam-se descaradamente da cara de espanto de Jack, que abandonou a mulher para se juntar a eles, num passo balançado.
-O que lhe deu? – Indagou Jack, tirando o chapéu que parecia um lago.
-O que estava fazendo com aquela mulher? – Ainda divertida, Tia Dalma tratou de reformular a pergunta.
-Estava tirando informações sobre o James e o Mercer, mas o que consegui saber é que eles aportaram aqui à menos de quatro dias.
-Jack, é melhor você ir atrás dela. É perigoso para ela andar sozinha a esta hora. – Aconselhou Will vendo Jack começar a resmungar enquanto se afastava.
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-Desgraçado, não pode ver um rabo de saias andante que fica babando para cima.
Ainda irritada, Isabella embrenhava por caminhos que mal conhecia, sem se importar onde iam dar. Só queria distância daquele pirata trapaceiro, nem que para isso tivesse que se esconder numa pocilga para não ser encontrada. Para ajudar o seu estado de pura indignação, pequeníssimas gotas iam declinando do céu, a modos de amaciar a fera que caminhava desoladamente pelas ruas mal apresentadas de Tortuga. Mesmo assim, à medida que caminhava e a fúria ia se dissipando aos poucos, Isabella tentava compreender o porquê de seu estado. Desde que entrara naquela taverna, tinha passado por um turbilhão de emoções, desde que escutara a história de Davy Jones até ver Jack envolvido com aquela mulher, depois de a ter beijado.
-Eu estou a dar em louca, e o pior é que meus sentimentos não ajudam em nada. – resmungou ao deter-se para fitar o céu, sendo acariciada pelas gotículas que molhavam o seu rosto. – Deus, me dê respostas para as quais não tenho.
De repente, o barulho de passos despertou Isabella. Na sua mente surgiu-lhe a ideia de que poderia ser Jack, porém, o seu sexto sentido alertava-a para continuar seu caminho, mesmo incerta de qual seria o seu destino. Engolindo seco, voltou a moveu-se aceleradamente, em passos firmes, sentindo que a pessoa que a seguia fazia o mesmo. Por momentos, amaldiçoou-se por ter tomado um atalho isolado, sem ninguém à vista, ainda que as casas permanecessem escuras e em deterioração. Sorrateiramente olhou para trás e viu um vulto cada vez mais perto dela, capaz de a alcançar em meros passos. Foi então que decidiu correr para preservar sua vida. Sem olhar para trás, correu pela rua térrea e ao passar numa esquina, sentiu a pessoa ganhar vantagem e agarrá-la grosseiramente pelo braço. De seguida jogou-a contra a parede fria e a virou de frente para ele. O aspecto nojento e maltrapilha do homem repugnou-a, enquanto tentava desenvencilhar-se dos braços dele.
-Olá boneca! – O hálito nauseabundo dele chegou-lhe às narinas, fazendo-a torcer o nariz e afastar o rosto.
-Largue-me já, está me machucando. – Ela deu um abanão para se soltar, mas em vão.
-Calma, eu posso pagar pelos seus serviços…
-Seu imbecil, eu não sou uma prostituta. – Sem lhe dar ouvidos, o homem beijou-lhe forçosamente o pescoço ao mesmo tempo que ela se debatia. – Você vai se arrepender, eu juro.
-Deixe de ser rebelde, boneca. Se eu tenho dinheiro, eu pago…
-Seu cão sarnento, eu não quero seu dinheiro. – Numa joelhada certeira nas partes baixas do homem, Isabella conseguiu se soltar.
De imediato tirou o seu punhal e apontou-o á garganta do homem, que gemia de dores. Contudo, num movimento rápido, o homem que anteriormente se queixava, conseguiu alcançar o braço da jovem, arrancando-lhe o punhal para o arremessar para longe.
-Agora, vadia, você vai fazer tudo o que eu quiser.
-Nem pense…
Naquele instante, o homem largou-lhe o braço para logo lhe dar uma valente bofetada com o dorso da mão. Indefesa, a jovem caiu no chão molhado e imundo, e quando se apoiou nos braços para se erguer, o homem já a agarrava pelos cabelos para voltar a atirá-la contra a parede. Num grito sufocado pela dor, ela tentou socá-lo, mas o homem foi mais rápido e aparou o golpe, pressionando-a ainda mais contra a parede com o seu próprio corpo. Enojada, ela viu-o rasgar-lhe o belo vestido verde que Jack lhe dera, para deixá-la apenas com a anágua a tapar seu corpo. Num grunhido de revolta, Isabella voltou a atacar o homem ao lhe arranhar o rosto e dando-lhe um murro no queixo, o que o fez cambalear para trás. Quando pensou que aquela seria a oportunidade para fugir, o homem voltou a ser mais rápido e desta vez, sem dó nem piedade, deu-lhe um murro certeiro no estômago. Ela sentiu o ar ser-lhe roubado dos pulmões, embora sua força já há muito a tivesse abandonado. Foi nesse momento que se apercebeu que não teria hipótese de sair dali com vida, quase não fizesse tudo o que aquele verme quisesse.
-Está mais calminha? – O homem roçou então os lábios na linha do maxilar dela enquanto uma das mãos começava a puxar a anágua para cima. – Prometo que será inesquecível.
-E eu prometo que te irei matar, nem que seja a última coisa que eu faça. – rosnou ao cuspir-lhe no rosto.
Foi então que um tiro soou naquela noite quente, mas chuvosa. Tudo ficou em silêncio, onde só o som dos pingos de chuva era evidente contra a pedra gasta das casas ali perto, ou na terra moída pelos passos que já a haviam pisado. O homem permanecia imóvel, encostado a Isabella, olhando-a fixamente de olhos arregalados. Por fim, começou a deslizar lentamente em direcção ao chão até ficar estendido. Isabella levou inconscientemente a mão à boca, soltando um grito de horror, e já sem forças, caiu igualmente no chão. Novos passos foram escutados, para desespero dela, que apanhou o punhal que estava perto dela.
-Deixe-me em paz. – Apontou o punhal para a frente. Mesmo com a chuva a enublar a sua visão, viu que o homem não tinha desistido de se aproximar. – Vá embora…
-Vai afugentar seu salvador? – A voz conhecida fê-la baixar o punhal e abrir um sorriso esperançoso.
-Jack! – Ela tentou erguer-se, mas suas pernas não lhe permitiam.
Jack tirou o seu casaco e aninhou-se para cobrir uma Isabella trémula. De seguinte tomou-a em seus braços, para tirá-la dali e levar a jovem de volta ao navio, onde estaria em segurança. Num ataque de consciência, Isabella não conseguiu impedir que as lágrimas silenciosas rebentassem em seus olhos ao mesmo passo que tombava a cabeça contra o peito de Jack.
-Desculpe-me, eu não sei o que me passou pela cabeça e…- Num suspiro embargado por um soluço reprimido, completou: - Obrigada.
-Não se preocupe, eu estarei sempre aqui se precisar!
No navio, ele repousou-a cuidadosamente na cama. Tentando se mexer o menos possível por causa das dores que sentia, ela acomodou-se para se sentir mais confortável.
-Melhor eu ver esses ferimentos…
-Não precisa, eu estou bem, e por favor, não insista. – Rebateu a jovem ao se cobrir com o cobertor de linho.
-Muito bem, amanhã conversámos melhor.
Após tirar sua camisa molhada e botas, voltou-se para contemplar uma Isabella adormecida. Sem pensar, achegou-se perto da cama para afastar uma mecha de cabelo da frente do rosto da jovem para se certificar que ela estava realmente bem. Com cuidado, deitou-se ao lado dela e lentamente tomou-a em seus braços, tal e qual como fazia todas as noites. Estava começando a habituar-se àquela rotina e isso preocupava-o. Desde que ela entrara na sua vida, seus hábitos e carácter tinham mudado um pouco, e isso não era nada peculiar nele. Afagando os cabelos dela, Jack apercebeu-se que cada vez mais estava apegado à presença daquela mulher; essa conclusão preenchera a sua mente, quando julgou que a poderia ter perdido hoje, nas mãos daquele homem faminto. Num suspiro, acomodou-se na almofada para que seus olhos submergissem na escuridão habitual, prontos a receber um novo dia.
N/A: Oiii! Aqui em Portugal começou o tempinho de aulas, por isso não tenho tido muito tempo para escrever! Este capitulo está um pouco maior que os outros. O que dizer deste capítulo? Bom, ele relata a história de Davy Jones e o porquê da maldição do coração. Como diz Tia Dalma, só uma mulher para abalar o coração de um corsário.
Likha Sparrow: Pois é, Cutler anda endoidando, mas até ao fim muita água vai correr por debaixo da ponte, e ele nem espera a volta que isto vai dar. Obrigado pelo teu comentário.
Morena: Tiveste bem agora, "o sonho...pronto coiso ne?"…Tu e os niggas. Eu vou pensar se até ao fim ponho um nigga ou um australiano lool ok?
Jane: Também começou a minha e não tenho tido tempo para escrever grrr…lol. O Davy parece mauzinho, mas até ao fim ele ainda vai ficar pior que o Cutler lol.
Kadzinha: Oiii, Fico feliz por teres gostado da minha fic :), e obrigada por teres comentado. Fica á espera de nova opinião tua :)
Este é um capítulo importante para o desenvolvimento da fic, tanto o sonho de Elizabeth como a história de Davy são praticamente revelações que serão fundamentais. A partir deste capítulo, tudo pode acontecer.
Beijocas, fiquem bem e espero receber opiniões vossas, pois é muito importante para esta autora desleixada.
Taty Black
