A lei do amor

Kaline Bogard

Capítulo 10

Sou eu quem tem que pedir seu perdão, Kiba. Nunca pensei que se sentiria assim tão acuado. Vi uma chance de me aproximar de você, foi a decisão mais egoísta que já tomei na vida — ele disse a um folego só — Não quero que sofra e que faça nada doloroso demais. Posso pedir a anulação do vínculo, se for impossível para você continuarmos a nossa união.

— Não diga isso. Não é impossível pra mim. Só... tenha paciência a afirmativa veio sem qualquer hesitação. Surpreendeu Shino um pouquinho.

— O prazo é de um ano, temos até dois anos na verdade. Não precisa apressar nada, Kiba.

Pois o conforto serviu apenas para fazer o garoto chorar mais. Daquela posição, com o rosto contra o peito de Shino, podia sentir-lhe o coração batendo calmo e compassado. Como, em nome de todas as entidades místicas, aquele cara podia ficar tranquilo em cada bendita situação?

— Temos quase a mesma idade! — Kiba reclamou com certo rancor, algum tempo depois — Por que você parece tão maduro enquanto eu surto feito um pirralho?

— Não sei. Talvez viver apenas com meu pai tenha resultado nisso, ele sempre foi muito sério e sensato em suas ações.

— Ah... — exclamou pouco convencido do argumento — Chorei tanto que meu nariz escorreu... — fungou.

— É. Senti aqui — Shino gracejou.

— Que nojo! — o garoto ergueu um pouco o braço e passou a manga do pijama pela barriga do outro.

— Eu que devia dizer isso.

A frase acabou fazendo Kiba rir, gesto que Shino compreendeu como autorização para libertá-lo do abraço e permitir que se afastasse.

— Besta. Desculpa por esse... surto. To muito envergonhado agora — ele afirmou evitando encarar Shino. Sabia que os olhos vermelhos e inchados deviam ser algo de dar pena.

— Você precisa se lembrar que temos quase a mesma idade, eu também não sei lidar com certas coisas. Muito menos sou adivinho! Se não me disser o que te preocupa, se não houver diálogo entre a gente, essa relação nunca vai dar certo.

— Desculpa! Eu li numa revista...

— Não leia revistas — Shino cortou — Converse comigo. Eu estou aqui do seu lado, confiança é importante. E respeito, lembra?

— Lembro. É o meu jeito, tento fazer tudo certo e só bagunço mais as coisas.

Shino balançou a cabeça.

— Que droga de revista anda lendo pra nossa noite terminar assim?

— É uma revista de relacionamentos. Lá explica como os Alphas pensam em relação ao parceiro e como... — Kiba interrompeu a frase ao notar a tensão que mudou a postura do outro — Shino?

O rapaz analisou a face de Kiba por alguns segundos.

— Você pegou uma informação genérica sobre Alphas e associou a mim? Tem ideia de como isso é preconceituoso?

Kiba engoliu em seco. A pergunta soou um tanto feia...

— Mas você é um Alpha. Não dá pra ignorar — ao invés de assumir seu erro de presunção, Kiba tomou uma posição defensiva.

— Ser Alpha é parte de mim, mas não é tudo a meu respeito. Pensei que me conhecesse o bastante para saber disso. Somos amigos a anos, quando fiz algo contra você ou contra qualquer outro shifter, me escondendo na desculpa de ser Alpha? Não sou esse tipo de Alpha.

— Mas... — a argumentação morreu quando Shino ficou em pé, nitidamente irritado. Decepcionado.

— Não use o sistema de castas para justificar o seu preconceito. Não me coloque em um saco superficial e genérico de características. Por que sou um Alpha, sim, mas tenho valores e caráter. Nunca serei esse tipo de Alpha da sua revista — ele interrompeu o discurso e respirou fundo, tentando se acalmar — Não importa. Não gosto de resolver nada com a cabeça quente. Acho melhor dormir na sala essa noite.

Kiba apenas assistiu enquanto Shino saia do quarto e fechava a porta. Nunca pensou que algo que fizesse machucaria tanto ao outro! Não era preconceituoso, era? A questão o incomodou e o manteve acordado por toda a noite, com medo da resposta que encontraria.

No outro dia, Kiba saltou da cama muito cedo. Depois da noite péssima e mal dormida, só queria acertar as coisas com o segundo morador daquela casa.

Apesar do horário matutino, Shino já estava na cozinha trabalhando no café da manhã. A visão das costas largas e tensas, tirou-lhe um pouco da coragem. Não era do seu feitio magoar alguém que gostava, e refletir por toda a noite ajudara a clarear as coisas. Só não tornava mais fácil consertá-las.

— 'hayou — cumprimentou.

— Ohayou — a resposta não tardou, ainda que viesse um tanto seca.

Kiba engoliu saliva e foi sentar-se a mesa, cruzando os braços sobre o tampo de madeira. Abriu a boca para começar a falar, mas nenhum som escapou. Akamaru latiu lá fora e arranhou a porta pedindo para entrar, porém foi ignorado e desistiu rápido.

O silêncio pesado durou por mais duas tentativas falhas. Apenas na terceira vez Kiba encontrou força para dar voz aos fantasmas que assombraram sua noite.

— Você tem razão, Shino. Eu sou... eu fui preconceituoso. Nem percebi isso, mas não muda o fato de que fiz e disse besteira — quando a primeira palavra veio, trouxe as demais facilmente — Sinto muito.

O rapaz parou de mexer a panela e, ainda de costas, respondeu:

— Não sente mais do que eu. Ontem você acreditou que eu te forçaria a fazer algo que me desse satisfação sexual. Sabe qual o nome disso, Kiba? Estupro.

— Não! — Kiba ficou chocado pela conclusão.

— Não? — Shino virou-se para encará-lo — E que nome você daria? Usaria um termo camuflado como o do contrato de ontem? Sabe o que doeu mais? Perceber que andou do meu lado, assinou um vínculo e voltou para casa, o tempo todo alimentado a fantasia de que seria estuprado a noite. Tentei entender porque faria isso, mas não consegui.

Kiba ficou quieto. Como poderia rebater as acusações?

— Choro não é a resposta que eu esperava — Shino voltou a mexer a panela — Não sou o tipo de Alpha que se vale disso para abusar dos outros.

O garoto levou a mão ao rosto e tocou as lágrimas. Nem se dera conta do pranto silencioso. Secou com raiva, aborrecido consigo mesmo, com a situação, com tudo.

— E como é que eu devo agir nessa bosta de sociedade? Desde que nasci tenho que ouvir como é um saco ser um Ômega, como a gente só serve pra acalmar o ambiente, trazer equilíbrio e harmonia ao sistema! Ouvir as pessoas me dizendo que não adianta se esforçar, porque eu nunca vou ser mais forte do que ninguém da nossa turma, porque são Betas e automaticamente melhores do que eu! Me jogam na cara como os Alphas são reis da porra toda e ninguém pode questionar. Então sim, sou um preconceituoso de merda, mas a culpa não é minha!

— Fico feliz com a sinceridade. Vivemos numa sociedade ruim. Mas essa sociedade é feita de pessoas. Se as pessoas não mudam, a sociedade não muda. Você não pode aceitar o preconceito, ser conivente com ele e esconder a responsabilidade dizendo que não tem culpa. É muito cômodo aceitar pressupostos como verdades absolutas e papeis sociais como engessados e imutáveis. Me diga com sinceridade: é mais fácil acreditar que eu agiria como um "Alpha rei da porra toda" do que vir conversar comigo? Ou você não pode responder isso porque sequer tentou conversar?

— Sim — Kiba respondeu com má vontade.

Shino desligou o fogo e, pela segunda vez, virou-se para encarar o outro garoto.

— Sim o quê? — franziu as sobrancelhas.

— Tudo, caralho. Não sei que cara de pau você acha que eu tenho pra sentar aqui e falar sobre... pra falar de... conversar sobre... sobre aquilo!

Aburame respirou fundo. Analisou Kiba por alguns instantes, as olheiras, o rosto inchado e agora corado. Bagunça total.

— Sexo. Falar sobre sexo não é vergonhoso. Não deveria ser...

— Claro que é, descarado. Não sei como consegue isso, mas eu travo! Fico com vergonha! Pode me chamar de criança, mas é assim que eu sou. Não tenho a sua maturidade, nem sensatez. Cago em tudo, mas sem querer. Tava tentando fazer o certo ontem e acabei te magoando! Não quero que fique chateado comigo, prometo que não vou ler mais nenhuma revista, nem ser preconceituoso. Mas me perdoa, você é uma boa pessoa e eu nem sei mais do que to falando, vou estragar tudo de novo.

Shino suspirou, rendido. A raiva que sentia desapareceu por completo, só o que restou foi a aflição, embora não tivesse mais certeza se era dedicada ao garoto a sua frente, ou a sociedade em que viviam e os levara ao conflito atual. Talvez fosse uma amargura causada por tudo.

Acabou por sentar-se à mesa e esticar a mão para tocar a de Kiba por sobre a toalha que recobria o tampo de madeira.

— Preconceito não muda da noite pro dia, prometa apenas que vai tentar. E que vai fazer isso que fazemos agora, que vamos dialogar.

— Okay, você venceu. Mesmo que a minha cara se parta ou que ela derreta de vergonha, antes de pegar uma revista eu venho falar com você. Prometo.

Shino sorriu de leve, aliviado por conseguir chegar a um bom termo. Kiba parecia enxergar o erro cometido, o primeiro passo para uma relação totalmente saudável entre ambos. Fez menção de levantar-se para servir o café, mas Kiba o manteve preso pela mão. Notou que era a segunda vez que tal gesto se repetia.

— Me desculpa, Shino, de verdade. Eu nunca quis deixar você triste, ontem eu nem consegui dormir só de pensar em tudo o que aconteceu.

— Tudo bem — ele voltou a exibir um sorriso pequeno — Ser um casal dá mesmo trabalho...

— Nem brinca! Nunca chorei tanto na minha vida. Acho que Iruka sensei mentiu e que eu to virando mesmo uma garota. E uma bem chorona.

— Homens também choram. Não tem nada de errado nisso.

— E porque você não parece ter chorado?

Dessa vez o sorriso de Aburame foi maior.

— Vou corrigir a frase então — mas não chegou a formular a tal correção. Alguém bateu na porta da frente, surpreendentemente para uma manhã de domingo.

Shino foi atender e voltou alguns minutos depois, com um pergaminho na mão.

— São instruções do conselho. Eles estão reorganizando os times para realizar as missões. A partir de amanhã você e a Hinata estão afastados, Sakura também será afastada. Vou trabalhar com Naruto e Sasuke por um tempo.

Kiba ouviu aquilo e não disse nada.